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UNIVERSIDADE DA REGIÃO DE JOINVILLE - UNIVILLE DEPARTAMENTO DE DESIGN

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL SOBRE O CRAFT COM APLICAÇÃO DE TÉCNICAS ARTESANAIS

BRUNA CAROLINE PAYÃO ORIENTADOR HARO SCHULENBURG Programação Visual

Joinville – SC 2011


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BRUNA CAROLINE PAYÃO

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL SOBRE O CRAFT COM APLICAÇÃO DE TÉCNICAS ARTESANAIS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Design com habilitação em Programação Visual da Universidade da região de Joinville – UNIVILLE – como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Design com habilitação em Programação Visual, sob orientação do professor Haro Schulenburg.

Joinville - SC 2011


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Dedicatória

Dedico este projeto ao meu avô, Oswaldo, que foi o grande inspirador no meu gosto pelo artesanal e a todos os crafters e àqueles que vêem na prática artesanal e no “faça você mesmo” uma fonte de aprendizado e prazer.

Agradecimentos

Agradeço aos meus pais, Mara e José, pela paciência e o apoio de sempre. Ao Oriel por ter dedicado seu tempo a ajudar este projeto e estar sempre do meu lado. À Juliana Silveira Anselmo que orientou as primeiras fases deste projeto, por ter me incentivado e dado forças para eu continuar o projeto. À Marli Terezinha Everling que acompanhou o projeto desde o início. Ao Haro por toda ajuda oferecida na execução do projeto. À UNIVILLE por oferecer espaço e materiais para os estudantes trabalharem e a todos aqueles que contribuíram de alguma forma com o projeto.


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SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS............................................................................................................... 7 RESUMO................................................................................................................................. 10 ABSTRACT ............................................................................................................................ 11 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 12 1 PRODUÇÃO ARTESANAL E O DESIGN ...................................................................... 15 1.1 O valor da produção artesanal perante a industrialização .................................................. 15 1.2 A relação do design com o fazer manual ............................................................................ 18 2 CRAFT ................................................................................................................................. 24 2.1 A nova era do artesanato .................................................................................................... 24 2.2 Trabalhos desenvolvidos por crafters e sua linguagem para o design ............................... 29 3 PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL ................................................................................ 34 3.1 O design gráfico de projeto editorial em publicações alternativas ..................................... 34 3.2 Técnicas artesanais para design editorial............................................................................ 39 4 ANÁLISE E TRATAMENTO DE DADOS ...................................................................... 48 4.1 Elemento visuais no Craft .................................................................................................. 48 4.1.2 Linguagem verbal Craft................................................................................................... 51 4.2 Pesquisa de público alvo .................................................................................................... 51 4.3 Técnicas artesanais para o material gráfico ........................................................................ 53 4.3.1 Técnicas de Impressão ..................................................................................................... 54 4.3.2 Encadernação ................................................................................................................... 55 4.3.3 Confecções experimentais ............................................................................................... 56 4.3.4 Escrita manual ................................................................................................................. 58 4.4 Elementos Editoriais ........................................................................................................... 59 5 PROJETO GRÁFICO ........................................................................................................ 62 5.1 Conceito .............................................................................................................................. 62 5.2 Conteúdo do material ......................................................................................................... 63 5.3 Geração de alternativas ....................................................................................................... 63 5.3.1 Refinamento das alternativas ........................................................................................... 67 5.4 Projeto editorial .................................................................................................................. 70 5.4.1 Cores ................................................................................................................................ 71


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5.4.2 Tipografia ........................................................................................................................ 72 5.4.3 Ilustrações e letras desenhadas ........................................................................................ 74 5.4.4 Diagramação .................................................................................................................... 79 5.4.5 Capa ................................................................................................................................. 80 5.4.6 Materiais e impressão ...................................................................................................... 81 5.4.6.1 Execução ....................................................................................................................... 82 5.4.7 Encadernação e acabamento ............................................................................................ 83 5.4.7.1 Execução ....................................................................................................................... 84 5.4.8 Resultados........................................................................................................................ 85 MEMORIAL DESCRITIVO ................................................................................................ 90 CONCLUSÃO......................................................................................................................... 91 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 93 REFERÊNCIAS DE FIGURAS ............................................................................................ 97 REFERÊNCIAS DE IMAGENS ........................................................................................... 99 APÊNDICE A ....................................................................................................................... 102 APÊNDICE B........................................................................................................................ 103 APÊNDICE C ....................................................................................................................... 109


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LISTA DE FIGURAS

1 Reutilização no design de produtos ....................................................................................... 20 2 Ilustração de Yulia Brodskaya ............................................................................................... 21 3 Boy Meets Girl”. Criação de Mette-Sofie D. Ambeck .......................................................... 22 4 Criação de Julien Villée para a MTV inglesa ........................................................................ 23 5 Página do website Instructables ............................................................................................ 25 6 Capa da 3ª edição da Venus Zine .......................................................................................... 26 7 Capa da edição 06/2010 da Vênus Zine ................................................................................ 27 8 Página na internet da organização Austin Craft Máfia .......................................................... 28 9 Feiras Craft ............................................................................................................................ 30 10 Corrupios, coleção de cadernos do inverno de 2009 ........................................................... 31 11 Modelo de um mini-mi ........................................................................................................ 32 12 Bordado da marca Sublime Stitching ................................................................................... 32 13 Layouts diferentes unidos por um grid dividido em nove módulos .................................... 35 14 Sumário do zine D.I.Y. Guide .............................................................................................. 36 15 Livro com textos e ilustrações manuais ............................................................................... 37 16 Capa do zine La Permura .................................................................................................... 38 17 Diagrama sobra a entomofobia do próprio designer ........................................................... 39 18 Revista Freeway .................................................................................................................. 40 19 Pôster para Hilotrons Tour 2008 ......................................................................................... 41 20 Coleção de Mike Nicholson ................................................................................................ 41 21 Art vs. Craft ......................................................................................................................... 42 22 Happiness, colagem ............................................................................................................. 43 23 Campanha VCE Season of Excellence ................................................................................. 44 24 Recorte em papel ................................................................................................................. 44 25 Burning tree and candles ..................................................................................................... 45 26 Textebook ............................................................................................................................ 45 27 Exemplo de scrapbook......................................................................................................... 46 28 If’n Books + Marks, no livro Handmade Nation ................................................................. 47 29 Produtos das comunidade Craft........................................................................................... 49 30 Materiais gráficos na comunidade Craft ............................................................................. 50


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31 Frase de Faythe Levine ........................................................................................................ 51 32 Frase de Andrew Wagner .................................................................................................... 51 33 Resultado dos estudantes de Programação Visual ............................................................... 53 34 Aplicações de stencil ........................................................................................................... 54 35 Aplicações de serigrafia....................................................................................................... 54 36 Formas de encadernação ...................................................................................................... 56 37 Composições experimentais ................................................................................................ 57 38 Materiais com escrita manual .............................................................................................. 58 39 Exemplos de diagramação ................................................................................................... 59 40 Tipografia para texto ........................................................................................................... 60 41 Referência de ilustrações ..................................................................................................... 61 42 Tabela comparativa de formato e grid ................................................................................. 64 43 Alternativas para diagramação ............................................................................................ 65 44 Alternativas para letras desenhadas ..................................................................................... 65 45 Geração de alternativa para ilustração ................................................................................. 66 46 Alternativa para capa ........................................................................................................... 66 47 Teste de impressão e refinamento do grid ........................................................................... 67 48 Grid refinado ....................................................................................................................... 68 49 Letras desenhadas ................................................................................................................ 68 50 Refinamento do título para a capa ....................................................................................... 69 51 Aplicação das alternativas ................................................................................................... 70 52 Cores selecionadas ............................................................................................................... 71 53 Humanist Slabserif 712 ....................................................................................................... 72 54 Impressão comum com corpo 10pt (esquerda), serigrafia com corpo 8pt (direita) ............. 73 55 Entrelinhamento de texto ajustado (direita)......................................................................... 73 56 Letras desenhadas ................................................................................................................ 74 57 Letras desenhadas no estilo linha de costura ....................................................................... 75 58 Ilustração aplicadas.............................................................................................................. 75 59 Ilustração ............................................................................................................................. 76 60 Aplicação de stencil ............................................................................................................. 77 61 Aplicação dos elementos no material .................................................................................. 78 62 Diagramação das páginas do material ................................................................................. 79 63 Capa e anti folha de rosto .................................................................................................... 80


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64 Conjunto de papéis .............................................................................................................. 81 65 Papéis e cores ...................................................................................................................... 82 66 Produção de papel reciclado artesanal ................................................................................. 82 67 Produção de impressão serigráfica ...................................................................................... 83 68 Produção de molde para stencil ........................................................................................... 83 69 Detalhe da encadernação ..................................................................................................... 84 70 Processo de encadernação ................................................................................................... 84 71 Infográfico da encadernação ................................................................................................ 85 72 Testes de serigrafia .............................................................................................................. 86 73 Testes razoáveis de serigrafia .............................................................................................. 87 74 Páginas do livro ................................................................................................................... 88


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RESUMO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso objetiva o desenvolvimento do projeto gráfico-editorial para o livro Craft: uma nova rede de artífices, em que é abordada a comunidade Craft - prática que valoriza o artifício da produção criativa e a filosofia do “faça você mesmo” ao propor um renascimento do artesanato tradicional. Este trabalho tem como princípio a valorização da prática em projetos de design a fim de promover a aprendizagem por meio de técnicas manuais e artesanais. Assim pesquisou-se em torno da produção artesanal, no que se refere às características dessa forma de trabalho, sua relação com o design, suas aplicações no design editorial e sua conexão com a comunidade Craft. O questionário aplicado aos estudantes de design resultou nas técnicas artesanais selecionadas para o projeto do livro, sendo que foi necessário buscar o aperfeiçoamento em cada técnica. Deste modo, o livro é o meio pelo qual se pretende atrair estudantes e profissionais da área de design, ao utilizar elementos visuais que identificam a comunidade Craft e explorar, na sua produção, técnicas como stencil, serigrafia, costura e papercraft com foco na experimentação e aprendizagem. Palavras-chave: design gráfico; craft; artesanato.


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ABSTRACT

The present Work Completion of Course aims to develop a graphic and editorial project for the book “Craft: uma nova rede de artifices� (Craft: a new network of artificers), which covers the craft community - a practice that valorizes the artifice of creative production and "do it yourself" philosophy. This work has the principle of valorizing the practice in design projects, in order to foment the learning through manual and craft work. Therefore, it was researched about craftwork production and its working style features, its relationship with design, its application in editorial design and its connection with Craft Community. The quiz that was made with design students resulted in the selected manual techniques used in the project of the book, being necessary to seek improvements in each technique. Thus, the book is the medium from which is intended to attract students and professionals in the field of design, as it makes use of visual elements that identifies the Craft community and as it explores in the production proccess techniques such as stencil, silkscreem, seam and papercraft, with a focus in experimentation and learning. Keywords: graphic design; craft; craftwork.


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INTRODUÇÃO

O avanço das redes de computadores tem sido um grande agente estimulador de mudanças de comportamento, principalmente no que se refere às atitudes de colaboração, compartilhamento, pró-atividade e auto-exposição. A internet possui sistemas que estimulam a autonomia do usuário, pois oferecem serviços que permitem publicar, editar e compartilhar arquivos e informações em diversos formatos, além de possibilitar a personalização de páginas pessoais e incentivar o usuário a expor seus gostos e opiniões. Esta situação provavelmente se associa a um comportamento notável em que Lupton (2006) examina que em todos os lugares pessoas têm produzido suas próprias coisas com diferentes fins, seja por economia, satisfação estética ou pela independência das grandes corporações. A autora destaca que o princípio destas motivações de práticas e políticas se concentra no prazer em desenvolver uma idéia, concretizá-la e compartilhar essas experiências. A associação que se faz com a internet ocorre por esta motivar a liberdade e a autonomia, o que estimula a repetição destas posturas em outras atividades em que a produção é acessível. Esta iniciativa por um consumo alternativo em que a pessoa participa da produção de sua própria mercadoria tem origem na filosofia do “faça você mesmo”. Esta filosofia se baseia no sentido não denotativo de “produzir com as próprias mãos”, em que não há necessidade de ser especialista no assunto, mas ter o simples objetivo de aprender e fazer acontecer. Porém, este termo abrange diversas áreas e práticas. No caso deste trabalho, se refere ao fazer manual, artesanal, sendo o mesmo princípio no qual o Craft está fundamentado. Porém, o Craft não se resume apenas a produzir manualmente. Como afirma Wagner (s.d. apud LEVINE; HEIMERL, 2008), além de o Craft estar envolvido com o fazer manual, ele é uma declaração política, e essas características vem desde a época de John Ruskin e William Morris. Construir as próprias coisas é um modo de se opor a “prisão” que “O Homem” tem construído. Porém o Craft é um assunto complexo e difícil de definir. Como em qualquer atividade, as pessoas que se envolvem nesta prática seguem diversos caminhos. Alguns se envolvem como uma busca por aquilo que não encontram no mercado convencional, outros pelo prazer em desenvolver uma técnica e produzir cada peça com qualidade, ou como uma forma de se opor ou se libertar das corporações.


