expressão, todavia, não levou Duchamp a perder nada de seu poder de autocrítica. Estava bem alerta para a armadilha do fácil. "Mas logo percebi o perigo de repetir indiscriminadamente essa forma de expressão e decidi limitar a produção anual de readvmades a um número reduzido." Essa limitação foi apenas uma dentre as regras estabelecidas por ele visando a preservar sua liberdade de produção. O readvmade tinha de ser planejado "pará um momento por vir (tal dia, tal data, tal minuto) ... Uma espécie de encontro marcado". Mais ainda, o Readymade precisava trazer uma inscrição que "ao invés de descrever o objeto, como num título, pretendia transportar a mente do espectador em direção a outras regiões, mais verbais". 31 Foi uma legenda, a propósito, a primeira coisa descoberta por Duchamp quando decidiu, em janeiro de 1916, considerar o Woolworth Building um readvmade. Como, todavia, por um motivo ou outro, jamais chegou a encontrar a frase que procurava, o Woolworth Building não pode ser considerado mais do que um readymade latente. Peigne (Pente) recebeu seu nome em 1916, um ano depois de o artista ter concebido um plano para "classificar pentes por seu número de dentes". Em 1915, propôs novamente o uso do pente como um "controle proporcional ( ... ) de outro objeto também formado de elementos menores", e de investigar a possibilidade de uma projeção geométrica do pente no espaço; o título desta nota, Reco-Reco, anuncia o semi-readvmade de 1916 intitulado A Bruit Secret (Com Barulho Secreto). Duchamp retorna a esse tema, alguns anos mais tarde, com um plano de "fazer um readvmade com uma caixa contendo algo irreconhecível pelo som e soldar a caixa". Em outras notas, desenvolve idéias que, futuramente, também seriam formuladas por Christo, em seus "empacotamentos" de pontes e edifícios, e por Arman, em suas "acumulações". Duchamp planejou fazer acumulações de "elementos sim'ilares (stretcher kevs)" ou de "esponjas"; sua idéia de fazer "um quadro doentio de um readvmade doentio" está ligada ao Readvmade Infeliz, de 1919, o livro de geometria que seria pendurado no balcão de sua irmã Suzanne. Seus projetos de "comprar um par de pinças de gelo como um readvmade" e de fazer experiências com a qualidade cortante de lâminas de barbear jamais foram levados adiante. O trajeto da tela para o readvmade foi apenas a primeira metade de um giro completo. Duchamp pensa agora no "readvmade recíproco" - "o uso de um Rembrandt como tábua de passar roupa." Essa idéia foi fruto de um desejo "de expor a antinomia básica entre a arte e os readvmades". E, para fechar o círculo, observa: "desde que os tubos de tinta utilizados por um artista são manufaturados e produtos readvmade, devemos concluir que todas as pinturas do mundo são Readymades 'assistidos'. "32 Mas, voltando a Rembrandtr uma observação final deve ser feita à luz da noção de Duchamp da "beleza da indiferença" e à luz de sua atitude radical de não comprometimento. Se a obra de arte e a obra de "não-arte" são essencialmente uma, e se o objeto comum pode ser elevado. e lançado à atemporalidade por intermédio da escolha do artista, o inverso também deve ser verdadeiro. Uma operação igualmente válida seria retirar um Rembrandt, ou qualquer outra obra de arte, da parede, e transformálo em algo corriqueiro - algo sujeito ao uso, à mudança e à destruição final.
Roda de Bicicleta/Bícvcle Wheel, 1913, réplica de 1
A noção revela algo da qualidade do humor constantemente em atividade no trabalho de Duchamp. E não esqueçamos que o autêntico humor - nas palavras de N imzovich, um grande teórico do xadrez, como o próprio Duchamp - "normalmente contém mais verdade interior do que a mais séria das seriedades".33 O sentido no qual Duchamp empregou o termo "readvmade" é ao mesmo tempo mais amplo e mais estreito do que o sentido assumido pela palavra desde então. André Breton foi dos primeiros a tentar fornecer-lhe uma definição precisa. Para ele, os readymades eram "objetos manufaturados promovidos à dignidade de objetos (obras) de arte através da escolha do artista." 34 Essa definição, porém, é ainda um tanto genérica em excesso, visto que não dá conta de todas as variações e subgêneros passíveis de existência dentro do gênero principal do readvmade. É necessário não tanto faz,er uma definição, mas, antes, uma série de definições. A grosso modo, o readvmade pode ser definido como qualquer entidade comum e elaborada que, unicamente em razão de ter sido escolhida pelo autor, e sem sofrer nenhuma modificação, é consagrada como uma obra de arte. Duchamp enfatizou a importância do fator escolha quando, pouco depois de ter sido acusado de plágio por um grupo de críticos, por ter exposto Fonte na Society of Independent Artists de Nova York, em fevereiro de 1917, escreveu: " O fato de o Sr. Mutt [pseudônimo de Ouchamp na ocasião] ter ou não feito a Fonte com suas próprias mãos, não tem a menor importância. Ele a ESCOLHEU. Apanhou um elemento da vida comum, colocou-o de modo a eliminar seu significado
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