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Portugal Internacional

ARQUITETURA E ARTE

Portugal Internacional

Álvaro Siza+Carlos Castanheira Gonçalo Byrne+Pedro Sousa Promontorio Eduardo Souto de Moura Camilo Rebelo e Susana Martins OTO Embaixada+Standardarchitecture João Caeiro – b_RootStudio João Santa-Rita Pedro Gadanho Paulo Martins Barata José Mateus Roberto Cremascoli Nuno Sampaio Fernando Guerra Joana Sá Lima

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Ano XIV – setembro|outubro 2014 E11,00 (continente) – 2 600 Kwanzas (Angola)

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ISSN: 1647- 077X

set.|out. 2014 | E11,00


Propriedade:

R. Alfredo Guisado, 39 – 1500-030 LISBOA Telefone: 217 703 000 (geral) 217 783 504/05 (diretos) Fax: 217 742 030 futurmagazine@gmail.com

ÍNDICE

matérias Os artigos assinados são da inteira responsabilidade dos autores

FG+SG

Diretor Geral Edmundo Tenreiro etenreiro@revarqa.com

SIZA + CASTANHEIRA - Edifício sobre a Água, Huai’an City, Jiangsu

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Fachadas, Pavimentos e Revestimentos

015

Info – Boletim Informativo da Ordem dos Arquitetos de Angola (0A)

019

Atualidades e agenda

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Luís Santiago Baptista – Portugal Internacional

Angola News Editorial Entrevistas Perspetivas Críticas – João Santa-Rita, Pedro Gadanho, Carlos Castanheira, Paulo Martins Barata, José Mateus, Roberto Cremascoli, Nuno Sampaio, Fernando Guerra, Joana Sá Lima

Projetos

040 042 052 062 072 080 086 096 102 108 112 116 122 126 130 131 139 147 150 012

Biografias Álvaro Siza + Carlos Castanheira – Edifício sobre a água – Shihlien Chemical, Huai’an City, Jiangsu Gonçalo Byrne + Pedro Sousa – Conjunto Habitacional Casa nel’Parco, Jesolo Promontorio – Edifício Residencial Lubango Centre Eduardo Souto de Moura – Casa em Llábia, Girona Camilo Rebelo e Susana Martins – Casa Ktima, Antíparos OTO – Sede do Parque Natural da Ilha do Fogo Embaixada + Standardarchitecture – Cais fluvial do NiangOu, Tibete João Caeiro – b _ RootStudio – Centro Desportivo de Oaxaca Depoimento Carlos Machado e Moura – Qual o preço da Internacionalização?

Crítica Marta Jecu – Possibilidades para uma arquitetura ágil

Itinerâncias Nuno Grande – Bienal de Veneza 2014: A arquitetura em ambiente bem temperado

Design Carla Carbone – Bernardo Gaeiras e Paulo Sellmayer

Artes Sandra Vieira Jürgens – A urgência de internacionalização

Fotografia Fernando Guerra – FG+SG: Diário de Viagem na Ásia

Dossier Estratégia Urbana – Arquitectura Portuguesa: Discrição é a Nova Visibilidade AN-Arquitectura Mário Chaves

News Maketing

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e

arte

www.revarqa.com – futurmagazine@gmail.com

Redação Paula Melâneo (Coordenação) apmelaneo@gmail.com Baptista-Bastos (Opinião), Bárbara Coutinho (Design), Carla Carbone (Design), David Santos (Artes), Margarida Ventosa (Geração Z) Mário Chaves (Livros), Nádia R. Bento (Tradução), Sandra Vieira Jürgens (Artes) Paginação e Imagem Nuno Silva Bruno Marcelino (desenhos) Edição Digital Ricardo Cardoso Comunicação e Marketing Maria Rodrigues (Diretora) – mrodrigues@revarqa.com Carmen Figueiredo – cfigueiredo@revarqa.com Publicidade – PORTUGAL Tel. +351 217 783 504 Fax +351 217 742 030 futurmagazine@gmail.com cfigueiredo@revarqa.com ANGOLA Parceria Futurmagazine – NAMK, Lda. Rua Major Marcelino Dias, nº 7 - 1º andar-D Bairro do Maculusso, Distrito da Ingombota, Província de Luanda namk-limitada@hotmail.com Tel. +244 222 013 232 Publicidade – BRASIL Jorge S. Silva Tel. +55 48 3237 - 9201 Cel. +55 48 9967 - 4699 jssilva@matrix.com.br Impressão Jorge Fernandes, Lda. Rua Quinta Conde de Mascarenhas, 9 2825-259 Charneca Caparica Distribuição Logista Portugal Área Ind. Passil, lt 1-A, Palhavã 2894-002 Alcochete Tiragem 10.000 Exemplares Periodicidade Bimestral

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Diretor Luís Santiago Baptista lsbaptista@revarqa.com

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ISSN: 1647- 077X ICS: 124055 Depósito Legal: 151722/00


In/Outdoors

Fachadas/Revestimentos/Pavimentos

“Revestimentos exclusivos Cortizo�


In/Outdoors

Fachadas/Revestimentos/Pavimentos Cin

Avenida de Dom Mendo nº 831 Apartado 1008, 4471-909 Maia Tel. + 351 229 405 000 Fax + 351 229 485 661 customerservice@cin.pt www.cin.pt

Nováqua HD, um dos produtos-estrela da CIN graças às suas características inovadoras no mercado, é uma tinta para exterior disponível em centenas de cores, com qualidade reconhecida pelo prémio Produto do Ano. Fácil de aplicar, esta tinta lisa mate é 100% acrílica e foi desenvolvida de forma a ser capaz de resistir às mais adversas condições atmosféricas, condensações noturnas, fungos e algas, transformando-se numa tinta insuperável. HD, que significa High Durability (Alta Durabilidade), representa a promessa de uma alta performance e duração do resultado, estando condensados nestas duas letras anos de investigação e desenvolvimento.

Cortizo

Extramundi S/N. 15901-Padrón (A Coruña)    Tel. 902 313 150    www.cortizo.com comunicación@cortizo.com

TP-52, SG-52, TPH-52, TPV-52, ST-52 e SST-52 compõem a nova geração de fachadas Cortizo, caracterizadas por um sistema de base com ampla gama de montantes e travessas que dão resposta às diferentes necessidades estéticas e construtivas dos projetos arquitetónicos. A ampla gama de perfis e a variedade de uniões mecânicas das mesmas, permite a execução de todo o tipo de fachadas assim como a resolução de modulações com vidros de grandes dimensões. O elevado grau de eficiência energética destas fachadas está garantido por uma zona de rotura de ponte térmica até 66mm e pelas suas excelentes prestações acústicas, na possibilidade de utilização de vidros com grandes espessuras (até 50mm).

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Cosentino

Cosentino Porto Tel. +351 229 270 097 info-porto@cosentinogroup.net Cosentino Lisboa Tel. +351 219 666 221 info-lisboa@cosentinogroup.net

Dekton® by Cosentino, a nova superfície ultra compacta do Grupo Cosentino destinada ao mundo da arquitetura e do design, lança para o mercado cinco novas cores que representam a exaltação da beleza e da pureza da pedra natural. Estas cinco novas tonalidades, de seu nome Aura, Edora, Irok, Kairos e Vegha, incorporam-se na paleta de cores de Dekton® by Cosentino, apresentada no início de 2013, convertendo-se numa revelação no mundo da arquitetura e do design. Nesta coleção a cor Aura destaca-se de forma particular materializando um novo conceito de design bastante atrativo. Graças a oito designs únicos, podem ser criadas composições com continuidade, conseguindo um efeito espelho de nome “bookmatch”. Desta forma, Aura proporciona uma continuidade do desenho de forma vertical e horizontal, ajustando-se às necessidades dos diferentes consumidores.

Listor

Estrada da Atalaia, nº 6 2530-009 Atalaia - Lourinhã Tel. +351 261 980 500 Showroom Lisboa Rua João Chagas, nº 157 2799-547 Linda-a-Velha correio@listor.pt; www.listor.com

Cumprindo o seu objetivo, inovação e procura constante de novos pavimentos e materiais, a Listor representa agora, em Portugal, a marca PAR-KY, pavimentos flutuantes com venner em madeira natural e sistema de encaixe uniclique. A marca PAR-KY dispõe de 4 coleções com características muito diferentes, desde o comprimento e espessura da régua até ao tipo de acabamento, que lhe permite abranger uma grande variedade de estilos e tendências de decoração. Estas coleções - Delux+, Sound+, Lounge e Pro - são constituídas por uma ampla variedade de madeiras - desde os Carvalhos trendy, aos Clássicos Contemporâneos e às madeiras Exóticas.


In/Outdoors

Fachadas/Revestimentos/Pavimentos Love Tiles

Zona Industrial de Aveiro, Apartado 3002 3801-101 Aveiro Tel. + 351 234 303 030 Fax. +351 234 303 031 email: lovetiles@lovetiles.com www.lovetiles.com

Da simbiose entre natureza e criação humana nasce um novo conceito de pavimento e revestimento que ousa desafiar o convencional – Wildwood. Esta coleção distingue-se pela sua personalidade forte e distinta, que se demarca pela inspiração em elementos tão díspares como a madeira e o cimento. Uma coleção inspirada na beleza de uma madeira em estado puro reinterpretada com a gráfica de um cimento. Com um formato – 15x75 – dois acabamentos (natural e antiderrapante) - e cinco tonalidades distintas – white, beige, tortora, light grey e grey. Desenvolvida em Grés Porcelanato Esmaltado – matéria-prima com absorção de água igual ou inferior a 0,2%, o que lhe confere maior resistência, como tal é ideal para ser utilizado como pavimento de interiores. Wildwood é uma solução para espaços modernos e contemporâneos.

Margres

Chousa Nova 3830-133 Ílhavo – Portugal Tel. +351 234329700 Fax. +351 234329702 margres@margres.com www.margres.com

Slabstone remete-nos para a beleza da pedra natural na sua forma mais pura. Mantendo os traços da personalidade de cada uma das pedras naturais, a coleção Slabstone reinterpreta-as conferindo-lhes um caráter sóbrio e elegante. A Basaltina e a Pedra de Jerusalém, duas pedras desde sempre muito apreciadas para revestir os espaços, estão na base da inspiração para esta coleção. Os tons cinza - Grey e Light Grey - reinterpretam os suaves veios da pedra Basaltina que conferem personalidade e movimento aos espaços. Esta coleção é uma solução tanto para interiores como para exteriores, espaços residenciais como públicos e, ainda, espaços de importantes exigências ao nível técnico, como áreas de alto tráfego, piscinas ou pavimentos sobre-elevados.

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Navarra

Veiga das Antas, Navarra Apartado 2476, 4701-971 Braga T +351 253 603 520 F +351 253 677 005 geral@navarraaluminio.com www.navarraaluminio.com

As soluções para os sistemas de fachadas (n15 000 e n15 200) Navarra são utilizados para o revestimentos de edifícios permitindo melhor aproveitamento da luminosidade natural. As fachadas são o sistema de alumínio e vidro melhor integrado com os novos conceitos de arquitetura para edifícios. Os sistemas de fachadas permitem realizar uma ampla variedade de estruturas com os mais diversos tipos de soluções: Cortina; VEP (vidro preso); VEC (vidro colado); Agrafada; Trama horizontal; VES (vidro em suporte); RD (revestimentos diversos). Os sistemas de fachadas Navarra cumprem com as mais rígidas especificações de qualidade.

Schindler

Rua Nossa Senhora da Conceição, nº 3 2790-111 Carnaxide Tel. 214 243 800 Fax 214 243 999 marketing@pt.schindler.com www.schindler.pt

A Schindler projeta, fabrica e instala soluções integradas de transporte vertical com os mais elevados padrões de qualidade e de segurança adaptadas a qualquer tipo de edifício e função. As soluções de mobilidade da Schindler combinam um alto rendimento e máximo efeito visual com um impacto ambiental mínimo. Porque também é importante aquilo que não se vê. A experiência da Schindler garante soluções de eficácia comprovada na planificação e na capacidade de implementação, bem como na redução do consumo de energia.


II N F O NFO Boletim Boletim da da Ordem Ordem dos dos Arquitectos Arquitectos de de Angola, Angola, Conselho Conselho Nacional Nacional –– Ano Ano IIIIIIIII--––Nº Nº 3312 ––13janeiro|fevereiro janeiro|fevereiro 2013 20132014 Nº 12 –––julho|agosto julho|agosto 2014 2014 –Nº Nº Setembro|Outubro Boletim da Ordem dos Arquitectos de Angola, Conselho Nacional – Ano I - Nº 3 – janeiro|fevereiro 2013

Eventos Eventos realizados realizados II II Fórum Fórum Internacional de de Arquitectura Arquitectura Notas deInternacional Reflexão Agenda Agenda

