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ANO I • NUM. I • AGOSTO 2013

Esta publicação faz parte do projeto Sr. Calvino da Cia. Artesãos do Corpo, contemplado com o Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua 2012. Em sua primeira edição, a revista PARARUA conta com os seguintes artistas e colaboradores:

Publicação Coordenação e idealização Mirtes Calheiros e Ederson Lopes Projeto gráfico e ilustrações Bruno Pucci Colaboradores (textos e entrevistas) Diogo Soares, Jorge Schutze e Marcelo Catelan fotos Fábio Pazzini

Espetáculo Direção Mirtes Calheiros Intérpretes/performers Ederson Lopes, Fany Froberville, Leandro Antonio, Margarita Hernandez, Mirtes Calheiros e Odete Machado Pesquisa musical e sonoplastia Marcelo Catelan Projeto gráfico Bruno Pucci Registro Fotográfico Fábio Pazzini Registro em vídeo Carlos Segundo

Contato contato@ciaartesaosdocorpo.art.br +55 11 3667-5581

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A dança e o espaço público – caminhos a percorrer... erá que estamos sensíveis à passagem das estações na cidade? Quais detalhes nosso olhar destaca no imenso turbilhão de imagens e informações presentes no cotidiano das grandes cidades? Que recorte nós escolhemos e o que de poesia, indignação, reflexão e sorrisos extraímos desse fragmento de realidade? Ocupar a rua com a dança é um exercício poético e político, pois ao trazer para o espaço público um corpo que se movimenta reelaborando esteticamente a realidade urbana, podemos refletir sobre o real sentido da rua: Lugar de estar não só de passagem. Local de convívio não da exclusão, espaço de trocas simbólicas e afetivas, não só do consumo. Ambiente perfeito para a dança dos heróis anônimos como o Sr. Calvino. Os textos que compõe essa publicação transitam por ruas distintas: dança, cidade e literatura. Essas vias cruzam-se, deslocam-se em paralelo, apontam para caminhos diferentes, mas pertencem ao mesmo mapa. Cabe ao leitor traçar uma cartografia pessoal e deixar-se guiar por sua intuição. Se você se perder não se preocupe, pois até o grande viajante Marco Polo já passou por isso e confidenciou: que quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá.

Ederson Lopes

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rua. busca de sentido faz parte do vai e vem das pessoas que passam e repassam nas ruas (o mesmo trajeto todos os dias?) fazendo coisas e mais coisas? As mesmas coisas? Ou será que apenas o vai e vem da mãe que empurra o filho na cadeira de rodas, contenha no extremo sacrifício, um sentido nobre? Ou talvez, muito mais sábios do que aqueles que filosofam, eles já chegaram a conclusão de que nada faz mesmo nenhum sentido e que a vida, como diria E. Cioran (Silogismos da Amargura) não resiste a uma interrogação mais séria. O pobre de espírito que passa indignado com nossa presença alegre faz o que de sua vida? Enfia o dedo no nariz em seu quarto imundo para depois apontá-lo para os artistas decretando a volta da proibição da arte nas ruas? O que faz com que as pessoas enfrentem o passar das horas e dos dias indiferentes às presenças ou ausências, ou conflitos ou necessidades, como se fossem viver pra sempre? Como se pudessem abrir mão do pouco de arte que sobrou nessa cidade bruta? Feliz daquele que faz o que gosta! Algum sábio ou mestre já deve ter declarado tal máxima.


Mirtes Calheiros*

Ali parados, atrás da igreja, como Marcovaldos, vendo as pessoas, as folhas voando, sentindo o cheiro do lixo, as formas sub-humanas no chão, o jato de água que mistura tudo isso numa ilusão de limpeza, logo seca e sedimenta os desgostos da noite anterior, as cadeiras de rodas, as crianças arrastadas pelo adulto com pressa, estudantes desgastados, os idosos sempre cuidadosos com seu pisar, os funcionários (terceirizados) de alguma empresa que vêm com novas mudas de flores para substituir as já queimadas pelo sol e pela inadequação do plantio num lugar onde à noite as regam com restos de cerveja, e já começa o cortejo da hora do almoço, quando todos vão aos quilos (comer?), as garrafas sendo descarregadas de algum caminhão que parou em lugar proibido e força tudo ser mais rápido até todas as garrafas caírem do carrinho, o cheiro de vela que emana da igreja onde os votos são colocados, algum pombo come o que sobrou do saco de lixo desfeito, as nuvens altas e os urubus que voam indiferentes a tudo isso.

