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Carolina Vidal Ferreira

Design Gráfico na Vanguarda Paulista Análise de peças gráficas do Lira Paulistana, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo e Premê


Carolina Vidal Ferreira Design gráfico na Vanguarda Paulista: análise de peças gráficas do Lira Paulistana, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo e Premê.

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Senac, como exigência parcial para obtenção do grau de pós-graduada em Design Gráfico.

Orientador Prof. Ms. Henrique Nardi de Azevedo

São Paulo 2014

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Ferreira, Carolina Vidal F383d Design gráfico na Vanguarda Paulista: análise de peças gráficas do Lira Paulistana, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo e Premê / Carolina Vidal Ferreira – São Paulo, 2014. 80 f. : il. Color. : 25 cm Orientador: Prof. Ms. Henrique Nardi de Azevedo Trabalho de Conclusão de Curso – Centro Universitário Senac – Unidade Lapa Scipião, São Paulo, 2014. 1.Design gráfico 2. Design pós-moderno 3. Música. I. Ferreira, Carolina Vidal (autor) II. Henrique Nardi de Azevedo (oriente.) III. Design gráfico na Vanguarda Paulista: análise de peças gráficas do Lira Paulistana, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo e Premê. Título.

CDD 741

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Ao meu amor, à minha família e ao meu tio que me apresentou à música do Rumo.

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Agradecimentos

Ao meu orientador Henrique Nardi.

A Riba de Castro por sua simpatia e gentileza em ter cedido e emprestado material sobre o Lira Paulistana.

Aos grupos Rumo, Premê, Arrigo Barnabé e banda, à Isca de Polícia e Itamar Assumpção (in memoriam),

Aos meus colegas.

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"A felicidade do homem ĂŠ uma felicidade guerreira. Viva a rapaziada! O gĂŞnio ĂŠ uma longa besteira!"

Oswald de Andrade

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Resumo

O tema desta pesquisa é o design gráfico no movimento musical ocorrido nos anos 1980, em São Paulo, intitulado Vanguarda Paulista. Foram analisadas peças gráficas produzidas no teatro Lira Paulistana e capas de discos dos músicos Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção e dos grupos Rumo e Premê. A partir destas análises, procurou-se investigar se a liberdade de expressão, bom humor e iniciativa de produção independente foi refletida nas peças gráficas da Vanguarda Paulista e se a comunicação visual traduzia graficamente a diversidade e ineditismo dos conceitos artísticos implícitos na produção destes músicos. Com base em uma pesquisa bibliográfica de teóricos das áreas do design, da história e da música e relatos de quem presenciou o movimento, foi possível identificar elementos visuais que confirmassem estas hipóteses, bem como descrever as especificidades de cada trabalho autoral.

Palavras-chave: 1. Design gráfico. 2. Capas de disco. 3. Vanguarda Paulista. 4. Lira Paulistana. 5. Design pós-moderno.

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Abstract

This research’s theme is the graphic design in the musical movement that occured in the 1980s, in São Paulo, entitled Vanguarda Paulista. We analyzed graphic works produced by Lira Paulistana theater and album covers of the musicians Arrigo Barnabé and Itamar Assumpção and of the groups Rumo and Premê. Through these analyzes, we investigated whether the freedom of expression, humor and the initiative of independent production were reflected in the graphic works of the Vanguarda Paulista movement, and if the visual communication reflected the diversity and originality of artistic concepts implicit in the production of these musicians. Based on a literature survey of theoreticians from the areas of design, history and music and speeches of those who witnessed the movement, it was possible to identify visual elements to confirm these hypotheses and to describe the specific characteristics of each author’s work.

Keywords: 1. Graphic Design 2. Album covers. 3. Vanguarda Paulista. 4. Lira Paulistana. 5. Postmodern Design.

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Lista de figuras Fig. 1.

Teatro Lira Paulistana. Foto: Cláudio Versiani.

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Fig. 2.

1982. Aniversário da cidade de São Paulo. Show na Praça Benedito Calixto promovido pelo Lira Paulistana. Foto: Riba de Castro.

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Fig. 3.

1983. Aniversário da cidade de São Paulo. Show promovido pelo Lira Paulistana. Foto: Gloria Flügel. Cartaz: Riba de Castro.

15

Fig. 4.

Festival “São Paulo Também Tem Rock” - Teatro do Lira Paulistana, 1984.

16

Fig. 5.

Grupo Rumo. Foto: Gal Oppido.

19

Fig. 6.

1983. Grupo Rumo em apresentação na avenida Paulista. Foto: Glória Flügel.

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Fig. 7.

Rumo (1981)

22

Fig. 8.

Rumo aos antigos (1982) 

22

Fig. 9.

Diletantismo (1983, Lira Paulistana/Continental)

22

Fig. 10.

Caprichoso (1986, Independente)

22

Fig. 11.

Quero passear (1988, Palavra Cantada)

22

Fig. 12.

O sumo do Rumo - coletânea (1989, Eldorado)

22

Fig. 13.

Rumo ao vivo (1991, Camerati)

22

Fig. 14.

Sopa de concha (2010, Biscoito Fino)

22

Fig. 15.

Box com relançamentos dos discos do Rumo.

22

Fig. 16.

Arrigo Barnabé. 

23

Fig. 17.

O Neurótico e As Histéricas: Maria Beraldo Bastos, Mariá Portugal, Arrigo Barnabé, Anna Tréa e Ana Karina Sebastião.

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Fig. 18.

Nova formação de Clara Crocodilo

26

Fig. 19.

Clara Crocodilo (1980, Independente)

27

Fig. 20.

Tubarões Voadores (1984, Ariola)

27

Fig. 21.

Cidade Oculta (1986, Barclay)

27

Fig. 22.

Suspeito (1987, 3M)

27

Fig. 23.

Façanhas (1992, Camerati)

27

Fig. 24.

Ed Mort (1997, Rob Digital)

27

Fig. 25.

Gigante Negão (1998, Núcleo Contemporâneo)

27

Fig. 26.

A Saga de Clara Crocodilo (1999, Tranx God Records)

27

Fig. 27.

Missa in memoriam-Itamar Assumpção (2006, Thanx God Records/Tratore)

27

Fig. 28.

Itamar Assumpção.

28

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Fig. 29.

Itamar Assumpção acompanhado das cantoras Virgínia Rosa, Vânia Bastos e Suzana Salles no palco do Lira.

28

Fig. 30.

Box Caixa Preta. Itamar Assumpção - 12 CDs, Selo Sesc SP, 2010.

30

Fig. 31.

2013. Banda Isca de Polícia.

30

Fig. 32.

Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana)

31

Fig. 33.

Às próprias custas S.A. (1983, Independente)

31

Fig. 34.

Sampa midnight - Isso não vai ficar assim (1986, Independente)

31

Fig. 35.

Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava (1988, Atração Fonográfica)

31

Fig. 36.

Bicho de 7 cabeças. Itamar Assumpção (1993, Baratos Afins)

31

Fig. 37.

Bicho de 7 cabeças vol. II - (1993)

31

Fig. 38.

Bicho de 7 cabeças vol. III (1993)

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Fig. 39.

Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - Pra sempre agora (1996, Paradoxx Music)

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Fig. 40.

Pretobras - Por que eu não pensei nisso antes... (1998, Atração Fonográfica)

31

Fig. 41.

Vasconcelos e Assumpção - Isso vai dar repercussão (2004, Elomusic)

31

Fig. 42.

Pretobras - Por que eu não pensei nisso antes... (1998, Atração Fonográfica)

31

Fig. 43.

Vasconcelos e Assumpção - Isso vai dar repercussão (2004, Elomusic)

31

Fig. 44.

1983. Premê no show da Av. Paulista promovido pelo Lira Paulistana.

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Fig. 45.

Reunião do Premê para apresentações em 2014.

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Fig. 46.

Premeditando o breque (1981, Spalla)

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Fig. 47.

Pinga Com Limão/O Destino Assim O Quiz (1982, Lira Paulistana)

34

Fig. 48.

Quase lindo (1983, Lira Paulistana/Continental)

34

Fig. 49.

O melhor dos iguais (1985, EMI-Odeon)

34

Fig. 50.

Dê folga ao seu programador (1986, Emi-Odeon)

34

Fig. 51.

Grande coisa (1986, EMI-Odeon)

34

Fig. 52.

Alegria dos homens (1991, Eldorado)

34

Fig. 53.

Premê vivo (1996, Velas)

34

Fig. 54.

1982. Mural do Lira Paulistana. Arte: Edith Derdyk.

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Fig. 55.

Edição 0 Jornal Lira Paulistana

37

Fig. 56.

Edição 1 Jornal Lira Paulistana

37

Fig. 57.

1981: Rumo. Capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

39

Fig. 58.

1981: Rumo. Contra-capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

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Fig. 59.

1981: Rumo aos Antigos. Capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

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Fig. 60.

1981: Rumo aos Antigos. Contracapa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

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Fig. 61.

1983: Diletantismo. Capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Ilustrações: Edith Derdyk. 31x 31 cm

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Fig. 62.

1981: Diletantismo. Contracapa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Ilustrações: Edith Derdyk. 31x 31 cm

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Fig. 63.

1981: Rumo no MASP. Cartaz. Projeto gráfico: Riba de Castro.

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Fig. 64.

1980: Clara Crocodilo. Contracapa. Projeto gráfico: Luiz Gê. 31 x 31 cm. 49

Fig. 65.

1980: Clara Crocodilo. Capa. Projeto gráfico: Luiz Gê. 31 x 31 cm. 49

Fig. 66.

1980: Clara Crocodilo. Encarte. Projeto gráfico: Luiz Gê. 62 x 31 cm. 50

Fig. 67.

1984: Tubarões Voadores. Capa. Projeto gráfico: Luiz Gê. 31 x 31 cm. 51

Fig. 68.

1984: Tubarões Voadores. Rótulo e contracapa. Projeto gráfico: Luiz Gê. 

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Fig. 69.

Esquadrilha aérea Tigres Voadores. 

53

Fig. 70.

1984: Tubarões Voadores. Páginas do encarte. Projeto gráfico: Luiz Gê. 

53

Fig. 71.

1980: Beleléu, Leléu, Eu. Capa. Arte: Carlos Palma. Produção Gráfica: Nelson Rentero. 31x 31 cm. 54

Fig. 72.

1980: Beleléu, Leléu, Eu. Contracapa. Arte: Carlos Palma. Produção Gráfica: Nelson Rentero. 31x 31

Fig. 73.

1980: Beleléu, Leléu, Eu. Encarte. Arte: Carlos Palma. Produção Gráfica: Nelson Rentero. 31x 21 cm. 56

Fig. 74.

1981: Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia. Cartaz. Projeto Gráfico: Riba de Castro. 57

Fig. 75.

1982: Pinga com Limão. Capa. Projeto gráfico: Mané Young.

59

Fig. 76.

1982: Pinga com Limão. Rótulo. Projeto gráfico: Riba de Castro.

59

Fig. 77.

1982: Pinga com Limão. Encarte. Projeto gráfico: Riba de Castro. Ilustrações: Glauco.

59

Fig. 78.

1985: O Melhor dos Iguais. Capa: Projeto gráfico: Guto Lacaz. Fotografia: Jorge Rosenberg. 31 x 31 cm.

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Fig. 79.

1985: O Melhor dos Iguais. Contracapa: Projeto gráfico: Guto Lacaz. Fotografia: Jorge Rosenberg. 31 x 3

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Fig. 80.

Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana) - detalhe

62

Fig. 81.

Rumo. (1981, Lira Paulistana) - detalhe

62

Fig. 82.

Pinga com Limão (1982, Lira Paulistana) - detalhe

62

Fig. 83.

Clara Crocodilo. (1980, Independente) - detalhe

62

Fig. 84.

Diletantismo. (1983, Lira Paulistana) - detalhe

62

Fig. 85.

Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana) - detalhe

63

Fig. 86.

Clara Crocodilo. (1980, Independente) - contracapa

63

Fig. 87.

Tubarões Voadores (1984, Ariola) - capa do encarte

63

Fig. 88.

Rumo. (1981, Lira Paulistana) - capa

63

Fig. 89.

Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana) - contracapa

63

Fig. 90.