O HOMEM E O TERRITÓRIO

Eventos realizados

oo território. território.As As prelecções prelecções obedeceram obedeceram àà seguinte seguinte ordem ordem temática: temática: 1. 1. Acessibilidade Acessibilidade “to “to be be or or not not to to be” be” Dra. Dra. Águeda Águeda Gomes Gomes (Angola) (Angola) 2. 2. Plano Plano Director Director de de Luanda Luanda Arq. Arq. Hélder Hélder José José (Angola) (Angola) Ordem dos Arquitectos Ordemser dosfeito Arquitectos deverá deverá ser feito um um balanço balanço 3. 3. Plano Plano de de Reconversão Reconversão Urbana Urbana do do Cazenga, Cazenga, A A cidade cidade portuária portuária do doevento Lobito Lobito acolheu acolheu com com êxito, êxito, de Angola. demandato Angola. Neste do do mandato que que agora agora Sambizanga Sambizanga e e Rangel Rangel de de 5deverá 5 aa 99 de deser Junho Junho do do ano ano corrente, corrente, o o II II Fórum Fórum feito um balanço termina. termina. de Internacional Internacional de Arquitectura Arquitectura 50ª Reunião Reunião Arq. Arq. Ilídio Ilídio Daio Daio (Angola) (Angola) do mandato que agora ee aa 50ª do do Conselho Conselho da da União União Africana Africana de deArquitectos. Arquitectos. 4. 4.Projecto Projectode deReabilitação ReabilitaçãoeeRestauração Restauraçãodo do termina. REALIZOU-SE REALIZOU-SE DE DE 88 A A 12 12 DE DE DEZEMBRO, DEZEMBRO, EM EM ABIDJAN, ABIDJAN, COSTA COSTA DO DOdo MARFIM, MARFIM, aa 39ª 39ª reunião reunião do do Conselho Conselho O O evento evento contou contou com com aa presença presença de de arquitectos arquitectos Conjunto Conjunto do Património Património Industrial Industrial --Central Central Térmica Térmica da da União União Africana Africana de de Arquitectos Arquitectos (AUA) (AUA) e e o o encontro encontro de de Desenvolvimento Desenvolvimento Profissional Profissional Contínuo Contínuo (CPD). (CPD). Este Este vindos vindos do do Brasil, Brasil, Cabo-Verde, Cabo-Verde, Quénia, Quénia, Uganda, Uganda, de de Ferro Ferro da da MSP, MSP, Ponferrada, Ponferrada, León León Espanha Espanha REALIZOU-SE DE 8 A 12 DE DEZEMBRO, EM ABIDJAN, COSTA DO MARFIM, a 39ª reunião do Conselho Egipto, Egipto, Portugal, Portugal, Sudão, Sudão, República República Democrática Democrática Arqta. Arqta. Carolina Carolina Martinez Martinez (Espanha) (Espanha) último, último, foi foi uma uma organização organização conjunta conjunta entre entre a a AUA AUA e e a a UIA UIA (União (União Internacional Internacional de de Arquitectos). Arquitectos). Na Na reunião reunião da União Africana de Arquitectos (AUA) e o encontro de Desenvolvimento Profissional Contínuo (CPD). Este do do Congo, Congo, Ruanda, Ruanda, África África do do Sul, Sul, Zimbabué, Zimbabué, 5. 5. O OInternacional Ordenamento Ordenamento do Território Território do do Conselho Conselho da daorganização AUA AUA foram foram aprovadas aprovadas varias varias resoluções resoluções concernentes aa organização organização interna interna da daNa União. União. último, foi uma conjunta entre a AUA e a UIAconcernentes (União dedo Arquitectos). reunião Tanzânia, Tanzânia, Nigéria, Nigéria, Tunísia, Tunísia, República República do doNo Congo, Congo, Arq. Arq.António António Gameiro Gameiro (Angola) (Angola) No encontro encontro do do CPD, foram foramaprovadas feitas feitas apresentações apresentações de de trabalhos trabalhos desenvolvidos desenvolvidos por por grupos grupos de de arquitetos arquitetos do Conselho daCPD, AUA foram varias resoluções concernentes a organização interna da União. bem bem como como arquitectos arquitectos de de Angola. Angola. 6. 6.desenvolvidos Projecto Projectourbana de de Construção Construção da da Mediateca Mediateca de ivoariences, ivoariences, em parceria parceria com comfeitas oo governo governo de de Abidjan, Abidjan, sobre requalificação requalificação urbana de zonas zonas degradadas. degradadas. •• No encontroem do CPD, foram apresentações desobre trabalhos porde grupos de arquitetos de As As fortes fortes pressões pressões políticas políticas ee sociais, sociais, oo ivoariences, em parceria com o governo de Abidjan, sobre requalificação Luanda Luanda urbana de zonas degradadas. • acentuado acentuado crescimento crescimento demográfico, demográfico, aa Consultor Arq. Arq.Alexandre Alexandre Icaia Icaia (Angola) (Angola) Por: Celestino Chitonho, Arquiteto, consequente consequente expansão expansão desordenada desordenada das das cidades cidades 7. 7. De De Museke Museke às às Centralidades. Centralidades. Como Como Opinião Opinião eeOos os diferentes diferentes fenómenos fenómenos naturais naturais resultam resultam Construir Construir a a História História de de Angola Angola com com Betãopara a Olhei Se não é possível acabar de imediato com os inha da casa à direita, estava grávida. Betão executivo angolano tem estado numOpinião esforço na na transformação transformação do do território território como como se de de uma uma de musseques, sem condições mínimas de habitAntropólogo, Antropólogo, Patrício Patrício Batsikama Batsikama (Angola) (Angola) vizinha da casa à esquerda, estava grávida. gigantesco, visando a melhoria dasse condições 90, 90, verificou-se verificou-se como como um um período período de de estagnação estagnação Olhei FALAR FALAR DE DE LUANDA LUANDA éé também também falar falar dos dos marca marca indelével indelével se se tratasse. tratasse. Daí aa necessidade necessidade Ainda Ainda no nocomo evento, evento, aaperíodo Comissão Comissão Instaladora do do a 90, verificou-se um deInstaladora estagnação FALAR DE LUANDA épois também falar dos para a vizinha da casa em frente e, também a vizinha, abilidade, as requalificações e reconversão vida das populações, com a Daí construção de habitano no crescimento crescimento da da cidade cidade de de “betão”, “betão”, mas mas também musseques, musseques, assim assim como como os os “Slums” “Slums” em em Londres Londres de de dotar dotar actividade actividade humana humana de de estratégias estratégias ee DOCOMOMO DOCOMOMO -- ANGOLA, ANGOLA, fez fez uma uma exposição exposição no crescimento da cidade de “betão”, mas também musseques, assim como os “Slums” em Londres sua filha, a sua empregada, estavam grávidas’’. urbanas levam o seu tempo, então talvez seja ções, emaaurbanizações devidamente infra-estrutufoi foi nesse nesse mesmo mesmo período período que que se se registou registou oo fenómeno fenómeno ou ou em em Nova Nova Iorque, Iorque, os os “bidonvilles” “bidonvilles” em em Paris, Paris, recursos recursos que que permitam permitam aa utilização utilização sustentável sustentável sobre sobre oo Cine Cineperíodo --por Esplanada Esplanada Flamingo, Flamingo, situado situado na foi nesse mesmo queque se registou o fenómeno ou em ee Nova Iorque, osde“bidonvilles” em Paris,serviços às popuÉ estando dentro percebemos osna reais imediato, aproximar radas e dotadas de todos os serviços básicos. O possível, de de migração migração do do interior interior para para a a capital capital (cidade (cidade de de as as “favelas” “favelas” no no rio rio de de Janeiro, Janeiro, os os “bustees” “bustees” em em aaque preservação preservação deste deste «património «património comum», comum», cidade cidade do do Lobito. de migração doLobito. interior para da a capital (cidade de as “favelas” no rio de Janeiro, os “bustees” problemas e os perigos não existência de espalações dos musseques, o que em terá o seu impacto é de elogiar. Luanda). Luanda). O O “Boom” “Boom” das das construções construções desordenadas desordenadas Calcutá, Calcutá, as as “villas “villas de de misérias” misérias” em em Buenos BuenosAires, Aires, Luanda). O “Boom” das construções desordenadas Calcutá, de misérias” em Buenos Aires, ços de lazer e descontracção, bem como de outros imediato. Se por um lado se assiste à construção de no-as “villas começava começava a a uma uma velocidade velocidade descontrolada descontrolada e, e, hoje, hoje, ou ou os os “bairros “bairros de de caniços” caniços” em em Lourenço Lourenço Marques, Marques, começava a uma velocidade descontrolada e, hoje, ou os “bairros de caniços” em em Lourenço Marques, serviços. É estando por dentro que percebemos Quando se fala ouvir as vozes do musseque, vas22 por outro continua o surgimento 2urbanizações, DE DE MARCO MARCO 2013 2013 DE MARCO 2013 espelha espelha o o mosaico mosaico e e a a diversidade diversidade da da nova nova estrutura estrutura pois pois espelham espelham as as assimetrias assimetrias da da evolução evolução social. social. espelha o mosaico e a diversidade da nova estrutura pois espelham as assimetrias da evolução social. Opinião Opinião deTerceiras assentamentos informais, sem as condições não se trata de fazer entrevistas ou questionários que o musseque não cresce de modo espontâneo, Terceiras Eleições Eleições Terceiras Eleições urbana que que Luanda Luanda apresenta. apresenta. Com os os seus seus 437 437 anos anos de existência, existência, Luanda Luandaacadémicosurbana urbana que Luanda apresenta. Com os seus 437 anos de existência, Luanda da necessidade. Precisamos perceber que a quem vive de nele. Os arquitectos, e é fruto básicas de habitabilidade, o que vai levar oCom execuGerais da Gerais da Ordem Ordem dos dos Existem alguns de urbanização que de das atenções arquitetos, Existem alguns planos planos de urbanização que estão estão de hoje hoje éé oo palco palco das atenções de de arquitetos, um adolescente, hoje de 15 anos, quando atingir a outros profissionais devem tirar as vestes de elitistivoArquitectos num ciclo dispendioso de viver a reagir. Arquitectos de de Angola. Angola. a ser implementados para aliviar a pressão urbana sociólogos e antropólogos, pois apresenta a ser implementados para aliviar a pressão urbana sociólogos e antropólogos, pois apresenta idade adulta vai formar família e temos de prever tas e usar uma das ferramentas que nos oferece a O que está a acontecer afinal ? Qual o nosso a ser implementados para aliviar a pressão urbana sociólogos e antropólogos, pois apresenta Nestas eleições deverá deverá ser Nestas eleições ser Nestas deverá ser Por Por M. M.enquanto Arq. Arq.eleições Amélia Amélia Gay Gay da que a cidade vive. Ainda bem que existem estes características únicas onde se verificam novas espaço para a sua habitação. antropologia, ou seja, a observação directa e parpapel fazedores arquitectura? que a cidade vive. Ainda bem que existem estes características únicas onde se verificam novas que a cidade vive. Ainda bem que existem estes características únicas onde se verificam novas eleito próximo Presidente eleito eleito oo o próximo próximo Presidente Presidente planos mas, não querendo ser pessimista, perguntodinâmicas sociais, culturais económicas. Se O Segundo aspecto de na necesticipante. É necessário entrarcomo no e nele O Primeiro aspecto detecnologia reflexão que realçamos planos planos mas, mas, não não querendo querendo ser serreflexão pessimista, pessimista, perguntoperguntodinâmicas dinâmicas sociais, sociais, culturais culturais ee edo económicas. económicas. Se Semusseque antiquados, antiquados, ainda ainda praticados praticados nas nas tange nossas nossas aspecto aspecto técnico técnico do projecto projecto como aa vertente vertente Metodologia Metodologia de de ensino, ensino, tecnologia ee recursos recursos do Conselho Nacional, em do do Conselho Conselho Nacional, Nacional, em em -me se uma cidade se faz com planos “a retalho” até 1940 a expansão da cidade era lenta, foi no sidade dos arquitectos e urbanistas angolanos viver seis meses ou mesmo um ano. Conhecer a é de que ângulo vemos o problema? Do lado da escolas escolas de de arquitectura. arquitectura. Ainda Ainda temos temos 60 60 alunos alunosse ambiental ambientalda ee humana. humana. didácticos, didácticos, implementação implementação de de estágios, estágios,até -me -me se se uma uma cidade cidade se se faz faz com com planos planos “a “a retalho” retalho” até 1940 1940 aa expansão expansão da cidade cidade era era lenta, lenta, foi foi no no substituição do arq. Antonio substituição substituição do do arq. arq.musseque? Antonio Antonio como tenho verificado por exemplo com o plano do período da 2º guerra mundial onde se verificou o ou ou mais mais por por instrutor, instrutor, nalguns nalguns estúdios estúdios das das sentarem à ‘’porta fechada’’ e discutirem arquitecvizinhança, tentar sobreviver com a mesma renda cidade ou doem lado do Qual aperíodo solução? Numa Numa era era tecnológica tecnológica como como a a nossa, nossa, o o participação participação em projectos projectos tanto tanto públicos públicos como como como como tenho tenho verificado verificado por por exemplo exemplo com com oo plano plano do do período da da 2º 2º guerra guerra mundial mundial onde onde se se verificou verificou oo Gameiro, bem como do Gameiro, Gameiro, bem bemduas como como do do escolas de de arquitectura arquitectura pelo pelo país, país, quando quando ensino da arquitectura arquitectura deve deve estar estar formatado formatado privados… privados… Apenas Apenas citei citeipessoas alguns alguns elementos elementos que quecrescimento Sambizanga, Zango, entre outros, ou se da cidade com uma arquitetura tura. Só depois, chamar os políticos. Muitos arquie assim perceber por dentro os seus problemasCazenga, e escolas Exemplificamos olhando maior para um ensino Cazenga, Cazenga, Sambizanga, Sambizanga, Zango, Zango, entre entre outros, outros, ou ou se se maior maior crescimento crescimento da da cidade cidade com com uma uma arquitetura arquitetura Presidente do Conselho aatectos razão razão devia devia ser de decomo aproximadamente aproximadamente para para evoluir paralelamente paralelamente ao aoemoderno, desenvolvimento desenvolvimento Presidente Presidente do dopara Conselho Conselho podem podem contribuir contribuir para aa melhoria melhoria da formação formação se deve pensar a cidade umpolíticos todo, criando um fortemente pelo movimento estão aser confundir os e a ‘’impor’’ toda evoluir a sua dinâmica territorial espacial. O que se copo com água, em que uma dizda que está cheio caracterizada provincial de Luanda, se se deve deve pensar pensar aanão cidade cidade como como um um todo, todo, criando criando um um fortemente fortemente caracterizada caracterizada pelo pelo movimento moderno, moderno, 1:20. Assim Assim não se se ensina ensina nem se se aprende aprende arquitectónico. Os Osmovimento estudantes estudantes de dechegou arquitectura arquitectura do do arquitecto, arquitecto, para para que que esteja preparado preparado provincial provincial de Luanda, Luanda, cultura às populações. Dizianem Amílcar Cabral que ‘’o diz numa entrevista ou questionário nem sempreplano é 1:20. pela metade de e outra queesteja está vazio pela ametade. estratégico de crescimento sustentável, onde arquiteturaarquitectónico. “Corbusiana”. Esse movimento o arq. Helvecio daaaCunha. plano plano estratégico estratégico de de crescimento crescimento sustentável, sustentável, onde onde aa arquitetura arquiteturadevem “Corbusiana”. “Corbusiana”. Esse Esse movimento movimento chegou chegou arquitectura. arquitectura. Porque Porque é é que que não não há há acesso acesso devem estar estar preparados preparados para para criar criar projectos projectos aa enfrentar enfrentar desafios desafios nível nível nacional nacional e e reivindica a suaeidentidade, ele simplesde facto que se passatalentosos no terreno. Quando se fala em urbanismo, antes de pensar- pelas quempovo sai anão ganhar é a cidade os seus utilizadores. a Luanda mãosode arquitetos oA o arq. arq. Helvecio Helvecio da da Cunha. Cunha. convocatória para os dois aos aos estúdios 24/24h 24/24h ee porque porque não não equipar equipar as as excelentes excelentes tanto tanto para paraVictor meios meios rurais rurais como como internacional. internacional. quem quem sai saiestúdios aa ganhar ganhar aa cidade cidade os osexercício seus seus utilizadores. utilizadores. ada a Luanda Luanda pelas mãos de de arquitetos arquitetos talentosos talentosos mente vivi-a’’. Omãos escritor francês Hugo, num dos seus mos no ordenamento físico da cidade ou do ter- pelas Na verdade, pensarééLuanda éee um muito época como Vasco Vieira da Costa, Castro A A convocatória convocatória para para os os dois dois nossas nossas escolas escolas com com salas salas de de computadores computadores eventos foi feita a outro 17 deramo urbanos. urbanos. E E porque porque não não projectar projectar para para o o mundo? mundo? Tal Tal como como qualquer qualquer outro ramo de de estudo, estudo, Na verdade, pensar pensar Luanda Luanda um um exercício exercício muito muito da da época época como Vasco Vasco Vieira Vieira da daCarvalho Costa, Costa, Castro Castro Há com aéé atitude do assimilado romances, falando de constatações espaciais Na e verdade, ritório, é fundamental a ‘’máxima aproximação dos como earquitectos ao mesmo tempo apaixonante pela sua do de entre outros. eventos eventos foi foi aa 17 17 de deque que que tenham tenham programas programas arquitectónicos arquitectónicos Para ParaSimões podermos podermos formar formar arquitectos arquitectos capazes capazes complexo aa arquitectura arquitectura éfeita éfeita uma uma área área que está está em em Rodrigues, Fernão Janeiro, pelo atual Presidente complexo complexo e e ao ao mesmo mesmo tempo tempo apaixonante apaixonante pela pela sua sua Rodrigues, Rodrigues, Fernão Fernão Simões Simões de deoCarvalho Carvalho entre entre outros. outros. tempo colonial. Nota-se que naquele tempo, para dinâmicas da população, numa das localidades serviços à população’’, o que vai incidir de modo diversidade cultural e social e nunca terá o consenso Foi um período notável, onde urbanismo e a própria instalados? instalados? de de competir competir aa nível nível internacional, internacional, devemos devemos Janeiro, Janeiro, pelo pelo atual atual Presidente Presidente constante constante desenvolvimento. desenvolvimento. Os Os métodos métodos de de da Ordem. diversidade diversidade cultural cultural e e social social e e nunca nunca terá terá o o consenso consenso Foi Foi um um período período notável, notável, onde onde o o urbanismo urbanismo e e a a própria própria se adquirir respeito e determinado estatuto social por onde passou largos meses, frisou: ‘’ Tudo imediato na melhoria das condições de vida das de todos os que pensam nela. • arquitetura ainda hoje têm algo a dizer à cidade. A A nossa nossa preocupação preocupação devia devia ser ser de de formar formar começar começar aa seguir seguir padrões padrões internacionais internacionais de de conceitualização conceitualização ee criação criação de de um um edifício edifício da da Ordem. Ordem. tínhamos assimilar a quantidade. cultura colonialArquiteto e deixar parecia combinado, olhei para a vizpopulações. de de todos todos os os que quede pensam pensam nela. •quantidade. • Mesquita, arquitetura arquitetura ainda ainda hoje têm têm algo algo aa dizer dizer à à cidade. cidade. Jaime Oooperíodo entrehoje finais dos anos 70 até fins dos anos com com qualidade qualidade ee não nãonela. em em ensino ensino eeperfeitamente desfazermo-nos desfazermo-nos de de alguns alguns métodos métodos passam passam por por processos processos que que envolvem envolvem tanto tanto

99Agenda DE DEFEVEREIRO FEVEREIRO2013 2013

OAA OAA –– A A Terceira Terceira 9 DE FEVEREIRO 2013 Assembleia Assembleia Geral Geral da da OAA Terceira OAA –– A A Terceira Ordem Ordem dos dos Arquitectos Arquitectos Assembleia Geral da Assembleia Geral da de de Angola. Angola. Neste Neste evento evento

OUVIR AS VOZES DO MUSSEQUE PARA REQUALIFICAR LUANDA EM ANGOLA ‘Delirious ‘Delirious in in Luanda’ Luanda’

Formar arquitectos para Angola e para o mundo

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O O período período entre entre finais finais dos dos anos anos 70 70 até até fins fins dos dos anos anos

