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D. Luís Vermell y Busquets, pintor catalão do século XIX, que se autointitulou de “Peregrino Español”, viveu e trabalhou em Portugal, entre 1868 e 1881, ano em que morreu a 5 de Maio, no Hospital Real de Santo António, no Porto. Versátil nas artes da miniatura, aguarela e escultura, exímio enquanto retratísta e autor de interessantes monografias. D. Fernando II honrou-o com o título de escultor e entalhador da sua Real Casa. Homem de fé, Vermell deixou importante obra repartida por Espanha, Itália e Portugal e está representado em colecções particulares, museus e igrejas. O seu retrato está colocado no Centre Excursionista de Catalunya, em Barcelona.

O Pi n tor Cata l ão Fotografia de João Carrolo

Lluís Vermell i Busquets em Portugal José Fernando Reis de Oliveira

BY T HE

BOOK 9 789898 614421

Outros títulos da editora: António de Magalhães Ramalho Árvores, contadas de outro modo Bonecos de Estremoz, Etnografia e Arte Cadernos de um Cirurgião Caramulo, Ascensão e queda de uma estância de tuberculosos Cosido à linha, colado a quente Escola Médica de Salerno Médicos Medievais Naturais de Al-Andaluz O Hospital de Todos-os-Santos Thyco Brahe, Um astrónomo fabuloso no Reino da Dinamarca www.bythebook.pt


Índice

7 Nota

prévia

9 Introdução 15

Breve notícia sobre Lluís Vermell antes da sua chegada a Portugal

21

Vermell em Portugal

33

A estadia de D. Luís Vermell y Busquets em Elvas

51

O “Peregrino Español” prossegue as suas viagens

67 Nota

Final

71

Monografias de Luís Vermell y Busquets

73

Fontes e Bibliografia

81 Agradecimentos 83

O Autor


6


No t a p r é v i a Quando, em 2008, fiz investigação em Elvas para preparar a comunicação “Notícia de alguns ex-votos do Santuário do Sr. Jesus da Piedade de Elvas: um olhar etnográfico” realizada a 11 de Novembro, na Secção de Etnografia da Sociedade de Geografia de Lisboa, tomei conhecimento, naquele ano, da existência, no Santuário do Senhor Jesus da Piedade daquela cidade, de um ex-voto pintado por Lluís Vermell, o pintor catalão que a partir de determinada altura da sua vida se autointitulou de “Peregrino Español.” Localizado o ex-voto começou o meu interesse por aquela personagem e também das razões da sua presença em Portugal e particularmente em Elvas, que visitou, quando fazia uma digressão pelo Alentejo e ali residiu durante dez meses. Vermell, que persistentemente trabalhou na sua pátria, deixou obra repartida também por países como Itália e Portugal, entre outros, salvando do esquecimento muitos monumentos. Tal facto encorajou-me a dedicar algum do meu tempo, entrecortado com outras investigações, a uma recolha mais aprofundada sobre a obra de Vermell durante os anos que viveu entre nós. A tarefa não se mostrou fácil dadas as inúmeras lacunas referentes ao seu quotidiano e sobretudo à localização dos seus trabalhos. Exímio no retrato em miniatura, que a fotografia viria a destronar, Vermell desenhou monumentos, pintou aguarelas, foi escultor em madeira e outros materiais, modelando em sal-gema, por exemplo, e escreveu pequenas monografias. As suas miniaturas, em aguarela e guache, retratavam, de forma particularmente parecida, os clientes, utilizando o marfim, o cobre ou o pergaminho, como suporte. Em suma: artista autodidacta, foi pintor de retratos em miniatura, aguarelista, escultor, entalhador de pedras, viajante intrépido. Em Portugal, o pintor assinava Luís Vermell y Busquets. 7