O melhor dos iguais (1985, EMI-Odeon) - contracapa

63

55

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Sumário

1. Introdução 

13

Itamar Assumpção

2. Lira Paulistana 

14

Premê58

1ª fase – origens e Vanguarda Paulista

14

2ª fase – Rock Independente

16

3. Vanguarda Paulista 

17

Características das letras e temáticas

18

Características musicais

18

4. Grupos selecionados 

18

Rumo19 Arrigo Barnabé

23

Itamar Assumpção

28

Premê (Premeditando o Breque)

32

5. O design gráfico nos anos 1980 

35

O contexto brasileiro

37

6. Análise das peças gráficas 

38

Rumo38 Arrigo Barnabé

12

47

54

Considerações finais

61

7. Conclusão 

64


1. Introdução

O tema desta pesquisa é o design gráfico no movimento musi-

Para essa reflexão, foram utilizados autores da área da música

cal ocorrido nos anos 1980, em São Paulo, intitulado Vanguarda

como: Regina Machado e André Cavazotti; da história: Laerte

Paulista. Foram analisadas peças gráficas produzidas no teatro Lira

Oliveira, Daniela Ghezzi; do design: Chico Homem de Melo e

Paulistana e capas de discos dos músicos Arrigo Barnabé e Itamar

Elaine Ramos, João Gomes Filho, Phillip Meggs, Rick Poynor,

Assumpção e dos grupos Rumo e Premê. A partir destas análises

além do livro e DVD lançados por Riba de Castro (um dos sócios

procura-se investigar as seguintes hipóteses: 1) a liberdade de

fundadores do Lira Paulistana).

expressão, bom humor e iniciativa de produção independente foi refletida nas peças gráficas da Vanguarda Paulista?; 2) a comunicação visual traduzia graficamente a diversidade e ineditismo dos conceitos artísticos implícitos na produção destes músicos?

A monografia está dividida em 7 capítulos: 1. Introdução; 2. Lira Paulistana; 3. Vanguarda Paulista; 4. Grupos selecionados; 5. O design gráfico nos anos 1980; 6. Análise das peças gráficas e 7. Conclusão. No capítulo Lira Paulistana há uma contextualização

O trabalho busca também descrever e compreender o contexto,

histórica sobre o que foi este multidisciplinar centro cultural,

especificidades em que foram produzidas estas peças gráficas e

teatro, editora e gravadora e as pessoas envolvidas. No capítu-

suas influências na produção atual de design para música. Dessa

lo Vanguarda Paulista discute-se os conceitos que agrupavam

forma, realizar uma documentação crítica e histórica do acervo

artistas tão singulares neste movimento ocorrido nos anos 1980

de peças gráficas relacionadas à musica da Vanguarda Paulista

em São Paulo, que teve como principal palco e plataforma de

em São Paulo, entre os anos de 1980 a 1985.

apresentações o teatro Lira Paulistana. O capítulo Grupos sele-

As publicações existentes sobre o Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista se concentram na questão musical e na produção independentes de discos e seus desdobramentos político-sociais. Diferentemente, a proposta desta pesquisa é o aprofundamento na questão da identidade visual, capas de discos e design gráfico fomentado neste espaço.

cionados traz um breve histórico de cada grupo analisado nesta pesquisa: Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo e Premê. Na seção seguinte, O design gráfico nos anos 1980 há uma reflexão sobre o design pós-moderno e suas características. Por fim, no capítulo 6 são analisadas as peças gráficas seguidas da conclusão do trabalho no capítulo 7.

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2. Lira Paulistana O Teatro Lira Paulistana foi idealizado e criado em outubro de 1979, por Wilson Souto Jr. e Waldir Galeano. Instalado na Praça Benedito Calixto, na Rua Teodoro Sampaio 1091, no bairro de Pinheiros na Zona Oeste de São Paulo, o teatro funcionava em um porão com arquibancadas de madeira, com capacidade para cerca de 150 lugares. Durante a produção do primeiro LP da gravadora do Lira, Galeano deixou o grupo e acrescentaram-se aos sócios Plínio Chaves, Chico Pardal (iluminador), Fernando Alexandre Guimarães Silva (editor do Jornal do Lira) e Riba de Castro (artista plástico e responsável pelo material gráfico e divulgação). A história do Lira Paulistana pode ser dividida em duas fases. Segue abaixo alguns marcos importantes, segundo Oliveira (2002):

Fig. 1. Wilson, Riba, Plínio, Eduardo, Fernandinho (em pé), Fernando, Alexandre, Marcia Uciama, Chico, Norberto e Tiago Araripe na porta do Teatro Lira Paulistana. Foto: Cláudio Versiani.

1ª fase – origens e Vanguarda Paulista 1979

· É fundado, em 25 de outubro, o teatro Lira Paulistana, com a apresentação do musical Fogo Paulista, dirigido por Mario Masetti. O nome “Lira Paulistana” foi uma sugestão de Mario como homenagem à obra homônima de Mário de Andrade de 1946.

1980

· É fundada a Lira Paulistana Gravadora e Editora. Itamar Assumpção é convidado para inaugurar a mini gravadora lançando seu primeiro LP Beleléu, Leléu, Eu.

1981

· Entre julho e agosto, acontece o Projeto Virada Paulista, festival de música independente que reuniu 42 grupos e teve organização do Lira Paulistana.

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· É lançado o número zero do Jornal Lira Paulistana. O jornal teve 12 edições até fevereiro de 1982. Foi um tabloide semanal de roteiros e serviços, com tiragem de 30 mil exemplares.

1982

· Ocorre em 25 de janeiro, no aniversário da cidade de São Paulo a “Festa da Praça” com patrocínio da US Top e colaboração da Secretaria Municipal da Cultura. Apresentaram-se Premê, Rumo, Tetê e Jorge Mautner.

Fig. 2. 1982. Aniversário da cidade de São Paulo. Show na Praça Benedito Calixto promovido pelo Lira Paulistana. Foto: Riba de Castro.

· Fundado o Circo Voador no Rio de Janeiro. Através do Lira Paulistana começa a ocorrer um intercâmbio de artistas entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Fig. 3. 1983. Aniversário da cidade de São Paulo. Show promovido pelo Lira Paulistana. Foto: Gloria Flügel. Cartaz: Riba de Castro.

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2ª fase – Rock Independente

Fig. 4. Festival “São Paulo Também Tem Rock” - Teatro do Lira Paulistana, 1984.

1983

· Nos quatro primeiros meses do ano, o Lira Paulistana realiza em seu teatro o Projeto Boca no Trombone, totalmente dedicado a trabalhos novos. Dos 315 inscritos, participam do projeto 28 trabalhos de compositores, intérpretes ainda inéditos em disco, que durante 14 semanas realizam temporadas no Lira. No projeto despontam os Titãs e o Ultraje a Rigor.

· O Lira passa a funcionar como núcleo de produção da gravadora Continental.

· O Rumo se apresenta no Rio de Janeiro. Para a surpresa do grupo muitas músicas são conhecidas pelo público graças à veiculação do seu trabalho pela Rádio Fluminense FM.

1984

· Fim do acordo Lira-Continental.

1985

· Gravação ao vivo no teatro Lira Paulistana do disco das bandas punk Cólera e Ratos do Porão.

1986

· Fechamento do Teatro Lira Paulistana.

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3. Vanguarda Paulista O termo “Vanguarda Paulista” apareceu primeiramente na imprensa para denominar um grupo de artistas que se apresentavam, produziam e distribuíam seu trabalho de forma independente e que encontraram no Teatro Lira Paulistana além de um espaço de apresentação, e mais tarde uma gravadora e distribuidora de discos independentes, um local para intercâmbio cultural. A denominação Nova Música Paulista aparece pela primeira vez na imprensa em 1979, quando Arrigo Barnabé e o grupo Premeditando o Breque foram premiados no Festival de Música Universitária da TV Cultura, de São Paulo. Também chamada de Vanguarda Paulista, congregou, segundo os críticos e a imprensa, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Língua de Trapo, Premeditando o Breque, Rumo e Hermelino Football Music.1

Segundo Machado (2007), além do Lira Paulistana, os artistas da Vanguarda Paulista também se apresentavam em outros espaços, como o Museu da Imagem e do Som (MIS), o Museu de Arte de São Paulo (MASP), o Teatro do Bixiga e o campus da USP com shows ao ar livre. Após o fechamento do Lira Paulistana, o recém inaugurado Sesc Pompeia também acolheu apresentações dos artistas chamados “alternativos”. Sobre o termo Vanguarda Paulistana, Luiz Tatit, fundador do grupo Rumo, afirmou, em declaração publicada em matéria de Carlos Calado no site Cliquemusic em 7/8/2000, por ocasião da série de shows comemorativos dos 21 anos de fundação do teatro Lira Paulistana: “Para mim, é um rótulo parecido com outros, como Rock dos 80, que veio de fora para dentro. Não prejudicou, nem acrescentou nada. Eu vejo claramente uma unidade, não de um movimento musical, mas na regularidade de um fator: a presença da fala na música. O Itamar fazia um verdadeiro reggaede-breque. E o Arrigo usava locuções radiofônicas”.2

Após a escuta de diversos fonogramas, foi possível listar as seguintes características presentes nas obras dos principais expoentes do movimento: Rumo, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e Premeditando o Breque (Premê).

1 PIRES, 1992 apud MACHADO, 2007. 2 Dicionário Cravo Albin. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br/vanguarda-paulistana/dados-artisticos>. Acesso em: 25 de agosto de 2014.

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Características das letras e temáticas a) Canto falado: uso da prosódia da fala, entoações e locuções radiofônicas. b) Temática urbana: fala-se sobre a vida na cidade, principalmente em São Paulo. Cidade caótica, pós-moderna. Paulistano que vai para a Praia Grande e chove. Exemplos3: Premê – “Fim de Semana”; Itamar Assumpção “Embalos”; Rumo – “Pro Bem da Cidade”; Premê – “São Paulo, São Paulo”. c) Personagens urbanos: eu líricos com suas neuroses, manias, distúrbios, vícios. Exemplos: o álbum Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé e as músicas “Bem Alto” e “Dia Útil” do Rumo. Itamar Assumpção criou o personagem marginal Nego Dito no álbum Beleléu, Leléu, Eu. d) Submundo, histórias em quadrinhos: exemplos no álbum Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé e no álbum Beleléu, Leléu, Eu de Itamar Assumpção. e) Humor, ironia: um contraponto com a seriedade dos compositores da MPB dos anos 70. Fazer crítica sem ser “chato”. Exemplos: Premê e Rumo. f) Política: o Brasil saindo da ditadura. Exemplos na canção “Bem Baixinho” do Rumo. g) Pobreza, situação econômica do Brasil. Exemplos na música do Premê “Balão Trágico”. h) Meta-canção, dificuldades da produção independente: exemplo nas músicas “Salve a Vítima” e “Release” do álbum Caprichoso do Rumo e “Canção Bonita”.

Características musicais • Dissonâncias, harmonias complexas, dodecafonia. • Diálogo com as vanguardas eruditas estudadas com aprofundamento no curso de música da ECA-USP. • Mistura com rock, pop, reggae, rap (Itamar Assumpção).

4. Grupos selecionados Com o objetivo de concentrar a pesquisa e enriquecer em detalhes a análise gráfica e o cruzamento das características visuais e musicais, optamos por selecionar quatro grupos que foram mais emblemáticos 3

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Letras das músicas disponíveis na seção Anexos deste trabalho.


durante o período da Vanguarda Paulista. São eles: Rumo, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Premê (Premeditando o Breque). Como alunos da Escola de Comunicações e Artes da USP, famosa pelo ensino de música erudita, tanto Arrigo Barnabé quanto Luiz Tatit e alguns dos integrantes do Premê (Premeditando o Breque), ao partirem para uma produção em música popular, puderam levar para esse ambiente de criação elementos estranhos a ele. Promovendo uma intersecção entre códigos da música erudita com a música popular, criaram um terceiro espaço para abrigar essa música que resultaria da fusão da academia com a rua. (MACHADO, 2007, pp. 43-44).

Rumo4

Fig. 5. Grupo Rumo. Foto: Gal Oppido.

4 As biografias dos grupos são adaptações de textos de releases e do site Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br>. Acesso em: 15 de setembro de 2014.