Jaime Jaime Mesquita, Mesquita,Arquiteto Arquiteto

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CONCURBA, 2ª EDIÇÃO

Eventos Estatuto

O arquitecto é na realidade um médico da cia nativa. Existia inclusive um fiscal que, de seRotunda do Africano, no Lobito, o tema paraé ahoje segunda edição ARTIGO 3.º Luanda daquelas cidades que regunda a A sexta feira, passava pelas casas dos édade. do Concurso Urbano de Arquitectura (Atribuições) nativos para confirmar a assimilação da cultura quer cuidados diferenciados. Em tempos idos, a colonial ou não. Ao sábado e ao domingo, como guerra provocou o êxodo de populações do inteArtigo 56° o fiscal não trabalhava, muitos angolanos davam rior o que provocou o problema do crescimento o grito de revolta e diziam ‘’Vamos comer o nosso desordenado da cidade e sem ter em conta as (Participação pela administração funge’’. Hoje, ainda há angolanos que só comem suas mais variadas funções. Se o arquitecto não pública e outras entidades) tiver capacidade de ler as situações e prover o funge ao sábado! 1. A administração pública e É esta mesma atitude, que faz com que as uma espécie de profilaxia, a cidade caminha a quaisquer autoridades devem universidades angolanas tenham grelhas cur- largos passos para o caos urbano. Hoje, Angola dar conhecimento a Ordem riculares baseadas em universidades como as do e Luanda em particular está a ser vítima do seu dos Arquitectos da prática Porto, Lisboa, Roma, São Paulo, etc. , que, di- crescimento económico. Com a crise económica por arquitectos ou urbanistas ga-se de passagem, reflecte respostas aos seus mundial Luanda começa a ser vitima do problema de factos susceptíveis problemas e estratégias de desenvolvimento lo- das minorias. Pois, pessoas das mais variadas de constituírem infracção cais. Por cá, sem olhar as necessidades das nos- nacionalidades elegeram Luanda como solução Está tudo pronto para a Gala de Outorga disciplinar. sas populações ou a dinâmica do nosso território, para os seus problemas, motivados pela crise da Primeira Edição do Concurso Urbano de económica mundial. uma vez mais assimilamos! 2. O Ministério e as Arquitectura, Sumbe 2013, empúblico Novembro O Quarto aspecto de reflexão tange na questão É importante realçar, ao contrário do que muita entidades compuro, poderes de de próximo. Este troféu em cristal no valor boa gente diz, existe sim arquitectura angolana, dos conceitos técnico e científico. Tal como a 15 000 USD, verá oinvestigação seu projecto executivo ser criminal ou policial pago pelo Governo da Província do Kuanza Sul, ou melhor ainda arquitecturas angolanas. Tem de família é a unidade base na sociedade, a habitadevem remeter a Ordem é quanto o vencedor levará para casa. ção é a unidade base na cidade. Do mesmo modo ser teorizada, pois ela existe e é um facto. dos Arquitectos certidão das O executivo angolano com grande esforço que famílias mal estruturadas promovem uma soparticipações apresentadas A Ordem dos Arquitectos de Angola foi partiu para a construção das centralidades e em ciedade desestruturada, habitações mal estrutuconvidada, no passado mês de Setembro, a contra arquitectos e urbanistas. grande número, até hoje as nossas universidades radas promovem uma cidade desestruturada. Se fazer parte do primeiro curso sobre arbitragem, estão à espera de um sinal vindo do Porto, Lisboa, no seio familiar sentirmos carências, procuramos no âmbito do surgimento do CREL – Centro na ser sociedade. mesmo modo, na caso de Lobito o Do destino; é local de se conflitos doPaulo, Parquepara doscolocar Namorados, no Kuanza supri-las Roma epois ou São a manutenção de Resolução Extrajudicial Litígios, em Ordem de dos Arquitectos tivermos carências, procuramos suprir em horas de ponta e não só, provocando grandes Sul, anas Rotunda do Africano foicurriculares. apresentada nohabitação de imóveis respectivas grelhas Angola. Dez arquitectos fizeram parte da referida de Angola carências ànacirculação cidade, sob pena de O criar des- do transtornos rodoviária. choque segundo Fórum Internacional de Arquitectura estas formação, sendo que passam a colaborar com o Rua Aníbal de 109, ligados 1º andar para nº litígios urbana. com a linha férrea, o surgimento de um tribunal arbitral, como árbitrosMelo, cruzamento como sendo o tema da segunda edição do Concurso ordem Vila Alice, Luanda à arquitectura, construção e actividades afins. Ocomércio modo como se faz depende informal e a cidade, necessidade de semuito colocar Urbano de Arquitectura. Tel. +244 926 975 502 se faz habitação. A habitação travessias para peões, faz deste localtem umfundesafio Bem situada na convergência entre o acesso de de como geral@arquitectos-angola.org decorrentes da necessidade humana de os participantes. e para Luanda, bem como de e para Benguela, no çõespara Estatuto habitar. Quando o arquitecto não prevê espaço para determinada função, os habitantes buscam ARTIGO 12º qualquer outro espaço para suprir esta função. (Obrigatoriedade de exercício de funções) Numa habitação os anexos surgem para suprir CENAS DO QUOTIDIANO DO LOBITO funções ‘’esquecidas’’. Começa a ser preocuConstitui dever do arquitecto ou urbanista o exercício, nos órgãos da Ordem, das funções para pante o facto da cidade de Luanda ser feita com Conquistaram a que tenha sido eleito ou designado, salvo no caso anexos, porque, propositadamente, se deixa esde escusa fundamentada, aceite pelo conselho paisagem urbana como paço para o anexo. Quando são previstas todas provincial respectivo ou pelo conselho Nacional, no as funções não há necessidade nenhuma dos caso de ele não existir. uma marca que não O Terceiro aspecto de reflexão tange na quali- anexos. À escala da cidade, esta falha provoca A recusa injustificada de exercício das funções passa despercebida, por que tenha sido eleito ou designado é punível dade e na importância que se dáos ao ensino da grandes transtornos. As funções devem ser precom suspensão do exercício da profissão por um arquitectura. acessovulgarmente às escolas de medicina vistas sob pena dos habitantes elegerem outros moto – Otáxis, período de 18 meses. tem tido um tão grande rigor ao longo dos tem- espaços para supri-las, provocando, na maior chamados de kupapatas, pos, levando as universidades a fixarem notas parte dos casos, o caos urbano. ARTIGO 13º (Renúncia ao cargo e suspensão temporária do mínimas que rondam os dezanove O Quinto e último aspecto de reflexão tem reladisputam no território umvalores. A exercício de funções) ideia subjacente neste rigor, é que se o estudante ção com as dimensões do papel dos arquitectos lugar na movimentação não é tão bom para cuidar de homens, então é e urbanistas na sociedade. Dimensão meramente Quando sobrevenha motivo relevante pode o da economia convidado a ir ‘’ matarlocal. ‘’ animais fazendo veter- comercial ou também humanista? Até que ponto arquitecto ou o urbanista titular de cargo em órgãos da Ordem dos Arquitectos solicitar ao conselho inária. Na medicina, o mau médico vai matando poderão os arquitectos ir em auxílio das populaPossuem a vantagem Nacional a aceitação da sua renuncia ou a uma pessoa de cada vez. Na arquitectura, o mau ções, tal médicos sem fronteiras, orientando-as suspensão temporária do exercício da profissão. de penetrar em arquitecto ou mau urbanista vai matando popu- para as boas práticas da arte de construir? lações. Eliminar os assentamentos informais e sem as zonas onde os táxis Assiste-se a muitos arquitectos, hoje, a falar de condições mínimas de habitabilidade é um proOrdem dos Arquitectos convencionais arquitectura sustentável não e com grande entusias- cesso que requer tempo, dedicação e amor ao de Angola mo.alcançam Defendo, e doemesmo modo o fazem vários próximo. Não basta a boa vontade dos governos. permitem Rua Aníbal de Melo, nº 109, 1º andar dos grandes mestres da arquitectura, que a ar- Os profissionais devem participar activamente. Vila Alice, Luanda maior mobilidade em Se mais de 85% das construções no mundo não quitectura só é arquitectura porque é sustentável. Tel. +244 926 975 502 todo o território. Falar de arquitectura sustentável é redundância. são feitas por arquitectos, então temos de repengeral@arquitectos-angola.org sar o ensino e a dimensão ética da arquitectura. De outro modo seria apenas desenho.

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Projecto Nova Vida Rua 50 • edifício 106, 3º andar, apto 3.2 • Luanda - Angola Telf. +244 923 609 573 • +244 921 548 455 pranchetalda@hotmail.com


news

atualidades

Paula Melâneo

raum: residências artísticas online Atelier FORA vence concurso na Bulgária O Atelier FORA é o grande vencedor do concurso para a renovação da Praça Central de Plovdiv, na Bulgária. O projeto havia sido um dos 3 finalistas (com os italianos SMARCK Studio e o alemães Veit Eckelt, Sigmund Eckelt, Philipp Mecke, Ana Fillipovic) selecionados entre 125 propostas oriundas de 41 países, e a decisão final foi agora anunciada pelo Município de Plovdiv, após um período de discussão pública. O enunciado do concurso solicitava “uma solução de arquitetura e paisagismo para a revitalização e renovação da praça central da cidade de Plovdiv, a segunda maior cidade da Bulgária, construída sobre os escombros do antigo Fórum romano de Philippopolis. A intervenção compreende uma área de 57.000 m2, e revela a interseção entre diferentes períodos históricos, desde a antiguidade até à ocupação Soviética”. Nas notas do júri encontramos algumas das motivações da escolha: a proposta é clara, simples e cria espaços claramente definidos; cria potencial para a socialização da arqueologia, a possibilidade para um “mundo paralelo”; um equilíbrio da quantidade de arqueologia exposta e a possibilidade de fácil adaptação do projeto segundo os resultados de futuras escavações; boas conexões com o tecido urbano existente, também ao nível mais baixo dos vestígios arqueológicos, redesenha a rua principal na direção norte-sul, face à estação dos correios; está em conformidade com os objetivos do enunciado do concurso. A proposta do atelier FORA será apresentada no dia 18 de Outubro em Plovdiv, no âmbito do festival de arquitetura ‘One Architecture Week’ www.for-a.eu

Esta é uma nova plataforma online que aloja residências de artistas e estruturas ligadas à criação e programação artística e outras, com atividades nos domínios da difusão, educação e formação na área das artes - nomeadamente unidades de investigação universitária, projetos editoriais, museus, escolas de artes visuais e projetos independentes. Fotografia, artes visuais, cinema, arquitetura, design, música e artes sonoras, são as áreas que vão dar início a este projeto. A arqa vai entrar como entidade parceira, sendo responsável pela dinamização da plataforma na área da arquitetura entre 10 e 25 de dezembro de 2014. São as várias entidades parceiras que desencadeiam os processos criativos, materializados em propostas de criadores convidados: textos de investigação, artigos, ensaios visuais, projetos gráficos, sonoro-musicais, cinematográficos ou outros, realizados especificamente para a plataforma. Entre as várias entidades está também o Centro de Estudos Multidisciplinares Ernesto de Sousa, o Atelier de Lisboa, o Museu Coleção Berardo, a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado ou o Terceiro Direito (a associação responsável por este projeto). O endereço web já está ativo, com informação sobre o projeto, e dia 1 de outubro apresentará a primeira residência, dando início a uma programação de duração quinzenal, até abril de 2015. Para acompanhar a programação é importante subscrever a newsletter para receber toda a informação. www.raum.pt

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atualidades

Exposição de Rafael Moneo na Garagem Sul Rafael Moneo. Uma reflexão teórica a partir da profissão. Materiais de arquivo (19612013) é o título da nova exposição que a Garagem Sul do Centro Cultural de Belém apresenta desde dia 16 de Setembro, data em que o arquiteto espanhol esteve em Lisboa para uma conferência de abertura. Constitui-se como a primeira grande retrospetiva da obra de Moneo (n. 1937, Navarra), galardoado com o Prémio Pritzker em 1996 e o Prémio Príncipe de Astúrias das Artes 2012. A exposição centra-se em 46 dos seus projetos, divididos em 5 secções biográficas, com 18 maquetes, 142 fotografias e 98 desenhos originais. Comissariada por Francisco González de Canales, coordenador cultural e professor da Architectural Association de Londres, e produzida pela Fundação Barrié (Corunha, Espanha), a exposição é “uma viagem através dos arquivos profissionais de Rafael Moneo, que destaca a importância do desenho com ferramenta fundamental do arquiteto, e como um meio para definir o seu pensamento”. Os trabalhos apresentados incluem desde os seus primeiros projetos da década de 1960, às obras mais emblemáticas como o Kursaal – Auditório e Centro de Congressos, em San Sebastian; o Museu Nacional de Arte Romana, de Mérida; a ampliação do Museu do Prado, em Madrid; a extensão do campus da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, ou a catedral de Nossa Senhora de Los Angeles, nos E.U.A.. Esta é a primeira itinerância internacional da exposição que poderá ser vista até 23 de novembro. www.ccb.pt

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Zwei Museen/Two Museums de Heinz Emigholz

Ai Weiwei’s Appeal ¥15,220,910.50

Doclisboa’14, entre 16 e 26 de outubro Esta é a 12ª edição deste Festival Internacional de Cinema. Este ano serão exibidos 250 filmes de 40 países, num total de 109 longas e 141 curtas-metragens. O programa é intenso e inclui as habituais Competições de longas e curtas nacionais e internacionais, as secções Investigações, Riscos, Cinema de Urgência, Verdes Anos, a Retrospectiva Johan Van Der Keuken e a Retrospectiva Neo-Realismo e Novos Realismos, entre outras. Passagens é a secção que integra a exposição “Gente da Terceira Classe – Fotografia e Realismos”, com curadoria de Emília Tavares, apresentada no Museu da Eletricidade entre 14 de outubro e 4 de Janeiro de 2015. As obras expostas incluem autores nacionais e estrangeiros, nomeadamente Walker Evans, Eugene Smith, ou os neorrealistas italianos Federico Patellani, Fulvio Roiter e Franco Pinna, bem como fotografias de cariz humanista dos autores portugueses Victor Palla, Carlos Afonso Dias, Gérard Castello-Lopes, Sena da Silva, Adelino Lyon de Castro, Jorge Silva Araújo, Augusto Cabrita, Varela Pécurto, Francisco Keil do Amaral, e dos catalães Ramón Masats, Oriol Maspons ou Frances Català-Roca. Destacamos a curta Zwei Museen/Two Museums de Heinz Emigholz, focada em dois museus: o Museu de Arte de Ein Harod, Israel, projeto de Samuel Bickel (1909-1975) em 1948, e a Coleção Menil, em Houston, Texas, de Renzo Piano (n. 1937) em 1986; e cuja projeção dá origem a uma conversa do realizador com Diogo Seixas Lopes na Culturgest (17 out., 17h00), numa parceria com a Trienal de Arquitetura de Lisboa. Também no dia de abertura (16 out., 21h30) será exibido Ai Weiwei’s Appeal ¥15,220,910.50, o último documentário realizado pelo artista, sobre a sua mediática detenção. www.doclisboa.org


Foto: FG+SG

Portugal Internacional

Promontorio, EdifĂ­cio Residencial Lubango Center, Angola, 2010-2013

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EDITORIAL

temático

Portugal Internacional

A internacionalização entre os dilemas da disciplina e desafios da profissão

Luís Santiago Baptista|lsbaptista@revarqa.com

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Depois do programa geração z, desenvolvido pela arqa entre 2007 e 2011, voltamos a centrarmo-nos nas práticas arquitetónicas portuguesas emergentes. A inexorável passagem do tempo recoloca constantemente a questão dos novos ateliers. Porém, as circunstâncias em que o fazemos serão hoje outras, fruto da investigação que levámos a cabo. Significativamente, fechámos o programa com a constatação da impossibilidade de constituição geracional, implícita na utilização da letra Z: “Uma das nossas primeiras intuições foi que a última letra do alfabeto seria perfeita porque colocava na mesa o espectro do fim. E esse fim (…) passava pela própria dissolução ou desintegração da questão geracional. Ao fim e ao cabo, propusemos a hipótese de uma geração que testemunhava o eclipse da lógica geracional.” Concluíamos depois: “Se algo, no âmbito do programa geração z, pode ser comprovado pelos cadernos elaborados pelos ateliers, pelos números temáticos da revista e pelas exposições e conferências é o quase total alheamento, distanciamento ou desinteresse pela constituição de um qualquer corpo unitário, de uma eventual plataforma comum ou de um possível programa sintético, que foi, diga-se, ao longo da modernidade, condição necessária à constituição histórica de uma geração. Não pode haver geração sem autoconsciência, portanto sem vontade coletiva e intencionalidade programática. A geração z será talvez uma geração potencial que não se interpreta e assume como geração. Neste sentido, poderíamos dizer que, ao falhar, a geração z confirma-se.”1 A abordagem das novas práticas que aqui lançamos liberta-se da problemática geracional. Sintomaticamente, a recente exposição “Tanto Mar”, comissariada pelo Ateliermob, e a representação portuguesa na Bienal de Veneza “Homeland”, com curadoria de Pedro Campos Costa, afastam-se, mais ou menos explicitamente, do argumento geracional.2 Limitamo-nos assim a apresentar práticas de arquitetos portugueses nascidos depois do início da década de oitenta. Ateliers estes bastante diferentes nas abordagens, perante um contexto de crise profissional generalizado. Por isso, a sua presença será aqui convocada, antes de tudo, como um ato de bravura e convicção disciplinar.

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Ser hoje arquiteto em Portugal é dramático. Ser um arquiteto jovem torna-se trágico. Apesar da crise profissional que o país atravessa atingir a classe como um todo, são os arquitetos mais jovens que se confrontam mais violentamente com ela. O aumento exponencial do número de arquitetos portugueses nas últimas décadas aliado à situação difícil de crise económica tem gerado o incremento da competitividade entre ateliers, expondo aos mais novos uma equação de resolução quase impossível. Neste sentido, as condições profissionais precárias, a ausência de concursos públicos, a escassez de encomenda, o bloqueio das vias do ensino e da função pública, os reptos para uma emigração inevitável são factos problemáticos que conformam o contexto de trabalho das práticas emergentes. No entanto, não parece faltar trabalho para fazer quando se observa a realidade urbana e territorial portuguesa. Em 2012, Tiago Mota Saraiva levantava liminarmente as questões pertinentes: “Mas está a arquitetura condenada? Estão os arquitetos que trabalham em Portugal condenados à emigração ou ao desemprego caso permaneçam? São os arquitetos necessários durante uma crise financeira?”.3 O seu apelo a uma

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mudança de natureza ideológica na intervenção dos arquitetos na sociedade tem marcado os debates disciplinares, embora com a presença no tabuleiro de diferentes posicionamentos. A verdade é que, independentemente das posições, os novos ateliers têm inevitavelmente de se confrontar com as questões colocadas. Por outro lado, a nova direção do J-A de André Tavares e Diogo Seixas Lopes tem procurado responder positivamente aos desafios profissionais e disciplinares que a arquitetura portuguesa enfrenta hoje. Como referem: “A arquitetura está refém da sua suposta inutilidade. À falta de investimento na construção, as competências próprias da disciplina são tidas como dispensáveis. A urgência do quotidiano mobiliza recursos noutras direções, e os arquitetos são instados a mudar de profissão ou emigrar. Esta lógica é equívoca: a arquitetura não é apenas um saber instrumental à mercê das flutuações do mercado; a arquitetura é uma forma de conhecimento útil nas mais variadas circunstâncias.”4 Defendem por isso uma abertura do campo disciplinar, bem como um recentramento na atividade do projeto e na capacidade deste se adaptar e responder, de modo mais preciso e eficaz, à atual condição de crise e escassez do país. Todas estas posições recentes procuram afirmar a necessidade premente de abrir um espaço de atuação profissional para os arquitetos portugueses. De forma mais ou menos radical, explorando novos campos de atuação ou reorientando as práticas convencionais, o desafio passa por uma nova consideração do papel da arquitetura na sociedade que não condene os arquitetos portugueses à resignação por afastamento, à submissão por neutralidade ou à emigração por necessidade. Apesar destas posições recentes não se concentrarem na problemática das práticas mais jovens, pode-se dizer que não deixará de ser nestas que esse desafio terá a sua verdadeira prova de fogo. Para os ateliers emergentes, construir um percurso e viabilizar um atelier são hoje tarefas hercúleas, que exigem uma motivação e perseverança extraordinárias. Nunca o ponto de partida profissional foi tão agreste como agora. Não só as condições profissionais e produtivas se degradaram significativamente, como se pressente o enfraquecimento das relações de solidariedade intergeracional. Mas a verdade é que nunca tivemos uma nova “geração” tão qualificada e preparada, mesmo que formada para um contexto disciplinar que a realidade já não reflete. Essa difícil adaptação às condições reais do exercício da profissão exige-lhe por isso um esforço de redefinição da sua atividade tendo em conta uma leitura crítica das condições existentes. Essa redefinição tem levado as práticas mais jovens a explorarem novos territórios disciplinares, tanto por necessidade como por vontade, levando a uma pluralização das abordagens. Diga-se que para isso tem contribuído a experiência adquirida fora do país, seja no período formativo, em programas académicos de intercâmbio, seja no início da atividade profissional em escritórios internacionais. Não sendo nova no princípio mas na escala, esta abertura ao mundo da arquitetura portuguesa tem trazido outras influências e contaminações à arquitetura portuguesa, bem como demonstrado a sólida formação de base dos jovens arquitetos nacionais.

