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"Aquele que não viaja desconhece o valor dos homens"

Provérbio Mouro

O pior inimigo: o frio. Fui a África, ao deserto, e uma das piores recordações é o frio! O frio que nos atacou na ida para baixo, logo no Alentejo, o frio com que chegámos a Marrakesh (onde faziam 3 graus), o frio no Sahara Ocidental à chegada a Laayoune. O regresso também foi gelado. Frio e chuva na fronteira Mauritana, frio e chuva no Anti-Atlas, frio na costa, em Agadir e Esssaouira. Frio e chuva a chegar a Tanger. E, claro, o frio com que cheguei ontem a casa. Este Portugal não aquece nada num mês? Não é Abril, Primavera? Cheguei ontem à meia noite. Deixei o Zé na ponte Vasco da Gama na esperança de que a corrente dele aguentasse até Carcavelos. Fiz as festas ao cão e atraquei-me às fotos. Não quero que isto acabe já! Quero ver aquelas terras e aquelas gentes outra vez! Hoje acordei cedo e foi a mesma coisa. Estou lixado, estou agarrado. As fotos não fazem justiça. Não consegui trazer a enésima parte do que vi; é sempre assim, mas frustra sempre. A KTM chegou a casa a fazer uma ruideira esquisita que se farta. Coitadinha, devia ter tido os mimos do costume aos 5.000 kms e já vai quase com 9.000. Muito bem se portou ela! Levou com temperaturas acima dos 40 , arranques repetidos em primeira às 8000 rpms na areia dos oueds e das dunas. Passou horas num andamento em que eu tinha de optar entre primeira ou segunda a gritar e segunda ou terceira a bater. A areia sugava literalmente a moto, que só conseguia flutuar acima dos 90 à hora. Em certas pistas, nem o ritmo da comitiva carro/motas nem a minha habilidade o permitiam. De maneira que parecia rebocar uma enorme charrua que não deixava a moto desenvolver. Brutal! Em toda a viagem, só parou uma vez. Por erro humano, como se diz. Já no regresso, na noite que passámos na fronteira Mauritana, ao tirar a vareta para verificar o nível do óleo, deixei as mangueiras da gasolina tortas e vincadas. No dia seguinte, a uns 10 kms do Barbas, a pobrezinha calou-se. O Zé, a quem melguei infinitamente sobre a desadequação da Transalp para estas vidas, rebocou-me muito satisfeito até ao Barbas, onde resolvi o problema. Podia tê-lo feito no local da avaria, mas achei que a Transalp merecia esse desagravo ☺. Para dizer a verdade fiquei muito surpreendido com a fiabilidade da 640. Esperava muitos problemas e levei uns bons 10 kilos de peças, ferramentas e materiais de bricolage, que não chegaram a ser precisos. Ah! A Katie teve ainda outro probleminha. Em Agadir, no regresso, o canhão de ignição quis desistir, com a areia toda que tinha comido. Irritado, fiz força demais e parti a chave. A de substituição conseguiu voltar a funcionar depois de levar umas pancadinhas. A areia estraga tudo. Tudo, tudo mesmo. Estraga os kits de transmissão, os interruptores, as fechaduras, os rolamentos, os retentores. Estraga os fechos eclairs, as fivelas, os capacetes, risca as lentes e viseiras, mete-se nas botas,