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O Grupo Rumo foi formado em 1974, em São Paulo, por Luiz Tatit, Ná Ozzetti, Hélio Ziskind, Akira Ueno, Paulo Tatit, Ciça Tuccori, Pedro Mourão, Gal Oppido, Zecarlos Ribeiro e Geraldo Leite. A partir de 1985, Ciça Tuccori deixa a formação e integram-se ao grupo os músicos Ricardo Breim e Fábio Tagliaferri. Desde sua origem, o Rumo possuía como proposta produzir canções com tratamento diferenciado em termos de composição e de arranjo, ressaltando as entoações da fala cotidiana nas composições e o papel da instrumentação valorizando a linha principal do canto nos arranjos. A partir de 1977, o grupo iniciou uma atividade paralela de recriação interpretativa de obras de sambistas do começo do século XX, elegendo principalmente aquelas menos divulgadas de compositores como Noel Rosa, Lamartine Babo, Sinhô e outros. Dessa pesquisa saiu, em 1981, dois LPs independentes, lançados simultaneamente Rumo e Rumo aos Antigos. Apesar da dificuldade de distribuição, atingiram a casa das 20 mil cópias vendidas com dois prêmios outorgados pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes): “Melhor Grupo Vocal” e “Melhor Grupo Instrumental” de 1981. Em 1983, o Rumo lança Diletantismo, seu terceiro LP, continuando as experiências dos trabalhos anteriores e encontrando grande recepção em rádios de São Paulo e Rio de Janeiro com a canção “Ladeira da Memória”. Em 1985, o grupo lança Caprichoso, o quarto LP, que mais uma vez surpreende críticos e público. Neste álbum as canções estão mais amadurecidas e comunicativas sem, no entanto, perderem o caráter experimental peculiar ao grupo. Este disco contém “Delírio, meu!” e o samba enredo “Release” que conta a história do próprio grupo. Em 1988, o Rumo lança, pelo selo Eldorado, o tão anunciado disco infantil: Quero Passear. Recebe, por esse trabalho, mais dois prêmios, desta vez concedidos pela SHARP: “Melhor disco infantil de 1988” e “Melhor canção infantil” com a música: “A noite no castelo”. Em 1989, o selo Eldorado apresenta uma antologia dos melhores momentos do grupo, lançando na praça o LP O Sumo do Rumo.

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Fig. 6. 1983. Grupo Rumo em apresentação na avenida Paulista. Foto: Glória Flügel.

Em 1990, o Rumo retorna à cena com um show inteiramente novo, apresentando-se em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. No ano seguinte, o grupo reúne suas composições mais recentes para a apresentação e gravação de um CD ao vivo no Teatro do Sesc Pompeia. Este último trabalho, Rumo ao Vivo, foi lançado pelo novo selo Camerati, no segundo semestre de 1992, e conquistou, mais uma vez, o prêmio outorgado pela APCA como o melhor grupo do ano. A partir de então o Rumo suspendeu as atividades e seus integrantes seguiram com suas carreiras de músicos, compositores ou profissionais da área cultural. Em outubro de 2003, por iniciativa do músico Paulo Tatit e do Selo Palavra Cantada, foram digitalizados e remasterizados todos os discos do Rumo para serem redistribuídos pela Distribuidora Trama.

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Discografia

Fig. 7. Rumo (1981)

Fig. 8. Rumo aos antigos (1982)

Fig. 9. Diletantismo (1983, Lira Paulistana/Continental)

Fig. 10. Caprichoso (1986, Independente)

Fig. 11. Quero passear (1988, Palavra Cantada)

Fig. 12. O sumo do Rumo coletânea (1989, Eldorado)

Fig. 13. Rumo ao vivo (1991, Camerati)

Fig. 14. Sopa de concha (2010, Biscoito Fino)

Em abril de 2013, o Rumo se apresentou no Teatro da Livraria Cultura da Av. Paulista em função do lançamento do box com o relançamento dos discos pela gravadora Dabliú.

Fig. 15. Box com relançamentos dos discos do Rumo.

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Arrigo Barnabé

Fig. 16. Arrigo Barnabé.

Arrigo atualiza o tropicalismo e vai além ao modificar a estrutura da linguagem musical: essa foi sua grande revolução. Em nenhum outro compositor popular brasileiro o entrecruzamento entre o erudito e o popular se deu de forma mais intensa. É na obra deste artista singular que a linguagem da música popular brasileira sofre uma nova transformação radical ao sair do campo tonal e modal e incorporar as inovações que aconteceram na música erudita do início do século XX. Com Arrigo a polirritmia, o serialismo, o atonalismo e o dodecafonismo pedem passagem e ingressam na MPB escandalizando os ouvidos tradicionais e desestabilizando os sentidos acostumados à fruição tranqüila da música convencional. Nada será como antes. 5

5 NEGREIROS, E. “Arrigo Barnabé: labirinto e mirante” (Revista Piauí). Disponível em: <http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/ questoes-musicais/geral/arrigo-barnabe-labirinto-e-mirante>. Acesso em: 16 de setembro de 2014.

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Arrigo Barnabé nasceu em 14/9/1951, em Londrina, PR. Embora paranaense, é considerado o compositor mais importante do que se convencionou chamar de Vanguarda Paulista. Desse movimento também se destacariam Vânia Bastos e Itamar Assumpção, que o acompanharam em diversas ocasiões. Em 1979, ganhou o 1º lugar no I Festival Universitário de MPB (TV Cultura), com a canção “Diversões eletrônicas” (Arrigo Barnabé e Lourdes Regina Porto). Em 1980, lançou de forma independente seu primeiro LP, Clara Crocodilo, disco no qual mescla o rock com arranjos dodecafônicos e atonais da música erudita. Concebido com uma unidade temática, as canções narram a história de Clara Crocodilo, monstro criado a partir de uma experiência de laboratório. Em 1983, aproveitou novamente o tema para compor “A saga de Clara Crocodilo”, para ser executada pela Orquestra Sinfônica Juvenil do Estado de São Paulo e por grupo de rock. A partir desse mesmo ano, começou uma bem sucedida carreira de autor de trilhas sonoras para filmes. Logo na sua estreia foi premiado no Festival de Gramado pela música do filme “Janete”, de Chico Botelho. Em 1984, lançou o LP Tubarões Voadores, selecionado como um dos melhores do ano pela revista francesa “Jazz Hot”. Em 1985, no Riocine Festival, destacou-se com a música para o filme “Estrela nua”, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins. Este fato se repetiria no ano seguinte, dessa vez com a trilha sonora de “Cidade oculta”, filme de Chico Botelho, no qual o compositor participou também como ator. Seguiram-se outros prêmios, como o do Festival de Brasília, em 1987, com a trilha de “Vera”, filme de Sérgio Toledo, e o do Festival de Cinema de Curitiba, com a música para “Lua cheia”, filme de Alain Fresnot. Nesse mesmo ano, gravou o LP “Suspeito”. Em 1991, excursionou pelo país com Itamar Assumpção e, dois anos depois, apresentou-se na Alemanha, na casa de shows berlinense Podenville. Ao longo da década de 1990, compôs para quartetos de cordas e peças para a Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo. Gravou, em 1992, o CD “Façanhas”. Dois anos depois, a orquestra acompanhada por um grupo de rock apresentou sua peça “Nunca conheci quem tivesse levado porrada”, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

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Em 1995, participou do I Festival de Jazz e Música Latino-Americana, na cidade de Córdoba, Argentina, e apresentou outra peça, dessa vez no Teatro Municipal de São Paulo, intitulada “Música para dois pianos, percussão, quarteto de cordas e banda de rock”. A apresentação foi feita por um quarteto de cordas, um quinteto de percussão - no qual tocava - e pela banda de rock pesado Patife Band, de seu irmão Paulo Barnabé. Em 1996, apresentou-se com a cantora Tetê Espíndola no Centro Cultural São Paulo e participou da série “Encontros notáveis”, promovida pelo Teatro Rival, em duo com o pianista Paulo Braga. No ano seguinte, compôs para a trilha sonora do filme “Ed Mort”. Lançou, em 1998, o CD “Gigante Negão”, gerado pelo espetáculo homônimo apresentado, oito anos antes, na casa paulistana Palace, com a participação de Mario Manga (ex-Premeditando o Breque) e Itamar Assumpção. Em 1999, lançou o CD “A saga de Clara Crocodilo”. Montou em 2001 a ópera “O Homem dos Crocodilos - Um caso clínico em dois atos”, em parceria com o dramaturgo argentino Alberto Muñoz. Lançou, em 2006, celebrando o parceiro, falecido em 2003, o CD “Missa in memoriam - Itamar Assumpção”, contendo cinco faixas em latim, “Kyrie”, “Gloria”, “Credo”, “Sanctus” e “Agnus Dei”, com arranjos de Tiago Pinheiro, seguindo o ritual ortodoxo da Igreja Católica. Em 2013, Arrigo Barnabé monta uma nova banda para revisitar o trabalho de Hermelino Neder, um quarteto só de mulheres: Mônica Agena, depois substituída por Anna Tréa (guitarra), Mariá Portugal (bateria), Ana Karina Sebastião (baixo) e Maria Beraldo Bastos (clarinete) intitulado O Neurótico e as Histéricas. As três últimas musicistas também estão na nova versão de Clara Crocodilo que Arrigo vem apresentando junto com Joana Queiroz (clarone), Mario Manga (guitarra) e Paulo Braga (piano e teclados).

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Fig. 17. O Neurótico e As Histéricas: Maria Beraldo Bastos, Mariá Portugal, Arrigo Barnabé, Anna Tréa e Ana Karina Sebastião.

Fig. 18. Nova formação de Clara Crocodilo: Mariá Portugal, Maria Beraldo Bastos, Mario Manga, Arrigo Barnabé, Paulo Braga, Joana Queiroz e Ana Karina Sebastião.

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Discografia

Fig. 19. Clara Crocodilo (1980, Independente)

Fig. 20. Tubarões Voadores (1984, Ariola)

Fig. 21. Cidade Oculta (1986, Barclay)

Fig. 22. Suspeito (1987, 3M)

Fig. 23. Façanhas (1992, Camerati)

Fig. 24. Ed Mort (1997, Rob Digital)

Fig. 25. Gigante Negão (1998, Núcleo Contemporâneo)

Fig. 26. A Saga de Clara Crocodilo (1999, Tranx God Records)

Fig. 27. Missa in memoriam-Itamar Assumpção (2006, Thanx God Records/Tratore)

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Itamar Assumpção

Fig. 28. Itamar Assumpção.

Fig. 29. Itamar Assumpção acompanhado das cantoras Virgínia Rosa, Vânia Bastos e Suzana Salles no palco do Lira.

Itamar Assumpção nasceu em Tietê, SP, no dia 13/09/1949. Aos 12 anos mudou-se para Arapongas (PR), onde estudou contabilidade, abandonando o curso para atuar em teatro e shows em Londrina. Nesta cidade conheceu Arrigo Barnabé. Autodidata no violão, apaixonou-se pelo baixo ouvindo os discos de Jimi Hendrix. Mudou-se para São Paulo em 1973. Em 1975, venceu um festival de música em Campinas com sua canção “Luzia” e participou do Festival da Feira da Vila, em Vila Madalena, com sua composição “Nego Dito”. Integrou a Vanguarda Paulista, formada no Teatro Lira Paulistana, ao lado de Arrigo Barnabé e da banda Sabor de Veneno. Em 1979, apresentou no Festival de Música Popular, o último realizado pela extinta TV Tupi, a canção “Sabor de Veneno”, ao lado de Arrigo Barnabé. Misturando samba, reggae, funk e rock, lançou, nos anos 1980, acompanhado da banda Iscas de Polícia, os LPs Beleléu, Leléu, eu (Lira Paulistana, 1980), Às próprias custas S. A. gravado ao vivo na Sala Guiomar Novaes (Independente, 1983), Sampa midnight - Isso não vai ficar assim (Independente, 1986) e Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava (Atração Fonográfica, 1988). Em 1987, estreou como produtor no primeiro LP da cantora Fortuna. Quatro anos depois, produziria o LP “Amme”, de Alzira Espíndola.