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Apresentamos neste número 4 práticas arquitetónicas portuguesas emergentes. Formados em diferentes Faculdades de Arquitetura, mas todos com experiências internacionais, estes ateliers formam um conjunto


Aqui reside o dilema da arquitetura portuguesa perante o processo de internacionalização. Acentuar a unidade correndo o risco de se tornar uma ficção ou explorar a sua diversidade enfraquecendo o seu reconhecimento. Entre a “cultura” e a “marca”, entre a “autoria e o “produto, trata-se da negociação problemática entre a arquitetura portuguesa e o mercado internacional. Negociação essa que não só terá que ter em conta as valências da arquitetura portuguesa como as exigências da encomenda numa economia globalizada

Siza, Edifício Industrial, China, 2014 • Byrne + Sousa, Casa nel’Parco, Itália, 2012 • Promontorio, Lubango Center, Angola, 2013 • OTO, Sede Parque Natural, Cabo Verde, 2013

uma vontade de construir uma prática estruturada em Portugal. Formado em 2005 na Universidade Autónoma de Lisboa, Miguel Marcelino desenvolve uma prática em continuidade assumida com a cultura arquitetónica portuguesa. Os estágios com Herzog & de Meuron e Bonnel & Gil permitiramlhe expandir a sua abordagem, centrada num interesse pela lógica tipológica e pela materialidade da obra, configuradas através de uma ordem conceptual estruturante. O primeiro prémio em concursos públicos e a possibilidade de desenhar algumas casas permitem-lhe ter já um conjunto significativo de obras concluídas ou em construção, situação pouco comum nos ateliers emergentes. Mas o fascínio pela obra e construção determina, no atual contexto de crise, a manutenção do atelier como uma microestrutura: “O real é a minha grande paixão. Para mim a realidade ultrapassa sempre a ficção. Um dos lados bons em ter uma estrutura pequena é que um ou dois projetos por ano são provavelmente suficientes para me manter sustentável, concentrando-me em trabalho onde me sinto útil e motivado.”5 O atelier FORA, composto por João Fagulha, Raquel Oliveira e João Ruivo, constitui-se em 2009 entre Portugal e a Grécia. Os seus elementos formaramse no Instituto Superior Técnico e na Faculdade de Arquitetura do Porto e estagiaram na Holanda, entre outros, no OMA e West 8, algo que se evidencia nas suas estratégias projetuais. Com uma abordagem diagramática ao programa, os seus projetos manifestam uma atenção à informalidade do uso quotidiano, através do jogo entre espaços comunicantes e luminosos. A afirmação do atelier faz-se através de uma série de projetos premiados em concursos públicos, que infelizmente não se concretizaram, adiando o teste da obra construída. Perante as adversidades, o atelier FORA depende de uma grande flexibilidade na gestão do atelier: “Neste momento, operamos com uma estrutura mínima, que ampliamos quando necessário através de colaborações com outros arquitetos ou profissionais de outras áreas. Esta capacidade da estrutura ampliar ou diminuir, de acordo com o momento, é fundamental para a sobrevivência do escritório.”6 O fala atelier foi fundado no Porto por Filipe Magalhães e Ana Luísa Soares. Formados na Faculdade de Arquitetura do Porto, estagiaram na Suíça com Harry Gugger e no Japão com Toyo Ito, Sou Fujimoto e SANAA, tendo ainda em Tóquio a oportunidade de habitar e investigar a Torre Nakagin de Kurokawa. As influências das culturas disciplinares do eixo Porto-Basel-Tóquio desenvolveram-se depois numa

abordagem singular de forte pendor disciplinar, algures entre a dinâmica metabolista e a racionalidade suíça. Com uma vontade indómita, exploram uma arquitetura conceptual de desenho rigoroso e abertura programática. Com grande eficácia, a ideia de cada projeto transmite-se através de representações surpreendentes que captam o universo conceptual e espacial desejado. Apesar das pequenas construções já realizadas, aguarda-se ainda a concretização de um projeto à altura da sua abordagem “dogmática”: “Queremos construir uma oratória que nos guie e consiga, ela própria, ser geradora de ideias. Queremos criar um método autossuficiente, um sistema que discipline a nossa produção. O que fazemos hoje, mais do que um conjunto de projetos, é procurar uma forma de estar na disciplina.”7 O trabalho de Pedro Clarke tem-se centrado num campo próximo das áreas sociais e humanitárias. Após formação na Faculdade de Arquitetura do Porto e estágio em Inglaterra, trabalhou com ONGs em diversos contextos internacionais, com especial incidência no Lesoto. Com algumas realizações relevantes, Pedro Clarke vai no entanto resistindo ao anátema de uma definição fechada ou panfletária de arquitetura social. Apesar desse distanciamento, o A+, formado com Camille Bonneau, revela um interesse genuíno pelos processos participativos de projeto e construção em arquitetura. Acreditam que só estes conseguirão responder aos problemas mais prementes das populações mais desfavorecidas: “Fala-se em falta de encomenda nos dias que correm, mas quando olhamos para as coisas desta forma há muito trabalho que precisa de ser feito, talvez não seja o trabalho mais glamoroso, mas é um trabalho onde a arquitetura pode mais uma vez mostrar que é relevante para a sociedade.”8 n 1 Luís Santiago Baptista. «Qual a responsabilidade da novíssima geração da arquitectura portuguesa?», in arq/a #98/99 - geração z #3, 2011, p. 8. 2 Ver entrevistas com Tiago Mota Saraiva e Pedro Campos Costa neste número da arqa. 3 Tiago Mota Saraiva. «The Place for Architecture in Portugal», in Domus, 2012. http:// www.domusweb.it/en/op-ed/2012/10/25/the-place-for-architecture-in-portugal.html 4 André Tavares; Diogo Seixas Lopes. «Combate e Táctica», in JA - Jornal Arquitectos #247, Ordem dos Arquitectos, 2013. 5 Ver entrevista Miguel Marcelino neste número da arqa. 6 Ver entrevista FORA neste número da arqa. 7 Ver entrevista fala neste número da arqa. 8 Ver entrevista Pedro Clarke/A+ neste número da arqa.

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ENTREVISTA

arquitetura

Portugal Internacional Perspetivas Críticas

Luís Santiago Baptista Paula Melâneo

João Santa-Rita

Presidente Ordem dos Arquitetos, Arquiteto Santa-Rita Arquitectos, Professor UAL arqa: Tendo em conta a sua atividade, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? JSR: Enquanto presidente da Ordem dos Arquitetos e tendo em conta a atual situação da área do projeto e da construção em Portugal, a internacionalização dos serviços de arquitetura é uma das questões que elegemos como prioritárias para este mandato. Queremos inverter este ciclo e, para isso, é fundamental que os serviços de arquitetura, bem como as engenharias sejam considerados na agenda diplomática e económica do país, em analogia com o que já sucede no caso das indústrias do sector da construção e dos materiais de construção. A internacionalização está ligada a instituições como a nossa, enquanto a exportação está ligada às empresas. Nesse sentido a Ordem internacionaliza a arquitetura, de forma a tornar possível que os arquitetos exportem os seus serviços. Os arquitetos portugueses necessitam tanto de alargar o seu quadro de intervenção como de ampliar o território físico em que intervêm. Constituímos uma comissão de trabalho que está a analisar as possibilidades de criar um programa que permita internacionalizar a qualidade da arquitetura e das suas realizações em Portugal. Essa qualidade espelha-se aliás lá fora através dos inúmeros prémios e distinções de arquitetos portugueses bem como dos dois Pritzker. É preciso refletir no esforço e na quantidade de realizações de anos, de décadas, dos mais diversos programas tanto públicos como privados, que levaram ao reconhecimento das obras dos arquitetos portugueses dentro e fora de Portugal, para que a possibilidade de uma outra intervenção possa alargar-se ao maior número de arquitetos possível. Em primeiro lugar, a OA considera fundamental a divulgação estratégica dos serviços de arquitetura portugueses com vista à participação dos profissionais em diferentes ações, desde o projeto à formação, à participação na programação e realização de obras e, consequentemente, à exportação dos seus serviços. A OA deve encontrar os procedimentos e mecanismos para que os seus membros possam divulgar os seus serviços para, de seguida, os poderem comercializar. É preciso definir uma política de internacionalização da arquitetura, que nos parece não passar exatamente pelos mesmos caminhos que quaisquer outros produtos económicos de grande consumo. Entendo que a internacionalização é uma oportunidade para definir novas formas de exercício da profissão e ainda de introduzir novas dinâmicas de trabalho, sobretudo mais “associativo”, de estabelecimento de parcerias, o que permitirá um novo e mais forte posicionamento como classe. arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as qualidades e potenciais desse processo de internacionalização? JSR: Os problemas e limitações são os da conjuntura económica. Uma limitação é, sem dúvida, a pequena dimensão dos ateliers e das empresas

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de arquitetura porque impossibilita estar, ao mesmo tempo, dentro e fora do País e coloca em evidência as dificuldades que temos para trabalhar em parcerias com outros colegas ou com outros agentes da construção. Se não conseguimos unir esforços e distribuir os riscos dificilmente conseguiremos resultados. Sugerir um novo modo de trabalhar pode ser o grande suporte que a Ordem dá, aproveitando a internacionalização para fomentar um modo de atuação mais centrado na conjugação de esforços, com reflexo também no âmbito nacional. Os resultados da divulgação de uma área como a da arquitetura no estrangeiro demoram tempo e exigem constância e investimentos importantes; estes fatores têm dificultado certamente a internacionalização da profissão. Como referido os arquitetos portugueses contribuíram nas últimas décadas de um modo decisivo para a modernização do país, bem como para a qualificação do seu ambiente construído. Estas realizações ilustram um Portugal moderno e de elevada qualidade ambiental. A isso não será estranho o fluxo de turistas que Portugal tem acolhido, nas suas paisagens naturais mas, recentemente e crescentemente, nas cidades. Não é uma determinada arquitetura portuguesa que desejamos promover, mas uma forma de projetar portuguesa sustentada por um método que interpreta e inclui as diversas realidades físicas e sociais como dados de projeto, adaptando-se, assim, às diferentes realidades onde participa. Esta “maneira internacional” de entender o projeto tem permitido a diversos colegas, coordenar projetos no estrangeiro e obter excelentes resultados em concursos internacionais.     A Arquitetura é um recurso que internacionalizamos desde os Descobrimentos mas nos nossos dias, de globalização, precisamos de saber tirar lições e posicionar-nos face a outros países cuja estratégia de internacionalização já mereceu mais reflexão e organização. Isso é notório em sites de organizações profissionais bem estruturados, como é o caso do Colégio de Arquitetos de Espanha, e políticas nacionais de arquitetura voltadas precisamente para a internacionalização. Para a OA é importante perceber que os arquitetos pretendem efetivamente internacionalizar os seus serviços, como o pretendem fazer, a que tipo de financiamentos podem recorrer, que parcerias estão dispostos a desenvolver, sem para tanto se verem forçados a emigrar. arqa: No seu entender, que áreas, ações, estratégias devem ser desenvolvidas e que entidades e instituições devem estar envolvidas? JSR: De forma muito resumida, a nossa estratégia passa pela identificação das áreas em que faça sentido a sua exportação; de uma pesquisa sobre as oportunidades existentes, pela consolidação de uma rede de contactos no estrangeiro; pela definição de mecanismos destinados ao agrupamento de profissionais e pela procura de financiamentos. A OA considera fundamental a sua integração em missões governamentais e institucionais de diplomacia comercial, em conjunto com organizações congéneres, possibilitando a sua participação em encontros e certames internacionais, enquadrados pelas redes da diplomacia nacional. A OA poderá mediar e facilitar os contactos entre os seus membros e as instituições ligadas à exportação da arquitetura


Mas mais importante parece ser que continuemos a contribuir para o debate internacional da cultura arquitetónica, mais que redundar numa dedicação exclusiva a temas paroquiais e locais. E para que essa participação alargada exista é necessário que haja mais movimentação dos arquitetos portugueses no cenário internacional, quer em contextos académicos, quer em contextos propriamente culturais. Pedro Gadanho

Pedro Gadanho

Arquiteto, Curador Arquitetura e Design MoMA

© 2012 Museum of Modern Art, N.Y. Photo by John Wronn

arqa: Tendo em conta a sua atividade, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? PG: Muito embora as embaixadas de carácter económico se apresentem como desejáveis, parece-me que a internacionalização da arquitetura portuguesa se continuará a fazer sentir primordialmente na frente cultural. É neste campo, mais que no campo da oferta de serviços técnicos de valor global, que temos uma tradição e um reconhecimento, e é neste campo que, esperançosamente, continuaremos a ter solicitações. Claro que é importante e lógico que os arquitetos portugueses possam ambicionar conquistar novos mercados na arena internacional – e talvez, instrumentalmente, isso possa ser visto como o objetivo último da própria promoção cultural além-fronteiras. Também é relevante que os arquitetos portugueses, especialmente os mais jovens, continuem a ir a jogo nos concursos internacionais, principalmente quando esses escasseiam no contexto nacional. Mas mais importante parece ser que continuemos a contribuir para o debate internacional da cultura arquitetónica, mais que redundar numa dedicação exclusiva a temas paroquiais e locais. E para que essa participação alargada exista é necessário que haja mais movimentação dos arquitetos portugueses no cenário internacional, quer em contextos académicos, quer em contextos propriamente culturais. Isto pode partir de impulsos individuais, mas pode também ser estimulado por estratégias nacionais – como de resto aconteceu com os programas de

Exposição 9+1 Ways of Being Political, MoMA, Set. 2012-Jun. 2013

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estágios da DGArtes, por exemplo. Se esta lógica de internacionalização pode corresponder a um reconhecimento deferido do talento português, o que não deve nem pode acontecer é a pura e simples exportação de mão-de-obra qualificada e barata que, como aconteceu nos últimos anos, continua a ser baseada na reputação e capacidade reconhecida dos arquitetos portugueses. arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as qualidades e potenciais desse processo de internacionalização? PG: Num momento de regime de austeridade como o que vivemos – e que, devemos sublinhar, se pode prolongar indefinidamente – o problema parece ser essencialmente económico. Quando, neste contexto, o investimento da cultura é a primeira a sofrer e é também a área que sofre de forma mais desproporcionada, é óbvio que se corre o risco de esvaziar o campo que tem justamente mais potencial de retorno. A internacionalização, ou melhor dito, o reconhecimento internacional, já existe, devido a fatores históricos (o património criativo acumulado) ou exógenos (como o impulso oferecido por programas académicos como o Erasmus ou o Leonardo). Porém, o seu potencial para gerar retorno – a ilusória internacionalização profissional de que tanto se fala – pode esfumar-se no horizonte se não se continuar a investir no aprofundamento da dimensão cultural. Dito isto, tenho um crença limitada no potencial dos ditos mercados emergentes de língua portuguesa para os arquitetos portugueses que querem ser empreendedores num contexto internacional, quer porque esses mercados são extremamente difíceis e penalizadores (Angola, p. ex.), quer porque são extremamente protecionistas (Brasil, p.ex.). Esta focalização na língua como elemento conector pode ser um tiro no pé, porque está justamente enredada em tensões pós-coloniais que não vão ser resolvidas de um momento para o outro. Por isso costumo dizer que é provavelmente mais fácil para um arquiteto português singrar na Colômbia do que no Brasil.   arqa: No seu entender, que áreas, ações e estratégias devem ser desenvolvidas e que entidades e instituições devem estar envolvidas? PG: A Ordem dos Arquitetos pode certamente abrir caminho com protocolos internacionais que visam novos mercados, aliando o estabelecimento desses protocolos a embaixadas culturais que permitem revelar o talento português onde esse possa ser menos conhecido. As instituições do Estado podem continuar a suportar e promover a participação em iniciativas culturais, diversificando a presença em Bienais (Oslo, Chicago, Istanbul, etc.) e outros eventos transnacionais, bem como continuar a programas de estágios em contextos internacionais, especialmente em destinos menos esperados, assim abrindo caminho ao lento trabalho individual que passa por construir relações pessoais, conhecimento de um novo meio, etc. E, antes ainda de tudo isso, as universidades, com apoio de fundações ou empresas, deviam acolher e promover todas as oportunidades de intercâmbio internacional – participações em simpósios, trocas de alunos, estágios académicos – em vez de os dificultarem, como frequentemente fazem. n


Não me parece que um País que não consegue arrumar a própria casa consegue fazer algo fora desta. Tudo o que tem acontecido a nível de internacionalização tem sido a nível individual. Empresa a empresa. As exportações são o espelho de isso mesmo e nada têm de politico. É a necessidade que faz mover as exportações. Carlos Castanheira

Carlos Castanheira

Arquiteto, Co-autor com Álvaro Siza em projetos internacionais arqa: Tendo em conta a sua atividade, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? CC: Uma necessidade não só de hoje mas de há muito. Razão porque logo após a conclusão do curso – e até mesmo durante o curso de arquitetura – me internacionalizei partindo e vivendo na Holanda. Desde então estou sempre internacionalizado. O nosso País tem um historial – assim como a Europa – de emigração e é demasiado pequeno para o trabalho assim como para as ideias. Mas as gentes são grandes de coração, alma e de cabeça. Quando, lá fora, me falam de algum trabalhador que se encontra por lá a trabalhar é sempre com uma grande admiração pela qualidade de trabalho, profissionalismo, mas sobretudo pelo carácter humano e modesto – mas simplório – que o/nos caracteriza. Apesar das constantes e persistentes fracas governações sabemos dar a educação e ambição – entenda–se no bom sentido – que nos leva a termos este estranho coração de emigrantes que querem, sempre, voltar. Não é certamente pelo clima, pelo dito jardim à beira mar plantado, pelo cozido ou pela Família. É por tudo que faz um todo. Na arquitetura também é assim. Porque é que estamos sempre em viajem e voltamos sempre para cá trabalhar? Porque cá, ainda, temos os melhores que connosco trabalham há já algum tempo e com eles fazemos equipa. E fazer uma equipa ganhadora não é assim de pé para a mão. Com os mais novos já é um pouco diferente. Começaram com o programa Erasmus, o programa Leonardo, a internet, o low cost, o low budget, e o País deles é o Mundo e a realidade quantas vezes virtual. Vão, alguns, para não voltar. Quem sabe? Depende das voltas que o mundo dará. Pena que não possam, diretamente, valorizar quem os educou. Irão crescer ao aprender por viajam e assim se enriquecem. Alguns voltarão. Outros não. Ainda ontem ouvi o Álvaro Siza falar de um tal Andrade que, apesar de ter tentado por várias vezes, nunca teve sucesso nem foi querido em Portugal. Na Itália e depois na Suíça teve grande sucesso. E também há o Korrodi que, jovem, teve que sair da Suíça e por Leiria ficou, influenciando muitos e transformando a cidade. O povo diz; Há males que vêm por bem. O que estamos agora a viver não passa de um bem… que vem por mal. arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as qualidades e potenciais desse processo de internacionalização? CC: As limitações são as que nós quisermos. É claro que emigrar é sempre um ato menos confortável, mas é de otimismo na procura do conforto. Seja este económico, cultural ou até político. Na situação que a Europa está é claro que qualquer intenção ao ato de internacionalização, recente ou futura, não será fácil. É um problema de oferta e procura. Mas há mercados que ainda são possíveis de explorar. Talvez menos confortáveis, menos perto. É uma questão de escolha. Outras de necessidade. Por vezes de vontade.

