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De 18 a 24 de dezembro de 2003

NACIONAL

Governo pavimenta caminho aberto por FHC

Paulo Pereira Lima

FMI

Em nome da credibilidade e da proteção contra impactos externos, governo mantém política econômica neoliberal Claudia Jardim da Redação

A

s regras do novo “acordo preventivo” com o Fundo Monetário Internacional (FMI) mantêm a receita imposta pelo Fundo e definem as amarras da política econômica dos próximos anos ou, pelo menos, até 2004, período em que o país poderá sacar 14,8 bilhões de dólares. Desse total, apenas 6,6 bilhões de dólares são recursos novos – o restante é referente ao acordo feito em 2002, pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. De acordo com o secretárioexecutivo do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, o governo não pretende superávit primário utilizar esse - economia no orçamento federal que o dinheiro. Tratagoverno é obrigado se de “parte de a fazer para pagar a uma estratégia dívida externa para o Brasil prescindir de novos programas de apoio do Fundo”, diz a carta de intenções enviada pelo governo ao FMI. Na prática, segundo Appy, seria um “seguro” para proteção de uma eventual deterioração do cená-

rio internacional. “O acordo não é nenhuma novidade, principalmente porque o mais importante, a meta de superávit (economia para o pagamento de juros), já está incorporada na lei de diretrizes orçamentárias. Esse acordo foi feito para manter a política econômica anterior”, critica o economista Ricardo Carneiro, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A meta de superávit primário será de 4,25%, o que vai significar a economia de R$71,5 bilhões de recursos para o setor público, no próximo ano. Carneiro ressalta que, para cumprir as metas do novo acordo, a política econômica não poderá ser alterada, até o final de 2004. “Não há como fugir e não sei se poderá haver reversão, mesmo com o fim do acordo”, avalia o economista. Para ele, a tática do governo de conquistar a credibilidade dos mercados com a renovação do acordo aprofunda a dependência do Fundo.

MAIS DEZ ANOS A meta do superávit, duramente criticada pelos economistas, é valiada como positiva pelo gover-

no. Em reunião do Diretório Nacional do PT, dia 14, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, afirmou que, por ele, a meta de 4,25% seria mantida por mais dez anos. Para Ricardo Carneiro, essa declaração demonstra que o ministro não entende como funciona a economia. “Essa meta de superávit significa manter a economia em baixo crescimento. A declaração do ministro é contraditória”, afirma o economista, ao citar a proposta levada ao Fundo. Appy disse ter proposto ao FMI a realização de um superávit anticiclíco, ou seja, metas mais flexíveis caso ocorra uma crise econômica internacional durante os quinze meses de vigência do acordo. Mas a única concessão feita pelo Fundo foi que, independentemente da sobra de 2003, “o governo tem autorização de deduzir [do superávit] até R$ 2,9 bilhões dos investimentos em saneamento”, afirma o secretário. Apesar de não terem sido incluídas no acordo, a autonomia do Banco Central e as privatização dos bancos estatais do Nordeste continuam na mira do governo.

Protesto contra o FMI, em Brasília: governo tira nota dez ao fazer a lição de casa

CONJUNTURA

Lauro Jardim de São Paulo (SP) Aos 44 minutos do segundo tempo, para usar um tipo de retórica muito em voga em Brasília, os empresários refazem as contas e muitos acreditam que se os negócios crescerem alguma coisa no final do ano, já será lucro. A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), por exemplo, achava que as vendas do varejo poderiam aumentar alguma coisa em torno de 1,5%, em 2003. Em baixa desde maio, ainda que a velocidade de queda tenha sofrido uma desaceleração, nos últimos meses, o faturamento do comércio acumula um recuo de 3,3%, este ano, e deverá encerrar 2003 com perda ao redor de 1%, na comparação com 2002. Uma eventual corrida de última hora dos consumidores às lojas, tenderia a reduzir o tombo – acredita a federação – mas não haveria como reverter as perdas já consolidadas. Mais animada, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) acha que as vendas ainda poderão crescer 2% este mês. Mas fecharão o ano no “vermelho”, estima a entidade. A avaliação é praticamente idêntica à do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apenas uma improvável disparada das vendas poderia mudar o cenário que se desenha para o final do ano, aponta o instituto.

LADEIRA ABAIXO Se confirmado o resultado negativo para 2003, será o terceiro ano consecutivo de perdas no comércio varejista. Em 2001, quando o IBGE passou a pesquisar o comportamento das vendas do setor em todo o país, houve queda de 1,57%. No ano seguinte, novo recuo, de 0,69%. Em outubro deste ano, as vendas registraram o 11º mês seguido de baixas, caindo 3,04% em relação ao mesmo período de 2002. O IBGE registrou redução em 21 dos últimos 28 meses, sempre em comparação com igual mês do ano anterior. O achatamento da renda e dos salários dos empregados e as altas taxas de desemprego explicam o quadro reincidente. Em outubro, a renda caiu 15,2% e o desemprego

Anderson Barbosa

Economia derrapa e fim de ano promete pouco Resultados no varejo podem retardar recuperação

