curadoria Paulo Herkenhoff com assistência de Yannick Bourguignon
Cildo Meireles-desvio para a interpretação Lisette Lagnado
"Claudel dit à peu pres qu'un certain bleu de la mer est si bleu qu'il n'ya que le sang qui soit plus rouge." -M. Merleau-Ponty, Le visible et I'invisible A existência da obra de arte é poesia da passagem. Isto não significa uma temporalidade de sua presença, mas que seu significado se afirma diferentemente no fluxo do tempo. O trabalho exegético tem levado a obra à condição de texto, e termos como leitura e tradução-disciplinas que se movem na ciência de uma narratividade-são parte integrante da hermenêutica presente. Mas, quando a construção de uma obra está alicerçada sobre especificidades históricas, o que significa remontá-Ia quatorze anos depois de sua última apresentação pública, trazendo-a para uma contextura de outra natureza? A reapresentação, na XXIV Bienal, da instalação Desvio para o vermelho (1967-84), obra de Cildo Meireles que, na prática, teve uma visibilidade limitada a duas exposições, coloca novos problemas a partirde sua inserção no Núcleo Histórico da antropofagia e das histórias de canibalismos. Sua transposição atual ocorre em outro contexto histórico, e o fato exige reflexão, sob pena de sentenciar uma datação que imobilize o dado pulsativo e incomensurável da obra. Afinal, em cada nova tradução, o (gesto) original é revisitado. Não constitui novidade afirmar que a investigação de Cildo Meireles sempre esteve associada a imagens de forte conotação simbólica. Vários críticos exploraram o valor de resistência dessa obra, localizada nos anos 70 como "arte experimental de vanguarda", expressão que já trazia em suas filigranas a efígie das ditaduras militares, que não somente tomaram o poder no Brasil, como se expandiram por muitos países da América Latina. As poderosas metáforas construídas pelo artista, ao longo de uma trajetória de trinta anos, tinham como pano de fundo a busca de uma consciência identitária. Sobre a "brasilidade", Cildo pronunciou-se com firmeza, afirmando tratar-se antes de uma ansiedade do que de uma questão. Éfato que, do "Manifesto antropófago", de Oswald de Andrade, até as proposições neoconcretas de Lygia Clark e Hélio Oiticica, a procura de uma identidade tem sido uma pauta reivindicatória. Mas a pesquisa formal não poderia ficar à margem dessa discussão, e o argumento mais utilizado, tanto no Brasil como na lente do "estrangeiro", tem sido o da cor (diferente em Tarsila do Amaral e Volpi, por exemplo), capaz de assumir inúmeros adjetivos: telúrica, expansiva, idealista, tropical etc. Ora, por mais que a instalação do Desvio comente limites e nuances do vermelho (assim como Fontes indicaria que a implosão do tempo e do espaço tem uma densidade amarela)1, Cildo só pode figurar entre os pintores. Poranalogia, seria um adepto do monocromo tridimensional. No início dos anos 80, é certo que recobriu de pinceladas alguns objetos (um guarda-sol, por exemplo), em que tratava da pintura pelo viés da camuflagem: transformar o ready-made em obra pictórica. Compreender seu trabalho exige um trânsito constante entre a conotação Desvio para o vermelho [Detour into red] detalhe 1967-98 instalação cortesia Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
398 XXIV Bienal Núcleo Histórico: Antropofagia e Histórias de Canibalismos