Museu Mimesis, Coreia do Sul, 2006-09 (com Álvaro Siza e Jun Sung Kim)

The Siza House, Chang Hua, Taiwan, 2010-14 (com Álvaro Siza)

arqa: No seu entender, que áreas, ações e estratégias devem ser desenvolvidas e que entidades e instituições devem estar envolvidas? CC: Não me parece que um País que não consegue arrumar a própria casa consegue fazer algo fora desta. Tudo o que tem acontecido a nível de internacionalização tem sido a nível individual. Empresa a empresa. As exportações são o espelho de isso mesmo e nada têm de politico. É a necessidade que faz mover as exportações. Quando há convites para acompanhar uma viajem de um ministro, cada um terá que pagar do seu bolso as despesa e logo, pagar os IVAs os impostos e possivelmente nem será reconhecida essa despesa, do modo como o sistema fiscal está montado. É um passeio caro. Acredito que temos que ser nós, cada um por si, a romper fronteiras. É um trabalho longo e árduo. Sempre foi assim e sempre será. n

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Paulo Martins Barata Arquiteto Promontorio

arqa: Tendo em conta a atividade do Promontorio, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? PMB: A atividade do Promontorio é hoje 92% internacional e não temos qualquer expectativa de inversão deste contexto a médio prazo. A reconversão ao mercado exterior foi um processo extremamente doloroso e inédito desde a fundação; em 2010 passamos de uma equipa de 80 para 30 colaboradores. Hoje já somos 65, e, apesar das dificuldades, as perspetivas são animadoras. No entanto, sentimos que neste mundo pós-Lemman, algo mudou também para a arquitetura. A capacidade instalada de projetistas no mundo ocidental, não parou de aumentar, apesar da queda generalizada da construção. O fenómeno do aumento das licenciaturas, não foi um exclusivo português, mas um pouco por todo o lado. A erosão dos honorários é universal. A globalização ofereceu então esta abundância de arquitetos de excelência na Europa e países desenvolvidos, aos quais se soma uma concorrência desleal de centros de produção de língua inglesa do sul da Ásia (Índia, Singapura, Indonésia, Malásia e Filipinas), muitas vezes promovida pelos próprios ocidentais. Infelizmente, este é o status quo, e há que compreende-lo. Paradoxalmente, e na inexplicável esquizofrenia global, surgem notícias da capacidade destas estruturas asiáticas estar, em muitos casos, esgotada, e assiste-se a uma retoma sôfrega da procura de arquitetos qualificados no médio oriente e noutras regiões emergentes. Em tudo semelhante ao que se passou na década de 2000. E embora isto não seja internacionalização, mas imigração, arriscaria dizer que há procura suficiente para absorver a maioria dos bons arquitetos portugueses que se disponham a partir. Ou seja, existem inúmeras oportunidades para arquitetos, mas não necessariamente para a “arquitetura portuguesa”. Porquê? arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as potenciais vantagens desse processo de internacionalização? PMB: Como sabem, sou bastante cético em relação ao discurso de sucesso da internacionalização da arquitetura portuguesa. Os prémios, as menções, as publicações, as conferências, os “likes”, estão num plano; os projetos, os contratos, a faturação, as obras, estão noutro. Portugal parece ser cada vez mais exímio no primeiro. E cria-se um enorme equívoco, porque numa sociedade dominada pela imagem, é possível ter grande visibilidade, sem que esse imaginário de sucesso se converta em encomenda e obra internacional efetiva. Em parte porque os canais da crítica e os da encomenda, raramente se tocam, exceto nos mercados norte-europeus, que, por sua vez, são muito protecionistas e estão altamente saturados. Em artigos que tenho escrito, e que reconheço, polémicos, tenho apontado os caminhos e as propostas em que acredito, não por uma convicção abstrata, mas como resultado da experiência do Promontorio no terreno. Os ateliês portugueses têm que se unir, ganhar escala e resistência, partilhar experiências e criar sinergias. Gosto da ideia de partilhar conhecimento;

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intencionalmente, disponibilizamos sempre aos nossos colegas minutas de contractos, memórias, listagens, estacionários, metodologias, programas, enfim..., tudo o que possa facilitar e agilizar as suas práticas.O Filipe Balestra dizia-me noutro dia sobre os ateliês na Suécia, onde vive, que estão cada vez maiores como resultado das sucessivas fusões. Não penso, porém, que seja necessário tornarmo-nos megacorporações, até porque não temos, sequer, a capacidade organizacional para o fazer. Mas há uma escala mínima, de 30 ou 40 pessoas, sem as quais não há sequer massa crítica ou capacidade financeira para operar num mercado estrangeiro. Também vamos chegando à conclusão que são necessários um mínimo de 3 a 5 anos de presença constante para consolidar um mercado. Agora mesmo estamos a avaliar o mercado de Miami, Florida, nos EUA, onde está a haver um “boom” e onde parece haver procura para projetos de

Concurso Kempinski Rafal Tower, Riade, Arábia Saudita, 2014 (em construção)


José Mateus

Arquiteto ARX Portugal; Presidente Trienal de Arquitetura de Lisboa arqa: Tendo em conta a sua atividade, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? JM: A internacionalização, a diversos níveis já é um facto. Em termos de ensino, inúmeros estudantes portugueses circulam no estrangeiro, a par de muitos arquitetos portugueses, que integram quadros de professores em cursos noutros países. Ainda nesta esfera, são muitos os casos de arquitetos portugueses que proferem regularmente palestras fora de Portugal. Mas, também em termos de prémios, refiram-se eles a obra construída ou no âmbito de concursos para seleção de projetistas, é frequente ver-se arquitetos portugueses serem premiados. É também regular a participação de alguns arquitetos portugueses em publicações como exposições fora de portas. Mas, se há um número elevado de jovens arquitetos integrados em ateliers no estrangeiro, é essencialmente no campo da captação ou contratação de projetos que escasseia a “internacionalização“ dos arquitetos portugueses. Ou seja, embora exista a ideia de que o meio da arquitetura do nosso país é altamente exigente e competente, os arquitetos portugueses enfrentam grandes dificuldades ao tentarem conseguir contratos fora do país. Neste aspeto, os anos recentes demonstraram que, paradoxalmente, há ainda um longo caminho a percorrer.

arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as qualidades e potenciais desse processo de internacionalização? JM: A via concursal é quase sempre o primeiro recurso no caminho da internacionalização. Mas, tanto devido à crise da economia mundial, como ao excesso de arquitetos na União Europeia, é normal sermos confrontados com mais de 500 concorrentes, o que torna quase impossível chegar-se ao primeiro lugar. Além de alguns prémios essencialmente morais, as notícias de vencedores portugueses são raríssimas o que, dado o elevado número de participações de que há conhecimento, somos levados a concluir que há anualmente perdas colossais de energia, tempo e dinheiro que constituem um prejuízo gigantesco tanto para os arquitetos envolvidos como para o próprio país. A pouca visibilidade exterior de Portugal, que resulta simultaneamente da sua pequena dimensão geográfica associada a políticas débeis de promoção do país, é um primeiro problema a levar em conta. Por isso, não surpreende que de forma geral entre potenciais clientes, prevalece a imagem do país que é inexistente, difusa ou menos positiva (se não negativa) que a do meio da arquitetura, que é claramente um caso excecional. A somar a este facto, os ateliers portugueses, além de serem normalmente muito pequenos, demonstram pouca apetência para se associarem, não conseguindo resolver o problema de falta de escala para atender a obras maiores atualmente em marcha em países do Magrebe, Médio Oriente ou Ásia. Um dado importante é que a entrada em novos mercados implica sempre investimentos avultados e continuados, de forma a consolidar nos interlocutores uma ideia

Concurso para extensão do Museu Serlachius, Finlândia, 2010: Imagem de computador da cobertura

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Projeto em Como - Ticosa, Itália, 2008: Maquete geral de implantação


Roberto Cremascoli

arqa: Tendo em conta a atividade do Promontorio, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as potenciais vantagens desse processo de internacionalização? arqa: No seu entender, que áreas e estratégias devem ser desenvolvidas e que entidades ou instituições devem estar envolvidas? RC: Portugal in-deep, o fecho do círculo: Dois homens, provavelmente durante a pausa do almoço do trabalho, olham o mar, o oceano Atlântico, “é confortável observar o horizonte e saber que a Europa inteira está atrás de nós”, disse-me o fotógrafo italiano Giovanni Chiaramonte, instantes depois de ter imortalizado a imagem de 1996 no Porto, que é contracapa de Abitare il mondo EUROPE (2004). A Europa como hoje a conhecemos, da União Europeia, é o produto do esforço conjunto dos países fundadores e dos outros que se foram juntando a eles, ao longo de mais de cinquenta anos, verificando-se o período de paz mais longo da história deste continente. Nesta comunidade cabem 500 milhões de europeus que desde o Tratado de Roma de 1957 partilham experiências e objetivos, tornando o espaço comum cada vez mais saudável e de qualidade - “Internacional” in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: que é comum ou respeita a duas ou mais nações. Inter-national é palavra ideada pelo filósofo e jurista J.Bentham em 1780, “que acontece entre várias nações”, exprime as trocas, os relacionamentos, o interesse comum, o que é desenvolvido também noutros âmbitos e países, o que ultrapassa os confins, lugar onde afluem vários saberes nacionais, juntando-se. Lugar de experimentação e troca de experiência para um mundo melhor. Portugal ultrapassa verdadeiramente os confins, espreitando pela nova Europa, após o 25 de Abril de 1974. A Europa também olha com curiosidade a nova nação livre, finalmente. É um novo Portugal que emerge das profundezas, que quer afirmar-se e esquecer o tempo da amargura. Durante as comemorações dos quarenta anos do programa S.A.A.L no passado 10 de maio, numa jornada de mesas redondas e conferências com todos, ou quase todos, os protagonistas daquela operação presentes no auditório de Serralves (não percebo a ausência nas mesas de representantes dos moradores, de Adalberto Dias e de Domingos Tavares, entre outros), Álvaro Siza afirma que a partir dos anos setenta a Europa começa a interessar-se por Portugal, nas experiências portuguesas no campo social, e não só. É um momento irrepetível, declara, de instabilidade política e social: a Primavera de Praga, as revoluções dos estudantes em Paris, o fim dos regimes totalitários em Portugal e Espanha, os grupos terroristas na Irlanda do Norte, os “anos de chumbo” em Itália com as Brigadas Vermelhas. Fala sobre acesas reuniões à noite, semanais, com as cooperativas de moradores, e declara também: “Sem conflito não há participação, há

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© cortesia Arquivo Giovanni Chiaramonte

Arquiteto Cremascoli, Okumura, Rodrigues Arqos; Curador Porto Poetic e Álvaro Siza – Inside the Human Being

Giovanni Chiaramonte, Porto 1996

manipulação!”…“Quando também a palavra participação não era ainda palavra maldita”. Aquela participação deu origem à internacionalização da arquitetura portuguesa, feita pelas revistas italianas Casabella, Lotus International, mas também pela L’Architecture d’Aujourd’Hui que, em 1976, publica um número sobre a arquitetura portuguesa assinalando a passagem do segundo ano sobre o final da ditadura. Nessa publicação têm uma participação importante Oriol Bohigas - que irá publicar em 1976 “Álvaro Siza Vieira” in Arquitecturas Bis - e Vittorio Gregotti, que tinham trabalhado nos Pequenos Congressos em Espanha com Álvaro Siza. Álvaro Siza e Vittorio Gregotti conhecem-se no final dos anos sessenta nos congressos e nasce entre os dois uma amizade profunda que perdura até hoje. Gregotti em 1972 publica na revista Controspazio o célebre texto “Architetture recenti di Álvaro Siza” e organiza, em 1979, na Galeria de Arte Contemporânea de Milão, a exposição monográfica “Álvaro Siza, architetto 1954-79”, juntamente com Pierluigi Nicolin, que já em 1976 tinha publicado na Lotus International algumas obras de Siza. A consagração internacional da arquitetura portuguesa devese principalmente ao papel fundamental de divulgação da Casabela de Gregotti e da Lotus International de Nicolin, nos anos oitenta e noventa. Álvaro Siza, Professione poetica (Quaderni di Lotus), em 1986, é a


Nuno Sampaio

Arquiteto NS Arquitetos; Presidente Estratégia Urbana; Diretor Executivo Casa da Arquitectura; Vice-Presidente Trienal Arquitetura Lisboa arqa: Tendo em conta a sua atividade, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? NS: Parto da minha experiência pessoal, e de muitos colegas que iniciaram o processo de internacionalização, para dar algumas opiniões sobre esta matéria. Enquanto projetista a relação profissional com o exterior começou no Brasil, em 2007, no Rio de Janeiro para iniciar um grande projeto com o Oscar Niemeyer que acabou por não ter desenvolvimento. Mas iniciou-se uma relação afetiva com o Brasil que teve seguimento, anos mais tarde, em 2009, com Projeto Expositivo do Novo Museu dos Coches, em Lisboa, que realizei com Paulo Mendes da Rocha. Em 2010 tomei a decisão procurar oportunidades no mercado brasileiro. Ainda não se sentia a crise da forma como existe atualmente. Existiam oportunidades de desenvolvimento de projetos, os técnicos portugueses tinham conhecimento adquirido nos últimos anos em diversas áreas e programas, e a arquitetura portuguesa era, na sua generalidade, bem apreciada. Essa experiência era apreciada. O mérito era reconhecido! Pela mesma altura um pequeno conjunto de profissionais, todos engenheiros, teve a mesma iniciativa. Tive oportunidade de partilhar a mesma posição no mesmo momento com essas empresas. A partilha de experiências e informações foi muito importante para a resolução de diversas dificuldades naturais quando se chega a um país onde não se conhece: a constituição de uma empresa, a abertura de uma conta, o arrendamento de um espaço de trabalho, o visto de trabalho, etc, etc, várias questões importantes para quem começa uma atividade. Com a chegada da crise mais profunda nasceu a necessidade urgente de ter resultados, o pior inimigo da internacionalização - a urgência. Na arquitetura e em todo setor da construção o trabalho em Portugal reduziu abruptamente, as estruturas ficaram sem trabalho, e a maioria