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No início da década de 1990, passou a ser acompanhado pelo grupo Orquídeas do Brasil, com o qual lançou, em 1993, o CD Bicho de sete cabeças e, em 1994, o CD Bicho de sete cabeças vol. 2. Foi contemplado com o Prêmio de Melhor CD do Ano, cedido pela APCA, pelo disco Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - pra sempre agora, lançado em 1996, contendo exclusivamente canções daquele compositor. Em 1998, lançou o CD Pretobrás - Por que eu não pensei nisso antes.... Todos os seus LPs independentes foram reeditados em CD pelo selo Baratos Afins, de São Paulo. Constam da relação dos intérpretes de suas canções artistas como Ná Ozzetti, Branca de Neve (“Nego dito”), Cássia Eller (“Já deu pra sentir” e “Aprendiz de Feiticeiro”), Mônica Salmaso (“Canto em Qualquer Canto”, com Ná Ozzetti) e Zélia Duncan (“Código de Acesso”). Faleceu no dia 12 de junho de 2003. No ano seguinte, foi lançado o CD póstumo Vasconcelos e Assumpção - isso vai dar repercussão, contendo sete composições próprias, gravadas com o percussionista Naná Vasconcelos: “Leonor”, “Cabelo duro”, “Próxima encarnação”, “Fim de festa”, “Justo você Berenice”, “Aculturado”, “Assim Naná ensina”. O disco contou com a participação de Paulo Lepetit (produção musical, baixo, violão e teclados), Bocato (trombone). Nos vocais, Vange Milliet, Tata Fernandes e Anelis Assumpção, filha do compositor e cantor, e integrante do grupo Dona Zica. O grupo Isca de Polícia permanece em atividade com a formação: Suzana Salles (voz), Vange Milliet (voz), Bocato (trombone), Luiz Chagas (guitarra), Paulo Lepetit (baixo), Marco da Costa (bateria) e Jean Trad (guitarra). Em 2010, lançaram um CD com composições inéditas de Itamar Assumpção, que faz parte do projeto “Caixa Preta” do SESC, que contém toda a discografia do compositor. Produzido por Paulo Lepetit, baixista da banda, contou com as participações de Naná Vasconcelos, Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Arrigo Barnabé, entre outros.

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Fig. 30. Box Caixa Preta. Itamar Assumpção - 12 CDs, Selo Sesc SP, 2010.

Fig. 31. 2013. Banda Isca de Polícia.

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Discografia

Fig. 32. Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana)

Fig. 33. Às próprias custas S.A. (1983, Independente)

Fig. 34. Sampa midnight - Isso não vai ficar assim (1986, Independente)

Fig. 35. Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava (1988, Atração Fonográfica)

Fig. 36. Bicho de 7 cabeças. Itamar Assumpção (1993, Baratos Afins)

Fig. 37. Bicho de 7 cabeças vol. II - (1993)

Fig. 38. Bicho de 7 cabeças vol. III (1993)

Fig. 40. Pretobras - Por que eu não pensei nisso Fig. 39. Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - Pra antes... (1998, Atração Fonográfica) sempre agora (1996, Paradoxx Music)

Fig. 41. Vasconcelos e Assumpção - Isso vai dar repercussão (2004, Elomusic)

Fig. 42. Pretobras - Por que eu não pensei nisso antes... (1998, Atração Fonográfica)

Fig. 43. Vasconcelos e Assumpção - Isso vai dar repercussão (2004, Elomusic)

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Premê (Premeditando o Breque)

Fig. 44. 1983. Premê no show da Av. Paulista promovido pelo Lira Paulistana.

Conjunto formado por Mario Manga, Marcelo Galbetti, Claus e Wandy, alunos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Conhecido como Premê, é considerado um dos mais importantes grupos paulistanos de humor da década de 1980, caracterizando-se, também, pelo refinamento instrumental. Em 1979, participou do I Festival Universitário da Música Popular Brasileira (TV Cultura), conquistando o 2º lugar com a canção “Brigando na lua” (Mario Manga). No ano seguinte, classificou “Empada Molotov” (César Brunetti) no festival MPB Shell (TV Globo). A canção foi gravada em compacto simples. Em 1981, lançou seu primeiro LP, Premeditando o breque, destacando-se “Fim de semana” e “Marcha da kombi”, ambas de Wandy. No ano seguinte, participou do MPB Shell com “O destino assim o quis” (Wandy). Ainda em 1982, lançou um compacto com a canção concorrente ao festival e uma releitura rock de “Pinga com limão” (Alvarenga e Ranchinho). Em 1983, gravou o LP Quase lindo, com destaque para “São Paulo, São Paulo”. Dois anos depois, lançou o LP

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O melhor dos iguais, que incluiu “Balão trágico”6 (Manga e Dionísio Moreno) e “Lua-de-mel em Cubatão”. Em 1986, gravou o LP Grande coisa, destacando-se “Rubens”, regravada por Cássia Eller quatro anos depois, e A voz do Premê. Participou, em 1988, do LP duplo Há sempre um nome de mulher, produzido por Ricardo Cravo Albin, interpretando “Anamaria” (“Biquíni de bolinha amarelinha tão pequenininho” - versão: Hervê Cordovil). O disco atingiu uma vendagem de 600 mil cópias, apenas nas agências do Banco do Brasil. Na década de 1990, lançou Alegria dos homens (1991) e Premê vivo (1996). Em setembro de 2014, o grupo se reuniu sua formação original: Wandy Doratiotto (voz, violão e cavaquinho), Mario Manga (guitarra, cello, bandolim), Claus Petersen (flauta, sax e voz), Marcelo Galbetti (teclado e clarinete), Osvaldo Fagnani (baixo, piano, violão e voz) e Azael Rodrigues (bateria e voz) para duas apresentações do disco Quase Lindo no Sesc Belenzinho, São Paulo, SP.

Fig. 45. Reunião do Premê para apresentações em 2014.

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Ver letra da canção na seção “Anexos” deste trabalho.

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Discografia

Fig. 46. Premeditando o breque (1981, Spalla)

Fig. 47. Pinga Com Limão/O Destino Assim O Quiz (1982, Lira Paulistana)

Fig. 48. Quase lindo (1983, Lira Paulistana/Continental)

Fig. 49. O melhor dos iguais (1985, EMI-Odeon)

Fig. 50. Dê folga ao seu programador (1986, Emi-Odeon)

Fig. 51. Grande coisa (1986, EMI-Odeon)

Fig. 52. Alegria dos homens (1991, Eldorado)

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Fig. 53. Premê vivo (1996, Velas)


5. O design gráfico nos anos 1980 O Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista surgiram na transição da década de 1970 para a de 1980 e teve seu auge na metade dos anos 1980. No meio das artes (incluindo a música, artes plásticas, design), o conceito de pós-modernismo estava sendo amplamente discutido sob influência de pensadores como David Harvey, Jean-François Lyotard, Roland Barthes, Jacques Derridad entre outros. Genericamente o design gráfico pós-moderno pode ser classificado como um movimento em várias direções importantes: as primeiras amplificações do Estilo Tipográfico Internacional, feitos pelos designers suíços que flexibilizaram as regras do movimento, a tipografia new wave, que começou em Basiléia, Suíça, graças ao ensino e à pesquisa de Wolfgang Weingart (n. 1941); o exuberante maneirismo do início dos anos 1980, com contribuições importantes do grupo Memphis em Milão, Itália, e de designers de San Francisco; o retro, as retomadas ecléticas e reinvenções excêntricas de modelos anteriores, particularmente do design europeu vernacular e moderno das décadas entre as guerras mundiais; e a revolução eletrônica engendrada pelo computador Macintosh no final dos anos 1980, que se valeu de todas as investidas anteriores. (MEGGS, 2009, p. 601)

Segundo Meggs, “No design, o pós-modernismo significava o rompimento com o Estilo Internacional dominante desde a Bauhaus. Nadavam contra a corrente, ao desafiar a ordem e a clareza do design moderno (...)” (2009. p. 601). Já o teórico Rick Poynor esclarece que não se trata de romper com o modernismo, mas de conhecê-lo profundamente para poder transgredi-lo, para sua argumentação Poynor cita o modernista T. S. Eliot: “Não é sábio violar as regras até que você saiba como segui-las”7. “O pós modernismo se diferencia, sobretudo, por sua perda da fé nos ideais progressistas que sustentavam os modernistas, que haviam herdado dos Iluministas do século XVIII a crença na possibilidade do contínuo progresso humano por meio da razão e da ciência.” (POYNOR, 2010. p. 11).

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ELIOT, 1963 apud POYNOR, 2010.

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A abordagem de Meggs em relação ao pós-modernismo tem como âncora o autocentrismo e o envolvimento pessoal na produção de design gráfico da época: À medida que o ativismo social do final dos anos 1960 dava lugar a um envolvimento mais autocentrado e pessoal durante os anos 1970, as autoridades da mídia falavam em “Me Generation” (Geração eu) para comunicar o espírito da década. Os aspectos intuitivos e espirituosos do design pós-moderno refletem envolvimento pessoal. Os designers pós-modernos atribuem uma forma ao espaço mais porque “sentem” eu deve ser assim do que para atender a uma necessidade racional de comunicação. (MEGGS, 2009, p. 601).

Já Poynor, ressalta uma interessante consequência social resultante da liberdade artística pós-moderna, cujas características podem ser observadas no objeto de estudo dessa pesquisa: Se o modernismo buscava criar um mundo melhor, o pós-modernismo – para horror de muitos observadores – parece aceitar o mundo como ele é. Ao passo que o modernismo frequentemente atacava a cultura comercial de massa, argumentando, a partir de sua perspectiva de superioridade, saber o que era melhor para o povo, o pós-modernismo se envolve em uma relação de cumplicidade com a cultura dominante. No pós-modernismo, as distinções hierárquicas do modernismo entre a valorizada “alta” cultura e a “baixa” cultura entram em colapso e as duas se tornam possibilidades iguais no mesmo plano. (POYNOR, 2010, p. 11).

As pessoas que integravam o Lira Paulistana, os sócios, os técnicos, os músicos e em grande parte, o público, estavam engajados com princípios de democratização da arte, cultura e informação, tanto na produção, como no acesso. Isso pode ser observado em ações pioneiras como o festival Boca no Trombone (que dava oportunidade para grupos novos apresentarem seu trabalho), o jornal Lira Paulistana (que divulgava a cena cultural alternativa que era sequer considerada pela mídia da época), o mural do Lira (por iniciativa de Riba de Castro tornou-se uma galeria de arte rotativa), a gráfica independente que publicava livros fora do circuito comercial, enfim, o conceito estava presente em todas as iniciativas.

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Fig. 54. 1982. Mural do Lira Paulistana. Arte: Edith Derdyk.

Fig. 55. Edição 0 Jornal Lira Paulistana

Fig. 56. Edição 1 Jornal Lira Paulistana

O contexto brasileiro A passagem dos anos 1970 para os 1980 no Brasil foi marcada pela transição de um regime ditatorial e pelas lutas das Diretas Já, em prol das eleições diretas para presidente. Marcia Tostas Dias cita uma entrevista com Mario Manga (integrante do Premê) explicando como era feita a divulgação dos shows: A divulgação dos espetáculo também era feita de maneira alternativa, através de cartazes e panfletos e de outras formas, muitas vezes bem originais, como aquela narrada por Mario Manga: “(...) A gente ia na porta do Objetivo, na porta do Equipe, para anunciar o show, era muito legal, pois a moçada não estava acostumada com isto. Era uma época de repressão, em que a gente não podia fazer isso. A gente foi parado muitas vezes, chegava a polícia e dizia, pára com esse negócio. Mas conseguíamos sempre lotar o Lira Paulistana.” (2000, p. 137).

A atitude de procurar formas originais de divulgação, dando ênfase na expressividade e criatividade eram caractrísticas presentes na produção independente. A seguir, trechos de Chico Homem de Melo e Elaine Ramos que elucidam este momento: Nesse contexto, a maior novidade é o declínio do modernismo como referência erudita hegemônica, e seu questionamento pelo assim chamado pós-modernismo. O aspecto mais relevante desse processo de transformação é que deixa de existir um único ideário estruturado como sistema unificado de pensamento; a partir dessa década, é preciso aprender a trabalhar sob o signo da pluralidade. (MELO; RAMOS, 2011, p. 524).