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Atualmente, há uma carência na literatura brasileira de obras que abordem o movimento Craft. Assim, a criação de um material que trate sobre o assunto poderá ser útil principalmente como material de consulta acadêmica em universidades como a UNIVILLE, facilitando o acesso a esse tipo de conteúdo para estudantes de artes, design e afins. Deste modo, estudantes teriam uma base de informação segura para incentivá-los a aplicar em seus trabalhos diferentes técnicas de composição e aplicação, o que poderá aprimorar a capacidade manual e fornecerá melhor acabamento nos trabalhos desenvolvidos. Assim, o objetivo deste trabalho refere-se à produção de um material gráfico-editorial, qualificado como livro e que tem como tema principal o Craft. Além do estudo a respeito da comunidade Craft e design editorial para o desenvolvimento do material, esta pesquisa busca explorar o uso de técnicas manuais e artesanais no desenvolvimento de projetos de design, em específico no design gráfico. É importante salientar que este projeto almeja a experimentação no design e que se pretende produzir um material de caráter alternativo, sem foco comercial e sim na aprendizagem. Portanto, o estudo aqui apresentado inicia com o entendimento da produção artesanal na sociedade, ao levar em conta o modo geral de como ela evoluiu e seu conceito baseado em pensadores e movimentos. Busca-se realçar a importância da produção artesanal por meio da valorização do bem estar do trabalhador, da criação independente e da técnica artesanal como parte da busca por um trabalho bem feito. A partir disto se realiza uma abordagem de sua associação com o design por meio de argumentos de designers e exemplos de projetos, o que salienta quão proveitoso é a união de técnicas artesanais ao design como ponto de partida para novas possibilidades. O segundo capitulo aborda sobre o movimento Craft a partir da investigação do seu surgimento e de explicações por meio de publicações realizadas por pessoas envolvidas ao Craft. Procurou-se identificar os diversos segmentos dentro desta comunidade, de princípios a técnicas distintamente escolhidos pelos crafters. Além disto, se expõe exemplos do que é produzido e de como o Craft pode ser aproveitado como linguagem no design, tendo em conta que esta abordagem serviu como base no projeto visual do livro. O terceiro capítulo indica os principais requisitos da produção editorial a partir do design gráfico, tendo em conta sua aplicação em um material gráfico alternativo. Este estudo serviu como auxílio no desenvolvimento prático deste trabalho, sendo apresentadas as etapas necessárias para o projeto gráfico, além da pesquisa referente à produção de materiais


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experimentais e a técnicas manuais e artesanais que ofereceram a base para o desenvolvimento prático do projeto. Nas análises são revelados as necessidades e requisitos do público alvo por meio do resultado de um questionário aplicado com estudantes de design. Com o mesmo questionário foi possível identificar as técnicas manuais e artesanais relevantes para o projeto e como se adaptariam ao material proposto. Pode-se ainda, analisar elementos editoriais e elementos visuais e verbais do Craft, que auxiliaram na elaboração do material. Por fim, é apresentado o projeto gráfico com as etapas necessárias para sua execução. Sendo assim, é possível esclarecer o conceito do projeto, o conteúdo do material proposto e o desenvolvimento do mesmo, incluindo gerações de alternativas, refinamento e as definições de projeto editorial e gráfico. Nesta etapa também há uma abertura para o processo de produção, em que se expõe um pouco da execução artesanal aplicada ao material, o que evidencia a combinação entre os processos de estudos teóricos, análises, conceituação e o desenvolvimento prático do material.


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1 A PRODUÇÃO ARTESANAL E O DESIGN

Desde o surgimento da humanidade as mãos fazem parte da vivência do ser. Após séculos de evolução o manusear continua sendo essencial, mesmo com os avanços tecnológicos e a difusão da era digital. Os seguintes tópicos esclarecem esta afirmação ao apresentar a produção artesanal acerca de sua transformação e seu envolvimento com o design.

1.1 O valor da produção artesanal perante a industrialização

Uma breve análise histórica dos modos de produção exercidos pelo ser humano permite levantar certos valores referentes à produção artesanal. Percebe-se que a industrialização teve um papel importante para o desenvolvimento cultural e tecnológico da sociedade e representa o que a humanidade é e a sua forma de pensar em cada momento da história, pois o modo como a sociedade realiza suas tarefas é refletida nos seus valores e comportamento. Flusser (2007), no final do século XX, separava a história da industrialização em quatro períodos: o das mãos, o das ferramentas, o das máquinas e dos aparelhos eletrônicos. Sendo, os três últimos períodos, formas de imitação das mãos ao servir como “próteses” para prolongar seu alcance e ampliar as informações herdadas geneticamente. Segundo o autor, a Primeira Revolução Industrial foi quando o ser humano se viu rodeado de ferramentas, o que lhe deu uma nova forma de existência por meio da cultura. Na Segunda Revolução Industrial houve uma modificação radical, pois se substituiu as ferramentas pelas máquinas. Quando o homem executava uma tarefa, a ferramenta servia como auxílio na sua produção, mas quando ele passou a utilizar a máquina, deixou de ser o executor para auxiliar na produção da máquina. A criação das fábricas mecanizadas enfraqueceu a habilidade artística e a saúde das pessoas, assim como devorou o aproveitamento da vida das mesmas. Porém, é impossível negar a contribuição da indústria para a população na produção de objetos, pois segundo Santos (1978 apud GONÇALVES, 1981, p.6), a produção feita pelos artesãos era em menor


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quantidade, satisfazendo apenas parte da população, enquanto a utilização da máquina produzia em grande escala, para multidões de pessoas. Apesar da industrialização para muitos representar progresso, o seu crescimento em países como Inglaterra e Alemanha, no século XIX, fez com que diversos pensadores criticassem as desumanas condições de trabalho nas fábricas. Segundo Droste (1994), o crítico de arte e escritor inglês John Ruskin defendia uma melhoria nestas condições a partir de reformas sociais que incluíssem a rejeição do trabalho mecanizado em favor da sensibilidade do trabalho artesanal. Ele teve como principal inspiração o modo de trabalho típico na Idade Média, que é descrito por Huberman (1986 apud MORAES, 1999, p.158) como um sistema de corporações, em que a produção era feita por mestres artesãos independentes com no máximo três empregados, para um mercado pequeno e estável. Quem levou as idéias de Ruskin para a prática foi William Morris, seu principal aluno e admirador. Segundo Pevsner (1994), em 1857 Morris se viu em uma situação de não poder mobiliar seu primeiro estúdio pela falta de meios para comprar o que desejava. O que o convenceu de que quando não se pode comprar, deve-se construir com as próprias mãos. Ele repetiu a experiência em 1859, com a ajuda do arquiteto Philip Webb, na construção da Casa Vermelha, que foi o marco do nascimento do movimento Arts and Crafts. Knaff (1995) se refere ao Arts and Crafts como uma solução para a alienação social e espiritual, e enfatizou a importância do uso de materiais locais, a dignidade e o valor do artesanato, a vida doméstica simples e a importância do ativismo social. Dempsey (2003) acentua que os partidários deste movimento buscavam reafirmar o valor do design e do artesanato em todas as áreas. Almejavam a qualidade, em vez da quantidade, opondo-se assim à industrialização. Queriam também uma arte ao mesmo tempo acessível, funcional e bela. Como afirma Dempsey (2003), Henry van de Velde defendia que a arte e a indústria deveriam ter um relacionamento mais estreito, sendo a primeira pessoa a relacionar as idéias do Arts and Crafts com a produção mecânica. Van de Velde teve influência das idéias de Morris, mas ao contrário dele, não concordava em retornar ao estágio totalmente artesanal. Em 1907, ele foi um dos membros fundadores da Associação Alemã de Artesãos, denominada Deutsher Werkbund, que surgiu de diversos debates acerca do “aperfeiçoamento do trabalho profissional mediante a cooperação da arte, indústria e do artesanato” (DEMPSEY, 2003, p.80). Velde teve grande importância nesses debates, tanto que em 1914 numa reunião no Werkbund, ele teve uma discussão com Muthesius, em que favorecia a dignidade artística do


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designer, ao contrário de seu oponente que acreditava que o designer deveria aceitar as limitações determinadas pela produção em massa, como afirma Fontes (1991). Dempsey (2003) aponta que Walter Gropius adotou conceitos do Werkbund para a fundação da escola Bauhaus, na busca da união do mundo do trabalho com a arte criativa. Gropius (s.d. apud GAULD, 2006, p.89) valorizava a união entre arquitetura, boa arte, e artesanato onde o artista-artesão deveria ser rigoroso com seus materiais, a forma de uma construção ou objeto deveria favorecer sua função, e a estética e utilidade surgisse a partir da eliminação de tudo que fosse extraordinário. Entende-se que, em decorrência da industrialização, os anos que se sucederam trouxeram diversas manifestações provenientes de pensadores e movimentos com o propósito de preservar a expressão artesanal. Com o surgimento do capitalismo e a introdução da indústria nas cidades, a produção artesanal teve um progressivo enfraquecimento. Os artesãos deixaram, aos poucos, suas atividades para se juntar à indústria, que crescia cada vez mais. Diferente da indústria que se desenvolvia, o artesanato se caracterizava por não haver divisão de trabalhos, pela capacidade de criação, escolha dos materiais e do direito sobre os meios de produção e venda. Qualidades que a indústria não poderia oferecer, pois “o sistema capitalista pressupõe a dissociação entre trabalhadores e a propriedade dos meios pelos quais realizam seu trabalho” (MARX, 1968 apud GONÇALVES, 1981, p.4), o que fez com que os artesãos perdessem sua autonomia. Apesar da acelerada produção e da abundante chegada de produtos ao alcance da população, a qualidade dos produtos industrializados era inferior aos artesanais. Isto acontecia porque a indústria não dava importância para os aspectos funcionais do objeto, pois considerava o produto mercadoria, ou seja, lucro. Desta forma os produtos eram pensados para o mercado, o que pode ser chamado de “valor de troca”, em que o “produto é uma mercadoria onde a funcionalidade, a resistência, a durabilidade, a estética, etc., são meras ocorrências” (GONÇALVES, 1981, p.62). Diferentemente, com o “valor de uso” são enfatizados aspectos como durabilidade, utilidade, custo, entre outras características que o artesão geralmente procura oferecer na sua produção. Com o passar dos anos a indústria foi se modificando e passou a dar certa importância para os valores de uso, porém o que ainda move o mercado são os produtos desenvolvidos por empresas interessadas em produzir em grande quantidade e com baixo custo de produção, o que pode diminuir a qualidade dos produtos. No entanto, os produtos industrializados não são vistos como inferiores aos artesanais, até mesmo quando são inferiores. Como afirma


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Cipiniuk (2006), isto acontece por existir uma ideologia comercial em que pagar menos por um produto de pior qualidade pode ser vantajoso quando se pensa na lógica do custo/benefício. Apesar da dominação de produtos industrializados, o artesanato, nas últimas décadas, vem reaparecendo no mercado. Há uma reflexão sobre a crescente procura por trabalhos artesanais interpretada pela biblioteca virtual de cultura EmDiv (2008, web) em que a sociedade atual, por ser caracterizada pelo avanço da indústria e da tecnologia, provocou no ser humano uma necessidade de manter laços com objetos que remetem ao passado. Mas a visão que se tem do produto artesanal não é a mesma de antigamente, pois agora: Este objeto perde seu caráter utilitarista de utensílio doméstico e passa a ser configurado como objeto de decoração em determinados mercados, sofrendo com a concorrência de produtos industriais que descaracterizaram a função material que este artefato carregava (TSCHÁ et al, 2009, s.p.).

Compreende-se que a produção artesanal passou por diversas modificações desde seu surgimento. Atualmente, existe uma aproximação desta com projetos de design, o que condiciona outras mudanças. Pode-se concluir que a produção artesanal nunca deixará de existir, pois consegue adaptar-se de alguma forma às transformações do meio.

1.2 A relação do design com o fazer manual

A importância da prática manual para a produção de objetos já se mostrou relevante durante a história. Mesmo o produto artesanal pode ter grande valor no design, tanto que no Brasil, Aloísio Magalhães destacou-se na discussão sobre design e artesanato no final do século XX. Paula (2008, web) salienta que Magalhães interpretou o artesanato brasileiro como "pré-design" e declarou o artesão como um designer em potencial devido à sua grande capacidade de invenção. Ghizzi (2004) explica o “Design de Artesanato” como uma busca do meio termo entre a produção artesanal tradicional e a do design industrial. Desta forma, a produção artesanal utiliza o domínio de uma técnica artesanal para caracterizar o “toque manual” do artesão, enquanto o design industrial utiliza a produção em série e a padronização para conseguir esta


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união. Porém, o benefício artesanal, neste caso, está mais relacionado à questão estética do que a função do trabalho artesanal em si. Para o designer italiano Alessandro Mendini (1990 apud MORAES, 2008, p.143), o design deveria ser um tipo de gesto artístico e artesanal, que é uma abordagem denominada design caldo (quente) ou art design. O designer afirmou também ser contrário à união da escola com a indústria, por acreditar que a mesma podia ser prejudicial ao desenvolvimento intelectual dos estudantes. Sua idéia era radical, porém interessante, pois “por mais industrializado que fosse o meio, o artesanato continuava sendo insubstituível enquanto recurso para a aprendizagem" (GROPIUS, s.d. apud FONTOURA, 2009, web). Quando se fala da relação entre trabalho artesanal e aprendizagem, está se tratando de algo relevante, tanto para o design quanto para outras áreas. A relação entre mão e cabeça não costuma ser julgada importante na civilização ocidental, tanto que ocupações que fazem mais uso da atividade prática são menos valorizadas. Porém esta relação proporciona “um diálogo entre práticas concretas e idéias [...] que por sua vez criam um ritmo entre a solução de problemas e a detecção de problemas" (SENNETT, 2009, p.20). Através desta relação, o artífice tem propensão a fazer um trabalho que busca a qualidade, pois a prática o leva a uma compreensão maior do trabalho, o que facilita na identificação dos problemas e suas soluções. Ao levar em consideração esta relação de práticas e idéias, é possível encontrar no Eco-design este tipo de ação, visto que a solução para problemas ambientais requer conhecimento na prática. A designer norte-americana Ellen Lupton (s.d. apud GARCEZ, 2008) afirma que o desafio dos designers é corresponder à prática profissional de forma mais sustentável, pois esses profissionais já contribuíram muito com o sistema industrial causador de tantos problemas. Com o crescente interesse por produtos ecológicos nos últimos anos, uma das características que tem sido levantada é a da reutilização de materiais, porém quando se fala em reutilização, como assegura a revista ABCDESIGN (2009, web), “estamos falando de um processo muito mais artesanal do que industrial. Mas essa não deixa de ser uma tendência a ser levada em conta, afinal, estamos caminhando para um mundo que vê a produção industrial de outra forma”. Alguns exemplos de reutilização de material no design podem ser conferidos na figura da próxima página.