Escola Itapecerica, São Paulo, Brasil

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do trabalho feito teve dificuldade para ser recebido. A atenção voltouse para Portugal, para questões de ordem prática e comezinha para a sobrevivência das estruturas em Portugal. Descapitalizados os escritórios tem agora novas e acrescidas dificuldades. A Internacionalização deixou de ser um processo de crescimento e ampliação para ser uma necessidade de sobrevivência. A Arquitetura Portuguesa deixou de ter, nos poucos casos que se conhecia, um processo de “exportação” de serviços para ser um processo de emigração individual de profissionais que tinham ficado desempregados ou sem trabalho com o fim de muitos escritórios em Portugal. A ideia que era possível ir a outros mercados buscar trabalho para aguentar as estruturas em Portugal rapidamente caiu por terra. Atualmente para internacionalizar é necessário estar no mercado de destino, ter lá escritório, criar uma empresa, ter uma estrutura por pequena que seja e ter gente lá permanentemente. E este é um dos primeiros problemas, porque os escritórios já não tem capacidade para abrir uma segunda estrutura, porque estão com dificuldades de manter a estrutura principal em Portugal. Outra realidade que está a afetar muito os escritórios é a perda do know how em consequência da saída dos profissionais. Ao desagregarem-se equipas perde-se conhecimento, porque os escritórios são as pessoas, não os computadores nem as suas instalações. A internacionalização é lenta e custosa. É necessário investimento, tanto material como humano, e tempo para obter resultados. Tempo que os Portugueses hoje não tem disponível. Os arquitetos despertaram tarde e a internacionalização tornou-se uma necessidade. Muitos dos escritórios já não tem meio para enfrentar a internacionalização. Talvez imigrem, ou fechem em Portugal e deslocalizem as empresas para começarem noutro território, mas isso não é internacionalização. O desafio está em manter os escritórios cá e ampliar a atividade a outros locais, mesmo tendo de criar empresas no exterior para poder lá trabalhar. arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as qualidades e potenciais desse processo de internacionalização? NS: O primeiro problema é o setor não estar organizado. É como no futebol, temos jogadores reconhecidos, mas não temos equipa. Não temos, infelizmente, tradição em fazer parcerias, quer nacionais como internacionais. Não vemos 3 ou 4 escritórios portugueses associarem-se para um objetivo internacional, repartir custos, juntar sinergias. E o mesmo se passa internacionalmente… e é pena, porque sendo a arquitetura portuguesa apreciada pelos seus pares levantam-se oportunidades se acrescentarmos mais-valias a escritórios que já estão implementados nos países de destino, que conhecem os canais, que tem as empresas já formadas, arquitetos que podem subscrever legalmente os projetos nesses países. Estas parcerias entre arquitetos portugueses que tem experiência em vários programas e colegas de outros países podem significar oportunidades de trabalho com muita poupança de esforço. Algumas parcerias com escritórios da Suíça, um mercado que paga bem, estão a ser bem-sucedidas, apesar de serem ainda poucos exemplos. Uma limitação grande para a construção de uma estratégia coletiva


Com a chegada da crise mais profunda nasceu a necessidade urgente de ter resultados, o pior inimigo da internacionalização - a urgência. Na arquitetura e em todo setor da construção o trabalho em Portugal reduziu abruptamente, as estruturas ficaram sem trabalho, e a maioria do trabalho feito teve dificuldade para ser recebido. A atenção voltou-se para Portugal, para questões de ordem prática e comezinha para a sobrevivência das estruturas em Portugal. Fernando Guerra

Fernando Guerra

Arquiteto; Fotógrafo FG+SG arqa: Tendo em conta a sua atividade, como entende a internacionalização da arquitetura portuguesa? FG: Em termos de arquitetura, uma necessidade e inevitabilidade. Talvez se tenha acordado tarde, para aquilo que hoje pode ser a pura sobrevivência de muitos ateliers portugueses. No trabalho que faço de fotografia, encarei a internacionalização como uma consequência natural do que fazia e de como comunicava o que se fazia em Portugal há 15 anos. Essa internacionalização, sem ter sido planeada, aconteceu pela visibilidade que tive nos anos recentes de ouro de arquitetura portuguesa. É uma consequência do que fiz e que hoje aproveito. Felizmente mantenho uma agenda com muito trabalho em Portugal e se ao inicio recebia com Fotografia de Fernando Guerra FG+SG para o projeto de Isay Weinfeld, Edifício 360º, São Paulo, Brasil

curiosidade as primeiras encomendas para fora, hoje esses pedidos, fazem parte do que somos e do que fazemos na FG+SG. Viajar e fotografar, seja onde for, é a minha rotina, intercalada com breves regressos a casa para fazer mais imagens e voltar a sair, uns dias depois. arqa: No contexto atual, quais são os problemas e limitações bem como as qualidades e potenciais desse processo de internacionalização? FG: O principal entrave na internacionalização acontece ainda dentro de Portugal e não necessariamente por fatores externos. Ainda se gerem muitos ateliers como boutiques de bairro e muito pouco como empresas. A rua onde vivemos ou cidade nunca deve ser o nosso limite, seja para fazer uma obra ou uma fotografia. Se ficamos à espera que o telefone toque, de certeza que não vai tocar e nesse caso, a nossa rua é de facto o nosso universo. Os nossos arquitetos são na maioria, péssimos empresários. Tenho trabalhado com algumas exceções. Criou-se uma atitude nas ultimas décadas, resultado de alguma abundância de trabalho aliado ao conveniente que é trabalhar perto de casa- para quê ir para hotéis desconfortareis ou estar em países onde não se percebe uma palavra se temos tudo ao nosso lado? No entanto, a necessidade de sobrevivência tem mudado o panorama e aquilo que não se sabe, aprende-se rapidamente quando o objetivo é pura e simplesmente não fechar as portas de um escritório. arqa: No seu entender, que áreas, ações e estratégias devem ser desenvolvidas e que entidades e instituições devem estar envolvidas? FG: Se não nos conhecem, não nos dão trabalho. Nos últimos 6 meses, fotografei obras de escritórios portugueses na Austrália, China, Taiwan, Moscovo, Qatar, Abu Dabi, Angola, Cabo Verde, Marrocos e Suíça. Todos, têm uma historia diferentes de como chegaram e fizeram obra num pais que muitas vezes lhes foi completamente inóspito para começar trabalhar, não há regra. No entanto todos têm uma coisa em comum, além da vontade obvia de sobreviver: Não dependeram, nem dependem de qualquer entidade portuguesa. Não se deve esperar facilidades deste ou de um próximo governo. A arquitetura serve os políticos numa altura de abundância e de resto, quando não existe dinheiro, não só a arquitetura não é prioridade como se tenta esquecer que existe. Aquilo que precisamos são que os outros países nos reconheçam e curiosamente não espero nada do nosso. Fatores de facto importantes e que nos facilitam a vida lá fora, são sempre uma iniciativa de outros países, que mudam de repente autorizações ou condições para vistos de residência ou burocracias alfandegárias e nunca por influencia de entidades portuguesas. Não se podem esperar facilidades num visto para Angola, se é a própria embaixada de Portugal em Angola que faz qualquer vinda de um cidadão Angolano um verdadeiro martírio processual. Cada vez que saio de Portugal, tenho de exportar o meu equipamento fotográfico na alfândega em Lisboa e pagar essa exportação. Material comprado em Portugal e com as respetivas faturas. Cada vez que deixo Portugal, o governo agradece-me o facto de ir trabalhar fora, fazendo-me pagar por isso. Facilidade não é exatamente o que espero das entidades portuguesas, na verdade só quero que me deixem fotografar em paz. n

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Joana Sá Lima

Fundadora e Editora Revista Conditions; Professora AHO Oslo; Sócia Comte Bureau; Fundadora da ONG NudGeo arqa: Tendo em conta a sua actividade, como entende a internacionalização da arquitectura portuguesa? JSL: A internacionalização da arquitetura Portuguesa não é um fenómeno contemporâneo nem algo novo. É do conhecimento geral que Portugal foi o pioneiro da Globalização e a Portugal são atribuídas diversas inovações que provocaram grandes transformações a nível mundial. Portugal inovou em quase todos os campos do conhecimento, desde a Ciência Náutica, à Botânica, Geografia, Astronomia, Matemática, e claro à Arquitetura. Portugal construiu uma herança Histórica inigualável. E nós somos os herdeiros dos genes destes grandes homens e mulheres que estabeleceram o império Português. Para nos lembrarmos disso, entre outras coisas, temos a presença da arquitetura Portuguesa nos cinco continentes. Perdemos o império mas ficou o know-how, a capacidade de inovar e, graças a isso, hoje a arquitetura e os arquitetos Portugueses são reconhecidos e premiados internacionalmente. Estamos em todo o lado, trabalhamos nos melhores escritórios, educamos nas melhores universidades, trabalhamos nos mais consagrados museus e instituições. Somos todos orgulhosos embaixadores da “marca” Portugal. É evidente que nem tudo são rosas, existem fatores adversos à internacionalização, um deles, é a tão debatida deslocação de “cérebros” para outros

Revista Conditions #13 End of the Beginning, 2014

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países. No entanto, historicamente Portugal teve os maiores picos de inovação, nos períodos em que fomos forçados a descobrir outros territórios e explorar outros mercados. Pessoalmente não tenho uma visão miserabilista nem depressiva que alguns colegas alimentam sobre este assunto. Hoje o mundo é a nossa “tela”.A abertura da economia mundial aproximou as relações internacionais, entre países e organizações, proporcionou a possibilidade das empresas e indivíduos operarem em novos mercados, entrarem em novos segmentos e alargarem a sua oferta de produtos e serviços nesses mesmos mercados. O importante é alargar o nosso conhecimento, ter a capacidade de adaptação e assim continuar a criar novos conceitos, produtos e serviços diferenciadores e vendáveis em diferentes países. arqa: No contexto actual, quais são os problemas e limitações bem como as qualidades e potenciais desse processo de internacionalização? JSL: Há duas formas de ver a internacionalização. Uma é a emigração de profissionais para outros países, outra é a internacionalização dos serviços e das empresas portuguesas. Em ambos os casos, na minha opinião, existe falta de preparação na formação dos arquitetos portugueses. As universidades portuguesas têm muita qualidade, mas estão pouco equipadas de programas que incentivem a formação profissional e preparação para trabalhar num contexto internacional. São poucos os professores estrangeiros, poucos os projetos desenvolvidos além-fronteiras e restritos os incentivos para intercâmbios entre universidades. Existe ainda um défice na preparação dos arquitetos na área do empreendedorismo, marketing e management. As empresas


PROJETOS

China

Álvaro Siza + Carlos Castanheira Edifício sobre a água – Shihlien Chemical, Huai’an City, Jiangsu

Arquitetura: Álvaro Siza com Carlos Castanheira Colaboração: (Portugal) CC&CB - Arquitectos Lda. –Pedro Carvalho, Luís Reis (Responsáveis na 1ª fase - preliminar); Luís Reis (Responsável na 2ª fase execução); Diana Vasconcelos, Susana Oliveira, Elisabete Queirós, Orlando Sousa, Rita Ferreira, João Figueiredo, Caitriona, Anand Sonecha. Modelação 3D e renderização: Francesco Sechi, João Figueiredo, Pedro Afonso, José Soares Consultor de Integração Criativa: Xue Xue Institute, Xue Xue Foundation Gestão de Projeto e supervisão da construção: Stephen Wang & Richard Wang with Chiou-Hui Lin Arquitetura e Engenharia local: United Architects & Engineers Co., Ltd Engenharia: Shanghai Qingya Mechanical and Electrical Engineering Co. (AVAC, eletricidade, águas e esgotos, telecomunicações e instalação de segurança); RFR Shanghai (revisão estrutural); Geberit China (drenagem) Construção: Zhejiang Urban Construction Group Consultores: HDP – Paulo Fidalgo (estrutura); GET – Raul Bessa (mecânica); GPIC – Alexandre Martins (iluminação) Cliente: Por-Shih Lin, Chairman, Shihlien Chemical Industrial Jiangsu Co. Área: 14.000 m2 (total construída) Datas: 2010–2014 Texto: Carlos Castanheira Fotografia: Fernando Guerra I FG+SG I ultimasreportagens.com

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PROJETOS

Itália

Gonçalo Byrne + Pedro Sousa Conjunto Habitacional Casa nel’Parco, Jesolo

Arquitetura: Gonçalo Byrne, Pedro Sousa Colaboração: Bárbara Silva, José Laranjeira. Alicia Lazzaroni, Ana Abrantes, Carla Lousada, Davide Duarte,Doriana Reino, Francesco Loschi, Giuseppe Pagano, João Bicho, João Vaz, Laura Hernandez, Leonor Raposo, Manuela Novo, Mónica Mendonça, Nuno Birne, Nuno Fideles, Rita Conde, Tiago Coelho, Sandra Furtado; Sandro Burigana, Martina Murador Arquiteto Associado: Andrea Menegotto Paisagismo: João Nunes - PROAP Cliente: Cogetrev Programa: Habitação, Comércio e Parque Público Valor: 90.000.000,00 euros Área: 65.500 m2 Data: 2004/2012 Texto: Gonçalo Byrne, Pedro Sousa Fotografia: FG+SG | Fernando Guerra - www.ultimasreportagens.com

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PROJETOS

Angola

Promontorio

Edifício Residencial Lubango Centre

Arquitetura: Promontorio Cliente: Gestimovel Programa: Residential (unidades de T1 a T4), comércio, escritórios Área: (bruta) 2.650m2 (habitação); 2.200m2 (escritórios); 950m2 (comércio) Orçamento estimado: 5,5M euros Data: 2010 – 2013 Texto: Promontorio Fotografia: FG+SG | Fernando Guerra - www.ultimasreportagens.com

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PROJETOS

Espanha

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Eduardo Souto de Moura Casa em Llรกbia, Girona


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PROJETOS

Grécia

Camilo Rebelo e Susana Martins Casa Ktima, Antíparos

Arquitetura: Camilo Rebelo e Susana Martins Colaboração: Cristina Chicau, Maria Sofia Santos, Miguel Marques, Patrício Guedes Arquiteto Local: Dionysis Zacharias Architects Arquitetura Paisagista: Thomas Doxiadis Estrutura: Christos Kaklamanis Eletricidade e Mecânica: George Cavoulacos Cliente: Oliaros SA Data: 2008-2013 Texto: Camilo Rebelo e Susana Martins Fotografia: Cláudio Reis

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PROJETOS

Cabo Verde

OTO

Sede do Parque Natural da Ilha do Fogo

Arquitetura: André Castro Santos, Miguel Ribeiro de Carvalho, Nuno Teixeira Martins, Ricardo Barbosa Vicente Especialidades: Amado Alves, Maria João Rodrigues + João Parente | Prosirtec | Matriz Engenharia Construtor: Armando Cunha Cliente: Ministério da Agricultura Financiamento: KFW | General coordination, GOPA Área: 3.200m2 Data: 2013 Texto: OTO arquitectos Fotografia: FG+SG | Fernando Guerra - www.ultimasreportagens.com

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PROJETOS

China

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Embaixada + Standardarchitecture Cais fluvial do NiangOu, Tibete


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PROJETOS

México

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João Caeiro – b_RootStudio Centro Desportivo de Oaxaca


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Qual o preço da Internacionalização?

depoimento

arquitetura

Carlos Machado

Identidade e internacionalização da arquitetura portuguesa

e

Moura | carlosmachadoemoura@gmail.com

1. Apesar de não fazer sentido defender uma “identidade portuguesa” da nossa arquitetura nem a “universalidade” da mesma ou de qualquer outro nacionalismo arquitetónico, alguma tradição ou denominador comum leva-nos, mais frequentemente do que tantos outros, a falar em termos coletivos. A crescente mobilidade de jovens arquitetos, o alargamento do campo disciplinar e a intensa circulação de imagens e ideias mudaram o exercício da profissão face a uma década atrás e complicaram a tarefa de mapear influências ou de encontrar um ADN geracional, seja ele x, y ou z. Porém, apesar de “as coisas estarem a mudar”1 e isso parecer verdade com a emergência e o mediatismo de uma certa performance architecture2 – entre a deriva digital e a aventura comunitarista – a grande maioria da produção feita no nosso país continua a ser vista do exterior como de reduzida pluralidade e eminentemente portoguesa, para utilizar a já gasta expressão de Manuel Mendes. Uma arquitetura apoiada no diálogo com o contexto, no rigor austero, branca, moderna e consolidada em torno a métodos de trabalho conservadores. A influência dos mestres da arquitetura portuguesa sente-se na forma como trabalha grande parte dos gabinetes no nosso país. Vivemos uma certa obsessão pela “autoria” e estruturamo-nos em escritórios de pequenas dimensões: 99% das empresas tinha já em 2010, antes do pior momento da crise, menos de 10 colaboradores3. E esta influência é reforçada pelo seu reconhecimento internacional, com Pritzkers e outras laudatórias, que alguns ingenuamente consideram uma vantagem para toda uma classe e não apenas para os premiados, como se de um cartão de visita coletivo se tratasse. É uma visão um pouco romântica, do arquiteto como artista, que através do desenho confere ordem, emoção e sentido aos lugares onde intervém. Mas, como escrevia Adolf Loos em 1910, «Só uma parte muito pequena da arquitetura corresponde ao domínio da arte: o monumento funerário e o comemorativo.» Não admirará por isso que tanta da arquitetura portuguesa tenha a sobriedade solene de um túmulo. Não o digo para criticar a “arquitetura penitencial do Movimento Moderno”, esquecendo deliberadamente o facto de essa inquietação já ter encontrado resposta há 40 anos atrás com o Pós-modernismo, mas por considerar que a contenção rigorosa que se reclamou para a arquitetura portuguesa nos últimos anos – e que tanto sucesso lhe deu – advém de algo mais do que apenas a «situação periférica, o desfasamento temporal e o atraso tecnológico»4 com que nos habituámos a caracterizar a produção nacional. É certo que, forçados e habituados a trabalhar com parcos recursos, fez-se dessa gestão da escassez – desse fazer muito com pouco – uma imagem de marca. Porém, por algum motivo, depois do cariz político dos anos 70 e de todo o debate ideológico das décadas seguintes, como diz Pedro Gadanho, «sob o efeito da influência de Siza, a arquitetura portuguesa foi sendo lentamente despida da sua tradição crioula, simultaneamente chã e apropriada ao caos, para passar a assemelhar-se ao produto enxuto e cinzento de um país protestante do Norte da Europa.» Mais do que siziana, tornou-se sisuda.