dentro da tenda, na comida, nos ouvidos, no nariz, entre os dentes. Mete-se nos olhos, claro. Estraga as máquinas fotográficas, os telemóveis e o resto da tralha toda, toda, toda. Incrível. Acho que chegámos a ter areia no cérebro e a pensar pior por causa disso! A areia não tem perninhas e não anda sozinha. Quem a mete em todo lado é o vento. Parece que se chama Harmattan e os meses em que sopra mais são Março e Abril, tinha de ser. Acho que não apanhámos um único dia sem vento. Soprava umas 6 a 8 horas por dia e depois calava-se "Até Já!". Quando estamos cansados e e com a moral em baixo, fica-se com a sensação de que o gajo trabalha propositadamente contra nós. Começa a soprar quando começamos a comer. Se está muito calor sopra pelas costas e a moto não arrefece. Se temos pouca gasolina sopra de frente e a moto gasta mais 3 litros aos 100. Como no dia do capotanço do carro. Quando começámos a trabalhar para resolver a situação, começou a assobiar com força. Quanto mais trabalhávamos mais soprava. Culminou com um verdadeiro vendaval a acompanhar a refeição que comemos em pé encostados ao carro já direito. Uma sandes de atum com areia e vento a pensar que as férias acabavam ali no El Hammâmi sem chegar a ver o Maqteïr. Cabrão do vento! Quando a moral está alta, pode o gajo soprar à vontade que já estamos habituados. Faz parte. Encontrámos dois franceses com DR 600 Djebel do tempo da Maria Cachucha. O equipamento também era engraçado. Blusão da Citroen para um e forro polar da Millet para o outro. Calças de ganga para os dois. Um tinha um capacete GPA daqueles sem fivela a que tinha que se abrir os queixos para pôr e tirar. Tecnologia de ponta em 1983. O outro tinha um daqueles capacetes de hipismo. Ah! Usavam botas, a sério, mesmo para moto, e boas. Catalogámos os tipos como verdadeiros overlanders, aderentes à filosofia Insh'Alah. Tem piada que todos os motards que encontrámos eram Insh'Alahs. O suiço com a R100GS que encontrámos na fronteira de Guergarat também tinha botas boas. Rebentou um pneu no deserto. Um amigo, noutra R100, deixou-o para ir buscar o pneu. Esse tal amigo, atascou e queimou a embraiagem a tentar sair. Abandonou a moto, caminhou 40 kms no deserto com o GPS na mão. Foi buscar uma pickup e o pneu para o primeiro atascado e estava agora em Nouahdibou à espera da embraiagem. Os alforges do suiço eram jerricans de plástico de 30 litros cortados em cima, agarrados à GS. O francês que encontrámos com a namorada em Dakhla, a caminho de Madagascar também tinha botas de cross. Levava uma TT600 com um caixote artesanal gigante atrás. Mesmo assim a namorada tinha de levar o saco cama a tiracolo! O capacete da namorada era um AGV de 1970 e acho que ainda tinha a viseira de origem. Ela não tinha botas, tinha sapatos de ténis. Acho que o francês não a estimava muito. O franco português e o franco algeriano que encontrámos no Alberge da Zaida em Ouadâne estavam num Toyota BJ45 mas também eram motards. Uma vez tinham feito Dehli-Paris num mês em Bullet 500 (a réplica da Royal Enfield de 1950 que ainda se fabrica na


India). Esqueci-me de lhes perguntar das botas... Em contrapartida aos serões Nomads aflorava-se invariavelmente o tema "a moto ideal para isto é..." e grandes discussões filosóficas se levantavam entre mono e multicilíndricas, motor de arranque ou não, curso de suspensão e protecção aerodinâmica versus autonomia barra conforto e sabe-se lá mais o quê. Inch'Alah acho que quer dizer "Queira Deus" ou mais à portuguesa "Se Deus quiser" e os árabes acrescentam essa expressão a todas as menções de futuro. Os verdadeiros overlanders simplificam o equipamento, esperam Inch'Alah que não haja problemas e divertem-se a resolver os que aparecerem. Nós exageramos no equipamento, vamos preocupados com o que não conseguimos prever e quando temos problemas achamos que está tudo lixado. A meu ver, a filosofia overlander pura e dura tem outras vantagens. Torna o viajante muito mais igual aos povos que visita. Nós estávamos simplesmente extravagantes. A sério, éramos muitos e vistosos. Motos enormes, novas e reluzentes (pelos padrões Mauritanos, um Renault 12 de 1972 todo, mas mesmo todo amassado é um taxi perfeitamente capaz). Autocolantes e patrocínios. Fardamentas sofisticadas, coloridas, prateadas até. Éramos tão ricos que precisávamos de um carro a abarrotar para transportar as nossas coisas! Tínhamos GPS's, telemóveis, telefones satélite, computadores, PDA's e máquinas fotográficas digitais! A mim roubaram-me os GPS's na pista da praia, antes de Nouamghar. Foi num acampamento de pescadores senegaleses, onde pedimos para nos cozinharem jantar. Ajudámos a puxar os barcos para cima e enquanto esperávamos fizemos umas fotografias, mostrámos as motos, enfim, sem o querer demos uma excelente demonstração do nosso enorme poder económico. Os senegaleses saem para o mar às sete da manhã. Voltam doze horas depois. Vivem numa tenda com menos de um metro de pé direito que é simultaneamente quarto, sala e cozinha. Perdoem-me se parece condescendência paternalista mas acho que o homem que me roubou nem deve ser bem um ladrão. Teve aquele instinto Robin Hood, roubar os ricos... enfim. Encontrámos ainda outros motards. Os locais. Vinham até nós e diziam "Je suis motard aussi..." com grandes sorrisos na boca. Tinham, ou tinham tido, todo o tipo de motos. O polícia na fronteira mauritana, no regresso, andava de BMW. O mouro, negro retinto que conversou comigo enquanto reparávamos um furo em Chinguetti, tinha tido XT's, agora tinha uma 400 de estrada que não lhe servia para ali. Em Ouadâne encontrámos um gajo que parecia o Giovani Sala mauritano. A sério que tinha uma semelhança fisionómica! Andava todo