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Figura 1: Reutilização no design de produtos Fonte: ABCDESIGN (2009, web)

A mesma questão de práticas e idéias pode ser notada no design gráfico. Desde os anos de 1980, com o surgimento de programas digitais para interface gráfica e com a sua popularização nos anos seguintes, o desenvolvimento de projetos gráficos feitos a mão foram, aos poucos, substituídos pelo computador. Ao criar uma tipografia, por exemplo, esta tecnologia era mais rápida e precisa, porém Heller (2004) evidencia que a escrita a mão, mesmo apresentando imperfeições, possibilitou a criação de algumas das letras mais bonitas existentes e que por mais que a tecnologia ofereça todos os recursos, depender somente dela pode limitar as possibilidades. O aproveitamento do processo manual para o desenvolvimento de projetos tem contribuído com belos e inovadores trabalhos. Pelo que se tem constatado, segundo Oliveira (2006), o mercado tem apostado no uso dos traços característicos do desenho feito a mão para desenvolver anúncios e peças gráficas, por ser uma técnica que oferece singularidade ao material. Além de o processo manual ajudar a produzir um material diferenciado, passar por esta fase na hora da criação, auxilia na compreensão do projeto e abre caminhos para outras possibilidades que poderiam ser ignoradas ao começar um projeto direto no computador. Nos últimos anos têm surgido artistas e designers que optaram por desenvolver seus projetos, alguns exclusivamente, de forma manual. O termo utilizado para este modelo de trabalho é handmade (feito à mão), e serve para várias formas de representação manual. Segundo Guimarães (2009), o papercraft, técnica que tira proveito do papel através de dobras, cortes, colagens e diversas formas de composições, é considerado uma tendência no meio do design gráfico. Eles exploram os materiais e conseguem extrair de algo considerado banal,


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trabalhos incríveis, de forma que se destacam por serem diferentes dos massivos materiais produzidos no computador. Alguns exemplos que se tem são de artistas como a russa Yulia Brodskaya, que utiliza tiras de papéis coloridos para compor ilustrações, técnica conhecida como quilling. Suas obras são utilizadas em capas de revistas e anúncios publicitários, conforme mostra figura 2.

Figura 2: Ilustração de Yulia Brodskaya Fonte: Chocoladesign (2010, web)

Há diversos exemplos de trabalhos que exploram o papercraft, pois as possibilidades que o papel oferece são inúmeras e os resultados são admiráveis. Como o da dinamarquesa Mette-Sofie D. Ambeck, designer e fabricante de livros artísticos, que explora em seus trabalhos experimentos com formatos, sombras e texturas ao criar ilustrações e tipografias cortadas à mão, que podem ser conferidos na figura 3. O interessante é que este tipo de trabalho proporciona uma nova relação entre o livro e o leitor. A interação não é apenas o ler e folhear as páginas, mas descobrir os efeitos que o material apresenta, pois ao juntar as páginas com suas formas distintas, esses conjuntos resultam em imagens individuais.


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Figura 3: “Boy Meets Girl”. Criação de Mette-Sofie D. Ambeck Fonte: BookArts (2007, web)

Com o papercraft é possível gerar bons resultados, porém esta técnica exige insistência e tempo. No entanto, Julien Villée (s.d. apud GUIMARÃES, 2009, p.40), um dos designers adeptos do handmade, destaca que também é fácil perder horas ao produzir uma imagem utilizando os softwares. Villée é um designer gráfico e diretor de arte canadense, que faz composições com objetos comuns e formas construídas com recortes, dobras e colagens de cartolina colorida, como pode ser visto na figura 4. Com este material ele produz capas de livros, revistas e vídeos, por meio da fotografia e técnicas como stopmotion1.

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Stopmotion (ou Frame-by-frame) é uma técnica de animação em que se trabalha fotografando objectos (movimentados nos intervalos de cada fotografia), fotograma por fotograma. Estes são posteriormente montados numa película cinematográfica. Quando o filme é projectado a 24 fotogramas por segundo, cria-se uma ilusão de movimento. (CARDOSO, 2009)


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Figura 4: Criação de Julien Villée Fonte: Julien Villée (2008, web)

para a MTV inglesa

Todas as técnicas têm suas vantagens e desvantagens, cabe a pessoa experimentar e reconhecer suas habilidades, pois como afirma Guimarães (2009, p.41), “o incentivo em trabalhar com meios diferenciados, como neste caso, o papel, é para que os profissionais tenham mais ferramentas para tangibilizar ideias e conceitos”. Entende-se que é indispensável para um designer a busca por novos conhecimentos, pois explorar, misturar e inventar faz parte do crescimento do profissional. Desta forma o design não se define pelos recursos que se utiliza para produzir algo, e sim pelo bom resultado que ele pode oferecer.


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2 CRAFT

Em um momento em que surgem constantes novidades e tudo se renova, o artesanato não conseguiria escapar desta situação. Este capítulo explora o aparecimento de um novo conceito relativo à produção artesanal e encontra nos trabalhos desenvolvidos por essa nova geração de artesãos, exemplos do que se têm desenvolvido na comunidade Craft e sua contribuição para o design.

2.1 A nova era do artesanato

O artesanato, desde o seu surgimento passou por diversas modificações, se aperfeiçoou, teve seus momentos de auge, decadência e ressurgimento. Mesmo no século XXI, ele continua a se modificar, o que não poderia ser diferente, pois esta é a era da informação e de constantes e rápidas mudanças. A popularização da internet é um dos acontecimentos responsáveis pelas mudanças de comportamento e valores deste início de século. Fato este, que tornou o conhecimento cada vez mais acessível e possibilitou a comunicação de forma global. A circulação da informação pode ser feita por qualquer pessoa e não exclusivamente por grandes corporações. Segundo Ellen Lupton (s.d. apud GARCEZ, 2008, p.49),

Atualmente, assistimos a um movimento, em várias frentes, no qual as pessoas criam seus objetos e suas próprias mídias. Acompanhamos a ascensão de sistemas de autopublicação, blogs, programas de compartilhamento de imagens digitais, redes educacionais e muito mais. Todos esses impulsos sociais estão relacionados ao design, pois as pessoas se sentem mais encorajadas a criar sua marca registrada e a falar por si.

Nota-se que as novas gerações acreditam no compartilhamento do conhecimento e necessitam de informações atualizadas a todo o momento. Esta atmosfera tem tornado a cultura do “faça você mesmo” mais evidente, e um exemplo disto é o website Instructables (Figura 5), que armazena diversos projetos, no modelo “passo a passo”, para todos os gostos e interesses, sendo que isto tudo é feito pela colaboração dos próprios usuários. Além disto, com a internet qualquer acontecimento pode ser divulgado e estar ao alcance de qualquer


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pessoa em quase todo lugar, sendo que este é o principal meio de comunicação que está difundindo o Craft no mundo.

Figura 5: Página do website Instructables Fonte: Instructables (2010, web)

A palavra “Craft”, de origem inglesa, é traduzida como destreza, ofício (HOLLAENDER, 1998), mas o uso desta palavra em certos meios originou um novo significado. Como define a revista Craft: Transforming Tradicional Crafts (s.d., web), o Craft surge como um renascimento do artesanato. Pode ser visto como uma comunidade que faz uso de técnicas e materiais normalmente vistos como ultrapassados com o objetivo de transformar o artesanato tradicional. Porém, esta definição não se diferencia do artesanato encontrado no mercado atual. A produção artesanal ainda é vista como uma atividade exercida por pessoas da terceira idade ou como uma fonte financeira de famílias de baixa renda. Porém, em publicação para o blog Super Ziper, Kuramoto (2008) ressalta que “[...]muitas pessoas jovens e bem instruídas, com ensino superior, diplomas e especializações variados, estão se


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dedicando a fazer trabalhos artesanais”. Esta é uma das características que revela como o comportamento das pessoas está mudando. Estão sendo valorizados a vida simples, o consumo consciente, a saúde das pessoas e o prazer em trabalhar com o que gosta. Mas além disso, pode-se pensar no Craft como um estilo de vida, uma filosofia que é expressa em uma atividade artesanal. Ao que certificam Levine e Heimerl (2008), o Craft teve surgimento em 1994, com a revista Venus Zine (Figura 6), criada por Amy Schroeder. Em entrevista com Megan Holmes para o Grrrl Zine Network (2001, web), Amy revela que a primeira edição da revista foi feita quando ela entrou na Universidade do Estado de Michigan (EUA). Ela produziu, com recorte e colagens, 75 cópias de um fanzine com 10 páginas. O material incluía entrevistas com seus amigos sobre as músicas que produziam.

Figura 6: Capa da 3ª edição da Venus Zine Fonte: Chicagoist (2006, web)

Atualmente a revista (Figura 7) é uma das principais referências sobre música, arte, moda e cultura D.I.Y. (Do it yourself: “faça você mesmo”) com foco na mulher, como é verificado pela Venus Zine (s.d., web).


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Figura 7: Capa da edição 06/2010 da Vênus Zine Fonte: Jennifer Becker (2010, web)

A partir dos anos 2000, com o progressivo acesso a internet nos lares, foram surgindo diversos grupos interessados em fazer Craft. Aproximadamente em 2003, na cidade de Austin (Texas/EUA), alguns empresários independentes de Craft criaram a Austin Craft Máfia, a qual se define como uma organização que representa o Craft nos diversos segmentos de criação, como moda, produto, literatura, arte e design (s.d., AUSTIN CRAFT MAFIA, web). A Craft Mafia tem como missão dar apoio às outras empresas independentes de Austin e de outras cidades por meio de informações divulgadas no website (Figura 8) e incentiva as pessoas a formarem uma Craft Mafia na cidade em que residem como forma de se fortalecerem e se ajudarem.


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Figura 8: Página na internet da organização Austin Craft Máfia Fonte: Austin Craft Máfia (2010, web)

O Craft, como em qualquer comunidade baseada em um movimento político, apresenta várias vertentes. Os adeptos se distinguem em diferentes aspectos de acordo com seus interesses, como o prazer que o trabalho oferece, o aperfeiçoamento de uma técnica, a estética, questões sociais, entre outros. Destas diferentes vertentes é que surgiu o Craftivism, um conceito criado por Betsy Greer sobre a união das palavras Craft com ativismo, em inglês, que considera a prática Craft uma forma de protesto. Em publicação para a revista Vida Simples, Greer (2010, p.60) afirma que: As pessoas estão começando a se questionar sobre como e por quem os produtos são realmente feitos e de onde vêm as matérias-primas. Quando você começa a fazer cachecóis e chapéus, subitamente percebe que é necessário muito mais dinheiro para fazer essas peças do que para comprá-las. Por que? Como isso se torna viável economicamente? Nos damos conta de que em algum lugar alguém não está sendo justamente pago por seu trabalho ou os materiais são de baixa qualidade.

A filosofia criada pelo Craft é revelada pelo comportamento e valores das pessoas envolvidas, assim como Costa (2010, web) argumenta em entrevista para o blog Super Zíper:


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O mais importante no ateliê é o amor, por tudo o que se faz e pelas pessoas envolvidas e lembrar que o termo D.I.Y. não serve só para artesanatos, mas também para construir nossa própria comunidade, nossa própria rua, nossa escola, nossos shows, revistas, sites, idéias, nosso mundo feito do jeitinho que a gente planeja, fiado e tecido pelas nossas mãos e pelos nossos sonhos.

De modo geral, esta nova forma de fazer artesanato nasce como uma união entre técnicas antigas, cultura punk2 e o ethos do faça você mesmo, conforme publicado pela Columbia College Chicago (2010). O Craft é uma espécie de revalorização do fazer manual, que leva em consideração questões de qualidade de vida, consumismo, política e meio ambiente.

2.2 Trabalhos desenvolvidos por crafters e sua linguagem para o design

Toda manifestação cultural utiliza de meios para comunicar e expressar o que produz. Neste caso, a internet tem papel importante na disseminação da comunidade Craft. Devido às facilidades deste meio, a cada momento aparecem novos adeptos estimulados a participar dessa atividade. Sinclair (2006, p.7), a editora-chefe da revista Craft: Transforming Tradicional Crafts, afirma que este novo movimento do artesanato incentiva as pessoas a produzirem suas próprias coisas em vez de comprarem os produtos padronizados do mercado. Uma prática interessante da comunidade Craft é a promoção de espaços para que crafters exporem e vendam seus produtos, que são oferecidos de maneira original, alternativa e bem produzidos para consumidores que não simpatizam com o comércio tradicional. Frequentemente são promovidas feiras, como a Renegade Craft Fair, aonde os crafters se reúnem para comercializarem seus produtos e trocarem experiências. É comum também ocorrerem oficinas e shows de bandas junto às feiras, o que torna estes acontecimentos verdadeiros eventos. A figura 9 reúne exemplos do que acontece nestes eventos. Além das feiras, a internet é um meio significativo para a venda de produtos Craft, realizada via sites individuais de cada marca ou sites de venda, que concentram um grande número de vendedores, como no caso do Etsy.com.

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Definição de cultura punk: "É uma ideia que conduz e motiva a vida. A comunidade punk que existe o faz para apoiar e concretizar essa ideia através da música, da arte, de fanzines e outras formas de expressão de criatividade pessoal. E o que é essa ideia? Pense por si mesmo, seja você mesmo, não aceite o que a sociedade lhe oferece, crie suas próprias regras, viva sua própria vida" (ANDERSEN, 1985 apud O'HARA, 2005, p.41).


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Figura 9: Feiras Craft Fonte: Referência de imagem

Desta forma, o Craft não se resume a uma única técnica, sendo esta idéia aplicada em diferentes projetos, como na confecção de roupas, cachecóis, bolsas, carteiras, chaveiros, broches, jóias, cadernos, livros, cartazes, cartões, embalagens, móveis, peças decorativas, entre outros. Contudo, é possível usar técnicas variadas por conseqüência do tipo de projeto, como a costura, bordado, tricô, colagem, ilustração, gravura, entre outras. O projeto pode ser construído desde o início com uso de matérias primas ou também podem ser reaproveitados peças e materiais para aplicação de técnicas de customização para renovar ou personalizar o objeto. Existem várias marcas com seus blogs e websites na internet, criadas por uma única pessoa ou grupos, que comercializam seus trabalhos. Pelo fato destas empresas serem


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pequenas, com produção em menor escala, a venda destes materiais é feita, grande parte, via internet ou na cidade onde são produzidos. Há algumas marcas de destaque, como a Corrupiola, que é o resultado do trabalho da artista e designer gráfico Leila Lampe e do escritor e webdesigner Aleph Ozuas. A empresa funciona em São José, Santa Catarina, e tem como principal produto pequenos cadernos exclusivos, chamados de corrupios, todos costurados a mão, apresentados na figura 10. Seus produtos são feitos com materiais de qualidade e todo o processo é desenvolvido pelo casal, como escolha de estampas, encadernação e impressão com tipos móveis e serigrafia.

Figura 10: Corrupios, coleção de cadernos do inverno de 2009 Fonte: Corrupiola (2009, web)

Outra empresa que faz um trabalho diferenciado é a Marcamaria, que é conhecida por produzir manualmente os Mini-mis (figura 11). Como afirma a Marcamaria (s.d., web), “o mini-mi é um boneco exclusivo feito à imagem e semelhança cartunizada do seu dono (o bigmi)”. Os produtos são feitos com tecidos que, em grande parte, procedem dos restos de produções industriais.