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Ao contrário da jovem guarda, nos anos 1960, que não deu grande atenção às capas de seus discos, o rock dos anos 1980 mostra uma preocupação explícita com o design. A linguagem gráfica se renova tanto em relação à tradição da MPB como às experimentações do tropicalismo – a descontração das bandas e da música que elas fazem se reflete na visualidade dos discos. O tom geral é dado por colagens informais de fragmentos fotográficos contrastados, aos quais são acrescentados grafismo variados; complexidade e vibração são componentes quase obrigatórios.” (MELO; RAMOS, 2011, p. 542)

6. Análise das peças gráficas A análise das peças gráficas a seguir foram realizadas com base nas seguintes teorias e autores: • Sistema de leitura visual da forma do objeto - GOMES FILHO, 2000. • Sintaxe da Linguagem Visual - DONDIS, 2007. • Novos Fundamentos do Design - LUPTON, PHILLIPS, 2008. • Making and breaking the grid - SAMARA, 2005. Em todas as peças analisadas é possível perceber a utilização da técnica da fotocomposição, já que as imagens criadas por meio do computador se popularizaram no Brasil somente no início dos anos 1990.

Rumo O material gráfico do grupo Rumo era criado majoritariamente com ilustrações da artista gráfica Edith Derdyk (na época esposa do músico Paulo Tatit e colega da cantora Ná Ozzetti no curso de artes plásticas da FAAP). O processo era feito colaborativamente com o fotógrafo e também baterista do grupo Gal Oppido8.

8 Marcos Aurélio Oppido é fotógrafo, arquiteto, músico e desenhista brasileiro. Em 1975 formou-se arquiteto pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Em 1976, iniciou seu trabalho com fotografias relacionadas ao desenho. Entre 1979 e 1990 foi professor de linguagem visual na Unicamp. Durante os anos 70 e 80, atuou como baterista e responsável pelo projeto gráfico das capas de discos do Grupo Rumo, banda integrante do movimento Vanguarda Paulista.

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Para esta pesquisa foram selecionadas as capas dos três primeiros discos do grupo Rumo (1981, Independente), Rumo aos Antigos (1982, Independente) e Diletantismo (1983, Lira Paulistana/Continental) e o cartaz do show do grupo no Museu de Arte de São Paulo (MASP). O inicio dos anos 1980 no Brasil foi marcado pelo predomínio da técnica da fotocomposição, ilustração e colagem. E é isso que se pode observar nas peças gráficas a seguir.

Fig. 57. 1981: Rumo. Capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

A capa do disco Rumo (1981) traz um fundo predominantemente azul escuro com contrapontos em cores vibrantes no primeiro plano. Sua estrutura é formada por um grid com quatro colunas e 4 linhas. As margens são estreitas, quase ausentes no lado direito (onde há a abertura do disco).

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A arte é uma colagem que pode ser divida em 16 principais módulos compostos por letras, palavras, texturas, ilustrações de figuras humanas e fotos dos integrantes do grupo. As bordas destes módulos quadrados são assimétricas e irregulares, enfatizando o aspecto gestual da peça. Há ainda a presença de um alto relevo no logotipo do grupo. A arte da capa é composta majoritariamente por figuras, as poucas palavras são o nome do grupo “Rumo” duas vezes: 1) No canto superior esquerdo sobre 6 módulos quadriláteros inclinados. Os módulos possuem cores vibrantes em degradê do tom verde para o rosa. A tipografia feita à mão aparece como logotipo do grupo em diversas peças, nos discos e nas camisetas dos integrantes em algumas fotos e vídeos. 2) O nome Rumo também aparece no canto inferior direito, no penúltimo módulo sobre quatro módulos quadrados com cores vibrantes. Esta forma irá se repetir em várias instâncias como logotipo do grupo. No primeiro módulo, no canto superior esquerdo a palavra “oi!” possui tipografia decorativa com brilhos sobre um fundo de colagem que mistura diversas linguagens, cores, texturas e ângulos inclinados. É com esta palavra também que a primeira faixa do disco se inicia. Há também frases integrantes das canções em outros módulos, próximas às ilustrações, como se fossem “falas” das figuras humanas – uma possível referência ao estilo do canto falado característico do grupo. Na capa, estas frases são em amarelo no fundo escuro, e no verso são em preto no fundo claro. O conjunto das três capas analisadas trazem referência aos movimentos dadaístas e de vanguarda do começo do século XX, que foram revisitados nos anos 1980, no pós-modernismo. Também é possível traçar um paralelo com a cultura da produção independente, na qual os punks levaram ao seu extremo com a filosofia “do it yourself” (faça você mesmo). As colagens dos dois primeiros discos Rumo (1981) e Rumo aos Antigos (1981) e a arte em estêncil no Diletantismo (1983).

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Fig. 58. 1981: Rumo. Contra-capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

Na contracapa há uma repetição do conceito da capa, mas agora em tons mais quentes. É utilizado o mesmo grid de 16 módulos com ilustrações, palavras e fotos dos integrantes. Nas figuras da contracapa há ainda mais presença de profundidade devido às sombras nas figuras humanas desenhadas. A palavra “Rumo” aparece mais duas vezes, dessa vez com uma tipografia de traços mais geométricos, deixando o aspecto gestual para a colagem e combinação de cores e texturas diferentes e aparentemente aleatórias.

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Fig. 59. 1981: Rumo aos Antigos. Capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

A capa do disco Rumo aos Antigos (1981), lançado simultaneamente com o disco Rumo, traz o mesmo conceito de colagem, ilustrações e fotos em um grid de 16 módulos. A diferença aqui é que ao invés das fotos dos integrantes, temos fotos dos compositores antigos homenageados no disco: Sinhô (ao alto), Lamartine Babo e Noel Rosa; a arte é prioritariamente em preto e branco com exceção do título do álbum “Rumo aos Antigos” escrito em caixa alta com uma fonte simulando um letreiro dourado de neon. As ilustrações muitas vezes remetem às letras das canções, ora explicitamente trazendo um trechos escritos à mão, ora com referências menos diretas, apenas aludindo a atmosfera temática do cotidiano urbano presente no trabalho do grupo.

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Fig. 60. 1981: Rumo aos Antigos. Contracapa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Fotos: Gal Oppido. 31x 31 cm

O verso deste álbum também repete o conceito da frente com seus módulos de ilustrações, fotos e a palavra RUMO repetida três vezes com as mesma fonte em variações de brilho e cor. Outra palavra com bastante ênfase é “TCHAU!” remetendo simultaneamente à letra da música “Seja Breve”9 e ao álbum Rumo que possui a palavra “OI!” na capa. A foto do grupo (que aparece na capa no primeiro disco) aqui está no verso, em preto e branco e com uma pequena variação de posição dos integrantes.

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Disponível na seção “Anexos”.

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Fig. 61. 1983: Diletantismo. Capa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Ilustrações: Edith Derdyk. 31x 31 cm

Neste álbum é utilizada a linguagem do estêncil com figuras de músicos tocando e dançando em tinta preta, azul, vermelha e amarela. As figuras estão dispostas, desta vez em um grid de 5 linhas e 5 colunas. Há apenas duas palavras: o logotipo do Rumo no canto superior esquerdo e o nome do disco Diletantismo escrito à mão, em minúsculas e tinta marrom. O estêncil, assim como a colagem, é uma linguagem típica do pós-modernismo. Faz alusão a expressões populares como o graffiti – e sua conotação de protesto, intervenção urbana e espontaneidade. Mais uma vez, conceitos relacionados ao “fazer independente” e sua ideologia presente nas obras do Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista. As cores vibrantes, assim como no álbum Rumo (1981) e em outros da discografia do grupo, remetem ao bom humor e irreverência presentes na música e letras do grupo. 44


Fig. 62. 1981: Diletantismo. Contracapa. Projeto gráfico: Gal Oppido, Edith Derdyk. Ilustrações: Edith Derdyk. 31x 31 cm

Na contracapa deste álbum, há uma variação maior em relação aos dois álbuns anteriores do grupo. O fundo é uma fotografia de um dos moldes do estêncil em tamanho ampliado em relação ao da capa. A imagem é rica em textura e variações de core planos. Neste álbum entram logotipos e informações que não apareciam nos álbuns anteriores, por ser o primeiro distribuído pela parceria Lira Paulistana Continental. O logotipo do grupo aparece alinhado no centro verticalmente e à esquerda horizontalmente. Logo abaixo, os nomes dos músicos escritos em uma pequena tipografia serifada em amarelo. Mais abaixo, alinhado ao pé da cantora, em branco e com a mesma tipografia, o nome das pessoas responsáveis pela arte da capa. Por fim, à direita a relação de músicas do lado A e B com a mesma tipografia do nome dos músicos. Mais abaixo, o primeiro logotipo do Lira Paulistana criado por Nelson Rentero e o da gravadora Continental.

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Uma possível interpretação à arte da contracapa seria uma alusão aos bastidores do trabalho, à ficha técnica e ao molde do estêncil utilizado na parte frontal. Mais uma referência ao “fazer independente” que permeia a arte da Vanguarda Paulista.

Fig. 63. 1981: Rumo no MASP. Cartaz. Projeto gráfico: Riba de Castro.

Neste cartaz, Riba de Castro 10 se utiliza da composição de 16 módulos presentes nos primeiros discos do Rumo e do desdobramento do logotipo do grupo. As cores preto, branco, cinza e vermelho são uma referência à cidade de São Paulo e ao MASP com suas colunas vermelhas. O caráter gestual da tipografia e das bordas irregulares dos quadrados enfatizam mais uma vez o aspecto caseiro do “faça você mesmo” estreitando o contato entre produção e recepção da música.

10 Riba de Castro foi um dos sócios do Lira Paulistana e responsável pela programação visual dos eventos realizados no teatro, pela produção da gráfica do Lira - discos, livros, pelo jornal e pelo mural do Lira.

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Arrigo Barnabé Arrigo Barnabé era estudante de Arquitetura e Urbanismo na USP no início dos anos 1970, quando conheceu o quadrinista Luiz Gê. Conforme conta Cavazotti: Depois de curta estada no Rio de Janeiro, Arrigo mudou-se para São Paulo em 1970, onde cursou um ano de arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi neste período que o compositor começou a se interessar por histórias em quadrinhos, quando visitou uma exposição no Museu de Arte de São Paulo levado pelo cartunista Luiz Gê que, dez anos depois, faria a ilustração da capa do LP Clara Crocodilo. As histórias em quadrinhos tornaram-se, para o compositor, ponto de referência estética e fonte de inspiração de várias personagens de suas canções. (2000, p. 6).

Em 1980, Arrigo lança o álbum Clara Crocodilo e convida Luiz Gê para fazer a capa. Das oito faixas do disco, seis descrevem tipos e situações da noite paulistana, enquanto as outras duas faixas, narram o surgimento do anti-herói mutante Clara Crocodilo, que enfrenta cientistas inescrupulosos e a própria polícia. Era a linguagem dos quadrinhos transposta para a linguagem musical. (NIXON, 2009)

Com o lançamento do LP Clara Crocodilo, em 1980, Arrigo Barnabé causou forte impacto no cenário da música popular urbana brasileira. O trabalho rendeu-lhe elogios da crítica e o compositor passou a ser considerado pela imprensa como “a maior novidade surgida na música brasileira desde a Tropicália”. Além disso, foi apontado como o primeiro compositor popular a utilizar as técnicas da música serial11 em suas composições. O legado da vanguarda musical europeia do início do século XX, deixado por compositores como Schöenberg, Weber e Berg, é incorporado nas produções da Vanguarda Paulistana, assim como a utilização da estética dos quadrinhos. As histórias em quadrinhos foram fonte de inspiração e referência estética para vários personagens das canções de Arrigo Barnabé, como no caso do LP Clara Crocodilo, em que, segundo Valter Krausche, “o personagem central dessa obra confunde-se com a própria música, um perigoso marginal, nunca capturável, que aterroriza (ou quer aterrorizar) o ouvinte” (BATISTA, 2011, p. 1488)

11 Tal música se revela “num método de composição que consiste em produzir uma obra a partir de uma série de um determinado número de sons. Estes são regidos pela sua ordem de apresentação e não estão submetidos a nenhuma hierarquia, mostrando-se iguais em direito. A série, tal como Shönberg a definiu em 1923, foi considerada como ‘dodecafônica’, porque ela utiliza os 12 meios tons da escala cromática. Uma vez definida a sua ordem original, a série shönbergiana presta-se a diversas transformações: a inversão (...), retrogradação (...), retrogradação da inversão (...). E como cada uma destas quatro formas (...) pode ainda ser transposta nos 12 meios-tons da escala cromática, uma série dá portanto lugar a 48 apresentações diferentes (...)”.LELONG; SOLEIL, 1991 apud BATISTA, 2011.