empenado, coxo, por culpa das motos. Já tinha tido scooters, DT's e XT's. Agora tinha uma KTM que dizia igual à minha. Afirmava, e os amigos corroboravam, que quando o Dakar ali passa, incorpora a comitiva e faz um dia a acelerar entre os melhores. Dizia com imensa piada que era apenas uma questão de moto. Se os outros passavam a fundo num determinado sítio, ele também passaria. Percebem-se assim as lesões. Tinha um ar calmo e contente, nada condizente com a perspectiva de alucinado escafiado com que se fica ao ler isto. O conceito da nossa "expedição" era mesmo um bocado contraditório. Por um lado discutíamos todos os dias qual era a tal moto ideal para andar ali. Concluíamos invariavelmente que não eram as nossas. Alguns de nós acham que uma monocilíndrica levezinha, velhinha, com a electrónica mínima indispensável e com boa acessibilidade mecânica é que seria "a ferramenta", á maneira dos overlanders Inch'Alah´s. Por outro, tínhamos como objectivo levar as maxi-trail a atravessar o Erg do Maqteïr, uma extensão 200 km de dunas em fora de pista, tudo isto em três semanas já com ida e regresso. E foi por isso que tivémos de nos sobrepreparar e incorporar carros. Está claro que para atravessar o Maqteïr, e por razões muito simples de autonomia de combustíveis, água e víveres, nem com as tais motos levezinhas o poderíamos fazer sem apoio de carro... mas as maxi-trails não iam certamente facilitar a coisa. Estou para aqui a falar de maxi-trails, mas estou convencido que a minha não incorpora essa categoria. Fiz batota e levei uma KTM 640 Adventure. É pesada (comparada com uma XR ou com uma XT) mas tem uma ciclística de sonho e um motorzinho dócil. Dá para viajar em estrada a 120 -130. A tal acessibilidade mecânica não é famosa, mas a moto provou ser fiável. De modo que acho que ela é a moto ideal para ali. Se a carregar com bagagem, acho que ainda a consigo pilotar (embora muito no limite) nas pistas mais difíceis que apanhámos desta vez. As outras duas que se deitaram ao Maqteïr eram a Africa Twin do Luís Lourenço e a Transalp do Zé Santos. A Transalp tem um motor fantástico, redondo, equilibrado como um relógio, potente qb, com binário e baixas e tudo. O peso (sem bagagem) ainda é contido. Vai a todo o lado embora não tenha protecção de carter e a despeito dos fúteis plásticos. A Africa Twin, já é um bicho diferente. Mesmo sem bagagem, só a fibra do Luís para a fazer andar onde andou. Aquilo é uma maxi-trail a sério, caraças! Curiosamente, para as motos, o pior terreno que encontrámos não foram as dunas do El Hammami ou do Maqteïr. As pistas de oued como a que fizémos entre Ouadâne e Chinguetti exigiram tudo o que nós e as motos tínhamos para dar. Areia muito fina. A direito, a KTM arrancava em 1.ª quase ao red-line se eu ajudasse com os pés. A Transalp quase não arrancava, ia cavando um buraco com a roda de trás e o Zé ou o Nuno César iam fazendo força, muita força. A AT,


