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espedaรงo ian c.lima


é preciso uma arte, consoante à sensação subalar que ela progride em nós na unissonância de humanidade. é preciso essa arte para não sermos triturados pelos laivos da verdade que podem nos surpreender com conquistas


imaginando oceano, as crianças brincam na poça d’água carlos novais


na madrugada, as coisas são tênues, sujeitas a qualquer feitiço. velejam inusitados confins essa hora de corujas douradas e de auréolas voando sugestivamente. essa hora apurada, tão calada, cravada de desejos tão ascendidos. como sair de um corpo. uma liberdade sem alcance, ao desconhecido.


hoje seus olhos foram criados para testemunhar um monólogo um monólogo meu intruso e memorável alegre sim eu pendi no lugar do pêndulo da língua de Arp e você riu:


a ilusão vive dentro de mim eu posso sentir ela se movendo às vezes ela adormece bem pouco no silêncio de seu quarto mas então seus olhos olharão através dos meus e ela falará na minha boca quando houver Presença e eu, também, vivo dentro de mim e muito freqüentemente não sei quem sou mas quando sei, sou cedo


.molhando a língua. – o objeto das vontades – espelho dos desejos do sonho meu e teu quando se ama lá fora é pequeno e, mulher, só importa aqui dentro alma, corpo de cheiro mulher minha mão sabe teu caminho e saber pra surrar de carinho o que a mão toca não é menos o que o coração inspira vivo em você depois de ter vivido em mim tanto tempo tanto tempo é a arte lembrando que se tem alma


por minhas mentiras, eu – no mundo – descobrindo a tua verdade tu como uma nuvem de arte e Presença e mesmo ainda é sempre como um caminho inacabado instante de eternidade te cultivam e pouco se é revelado é o novelo de sensações novelo de e a vida sem arte é quase uma morte é quase tu sem mim


I Uma fita toca ruidosa as minúcias de uma lembrança que despeja, agrada e provoca estalos nos batimentos. Provoca ainda, como se não fosse mais possível, uma surpresa inopinada, um clarão e seus olhos. Seus olhos de cor sutil da aurora que inverte cores e suaviza as mentes mais alucinadas, a aurora que treme no nosso amor feito e refeito ao som do tango e da chuva tão cristalina, quase como seus olhos.


II Tuas noites são teus olhos onde brilham estrelas e pestanejos verdes onde fulguram tímidos sonhos. Vem hoje no meu coração, que a madrugada é como teus olhos, cheia de provocação.


são finas as horas dos fios de sol espelhando a franja na orelha beijada. o corpo suave como uma dança de vento ensolarado o Beijo como um castelo de cartas, de janeiro, de sol, de vento. os corpos todos celestes, as estrelas todas brancas, brancas de pêlo, de luz, de panda. o se pôr como casa, como espuma. o olho como o estalo dos asteróides de lágrima e esperança, o aperto rítmico da veia, de sexo, de onda, de ter.


no quarto de chuva somos arte como se a vida não bastasse? somos eu e você (como um caminho inacabado, mas não é)


(a arte é um fruto que cresce na árvore homem cresce de várias espécies nem sempre por assim maduras pra sempre nem sempre é o individualismo total assinando a civilização pisa além da faixa do conhecimento é um passo misterioso revoltando-se contra o destino tornando visíveis os reflexos do nada)


e essa noite é o seu corpo de criança refletindo alguma exatidão uma exatidão alada alada de cores incisas da chuva é o ritmo lento de todas as manhãs incandescendo num sono relapso e teu na chuva oblíqua e torta de curva essa noite ninguém é ali não há traço nem forma só vazio e fome e sede de chuva


há um triunfo nisso tudo, nessa vida tonta de impressões, de querimento: uma humildade cruza as imagens da vida, perpetua-se em um coração no meio do bosque de um oásis urbano. há uma confiança que transa preocupada de vida, uma vida solística e matéria: as veias de luz estão finalmente encontrando seu lugar.


Publicado em Vitória da Conquista, BA em janeiro de 2012 (ebook, 1ª edição) Capa, fotografia: babi

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espedaço