Ainda se cabula aula? Ainda se joga o material pela janela para poder passar pela porta sem ser notado e ganhar a rua, então expressão de liberdade (e olha que eram anos de chumbo!) e pegar o ônibus que levava uma hora para chegar ao Aeroporto e ficar vendo avião subir e descer, ou ir ao alto do Edifício Itália e ver a cidade lá de cima? Ali parados, já levantando suspeitas ( afinal é quarta feira, dia de trabalho, hora de estar preso numa sala artificial sem luz e ar) a vida sem pé nem cabeça, ou com a cabeça para um lado e os pés do outro lado da rua, tentando reunir, braços e pernas para o ar, Marcovaldos, sonham um largo da dança. A música? Italiana é claro. As pessoas passam e começam a diminuir a velocidade do caminhar. Outros saem às janelas. Olha. Não, não olha: é só ensaio! Mas que ensaio? Na rua não tem disso não. Deixa assim. De cena em cena, de objeto a objeto, vai nascendo Sr Calvino. As pessoas passam, dão palpite, e mesmo as que não olham, mesmo as que jazem no chão e acordam e saem discretamente com educação de lords e mantos de reis para não ficar no caminho. Imagine, não precisava. Mulheres vestidas com as mesmas roupas, embora pensem que estão vestidas com roupas diferentes, nos abordam para dizer que gostaram. Gostam quando, lá de cima do escritório, ouvem nossa música e sabem que estamos lá embaixo. Os homens de terno não sabem bem o que fazer e colocam as mãos no bolso esperando pela reação do outro e as moças do salão de cabeleireiro vêm escorregar no banco de político, e quem sabe, dançar com um dos meninos. Não importa! Como Palomares, Marcovaldos e como nós mesmos e muitas quartas feira depois, 7 cenas para Sr Calvino: O Círculo sem saída com dança; Banco de político; O Camelô de Óculos Galante; Ao Laerte com amor; Palomar e as formigas; Ora Bolas, aviões e Malas; As nuvens do céu no chão Calvino: essa cidade invisível, quando a gente dança fica um pouco mais parecida com uma cidade feita para pessoas. Aquelas que você escrevia para Marco Polo contar pra Kublai Khan. Obrigada pela inspiração. *Mirtes Calheiros é socióloga, bailarina e diretora da Cia. Artesãos do Corpo. Coordenadora artística do Visões Urbanas – festival internacional de dança em paisagens urbanas.

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Fábio Pazzini

registro do espetáculo Estado de Graça, da Cia. Ltda, apresentado no 4o festival Visões Urbanas, em 2009.


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Entrevista

UMA CONVERSA SOBRE O ESPAÇO PÚBLICO E A DANÇA. COMPARTILHANDO PAISAGENS E REFLEXÕES.

Ederson Lopes bate um papo com bailarino e pesquisador Jorge Schutze (Cia. Ltda – Maceió) sobre suas criações recentes, projetos e sobre a relação do artista com a cidade. Ederson Lopes: Para que dançar na rua? Jorge Schutze: Várias razões: acho a relação público e palco meio chata. Unilateral, sabe? O espectador de teatro raramente é “perturbado” nas suas questões, inclusive estéticas. A gente vai ao teatro e sai dizendo: gostei do figurino, não gostei da direção, etc. Essa relação não me interessa. Na rua o artista é mais um sujeito, e está sujeito a tudo. Parece-me mais vivo, mais relacional. Eu posso me testar nessa relação, e também me colocar diante das intempéries que a rua oferece. Posso questionar também meus pontos de vista, a partir do olhar dos outros. Posso me transformar. A gente se vê melhor quando numa relação existe de fato o outro com suas reações e conceitos e existe mais liberdade de exposição do que sente. O mundo é um lugar que inquieta, a sociedade que construímos como humanos, não dá conta do que realmente somos, do que sou. Acho que só posso criar minhas perguntas quando estou inserido nesse meio. EL: No seu ponto de vista, como é a relação dos cidadãos com o espaço público em Maceió e como a dança interfere e dialoga com as pessoas e com a arquitetura? JS: Existem vários quesitos que alimentam meu ser no espaço de Maceió. Eu sinto as pessoas livres para reagir, tanto favoravelmente como antagonicamente a uma ação artística no espaço público. A arquitetura é sempre questionada quando uma pessoa dança no espaço público: coloca em cheque a “publicidade” do espaço, com movimentos pouco usuais, cria a liberdade de auto-expressão mesmo na mediocridade da construção dos espaços. Em Maceió, a simplicidade das pessoas, e a espontaneidade acabam auxiliando-me na compreensão e questionamento dos espaços e do modo de vida que somos

obrigados a viver, submissos aos espaços. Eu tenho uma crise com o mundo, e por extensão com o espaço artificial das construções humanas, como ele está dividido, com suas regras, etc., e acredito que com a arte é possível questionar tudo isso docilmente, sem se ferir, sem se macular. As pessoas, também vítimas desse modo de vida, me auxiliam muito a entender todo esse processo. EL: E qual é sua percepção sobre São Paulo? JS: Quando se anda em São Paulo, se percebe a funcionalidade capitalística dos trajetos criados, mas também a insistência humana em buscar a liberdade, pelo menos expressiva, ou a aleatoriedade, a não função. Então o que é pra ser livre, não é tão inocente assim. O espaço tem suas normas: de conduta, de apresentação, de hierarquias, de privilégios, de comportamentos, etc, e fica claro que essa normatividade não é involuntária, ela tem cara sim, interesses sim, corpos sim; No cerceamento às liberdades o espaço urbano nos inibe o gesto aberrante, e parece que nele só é possível, ou permitido, ser mais um. Na cidade de São Paulo, nos espaços mais centrais, essa imposição esta colocada a priori, antes de qualquer duvida ou reticência. Quando uma pessoa de outros cantos se depara com tão forte normatividade acaba por sentir-se ‘a parte’, sente que precisa se educar rapidamente para poder se inserir nesses espaços, como se sua “animalidade” não fosse ali permitida, como se o corpo para poder fazer parte precisasse de um adestramento ao local. Às vezes nos sugere até que rastejemos ou urremos ou tomemos qualquer comportamento estranho, só pra garantir e reafirmar que somos livres, que podemos ser livres. Nesse sentido, quando o corpo se abre a dançar, a permitir que a estranheza do que sente se materialize num gesto ou movimento encontra sinergias e afeições tão rapidamente quanto encontra também desdém e repulsa, isso torna a dança uma aventura, um salto no abismo das afeições. E coloca o bailarino no seu lugar ecológico.