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Julgo que reside nesse passo uma vontade deliberada de afirmação cultural, uma elevação a “coisas do espírito e da inteligência”5. Uma vontade de emocionar pela ausência, de evocar um mundo fora do seu tempo, para além da razão, de criar lugares da memória. Procuramse os “silêncios eloquentes”, a grande discrição – por mais que a tentemos vender como “a nova visibilidade”6 –, a “singularidade das coisas evidentes”. Tudo isto tem algo de fúnebre. Voltemos a Loos: «Se encontrarmos um montículo no bosque, de 6 pés de largura e 3 de comprimento, amontoado de forma piramidal, ficamos sérios e, no nosso interior, algo nos dirá: Aqui está alguém enterrado. Isto é arquitetura.» Há poucos meses atrás, num dia de névoa, fui visitar o «Monumento aos mártires das Fosse Ardeatine», na periferia sul de Roma: um mausoléu desenhado entre 1946 e 49 por Giuseppe Perugini e Mario Fiorentino numa mina de pozolana onde, em 1944, os SS alemães assassinaram um grupo de 335 civis e fizeram explodir uma mina para ocultar o massacre. É uma enorme caixa de betão armado assente em seis pequenos apoios que a deixam a levitar sobre um relvado, como símbolo de opressão e ocultação. Debaixo desta enorme pedra tumular, escavado no terreno, um espaço de penumbra acolhe as três centenas de jazigos. É um lugar de uma beleza invulgar, de enorme força expressiva e capacidade evocativa, é arte e é arquitetura. Mesmo para Loos. Mas o mais curioso é que, apesar do seu interior ter um dramatismo de corte romano, acentuado pelo revestimento em pietra sperone, reconheço em todo o edifício uma atmosfera “muito familiar”. Trata-se de uma imagem – entre a peça que levita e o terreno escavado – amplamente utilizada por tantos autores de todo o país em programas diferentes: uma “arquitetura-paisagem” que faz parte do conjunto de formas, e fórmulas, que compõem o léxico do período heroico do Movimento Moderno que os arquitetos portugueses não se cansam de revisitar. Dir-me-ão que é o resultado de uma adesão a uma determinada cultura arquitetónica ou, para voltar a usar as palavras de Gadanho, da «dificuldade de copiar Siza, ou a facilidade de copiar Souto Moura». No entanto agrada-me pensar que não é só isso, que um sentido inquieto e comunicante supera a mera questão estilística e o pragmatismo da forma elegante. E, para além disso, há um lado artesanal em toda esta produção. Com efeito, a atenção pelo rigor e pelo ‘desenho’, leva a que os projetos de execução tenham, em regra geral, um nível de pormenorização muito elevado e que o controlo em obra seja muito superior à praxis corrente no resto da Europa. Apesar da manifesta falta de recursos e das tarifas insultuosamente baixas, continua a manter-se uma atitude “mais suíça” do que a dos suíços, para acertar estereotomias, pormenorizar alhetas, evitar peças de remate e esconder toda a parafernália que os equipamentos e regulamentos obrigam. Passou-se da velha máxima de Nathan Rogers, “da colher à cidade” – ou “do puxador ao território” para dizê-lo com Távora – para a vontade de projetar uma cidade com o detalhe de uma colher. Luta-se, por vezes desesperadamente, por uma depuração a registar em imagens imaculadas de um «Mundo perfeito»7, como se a vida não fosse tão impura quanto é. Este caminho em contraste com o contexto de hoje é exatamente


Pedro Abreu

e

Dulce Loução | FAUTL

Monumento alle Fosse Ardeatine, Roma (1944-1949), Arquitetura: Nello Aprile, Mario Fiorentino, Giuseppe Perugini Cliente: Ministero della Difesa, Associazione Nazionale Famiglie Italiane Martiri

o exemplo dos mestres, que o Pritzker consagrou em «estrelas por antonímia», nas palavras de Nuno Grande. Como nos diz Gregotti sobre Siza, «não é suficiente o seu grande talento de arquiteto para justificar o seu sucesso internacional num mundo cultural que é precisamente o seu oposto, que crê numa hierarquia de valores muito diferentes (...). Mas talvez seja exatamente esta oposição a razão do seu sucesso: representar algo de totalmente diferente, nevroticamente isolado, (...) duramente

tímido, (...) poeticamente interessado na economia da expressão, no ser minimalista não por uma posição formal mas por orgulho da pobreza (...) tão alheio aos processos de produção arquitetónica destes anos que buscam a filiação nos globalismos dos mercados e das técnicas (...)».8 Se a escolha deste percurso em contraciclo, que alguns fizeram com grande sucesso, constitui um ato de um heroísmo romântico, imaginálo replicado para toda uma classe é delirante e de um romantismo

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CRÍTICA

arquitetura

Possibilidades para uma arquitetura ágil

As exposições de Pedro Gadanho como curador de Arquitetura e Design no MoMA

Marta Jecu

© 2012 Museum of Modern Art, N.Y. Photo by John Wronn

Uma questão premente que assombra a prática arquitetónica e o urbanismo é como podem as alternativas ao planeamento urbano oficial melhorar as condições de vida nas megacidades, enfrentando um défice legal, as questões jurídicas pouco claras, a falta de financiamento, a discriminação e as comunidades desfavorecidas? Práticas de arte, design, e arquitetura foram recentemente chamadas para trabalhar in situ em vários projetos de menor ou maior dimensão, com a principal estratégia de encontrar soluções a partir de dentro. Não estando associado à permanência, esta arquitetura ágil destina-se a avaliar e refletir sobre as circunstâncias históricas e a envolver as diferentes comunidades no planeamento da cidade. Pedro Gadanho, atualmente curador do Departamento de Arquitetura e Design no MoMA, tem sido, na sua carreira multifacetada, um defensor da “arquitetura performance”. No seu blog Shrapnel Contemporary (http://shrapnelcontemporary.wordpress.com), recorda ter começado a projetar uma exposição sobre este tema em 2007. Materializar-se-ia em 2012 na Guimarães Capital da Cultura em Portugal. Caracterizada por uma temporalidade específica, em que as soluções rápidas refletem a rápida mudança da cidade, a “arquitetura performance” deve ser,  para Pedro Gadanho, algo coletivo, radical e transitório. Ele próprio arquiteto (note-se, por exemplo, os seus espaços vividamente coloridos, subtis e táteis das casas unifamiliares, no Porto e em Torres Vedras), entende a performatividade na arquitetura como “uma resposta crítica aos resultados da mobilidade crescente do recente contexto neoliberal: (...) táticas para «ativação» do potencial local para a mudança social.”1 Uneven Growth: Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, no MoMA, atualmente em preparação e a inaugurar em 22 de novembro deste ano, reflete em termos práticos as preocupações de seu curador Pedro Gadanho. Este projeto, concebido em múltiplos níveis (workshops, conferências, uma publicação e uma exposição) parece representar um duplo desafio: primeiro, como uma abordagem

9 + 1 Ways of Being Political: 50 Years of Political Stances in Architecture and Urban Design, 12 setembro 2012 a 9 junho 2013

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curatorial de investigação, que começou a ser adotado apenas recentemente no MoMA e; em segundo lugar, como uma oportunidade para testar o agenciamento concreto de uma prática de arquitetura performativa e incisiva. Noutro artigo, publicado ainda mais cedo, em 2006,2 Pedro Gadanho relaciona o conceito “arquitetura performance” com outro - “arquitetura open source” - que reflete sobre a capacidade da arquitetura de se metamorfosear, adaptando-se às necessidades imediatas num contexto quotidiano. Uma antecipação disso poderia ser, por exemplo, a “arquitetura vernacular” contemporânea, que desenvolve respostas às tradições e necessidades do contexto cultural e local onde se insere. Mas, na visão de Pedro Gadanho, essas tentativas anteriores tenderam a ser codificadas pela disciplina e acabaram por ser absorvidas como obras de autor autónomas. Portanto, manifesta-se  uma nova necessidade de acompanhar, comissariar e teorizar a “arquitetura open source como um fenómeno que, vindo das margens do sistema estabelecido da arquitetura contemporânea, está profundamente envolvido com diversas culturas presentes nas cidades e metrópoles dos nossos dias (... ) e está aberto à apropriação por práticas urbanas de artistas e designers.”3 Arquiteto, autor, professor, blogger, Pedro Gadanho foi nomeado curador no MoMA em 2011, onde gentilmente me recebeu para uma pequena conversa sobre os seus próximos projetos no Departamento de Arquitetura e Design: uma exposição com as recentes aquisições do MoMA (Conceptions of Space: Recent Acquisitions in Contemporary Architecture, 4 Julho – 19 Outubro 2014), seguida de Uneven Growth: Tactical Urbanisms for Expanding Megacities (22 Novembro 2014 - 10 Maio 2015). Desenvolvendo duas abordagens para a curadoria de arquitetura, uma baseada na recolha e preservação de “evidências” da cultura material, outra assente num processo orientado, vincadamente experimental, as duas exposições ilustram - cada uma à sua maneira - este objetivo. Conceptions of Space é inteiramente constituída pelas aquisições dos dois últimos anos do Departamento de Arquitetura e Design do MoMA, reunindo 20 projetos, alguns adquiridos, outros oferecidos por doadores ou arquitetos. No entanto, a mostra das aquisições recentes é convertida numa exposição de reflexão sobre a coleção como uma prática curatorial, não somente de objetos finitos, mas também de material interpretativo e materialização efémera dessas arquiteturas, chamadas a construir a disciplina (por exemplo, a abordagem performativa de Jimenez Lai e o vídeo Romance of System do escritório de arquitetura MOS). “Estão a revelar não só o sentido do que estamos a colecionar, em termos de arquitetura contemporânea, mas também as mudanças na forma como o estamos a fazer. Como curador independente, estava a definir temas ou a tentar analisar fenómenos emergentes. Estava a trabalhar para produzir novas perspetivas ou a juntar trabalhos que não tinham ainda sido relacionados. Quando se trabalha com uma coleção, pode terse a mesma abordagem, isto é, pensar sobre determinados temas, mas têm que se usar os trabalhos que já existem na coleção - uma abordagem que é também muito interessante e desafiadora. Quando fiz 9 + 1 Ways


© 2013 The Museum of Modern Art, New York. Photograph: Thomas Griesel

Instalação Cut ‘n’ Paste: From Architectural Assemblage to Collage City, 10 julho a 1 dezembro 2013

of Being Political: 50 Years of Political Stances in Architecture and Urban Design (12 Setembro 2012 – 9 Junho 2013), estava a escolher projetos que poderiam ilustrar ou demonstrar como o trabalho do arquiteto é político. Foi muito interessante navegar dos anos 60 até hoje e revelar como essas obras podem ser lidas como políticas. Olhando para o grupo de arquitetura britânico Archigram, por exemplo, entendi o seu projeto Walking City como uma declaração política, não apenas como uma posição radical de vanguarda. Com Cut ‘n’ Paste: From Architectural Assemblage to Collage City (10 Julho 2013 – 5 Janeiro 2014), a segunda exposição que fiz no MoMA, abordei novamente uma questão mais disciplinar, a ideia de collage e o modo como essa metodologia artística, tipicamente vanguardista, é apropriada pelos arquitetos e como produziu novas visões e reflexões na história da arquitetura.”4 Ultimamente adquiriram projetos de Herzog & de Meuron, Álvaro Siza, Kengo Kuma, Pezo von Ellrichshausen, Ryue Nishizawa, Ensamble Studio e dos escritórios sediados em Nova Iorque, SO-IL e MOS Architects. Em diversos suportes, revelam a posição transformadora do sujeito em relação ao espaço e as suas raízes no pensamento

crítico das últimas décadas. Nesse sentido, a arquitetura não está limitada à habitação, mas funciona como uma abordagem conceptual de uma série mais ampla de práticas. Pedro Gadanho fala sobre uma peça recém-adquirida de Marjetica Potr, uma artista visual formado em arquitetura, a viver em Ljubljana, Eslovénia, cuja perceção da arquitetura, através de uma lente sociológica (conectada à vida da cidade) é no seu entender paradigmática desse sentido.5 A arquitetura como resultado não só da prática, da experiência e da matéria, mas também como uma dimensão ficcional tem sido um ‘tema” constante no trabalho anterior de Pedro Gadanho. O ingrediente imaginário da arquitetura (a resposta intelectual, sensível e projetiva de seus utilizadores) é o que supera e alarga os limites do possível, mas, no entanto, é parte constitutiva da arquitetura, parte da sua essência. Num evento associado da Trienal de Arquitetura, Pedro Gadanho coorganizou em 2010 a primeira Conferência Internacional sobre Arquitetura e Ficção: Once Upon a Place - Haunted Hwouses and Imaginary Cities (2010), que explorou uma dimensão visionária e utópica da arquitetura. Uma das suas plataformas ‘Does form Follow

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ITINERÂNCIAS

exposição

Bienal de Veneza 2014 A arquitetura em ambiente bem temperado

Nuno Grande

Não. O título deste artigo não se reporta a esses amenos dias de Junho em que um amplo “circo” mundial de curadores e de críticos aportou a Veneza para assistir à inauguração da sua Bienal de Arquitetura, este ano sob o tema Fundamentals proposto pelo comissário-geral convidado: Rem Koolhaas. Não. O texto também não deseja descrever o quente escândalo político que, nesses mesmos dias, ditou a prisão do Presidente da Câmara da Serenissima, envolvido num caso de desvio de fundos públicos destinados às obras de defesa da Lagoa de Veneza - afinal, não será a própria corrupção um dos grandes “fundamentos” da História da Arquitetura? Não. Este artigo trata de uma coisa bem mais prosaica: desse rappel à l’ordre que Koolhaas propõe neste evento, contrariando, assumidamente, as tentativas de “reunião” pró-corporativa ou de “festa” pseudossociológica que marcaram os certames anteriores – lembram-se dos temas People meet in Architecture proposto por Kazuyo Sejima em 2010, ou Common Ground lançado por David Chipperfield em 2012? Segundo Koolhaas, o

©Francesco Galli, cortesia la Biennale di Venezia

evento de 2014 debruça-se “fundamentalmente” sobre a arquitetura, e não tanto sobre os arquitetos ou sobre as pessoas que nela se cruzam. Na verdade, a Bienal de 2014 lança-se numa “escavação” crítica do passado recente da arquitetura, partindo das realidades tecnológicas e formais que herdamos da História – para o bem e para o mal –, e com as quais decompomos e recompomos, quotidianamente, o nosso presente. Trata-se, portanto, de uma visão “tecno-pop”, simultaneamente analítica e sintética, que, em nosso entender, coloca Koolhaas na esteira do pensamento de Reyner Banham – historiador iconoclasta do Movimento Moderno, e crítico influente no ideário do Independent Group, na década de 1950, no debate que acompanha o Team X, ao longo da década de 1960, e na definição de uma “segunda era maquinista” marcada, entre outros, pelo hedonismo tecnológico do coletivo Archigram ou do Movimento Megaestruturalista, pelo menos até finais da década de 1970. Fundamentals é, em larga medida, um evento de raiz “banhamiana”, o qual, sob os mais diversos suportes, nos apresenta a arquitetura em ambiente bem temperado – sim, o nosso título evoca The Architecture of the Well-tempered Environment, livro editado por Banham em 1969. Vejamos como se cruzam essas perspetivas, atravessando as três secções da Bienal de Veneza de 2014: Elements of Architecture, Monditalia e Absorbing Modernity.

Pavilhão Central, exposição “Elements of Architecture” - instalação dedicada ao tema da “varanda” (balcony) e “fachada” (façade)

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Elements of Architecture Presente no Pavilhão Central dos Giardini de Veneza, atribuído à exposição-statment do comissário-geral, esta mostra centra-se sobre 15 elementos vulgarmente utilizados no projecto e na edificação de diferentes programas arquitectónicos: chão, parede, tecto, telhado, porta, janela, fachada, varanda, corredor, lareira, casa-de-banho, escadaria, escada rolante, elevador e rampa. Dispostos ao longo de uma sucessão de salas ou de stands – como numa vulgar exposição de materiais de construção -, muitos desses elementos perdem aqui a sua prosaica condição funcional para se transformarem em ready-mades pop, a la Marcel Duchamp. Koolhaas retoma assim o seu longo fascínio pelo simbolismo cultural e civilizacional dos artefactos tecnológicos, já antes revelado no seu livro de 1978, Delirious New York, a propósito da verticalização de Manhattan fomentada pelo elevador. É ele mesmo que o reafirma no texto do Catálogo da Bienal: Estes elementos arquitetónicos, aparentemente mundanos, quando submetidos a uma análise quase microscópica, revelam-se, afinal, conjuntos instáveis, nos quais confluem orientações culturais, simbolismos perdidos, aperfeiçoamentos tecnológicos e mutações geradas por intensos fluxos globais, por considerações climáticas, por distintos conceitos de conforto, por desejos míticos, por cálculos políticos, por regulamentos burocráticos, por economias neoliberais, por novos regimes digitais, e depois algures, no meio desse tumulto, pelas ideias do arquiteto. Os 15 artefactos arquitetónicos aproximam-se, na verdade, do conceito de gadgets ou de gizmos com os quais Reyner Banham imaginava o “futuro imediato” em 1965, um futuro no qual a tecnologia se colocaria


©Francesco Galli, cortesia la Biennale di Venezia

Pavilhão Central, exposição “Elements of Architecture” instalação da entrada, dedicada ao teto falso e condutas de ar condicionado sob o restaurado fresco de Galileo Chini, de 1909, que preenche a cúpula central do pavilhão

finalmente ao serviço do conforto e do hedonismo social. Logo à entrada da exposição, Koolhaas instala o seu great gizmo: sob o restaurado fresco de Galileo Chini, de 1909, que preenche a cúpula central do pavilhão, o comissário cobre-nos com um monumental teto falso, suspenso e seccionado, expondo uma visceral parafernália de condutas de ar-condicionado. Trata-se de uma aproximação crua e laboratorial ao processo de assemblagem arquitectónica – bem ao jeito da análise diagramática de The Architecture of the Well-tempered Environment –, e que nos revela esse espaço oculto pela “roupagem” de qualquer vulgar edifício de escritórios. Esse “submundo”, por de trás das paredes e dos tetos falsos que dominam a arquitetura contemporânea, vem interessando Koolhaas desde as suas primeiras efabulações sobre a cidade genérica e os seus “subprodutos” arquitetónicos. Nesse sentido, Elements of Architecture é, simultaneamente, uma ode ao que Koolhaas definiu como junkspace, e uma elegia à visão otimista de Banham sobre os gizmos tecnológicos.