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Figura 11: Modelo de um mini-mi Fonte: Mini-mi (s.d.,web)

Fora do Brasil existem marcas como a de bordados Sublime Stitching, criada por Jenny Hart em 2001, quando o Craft ainda estava se desenvolvendo. Conforme apresentado pela Sublime Stitching (s.d., web), antes de Hart começar a bordar em 2000, ela estava exausta com os modelos de bordados existentes, que em sua maioria eram de ilustrações de coelhos, ursos e patos. Esta situação a motivou a começar a bordar aquilo o que ela desejava ao invés de esperar a indústria mudar. Além dos produtos desenvolvidos por Hart (figura 12), ela ensina a fazer bordados por meio de livros e workshops, além de publicar instruções no website de como fazer certos pontos.

Figura 12: Bordado da marca Sublime Stitching Fonte: SublimeStitching (s.d., web)


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O Craft, por estar relacionado à criação e explorar técnicas para compor algo visualmente atraente, de certa forma se identifica com o design. Além dos crafters citados anteriormente, muitos deles são designers ou se interessam pelo design. As pessoas envolvidas com o Craft buscam produzir algo criativo, diferente, com qualidade tanto em materiais quanto na criação. Mas também este pode ser o resultado do gosto pelo fazer manual, pois a “habilidade artesanal designa um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho benfeito por si mesmo" (SENNETT, 2009, p.19). Desta forma, é positivo para o designer dar espaço às experimentações, pois elas contribuem para gerar resultados gratificantes.


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3 PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL

Produzir um material gráfico-editorial exige conhecimentos de editoração. Sendo assim, este capítulo levanta algumas etapas de desenvolvimento de projeto editorial. Deve-se compreender que o design editorial é essencial para um material gráfico, pois sua função é tornar todos os elementos unidos, de modo que todas as páginas mantenham uma comunicação entre si. Além da classificação das etapas para projeto de design editorial, há uma breve apresentação de materiais gráficos alternativos e também são apresentados projetos que incluem técnicas manuais ou artesanais no produto final do material gráfico, o que favorece este tipo de aplicação neste projeto.

3.1 O design gráfico de projeto editorial em publicações alternativas

O design gráfico pode estar envolvido de várias formas em projetos editoriais. Elementos como grid, tipografia, diagramas, cores, escolha de materiais, formas de impressão e acabamentos são alguns dos principais itens para a composição de um projeto gráfico. Gianni e Amadori (2009) salientam sobre a atenção que se deve ter com o tamanho da tipografia, posição de títulos, imagens, boxes e todos os elementos visuais a fim de atender uma necessidade editorial. Segundo Filho (2006 apud GIANNI e AMADORI, 2009, p.3361):

Objetos da indústria cultural, como livros, jornais, dicionários, revistas e manuais são produtos gráficos de elaboração complexa, sobretudo em relação à organização diagramática e de processos de impressão, produção e montagem de suas unidades compositivas (capas, sobrecapas e páginas internas).

Ao iniciar um projeto editorial, deve-se dar atenção especial ao grid, que é uma estrutura de base para as páginas, criada através de margens e colunas, que definem o posicionamento de textos, títulos e figuras. Quando se constrói um grid deve se pensar no tipo de projeto que será desenvolvido em cima dele. Um exemplo de aplicação de grid pode ser conferido na figura 13.


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Figura 13: Layouts diferentes unidos por um grid dividido em nove módulos Fonte: Lupton e Phillips (2008, p.176)

Depois de o grid ser definido, é possível fazer a diagramação da página de forma mais consciente e clara, uma vez que esta etapa é responsável pela disposição de informações em uma página, como títulos, figuras, textos, tabelas e gráficos. No caso de livros e revistas, a diagramação é executada em sequências de páginas com a estrutura pré-determinada. Araújo (1986, p.430) destaca que:

Ao constituir-se numa estrutura padronizada, o diagrama confere ao conjunto do livro uma unidade confortável para a leitura mesmo que em cada página se disponham grafismos e contragrafismos de forma sempre renovada e dinâmica.

Há diferentes linhas de pensamento sobre um bom diagrama. Lupton e Phillips (2008, p.199) observam que este conceito se desdobra desde os mais “puristas”, como Edward R. Tufte, que valorizam a informação clara e objetiva até os que exploram excessivamente os grafismos, o que é considerado distração para os “puristas”. Este excesso é freqüentemente usado na composição visual das páginas de zines e publicações independentes, como pode ser visto no sumário do zine D.I.Y. Guide, produzido pelo coletivo CrimethInc (Figura 14). Como afirma Monteiro (2010, web) às vezes “é melhor fazer o leitor levar mais tempo procurando por uma citação escondida em um layout sujo, se isso o ajudar a entender melhor a obra como um todo”.


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Figura 14: Sumário do zine D.I.Y. Guide Fonte: CrimeInc. (s.d., p.2)

O fato é que os gráficos de informação representam um papel digno no design editorial, de tal modo que Lupton e Phillips (2008, p.199) evidenciam que:

A linguagem dos diagramas produziu um repertório rico e evocativo dentro do design contemporâneo. Em contextos editoriais, os diagramas servem com frequência para iluminar e explicar ideias complexas. Eles podem ser limpos e econômicos ou ricamente expressivos, criando uma imagem impressionante pela sublime densidade e grandeza de um corpo de dados.

Ainda entre os elementos de composição gráfica, a tipografia se apresenta com relevância, sendo necessário um cuidado maior na escolha de uma fonte ou família tipográfica para cada projeto gráfico. Ribeiro (1998, p.56) afirma que “a finalidade da tipografia consiste em apresentar o pensamento escrito sob uma forma ordenada, clara, equilibrada, que facilite a


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leitura e, graficamente, concorde com seu espírito”. Entende-se que uma letra é capaz de expressar ideias e falar por si mesmo, sendo assim, é importante saber escolher a tipografia adequada e construir uma unidade com os outros elementos. Além da tipografia, a letra escrita à mão também se sobressai quando se trata da capacidade de expressar. A designer gráfico americana, Kate Bingaman-Burt, explora profundamente a ilustração e escrita manual em seus trabalhos. Ela desenvolveu o projeto gráfico de livros como o Handmade Nation, e Obsessive Consumption: What Did You Buy Today (Figura 15), publicado pela própria designer.

Figura 15: Livro com textos e ilustrações manuais Fonte: Kate Bingaman-Burt (2010, web)

Os processos de impressão para um material gráfico também devem ser avaliados de acordo com o tipo de projeto, mesmo antes que o projeto chegue ao final. Entre as formas de impressão mais comuns está o offset, a impressão digital, flexografia, hot stamping, serigrafia e tipos móveis, sendo que as últimas duas se aproximam do processo artesanal e são mais lentas que as outras. Além da impressão, deve-se ter cuidado com o material onde será aplicado, pois a escolha de um processo em uma superfície não adequado pode comprometer a qualidade do material.


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Apesar de a internet dominar cada vez mais a comunicação, com sites, blogs e livros eletrônicos, ainda há quem prefira a produção artesanal e busque experimentações. Segundo Lima (s.d, web), “apesar de tudo, o papel guarda um amor tátil e tem o seu lugar nas mãos dos leitores que apreciam as possibilidades gráficas que só a celulose permite”. La Permura (Figura 16) é um destes casos, sendo um zine que segundo o blog Ugra Press (2010), apresenta um digno trabalho de acabamento e encadernação. A edição apresentada a seguir é impressa pela técnica de stencil e encadernada com a lombada costurada em estilo japonês, como afirma Okuyama (s.d.), o criador do material.

Figura 16: Capa do zine La Permura Fonte: Zinismo (2010, web)

Ao tratar de um projeto de design, as etapas do projeto editorial podem ser mais exploradas e possibilita experimentações. Porém não é todo e qualquer projeto editorial que possibilita a liberdade de composição, pois há vários fatores que trazem limites ao projeto como custos, tempo, público e cliente. Ao tratar da produção de um material experimental e não comercial, estes fatores não irão influenciar de forma significativa. No entanto, o fator


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indispensável para o designer de projeto editorial é tornar o material agradável e interessante de acordo com suas possibilidades.

3.2 Técnicas artesanais para design editorial

Construir páginas para um material gráfico de forma artesanal não é algo usual, porém existem diversas técnicas para conseguir isto. Como afirma Ribeiro (1998), os copistas da Idade Média reproduziam os textos e desenhos dos livros totalmente a mão, porém as tecnologias e necessidades que foram surgindo tornaram esta prática cada vez mais rejeitada. Contudo, se têm usado muitas dessas técnicas no mercado convencional, apesar de ser pouco comum encontrar um material completamente artesanal. Entre as técnicas manuais mais utilizadas está a ilustração, que é empregada, geralmente, como apoio de texto em revistas e livros, também presente em infográficos, histórias em quadrinhos, charges, publicidades, entre outras. Porém, geralmente, apenas a primeira fase deste processo é artesanal, pois para produção do material a imagem tem que ser digitalizada, editada e preparada para impressão. Mesmo assim, é uma técnica manual relevante e traz bons resultados aos projetos. A figura 17 exibe a aplicação de ilustração em um infográfico do designer Jacob Lockard, em que é possível observar os elementos claramente, não tão complexos como em uma fotografia, mas detalhados, com traços característicos de um desenho feito a mão.


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Figura 17: Diagrama sobra a entomofobia do próprio designer Fonte: Baltimore Uber Alles (2010, web)

Existem inúmeras formas de trabalhar com ilustração, como de modo realista, igual ao caso anterior, ou de modo simplificado e abstrato. Da mesma forma, é possível deixar a ilustração limpa, sem imperfeições, ou deixar explícito as irregularidades. Um caso curioso que envolve ilustração é o da revista uruguaia Freeway (Figura 18), que em parceria com a agência TBWA, produziram uma edição feita totalmente em caneta “bic”, com exceção das páginas publicitárias, mas com todos os textos e fotografias feitos a mão. Este é um caso em que a perfeição do desenho final não era o objetivo, pois era necessário mostrar os rabiscos da caneta que realça a singularidade do traço feito à mão.

Figura 18: Revista Freeway Fonte: Referência de imagens (s.d., web)


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Além das ilustrações, o interessante é trabalhar com letras desenhadas à mão, pois proporcionam mais liberdade na composição e são capazes de expressar o conteúdo de forma diferenciada, como foi abordado no capítulo 1.2. Como exemplo, se tem a artista americana Leia Bell, que costuma produzir pôsteres com ilustrações e letras desenhadas (Figura 19).

Figura 19: Pôster para Hilotrons Tour 2008 Fonte: Leia Bell (2008, web)

Heller (2004) explica que o que diferencia uma tipografia de uma letra escrita à mão é que a primeira é oficial e mecânica, enquanto a segunda é informal e expressiva, sendo que a relação direta da mão com a superfície a torna o melhor meio para alcançar uma comunicação fluida. Um pouco disto pode ser visto no trabalho do ilustrador Mike Nicholson (Figura 20), que apesar da simplicidade apresentada nesta imagem, consegue por meio da escrita livre, agregar sentimento.


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Figura 20: Coleção de Mike Nicholson Fonte: The Random Project (2007, web)

Entre os processos de impressão artesanal tem-se a serigrafia, que pode ser utilizado em quase qualquer tipo de material, ao variar o tipo de tinta e o método. Este processo é feito em uma superfície por meio de uma tela de seda ou tecido sintético com uma imagem gravada, por onde a tinta atravessa. A empresa The Little Friends of Printmaking utiliza esta técnica para produzir pôsteres ilustrados, como na figura 21.

Figura 21: Art vs. Craft Fonte: Sabine Jeanne Bieli (2010, web)


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Ainda há outras técnicas para impressão, como os tipos móveis, xilogravura e o stencil, sendo a última um processo de impressão histórico que, como Spinelli (2001) argumenta, desde 1970 está intensamente presente na arte de rua. Sua técnica consiste no uso de uma lâmina, geralmente de papel ou material “plástico”, cortada por meio de estilete que resulta em uma imagem. Esta lâmina funciona como molde para aplicação, na forma de rolo com tinta ou spray, em uma superfície. O interessante também é trabalhar com papel de formas diferenciadas ou com outros materiais. Além das técnicas citadas para composição gráfica, a colagem também ganha destaque, sendo uma técnica que, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural (2010, web), tomou forma no século XX, com o cubismo, ao introduzir nas obras elementos como pedaços de jornais, papéis diversos, tecidos, madeira, entre outros objetos. Desde então, a colagem faz parte de diversos trabalhos gráficos, como na figura 22.

Figura 22: Happiness, colagem Fonte: I am Ciara (2009, web)


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O recorte de papel ou paper cut também é uma outra forma de trabalhar, que no processo industrial de gráficas são chamados de “faca”, mas neste caso o corte é manual. Esta técnica também pode promover um diferencial no material e foi o que Suzy Tuxen fez quando criou a campanha para VCE Season of Excellence, ao recortar formas e unir folhas coloridas, o que ofereceu um resultado atraente para a divulgação do evento. O exemplo pode ser conferido na página a seguir na figura 23.

Figura 23: Campanha VCE Season Fonte: The design files (2011, web).

of Excellence

Semelhante a campanha feita para VCE Season of Excellence, a crafter Nikki McClure produz ilustrações vazadas, cortadas com estilete, como apresentado na figura 24.


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. Figura 24: Recorte em papel Fonte: Nikki McClure (2008, web).

Outras possibilidades de se trabalhar com o papel é, por exemplo, utilizar fogo para causar efeitos, como no trabalho da designer gráfico Natasha Weissenborn (Figura 25), ou com outros materiais, como fios de linha, explorado pela artista Sabine Bieli (Figura 26). Com o papel reciclado artesanal também é possível explorar materiais que oferecem uma composição visual interessante, ao aplicar fios, fibras, plantas secas e papéis coloridos ou impressos com texto.

Figura 25: Burning tree and candles Fonte: Natasha Weissenborn (2010, web)


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Figura 26: Textebook Fonte: Sabine Jeanne Bieli (2010, web)

Outra técnica popular é o scrapbooking, que consiste em produzir álbuns de fotografias e recordações pessoais e familiares, de forma personalizada, pois sua composição é feita de pedaços de objetos que tem algum significado pessoal, e por isso torna sua produção bastante artesanal, como pode ser visto na figura 27.