por vezes, requeria que o Luís a deitasse, tapasse o buraco da roda de trás, a levantasse e arrancasse ao lado até conseguir descobrir um meio metro de areia um pouco mais dura de onde tentar um arranque a sério. Isto acontecia de 200 em 200 metros ou assim. Grande Luís! Nas dunas, tínhamos que tentar ler o terreno para perceber se havia precipícios ou para tentar antecipar a localização das bolsas de areia mole. Era difícil. De vez em quando lá caíamos numa dessas zonas. Como há sempre um declive dávamos gás a fundo e tentávamos embicar à descida sem chegar a parar, que "parar é morrer!". Já os precipícios, por vezes eram invisíveis! Tirávamos gás à última e tentávamos não ficar atascados mesmo no topo. A areia é tão macia do lado das descidas que a moto atasca de frente numa pendente de alguns 40%! Para descer também há que acelerar e bem! Enfim, aquilo é uma ciência que eu não domino. Gostava muito de tentar aprender mais sobre a pilotagem em areia a sério. Gostava de saber os truques dos aviões do Dakar. Uma coisa é certa, a relação peso/potência, ali, é fulcral. Quanto à leitura do terreno, a experiência deve ser primordial. Nas motos acho que vamos mais altos e temos melhor visibilidade mas o Quim no carro, e mesmo já com o pára-brisas partido, lia as dunas muito melhor que eu. Os consumos foram... uma surpresa e não muito agradável. A KTM em estrada, aqui no rame-rame diário gasta-me 5,5 aos 100. Em viagem para baixo, mesmo com um pouco de vento cruzado, fez isso. Quando entrámos em pista passámos a fazer média ponderada das três motos. Nas dunas do Maqtëir e pistas de areia o consumo ponderado das três motos subiu para 10 aos 100. No dia da famosa pista que saía de Chinguetti pelo oued a média das três motos foi de 13 (treze!) litros aos 100!!! No regresso montei as malas na moto. Em estrada a 120 o consumo chegou a subir aos 8 litros aos 100. Na GS as malas agravam-me cerca de 1 litro aos 100. Na laranjinha são mais dois litros e meio! Não haveria mesmo forma de atravessar ergs compridos, fora de pista, sem apoio auto. Essa é uma conclusão desta viagem. No entanto, carros e motos têm ritmos diferentes. Houve dias, como o que nos levou aos gueltas de Amazmaz em que nos arrastámos atrás da pickup. Andávamos cinco minutos... parávamos um minuto e meio. A pickup, carregada como ia, não podia andar mais. Pura e simplesmente não tinha curso de suspensão e as pistas passavam de arenosas a pedregosas num instante. É penoso andar ao ritmo dos carros. De modo que houve um dia em que decidimos separar-nos. Tínhamos que regressar por uma pista que já tínhamos feito e a seguir iríamos percorrer um track do Pedro Geraldes para Akjoujt. A evolução das motos foi completamente diferente. Deume muito gozo andar uma hora seguida de moto sem parar e acho que foi dos dias em que gostei mais da vertente condução, apesar das dificuldades da pista e do muito calor. No entanto, os kilómetros foram demasiados e não chegámos ao destino. Nem nós nem a pickup, mas estávamos separados. Por conseguinte,


