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Círculo polar Nina

Rahe

Ana precisa manter os olhos abertos. Mal consegue. Conta até três, força as pálpebras, checa mais uma vez o celular. Última visualização, 01:15. Última mensagem, 30 de outubro de 2013, Ana, não tenho nada para te oferecer, me esquece. O barulho do ar condicionado incomoda. Não adiantou a conversa com a síndica. Está muito acima dos 60 decibéis, tem certeza. Os cílios não desgrudam mais, só descansará quando passar uma hora após a última conexão. Ele estará dormindo. Ninguém acordado fica mais de uma hora longe do celular. Ana dormirá também, quer muito, só que junto. Distrai-se pressionando a palma das mãos sobre o rosto. Impressionam os ossos. O corpo não para em pé. Desde que assumiu a forma de palito de fósforo, até o vento desequilibra. Apoia os cotovelos no colchão para ajudar a suspender o tronco, arrasta a bacia para trás, escorrega as pernas para fora da cama. Hesita. Um banho ajudará a acordar. Água quente, água morna, água fria, como na vida. Enrola-se na toalha e volta pingando. Depois do Oiac, a melhor coisa era deitar ainda molhada. Não mais. Palito de fósforo que se tornou, não aguenta confrontar o corpo nu, magro, ossudo. Nem Oiac gostaria.


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