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Figura 27: Exemplo de scrapbook Fonte: Melissa Scrapbooking Spot (2010, web)

Os scrapbooking também precisam ser encadernados, assim como todo material editorial. Para isto há diversas formas de encadernação que podem ser feitas manualmente ou com auxílio de máquinas simples, como a encadernação espiral e a wire-o (garra metálica), utilizadas em um conjunto de folhas perfuradas. A encadernação de capa dura com parafuso interno ou externo e o fichário, que facilita a retirada e inserção de folhas, são outras opções. Também existe a lombada com o miolo colado que depois é encapado e a brochura costurada, em que o miolo pode ter folhas soltas ou ser separado em cadernos costurados, com a costura oculta ou aparente, como no caso dos livros artesanais da empresa If’n Books + Marks, da crafter americana Deb Dormody, (Figura 28).


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Figura 28: If’n Books + Marks, no livro Handmade Nation Fonte: Acervo pessoal (2010)

Formas para produzir materiais gráficos artesanalmente não faltam. Existem diversos processos para composição gráfica, impressão e acabamentos. Porém, é um material que possui um foco distinto do mercado convencional, pois sua produção requer tempo e atenção maior, o que o torna apropriado para uma produção de baixa escala. Mesmo assim, entende-se que é possível a produção de forma alternativa e que por mais trabalhosa que seja a execução do projeto, sabe-se que o resultado será gratificante tanto para o público quanto para quem produz. O capítulo a seguir trata de explorar a linguagem presente na comunidade Craft. Assim são analisados os elementos de design editorial que se moldam tanto as características da comunidade Craft quanto com o estudo de técnicas apresentados até então.


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4 ANÁLISES E TRATAMENTOS DE DADOS

Este capítulo organiza e sintetiza as informações e dados necessários para o desenvolvimento do projeto gráfico. Assim, foram obtidas informações por meio de análises específicas que, em sequência, apresentam-se como análises da comunidade Craft e pesquisa de público alvo, no que consiste a seleção de técnicas artesanais para o projeto e as possibilidades de suas aplicações no material. Há também analises das técnicas artesanais e de itens para o projeto editorial. Estes resultados são aproveitados como ponto de partida para o desenvolvimento do projeto.

4.1 Elementos visuais no Craft

A comunidade Craft é composta por uma diversidade de produtores com estilos e gostos individuais, que trabalham com técnicas e materiais distintos. Por conta disto, é necessário buscar características freqüentes e elementos que representem esta comunidade para assim ter uma síntese condizente com a proposta do projeto. Apesar das qualidades diversas, a figura 29 retrata a variedade de produtos de alguns crafters.


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Figura 29: Produtos das comunidade Craft Fonte: Referência de imagem

Apesar das diferenças entre os produtos mostrados acima, algumas semelhanças podem ser destacadas, como formas arredondadas, elementos infantis, temas alegres e uso de cores que variam de vibrantes a tons pastéis. Uma outra maneira de analisar a comunidade Craft é por meio dos materiais gráficos produzidos para essa comunidade. Cartazes de feira, capas de livro, publicações sobre o tema e logotipos podem ser observados na página a seguir (figura 30).


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Figura 30: Materiais gráficos na comunidade Craft Fonte: Referência de imagem

Neste conjunto de materiais é possível notar a presença de objetos utilizados na confecção de produtos, como agulhas de costura e tricô, fios, carretel, lápis, tesoura e bastidor de bordado. Também é perceptível o uso de objetos feitos de tecido e tricô, assim como a representação dos pontos de costura, bordados, o uso de letras desenhadas a mão e ilustrações, sendo que todos estes elementos são empregados de forma dinâmica e descontraída.


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4.1.2 Linguagem verbal no craft

A comunidade Craft é formada por pessoas com espírito jovem, descontraídas, que gostam de compartilhar suas experiências e ter contato com outros crafters. A linguagem verbal produzida neste meio é informal e com freqüente uso de gírias. As pessoas envolvidas com Craft expressam sobre o tema com paixão e convictas da importância que esta atividade tem em suas vidas e na sociedade. Algumas frases retiradas do livro Handmade Nation, podem ser observadas na figura 31 e figura 32.

Figura 31: Frase de Faythe Levine3 Fonte: Handmade Nation (2008)

Figura 32: Frase de Andrew Wagner 4 Fonte: Handmade Nation (2008)

A partir das análises obtidas referente à comunidade Craft é possível direcionar as próximas etapas de definição do projeto (estética do material, estilo dos elementos editoriais, técnicas artesanais, conceito) de uma maneira mais conectada com o tema do material.

4.2 Pesquisa de público alvo

A pesquisa de público alvo teve como objetivo verificar o interesse do público na execução do projeto proposto neste Trabalho de Conclusão de Curso. A análise foi aplicada a fim de descobrir o nível de conhecimento do público acerca do tema do livro – comunidade 3

Tradução: Este é meu primeiro livro, minha oportunidade para dizer porque a criatividade e o ethos do “faça você mesmo” são tão importantes para mim, e porque eu penso que ambos podem te fortalecer e mudar sua vida. 4 Tradução: Fazer suas próprias roupas, suas louças de jantar, sua própria arte tem se tornado um jeito educado (ou não tão educado) de mostrar ao “Homem” o dedo do meio, por falta de um termo melhor. A questão que surge é, podemos ter um mundo Craft sem o outro mundo?


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Craft - assim como suas necessidades e requisitos em relação a atividades práticas em trabalhos de design. Focou-se na experiência que o público tem com técnicas manuais e artesanais ao levar em consideração suas habilidades e interesses, além da importância que é cedida a esta prática e se é considerada relevante para a atividade profissional de designer. As questões foram formuladas em favor da manifestação do público ao verificar seus interesses em práticas manuais e artesanais e as técnicas consideradas relevantes. Optou-se por questões discursivas para não limitar a pessoa às soluções impostas, o que possibilitou respostas não esperadas e realmente pertinentes. Tendo em conta que o público alvo é focado nos estudantes de design, escolheu-se o questionário como ferramenta para busca de dados. Sua aplicação foi realizada via internet, por meio do serviço de formulários da empresa Google, sendo divulgado na lista de e-mail dos estudantes dos cursos de design da UNIVILLE, pelo departamento do curso, e também divulgado em comunidades dos cursos de design da mesma instituição através de redes sociais. Determinou-se este meio de aplicação por permitir o acesso a um número maior de pessoas, pois se buscou atingir um público variado de todas as turmas e habilitações de design da instituição. A pesquisa foi aplicada em julho de 2010, sendo obtidas informações dos estudantes das quatro habilitações existentes na época no curso de design da UNIVILLE (Programação Visual, Projeto de Produto, Moda e Animação Digital) representada por noventa indivíduos. É valido salientar que a habilitação de Programação Visual atende a 58% dos resultados obtidos, o que é interessante por este projeto ser direcionado ao design gráfico. O resultado das outras habilitações também é indispensável, pois possibilita informar o interesse no tema de forma integral. Todas as questões e resultados podem ser conferidos no Apêndice A. Em relação à experiência da prática manual e artesanal durante o curso, 90% dos estudantes afirmaram que foi ensinada ou sugerida alguma técnica durante o curso, sendo que os entrevistados se apresentam em todos os períodos letivos. Na amostra, 62% dos estudantes apresentam alguma habilidade artesanal, sendo o desenho e ilustração citado em 37% dos casos. Ao considerar interessante a aprendizagem ou aprimoramento de alguma técnica, 78% dos entrevistados se mostraram simpatizantes. Apesar disso, 92% consideram significante para um profissional de design a exploração da habilidade manual, o que indica que os estudantes julgam interessante a habilidade manual para a profissão, mas não tem interesse em aprender. Fatores como o mercado de trabalho podem estar associados a essa decisão, pois não há tempo nem recursos (por parte do mercado) para investir neste tipo de qualificação.


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Em relação ao Craft 68% dos entrevistados têm conhecimento desta prática e 92% consideram interessante a publicação do assunto. Através destes dados é possível presumir que a publicação deste material, com exemplos práticos de técnicas, pode incentivar os estudantes a aprenderem e aprimorarem a prática artesanal como forma de qualificação profissional.

4.3 Técnicas artesanais para o material gráfico

Como apresentado no capítulo 3.4, existem diversas técnicas manuais e artesanais que podem ser aplicadas em um projeto de design gráfico. Sendo assim, é necessário fazer uma seleção das técnicas compatíveis com este projeto. Buscou-se no mesmo questionário aplicado ao público-alvo, colher apenas as respostas dos estudantes da habilitação de Programação Visual, que representa uma amostra de 52 pessoas. Esta é uma forma de encontrar resultados direcionados ao projeto gráfico. Como ilustra o gráfico da figura 33, esta filtragem de respostas auxiliou na escolha de técnicas artesanais favoráveis para este projeto.

Figura 33: Resultado dos estudantes de Programação Visual Fonte: Arquivo primário (2010)

As técnicas que foram mais solicitadas pelos estudantes estão destacas no gráfico em cor azul, na ordem de mais citadas pelos estudantes. É possível observar também que mais da


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metade dos estudantes possui habilidade com técnicas manuais e artesanais, sendo que grande parte deles também expressa interesse em estudar outras técnicas, como as destacas em cor azul. Deste modo, considerou-se importante explorar boa parte destas técnicas no projeto gráfico, sem desconsiderar outras possíveis técnicas não listadas.

4.3.1 Técnicas de impressão

O stencil, técnica mais citada na pesquisa, é um processo de impressão que se adapta melhor em ilustrações ou textos artísticos. Alguns exemplos de sua aplicação podem ser conferidos na figura 34.

Figura 34: Aplicações de stencil Fonte: Referência de imagem

Diferente do stencil, a serigrafia proporciona um resultado de maior precisão e melhor acabamento, deste modo é mais indicado para impressão de textos. É valido salientar que há diversos crafters que utilizam esta técnica em seus produtos, sendo uma característica relevante a ser aproveitada no projeto gráfico. Alguns materiais produzidos em serigrafia por crafters podem ser visualizados na figura 35.

Figura 35: Aplicações de serigrafia Fonte: Referência de imagem


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É valido destacar que estes processos de impressão podem ser executados em ambientes domésticos, sem necessidade de máquinas, o que proporciona um baixo custo de produção.

4.3.2 Encadernação

Existem diversas formas de encadernação artesanal para materiais editoriais. No caso deste projeto a escolha da encadernação foi pensada para folhas soltas, pois as páginas devem ser agrupadas separadamente. Sendo assim, das técnicas de encadernação pesquisadas a que utiliza costura em estilo japonês se apresenta como a mais apropriada, por não necessitar do uso de cola e preservar as características artesanais, pois a costura é externa. Sendo assim, na página a seguir são exibidos alguns exemplos (figura 36) possíveis para este caso.

Figura 36: Formas de encadernação Fonte: Referência de imagem


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4.3.3 Composições experimentais

Entre as técnicas mais citadas na pesquisa, encontram-se também o papercraft e a costura. A figura 37 destaca algumas composições.

Figura 37: Composições experimentais Fonte: Referência de imagem

Pode-se observar o uso de técnicas como recortes de papel, costura em papel e tecido, aplicação de outros materiais em papel e o papel reciclado artesanal. Estas técnicas são utilizadas no design gráfico de forma experimental sendo dificilmente encontrada em materiais comerciais, pois sua execução requer uma mão de obra habilidosa e mais tempo para produção, então apresentam dificuldade em se adequarem a maioria dos projetos da indústria gráfica.


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4.3.4 Escrita manual

A escrita manual, como foi citada nos capítulos anteriores, é rica na expressão de sentimentos e ideias. Sua utilização neste projeto foi importante ao se tratar do valor do processo manual, além de se aproximar da ilustração e desenho de tipos. Na comunidade Craft esta técnica aparece com frequêcia em cartazes, produtos e marcas dos produtores. A figura 38 apresenta letras desenhadas com conceito estético relativo ao Craft, pela descontração, expressão e dinamismo, conforme visualizado no capítulo 4.1.

Figura 38: Materiais com escrita manual Fonte: Referência de imagem


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4.4 Elementos editoriais

Para alguns elementos de projeto editorial foi útil fazer uma análise como forma de avaliar exemplos que poderiam ser tomados como referência no desenvolvimento do projeto. A respeito da diagramação, foi interessante ter como exemplo casos que conseguissem compor de forma harmônica a união de todos os elementos editoriais, como caixas de texto, textos artísticos, imagens, e outros elementos. Deste modo, a figura 39 exibe as referências de diagramação para o projeto.

Figura 39: Exemplos de diagramação Fonte: Referência de imagem

Este projeto utiliza letras desenhadas à mão e aspectos referentes ao Craft. Deste modo, o estudo de tipografia foi analisado com base em publicações que a utilizam junto a


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elementos como a escrita manual, ilustração ou de temática semelhante a do projeto, presentes na figura 40.

Figura 40: Tipografia para texto Fonte: Referência de imagem

Considerou-se interessante utilizar tipografias que não tivessem características artesanais para manter um contraste e destacar os outros elementos que exploram o desenho manual. Além das letras desenhadas, o projeto faz uso de ilustrações que devem proporcionar apoio ao texto e explorar características do Craft. A figura 41 serviu como referência de ilustrações com estilos e traços para serem explorados nas alternativas de imagens do projeto gráfico.


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Painel 41: Referência de ilustrações Fonte: Referência de imagem

As análises efetuadas neste capítulo esclareceram a linha conceitual que se pretendeu para a execução do projeto. Deste modo, foram definidas, por meio das necessidades do público, as técnicas artesanais que serial utilizadas e também a forma como o conteúdo poderia ser aplicado no projeto gráfico e editorial. Com as análises da comunidade Craft, levantou-se as principais características presentes nesta comunidade, o que auxiliou no desenvolvimento gráfico do projeto. Do mesmo modo, a análise de elementos editoriais também contribuiu no desenvolvimento da solução gráfica, o que direcionou o projeto para um caminho mais nítido.


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5 PROJETO GRÁFICO

Este capítulo aborda o desenvolvimento do projeto gráfico editorial deste Trabalho de Conclusão de Curso, o qual possui características como a experimentação a partir de técnicas artesanais e o Craft como tema principal. Adiante seguem as etapas de desenvolvimento do projeto gráfico do material no que se refere à conceituação e geração de alternativas, assim como a elaboração do projeto editorial, em que são apresentados os itens editoriais desde o layout e conteúdo à produção e finalização.