quando nas motos finalmente arreámos e decidimos não prosseguir, não tínhamos água nem comida nem material para acampar. Ou seja: - o carro de apoio é indispensável para as travessias fora de pista. - como não há meio de comunicação, temos sempre de andar à vista para não haver desencontros que podem resultar em atrasos grandes ou em falta de assistência mútua - carros e motas têm efectivamente andamentos muito desiguais em certas pistas Um formato intermédio que poderia ter resultado melhor seria juntarmo-nos com o carro para atravessar os ergs, e fora daí andarmos autónomos com a nossa bagagem, marcando pontos de reencontro com os carros em cidades prédeterminadas. Mas um telefone satélite por grupo seria quase indispensável. Isto, a insistir no formato carros+motos. O objectivo de uma viagem pode ser pura e simplesmente decansar. Pode ser ir a um país, querendo com isto dizer ter lá entrado, passado a fronteira. Pode ser algo específico como escalar uma montanha, atingir um Polo, descobrir uma nascente... motivado por razões geográficas, científicas ou desportivas e aí torna-se uma expedição. No nosso caso havia um objectivo concreto, atravessar o Maqteïr entre Tourine e El Beyyed, mas não havia a tal motivação concreta para o realizarmos. Só o gozo que nos proporcionaria. Isto parece propenso a uma confusão de conceitos? Interpretado por treze pessoas, é uma enorme confusão. Penso que os vários intervenientes tinham mesmo concepções diferentes dos objectivos da viagem. Toda a gente sabia para onde íamos: ao Maqteïr. Mas todos tínhamos imaginado de forma diferente como iríamos. As pessoas são todas diferentes e analisam de forma diferente as condições que têm para prosseguir. Os grupos eram heterogéneos e acho que houve imensa actividade "emocional". Pela minha parte fui incapaz de ter a tolerância suficiente para encaixar essas diferenças. Por essa razão, no futuro penso que não voltarei a integrar um grupo destes. É muita gente e é muito tempo. Também não gosto muito de fazer coisas sob uma bandeira, nem que seja a dos desorganizados Nomads ☺, portanto, estou a pensar em ainda menos organização. Uma coisa a que não se chame "expedição" mas simplesmente viagem. O que chamo menos organização não quer dizer menos preparação... depende do tempo disponível. Viagens com o tempo contado precisam de preparação cuidada e de muita sorte para concretizarem os objectivos. Isto se tiverem objectivos concretos. E desta vez acho que podemos dizer que sorte só daquela portuguesa "podia ter sido pior...". Também... saímos 13 a dia 13. Sem medo, no Bojador ainda almoçámos no Café Titanic. Estávamos a pedir chuva.


E tivémo-la! No deserto do Sahara! Em barda! Três dias enfiados! As pessoas que fomos encontrando foram uma parte muito gratificante da viagem. Acabámos por não comunicar muito, até porque temos uma barreira linguística importante. Ao contrário de nós, a maior parte dos mauritanos fala bom francês. Mas os contactos fugazes que se fazem naquelas condições têm um grande sabor de autenticidade. Não conseguimos ficar a saber como vivem aquelas pessoas, mas conseguimos intuir, suspeitar... e quando as nossas intuições se comprovam, dá um gozo reforçado. Foi espectacular uma meia hora de conversa que tivemos com a Isabel, a portuguesa que descobrimos por acaso no albergue da Zaida em Ouadâne. Anda na estrada há cerca de três meses, gostou da Zaida e abancou-se para aprender o Hassaniya (a variante do árabe que fala a maior parte dos Mauritanos). Parece perfeitamente integrada em Ouadâne, onde toda a gente a conhece e toda a gente a cumprimenta com o complicado ritual Mauritano: são sete ou mais frases encadeadas, tipo pergunta resposta que se proferem sem olhar o interlocutor directamente. Vagamente: -

Salam Aleikoum! Aleikoum Salam. Eiec Labés? Al hamdoulilah. Mash Allah! …. ….

E por aí a fora. Parece que quanto mais velhos mais perguntas respostas vão acrescentando. É divertido de ver, garanto-vos. A Isabel deu-nos a sua visão de algumas características que imputava aos Mauritanos. São simples, alegres, delicados, maliciosos, brincalhões... conservam aquela delicadeza árabe que nos dedicam os Marroquinos, mas adoram uma chalaça, um trocadilho, uma brincadeira. Não têm televisão, logo, são pessoas simples. A religião rege parte importante do seu modo de viver. Mas são indubitavelmente humanos e sensíveis. As mulheres trabalham e muitas são auto-suficientes. São islâmicos, logo a poligamia faz parte. O divórcio é admitido e muito frequente, e ao invés de estigmatizar as mulheres, aumenta-lhe a cotação! As mulheres com mais divórcios são mais desejadas. As relações são entabuladas sem o objectivo de durarem para sempre. Quanto à poligamia, parece que após o primeiro casamento as mulheres podem impôr exclusividade! A mim parece-me que eles flirtam e se divertem à grande a despeito das limitações impostas pela religião. São racialmente muito variados, do tipo árabe/berbere (mais numeroso) ao negro, há de tudo. E as mulheres têm rostos


