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17ª Bienal de São Paulo (1983) - Catálogo Geral

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UMA HISTÓRIA DO FlUXUS PARA CRIANÇAS Dick Higgins

Muito, muito tempo atrás, quando o mundo ainda era novo - isto é, aí por volta de 1958 - , um grupo de artistas, compositores e outras pessoas que queriam fazer coisas bonitas começaram a olhar para o mundo em volta de um jeito novo (para eles). Diziam: - Ei! Uma xícara de café pode ser mais bonita que uma escultura grandiosa. Um beijo de manhã pode ser mais teatral que o teatro de um afetadinho qualquer. O barulho de meus pés nas botas encharcadas de água pode ser mais bonito que uma imponente música para órgão. E quando viram essas coisas, ficaram mais ligados. E começaram a fazer perguntas. Por exemplo: - Por que todas as coisas que eu vejo que são bonitas, como xícaras, beijos e pés em botas encharcadas, têm de ser apenas transformadas em parte de algo mais bonito e mais grandioso? Por que não posso simplesmente usálas como elas são? Ao fazerem perguntas desse tipo, estavam inventando o fluxus. Mas isso eles não sabiam, porque o fluxus era como um bebê ainda sem nome porque os pais não chegavam a um acordo. Sabiam que estava ali, mas ainda não tinham um nome. Bem, essas pessoas estavam espalhadas pelo mundo i J;l.te i ro. Nos Estados Unidos, havia George (George Brechtl. Dick (Dick Higginsl. LaMonte (LaMonte Young), Jackson (Jackson Mac Low) e muitos outros. Na Alemanha, Wolf (Wolf Vostell) e Ben e Emmett (Ben Patterson e Emmett Williams), norte-americanos em visita àquele país. E também havia outro visitante na Alemanha, de um pequeno país do outro lado do mundo, a Coréia. Seu nome era Nam June Paik. Oh, havia mais, lá e em outros países também. Eles faziam" concertos" da vida cotidiana, e exposições do que encontravam, e nessas ocasiões compartilhavam as coisas de que mais gostavam com todo mundo que aparecesse. Todas as coisas eram elas mesmas, não parte de algo maior ou mais bonito. E a gente sofisticada não gostava, porque era tudo barato e simples, sem condições de dar muito dinheiro para ninguém. Acontece que essas pessoas estavam espalhadas pelo mundo inteiro. Em alguns casos recebiam notícias uns dos outros, mas não se viam muito. E falavam línguas diferentes e davam nomes diferentes para o que estavam fazendo, apesar de estarem fazendo a mesma coisa. Era uma grande confusão. Bem, LaMonte tinha um amigo - outro George, George Maciunas - que gostava de fazer livros. Então, disse LaMonte: - Vamos fazer um livro dessas coisas que a gente faz. - E seu amigo Jackson também gostou da idéia. E fizeram o livro. LaMonte reuniu o material para o livro e George Maciunas colocou nas páginas e, pouco tempo depois, levaram tudo para ser impresso. O nome do livro foi Uma Antologia, palavra engraçada para uma coleção. Não puseram um nome pomposo. Nada de .. Antologia do Fluxus", porque as coisas do fluxus ainda não tinham nome. Apenas Uma Antologia. Era um livro

• LaMonte Voung, ed, An Anthology, 1970 (DIA Art Foundation, 112 Franklin Street, New Vork, N.V., 10013)

bonito, que você ainda pode comprar, para ver as coisas simples e bonitas que estão nele * - idéias e montes de palavras e maneiras de tornar sua própria vida mais maravilhosa. Acontece que fazer livros custa dinheiro, e se você gasta seu dinheiro numa coisa, não pode gastar em outra. George Maciunas tinha alugado um salão grande e bonito na zona mais fina de Nova York, e lá mantinha uma galeria de arte onde as coisas do tipo fluxus eram apresentadas, compartilhadas ou simplesmente aconteciam. Mas quando não havia mais dinheiro para pagar tudo isso, e o livro ficou pronto, George Maciunas teve de desistir de sua AG Gallery, como ele a chamava. E resolveu ir para a Alemanha. Levou consigo umas grandes caixas abarrotadas de sobras do que LaMonte e os outros haviam coletado, mas que não tinham entrado na Antologia. George Maciunas pretendia reunir-se com as pessoas que, na Alemanha, estavam fazendo as mesmas coisas. E também pretendia fazer algo como um livro e algo como uma revista que seria impressa de vez em quando, e que sempre mudaria, sempre seria diferente, sempre seria ela realmente. A revista precisava de um nome. Então George Maciunas escolheu uma palavra bem engraçada que significa mudança - fluxus. E começou a levar as coisas do fluxus para as tipografias alemãs, para fazer sua revista. E para informar as pessoas sobre esse tipo de livro, resolveu realizar alguns concertos fluxus naquele país, para que os jornais escrevessem sobre eles e as pessoas pudessem ficar sabendo sobre os livros. Assim, em setembro de 1962 ocorreu o primeiro concerto fluxus, na pequena cidade onde George Maciunas vivia, Wiesbaden. Dick também compareceu, vindo de Nova York com Alison (Alison Knowlesl. sua mulher e também artista, levando muitas peças de outros norteamericanos que vinham descobrindo e compartilhando objetos fluxus. E como os jornais escreveram sobre os concertos! Eles apareceram até na televisão. Coitada da mãe de George Maciunas! Era uma senhora antiquada, e quando a televisão mostrou todas aquelas coisas malucas que seu filho estava fazendo nos concertos fluxus, ela ficou tão desconcertada que não saiu de casa durante ·duas semanas, com vergonha do que os vizinhos iam dizer. Bem, é de se esperar uma reação assim. Mas a verdade é que alguns vizinhos realmente gostavam dos concertos fluxus. O porteiro do museu onde se realizavam os concertos, por exemplo, gostava tanto que comparecia a todas as apresentações com a mulher e os filhos. Pouco tempo depois, outros museus e lugares públicos também passaram a querer concertos fluxus. Assim, em seguida os concertos ocorreram na Inglaterra, na Dinamarca e na França. E as pessoas continuavam encontrando ou fazendo novos objetos - mandavam coisas do Japão, da Holanda, de todos os lugares. O "fluxus ficou famoso . E então começaram a copiar o fluxus. As pessoas sofisticadas começaram a copiar as coisas e as idéias do fluxus. Mas tentavam fazer coisas bonitas com os objetos fluxus - e isso os alterava. Ou ando algumas xícaras de chá eram substituídas por milhões de xícaras de chá,

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