5.1 Conceito

O projeto teve como conceito aspectos relacionados ao Craft, como o “faça você mesmo”, a prática artesanal e a produção criativa. Também utiliza o conceito de experimentação no design, que é explorada a partir de técnicas artesanais e materiais não habituais no design gráfico. Além disto, buscou-se evidenciar a importância do processo no desenvolvimento de projetos, em que a prática, muitas vezes de forma artesanal, possui papel fundamental para um bom resultado. Deste modo o projeto se concentrou no desenvolvimento de um material gráficoeditorial com foco nas técnicas e experimentações de caráter artesanal presentes na construção do livro, o que significa que grande parte do material será produzido de forma artesanal. Sua linguagem visual faz referência à comunidade Craft, em que suas características tornam-se evidentes por meio dos elementos editoriais e do conteúdo textual inserido no material gráfico. A proposta inclinou-se para um público universitário, de espírito jovem, com interesse em design experimental e assuntos relacionados ao Craft, o que exige do material um resultado que seja atrativo e que atinja as expectativas deste público.


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5.2 Conteúdo do livro

Neste projeto gráfico-editorial há elementos visuais como textos, imagens, elementos editoriais e elementos de experimentação artesanal. Dentre o conteúdo textual (Apêndice B), este foi produzido por um terceiro. Graduado em Ciência da Computação e mestrando em Color in Informatics and Media Technology, Oriel Frigo possui grande interesse e experiência com as culturas punk e do “faça você mesmo”, que são temas relacionados ao Craft. Além do interesse pelo tema, com seu gosto pela escrita (como pode ser conferido em seu blog – cosmonauta.noblogs.org) Frigo se propôs a apoiar o projeto ao contribuir com reflexões sobre o Craft relacionando-o a outros temas, como questões históricas e de comportamento, relações de trabalho, ativismo e feminismo. Estes temas foram abordados em textos breves divididos em cinco capítulos, com os seguintes títulos: Introduzindo o Craft; A nova onda do Artesanato; Craft e as relações de trabalho; Craftivismo; Craft e Feminismo. Além disso, o título escolhido para o livro foi “Craft: Uma nova rede de artífices”, no qual o título principal evidencia do que se trata o material, enquanto o subtítulo relaciona a forma como esta comunidade de artífices interage, como uma rede ligada a vários pontos que transmite informações, o que pode facilmente estar relacionado à internet e que certamente representa o Craft na era da informação. Além de o material conter itens essenciais de projeto editorial, como capa, folha de rosto, sumário e o miolo com os textos, também há página de glossário e referências. No que se refere às imagens, o conteúdo se aproveita de imagens existentes e ilustrações produzidas pela autora do projeto, sendo que ambas se relacionam com os assuntos tratados em cada capítulo. Tanto as imagens quanto os textos e elementos editoriais são apresentados na solução física do material por meio de alguma técnica artesanal, sendo o material composto pela união harmônica entre textos, imagens e características visuais das técnicas artesanais.

5.3 Geração de alternativas


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O processo de geração de alternativas do projeto teve como referências as análises do capítulo 4 e o conceito apresentado anteriormente. Buscou-se inicialmente encontrar um formato de material adequado à proposta para assim facilitar a definição do grid, sendo este um elemento importante para a preparação de um projeto editorial por auxiliar na diagramação e oferecer uma linguagem única ao material. A figura 42 demonstra uma tabela comparativa dos roughs de formato e grid sugeridos.

Figura 42: Tabela comparativa de formato e grid Fonte: Arquivo Primário (2011)

Sendo assim, a alternativa que apresentou menos características negativas para a proposta foi a de formato quadrado, por seu tamanho facilitar o transporte, manuseio e seu formato e grid modular conseguirem sustentar a composição de elementos, sendo a alternativa escolhida para execução do projeto. A partir destas definições geraram-se alternativas para a diagramação das páginas (figura 43), a qual auxiliou na composição de elementos como textos e imagens.


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Figura 43: Alternativas para diagramação Fonte: Arquivo Primário (2010)

Com esta geração de diagramação foi possível definir alguns critérios a serem seguidos no restante do material como, por exemplo, ao visualizar o material aberto uma das páginas é reservada aos textos enquanto a página oposta fica livre para ilustrações e destinadas aos títulos. No caso dos títulos e de outros textos de elementos editoriais, a proposta é que estes se apresentem na forma de escrita manual, então foram produzidas algumas alternativas de letras (figura 44) que seguissem o conceito do projeto e da análise do capítulo 4.3.4, sendo as coloridas as que se mostraram mais interessantes para a proposta.

Figura 44: Alternativas para letras desenhadas Fonte: Arquivo Primário (2010)


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A ilustração foi mais um requisito para o material, sendo necessário definir um estilo de desenho a ser utilizado em suas páginas. Neste caso, o traço do desenho é característico da autora do projeto (figura 45), com linhas de contorno, sem uso de sombreado nem objetos em cores chapadas. Porém buscou-se um pouco da infantilidade encontrada nos produtos Craft.

Figura 45: Geração de alternativa para ilustração Fonte: Arquivo Primário (2010)

Para a capa do livro também surgiram algumas idéias para destacar o nome Craft, e também se optou pelas letras desenhadas, o que resultou nas alternativas da figura 46.

Figura 46: Alternativa para capa Fonte: Arquivo Primário (2010)

Destas, a que melhor representou a proposta do livro foi a de letra cursiva por este tipo de letra fazer um resgate do texto manuscrito que realça a utilização da mão. Sendo assim, as


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alternativas aqui apresentadas serviram de apoio para o restante do desenvolvimento do material, que são apresentados adiante como refinamento das alternativas.

5.3.1 Refinamento das alternativas

Nesta sessão é apresentada, de maneira refinada, a alternativa escolhida para os elementos trabalhados no capítulo anterior, o que possibilita ter uma melhor visualização do desenvolvimento do projeto por meio das modificações necessárias. A primeira alternativa refinada se refere à estrutura do grid, que por conseqüência do teste de impressão em serigrafia do texto não ter alcançado o resultado desejado (figura 47) foi necessário modificar o corpo da fonte, o que exigiu alterações na estrutura do grid.

Figura 47: Teste de impressão e refinamento do grid Fonte: Arquivo Primário (2011)

Inicialmente houve um aumento de 0,5pt no corpo da fonte na tentativa de melhorar o resultado da impressão. Porém, este pequeno aumento do corpo da fonte prejudicou a ergonomia na leitura, pois as colunas de textos se tornaram mais altas e a quantidade de


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palavras por linha diminuiu. Como solução elaborou-se um grid de 25 módulos para trabalhar com o texto de um modo mais confortável. Além disto, houve um aumento na largura da folha para melhor acomodar os elementos na página, pois uma parte da folha é reservada para encadernação. Este novo formato deixou de ser quadrado para ser levemente retangular. Desde modo a figura 48 apresenta a alternativa refinada do grid com a estrutura e tamanhos definidos, sendo que o material possui 210 mm x 200 mm.

Figura 48: Grid refinado Fonte: Arquivo Primário (2011)

A partir destas definições foram separadas algumas letras desenhadas a mão para o conteúdo editorial do livro. Optou-se pelos estilos e traços que podem ser conferidos na próxima página (figura 49). Buscou-se uma variação de pesos e formatos para serem


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utilizados em ocasiões diferentes, como títulos, subtítulos, identificação de página, entre outros.

Figura 49: Letras desenhadas Fonte: Arquivo Primário (2010)

O título para a capa do livro também recebe a frase “Craft: Uma nova rede de artífices” com letras desenhadas a mão. Para criar um efeito mais próximo ao de bordado, o título foi redesenhado com tracejados arredondados, conforme mostra figura 50.

Figura 50: Refinamento do título para a capa Fonte: Arquivo Primário (2010)


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A partir dos refinamentos foi possível elaborar um primeiro modelo do que será o projeto do livro. A aplicação de algumas das alternativas apresentadas aqui pode ser conferida na figura 51.

Figura 51: Aplicação das alternativas Fonte: Arquivo Primário (2011)

Os refinamentos aqui apresentados foram a base para as definições do projeto gráfico e editorial do livro, que são esclarecidos nos próximos tópicos.

5.4 Projeto editorial

Com os resultados obtidos na geração de alternativas foi possível determinar o restante do projeto, que a seguir são apresentados a partir dos principais itens do projeto editorial, os elementos gráficos, suas definições, a solução para o projeto do livro e o resultado da sua produção.


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5.4.1 Cores

A definição das cores para o projeto gráfico originou-se dos painéis visuais do Craft analisados no capítulo 4.1. Desta análise foram selecionadas algumas das cores mais presentes, que podem ser visualizadas na figura 52.

Figura 52: Cores selecionadas Fonte: Referência de imagem

As cinco cores representadas nos botões são algumas das que mais apareceram nos painéis de referência da comunidade Craft. Em um material editorial o número de cores deve ser reduzido, por isto foram selecionadas apenas estas cores apresentadas. Algumas predominarão mais que outras, pois estarão presentes nas cores das páginas e em materiais como tecido e linha.


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5.4.2 Tipografia

Com base nas análises do capítulo 4.3 foram testadas algumas tipografias como Baskerville, Trebuchet MS, Palatino, Mrs Eaves, Geometric Slabserif 703 Md BT e Humanist Slabserif 712 BT, sendo a última a que melhor se ajustou ao estilo do projeto, por possuir serifa, que auxilia na leitura e ser esteticamente relativa ao projeto, conforme analisado no capítulo 4.4. A Humanist Slabserif 712 foi criada, segundo Sanskritweb (s.d), pelo designer suíço Adrian Frutiger em 1956 e publicada pela Bitstream. Os tipos Slabserif (figura 53) se diferenciam por apresentar baixo contraste em sua estrutura robusta com serifa retangular, características que foram consideradas eficientes para impressão por serigrafia, pois como toda estrutura apresenta a mesma espessura, há menos risco de algumas partes falharem na impressão.

Figura 53: Humanist Slabserif 712 Fonte: Identifont (s.d.)

O tamanho definido inicialmente para uso nos textos era de 10pt, um tamanho razoável para facilitar a impressão em serigrafia e oferecer boa legibilidade. Porém, ao simular a impressão de uma das páginas do livro com a impressora comum constatou-se um peso visual nos textos por conta do tamanho da fonte. Assim, os textos foram reduzidos para 8pt, porém mais uma vez confirmou-se no teste de impressão em serigrafia que o tamanho reduzido da fonte não suportava o método de impressão com os recursos utilizados. A figura 54 demonstra a comparação referente aos testes de impressão dos textos.


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Figura 54: Impressão comum com corpo 10pt (esquerda), serigrafia com corpo 8pt (direita) Fonte: Arquivo Primário (2011)

Este segundo teste de serigrafia dos textos evidenciou que os recursos disponíveis para este tipo de impressão não eram eficientes. Como forma de manter a estética e ergonomia do projeto gráfico, decidiu-se terceirizar o método de impressão dos textos para uma empresa especializada em serigrafia. Sendo assim, o corpo da fonte continuou 8pt e para melhorar a leitura e estática da página houve um ajuste de entrelinhamento na diagramação dos textos que proporcionasse respiro entre as linhas. A figura 55 demonstra a aplicação da tipografia em uma página do livro e compara o ajuste de espaçamento entre linhas, palavras e tipos.

Figura 55: Entrelinhamento de texto ajustado (direita) Fonte: Arquivo Primário (2011)

Além da tipografia e aplicações dos textos, as ilustrações e os títulos com tipografia diferenciada deram apoio aos itens editoriais abordados aqui e são apresentados a seguir.


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5.4.3 Ilustrações e letras desenhadas

No caso da letra desenhada a mão, além de ter cunho textual ela também possui qualidade de ilustração. No livro a escrita manual foi usada nos títulos dos capítulos e na identificação das páginas localizadas no rodapé, onde são informados o nome do material e o capítulo que se apresenta. Porém também está presente nos títulos de capítulo apresentados no sumário, numerações de páginas e nas páginas pós-textuais. Os estilos de letras usados no projeto editorial foram os três presentes na figura 56.

Figura 56: Letras desenhadas Fonte: Arquivo Primário (2010)

Além dos estilos padrões de letras desenhadas, algumas páginas que contém frases ou citações em destaque, recebem textos desenhados de forma diferenciada junto às ilustrações. No capítulo 3 (Craft e as Relações de Trabalho) há um desses casos, sendo que o desenho apresenta a frase “A obrigação de produzir aliena a paixão de criar” escrita com a simulação de uma linha de costura, que liga a frase inteira por um fio. A figura 57 demonstra as imagens de referência e o detalhe do resultado obtido na ilustração.


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Figura 57: Letra desenhada no estilo linha de costura Fonte: Arquivo Primário com Referência de Imagens (2011)

Grande parte das páginas do material contém ilustrações referentes aos assuntos de cada capítulo, sendo que os desenhos, assim como as letras desenhadas, foram produzidos a mão com lápis 6B e caneta nanquim, e posteriormente foram editados no computador. O estilo das ilustrações é simples, com contorno evidente e forte contraste com o fundo, conforme pode ser visto na figura 58.

Figura 58: Ilustrações aplicadas Fonte: Arquivo Primário (2011)


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O livro é composto por oito desenhos distribuídos em quase todas as páginas. No caso da figura 59, feita para o segundo capítulo (A nova onda do artesanato), foram utilizados diversos elementos que marcaram o surgimento do Craft, como a customização e a costura, o feminismo, a produção de zines, a música, a internet e o tricô. Buscou-se assim um conjunto de símbolos que exemplificasse esses acontecimentos.

Figura 59: Ilustração Fonte: Arquivo Primário (2010)

A imagem da figura 60 (próxima página), do estadunidense Rosey Grier (ator, cantor, e jogador de futebol americano) foi a única fotografia usada no material. Localizada no capítulo 5 (Craft e feminismo), esta imagem representa um comportamento não muito comum entre os homens, que em sua maioria ainda vêem a atividade artesanal como prática direcionada às mulheres. Esta foto foi utilizada na revista “Needlepoint for men” lançada por Rosey Grier nos anos de 1970, na qual ele ensina técnicas de bordado direcionadas para o público masculino. Esta imagem ilustra uma das páginas do material por meio da aplicação da técnica de stencil.


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Figura 60: Aplicação de stencil Fonte: Arquivo Primário com Referência de Imagem (2011)

Para se ter um entendimento maior do que foi abordado nesta sessão, a figura 61 (página a seguir) exemplifica o resultado das ilustrações, letras desenhadas e tipografia apresentadas aqui, aplicadas em algumas partes do material.


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Figura 61: Aplicação dos elementos no material Fonte: Arquivo Primário (2011)

Deste modo foi possível observar os diversos elementos que compõe o projeto visual do material, o que contribui para a compreensão dos próximos itens, como capa e diagramação do livro.