Comércio aposta em aumento de vendas no Natal, mas o ano será fechado em vermelho segundo IBGE

Produção industrial repete 2002 O nível da produção industrial, no país, retornou literalmente ao passado. Em outubro, também de acordo com levantamento do IBGE, a produção do setor retomou níveis muito próximos aos verificados em abril e, mais tarde, novembro do ano passado – o que significa dizer que as indústrias não têm saído do lugar. Em setembro, houve um salto de 4,1% na comparação com agosto, no terceiro mês de avanço, desde junho. No trimestre em questão, a produção industrial de fato avançou 7,1%, após atingir o fundo do poço em junho. Depois disso, a produção escorregou em outubro e recuou 0,5% frente ao mês anterior, mantendo uma diferença positiva de 1,1% na comparação com outubro de 2002.

Na visão do IBGE, houve uma “acomodação” da atividade industrial em níveis mais elevados do que no início do ano. O fato é que, novamente, a tenra reação esboçada pelo setor esbarrou na falta de renda para o consumo. Sem salários ou com a renda achatada, o consumidor prefere não comprar. E os cortes atingiram exatamente os setores voltados para o mercado interno. A produção de remédios, bebidas e alimentos despencou, pela ordem, 16,9%, 10,7% e 3,8%, em comparação com outubro de 2002. Nos casos dos alimentos e dos remédios, a produção encolheu também em relação a setembro deste ano. Em outubro do ano passado, entre vinte ramos da indústria pesquisados pelo IBGE, houve crescimento em onze deles, enquanto os nove

restantes encolheram. Entre os setores em crescimento, o IBGE destaca o segmento de material elétrico e de comunicação, com salto de 9,2%, explicado principalmente pelo aumento das vendas de televisores para o varejo. A produção de bens de capital – que refletem os investimentos realizados pelas empresas em máquinas, equipamentos, obras físicas, novas instalações industriais e construção civil – aumentou 6,9%, segundo o IBGE. Mas o incremento concentrou-se na produção de máquinas e equipamentos para a agricultura, favorecidas pelo bom desempenho das lavouras e pela previsão de novo aumento do plantio, principalmente para a soja, na safra que o país começa a colher no início do próximo ano. (LJ)

manteve-se em 12,9%. O que se vê, no lado real da economia, é simplesmente o reflexo concreto desses dados. Até o momento, a redução dos juros, a abertura de linhas de crédito, a criação de microempréstimos e a disparada recorde das exportações tiveram reflexo limitado sobre o restante da economia. Em outubro, por exemplo, dado mais recente divulgado pelo IBGE, somente as vendas de móveis e ele-

trodomésticos (com destaque para este último segmento) conseguiram crescer, superando os resultados de outubro do ano passado em 5,2%, depois de um salto de 7,02% em setembro. No acumulado entre janeiro e outubro deste ano, diante dos mesmos dez meses de 2002, persiste uma queda de 5,28% para aquele setor. Supermercados continuaram perdendo faturamento, com baixa de 4,26% em relação a outubro do

ano passado e um tombo de 5,93% este ano. As vendas de combustíveis e lubrificantes, utilizados por toda a frota nacional e um indicador sensível do comportamento geral da economia, caíram 4,33% em outubro, acumulando perdas de 5,17% no ano. Entre os 26 Estados pesquisados e no Distrito Federal, nada menos de 19 sofreram baixas, incluindo a capital nacional, maior renda per capita do país.

Diante dos números recentes a respeito das vendas, a consultoria Global Invest, empresa do Sul do país, acredita que a retomada prevista para 2004 poderá ser adiada para o segundo trimestre do próximo ano. Numa análise distribuída a seus clientes, a consultoria conclui: “Sabendo ainda que o primeiro trimestre do ano é o de menor volume de vendas e de produção industrial, caso o varejo acumule estoques indesejados por falta de renda para consumo, é possível que a retomada mais vigorosa do crescimento em 2004 seja retardado para o início do segundo trimestre”. Com vendas menores do que se esperava, até o momento, a Global Invest teme que as lojas iniciem o novo ano com estoques de bens e mercadorias superiores aos desejados. O efeito disso seria um atraso no envio de novos pedidos e encomendas à indústria, o que tenderia a desacelerar a produção industrial, esfriando ainda mais os negócios no começo do ano. O comércio só voltaria a comprar novamente das indústrias depois de conseguir vender todo ou a maior parte de seus estoques, recorrendo a promoções e liquidações. Por conta de um efeito estatístico e de alguma reação da economia, a Global Invest acredita que a economia poderá crescer cerca de 4% no próximo ano. “Porém, será um crescimento que se dará sobre uma base de comparação deprimida”, adverte a empresa, que refez seus cálculos e projetou uma queda de 0,2% para o Produto Interno Bruto (PIB) este ano – ou seja, a soma de todas as riquezas produzidas no país ficará menor do que em 2002, quando haviam crescido apenas 1,9%. Mais uma vez, caso a previsão da Global Invest seja confirmada pela realidade, aquele seria o pior desempenho da economia desde a queda de 0,54% observada em 1992. (LJ)


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