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A capa do álbum traz três cores prioritárias: vermelho, verde e preto e é utilizada apenas a linguagem da ilustração (com referência às histórias em quadrinhos). A composição é centralizada, com o ponto focal no olho do crocodilo. Ao redor deste ponto, o título do álbum “Clara Crocodilo” aparece com um lettering que simula uma mancha de sangue, com gotas se espalhando por toda a área da imagem. O brilho nas letras e a textura da pele e do olho do crocodilo são típicos da ilustração detalhista utilizada nas HQs (histórias em quadrinhos), em especial do estilo ação/ficção científica – que também guarda semelhanças com as letras de Arrigo Barnabé12. Através de uma narrativa semelhante àquela das histórias em quadrinhos, Arrigo Barnabé retrata, ao nível do texto poético, a marginália paulistana na década de 70, ressaltando a forma distorcida e desintegrada na qual vive o ser humano nas metrópoles contemporâneas. Para conjugar o sentido do texto poético com o serialismo e a atonalismo livre, Arrigo Barnabé utilizou de distorção e desintegração do centro tonal, desnorteando os ouvintes tradicionais da música popular urbana tonal, aqueles a quem assumidamente se destina este LP. (CAVAZOTTI, 2000, p. 9)

Utilizando a teoria de Dondis (2007), a composição pode ser classificada como contendo alto contraste com as cores complementares do fundo verde e as letras vermelhas em primeiro plano. Outras características são a profusão e o exagero (devido ao close up do olho e o tamanho da tipografia). A linguagem como um todo é agressiva, espontânea e ousada.

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Ver letra de “Diversões Eletrônicas” na seção “Anexos”.


Fig. 64. 1980: Clara Crocodilo. Contracapa. Projeto gráfico: Luiz Gê. 31 x 31 cm.

Fig. 65. 1980: Clara Crocodilo. Capa. Projeto gráfico: Luiz Gê. 31 x 31 cm.

A contracapa do álbum é na verdade uma continuação da ilustração da capa, mas agora o foco é nos dentes do “monstro mutante” Clara Crocodilo. Há uma predominância do verde e preto e o vermelho agora aparece isoladamente em duas gotas de sangue. Se analisarmos a ilustração como um todo, percebe-se um degradê vertical que vai clareando na base. Conforme aponta Batista: Este elemento dual se apresenta de várias maneiras e tem início pelo próprio nome que caracteriza o personagem. Assim, o (a) Clara Crocodilo mistura o masculino e o feminino e opera com a oposição entre a luz (Clara) e a escuridão representada pelo crocodilo, um animal que vive nos pântanos. (2011, p. 1491).

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Fig. 66. 1980: Clara Crocodilo. Encarte. Projeto gráfico: Luiz Gê. 62 x 31 cm.

A parte interna da capa traz uma impressão monocromática em vermelho, com as letras das músicas, o nome e uma foto do grupo, ficha técnica e uma montagem com a ilustração do crocodilo da capa. Se dividirmos a imagem em duas partes, obtemos um grid de quatro colunas em cada metade, com a foto ocupando três medidas na parte central. O nome do grupo “Arrigo Barnabé e a Banda Sabor de Veneno” ocupa um lugar de destaque no topo central, em alto contraste (branca no fundo vermelho), com tipografia estilo slab serif. A tipografia das demais informações, bem como na contracapa, é com serifa simples. Uma possível interpretação da escolha do vermelho seria que, assim como no caso da foto do estêncil na contracapa do álbum Diletantismo do Rumo, a parte interna da capa traz as informações, ficha técnica, a equipe por trás da obra. No caso, por dentro da obra, como vermelho simbolizando a parte interna de um corpo (onde reside os órgãos, o sangue e o coração).

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Arrigo assinou com a gravadora Ariola, em 1983, um contrato que incluía o relançamento de Clara Crocodilo em nível nacional e a produção de seu segundo LP, Tubarões Voadores. Embora o relançamento de Clara Crocodilo só tenha ocorrido em 1996 pela gravadora Polygram, em formato CD, seu segundo LP, Tubarões Voadores, foi lançado em 18 de maio de 1984, no Teatro SESC-Pompéia, em São Paulo. A temática que permeia o texto poético das dez faixas deste novo LP trata da mesma realidade abordada em Clara Crocodilo, ou seja, a desumanização do ser humano nas metrópoles. (CAVAZOTTI, 2000, p. 7)

O segundo disco de Arrigo Barnabé traz novamente a ilustração estilo HQ de Luiz Gê. Desta vez, ao invés de crocodilo mutante, os monstros são tubarões voadores. A matéria de Nikki Nixon no blog HQ Memória sintetiza a atmosfera da obra: Luiz Gê através dos tubarões, sintetizou todo o medo e paranóia da classe média, que se tranca dentro de seus apartamentos e carros vedados com insulfilm se isolando dos demais habitantes, por não se sentirem seguros. Onde um passo em falso, uma janela aberta na hora errada, pode resultar em uma absurda tragédia.

Fig. 67. 1984: Tubarões Voadores. Capa. Projeto gráfico: Luiz Gê. 31 x 31 cm.

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A imagem da capa traz um enorme tubarão de costas voando em direção a um prédio aparentemente comercial de arquitetura de estilo internacional. Os prédios estão enfileirados sem qualquer espaço entre eles, não há céu nem chão na figura, o que confere um cenário urbano claustrofóbico e apocalíptico.

Fig. 68. 1984: Tubarões Voadores. Rótulo e contracapa. Projeto gráfico: Luiz Gê.

Um dia Luiz Gê recebeu a visita de um amigo em sua casa, onde este ao observar um pôster dos Tigres Voadores (esquadrilha aérea composta por aviadores americanos, cuja característica visual em seus aviões P-40, era uma enorme boca de tubarão pintada), deu a ideia de uma HQ protagonizada por eles, porém dentro da cidade. Imediatamente Luiz Gê estalou a ideia de ao invés de aviões, seriam tubarões, tubarões voadores e iniciou os esboços de modo tão frenético que deixou o amigo pasmo. Nos dias que se seguiram, foi-se montando o roteiro da história e acertando os detalhes, até finalizá-la.

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Fig. 69. Esquadrilha aérea Tigres Voadores.

A seguir imagens das páginas do encarte do disco que reproduzem na íntegra a história em quadrinhos desenhada por Luiz Gê. A última imagem, que traz as letras, utiliza uma construção tipicamente pós-moderna criada com simulação de papéis rasgados, bordas irregulares enfatizando a gestualidade e o acaso.

Fig. 70. 1984: Tubarões Voadores. Páginas do encarte. Projeto gráfico: Luiz Gê.

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Itamar Assumpção

Fig. 71. 1980: Beleléu, Leléu, Eu. Capa. Arte: Carlos Palma. Produção Gráfica: Nelson Rentero. 31x 31 cm.

O disco de estreia de Itamar Assumpção foi a razão da criação da gravadora Lira Paulistana. A capa criada por Carlos Palma e Nelson Rentero é uma imagem em dois tons de roxo e tipografia branca. O conceito é um jogo de repetição com o close up do rosto de Itamar e com a palavra Beleléu – o personagem alter ego de Itamar. O rosto do músico é repetido três vezes, assim como a palavra vai se fragmentando e sobrando apenas “eu”. Conforme elucida Melo e Ramos:

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Uma das marcas do período é a ruptura com a ideia de uma totalidade íntegra e uniforme, em seu lugar começam a surgir cenas compostas por estilhaços de imagens. Na década anterior, o close fotográfico já havia se consolidado como recurso visual; neste anos 1980, o processo avança e o fragmento emerge como possibilidade expressiva; ele ora ganha autonomia como imagem, ora se combina a outros fragmentos por meio da sintaxe da colagem. (MELO; RAMOS, 2011, p. 524).

Este é bem o caso da capa de Beleléu, Leléu, Eu. Na contracapa e na tipografia estilo “Bauhaus” é possível perceber claramente a revisitação do estilo modernista com o grid aparente de 9 linhas x 7 colunas. Entretanto, a forma é complexificada com a ampliação exagerada do rosto de Itamar ao fundo criando uma textura de luz e sombra, enquanto fotos dos integrantes preenchem seus módulos.

Fig. 72. 1980: Beleléu, Leléu, Eu. Contracapa. Arte: Carlos Palma. Produção Gráfica: Nelson Rentero. 31x 31

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O conceito que permeia o disco e o nome da banda “Isca de Polícia” é justamente a o universo urbano, polícia x bandido. O grid pode ser considerado como uma menção à cadeia (popularmente conhecida como xadrez), a navalha e as fotos de documentos remetem ao processo de fichamento que será reforçado no encarte do disco.

Fig. 73. 1980: Beleléu, Leléu, Eu. Encarte. Arte: Carlos Palma. Produção Gráfica: Nelson Rentero. 31x 21 cm.

Aqui, além da provocação à polícia em relação à malandragem e ao estigma que sofrem as pessoas negras até hoje, o documento ao fundo é um título eleitoral – mais um instrumento de protesto e pressão pela volta das eleições diretas que só iriam acontecer em 1989. No pôster de lançamento, há mais uma vez uma revisitação do estilo modernista, com um grid aparente no estilo de stjil e a repetição da fonte Bauhaus usada na capa do álbum.

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Fig. 74. 1981: Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia. Cartaz. Projeto Gráfico: Riba de Castro.

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Premê Para analisar a arte gráfica produzida para o trabalho do Premê é importante ter em mente a proposta do grupo. Segundo Mario Manga, em entrevista para Marcia Tostas Dias (2000, p. 135): O Premê começou sem querer. Éramos cinco alunos da ECA, do Departamento de Música. (...) Numa escola onde predominava o ensino da composição, a gente sentia falta da coisa prática, do som. Reunimos então pessoas interessadas em tocar num grupo com a formação de regional, bandolim, pandeiro, violão de sete cordas, cavaquinho e flauta e fomos estudar para tocar choro e samba de breque, querendo resgatar o bom humor da música brasileira. Era uma época também onde as músicas eram muito tristes, uns bolerões, era o Gonzaguinha fazendo música para a Bethânea, aquela coisa triste. E a gente chegou com uma música que não era novidade, o bom humor está na música há muito tempo. Eram versões novas, eu tinha ouvido muito Moreira da Silva, muito Jorge Veiga, na minha infância. Tínhamos um bom repertório de samba de breque.13

Assim como nas letras e músicas, o Premê sempre trabalhou muito com a paródia e humor, que segundo Poynor é uma característica presente nas manifestações pós-modernas: “há uma proliferação da paródia, do pastiche, da reciclagem irônica de velhas formas. O objeto pós-moderno ‘problematiza’ o significado, oferece múltiplos pontos de acesso e se torna o mais aberto possível à interpretação” (2010, p. 12). A capa do compacto Pinga com Limão, lançado pela gravadora Lira Paulistana traz ilustrações bem humoradas, com uma possível referência a desenhos de placas caseiras muito comuns em bares populares, borracharias, etc. A imagem está dividida em duas partes através de uma moldura, o que remete à divisória de banheiros feminino e masculino. As cores: verde, rosa e vermelho também auxiliam para criar essa atmosfera avessa às normas do design moderno, tradicional com suas formas exatas e combinações lógicas de cores. O selo do compacto, criado por Riba de Castro é uma adaptação da silhueta de cidade de São Paulo, presente no logotipo do Lira Paulistana, mas que ao invés de prédios, traz garrafas enfileiradas com um grande limão verde ao fundo. Para acrescentar ao álbum bem humorado, há um encarte criado na gráfica do Lira Paulistana ilustrado pelo cartunista Glauco Villas Boas. O encarte é composto por duas páginas, a primeira traz a ficha técnica das duas músicas e do álbum. Mais uma vez, o grid tradicional é subvertido com as informações apresen13

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Entrevista com Mario Manga. SP, 26-01-96.


tadas na diagonal. A segunda página é uma tira de quadro quadros que traz personagens cantando o refrão da música “Pinga com Limão” junto com um bêbado inconveniente. Novamente, uma provocação às regras, aos bons costumes e à seriedade citada por Manga que permeava a música brasileira.

Fig. 75. 1982: Pinga com Limão. Capa. Projeto gráfico: Mané Young.

Fig. 76. 1982: Pinga com Limão. Rótulo. Projeto gráfico: Riba de Castro.

Fig. 77. 1982: Pinga com Limão. Encarte. Projeto gráfico: Riba de Castro. Ilustrações: Glauco.