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5.4.4 Diagramação

A diagramação do livro foi realizada com base no grid da geração de alternativas. Os cinco capítulos foram distribuídos em 18 páginas. Há também outras cinco páginas que contém a primeira folha com o título, a folha de rosto, o sumário, o glossário e as referências. Sendo assim, o conteúdo do material seguiram os critérios que podem ser visualizados na figura 62.

Figura 62: Diagramação das páginas do material Fonte: Arquivo Primário (2011)


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É possível observar nas imagens algumas definições, como a imposição do título do capítulo na página contrária ao texto, sempre em destaque ou formando uma composição junto às ilustrações. Os textos são diagramados sem o recuo do parágrafo de forma rígida, porém as colunas são dispostas de forma dinâmica ao serem posicionadas em alturas diferentes As identificações das páginas se localizam na parte inferior da folha, com o nome do material nas páginas à esquerda e o nome do capítulo nas páginas à direita do material aberto. As ilustrações não seguem os limites de margem estipulados no grid, o que oferece maior liberdade para composições.

5.4.5 Capa

O título do livro também foi construído com letras manuais. A capa revestida com tecido azul escuro recebe o título “Craft” bordado a mão na cor azul piscina e o subtítulo impresso por serigrafia com tinta branca. Já no caso da primeira página do livro (ou anti folha de rosto) o nome do livro é impresso em serigrafia com tinta preta em papel reciclado artesanal branco com detalhes de confetes coloridos, ambos produzidos exclusivamente para o material. As letras escritas à mão também ganharam um destaque junto à composição alegre da página. A simulação destas aplicações pode ser vista na figura 63.

Figura 63: Capa e folha de rosto Fonte: Arquivo Primário (2011)


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Sendo assim os materiais e processos utilizados na produção da capa e na primeira página, assim como em todas as partes do livro são detalhados a seguir.

5.4.6 Materiais e impressão

O projeto propõe experimentações na confecção do livro, o que favoreceu a escolha de alguns materiais como o tecido tricolini em cor azul escuro para revestimento da capa e o fio de linha para bordado na cor vermelha. O emprego de papéis variados foi outro ponto relevante, em que são explorados tipos diferenciados como o papel reciclado artesanal feito a partir de papel branco e de lista telefônica, como também o papel vegetal para trabalhar efeitos de transparência. Outro tipo de papel utilizado foi o VSP de gramatura 180g nas cores Pequim (vermelho), Porto Seguro (azul) e Roma (marfim). Este conjunto de materiais está presente na figura 64.

Figura 64: Conjunto de papéis Fonte: Arquivo Primário (2011)

A principal forma de impressão utilizada no projeto foi a serigrafia, sendo necessário o uso de uma tela e tintas nos tons preto e branco para aplicação. O material recebe também aplicações de stencil no papel vegetal, sendo que todas estas definições estão exemplificadas na figura 65.


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Figura 65: Papéis e cores Fonte: Arquivo Primário (2011)

5.4.6.1 Execução

Como forma de evidenciar o processo na produção do livro, esta seção se concentrou em expor o modo como o mesmo foi executado nos quesitos materiais e impressões. No que diz respeito aos materiais, o papel reciclado se destaca por ter sido produzido artesanalmente. A figura 66 apresenta os registros fotográficos deste processo de produção executados no CAD (Centro de Artes e Design) da Univille.

Figura 66: Produção de papel reciclado artesanal Fonte: Arquivo Primário (2010)

Quanto aos processos de impressão, a serigrafia foi o principal. Para este foram montadas duas telas com tecido de nylon (77 tramas), fixado à moldura em madeira. No tecido são gravadas as imagens por um processo de foto-sensibilidade ao utilizar químicos e


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luz. Este processo deixa o tecido vazado nas áreas escuras do fotolito e é por onde a tinta escorrerá no momento da impressão. Imagens da execução podem ser visualizadas na figura 67.

Figura 67: Produção de impressão serigráfica Fonte: Arquivo Primário (2011)

No entanto, o stencil é um processo de impressão ainda mais artesanal. Neste caso, foram utilizadas duas folhas de papel couchê 140g para fazer as duas camadas da imagem. Conforme a figura 68, os moldes foram cortados a mão com uma lâmina fina.

Figura 68: Produção de molde para stencil Fonte: Arquivo Primário (2011)

5.4.7 Encadernação e acabamento

A encadernação utilizada no caso deste material é conhecida como estilo japonês, que consiste em uma capa e miolo perfurados com uma furadeira em uma das laterais do material. Por estas perfurações é passada uma linha com o auxilio de uma agulha, assim as folhas são costuradas e permanecem presas, conforme pode ser observado na figura 69.


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Figura 69: Detalhe da encadernação Fonte: Arquivo Primário (2011)

5.4.7.1 Execução

O material inclui uma capa dura revestida com tecido que foi costurada junto ao miolo na encadernação. O revestimento em tecido foi fixado na capa com cola branca, como pode ser conferido na figura 70.


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Figura 70: Processo de encadernação Fonte: Arquivo Primário (2011)

O infográfico da figura 71 exemplifica a estrutura do material e o revestimento da capa.

Figura 71: Infográfico da encadernação Fonte: Arquivo Primário (2011)

5.4.8 Resultados

Neste desenvolvimento do projeto para o livro foi possível encontrar uma solução gráfica e editorial condizente com os requisitos. Foram desenvolvidos o grid, os elementos editoriais como tipografia para títulos, subtítulos, informações secundárias e ilustrações, seleção de cores e tipografia para textos, a diagramação das páginas, a definição de materiais e suas aplicações, assim como a produção do material. No caso deste último requisito, a


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produção dos papéis recicláveis, o stencil, o bordado e a encadernação alcançaram o resultado esperado. Porém, no caso da serigrafia, os recursos disponíveis para sua execução não foram capazes de oferecer uma qualidade de impressão plausível. Os materiais utilizados na Univille, como o nylon e os químicos da emulsão não possuíam os atributos necessários para uma impressão de alta definição requerida para um material editorial. Conforme pode ser visto da figura 72, os resultados da impressão feitos pela autora não atingiram a qualidade necessária. Mesmo depois de muitos testes os resultados eram os mesmos, o que tornou claro que os materiais não eram eficientes para tal caso.

Figura 72: Testes de serigrafia Fonte: Arquivo Primário (2011)


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Porém os únicos testes que chegaram a um resultado razoável foram os da figura 73, do título do livro e de uma das páginas ilustradas. Mesmo assim o problema foi resolvido com a terceirização da impressão por uma empresa especializada em serigrafia, com recursos adequados para alcançar a qualidade desejada.

Figura 73: Testes razoáveis de serigrafia Fonte: Arquivo Primário (2011)

Apesar do processo de impressão não ter se adequado a proposta do projeto, em que a própria autora faria a produção do livro, todos os outros requisitos foram satisfatórios e proporcionaram um projeto gráfico e editorial correspondente com o conceito do livro. O resultado da produção e detalhe das páginas do livro podem ser conferidas na figura 74.


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Figura 74: Páginas e detalhes Fonte: Arquivo Primário (2011)

Deste modo, encerra-se aqui a abordagem do projeto do livro Craft: Uma nova rede de artífices, sendo que o conteúdo das páginas podem ser conferidos com melhor visualização no apêndice C.


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MEMORIAL DESCRITIVO

Este trabalho esteve voltado para a valorização do processo artesanal em projetos de design, em que o projeto gráfico-editorial do livro Craft – Uma nova rede de artífices foi o meio pelo qual se pretende incentivar esta prática. O Craft, além de estimular o produzir artesanalmente, é um tema desprovido de bibliografia no Brasil, o que torna este material uma alternativa possível para suprir esta necessidade. O livro, que aborda em seus textos o envolvimento da comunidade Craft em relação à sociedade, tem como referência os produtos e materiais gráficos produzidos pela comunidade Craft. Com isto foi possível encontrar elementos que auxiliaram na identificação de uma linguagem visual Craft, para assim ser um material atraente para interessados no tema e também para os estudantes de design que, por meio de um questionário, sugeriram técnicas artesanais de seus interesses. Além do tema do livro promover a prática artesanal pelos elementos visuais e textuais, o incentivo maior está no fato de boa parte do material ter sido produzido de forma artesanal pela autora do projeto, pois o “faça você mesmo” é uma das essências do Craft. Este fato está presente nas ilustrações, nos títulos desenhados, nas impressões em serigrafia e em stencil, na confecção de papéis reciclados artesanais, nos detalhes de costura e corte das páginas e na encadernação do material. Deste modo, mais do que ler sobre a prática artesanal, o público pode ver no resultado físico do livro as possibilidades que o artesanal oferece. O livro possui formato aproximadamente quadrado de 210x200mm, sendo um tamanho médio que suporta bem as 23 páginas com elementos de textos, imagens e detalhes artesanais e que facilita seu transporte e manuseio. O material também possui capa dura revestida com tecido, o que ajuda na preservação do mesmo. No caso do miolo, este é composto por papéis variados, em três cores diferentes (azul, vermelho, gelo) além do papel reciclado artesanal branco com detalhes em confete colorido e o papel vegetal. O conjunto de folhas e a capa dura foram encadernados no estilo japonês. Com a variedade de papéis, cores e materiais, o livro se destaca entre outros materiais editoriais. As ilustrações contornadas em contraste com o fundo e a diagramação enriquecem o material e instiga o leitor a conhecê-lo. Deste modo, o material apresenta informação no conteúdo textual, atratividade no projeto visual e incentivo pela produção artesanal, e supre a falta de bibliografia sobre Craft e as necessidades expostas pelos estudantes em aprimorar técnicas como o stencil, serigrafia, papercraft e costura.


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CONCLUSÃO

A era da informação, caracterizada pelo excesso de publicações vindas principalmente da internet, certamente influencia no comportamento das pessoas, pois a internet incentiva o usuário a se expor e estimula sua autonomia. Do mesmo modo, é notável a quantidade de pessoas que têm produzido suas próprias coisas com diversos fins. Entende-se que este comportamento sai do âmbito da internet e se transpõe para a vida real por meio da valorização de uma vida mais simples em contraste com as novas tecnologias, no qual o “faça você mesmo” e a prática artesanal aparecem como ponto fundamental dessas mudanças. É a partir disto que esta pesquisa esteve embasada, no qual o Craft, ao exaltar a importância do artesanato criativo, conseguiu força através de um instrumento de tecnologia, a internet. Desta forma, explorar a comunidade Craft proporcionou ao projeto características artesanais e experimentais, sendo que o uso das técnicas artesanais junto a estética presente nesta comunidade forneceu ao livro diferenciação como projeto gráfico. Produzir um material editorial exigiu pesquisas e análises para desenvolver um projeto condizente com seus requisitos. Atingir o resultado desejado por meio de técnicas artesanais sugeridas pelos estudantes representou um grande desafio que exigiu tempo, paciência e muita prática, pois não havia experiência considerável em nenhuma das técnicas utilizadas. Este fato foi responsável por algumas mudanças no desenvolvimento do projeto, como no caso da serigrafia, que após várias tentativas se constatou que o material editorial, por possuir muitos elementos detalhados, exigiria além do espeado para alcançar um bom resultado na impressão, pois não havia material específico para esta aplicação. Esta situação necessitou que a impressão fosse terceirizada. Ao mesmo tempo, a serigrafia desgastou e ocupou muito tempo durante o projeto, o que impediu que fosse dedicada mais atenção em outras partes do projeto, como a capa do livro e detalhes artesanais para o miolo, mas questões podem ser melhor trabalhadas futuramente. Razões como estas possibilitaram entender o efeito que a prática aplicada em projetos pode proporcionar no resultado de trabalhos, no qual a mente em conjunto com as atividades práticas consegue solucionar problemas que não são detectados sem que haja um envolvimento maior com o trabalho, que muitas vezes se atinge ao executar as tarefas manualmente. Sendo assim, mais do que ler sobre a prática artesanal, o público pode conferir no resultado físico do livro as possibilidades que o artesanal oferece. Porém, outra forma que


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este livro é explorado é virtualmente. Com a intenção de unir novamente o Craft e a internet, o livro foi digitalizado e preparado para ser compartilhado pela rede e oferecer acesso a este conteúdo a um número muito maior de interessados, sendo que o arquivo pode ser conferido no endereço: http://issuu.com/brunettebru/docs/craft-nova-rede. Durante o desenvolvimento do projeto houve muitas dificuldades, muito aprendizado, algumas surpresas, momentos de decepção e de satisfação. E por meio de toda esta experiência foi possível enxergar o design de uma forma mais criativa e envolvente, sendo um meio de aprendizagem, em que erros e acertos se combinam oferecendo melhores resultados.