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EL: Fale um pouco sobre seu último trabalho: Domínio Público. Qual foi o impulso inicial, o desenvolvimento, as surpresas, o resultado... JS: Domínio Público é um projeto que ainda merece minha reflexão; em princípio abri os meus espaços para apreciar a expressão de outros artistas e dialogar com eles. O diálogo me interessa muito, eu curto muito a ideia de realizar uma obra não porque eu invento coisas, mas porque as coisas se intentam por nosso intermédio. Foi muito proveitoso, lidar com diferentes interesses e conflitos pessoais, é muito rico tentar perceber o outro, e tentar dar forma a inquietações. Isso causa muitos percalços, mas enriquece sensivelmente nossa percepção, pelo menos a minha. EL: Duas criações suas Estado de Graça e Despacho tem propostas diferentes de interação com o público e com o espaço. Queria que você explicasse um pouco cada proposta e o porquê dessa transformação na maneira de se relacionar com a rua e com os passantes/plateia? JS: Estado de Graça, tinha uma coisa do discurso unilateral, eu realizo uma ação e o público observa. Eu tinha coisas pra dizer pra Alagoas, fazia isso em frente ao Palácio do Governo (veja que nome: Palácio dos Martírios). Mas aos poucos foi me dando um vazio, porque aquilo era visto como obra de arte, uma canção, um espetáculo pra ser admirado. Alguns amigos ou pessoas mais ousadas vinham e me cumprimentavam: achei lindo isso ou aquilo. Isso me inquietava porque a relação era a mesma de um espetáculo de teatro, com a singularidade de ser

no espaço público. Não dialogava, me esvaziava. E ainda me colocava num lugar que eu não quero estar: fazer críticas pessoais contra isso ou aquilo. Eu fiz muito essa obra, porque eu tinha questões que só ela podia me ajudar a sentir. De repente eu resolvi usar terra, muita terra em todo o espaço que eu dançava. Contratei um carroceiro pra me levar a terra a tal horas no tal lugar. Pronto. Ele não chegava nunca. Eu fui ficando nervoso, ele não tinha celular, e eu não tinha minha terra. No meio dessa impaciência toda me dei conta, de que não somos donos dos incidentes que podem acontecer a qualquer um de nós. Não somos donos do tempo, ou mesmo do espaço. Dali em diante ao invés da terra passei a usar a inscrição Quem é o dono da terra? Depois de Estado de Graça, muita coisa aconteceu, resolvi montar um grupo, realizei Recursos Humanos, uma obra que se realizava junto com o público, que cada artista envolvido inventava uma maneira de se relacionar com as pessoas. Numa das crises desse processo, resolvi simplesmente dançar, e Despacho foi se configurando, na ação. É uma obra que desde seu embrião buscava a relação. Aliás no início nem era uma obra de arte, a crise era tamanha que eu resolvera nem mais dançar. Foi graças ao Visões Urbanas que comecei a tratar essa crise como obra de arte. Também fiz muito essa obra porque eu a construí junto com o espaço público. Foi a realização obcecada dela que foi me clareando o que realmente eu estava buscando, e partir dessas tomadas de consciência a obra ia se configurando, não pela minha decisão mas pelo acordo que se travava com o público. Eu gosto muito. Ainda me ensina muito.

Fábio Pazzini

espetáculo Ficção, em 2012.

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Fábio Pazzini

“ espetáculo Despacho, em 2010.

EL: Ficção, performance de sua autoria apresentada em 2012 em São Paulo, fala sobre a necessidade da elaboração de novas “realidades” para enfrentar o que está acontecendo no mundo contemporâneo. Seguindo essa linha de pensamento como você imagina o espaço público ideal, se é que ele existe, e como a dança se inseriria nesse mundo ficcional? JS: Acho que a arte, ou pelo menos minha arte, demanda diálogos, em todas as suas etapas e em todas as suas formas. Nós não vemos o mundo, vemos o mundo que nos é possível perceber, isso já é uma ficção. Mas porque decidimos atuar nele de forma vingativa, negativa, às vezes? Porque a realidade nos chateia tanto, se nós é que a construímos a cada gesto? Ou não é bem assim? Essa historia de Ficção tem consumido meu juízo. Eu ainda fico realizando ações nessa direção. Às vezes paro num ponto da cidade ou de qualquer espaço e fico só tentando entender como eu construí minha realidade, as vezes tão cruel e distante da minha Ficção. Fico olhando para o mundo, as pessoas, e tentando entender como a gente se relaciona com a realidade. Quando se conversa com qualquer estranho que surgir na sua frente, pode-se perceber que não é essa a realidade que queremos. Como rearranjar isso? A única resposta que encontro até aqui é ação. Agir para relações mais humanas, mais possíveis, mais aceitantes, menos julgadoras. Mas agir é também dançar. O que a dança tem com isso? Fico querendo que o espaço público, as pessoas, entrem num diálogo a esse respeito, é urgente, eu sinto. Estamos vivendo só por viver. Isso não pode ser indefinidamente assim. Você fala em ideal eu acho que ideal é dar vazão aos sentimentos, não importa, esse mundo é o que temos acesso, através desse corpo e dessa historia, então que seja por ele. Eu não sei ainda qual é a forma dessa obra, nem sei se se trata de uma obra de arte, só sinto que é urgente. E não se trata de uma crítica simplesmente à realidade, trata-se de encontrar modos de sentir a realidade.

Na rua o artista é mais um sujeito, e está sujeito a tudo. Parece-me mais vivo, mais relacional.