“Era o primeiro disco compacto com encarte, diferencial que gostávamos de enfatizar” CASTRO, R. 2014 p. 67

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Fig. 78. 1985: O Melhor dos Iguais. Capa: Projeto gráfico: Guto Lacaz. Fotografia: Jorge Rosenberg. 31 x 31 cm.

Esta capa, assim como a de Clara Crocodilo está na seleção de Chico Homem de Melo e Elaine Ramos como representantes do design gráfico dos anos 1980, tanto no livro citado neste trabalho, como na exposição Túnel do Tempo do Design Gráfico Brasileiro: “a capa de O melhor dos iguais traduz visualmente o humor peculiar do grupo Premeditando o Breque; ela lança um olhar inusitado sobre os objetos banais do cotidiano, um olhar despido de emoção, que ironiza os limites da objetividade; a cena é iluminada por uma luz fria, por assim dizer.” (MELO; RAMOS, 2011, p 545). Algumas peças gráficas surpreendem pela originalidade – fogem ao padrão da época e passam ao largo das tendências. O melhor dos iguais é uma delas. Premeditando o Breque é um grupo que faz a crônica do cotidiano, com uma saliente veia humorística. A solução de Guto Lacaz não fica atrás: ao alinhar objetos banais em linhas absolutamente regulares, ele consegue traduzir visualmente a ambiguidade do título.14

14 Exposição Túnel do Tempo do Design Gráfico Brasileiro – Sesc Pompeia, São Paulo, SP. Curadoria: Chico Homem de Melo. Assistência de curadoria: Elaine Ramos. Visitação no dia 04 de setembro de 2014.

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A imagem da capa, em termos de estrutura é bastante linear e tradicional, se não fosse pela ironia presente na fotografia de objetos do cotidiano relacionada ao título do álbum. A contracapa traz um grid de 3 linhas e 3 colunas em um fundo de listras amarelas (iguais) para fortalecer o conceito do título do álbum. Em cada módulo, a foto dos integrantes de terno (mais uma referência à trajes iguais e padronizados).

Fig. 79. 1985: O Melhor dos Iguais. Contracapa: Projeto gráfico: Guto Lacaz. Fotografia: Jorge Rosenberg. 31 x 3

Considerações finais Tendo como ponto de partida as análises de cada grupo/artista abordado neste capítulo, é possível elencar algumas características frequentes à arte gráfica produzida durante a Vanguarda Paulista:

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Letterings manuscritos ou desenhados à mão É possível identificar uma grande presença do aspecto gestual nas peças gráficas – uma forma de ressaltar a personalidade e o caráter experimental e inédito da produção independente desses artistas:

Fig. 80. Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana) - detalhe

Fig. 81. Rumo. (1981, Lira Paulistana) - detalhe

Fig. 83. Clara Crocodilo. (1980, Independente) - detalhe

Fig. 84. Diletantismo. (1983, Lira Paulistana) - detalhe

Fig. 82. Pinga com Limão (1982, Lira Paulistana) - detalhe

Fragmentação e close-ups Outro recurso muito presente é a utilização de fragmentos de fotos e de aproximações exageradas,

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proferindo um caráter dramático e provocando curiosidade ao observador. A seguir alguns exemplos deste uso:

Fig. 85. Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana) - detalhe

Fig. 86. Clara Crocodilo. (1980, Independente) - contracapa

Fig. 87. Tubarões Voadores (1984, Ariola) - capa do encarte

Mosaico e repetição É perceptível a remanescência de grids do design moderno como forma de organização espacial nas peças gráficas, principalmente na criação de mosaico de figuras, o que profere ritmo e profusão de cores. Esse recurso está presente em várias das peças analisadas:

Fig. 88. Rumo. (1981, Lira Paulistana) - capa

Fig. 89. Beleléu, Leléu, Eu (1980, Lira Paulistana) - contracapa

Fig. 90. O melhor dos iguais (1985, EMI-Odeon) - contracapa

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7. Conclusão Com base na investigação histórica, análise das peças gráficas e

letras aproximando a música que eles produziam de suas mani-

reflexões teóricas acerca do contexto político histórico-social e

festações visuais. Sobre este grupo é possível inferir que possui

da condição pós-moderna, é possível traçar algumas conclusões a

a identidade visual mais sólida e o único grupo analisado que

respeito das hipóteses propostas no início da pesquisa.

possui um logotipo. Finalmente, o grupo Premê apresenta as

A primeira hipótese foi: 1) a liberdade de expressão, bom humor e iniciativa de produção independente foi refletida nas peças gráficas da Vanguarda Paulista? A segunda hipótese investigada foi 2) a comunicação visual traduzia graficamente a diversidade e

peças com maior característica de humor e “reciclagem irônica de novas formas” (POYNOR, 2010 p. 12), além disso, é possível notar o uso frequente da fotografias produzidas e dirigidas especialmente para o álbum e ilustrações.

ineditismo dos conceitos artísticos implícitos na produção destes

Por fim, é possível concluir que o movimento da Vanguarda

músicos? A partir do diálogo entre o pensamento dos teóricos

Paulista e o núcleo Lira Paulistana foi extremamente importante

utilizados e relatos de quem presenciou o auge do movimento da

para o desenvolvimento da cultura brasileira de uma forma rica,

Vanguarda Paulista, é possível dizer que sim, em todas as peças

genuína e verdadeira. O “fazer independente”, apesar de todas

analisadas há elementos que remetem ao fazer independente e

as dificuldades enfrentadas, proferiu uma liberdade artística

democrático presente nas ações do Lira Paulistana e nos grupos

e facilitou o acesso democrático ao público. Certamente abriu

que lá se apresentavam e frequentavam. Logicamente, cada artis-

as portas para muitos artistas e serviu de exemplo às gerações

ta possui suas especificidades, citadas no parágrafo a seguir.

futuras de que, sim, é possível fomentar a cultura de forma

As capas analisadas de Arrigo Barnabé apresentam a linguagem das histórias em quadrinhos e do submundo urbano, juntamente com sua música serialista com o objetivo de provocar estranhamento e chocar o público. Já no álbum Beleléu, Leléu, Eu de Itamar Assumpção, foi possível identificar características claras da pluralidade e fragmentação exploradas na arte pós-moderna. Nos três álbuns analisados do grupo Rumo foi possível perceber uma ênfase na atitude artística/independente expressas nas ilustrações e estêncil (Diletantismo), somada à utilização de cores vibrantes e trechos das

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democrática e séria, mas sem perder o bom humor.


Referências

Livros CASTRO, Riba de. Lira Paulistana: um delírio de porão. 1ª edição. São Paulo: Ed. do Autor, 2014. DIAS, Marcia Tosta. Os Donos da Voz: Indústria Fonográfica Brasiliera e Munidalização da Cultura. São Paulo: Boitempo, 2000. GOMES FILHO, João. Gestalt do Objeto: Sistema de Leitura Visual da Forma. São Paulo: Escrituras Editora, 2000. LUPTON, Ellen. Pensar Com Tipos - 2ª Ed. São Paulo: Cosac Naify, 2013. LUPTON, Ellen; PHILLIPS, Jennifer Cole. Novos Fundamentos do Design. São Paulo: Cosac Naify, 2008. MEGGS, Philip. História do design gráfico. São Paulo: Cosac Naify, 2009. MELO, Chico Homem de; RAMOS, Elaine (orgs.). Linha Do Tempo Do Design Gráfico No Brasil. São Paulo: Cosac Naify, 2012. OLIVEIRA, Laerte Fernandes de. Em um porão de São Paulo: o Lira Paulistana e a produção alternativa. São Paulo: Fapesp, 2002. POYNOR, Rick. Abaixo as regras: Design Gráfico e Pós Modernismo. Porto Algre: Bookman, 2010 SALTZ, I. Design e Tipografia: 100 fundamentos do design com tipos. São Paulo: Cosac Naify, 2010. SAMARA, Thimothy. Elementos do Design: Guia de Estilo Gráfico. São Paulo: Bookman, 2010 _______. Grid: construção e descontrução. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

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Trabalhos acadêmicos BATISTA, Juliana W. O Anacronismo na ilustração da capa do LP Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé. In: Anais Eletrônicos do I Congresso Internacional de História Regional Vol. II. Passo Fundo, 2011. p. 1488-1499. Disponível em: <http://www.upf.br/ historiaregional/images/stories/anais-do-cihr-volume-2-2011.pdf>. Acesso em 24 de setembro de 2014. BORGES, Maria de Lourdes Martinez Alba de Almeida. Lira Paulistana – Monografia – Faculdade Cásper Líbero, 1999. CAVAZOTTI, André. O serialismo e o atonalismo livre aportam na MPB: as canções do LP Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé. Per Musi. Belo Horizonte, v.1, 2000. GHEZZI, Daniela Ribas; RIDENTI, Marcelo Siqueira. De um porão para o mundo: a vanguarda paulista e a produção independente de lp’s através do selo lira paulistana nos anos 80: um estudo dos campos fonográfico e musical. 264 p. : il. color. 2003. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, São Paulo, 2003. Orientador: Marcelo Siqueira Ridenti. MACHADO, Regina. A voz na canção popular brasileira: um estudo sobre a Vanguarda Paulista. / Regina Machado. - Campinas, SP: [s.n.], 2007. DVDs Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista. Direção: Riba de Castro. Documentário, 97’, DVD, cor, Brasil, 2012. Rumo. Produção: TV Cultura. Distribuição: Dabliú Discos. 145’, DVD, cor, Brasil, 2012. Internet NIXON, Nikki, Tubarões Voadores, a HQ que virou música. HQ Memória. Disponível em: <http://hqmemoria.blogspot.com. br/2009/11/tubaroes-voadores-hq-que-virou-musica.html>. Acesso em 24 de setembro de 2014.

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Anexos - Letras de músicas Rumo - Bem Alto (Zécarlos Ribeiro) Álbum: Caprichoso (1985) De degrau em degrau ele foi subindo no alto Chegou 1á no alto, , olhou para a multidão e gritou: “Eu estou aqui! Olha que eu pulo! Olha que eu vou pular!” “Ora bolas, seu exibicionista, desce daí de cima! Ainda vai dar trabalho pros outros Não adianta nada essa mania de suicídio Pois as coisas aqui embaixo Vão continuar do mesmo jeito E deste jeito é que elas vão!” “Elemento com características maníaco depressivas Encontra-se no alto de um edifício Altura 1986, Avenida Brasil Pede-se a todas as viaturas Dirijam-se para o local Imediatamente”

Mas preferiu vir aqui Só para ver alguém sofrer O tanto quando ele já sofreu E é lamentável realmente que não tenha lhe ocorrido Outra maneira de dar valor a sua existência aqui Silêncio! Silêncio na avenida O elemento não tem nada a declarar / Alívio! Pois o bombeiro foi subindo De degrau em degrau E o apanhou firmemente pelas mãos Na hora H / Tristeza ! Sua mãe está tão feliz Por outro lado não sabe onde errou Tudo que ela quer Nesse momento emocionante é gritar Bem alto! Mais alto! O mais alto que algum ser humano já conseguiu gritar O mais convincente dos argumentos Que a defesa usaria em um tribunal

Como você se sentiria Se estivesse nessa mesma situação E perdesse o controle das coisas Se expondo ao ridículo de tornar público Um drama existencial seu

“Enquanto você encena Enquanto você se arrisca Milhares de milhares de milhões de cenas Eu revivo: A primeira comunhão, o primeiro terno branco, O sétimo aniversário e a gente brincando no mar”

Já que ele chegou a isso Agora só falta pular Muito embora seja desagradável saber Que não haverá um galho pra se segurar Na verdade ele bem que poderia ter acabado com tudo em casa Sem ninguém perceber

“Elemento com características descritas Devidamente localizado e salvo Aguardo sua mensagem Favor, não perca a sintonia, câmbio? Zero, zero, zero... na escuta, câmbio?”