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APÊNDICE A


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APÊNDICE B

1 Introduzindo o Craft Uma das principais características do Craft é a dificuldade em se definir exatamente o que ele significa. Craft pode ser visto como um movimento, um estilo de vida, um conceito, uma forma de produção, ou ambos. Cada crafter (pessoa que faz Craft) possui características singulares e desenvolve um relacionamento particular com seu trabalho. Diferentes técnicas, materiais, objetivos e padrões estéticos caracterizam um mar de identidades e possibilidades. Todavia, existem certas características em comum entre crafters, o que de certa forma mantém essas pessoas unidas como uma comunidade. O trabalho artesanal pode ser visto como o fio condutor desta rede de artífices, juntamente a uma atitude do it yourself e um senso de inovação e originalidade estética. Estes pontos unem-se ainda a outro ponto crucial: uma política de afirmação do artesanato criativo como uma alternativa à produção em série industrializada. Sem dúvida esta preocupação em afirmar o artesanato como resistência aos efeitos negativos da industrialização não é recente, tendo se manifestado já na segunda metade do século XIX com o movimento Arts and Crafts, idealizado por William Morris. Este movimento defendia que a industrialização deveria ser combatida pois estava substituindo o aspecto artístico da criação de artefatos únicos pela produção em série de artefatos sem identidade estética e de baixa qualidade, desenvolvidos através do trabalho exploratório das fábricas e apenas para gerar lucro. Passados mais de cem anos do movimento Arts and Crafts, assistimos no decorrer do século XX o florescimento do movimento feminista, das contraculturas Hippie e Punk e por fim o advento da Internet, ingredientes importantes para o surgimento do atual movimento Craft, também chamado por alguns de “A nova onda do artesanato”. 2 A nova onda do Artesanado Faythe Levine e Cortney Heimerl mapeiam o início do que pode ser chamado de A nova onda do artesanato para os anos de 1994 e 1995. Neste período, foi lançado o primeiro número da publicação independente Venus Zine, e a revista Bust Magazine iniciou uma coluna chamada She's Crafty. Estas duas publicações tinham um foco voltado para a participação das mulheres na música, moda, cultura e do it yourself e estavam ligadas ao cenário alternativo feminista de onde se originou a comunidade Craft. Mas o fator que provavelmente mais contribuiu para a eclosão do Craft foi a crescente popularização da Internet que se iniciou por volta de 1998. Websites como o getcrafty.com e buyolimpia.com passaram a difundir o Craft no ciberespaço, unindo pessoas de diferentes lugares por ideais e práticas similares. O getcrafty.com é um exemplo de portal que abriga fóruns de discussão, artigos, colunas, tutoriais, blogs e imagens. Neste site, crafters podem trocar receitas, técnicas ou simplesmente mostrar para a comunidade o resultado obtido em


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um trabalho. O buyolimpia.com é um dos principais sites de e-commerce (loja virtual) da comunidade Craft, criado em 1999 com o objetivo de ajudar crafters a venderem seus artefatos artesanais através da Internet. Outro fator importante desta nova onda do artesanato são as feiras que as comunidades organizam, como a Renegade Craft Fair e Craft Lake City, que ocorrem todo ano nos Estados Unidos. Estes eventos unem presencialmente crafters de diversos lugares para venderem seus produtos, divulgarem a cultura Craft e trocarem experiências. Sue Daly, uma das pessoas que idealizaram a Renegade Craft Fair, conta que a inspiração surgiu quando ela e outras pessoas tiveram vontade de participar de exposições de trabalhos da nova cena de artesanato. Perceberam então que não havia nenhum evento representando a comunidade do it yourself, mesmo que esta comunidade já exercesse uma presença considerável na Internet. Então, em 2003, surgiu a primeira edição da Renegade Craft Fair no Chicago Wicker Park. Essa feira continuou ocorrendo todos os anos, também em outros lugares como Brooklyn, San Francisco, Los Angeles e Austin, contando com centenas de artistas independentes exibindo seus artefatos únicos feitos a mão. Jamie Marie Chan relata o seguinte sobre as feiras de crafters: "As feiras independentes de Craft definiram uma geração de mulheres e homens que valorizam a natureza dos artefatos feitos à mão e inovadores. Claro, nós vivemos em uma sociedade capitalista, materialista e orientada ao consumo. Mas estes eventos refletem tanto o trabalho manual como a comunidade que traz isso até você. Eu nunca me senti tão bem como em uma feira independente de Craft. É um lugar onde nossos hobbies, nossas ideias e pontos de vista são empacotados em um objeto tangível para ser dividido, admirado e iniciar novos relacionamentos entre pessoas." Levando em conta que as feiras de artesanato existem há centenas de anos, em praticamente todas as cidades, o que exatamente diferencia o Craft do artesanato comum? O relato de Jamie Marie Chain nos dá uma resposta para esta pergunta, ao indicar que estas feiras Craft não existem apenas para a venda de produtos, mas também como espaços de politização da prática artesanal. Isto nos remete a uma defesa de um modo de produção pré-industrial e précapitalista, mas que ao mesmo tempo que é artesanal, ironicamente se desenvolve com o apoio de avançadas tecnologias de comunicação proporcionadas pela era digital. Sem dúvida, estas questões instigam uma análise mais aprofundada sobre os tipos de relações de trabalho ligadas à comunidade Craft. 3 Craft e relações de trabalho "A obrigação de produzir aliena a paixão de criar" Raoul Vaneigem Vilém Flusser pontua que a designação Homo faber se apropria melhor ao ser humano que a oficial Homo sapiens sapiens, uma vez que a espécie humana se diferencia de outros primatas principalmente pela fabricação de uma variedade expressiva de artefatos (faber) e não apenas por uma questionável dupla sabedoria (sapiens sapiens). Com base nessa ideia, Flusser sugere que aqueles que se interessam em entender nosso tempo, deveriam primeiramente estudar profundamente as fábricas atuais. A pergunta que tentamos responder levando em conta a sugestão de Flusser é: que tipo de fábricas, ou ainda, que tipos de relações de trabalho predominam na comunidade Craft?


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Primeiramente, devemos nos lembrar da observação de Karl Marx, de que um dos pilares de sustentação da economia capitalista é a propriedade privada dos meios de produção por uma minoria que se caracteriza como classe dominante. Isto se tornou evidente a partir da Revolução Industrial, onde apenas as classes ricas possuíam dinheiro para possuir as máquinas e ferramentas necessárias para a constituição das fábricas. Os operários das máquinas se caracterizavam como classe explorada, pois vendiam por um preço irrisório a força de trabalho para os seus patrões (donos das máquinas) em um ritmo desgastante e repetitivo, que chegava a 12 horas diárias de labor. Esta relação capitalista entre classes dominantes e classes exploradas foi amplamente estudada e criticada por Marx, que rejeitava a exploração dos operários e defendia relações de trabalho igualitárias e cooperativas. Com base na análise de Marx, podemos sugerir que ao menos pelo ponto de vista da produção, crafters encontram-se à margem das relações de trabalo tipicamente capitalistas, por serem proprietários dos meios de produção dos quais utilizam, que são basicamente suas mãos e ferramentas simples e de baixo custo. Desta forma, a dinâmica típica de uma sociedade de classes, caracterizada pela existência de exploradores e de explorados, se faz inexistente no trabalho artesanal típico da comunidade Craft. Neste contexto, todas e todos são artífices com autonomia que se comunicam de forma igualitária, sem diferentes níveis formais de hierarquia. Esta dinâmica nos leva ainda a um deslocamento de foco do produto para o processo. A produção industrial em áreas como Design e Engenharia possui basicamente o produto como fim. O processo pelo qual o produto foi desenvolvido por vezes é oculto, pois busca-se conciliar baixo custo de produção com preços de venda que permitam uma boa margem de lucro. A produção industrial direcionada ao produto tem como conseqüência uma preocupação maior com a quantidade, com a produção em larga escala. Já nos trabalhos desenvolvidos por crafters, encontramos uma valorização do processo pelo qual se desenvolve o produto, onde a qualidade tem maior importância que a quantidade. Este processo está associado a técnicas manuais ou artesanais, que se alinham ao objetivo de ter um resultado criativo, belo e bem acabado. Convém pensarmos ainda na relação do trabalho com o prazer. Enquanto em uma fábrica comum, operários e operárias tendem a desenvolver uma aversão ao trabalho repetitivo e mecanizado, crafters conduzem suas atividades como uma expressão da criatividade e do prazer que sentem em desenvolver seu trabalho artesanal. 4 Craftivismo "Manufaturar é um ato político na medida em que desaponta o atual sistema de consumo. Em vez de ir ao shopping comprar os cachecóis "do momento", estamos fazendo os nossos próprios." Betsy Greer O craftivismo é uma junção do Craft com o ativismo político. Este movimento parte do pressuposto que os trabalhos artesanais podem ser utilizados como uma forma de protesto não tradicional, e que podem ajudar a transformar a realidade social. Betsy Greer, idealizadora do craftivismo, acredita que vestir uma blusa de lã com uma


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mensagem contra a guerra pode ser mais eficiente do que segurar um cartaz em uma manifestação, pois levanta um questionamento maior entre as pessoas. Algumas das bandeiras levantadas pelo craftivismo assemelham-se ao que já era colocado há mais de cem anos pelo movimento Arts and Crafts: a defesa do trabalho manual e a crítica à industrialização e ao capitalismo. Para Betsy, elementos como a produção em massa resultante de uma sociedade voltada para o lucro, o crescimento do feminismo e todo o tempo que se passou desde a Revolução Industrial caracterizam o início do século XXI como o período apropriado para o surgimento e a evolução do craftivismo. Ao contrário de serem números em marchas ou em protestos em massa, craftivistas buscam aplicar sua criatividade fazendo uma diferença pessoal. Uma forma popular de protesto é conhecida como “knit-in”, onde craftivistas se infiltram em lugares como estações de metrô, praças ou monumentos cívicos e começam a tricotar. O ato de costurar é usado para chamar a atenção para a causa que os participantes estão defendendo. Um exemplo notável desta prática ocorreu em 2002, quando o grupo canadense “Círculo do Tricô Revolucionário” realizou um knit-in em frente ao escritório financeiro de Calgary, onde estava ocorrendo o encontro G8. Outra forma de ação craftivista é a “guerilla art”, praticada por grupos como o “Knitta”, do Texas (USA). A ação tem um caráter de intervenção urbana, em que espaços públicos são cobertos com peças de tricô com mensagens políticas. Ônibus, postes, placas, ganham tons coloridos dando um ar mais vivo ao cinza dominante das grandes cidades.

5 Craft e Feminismo O Craft possui uma relação peculiar com o movimento feminista, mesmo que de forma nem sempre explícita. O feminismo �� um movimento que clama pela liberdade feminina e pela possibilidade de direitos iguais entre homens e mulheres. O movimento feminista luta por uma sociedade igualitária, onde seja possível superar o patriarcado e o machismo. Um ponto interessante no que diz respeito à relação entre Craft e feminismo é o fato da maior parte das pessoas que fazem Craft serem mulheres. Para buscar explicações consistentes para este fato, vamos inicialmente considerar o contexto histórico da sociabilidade feminina através de grupos de tricô. A historiadora Anne Macdonald indica que o tricô costumava ser um trabalho feito geralmente por homens. Mas com o advento da Revolução Industrial, todo o trabalho masculino direcionou-se para as máquinas. Assim, o tricô e a costura manual passaram a ser tomados como atividades femininas e deixaram de ser classificados como labor para serem associados ao lazer e à sociabilidade. As mulheres envolvidas com tricô passaram então a formar grupos para dividir suas experiências. Ruland em sua tese sobre o estudo da sociabilidade feminina em grupos de tricô defende que estes grupos se popularizaram pois neles as mulheres poderiam estabelecer


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relações de amizade e construir pequenas sociedades a partir de uma atividade de lazer que deixa de ser apenas doméstica e passa a ser pública e coletiva. Dessa forma, pode-se observar que mesmo que de forma inconsciente os grupos de tricô se direcionavam para valores feministas, pois as mulheres participantes não realizavam mais apenas o trabalho doméstico em servidão do homem. Nesses grupos as mulheres desfrutavam de seu tempo de ócio trabalhando juntas com a possibilidade de transcender o sufoco da vida puramente doméstica. A partir do século XX, o movimento feminista popularizou-se principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, inicialmente através das manifestações sufragistas, que reivindicavam o direito feminino ao voto nas eleições para cargos públicos. Este período de lutas por direitos legais femininos se estendeu até os anos 60, e ficou conhecido como a primeira onda feminista. Com a reivindicação da independência da mulher e a crescente presença feminina no mercado de trabalho, o movimento feminista passou então a criticar as tarefas domésticas em geral, incluindo o trabalho manual e o tricô, pois acreditavam que estas atividades estavam associadas à visão da mulher como dona de casa e reforçavam o patriarcado. Este período, que foi até os anos 90, é considerado a segunda onda feminista. O movimento teve como principal objetivo não mais os direitos iguais, que em sua grande maioria já haviam sido conquistados, mas mudanças comportamentais que tornassem as mulheres efetivamente independentes e soberanas. A terceira onda feminista, iniciada nos anos 90, rediscute alguns dos valores inquestionáveis colocados pelas feministas da segunda onda, a partir da influência de ideias que refletem um posicionamento mais relativista. O trabalho doméstico, o tricô e a costura passam a não ser mais vistos como necessariamente anti-feministas, se estas atividades estiverem associadas ao prazer e não a uma imposição da sociedade. Surge nesse mesmo período o movimento Riot Grrrl em Olympia - Washington, que reivindicou a participação de mulheres em bandas e na cena de punk rock, tendo como resultado inúmeras bandas compostas por mulheres como Bikini Kill, Lê Tigre, Bratmobile, Team Dresh, Sleater Kinney. Este movimento teve também ecos no Brasil, com bandas como Dominatrix (São Paulo) e Bulimia (Brasília). Como colocado por Levine e Heimerl, os valores do faça você mesmo provenientes do punk rock e do Riot Grrrl e a rediscussão dos valores feministas da terceira onda podem ser vistos como ingredientes essenciais para o caldo que resultaria no surgimento do Craft na metade dos anos 90. Isto, de certa forma, explica por que a participação de mulheres é majoritária na comunidade Craft. Betsy Greer observou que com o Craft, o trabalho manual deixa de ser associado com uma “atividade de vovó”, ou apenas de lazer e passatempo, como ocorre tradicionalmente nos grupos de tricô. O Craft amplificou as possibilidades de comercialização de produtos artesanais, pois os artefatos são vendidos em feiras independentes e pela Internet. Sobre o Craft e o feminismo, podemos então concluir que as mulheres foram audaciosas o suficiente a ponto de buscar se fortalecer através de uma atividade que em tempos passados esteve ligada à sua repressão. Mas há também homens crafters, que identificam-se com esta


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nova onda do artesanato, apesar de serem minoria. A questão que fica é se esta minoria masculina não seria resultante apenas da associação entre o Craft e o feminismo, mas também de uma auto-repressão por parte dos homens. As mulheres buscaram sua libertação através das lutas feministas, e passaram a exercer funções anteriormente delegadas apenas aos homens. Mas quanto aos homens, será que estes buscaram superar os preconceitos e estereótipos de gênero para dedicarem-se às atividades artesanais tradicionalmente associadas às mulheres? Ou será que ainda não são “homens o suficiente” para lidar com ferramentas como agulhas, linhas e tecidos?

Glossário Arts and Crafts - do inglês "artes e ofícios", embora seja mais comum manter a expressão original, foi um movimento estético surgido na Inglaterra, na segunda metade do século XIX. Defendia o artesanato criativo como alternativa à mecanização e à produção em massa e pregava o fim da distinção entre o artesão e o artista. Do it yourself (DIY) - do inglês "faça você mesmo", é um termo utilizado para descrever a criação ou conserto de algo sem a ajuda de profissionais ou especialistas. O termo DIY era muito utilizado na década de 50 para referenciar projetos domésticos. Mais tarde, este termo ganhou um significado mais amplo, incorporando diferentes atividades e sendo associado às cenas musicais do punk e indie rock, às redes de mídia independente e entusiastas por eletrônica, costura e fanzines. Hippie - movimento surgido em 1965 na cidade de São Francisco que rejeitava as normas e valores da sociedade de consumo e pregava uma sociedade alternativa.


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Projeto gráfico-editorial sobre Craft com aplicações de técnicas artesanais