EL: Agora chega de perguntas. O espaço é livre/público para você falar o que quiser. JS: Dançar na rua às vezes, me pergunto por quê. O conformismo que o status quo nos reserva e propõe parece pouco. O corpo deseja, e deseja o inatingível. Uma vez dando uma aula, perguntei a um estudante porque ele achava que somos tensos, ele respondeu que o corpo queria voar, ser invisível, ser elástico, ser mutante, ter poderes, e a limitação material do corpo nos deixava angustiados. Reservava-nos um futuro previsível. Acho que sim, somos ansiosos e inconformados naturalmente. E sabemos de antemão que o corpo, como qualquer corpo material no tempo do espaço, vai definhar-se, vai corroer, apodrecer, enferrujar. Isso torna a dança uma urgência. Um corpo que dança se pergunta se é humano, se é confundível com o mesmo corpo do capitalista que faz o que faz com o mundo, com a relações e consigo próprio. Se pergunta se o que sente tem validade humana, diante da sociedade humana criada. Não se conforma. Fica indignado diante dos sacrifícios corporais impostos pelos próprios seres humanos, e suas construções, e quer uma revolução. Apela para que todos dancem, se sensibilizem consigo próprios e com os outros e o espaço. Apela aos nossos desejos, nosso corpo. A rua é um campo de batalha, nesse sentido, é onde se pode por a prova, testar limite, ousadia, conivência, questionar-se questionando tudo. Um festival como o Visões coloca o espaço em xeque.

Jorge Schutze é professor e bailarino coordena o núcleo Cia.Ltda. em Maceió-AL - http://companhialimitda.blogspot.com.br/ Ederson Lopes é intérprete da Cia. Artesãos do Corpo, diretor de produção do Visões Urbanas – festival internacional de dança em paisagens urbanas

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p or DI OG O S O A R E S *

A memória é um dos temas fundamentais da obra “As cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino. Ele vai construindo ao longo do livro um jogo interessante sobre os limites e potencialidades da criação humana, amarrando na memória as permanências e transitoriedades de idéias e emoções vividas em seus diferentes tempos e espaços. Calvino nos apresenta as cidades como memórias do Marco Polo mas vai bem mais além de descrições arquitetônicas, seu interesse é escavar as profundezas de pequenas ranhuras e nos detalhes de gestos comuns de seus habitantes para assim fazer se abrir uma nova maneira de conceber a construção e invenção de uma obra (incluíndo a do próprio livro).

Os diálogos de Khan O livro apresenta diálogos de Marco Polo (viajante italiano que por 17 anos foi embaixador imperial) e Khan, um imperador melancólico por não conhecer seu imenso reino e que só através dos relatos dos viajantes “conseguia discernir, através das muralhas e das torres destinadas a desmoronar, a filigrana de um desenho tão fino a ponto de evitar as mordidas de cupins”. As cidades e as conversas entre os dois vão se intercalando durante toda a obra. Sendo que as cidades são agrupadas em 11 perfis ainda que de maneira fluida e porosa. Os 11 são: “As cidades e o nome”, “As cidades e a memória”, “As cidades e o desejo”, “As cidades e os símbolos”, “As cidades delgadas”,“As cidades e as trocas”, “As cidades e os olhos”, “As cidades e os mortos”, “As cidades ocultas”, “As cidades contínuas” e “As Cidades e o Céu”. De uma maneira superficial poderíamos tratar as cidades dentro uma organização única apesar dos 11 tipos. Elas tem nomes femininos e de maneira bem peculiar apresentadas (descritas) como contendo perigos e encantamentos, sendo focados seus atributos marcantes que vão para muito além da construção e da arquitetura. Mas na medida que mergulhamos na leitura percebemos que a linha que conecta cada cidade dentro de seu tipo

é tênue, e não só as características das descrições nos reportam para outros temas como também transitamos na leitura através de outros pontos de fixação que se interligam. É uma espécie de “navegação” em rede de interligações sem centralidades aparentes. As linhas que possibilitam navegar de um ponto a outro podem ser refeitas e transitadas nas mais diferentes velocidades, pontos de parada intermediários, ao contrário, e até mesmo em profundidades diferentes. Navegação aqui é um conceito de transporte, mas para a questão da obra se conecta também com a discussão sobre hipertextualidade dentro da literatura, que sugere dentre alguns pontos, o da interatividade, pressupondo uma atuação (seja por preenchimento de lacunas, seja por reordenamento da própria leitura como num quebra-cabeça sem encaixe correto a priori) importante por parte do leitor. Neste sentido, Calvino apresenta as cidades sabendo desta implicação e não esconde de seu leitor os estratagemas (ficando bastante evidente nas conversas do Imperador com Polo) para a construção dos relatos das cidades na obra. As cidades tem um ponto de partida quase sempre único. Sua centralidade dentro da narrativa se dá sempre do ponto de vista do viajante, do forasteiro, daquele que percorreu dezenas ou até mesmo centenas de kilômetros para encontrá-la no imenso império de Khan. Marco Polo nos diz em certo momento que as cidades remetem diretamente à sua cidade natal Veneza, nos indicando que a cidade não só tem algo de universal (na obra Polo fala de cidades do ocidente ao oriente) mas também que sua composição, sua forma, seu conteúdo físico se dá por conta da ação e reflexão das pessoas (sua racionalidade, sua emoção, seus desejos, memórias) que moram, circulam ou simplesmente transitam por suas ruas. Aldo Rossi citando Halbwachs em Arquitetura da Cidade nos instiga a pensar a construção das cidades de Calvino, “Quando um grupo é inserido numa parte do espaço, ele a transforma à sua imagem, mas, ao mesmo tempo, dobra-se e adapta-se a coisas materiais que resistem a ele. A imagem do meio exterior e das relações estáveis que este mantém com aquele passa para o primeiro plano da idéia que o meio faz de si mesmo” (ROSSI p. 198)