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Rumo - Dia útil (Zecarlos Ribeiro, Luiz Tatit) Álbum: Rumo ao Vivo (1992) pam-pararam-pararam-pararam-pararam-pararam dia útil muito trampo vai e vem o tempo passa muito tempo ele vivia entre quatro paredes trabalhando o tempo todo e pouco a pouco foi se acostumando a ser assim uma vida sem sentido para alguns rica em detalhes para ele que sabia todos os desenhos do azulejo até as manchas do piso das toalhas e das mesas muito que ele via nos desenhos era tudo que ele tinha de melhor os desejos, tudo da cabeça tava lá, tava lá no azulejo tava lá tudo projetado em seu lugar e quando sentia um tédio mortal ahhh, dava um grito temperamental todos paravam, olhavam entre si mas que fazer, ele era assim! mas o tempo foi passando e o progresso foi chegando e as reformas ele foi informado que brevemente uma reforma alteraria todo o piso todo o piso, as mesas e os azulejos

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era muito para ele já não tinha o que temer foi ao chefe revelou todo o seu vínculo e seus desejos com os desenhos do azulejo e com as manchas do piso das toalhas e das mesas tudo bem o chefe deu a entender que entendeu todo o problema não se aflija! mas ele sabia que era falso que era inútil no entanto preferiu acreditar no dia seguinte chegando ao local ahhhhhhhhh! Deu seu grito como um animal correu pro seu chefe grudou na garganta e só largou na sala do hospital dia útil muito trampo vai e vem o tempo passa pam-pararam-pararam-pararam-pararam-pararam


Rumo - Bem Baixinho (Luiz Tatit) Álbum: Rumo (1981)

Rumo - Canção Bonita (Luiz Tatit) Álbum: Rumo (1981)

Gosto dela meio velha assim mesmo Ainda ontem eu comentei com meu amigo Ela é meio velha mas é tão bonita! E ele disse: puxa! é mesmo! Ela é assim meio velha mas é tão bonita!

Ele fez uma canção bonita pra amiga dele e disse tudo que cê pode dizer pra uma amiga na hora do desespero. Só que não pôde gravar. E era um recado urgente, ele não conseguiu sensibilizar o homem da gravadora. E uma canção dessa não se pode mandar por carta, pois fica faltando a melodia, e ele explicou isso pro homem: - olha fica faltando a melodia! E era uma canção bonita pra amiga dele, dizendo tudo que cê pode dizer pra uma amiga na hora do desespero! Dá pra imaginar como ele ficou, né? com o seu violão...

E é uma beleza espontânea e natural Não tem medo de dizer Que está amando outra vez E não diz de qualquer jeito, não Num momento que você está atento Ela cochicha baixinho e tão pertinho Que só pode ser você dessa vez E essa nação é assim com todo mundo Grandalhona, meio velha, mas uma musa e tanto E quando você menos espera ela diz: Estou livre outra vez!

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Rumo - Salve a Vítima (Luiz Tatit) Álbum: Caprichoso (1985) Salve nossos valores e nossos colares Que a gente usa, lambuza com a música E depois devolve tudo melado, pingando E ninguém quer por a mão Salve nosso elenco de estrelas ocultas Que escuta quem aponta Quem não encontra não escuta, não aponta Salve Deus! Salve as nossas idéias quando dão certo Na hora certa, sem enrolação, salve, salve! Salve também as nossas meninas Que são bonitas, artistas, e se comportam Com especial dignidade Quando não ha mais nada a fazer Salve nossa mania de persistência Nossas tendências, nossos recados, Nossa paciência, nossos arranjos (um barato!) Salve a música! Salve os malabarismos que a gente faz Pra sair dos abismos que a gente cai, ai, ai... Vitima! Na crista da vítima Um ritmo de música bem próximo Um ritmo ótimo! É muita guitarra de base, de peso Que bisa a pose do músico Em ritmo de vítima No vértice do mártir e da arte Uma arte martírio! Uma arte que passa, que pesa, que pisa

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Que pousa e lambuza com a música O reino das artes (Em parte, não totalmente) Salve nossos valores e nossos colares Que a gente usa, lambuza com a música E depois devolve tudo, melado, pingando E ninguém quer por a mão Salve nossas canções que pegaram sucesso Por mérito, impacto, por sorte ou investimento (não se sabe) Salve enfim Salve os nossos valores e nossos colares Bons, maus, médios, neutros, irregulares Salve, salve Vítima...


Rumo - Release (Luiz Tatit) Álbum: Caprichoso (1985) Nascido em 74 com uma história singular Levava a bandeira de ser um grupo novo Já tinha uma biografia razoável O tempo passava e o grupo continuava novo É singular (Em que ano que foi?) Por volta de 77 uma dica despertou Um grande interesse pelos precursores E foi um tal de ouvir 78 rpm E foi uma mania de Noel e Lamartine Um porre de música antiga todo dia Que alegria! Que alegria! E quando acabava o dinheiro Daquele jeito que nem pro consumo Um dizia: “eu arrumo” (E ficou Rumo) Formado por uns meninos que viviam meio mal Gostavam muito de música Mas sem tino comercial Formado por uns meninos Só podiam passar mal Gostavam muito de música Mas sem tino comercial

Veio 83 E novo disco, sim! Outra vez E o grupo repetia que não ia mais parar Parar, parar, não parava de gravar E dito e feito Foi um disco atrás do outro Sem contar alguns compactos Que lançavam só de gosto Foi se tornando notável Uma música vendável Só que não tocava em rádio E, situação constrangedora. Tudo sem uma gravadora No mínimo, é um fenômeno Chegando em 2004 o grupo festejou Os trinta anos de sua independência E, pela primeira vez, nas rádios de audiência Os locutores gritando “É um grupo novo” É singular! (Em que ano que foi?)

Veio 81 E a primeira gravação Não obstante, ser um grupo estreante Numa linha independente Pôs dois discos no mercado Que loucura! Que loucura! Dois discos sem ter uma estrutura!

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Rumo - Pro Bem da Cidade (Luiz Tatit) Álbum: Rumo aos Antigos (1981)

Premê - São Paulo, São Paulo (Wandy, Osvaldo, Marcelo, Claus, Biafra) Álbum: Quase Lindo (1983)

Como é difícil você não se entrosar E ainda ter uma certa tendência Pra se espreguiçar em hora errada E São Paulo não pode parar pra te acompanhar

É sempre lindo andar na cidade de São Paulo O clima engana, a vida é grana em São Paulo A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo Gatinhas punks, um jeito yankee de São Paulo, de São Paulo

Como é difícil! E você acaba perdendo a calma Porque seu ônibus não espera Você vem devagarinho, meio com sono Ele não espera Se você corre, gesticula Grita desesperado, ele espera Mas se você vem devagarinho, meio com sono Ele não espera

Ah! Na grande cidade me realizar morando num BNH. Na periferia a fábrica escurece o dia

Acho que vou ter quer dar um jeito nessa cidade É pro bem dela Já que não vou mudar mesmo, eu vou dar um jeito nela É pro bem dela

Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo Pardais, baratas, ratos na Rota de São Paulo E pra você criança muita diversão em São Paulo São Paulo lição Tomar um banho no Tietê ou ver TV. Ah! Na grande cidade me realizar morando num BNH Na periferia a fábrica escurece o dia. Chora Menino, Freguesia do Ó, Carandiru, Mandaqui, ali Vila Sônia, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Carrão, Morumbi Pari, Butantã, Utinga, M’BOI MIRIM, Brás, Brás, Belém Bom Retiro, Barra Funda, Ermelino Matarazzo Mooca, Penha, Lapa, Sé, Jabaquara, Pirituba, Tucuruvi, Tatuapé Pra quebrar a rotina num fim de semana em São Paulo Lavar um carro comendo um churro é bom pra burro Um ponto de partida pra subir na vida em São Paulo Terraço Itália, Jaraguá, Viaduto do Chá. Ah! Na grande cidade me realizar morando num BNH Na periferia a fábrica escurece o dia

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Premê - Fim de Semana (Wandy) Álbum: Premeditando o Breque (1981)

Itamar Assumpção - Embalos (Itamar Assumpção) Álbum: Beleléu, Leléu, Eu (1980)

Era um domingão, tinha muito sol. Meu avô na frente, minha avó atrás E o rádio a mil, que legal. O meu pai guiava, Minha mãe falava, Minha irmã chorava, O totó latia, Tudo num fuscão, tri legal. Vamos indo todos, Vamos indo juntos à praia grande, Levando até televisão. Era um domingão. Mas ao chegar na praia O tempo logo fechou. Meu avô de tanga, Minha avó de maiô, Minha mãe chorava, O totó latia, o meu pai calava, E no mais chovia... Era um domingão... Tudo no fuscão, que legal E era um domingão, que legal Meu avô de tanga, que legal, O totó latia, au au au, E o rádio a mil, que legal, O meu pai calava...

Girei esse tempo todo Batendo de porta em porta À procura de um abrigo Um apego um horizonte Tentando de cabo a rabo São Paulo de ponta à ponta Na batalha de sossego Alívio ou mesmo a morte Eu giro no embalo do sábado à noite E a fila que não tem mais fim Revela pra mim Que o mundo gira assim Que o mundo todo gira Que o mundo todo gira assim Que o mundo todo gira Que o mundo todo gira assim Que o mundo todo

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Premê - Balão trágico (Dioni Moreno, Mário Manga) Álbum: O Melhor dos Iguais (1985) O meu pai desempregado Minha mãe arrumadeira Minha avó esclerosada Meu avô na bebedeira Minha irmã de onze anos Já tá esperando nenê Tem mais quatro que não estudam Tão roubando prá comer A vida é tão linda A vida é tão bela Eu e meus amiguinhos Vivendo na favela Tomando banho de poça, ça, ça Pedindo um troco no sinal. sinal Dormindo num chão batido Enroladinho num jornal Lá no meu barraco tem Água encanada - não Privada e pia - não Sofá e cadeira - não Café e bolacha - não Porque eu só como uma vez por dia Cinco dias por semana Não, porque eu só como uma vez por dia Eu só como uma vez. Na nossa escola não tem professora Nossa merenda é roubada todo dia e quando estoura um cano d’água

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Tudo vira uma piscina Viver na favela é uma alegria É uma alegria! Eu não tenho roupinha Não tenho brinquedo Tenho muitos bichinhos de estimação São cinco baratinhas Dezoito pulguinhas e um ratinho doente Chamado Sebastião A vida é tão linda A vida é tão bela Eu e meus amiguinhos Vivendo na favela Oh! Denilson o que você fez rapaz, você tá louco, calma rapaz - Vai lá agora e canta você - Não: tenho vergonha - Vai lá e canta - Tá bom. A vida é tão linda, a vida é tão bela, eu e meus amiguinhos vivendo na favela, ou! ou!


Arrigo Barnabé - Diversões Eletrônicas (Arrigo Barnabé) Álbum: Clara Crocodilo (1980) Só você não viu Mas ela entrou, entrou com tudo Naquele antro, naquele antro sujo Você nunca imaginou, mas eu vi No luminoso estava escrito “diversões eletrônicas” Era um balcão de bar de fórmica vermelha E você ali, naquele balcão - de quê? De fórmica vermelha Chorando, embriagado, pedia: “garçon, mais um Gin tônica” Mas ele te avisou: “você já bebeu muito, já bebeu demais” Vai pra casa, moleque E você foi, cambaleando Até... até o telefone Telefone público... blim, blim, blim E discou, discou, discou Novamente o mesmo número... número

No fliperama, ela entregava toda sua grana - pra quem? Prum boy, prum boyzinho sacana Ex-motorista de autorama Agora viciado nessas máquinas de corrida... viciado Que tinha ganho fama pela sua perícia Como volante E pelo tratamento violento que dispensava A suas amantes Depois, quando clareou E eles foram pro hotel Ela viu um bêbado jogado no chão E sorriu perversa

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Rumo - Seja Breve (Noel Rosa) Álbum: Rumo aos Antigos (1981) Seja breve, seja breve Não percebi porque você se atreve A prolongar sua conversa mole (e não adianta) Seja breve (conversa de pedro) Não amole Senão acabo perdendo o controle E vou cobrar o tempo que você me deve Eu me ajoelho e fico de mãos postas Só para ver você virar as costas E quando vejo que você vai longe Eu comemoro sua ausência com champanhe Deus lhe acompanhe A sua vida nem você escreve E além disso você tem mão leve Eu só desejo ver você nas grades Pra te dizer baixinho sem fazer alarde Deus lhe guarde Vou conservar a porta bem fechada Com um cartaz: “é proibida a entrada” E você passa a ser pessoa estranha Meu bolso fica livre dos ataques seus Graças a deus.

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Centro Universitário Senac

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Senac, como exigência parcial para obtenção do grau de pós-graduada em Design Gráfico. Orientador Prof. Ms. Henrique Nardi de Azevedo São Paulo, 2014

Design Gráfico na Vanguarda Paulista  
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