ARTISTAS ITALIANOS NA 17: BIENAL DE SÃO PAULO
Itália
Bruno Mantura Comissário
A restritíssima participação italiana na 17.a Bienal de São Paulo divide-se pelos núcleos I e 11; no primeiro, Sandro Chia põe-se especularmente diante de Piero Manzoni, apresentado no segundo: situações opostas, a primeira correspondente a uma "pintura" viva, articuladíssima e gritada; a segunda, a uma presença existencial igualmente gritada, exibida, porém, sob vestes artísticas despojadas e, às vezes, pretas como o luto. Sandro Chia De Sandro Chia conheço algumas obras de muitos anos atrás, creio de 1971. Então, o jovem Sandro centrava sua atenção, como se usava naquela época, no projeto abstrato, em matérias e elementos nada matérios: vidro, ferro, espelho e alumínio. Desde então, contudo, um demo irônico sugeria-lhe que derramasse na água gélida de um espelho uma cor rosada, como se derrama um xarope de framboesa; ou então, que pusesse ao redor do próprio vidro, evocado r do diamante, uma moldura de madeira tosca. Operava, portanto, embora timidamente, por contaminações do código conceitual, mas acreditamos que lhe parecia interessante verificar quanto de ultrajante essa operação trazia inevitavelmente em si. Em suma, até que ponto a estrutura teria agüentado. Retrocedo com a memória para encontrar uma razão de seu denso fazer pictórico, densidade construída pelo acúmulo de ações de interferência nos valores reconhecidos (e ele mesmo os reconhece: ninguém mais do que ele, parece-me, aprecia a história). Hoje, Chia supera-se na manipulação acrobática de códigos diferentes, simultaneamente visitados e saqueados e, depois, encadeados um ao outro. A contaminação serve para ligar internamente posturas diferentes. Uma Babel lingüística talvez, que, porém, ecoa forte e, sobretudo, profundamente. Chia recupera a profundidade dos parentescos e das descendências em arte com precauções sempre doutas. Não se trata de uma doutrina ideologizada e programada, ao contrário, é ciência adquirida através de práticas diárias. Como num álbum de família, no qual o conhecimento aumenta à medida em que o folheamos, as primeiras imagens serão as dos pais e dos amigos íntimos, depois virão as dos antepassados; em suma, dispostas com devoção, virão, em seguida, todas as gerações de uma dinastia. Uma multidão viva e, segundo Chia, agressiva, presente e operante: "... circundado pelos meus quadros e pelas minhas esculturas, sou como o domador com suas feras e me sinto perto dos heróis da minha infância: Michelangelo, Ticiano, Tintoretto" (carta de Chia a de Wilde no catálogo Sandro Chia, Stedelijk Museum, Amsterdam, 1983). Como domar as feras de um circo já tão vasto e babélico? Com a força da pintura. A pintura como gaia ciência, e Sandro sabe muito de pintura. Parece-nos que agora pode trilhar um caminho percorrido mais prazerosaménte em sentido contrário em outros momentos históricos, aquele da pintura à escultura. Dessa forma, parece restabelecida uma relação, uma ligação antiga e sólida entre as duas artes. Na torre (convém chamar assim aquela que Sandro, ao
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invés, indica como caverna - a forja de Vulcano?) estuda-se e trabalha-se sem o temor iconoclástico das vanguardas. Não há livros sagrados, mas muitos textos de conhecimento e de prática, também aqueles das Academias, que não se podiam tocar sem correr o risco de se incinerar. As obras recentes de Sandro são documentos apaixonados de um trabalho de pesquisa sobre os fantasmas da infância: Michelangelo, e, através desse grande, é revivida a relação com o antigo; R~ffaello (vide Passionate Meal, 1982, e o anjo voando à direita do grupo das Sibilas em Santa Maria della Pace continuo citando o catálogo de Amsterdam - e Meditation, 1981, e a Prudência no afresco das Vi rtudes na Stanza di Eliodoro); Pontormo (Irmão, 1981, e o Retrato do Alabardeiro); Ticiano (O Rosto Escandaloso, 1981, e a Lucrécia de Viena); Golzius (Blast-Portrait of Ezra Pound - queda de ícaro). Seu trabalho é realizado por um homem crescido, contudo, no ensino da arte de hoje, no amor por Picasso, nas participações afetuosas aos arrebatamentos coloristas fauves. Na torre babélica, Chia faz crescer figuras agigantadas, cujos membros tornam-se pesados pela lembrança de deformações praticadas por Picasso em seu momento surrealista, figuras projetadas rapidamente sobre paisagens fugidias com perspectivas hiperbólicas, afundadas numa mistura matério-pictórica de alta temperatura. Ao ligar, em nome da infância (lembramo-nos do discurso muito sábio de Jesus entre os doutores), antigo e moderno en bonne logique amoureuse, Sandro parece querer saltar o fosso, superar a ferida aberta pela vanguarda no corpo da pintura. Assim, sua linguagem balbuciante, mas também violenta, ainda serve para levar adiante o mundo. O caso Chia é pungente atualidade ou já é história? Elisa Montessori Lisa Montessori nos leva pela mão para que assomemos à janela - a nossa ou a sua? - e olhemos o mundo. O mundo, se de mundo se trata, Elisa o tece de modo a torná-lo indecifrável - um processo de abstração - , mas disso não quer nos dar uma filosofia. Elisa se compraz em pentear o mundo-paisagem, o mar também, o qual, como diz Eluard, "est coiffé comme une abeille". À janela, Elisa recolhe os fios da trama que um doce
inseto lhe estende, ou antes, nova Julieta, é ela mesma quem atira as cordas, as suas redes sobre o azul, sobre os campos em gentil desordem como a cabeleira dos salgueiros. De Lisa, apresento obras quase sem cor para permitir uma apreciação do traço, o seu, com o qual a chuva pesada molha as grandes folhas de papel. Opera, às vezes, com dosagens mínimas, obtendo formas simples e quase estereotipadas; outras, com força, sonora e opulentamente. Pelo desfazer-se das linhas pretas, às vezes segundo percursos tumultuosos, pode-se indicar, talvez, que a janela esteja voltada para uma distância, difícil de se precisar e vasta como as ondas do oceano, ao encontro da qual o vidente gostaria quase de se atirar, como se fosse de uma sacada. A essa altura, porém, é a autora quem nos tira da dúvida; ela mesma escreveu num seu decálogo do desenho: .. O desenho sem projeto