As Cidades Invisíveis e as construções da memória

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O viajante (e o leitor) nas cidades de Calvino é este ser que se insere no espaço sempre com suas intenções e experiências. A hipertextualidade da escrita de Calvino facilita esta inserção pois a construção das cidades nos aparece (no ritmo do texto) como fragmentos de espaços que podem ser manipulados entre seus diferentes tipos (ora puxando para um espaço que pode ser recombinado e destacado, ora pensando numa só cidade com todos estes espaços juntos se sobrepondo). E claro, estes fragmentos são a memória, que se recombina, se destaca, se sobrepoem e se une toda na intenção da leitura e da descrição do viajante-leitor. As cidades também acreditam ser obra da mente e do acaso, mas nem um nem outro bastam para sustentar suas muralhas. De uma cidade, não aproveitamos as sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. - Ou as perguntas que nos colocamos para nos obrigar a responder, como Tebas na boca da Esfinge. (Marco Polo para o Imperador, p. 44)

Os emblemas e o Zodíaco Nos diálogos entre Polo e Khan encontramos em diversos momentos as tensões que marcam os relatos de Marco Polo sobre cada cidade. As reações e reflexões em cada um dos diálogos enriquecem os caminhos percorridos para a descrição das memórias. A primeira frase do livro é “Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas... mas o Imperador... continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados e exploradores” (pág 9). É certamente um alerta que serve ao próprio leitor que desde o ponto de partida estará informado sobre as bases que se dão as conversas e a paciente escuta das descrições das cidades por parte do Imperador. É a “filigrana de um desenho tão fino” (pág 10) que sobressai dos relatórios de Marco Polo que conseguem

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fazer o imperador Khan encontrar sentido no seu imenso e esfacelado império “sem fim e sem forma”. Marco Polo é apresentado como um viajante estrangeiro, dentre dezenas de outros que são chamados para contar suas histórias dentro do Palácio, mas que cativa a atenção do Imperador por não conseguir se expressar em palavras seus relatos, mas sim com gestos, ruídos, gritos, imitações de animais. Marco Polo conseguia representar “com o poder dos emblemas, que umas vez vistos não podem ser esquecidos ou confundidos”. Depois de algum tempo Marco Polo aprendeu diversas línguas dos povos que compunham o Império de Khan, e somando com sua habilidade gestual era reconhecido como o mais minucioso dos contadores de histórias das cidades do Império. Conforme Khan recebia seus relatos, ele os organizava nos emblemas já apresentados anteriormente por Polo e atualizavam seus sentidos, ao ponto de organizar os símbolos na expressão de zodíacos. “Quando conhecer todos os emblemas conseguirei possuir o meu império, finalmente?” perguntou a Marco Polo. E Polo responde: “Não creio: nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os emblemas”. Fica claro que Marco Polo se expressa nos seus relatos, intencionalmente, através de conceitos mais amplos (emblemas) que de acordo com sua mobilização acaba por formar significados diferentes. É como se Polo e o Imperador desde o início através dos gestos e sons e depois através das palavras e línguas tivessem firmado uma gramática própria para a descrição das cidades, que não era só visual e quantitativa, mas englobava emoções, sensações definindo assim a invisibilidade, a intangilbilidade que eram descortinados conforme os relatos aconteciam. Aqui a questão da memória se torna importante para descrever a força dos emblemas compartilhados entre os dois, que não saíam da memória, demostrando o uso de uma estratégia específica de relato para melhor utilizar a memorização. Implicando inclusive na questão da ilimitada formulação de novos símbolos, sua própria atualização a cada relato (uma nova configuração posicional-relacional entre os emblemas) que revelam a potência da forma como a exposição foi feita.


As Cidades que são Memória As cidades que estão inseridas no tipo “As Cidades e a Memória” são: Diomira, Isidora, Zaíra, Zora e Maurília. A memória nestas cidades são apresentadas como: o encontro com o passado (a oposição entre jovem e velho, as relações entre espaço - dilatação e desgaste), as remiscências, as recordações, os sonhos, a imaginação, o tempo e sua relação com o movimento e a sincronia como quebra do tempo/espaço. A primeira cidade apresentada no livro é exatamente Diomira, a primeira Cidade e a Memória. Nela o leitor se encontra com uma descrição (em lista) de suas cúpulas, estátuas, teatro e um galo cantador. Mas não é isso que a faz peculiar diz Marco Polo, “Todas essas belezas o viajante já conhece por tê-las visto em outras cidades” pág 11, mas sim que numa noite de setembro, quando as luzes de tabernas se acendem, e uma mulher num terraço grita “Uh!”, o viajante é “levado a invejar aqueles que imaginam ter vivido numa noite igual a esta e que na ocasião se sentiram felizes” idem. Aqui a memória é ativada como reminiscência, como um vestígio que se guarda/preserva nas cidades por ação de outros corpos do passado, que Marco Polo deixa a entender (mas é claro que podemos encontrar outras formas) que se dá através do paralelo de sentimentos (felicidade). É como se a cidade fosse o lugar específico para sincronizar (talvez por levar a hábitos e práticas iguais) e interconectar tempos por uma (breve, porém profunda) aproximação de estados emocionais de corpos separados irreconciliavelmente. Veja, não se trata da mesma natureza de “felicidade” que os viajantes compartilham. Não são as memórias de cada viajante que ali se sincronizam, cada um continua tendo seu passado e suas experiências. Não é isso. Me parece claro que a explicitação aqui é que a cidade conforma percursos, pequenas práticas e sensações que levam a estados mentais excepcionais que fazem o viajante traduzir sua experiência como algo inevitável que outros antes dele tenham sentido pela mesma situação.