8


I n t rodução

L

luís Vermell i Busquets, que nasceu em

Sant Cugat del Vallés (Barcelona) a 10 de Novembro de 1814, filho de Miguel Vermell, tabelião, e de Ramona Busquets, viria a falecer no Porto, no Hospital Real de Santo António a 5 de Maio de 1881, data desde logo apontada por Vitorino d’Almada n’O Elvense, jornal em que de forma circunstanciada e baseando-se em relatos de amigos que identificou, diz ter tido conhecimento em Elvas da morte do pintor.1 As diversas versões postas a circular sobre a data e local da morte de Vermell, constantes em Enciclopédias, mostram-se insuficientes umas, destituídas de fundamento outras. A Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-americana da Espasa/Calpe foi mesmo omissa quanto à sua permanência e labor desenvolvidos em Portugal, apontando Barcelona e 1862, como local e data da morte de Vermell 2 mas que, segundo outros autores, teria ocorrido naquela cidade em 1868 (quando nessa época estava em Braga!) Há depois as versões de Inocêncio Francisco da Silva que aponta o Porto e concretamente o Hospital de Santo António, como local em que o pintor teria morrido, ignorando porém em que ano.3� 1.  Vitorino d’Almada – O Elvense, n.º 78, de 23 de Outubro de 1881, p. 1.

2.  Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-americana, Tomo LXVII, Madrid : Espasa/ Calpe, 1929, p. 1560. 3.  Inocêncio Francisco da Silva, in Dicionário Bibliographico Portuguez, Vol. 16, Lisboa : Imprensa Nacional, 1893, p. 387. 9


Também a revista O Occidente, em dois pequenos textos relativos a desenhos de Vermell, reproduzidos nas suas páginas, aludia ao falecimento do pintor: em 1 de Abril de 1882, no Vol. V, n.º 118, p. 78, a propósito do “Baixo relevo encontrado em Elvas” e depois no mesmo Vol. V, n.º 143, p. 278 a propósito do “Cruzeiro em frente da egreja de Villa Viçosa”. A Enciclopédia Portuguesa e Brasileira 4 ,�que é mais abrangente sobre a obra de Vermell, ignora a estadia em Elvas e o ano da sua morte, assumindo o referido por Inocêncio da Silva. Eloy Martinez Lanzas 5 aponta 1890 e Barcelona como a data e local do falecimento de Vermell acentuando que o jornal La Vanguardia, de 26 de Novembro de 1894, mencionara na secção de notícias locais que o Sr. Ramon Nonat Comas, sócio do Centre Excursionista de Catalunya, leria uma nota obituária sobre o pintor. Em 1895, o retrato de Vermell foi colocado, por Jose Maria Comas, na Galeria dos Excursionistas Célebres, do Centre Excursionista de Catalunya, pela forma como enriquecera a Catalunha com as suas obras. D. Bonaventura Bassegoda, arquitecto notável, historiador e arqueólogo, no discurso que proferiu na sessão solene para admissão na Real Academia de Buenas Letras de Barcelona, a 12 de Fevereiro de 1922, socorreu-se das memórias manuscritas de Vermell que lhe tinham sido gentilmente postas à disposição por Amèrica Cazes de Comas.

4.  Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, ed. Lisboa/Rio de Janeiro, Vol. XXXIV, pp. 686-687. 5.  Eloy Martinez Lanzas – “Lluís Vermell i Busquets (1814-1890) pintor de retratos en miniatura” – coleccion de miniaturas. blogspot.pt/2008/10/lus_Vermell_pintor_ de_retratos_en.html, p/14/16. 10