francamente bonitos. No total, são só cerca de três milhões de mauritanos. E o território tem duas vezes a área da França! O que põe a Mauritânia em sétimo no top dos países menos populados do mundo, logo atrás da Austrália. A propósito... o primeiro do top é a Gronelândia e o segundo é... o Sahara Ocidental (se considerado como autónomo de Marrocos). Continuando nas estatísticas, e estou a citar o Big Brother (o CIA World Fact Book): a esperança média de vida de um mauritano são 52 anos. A de um tuga são 76 anos. Para enquadrar ainda melhor os dois países, o nosso e o deles... a de um marroquino são 70. Ainda segundo a CIA, 50% da população vive abaixo do limiar da pobreza. Em Marrocos "apenas" 19%. A definição de limiar de pobreza não é simples, mas esta medida, aliada à esperança média de vida dão uma boa noção da diferença entre estes dois países, mesmo para leigos em geografia como eu. Não vimos crianças com fome ou aspecto subnutrido, mas uma francesa que conhecemos em Chinguetti, guia na Mauritânia há 11 anos, era promotora de uma associação contra a pobreza infantil. Explicou-nos que há efectivamente pobreza e que atinge muito os adolescentes, sem grandes saídas para subsistir. Parece que o país está em transição da antiga sociedade nómada, pastoril, para algo difícil de definir. Oitocentas mil pessoas vivem na capital, Nouakchott! Não consigo imaginar o que fazem. Li algures que são nómadas empurrados para lá pelas grandes secas dos anos 90. É curioso pensar que todos viviam em tendinhas arrumadas há poucos anos e agora habitam aquela espécie de bairro de lata gigante. Dessa parte, do bairro de lata, vimos pouco. Chegámos já de noite. Mas no dia seguinte, em direcção à praia também vimos hoteis, dos bons, e vivendas de embaixadas em bairros que pareciam agradáveis. Nada de sotifisticado, mas mesmo assim um contraste. Em Akjoujt o Quim chamou-me a atenção para a tenda nómada montada do outro lado da rua frente ao hotel espeluncoso onde recuperávamos da noite em jejum. O vento levantava a habitual areia mais a poeira que se forma nas cidades, havia lixo espalhado por toda a parte. Uma mulher no chão da tenda protegia a boca com o véu cada vez que passava um automóvel e a poeira se adensava. Uma noção de desconforto, de desadequação era evidente. Nómadas na cidade. Contradição. No dia em que nos separámos no carro acabámos, já noite dentro, por pedir água num acampamento nómada. Havia um poço mesmo ao lado da pista. O acampamento estava uns 30 metros para dentro. Uma fogueira ardia protegida do vento por um entrançado de arbustos - devia ser a cozinha. Lembro-me pelo menos de um homem, uma mãe com um bébé de colo, uma avó?, outra mulher