O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas. A cidade diz tudo o que você deve pensar. (Ítalo Calvino, “As Cidades Invisíveis”) Em Isidora, Marco Polo traz a questão do desejo para o debate da memória. A cidade que tem palácios com escadas caracol, e fabricam perfeitos binóculos e violinos. Havia jogos e mulheres para todos viajantes. Diz Marco Polo, que Isidora era tudo que ele pensava quando desejava uma cidade. A cidade que seria um sonho do viajante jovem, embora o viajante só chega nela depois de mais velho. Na praça há o murinho dos velhos que veem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações. (p. 12) Calvino aqui nos mostra que há desejos nas recordações, o quanto de querer há no ato de recordar (no caso a própria juventude). Isidora é o lugar de onde se enxerga a cidade do ponto de vista da construção do recordação/desejo como práticas cotidianas (como possibilidade de repetição e concentração de determinadas práticas, como jogo e sexo) mas também da recordação/desejo como seleção das memórias, como ato de catalogar o mais importante. A intenção na procura pela cidade “ideal” (onde se encontram mais desejos agrupados numa só cidade) só pode se realizar no ato da recordação dos tantos desejos realizados nas mais diversas cidades por onde se andou. Marco Polo em Zaíra apresenta questão importante para o livro que através de tipos e com descrições das estruturas das cidades enredando o leitor com o Império de Khan. Do que a cidade é feita? Marco Polo diz para Khan que uma descrição de partes da cidade (como a forma das ruas, os arcos dos pórticos por exemplo) não conseguiria dizer do que ela é “feita”. Marco Polo define então como explicar Zaíra: “A cidade não é feita disso [de descrições], mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado”. E cita exemplos: “a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um

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usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada;....” E continua assim a costurar conexões entre espaço e os acontecimentos, incluindo também ações anteriores que necessariamente explicariam a posterior. A ponto de Marco Polo apontar que uma descrição de Zaíra “deveria conter todo o passado”. Mas a cidade não conta seu passado, ela o contém, como as linhas da mão. [...] Seria então “nos arranhões, serradelas, entalhes e esfoladuras” que se conseguiria compreender do que é “feita” Zaíra.” (p. 14 e 15) A memória aqui é mobilizada para complexificar a descrição (lembrando que ainda estamos no começo do livro) das cidades apontando para leituras menos superficiais do que somente as grandes obras arquitetônicas e grandes narrativas que cada cidade possui. Calvino trabalha aqui com o detalhamento e o com o ato insignificante para explicitar a lógica de Zaíra. É só num acumulado (talvez por isso ele use o “conter” o passado) de pequenos detalhes, como arranhões, que podemos conceber a tessitura da cidade. Este detalhe isolado não conta nada sobre o todo contido na cidade. Só faz sentido dentro de uma estrutura relacional, que onde, ao contrário do que se imagina, um arranhão altera completamente todo o significado. Também me parece que Calvino chama atenção para uma fusão entre acontecimento/passado e espaço. Como se cada um dos conceitos pudesse se afetar mutuamente, quase que nos obrigando a uma leitura de que sem um dos pólos não há como conceber o outro lado. Como se o passado só pudesse acontecer num espaço específico (mesmo que invisível e idealizado), talvez apontando para uma função da nossa memória, uma maneira de operar a própria memorização. E aqui me remeto novamente aos aposentos dos exercícios da memória artificial apresentados por Frances Yates, mas pensando na questão de maneira a extrapolar o exemplo, poderíamos pensar na memória “artificial” usada cotidianamente se poderia construir séries muito mais

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longas e complexas de cômodos (memorizações), tão longas que perdemos o rastro original (mas que continuam fazendo sentido somente dentro deste caminho). Qual o efeito nestas séries longuíssimas de um simples arranhão num móvel? Há pra mim um importante efeito residual destes pequenos detalhes, que, o Proust genialmente construiu com as madelaines e os pequenos barulhos ao pisar num azulejo quebrado. Zora é a cidade que ninguém mais consegue esquecer (pág. 19). Marco Polo nos diz que é uma “propriedade” da cidade que a faz “permanecer na memória ponto a ponto apesar de não demonstrar particular beleza ou raridade”. É uma cidade que “não se elimina da cabeça” por que “é como uma armadura ou um retículo onde cada um pode colocar as coisas que deseja recordar” como que marcando um “itinerário” de afinidades ou contrastes “para evocar a memória”. Os homens mais sábios seriam então aqueles que saberiam de cor a cidade de Zora. Mas foi inútil a minha viagem para visitar a cidade: obrigada a permanecer imóvel e imútavel para facilitar a memorização, Zora definhou, desfez-se e sumiu. Foi esquecida pelo mundo”. (p. 20) Aqui o percurso da memória é sua aproximação com a sabedoria e inteligência e por isso aparece o termo “memorização”. Memória como uma técnica de observação do mundo, uma prática intelectual que pode demonstrar a capacidade do observador em decorar passo a passo seu percurso. Mas Marco Polo chama atenção para certa qualidade daquilo que se memoriza (que se pensa imutável à primeira vista), mas que sob o ponto de vista da efetividade da memória na realidade há que se compreender mudanças contínuas a fim de que algo (será sua essência?) permaneça. É como se o conhecimento advindo da memorização não fosse suficiente para sua permanência efetiva, ele precisa estar em uso, em circulação, se atualizando dentro de novas experiências, se alargando ou se compactando em resposta a estímulos (internos e externos), sempre na espera da sua contradição.


