69
Esta questão central, que me colocava repetidamente, mas quase ninguém então formulou, apenas encontraria resposta muitos dias depois, quando a DGS, ao dia 84 de monitorização da pandemia, veio admitir ter existido uma falha no registo de casos recuperados. Tal foi finalmente corrigido nesse mesmo dia, com o lançamento de uma só assentada de 9844 casos recuperados, correspondentes na sua maioria a pessoas que não foram registadas em tempo útil no sistema de monitorização. Ficava assim explicado o mistério da ausência de recuperados que tinha começado a identificar com sete semanas de avanço face ao dia em que a DGS corrigiu a falha do seu sistema de medição. Esta mesma falta de Qualidade dos dados e do correspondente sistema de monito-
Figura 1 Evolução diária do número de casos recuperados em Portugal de acordo com a DGS
18000 16000 14000 12000 10000 8000 6000 4000 2000
1 12 23 34 45 56 67 78 89 100 111 122 133 144 155 166 177 188 199 210 221 232 243 254 265 276 287
0
rização viria ainda assim a conhecer uma reincidência de pontos claramente “fora de controlo estatístico” em novembro, quando no dia 264 de acompanhamento da pandemia são lançados em sistema 17089 casos, na sua larga maioria casos que tinham ficado mais uma vez por registar quando verdadeiramente aconteceram. • Nunca é demasiado sublinhar a pertinência da escolha dos indicadores e KPI (Key Performance Indicator/indicador-chave de desempenho) mais adequados para monitorizar e acompanhar a evolução da pandemia. Aprendemos no mundo da Qualidade, indissociável da análise de dados, como é importante fazer benchmarking com base em indicadores que permitam comparar o que é efectivamente comparável, nomeadamente através da normalização de variáveis. Ora quando tanto se falou em “milagre português”, com base em números absolutos de casos de infecção, a minha atenção centrava-se numa análise comparada da realidade mundial, tendo em atenção uma métrica muito mais adequada, baseada no número de pessoas infectadas por habitante. Ora, de acordo com esta, nós aparecíamos quase sempre entre as 20-30 nações mundiais com pior desempenho relativo. A admiração com que bastante mais tarde muita gente viria a ficar, quando diversos países começaram a tomar decisões com base na prevalência da pandemia por milhar de habitantes (nomeadamente para autorizações da circulação de pessoas), não deveria então ter causado especial surpresa. Pois faz muito mais sentido utilizar este tipo de valores normalizados, tendo em consideração a escala e dimensão demográfica de cada território, do que uma comparação suportada em valores absolutos, que impossibilita comparações feitas com razoabilidade.
C R U Z A R P E N S A M E N TO S DA Q U A L I DA D E C O M A R E A L I DA D E PA N D É M I CA |
por Covid-19 devidamente comprovada passa a estar recuperado, na esmagadora maioria dos casos, passados entre 15 e 40 dias. Assim sendo, uma simples monitorização do número de casos registados em Portugal, quando comparados com os valores de casos recuperados, permitia constatar de forma crescentemente intrigante, a partir dos dias 40-50 de evolução da pandemia, que havia uma pergunta que importaria fazer, com base em princípios básicos da Qualidade, mas que quase ninguém então colocou: Como estava a ser possível nos registos da DGS não encontrar números minimamente razoáveis de pessoas recuperadas, face ao total de casos de infectados que foram contabilizados 15 a 40 dias antes (Figura 1)?