"As velhas interpretações econômicas, sociológicas e antropológicas pouco valem diante do desafio tecnológico e místico que o país nos impõe. Macunaíma, com o sentimento da verdade sem pudor, tenta responder a um pequeno capítulo deste misterioso questionário. Antônio das Mortes, por todos os Santos e Orixás, amém!-tenta responder a outro capítulo, porque precisamos também dos santos e orixás para fazer nossa revolução que há de ser sangrenta, messiânica, mística, apocalíptica e decisiva para a crise política do século XX."2 Na construção de uma "nova mitologia", Glauber apropria·se de mitos fundadores de diferentes origens para instaurare reinventar o discurso histórico sobre nós mesmos. Daí seu interesse pelas estruturas do western americano transpostas para a realidade do cangaço ou pela cultura oral nordestina (o cordel) capaz de sintetizar uma herança da Grécia Antiga ou da África contemporânea. É um discurso de instauração de um pensamento latino·americano a partir da torção de velhos e novos mitos com a des·construção e re·construção de noções como "nação", ou "identidade nacional". O artista é o agente criador, que produz novos enunciados coletivos capazes de elevar a miséria, a violência e a dor a uma estranha positividade. Da fome ao sonho, Glauber, a partir dos anos 70 (leitor indisciplinado e errante da psica· nálise e do estruturalismo) incorporou a seu vocabulário expressões como "fluxo desestrutu· rante", "fluxo audiovisual". Pode pensar·se como parte de um inconsciente à deriva: "eu aceito meu fluxo com todas as suas misérias", "eu sou ou não sou o inconsciente coletivo?", repete em textos e entrevistas. De Barrauento a A Idade da terra, Glauber passa de um pensamento dialético, montado sobre antíteses, para uma deriva, um fluxo cinematográfico como em Terra em transe, Câncer, Di Caualcanti, Cabeças cortadas, filmes, diz Glauber, "que o espectador deverá assistircomo se estivesse numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É um novo cinema, antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido". 3 Esse cinema sem paredes (A idade da terra) é um sintoma de um mundo que faz o seu próprio cinema (a televisão, as imagens desterritorializadas da publicidade). Na passagem de um Brasil rural ao urbano, na passagem da mitologia aos novos mitos da cultura de massa, um impasse instala·se na obra de Glaubere no Cinema Novo: como produzir uma diferença no fluxo audiovisual, no folclore pop planetário que o cinema e a televisão constituem? Uma primeira resposta estava em Macunaíma, filme dejoaquim Pedro de Andrade (1969). A antropofagia aqui reflete o clima de descrença e impotência de um Brasil sob o regime militar, entrando no mercado da cultura de massa internacional. No filme, Macunaíma é um herói derrotado, malandro·otário, que pensa que engana e pilha quando é pilhado, primeira grande crítica da antropofagia como remédio universal. "Entendi que Macunaíma era a história de um brasileiro que foi comido pelo Brasil", dizjoaquim Pedro de Andrade 4 • Se o filme é uma demonstração da primeira proposição do "Manifesto antropófago", de Oswald de Andrade, que diz que "só a antropofagia nos une", a novidade, no Macunaíma dejoaquim Pedro, é a passagem da antropofagia-forma de consumo do moder· nismo e tropicalismo-para a "autofagia", a antropofagia dos fracos que se auto e entrede· voram, entropia e consumismo. Macunaíma volta para sua aldeia carregando tudo o que mais o seduziu no urbano, a canoa cheia de eletrodomésticos, sem nenhuma função, e uma bela mulher. O consumismo migra da cidade à taba. "Macunaíma é um herói derrotado", sentenciajoaquim Pedro, que contrapõe seu indivi· dualismo hedonista a um herói coletivo vencedor. A primeira crítica à antropofagia se dá nesta proposição: não há incompatibilidade entre a malandragem brasileira, o jeitinho, a malemo· lência e "o perfil hedonista, macunaímico"s solicitados pelos atuais padrões de consumo. Não
184 XXIV Bienal Arte Contemporânea Brasileira: Um e/entre Outro/s