Maurília é a cidade que se visita olhando seus “velhos cartões-postais, que mostram como ela havia sido”. Sob o risco de ofender seus habitantes o viajante precisa louvar a cidade do cartão-postal e não a atual. Não por que entre a Maurília metrópole e a antiga provinciana (dos cartões) haja muita diferença, mas a metrópole tem um atrativo adicional “mediante o que se tornou pode-se recordar com saudades daquilo que foi”. Marco Polo então nos diz: algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome... às vezes os nomes dos habitantes permanecem iguais... mas os deuses que vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos. É inútil querer saber se estes [deuses] são melhores do que os antigos, dado que não existe relação nenhuma entre eles, da mesma forma que os velhos cartões-postais não representam Maurília do passado mas uma outra cidade que por acaso também se chamava Maurília. (p. 30 e 31) Nesta cidade, Calvino adentra na questão da memória como documento. Da memória que se guarda em fotos, em textos etc. Isto é, daquilo que se produz conscientemente para a posteridade, como uma foto de cartão-postal. E sua produção é feita fragmentando, selecionando, filtrando partes da cidade (um monumento, um local histórico, uma paisagem específica, por exemplo) que acabam por ganhar um corpo próprio que já não é mais a mesma cidade que se transformou ao longo do tempo. É uma terceira. Mas há a possibilidade também de uma outra leitura. A abertura para uma mudança de deuses no lugar de outros com o passar do tempo (ao passar de provinciana para metrópole) nos mostra que as cidades podem mudar bruscamente, mas quando isso acontece se interrompe o fluxo de recordação dos seus habitantes sobre a própria cidade. Há uma rachadura entre a lembrança que uma geração mais antiga tem da cidade no presente. Se tornam irreconhecíveis aos olhos daqueles mesmo que viveram sua vida inteira nelas.

A obra de Calvino “As Cidades Invisíveis” é implicada com outros conceitos e construções que não só a questão da memória, mas o conceito é fundamental para a construção da obra, e para seu sucesso de público no mundo todo. Neste artigo, tentei trazer alguns trechos que evidenciassem a produção que Calvino faz sobre a memória no livro. O debate da memória para Calvino é com o próprio leitor. Não é só uma estratégia de construção de um tipo discurso que encaixasse melhor com as descrições das cidades. Os hipertextos dos relatos das cidades não só convidam o leitor a adentrar e construir as cidades, mas como os diálogos de Khan e Polo marcam é uma questão da própria organização da memória e suas práticas. O efeito é bem específico. Calvino nos apresenta a linguagem e o espaço urbano como práticas cotidianas, imperfeitas, ambíguas, fragmentadas, que se atualizam de maneira frágil. E evidencia o poder da imaginação, não só do raciocínio lógico, para a construção do empreendimento que chamamos de humanidade. *Diogo Soares é cientista social.

BIBLIOGRAFIA • BENJAMIN, Walter. A imagem de Proust” e “Teses sobre o conceito de história. In: Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1986. • PROUST, M. No caminho de Swann. Trad.Mário Quintana. São Paulo: Globo, 1995. • ROSSI, Aldo. A arquitetura da cidade. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001 • VERNANT, J-P. Da presentificação do invisível à imitação da aparência (pp.295-308) e Sob os olhos dos outros (343346) In Entre mito e política. Tradução: Cristina Murachco. Apresentação: Luiz Alberto Machado Cabral. São Paulo: EDUSP, 2001. • YATES, F. A arte da memória. Tradução Flávia Bancher. Campinas: Editora da Unicamp, 2008

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páginas de calvino Marcelo Catelan*

lguns livros são inócuos, passam por nossas vidas como uma comédia romântica assistida na “Sessão da Tarde” durante uma tarde chuvosa numa quarta feira, alguns chegam a modificar a nossa percepção do mundo, outros são raivosos, tem os ciumentos e tem também aqueles que penetram em nossa mente e só nos soltam depois que chegamos à última página. Outros, nem depois disso. Alguns livros são perigosos e podem matar, alguns realmente mataram, a literatura é uma atividade de risco. Já li um livro que me dava medo, não que a intenção primeira do autor tenha sido o medo, ou talvez até fosse, mas cada vez que eu abria as suas páginas tinha a sensação de que algo estava à espreita, que havia alguém ou alguma coisa escondida nas sombras, que algum medo infantil me tocaiava esperando o momento certo de me puxar para baixo da cama, este livro está silencioso, lido pela metade, berrando por atenção, escondido na minha estante, talvez esperando o momento cero de me atacar. Uns poucos deixam as coisas estranhas, como se pudessem modificar o entorno, influenciar nos acontecimentos de uma certa maneira, ouso dizer, metafísica, como se algo escorresse para fora de suas páginas, confundindo a vida real com a vida de papel. Será que seus autores se utilizaram de procedimentos herméticos e alquímicos? Será que eles conhecem as malhas da física quântica e conseguem modifica-la? Alguns autores têm o dom da possessão ou simplesmente, como telepatas literários, tem o poder de antecipar o pensamento de seus leitores?

