Meninas do Brasil

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Meninas do Brasil Lacerdine


Minha arte é da ordem do mistério, do simbólico! Por ser assim, talvez o maior dos desafios, nem seja produzi-la, mas, o ato de chamar-se a olhar para ela, para o além do que se vê... Aí, onde algo de invisível se guarda, experimentamos a silenciosa região do pesar-se a partir do horizonte existencial que a obra nos revela. Ela nos interpela, desestabiliza... nos cava.


Autor Geraldo Lacerdine, sj, é da ordem dos jesuítas (Companhia de Jesus). Nascido em Minas Gerais, em 1977, formado em comunicação, filosofia e teologia. Artista plástico de coração pela Escola Fundamental da Vida Cotidiana. Abraçou a pintura como modo de expressar-se aos 7 anos de idade. Desde então, nos últimos 28 anos, buscou encontrar-se nas artes e até agora não se encontrou. Preocupado com esse movimento existencial que o corroía, decidiu em 2005, começar um estudo sobre seu próprio traço, pois queria se expressar pela arte mas, tinha medo de mostrar seus trabalhos à outras pessoas. Esta exposição é o resultado de oito anos de estudo que agora clama por ser observada, avaliada e criticada.


Exposição É fruto de um trabalho de pesquisa sobre a cultura brasileira, tendo a mulher como foco central de narrativa cultural. A intensão é dar voz à essas mulheres através da obra de arte. Percebe-se que o impacto do público com narrativas de mulheres reais junto a telas representativas, pode gerar a sensação de estar diante delas, dentro de suas histórias. A exposição é pensada para galerias, espaços públicos (praças, ambientes abertos com grande fluxo de pessoas). Caixas de madeira 3x3m serão montadas, dentro delas encontrar-se-á a obra de arte: narrativa da própria mulher contando sua história e pintura referente a história que ela conta. O observador pode se sentar e conhecer as angústias e alegrias de mulheres sofredoras, anônimas do Brasil. A história sempre foi contada a partir dos poderosos, dos que detém a intelectualidade (historiadores, privilegiados pela oportunidade do estudo), e, com isso, ela adquire o ponto de vista deles e não dos que fazem a história em seu dia-a-dia. Esse projeto é uma oportunidade da história contada de maneira diferente, por aquelas que por muito tempo foram proibidas de falar: “As Meninas do Brasil”. Os depoimentos são reais. Alguns mantidos na íntegra, inclusive com os erros de português.


Meninas do Brasil Lacerdine


Alice

1,30x1,80 m Acrílica sobre compensado “Não gosto de falar de mim, me acho feia, de cabelo duro... Eu queria ter o cabelo liso, tenho certeza que as pessoas gostariam mais de mim! Tenho 13 anos e já estou embuchada... Também não gosto de falar disso... Foi meu pai quem teve a culpa”.


Alice

1,30x1,80 m Acrílica sobre compensado (Aproximação)


Odete

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado “Eu gosto de gerá menino, é a coisa mais boa desse mundo... Senti o bichinho chutano na barriga da gente! Sabe que eu me sinto meio Deus, criano a vida dentro de mim?”.


Odete

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado (Aproximação)


Virgem das Dores

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado “Sinto que ela se parece com nóis, que sofre a dor do desespero quando temos pouco pra dar prós nossos filhos... que agoniza sentada do nosso lado nas pernoites frias nos hospitais públicos... Quando perdi a Camila, minha menina do meio com meningite, ajoelhei no meio do corredor do hospital, fechei os olhos e senti a Mãe me olhando com o coração aberto de dor...era o meu coração que estava daquele jeito e ela me entendia...imaginei que colocava a mão no coração dela e...não sei explicar mas o meu ficava em paz..”.


Virgem das Dores

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado (Aproximação)


Dandara

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado “Do que vale a vida quando não se tem nem o que comer direito? Tenho medo quando chove, pois a enxurrada pode levar meu barracão... Tenho medo que a polícia venha me expulsar daqui, pois moro num terreno invadido”.


Dandara 2

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado “Eu te desafio a ocupar o meu lugar só por um dia... Pra você experimentar a dor e a agonia de não ter nem mesmo o que comer... E mesmo assim eu sobrevivo. Minha fé me faz passiva, é só chorar, pra ver chover”.


Judite

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado “Quando eu era menina moça conheci o homem mais formoso que qualquer mulher pode conhecer na vida. Falava manso, gostava de cantar e assubiá... Quando bati o olho nele, percebi que ele seria o pai dos meus filhos. Eu era tão doida por ele, mas tão doida, que nunca tive coragem de me declarar com medo de ele me dizer não e eu perder tudo, até a oportunidade de só olhar pra ele de vez enquanto. Hoje tenho 50 anos, nunca tive homem nenhum, só tenho a esperança de que um dia ele virá dizer que me ama”.


Judite

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado (Aproximação)


Dasdor

1x1,70 m Acrílica sobre tela “Não vou mentir pró ocês, adoro uma janela! Sou capaz de ficar aqui o dia inteirim se deixar! Ah... gosto de ver o povo passano rua... Às vezes rindo, carrancudo, bravo... Gosto de ficar imaginano como será a vida deles, se são felizes ou não, amados ou não... tendo imaginar se a vida deles tem sentido... penso isso de todo mundo que passa por aqui: será que a vida tem sentido?”