que nos ofereceu chá, ...? Era o serão, estavam todos na sala, a uns 10 metros da cozinha: um tapete grande no chão onde também nos abancámos. Um pouco mais ao lado, a tenda, ou seja, o quarto. Tudo parecia calmo, limpo, arrumado, em ordem. Depois dos nossos agradecimentos pela água e pela hospitalidade, mostraram-nos a mão da avó. Estava infectada, provavelmente tinha um corpo estranho. Fiz-lhe o curativo possível, perante uma plateia super atenta e divertida com a mímica com que nos entendemos. Deixámos-lhes o betadine e a bacitracina, pode ser que aquilo se componha. Foi um momento engraçado, os três extravagantes viajantes a bancarem o Schweitzer, emocionalmente rôtos no fim de um dia com muitos quilómetros e muito calor, sem almoço e com pouca água. Acho que nos pôs a pensar que outro tipo de viagens, ainda mais gratificantes, se podem fazer por ali. Os muçulmanos têm o dever da hospitalidade. E pelos vistos praticam-no. Deve haver uma razão prática para estes preceitos e neste caso pode derivar do modo de vida nómada. Acolhe agora e serás acolhido depois. Como gosto de complicar as coisas, penso com alguma ironia que preferia que a hospitalidade deles não tivesse fundamento religioso. Reflectindo melhor, seria mais autêntica? Claro que não. Tudo o que é bom é preceituado por uma religião ou outra e não deixa de ser bom por causa disso. Acho que esta minha complicação mental é da mesma ordem da que me leva a ficar chateado por se vender Coca-Cola em todo o lugar da Mauritânia com mais de 5 habitantes. Tenho aquele fútil desejo turístico de visitar locais não turísticos ☺. Nada a fazer... Nouakchott foi um delírio! A nossa chegada à hora de ponta do fim de tarde! Os taxis colectivos tipo Ford Transit com mais de 40 pessoas dentro, as buzinadelas, os calhambeques, a boa disposição de toda a gente, a confusão do trânsito... e tivemos lá uma ocasião apoteótica: o nosso jantar de luxo, lagostas e gambas e mousse de chocolate, regados a Sagres, tudo no dia seguinte a termos pernoitado sem água nem jantar à beira da pista para Akjoujt. Contrastes, contrastes, contrastes... Por onde fomos passando comia-se invariavelmente cuzcuz, normalmente com carne de camelo (poucochinha) guisada com vegetais que não sei de onde provêm. Em alternativa ao cuzcuz só o esparguete! O pão é excelente em todo o lado! Comprámos alternadamente os redondos e outros, óptimos, tipo baguete. Ainda um último número. A percentagem de terra arável em Marrocos: 20.12%. O mesmo para a Mauritânia: 0,48%!!! De facto as únicas áreas cultivadas que vimos foram os oasis. Aí fazem pequenas hortas e cultivam os palmeirais de tâmaras. Os produtos frescos são raríssimos e passámos em muitas localidades que não têm um centímetro quadrado de cultivo. Cenouras, tomates, cebolas e laranjas passaram a ser um luxo para nós!


As crianças são outra das atracções da Mauritânia. São em regra delicadas e percebe-se que gostam de praticar connosco o francês que andam a aprender na escola. "Je m'apelle Said, et toi?" e eu com o meu tosco franciú a deseducá-los! O célebre "Messieur, messieur, donnez-moi cadeaux, bombom, BIC, argent..." faz parte do repertório. É um sinal de que já lá passaram as caravanas de turistas broncos que indiscriminadamente oferecem bugigangas, muitas vezes sem sequer parar o carro. Percebe-se aliás, tal como em Marrocos, que as crianças de mão estendida não são uma visão agradável para a maior parte dos adultos. Normalmente aparece alguém a pô-las na linha. Se lhes dermos dois dedos de conversa os tipos desarmam o "donnez moi" e tornam-se simpáticos. Tenho pena de não ter levado uns quantos mapa mundi para dar aos putos e explicar-lhes de onde vínhamos. Os portugueses são muito poucos por ali e invariavelmente o primeiro palpite deles era que seríamos espanhóis ou italianos. De qualquer forma diverti-me a desenhar mapas na areia enquanto assassinava a língua do Victor Hugo a explicar-lhes que tínhamos atravessado um "petit mére" num "bateau avec les motos". E também gostava de ter levado umas polaroids para poder deixar umas fotos. Teriam de ser usadas muito judiciosamente sob pena de iniciarmos verdadeiros motins " messieur, messieur, a moi, a moi!!!..." Agora uma informação bombástica: o Figo, o nosso embaixador cultural, é um desconhecido na Mauritânia! O Zidane tod'a gente sabe quem é. O Roberto Carlos também tinha adeptos, agora o Figo, Fígu, Figou, Figô... nah, não houve uma alma a quem fôsse familiar! "Para a próxima..." foi uma frase que se ouviu muita vez entre o grupo das 4 semanas. Discutiam-se as preferências de cada um relativamente aos formatos possíveis. Por muita realização que esta viagem nos tenha proporcionado, todos temos uma concepção ideal arquitectada na cabeça e essa concepção não bate com esta viagem. Acho que isto também é normal. É a ânsia de fazer melhor. Que esta viagem nos tenha indubitavelmente realizado, nos tenha motivado a fazer outras, nos tenha aberto os olhos para o verdadeiro deserto ao extasiarnos no El Hammâmi e no Maqteïr, é o mais importante. Depois disto, vejo as minhas viagens anteriores a outra dimensão. O primeiro dia em que atacámos o tal El Hammâmi na véspera do capotanço da Toyota ficará para sempre na minha memória. Perceber a imensidão, a regularidade suave daquele espaço, os camelos que flutuavam na paisagem... acho que todos, deslumbrados, dissemos "irreal" ou "surreal" ou qualquer coisa do género, porque pura e simplesmente não sabíamos que mais dizer. O mesmo para a planície imensa, lisa como um espelho, que nos apresentou ao Maqteïr.