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Italo Calvino é um deles. Já me peguei às gargalhadas durante uma das minhas leituras de viagem (sempre carrego um ou dois livros na mala) quando ele me capturou, em uma noite de inverno, numa de suas armadilhas literária tocaiada duas páginas antes! A verdadeira literatura é irmã da arte do vaticínio, escrever é como jogar xadrez, você mexe uma peça tentando antecipar o movimento do oponente, no caso, o leitor. Mas, diferente do jogo milenar, um bom jogo literário só chega ao fim quando os dois, leitor e escritor, ganham. A relação entre escritor e leitor é simbiótica e “quem comanda a narração não é a voz, é o ouvido”, disse o próprio Calvino. Não existe nada mais misterioso que um livro aberto, fechado ele está lá, quieto, silencioso, é apenas certa quantidade de páginas presas por uma lombada e protegidas por uma capa de papel mais duro. Um título curioso, um desenho que chama a atenção, um autor da moda, isso é o máximo que um livro fechado pode nos oferecer, mas quando

você começa a folheá-lo! Daí são mundos que se descortinam, universos infinitos, vidas que se desdobram, labirintos que desembocam em labirintos que por sua vez desembocam em outros labirintos... e assim por diante. Bons livros sempre abrem passagens para outros bons livros. Calvino tem o poder de multiplicar as páginas além da quantidade de papel que seus tomos possuem, multiplicar as palavras e os mundos em seus livros. As cidades por onde os personagens urbanos de Calvino se locomovem são ao mesmo tempo uma cidade específica e todas as cidades do mundo. Ou você nunca presenciou a metamorfose que a sua cidade sofre em um breve período de tempo? As mesmas ruas, a mesma arquitetura, o mesmo amontoado de asfalto, ferro e vidro, mas basta a noite cair, ou uma tempestade, ou outro grupo de pessoas tomar o lugar, e pronto, a mágica se fez! Aquele lugar, aquela zona autônoma, tomou vida própria e, caso você se distraia e acabe se perdendo em suas travessas antes tão familiares, talvez, para voltar para casa, tenha que se guiar pe-


“Uma tal beleza de fama mundial, aliada a um clima tão hostil ao homem, é fatal. E justamente esse solo mortífero que trago comigo por nascimento é minha terra, estou mais em casa nessa cidade (letal) e nessa região (letal) do que os outros estão; mesmo que hoje caminhe pela cidade pensando que ela não tem nada a ver comigo, porque não quero ter nada a ver com ela, porque há muito tempo não quero ter coisa alguma a ver com ela, tudo o que trago dentro de mim (e em mim) provém dela, de tal modo que eu e a cidade temos uma relação eterna, indissolúvel, ainda que horrorosa. Sim, pois tudo o que eu trago dentro de mim está de fato relacionado à cidade e a sua paisagem, remonta a ambas; pouco importa o que eu pense ou faça, minha consciência desse fato apenas se intensifica cada vez mais, e um dia será tão grande que isso, a consciência disso, vai me matar. Tudo o que trago em mim está à mercê dessa cidade, que é minha origem...”

Thomas Bernhard

los detalhes, como faz Palomar, e tentar voltar para casa seguindo migalhas no chão, modelos diferentes de maçanetas ou uma fila de formigas operárias. os livros as cidades aparecem com diferentes funções, a mais óbvia é como cenário ou ambientação para uma história, mas estou falando de best-sellers. Os bons (e ótimos) escritores, entre eles Calvino, vão além disso. Para ele a cidade é tratada como metáfora, a cidade não é apenas o local aonde as personagens vivem, mas também aonde elas se perdem, é a cidade como labirinto, como selva de pedra, a cidade também é personagem, em algumas histórias chega a se protagonista, ela está viva, independente de quem a habita, independente dos seus fantasmas. Mas todo pensamento emite um lance de dados, e tudo muda, e nada chega ao fim, a cidade e as histórias nos levam para caminhos diferentes, inesperados. Neste momento se manifesta Marcovaldo.

m livro tem que ter algo de sedutor, e um sedutor de verdade sabe muito bem que a verdadeira arte da sedução é aquela em que mais se esconde do que se mostra. Livros são objetos vingativos. Várias histórias creditam aos livros poderes mágicos, toda religião que se preze tem seu livro sagrado, livros são feitos de matéria orgânica, livros carregam uma carga assombrosa de poder, livros podem te salvar ou podem te enlouquecer. Alguns livros fogem de você, outros te procuram desesperadamente. Toda casa mal assombrada tem uma grande biblioteca entre seus cômodos, livros são objetos ectoplásmicos. Livros podem ser usados como companhia, como amuleto, como conforto na solidão e nas horas difíceis. Livros servem para ensinar, mas também servem para confundir, alguns livros trazem respostas, outros criam mais perguntas. O livro é o

melhor amigo do homem. Alguns livros são perdidos, outros são apenas lendas. Livros são para serem lidos e para serem escritos. Livros são para serem amados e odiados. Livros são um dom e uma maldição e ideias são aladas. ark Twain gostava de arremessar um livro no gato só para ver o bichano saltar em pânico. O poeta Vinícius de Moraes lia e escrevia na banheira. Para o argentino Jorge Luis Borges, que morreu cego, o paraíso deveria ser uma grande biblioteca, Ernest Hemingway escrevia de pé, apoiado em um antigo móvel, Clarice Lispector com uma pequena máquina de datilografar no colo. Cada escritor tem a sua mania, sua obsessão, Italo Calvino construía cidades com seus livros. *Marcelo Catelan é sonoplasta e professor de escrita criativa.

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retratos urbanos por Fábio Pazzini*

Fotos da apresentação do espetáculo Sr. Calvino, da Cia. Artesãos do Corpo, realizada no Largo de Santa Cecília, São Paulo, em maio de 2013

*Fábio Pazzini é fotógrafo, acompanha os trabalhos de palco e rua da Cia. Artesãos do Corpo desde 2006.

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*anúncios retirados da revista “A Cigarra” no 236, de setembro de 1924, disponível no acervo do Arquivo do Estado de São Paulo - www. arquivoestado.sp.gov.br

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua 2012

PARARUA #1  
PARARUA #1  

Esta publicação faz parte do projeto Sr. Calvino da Cia. Artesãos do Corpo, contemplado com o Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua 2012. Os t...

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