O tema escolhido “Lluís Vermell: esculptor i pintor de retrats” 6 constitui leitura e estudo obrigatório para melhor entendermos esta personagem. A obra é precedida da reprodução de um auto-retrato do artista, assinado e feito a lápis em 1855, pertença da colecção de D.ª A. Cazes de Coma. Bonaventura Bassegoda reportando-se ao diário incompleto de Vermell analisa os seus trabalhos, os altos e baixos que a sorte imprimiu à sua carreira e à dispersão da sua obra, quer no tocante às esculturas, quer aos retratos em miniatura. Salientou Bonaventura Bassegoda, no intuito de fazer um retrato moral de Vermell, o que o mesmo escreveu: “yo Luís Vermell empiezo a escribir mi vida el primer dia de julio del año 1842. En ella tambíen doy noticia de mis obras artísticas y la descripción de algunas originales mias. Prólogo (…) si algo de mi escribo, es por hacer presente los medios que he puesto para el bienestar de mi família, aunque hasta ahora han sido infructuosas” 7. No seu discurso Bonaventura Bassegoda precisou a obra de Lluís Vermell em três fases, a primeira de escultura em Roma; a segunda dos retratos, salientando que nos meses de Fevereiro e Março de 1847, que passou em Vilafranca del Penades, se começara a sentir a concorrência que lhe fazia “la portentosa máquina de Daguerre” 8 obrigando-o a baixar os preços; a terceira fase foi a do álbum: “més retrats”, conjunto de esboços dos retratados, indicando nome, local e data em que tinham sido feitos constituindo um documento precioso de uma época. Entre os esboços, o de um homem de cerca de quarenta anos, de barba e espessa cabeleira com uma indicação fragmentada de ter sido feito em 1858, supondo-se que é um auto-retrato de Vermell.9 6.  Bonaventura Bassegoda – “Lluís Vermell: esculptor i pintor de retrats” (Discursos llegits en la “Real Academia de Buenas Letras” de Barcelona), Barcelona, 1922. 7.  Bonaventura Bassegoda – op. cit., p. 18. 8.  Idem, p. 30. 9.  Idem, p. 36. 11


Constata-se assim que o artista dominava a técnica de miniatura e que trabalhara nas principais localidades da Catalunha; e por fim, Bonaventura Bassegoda salientou a faceta de Vermell excursionista desde as referências ao claustro e Igreja românica de San Cugat del Vallés, passando por Nápoles, Roma, Ampúrias, Tarragona, Poblet e Montblanc em 1851, interrompendo-se aqui o diário quando de novo visita Poblet ainda que mencione a ida a Paris, mas sem quaisquer comentários falando, no entanto, da sua viagem a Madrid via Valência, “perdendo-se aqui o rasto do pintor e escultor” 10 .� • O relato de Vitorino d’Almada contrastava com as datas e locais que outros autores apontaram para o ano e local da morte de Vermell bem como com o que na Catalunha se escreveu sobre o pintor ter chegado a Barcelona em data incerta e de que morrera naquela cidade em 1890. Tendo acedido aos dados disponíveis no Arquivo Distrital do Porto pôde confirmar o referido por Vitorino d’Almada. Com efeito, Luís Vermell y Busquets, viúvo de Josefa Torrez (ou Torrà), filho de Miguel Vermell e Ramona Busquets, natural de Barcelona e residente na Rua Chã, pintor de quadros, deu entrada no Hospital Real de Santo António a 26 de Março de 1881 (livro de entradas de particulares a folhas três, número cinco) e ali faleceu, com 66 anos de idade, no dia 5 de Maio daquele ano, em consequência de “infiltração urinosa” tendo sido sepultado no cemitério público da cidade do Porto.11 Vermell vivia à data em casa de D. João Abril na rua Chã.

10.  Idem, p. 41. 11.  Cf-PT/ADPRT/PRQ/PPRT16/003/0014, assento 10, fls. 198. 12


No Arquivo Municipal do Porto (Casa do Infante), compulsamos o registo de enterramentos e falecimentos efectuados no Cemitério Público d’Agramonte onde consta que Luís Vermell y Busquets foi ali sepultado no dia 6 de Maio de 1881, repetindo-se os dados constantes do registo do Hospital Real de Santo António, do pintor então residente na Santa Casa da Misericórdia, indicando-se a hora do passamento: 8 horas da manhã e todos os dados referentes ao canteiro e número de sepultura (Registo de Enterramentos effectuados no cemitério d’agramonte; p. 56 (1881, Maio, 6; canteiro 14, sepultura 1742; nome do falecido: Luís Vermell y Busquets; filiação: Miguel Vermell e Ramona Busquets; naturalidade: Barcelona; idade 66 anos; viúvo; pintor; morada: Santa Casa da Misericórdia; de que faleceu: infiltração urinosa).

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© Edição By the Book, Edições Especiais Título O Pintor Catalão, Lluís Vermell i Busquets, em Portugal © Texto José Fernando Reis de Oliveira © Fotografia José Fernando Reis de Oliveira Dias dos Reis (pp. 53, 60) Impressão Real Base ISBN 978-989-8614-42-1 Depósito Legal 420383/17

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O Pintor Catalão, Lluís Vermell i Busquets, em Portugal  

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