Dasdor

1x1,70 m Acrílica sobre tela (Aproximação)


Tereza

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado “Sinto muita falta dos meus fios. Quando a gente fica velha, o povo some tudo! Eu moro sozinha, fico sozinha, como sozinha, durmo sozinha... das poucas alegrias que tenho é quando os menino liga e diz que vai chegar no final de semana... Aí eu espero, espero e ninguém vem”.


Tereza

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado (Aproximação)


Clarinha

0,90x1,10 m Acrílica sobre compensado “Tenho só doze anos, mas todo mundo pensa que tenho mais! Quando era pequena me incomodava quando meus coleguinhas me chamavam de cabelo de fogo na escola. É estranho ser diferente as vezes, parece que todo mundo te olha e quer te transformar em igual... Agora gosto do meu cabelo e olhos vermelhos, sinto-me especial... ah fico brava quando insistem que eu pinto o cabelo! Eu sou ruiva e é só isso!”


Clarinha

0,90x1,10 m Acrílica sobre compensado (Aproximação)


Filhas de Dandara 0,70x1,20 m Acrílica sobre tela

“Quando a noite cai, a mamãe chama todas nós para o banho. Chamamos de banho de noite, pois são as velas que nos alumiam... Ela lava cada uma, começando das pequenas para as grande ... Depois, ficamos juntinhas esperando as roupas... Daí, nos imaginamos em um mundo encantado, em uma floresta onde tudo brilha, tudo cheira a sabonete de flores... Um mundo onde podemos ser nós mesmas... Tudo é bonito lá...!”


Filhas de Dandara 0,70x1,20 m Acrílica sobre tela (Aproximação)


Ana e Lívia

1,15m x 1,85m Acrílica sobre tela “Oi, eu sou a Ana e essa aqui é minha irmã Lívia: ela é surda e muda! Já nasceu assim! Mas não tem problema, pois eu entendo tudo o que ela quer dizer. Por isso é que estamos sempre juntinhas, né, Lívia? Precisa falar não, né, eu falo pra ela!”


Abraço de Denise

0,80m x 1,00m Acrílica sobre compensado “Minha mãe gritou da janela: ‘Denise, seu pai chegou!’. Fazia dez anos que eu não via o meu pai. Corri para os braços dele e ele já estava chorando quando me apertou o abraço. Nesta hora, parece que o mundo parou… eu não sei se ficamos abraçados quinze minutos, vinte ou uma hora… Tudo o que nunca falamos um para o outro foi dito no silêncio do abraço… Esse dia foi o dia em que me senti mais amada no mundo!”


Primavera

2,80m x 0,80m Acrílica sobre compensado “O pior dia da minha vida foi quando o ordinário do Manuel me abandonou de resguardo no quinto menino... Eu tinha saído do banheiro, quando vi o bilhete depositado em cima da cama... Li e percebi o transtorno do meu desespero... O que eu vou fazer da minha vida? Eu não tenho ninguém por mim e tenho cinco meninos pequenos... Sem rumo, sentei na janela e chorei meu desespero de não ter ninguém por mim...”.


Narcisa

1,40m x 1,20m Acrílica sobre compensado “Adoro o meu nome! Ademais quando fiquei sabendo da história de Narciso. Nossa! É lindo, mas é triste também, né! Sabe que uma vez fiz uma foto com umas flores nos cabelos e falava pra todo mundo que eu era a versão feminina de Narciso, com duas diferenças, nunca me achei bonita e nunca pensei em me matar.”


Elizete

1,30x1,80 m Acrílica sobre compensado “O pior dia da minha vida foi quando o ordinário do Manuel me abandonou de resguardo no quinto menino... Eu tinha saído do banheiro, quando vi o bilhete depositado em cima da cama... Li e percebi o transtorno do meu desespero... O que eu vou fazer da minha vida? Eu não tenho ninguém por mim e tenho cinco meninos pequenos... Sem rumo, sentei na janela e chorei meu desespero de não ter ninguém por mim...”.


Analu

1,0x1,40 m Acrílica sobre compensado “Meu nome na verdade é Ana Lúcia, mas todo mundo me chama de Analu, gosto mais... Desde pequena escutava meu pai batucar com um grupo de amigos no quintal lá de casa. Adorava a sonoridade do pandeiro, o modo rítmico com que ele fazia minha mãe levantar da cadeira e sambar. Por vezes, quando a festança de domingo acabava, eu pegava o pandeiro de meu pai e ficava imitando seus gestos ao vento... Hoje, depois de crescida, não tenho condições de viver de samba como eu gostaria, por isso, trabalho durante o dia na casa de D. Ivone dando faxina. Na labuta do dia, sou Ana Lúcia, a faxineira de casa de madame, mas três noites por semana, boto roupa de chita, flor nos cabelos e vou batucar com o Zé da Guiomar no “Goiabada Cascão”, boteco lá do centro da cidade, lá, sem sombra de dúvidas, posso ser eu mesma, ANALU do pandeiro”.


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Geraldo Lacerdine, sj geraldo.lacerdine@gmail.com Tel.: (11) 98781-7398 (11) 2574-6023 Portfolio virtual: www.issuu.com/artelacerdine/docs/meninasdobrasil


A arte que atravessa a essĂŞncia do humano...


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