Passámos muitos outros pontos de paisagem deslumbrante. A duna onde almoçámos sob um céu de tempestade no dia do ataque ao Maqtëir e o shott adjacente mesclado de areia branca, branca, branca. O oásis de Mhaireth. Os gueltas. O desfiladeiro de Toumgat, essa espécie de rio/estrada bordejado de dunas e pedras que subia a montanha - dava para ir galgando a areia de um lado e do outro - como o Poço da Morte dos Pequeninos! O Luís aí quis fazer a trialeira dos camelos. Não nos viu arrancar e fez um caminho paralelo a que não se pode chamar uma pista. Como achou que a dificuldade era pouca ainda se mandou a uma descida impossível para se juntar à tal pista principal que corria entre as dunas! O caminho pedregoso que daí arrancava tinha outra panorâmica maravilhosa. Tal como a envolvente de El-Beyyed. E como o primeiro cordão de dunas que nos venceu, na direcção de Akjoujt! Ou ainda o Zarghe, o monte pedregoso a que se chegava por um campo de dunas e erva camelo de proporções gigantes. A paisagem é monumental na Mauritânia. E no entanto surpreendeu-me menos que em Marrocos, onde tudo parece enorme e vasto, mas é por comparação mais pequeno. Em Marrocos andamos 20 km's e a paisagem que parecia infinita transmuta-se noutra que também parece enorme. Na Mauritânia esses contrastes surgem menos amiúde, talvez porque a vastidão do território seja efectivamente de uma escala superlativa. Mas atenção! Não estou a comparar qualitativamente as virtudes das paisagens destes dois países. Seria como eleger um filho preferido. Quatro semanas são muito tempo. Ou muito pouco. Muito tempo para estar com as mesmas pessoas. Muito tempo porque depois só há mais para o ano... Mas muito pouco porque nos faltou tanto que ver, tanto que conversar, tanto para aprender, tanta gente para conhecer. Investir todas as férias de um ano é difícil! Mas mais difícil teria sido não ir. Outro assunto recorrente nas nossas conversas ao luar: o que fazer na vida para ter mais tempo deste. Totolotos, negócios próprios, licenças sem vencimento, mudanças de vida. Aceitam-se sugestões. Uma semana depois ainda me custa estar entre quatro paredes. Ainda me sobra um bocadinho da imensa calma com que me sentia dias após o regresso. Mas vinha efervescente de ideias sobre a viagem. Não podia, não conseguia discutilas com os aliens que não foram - daí pôr-me a escrever isto. Por outro lado vinha estranhamente alheado, em paz com a vida quotidiana. Lentamente, a coisa inverte-se, e a vidinha retoma o seu curso. Mas gostava de guardar uns jerrycans de calma para usar mais tarde. Ah e é bom rever e reler os amigos, a família. Foi só um mês, mas já me faziam falta.


Agora que acabo este escrito faz exactamente uma semana que regressámos. O ano tem cinquenta e duas, menos as quatro de férias mais a que já passou faltam-me 47 semanas... acho que vou fazer traços na parede. A tal minha concepção ideal de próxima vez é qualquer coisa na vertente overlander Insh'Alah. Duas ou três motos. Dois ou três motards. Pouco alarido e menos debate significam mais tempo para resolver os tais imponderáveis que salgam a vida. Daremos menos nas vistas, teremos mais tempo por contacto. Tempo para conhecer melhor as pessoas de lá e os seus sítios. Menos GPS's ☺.Mais conversa fiada lá com aquele pessoal. Implica ainda mais tempo (o que parece mesmo impossível) ou menos distância. Humm... e sem carros não há ergs... pois..., é difícil decidir. Como em tudo na vida, não deve haver uma única resposta, nem sequer no plano ideal. Ou seja, não vale a pena estar aqui com concepções teóricas de viagem ideal e para a próxima logo se vê! Insh'Alah!


Relato Mauritania 2004