Ao longo da restante exposição, o comissário disseca todos os outros gadgets, entre textos didáticos e irónicos, contando com a preciosa ajuda “laboratorial” dos seus mestrandos da Harvard Graduate School of Design, mas também de alguns amigos “cientistas” convidados. Destacam-se, brevemente, dois dos momentos mais consequentes deste percurso: o dedicado à fachada, no qual Koolhaas conta com os contributos de Alejandro Zaera-Polo (Princeton University) e Stephan Trüby (TU München); mas também o seu momento final, consagrado à varanda, produto de uma inteligente compilação e cenografia dirigidas por Tom Avermaete (TU Delft). Olhando a fachada como o mais “político” de todos os elementos arquitetónicos, essa análise percorre a sua função e o seu significado ao longo dos tempos: entre a “fachada-portante” massiva, na arquitetura clássica e medieval, e a sua desmaterialização contemporânea, após o advento da “fachada-cortina”, passando pelo debate sobre as suas proporções (para)métricas, entre o Renascimento e o Modernismo,

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dESIGN

ensaio

Bernardo Gaeiras e Paulo Sellmayer Entre estética e ética

Carla Carbone|carlacarbone@yahoo.com

Bernardo Gaeiras e Paulo Sellmayer são dois, de um grupo de vários designers portugueses, que já vão desenvolvendo o seu trabalho fora de portas. Não se tratando de uma dupla mas apenas de dois testemunhos, distintos, do que por lá fora se vai fazendo pelos de cá, resolveu-se por isso traçar, em breves linhas, o percurso dos dois, até ao momento. Desse modo propomos descrever o perfil, de atividade, dos dois designers, começando por, primeiro, delinear o percurso de Bernardo Gaeiras. Bernardo Gaeiras nasceu em Lisboa em 1982. Formou-se em Design Industrial na Faculdade de Arquitetura de Lisboa, na Academia Gerrit Rietveld e depois no Institute Sandberg em Amsterdão. Dos trabalhos mais significativos, ou eventos, em que participou destacam-se as exposições coletivas/Projetos realizados em 2009: ShoreditchStudios, em Londres; Modefabriek Rai,  W139, e By The Way Project Space em Amsterdão; Bauhaus Archiv / Museum für Gestaltung,  DMY International Design Festival e Bauhaus Archiv / Museum für Gestaltung em Berlim; as exposições realizadas em 2010: The Outpost, em Amesterdão; Dutch Design Week, Strijp-S – Eindhoven, na Holanda e Xuzhou Museum of Design em Xuzhou, na China; e em 2011 as participações na Bienal Experimenta Design 11, em Lisboa, e o  Centrum Beldeende Kunst, na Holanda. O designer também já reuniu um corpo significativo de prémios: o prémio Gold & Decoration, Stedelijk Museum CS em 2004;  uma menção honrosa no Amsterdam Fashion Institute Design competition em 2005; um projeto selecionado para a competição e produção Ronald Mcdonald’s Kinderstad, Amsterdam em 2006; uma menção honrosa no concurso “El Hema” Design competition Mediamatic Amsterdam em 2007;  e o prémio Best Booth Design for Sandberg Insitute, DMY International Design Fair, Berlin, em 2009. No seu currículo já figura uma residência de designer na Vista Alegre Atlantis em 2012. Vários artigos foram publicados, dedicados ao seu trabalho: no Stedelijk Museum Bulletin, Volume 17, Nr 6 em 2006; na Frame Magazine Nr 54, em 2007; na revista Items Magazine, Nr 3, em 2008; e na Elle Deco Lab, Nr 1 em 2012. Em Setembro de 2013 organizou o projeto Fab Lab Lisboa. Sediado  no Mercado do Forno do Tijolo, o projeto consistiu em criar um laboratório para “todos,  permitiu disponibilizar, a quem tivesse uma ideia de produto e a quisesse ver  materializada, um espaço/laboratório, de fabrico digital. Este laboratório permitia assim o fabrico de novos produtos, a baixo custo. Qualquer pessoa, podia assim, com poucos meios técnicos construir o que almejasse. A exemplo, e num espírito de partilha, se alguém quisesse construir um candeeiro, vestuário, entre outros objetos, encontrava ali “chão”, e as condições necessárias, para construir o protótipo: “Carimbos de borracha, placas de acrílico, mobiliário em cortiça, circuitos eletrónicos, robôs, moldes de plástico e cortiça, impressões a três dimensões (3D), vestuário ou até aplicações para uso gastronómico são  coisas que podem ali nascer, pela mão de todos os que a tal se proponham. E com a garantia de que essa mesma ideia poderá ser materializada, se tal for necessário, em qualquer outro fab lab do mundo – estes laboratórios funcionam em rede internacional, trocando ideias. Um

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projeto lisboeta enviado por email pode nascer a três dimensões na Nova Zelândia.” Este projeto contemplava, por isso, no espaço para o efeito, instrumentos variados como máquinas cortadoras laser, fresadoras de precisão, cortadoras de vinil, scanners 3D, tornos, impressoras 3D. Os portadores de ideias, e num espírito de faça-você-mesmo, viram assim, espaço para, com liberdade, desenvolver as suas ideias postas em prática. A cortiça e os materiais compósitos foram os materiais mais usados. Também era dado aos “designer” a possibilidade de trazerem e experimentarem os seus próprios materiais. Com uma linguagem atraente e sugestiva, explorando formas apelativas comuns e familiares aos consumidores de eletrodomésticos, Bernardo Gaeiras criou Creature Comforts (2011). Creature Conforts, como bem ilustra o designer, na sinopse publicada na sua página oficial, é um exercício realizado  com o objetivo de explorar o potencial da forma no seio das nossas “expectativas socioculturais”: “O processo é atípico tendo em conta as metodologias de design standard. O significado chega depois do volume material (significante). Por outras palavras: a função segue a forma. É um exercício muito útil permitindo-me imprimir questões fundamentais sobre estética do design, e  reconsiderar as origens das nossas necessidades”. Estes “objetos Creatures”, concebidos em alumínio, madeira de pinho, mdf, vidro, acrílico, poliestireno. poliuretano, cartão, pertencem à categoria de objetos que se reportam ao tema das “coisas atraentes trabalham melhor”, mencionadas por Donald A. Norman, no seu conhecido livro Emotional Design. Donald A. Norman deu o exemplo de dois investigadores japoneses, Masaaki Kurosu e Kaori Kashiomura, que, em 1990, estudaram diversos layouts de ATM. Todos os layouts de ATM eram idênticos na função, nas operações e no número de botões. Diferiam, no entanto, na aparência. Segundo Norman: “some had the buttons and screens arranged attractively, the others unattractively”. Os dois investigadores japoneses acabaram por descobrir que, afinal, os dispositivos mais atraentes eram mais fáceis de usar do que os dispositivos menos atraentes. Mais tarde a mesma experiencia foi feita num país culturalmente distinto do Japão. O Israelita Noam Tractinsky, também investigador, procurou repetir a experiência no seu próprio país. Traduzindo os layouts do japonês

Control, Bernardo Gaeiras, 2011


Vaso Spore, Paulo Sellmayer, 2010 materiais: vidro s贸dico soprado

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Artes

ensaio

A urgência de internacionalização A arte em tempos de crise

Sandra Vieira Jürgens|sandravieirajurgens@gmail.com

Em 1935, Almada Negreiros criou três números de uma revista a que chamou Sudoeste: Cadernos de Almada Negreiros1, na qual tentava situar Portugal no mapa da Europa. Passados muitos anos continuamos a repensar a nossa posição na cartografia europeia e até mundial, não já com o problema político da situação de isolamento e da direção da atividade cultural pela “Política de Espírito” do Estado Novo em que nos encontrávamos, mas com muitos aspetos por resolver em matéria de inserção e internacionalização dos artistas e da arte produzida em Portugal. E não estamos sozinhos nesse desejo/esforço de afirmação. Fazemos parte integrante de um conjunto de países periféricos da Europa do Sul, que procura afirmar-se no processo de descentralização do mundo em busca de novos posicionamentos. A crise financeira europeia e os cortes públicos, de uma inegável gravidade, são agora o grande impulsionador da internacionalização. O apelo da mobilidade e da flexibilidade laboral, a necessidade de exportar e de comercializar bens ou captar investimento fora, tornaram-se um lugar comum, em todos os setores da sociedade. Aliás, uma das prioridades de financiamento com fundos estruturais europeus para o período 2014-2020 é a internacionalização. Publicar em inglês, editar em inglês, escrever em inglês, divulgar e fazer circular o trabalho e investigação em plataformas internacionais tornou-se fundamental nos últimos anos, constituindo a principal solução apresentada para a cultura portuguesa. As galerias nacionais procuram resultados com colecionadores internacionais e as que

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podem participam nas feiras internacionais, que atraem cada vez mais clientes do mundo inteiro; as instituições com pouco orçamento também não fazem novas compras de obras de arte; e se os colecionadores têm preferido comprar peças de artistas consagrados e com exposições em importantes museus, os artistas mais novos, não obstante as obras que transacionam mais baratas, têm dificuldade em fazer vendas nacionais para dar continuidade à sua produção. A internacionalização e a perspetiva global, mais do que projetos culturais, surgem hoje como projetos económicos, tal como as cidades globais. A cultura não é encarada como um fim em si mesmo, prevalecendo claramente o favorecimento do valor monetário e comercial da arte e uma menor preocupação na defesa do valor cultural e artístico da produção de bens simbólicos, cujo investimento, tende a ser considerado supérfluo. A obsessão por internacionalizar é tão grande que não importa o que há para exportar ou para dar a conhecer, ou como é que o apoio à criação ocorre a nível nacional, como é que ela acontece, que estruturas existem e que recursos e meios têm os artistas para trabalhar ou exportar. Este clima de urgência de internacionalização também afeta o que é mostrado. As obras e as exposições mais experimentais são preteridas pelos projetos que se inserem no mainstream. De acordo com os mecanismos do capitalismo globalizado, trata-se de criar uma imagem que internacionalmente desperte maior interesse e seja mais comercial. A estratégia pensada para a exportação da cultura é a do marketing, associada à construção de uma marca identitária presa a valores


Francisco Tropa, “Scenario”, 2011. Pormenor de instalação apresentada no pavilhão português na 54º Bienal de Veneza, em 2011.

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DOSS ER

arquitectura portuguesa discrição é a nova visibilidade A Estratégia Urbana é uma entidade sem fins lucrativos que promove uma cultura de criatividade e inovação, através do desenvolvimento de estudos, conhecimentos técnicos e científicos, nas áreas da Arquitectura, Urbanismo e Design, incentivando a investigação, o debate universal, a interação e a cooperação entre instituições e profissionais de diferentes áreas multidisciplinares. A Estratégia Urbana é um catalisador capaz de congregar técnicos e entidades nacionais e estrangeiras para promover a criatividade, a competência e o profissionalismo ao serviço do bem público.

A Estrategia Urbana, no âmbito das suas atividades de apoio a internacionalização da arquitectura portuguesa e das celebrações do Ano De Portugal no Brasil, organizou e produziu um conjunto de iniciativas com o tema “Arquitetura Portuguesa - Discrição e a Nova Visibilidade”, como Alto Patrocínio de Sua Ex.a o Sr. Presidente da Republica e o apoio Institucional da Ordem dos Arquitectos e inscrita na X edição da Bienal de São Paulo. O projeto inclui uma exposição itinerante de referência, que abriu em Lisboa, tendo calendarizado um circuito por África, a conceção de um pavilhão temporário, projetado pelos arquitetos Álvaro Siza e Eduardo Souto Moura, e um conjunto de debates e conferencias realizados em São Paulo. Estas Iniciativas foram comissariada pelos arquitetos Nuno Sampaio, Miguel Judas, Luis T. Pereira, e Fernando Serapião, pretendendo dar a conhecer internacionalmente um conjunto diverso de trabalhos realizados nas ultimas 2 décadas por diversas gerações de arquitetos portugueses.

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selecção de projectos e exposição Arquitectura Portuguesa: Discrição é a Nova Visibilidade” reúne 99 obras, organizadas em 4 temas (Encanto, Ajuste, Préstimo e Átlas), e 7 grande projetos urbanos que resultaram da investigação dos comissários e de um ”call for projects” aberto que espelha a produção dos últimos 20 anos, em que a realização de uma diversidade de projetos e obras nas áreas da cultura, da educação, do desporto, dos transportes, da saúde, do comércio ou da habitação proporcionou a sedimentação de uma experiência que lhes permite afirmarem-se enquanto um valor seguro e com capacidade singular de afirmação crescente no mercado internacional: Discrição é a Nova Visibilidade. Os 4 temas: ENCANTO: obras em perfeita harmonia com a paisagem, espelho de um “mundo perfeito”. AJUSTE: obras que se fundem nos contextos onde se inserem, pela capacidade de adaptar os projetos a novas geografias; culturas de projeto ou construção distintas, aos constrangimentos financeiros e de mercado; PRÉSTIMO: Obras apontadas para o uso, programa como ferramenta de projeto, o ponto de vista dos utilizadores; capazes de instaurar uma presença pública, humana; independente do seu autor, ou tempo; ATLAS: obras universais, cultura global e obsessões pessoais, ‘modus operandi’, no aperfeiçoamento das soluções construtivas, a mestria na coordenação de especialidades. A Exposição abriu no Instituto Camões, em lisboa a 2 de Dezembro de 2013.

SELECÇÃO 100 OBRAS + 7 PROJECTOS DE GRANDE ESCALA #001 Acesso ao Castelo (Buñol, Espanha 2011) Brito.Rodriguez #002 Adega de Chocapalha (Alenquer 2011) Serôdio, Furtado & Associados, arquitectos Lda. #003 Arquivo Municipal de Loures (Loures 2007) Fernando Reis Martins e João Manuel Santa Rita #004 Arranjo da zona envolvente do Mosteiro de Alcobaça (Alcobaça 2005) Gonçalo Byrne, Arquitectos e João Pedro Falcão de Campos, Arquitecto #005 Arranjo Urbanístico dos Espaços Públicos dos Bairros de Habitação Social de Contumil e Pio XII (Porto 2008) Menos é Mais Arquitectos Associados, Lda. #006 Bar no jardim 9 de Abril (Lisboa 2011) asparquitetos #007 Biblioteca de Sintra Casa Mantero (Sintra 2003) Alexandre Marques Pereira #008 Biblioteca Municipal Maria Lamas (Monte de Caparica, Almada 2012) Santa Rita Arquitectos #009 Bloco no Avenal (Condeixa-a-Nova, Coimbra 2011) depA [departamento Arquitectura] #010 Capelas Mortuárias (Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia 1997) José Fernando Gonçalves #011 Casa das Histórias Paula Rego (Cascais 2009) Eduardo Souto de Moura #012 Casa das Janelas Verdes (Lisboa 2009) Pedro Domingos Arquitectos #013 Casa de Chá do Paço das Infantas (Castelo de Montemor-o-Velho 2001) João Mendes Ribeiro #014 Casa do Conto (Porto 2011) Pedra Líquida #015 Casa do Vale (Vieira do Minho 2005) Guilherme Machado Vaz #016 Casa do Vôo dos Pássaros (S. Miguel, Açores 2011) Bernardo Rodrigues #017 "Casa dos Cubos", Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Tomar (Tomar 2007) EMBAIXADA arquitectura #018 Casa em Afife (Viana do Castelo 2005) Nuno Brandão Costa #019 Casa em Azeitão (Azeitão 2005) Atelier Central #020 Casa em Melides (Melides, Grândola 2010) Pedro Reis #021 Casa Francisco Mourão (Labruge, Vila do Conde 1992) Carlos Prata e José Carlos Portugal #022 Casa nel Parco (Jesolo, Itália 2011) Gonçalo Byrne Arquitectos/Gonçalo Byrne com TMA/ Pedro Sousa #023 Casa no Gerês (Caniçada, Gerês 2006) CORREIA/RAGAZZI ARQUITECTOS #024 Casa Tóló (Penafiel 2008) Álvaro Leite Siza Vieira #025 Casa Unifamiliar Rua Daniel das Pupilas (Ovar 2011) paula santos | arquitectura, lda. #026 Casa V.B. (Caminha 2010) Guilherme Páris Couto #027 Casas Brancas Lote 8 (Porto 2007) Adalberto Dias, Arquitecto #028 Casas Mortuárias de Alhandra (Alhandra 2008) Pedro Matos Gameiro (coordenação), Carlos Crespo, Gonçalo Pinheiro, João Maria Trindade #029 Centro das Artes Casa das Mudas (Calheta, Madeira 2008) Paulo David, arquitecto #030 Centro de Controlo Operacional da Brisa (Carcavelos 2009) João Luís Carrilho da Graça, Arquitectos + Barbini Arquitectos #031 Centro de educação e interpretação ambiental de Chã de Lamas (Paredes de Coura 2007) Atelier da Bouça #032 Centro de Saúde de Vila do Conde (Vila do Conde 2007) Paulo Providência #033 Centro de Visitantes da Gruta das Torres (Ilha do Pico, Açores 2005) Inês Vieira da Silva. Miguel Vieira [SAMI arquitectos] #034 Centro Escolar de Celorico de Basto (Celorico de Basto 2011) CG+LSC arquitetos #035 Complexo de Artes e Arquitetura da Universidade de Évora (Évora 2009) Inês Lobo, Arquitectos #036 Conservatório Escola Secundária Qta das Flores (Coimbra 2011) José Paulo dos Santos, arquitecto #037 Conservatório Regional de Música de Vila Real (Vila Real 2005) António Belém Lima #038 Cooperativas de Aldoar (Porto 2012) MCF, A&A #039 Duas casas em Sta Isabel (Lisboa 2010) Ricardo Bak Gordon #040 Duas habitações para Turismo Rural (Vila de Punhe, Viana do Castelo 2008) Paula Sousa Pinheiro - produto urbano, arquitectura e planeamento, lda. #041 EBG Estação Biológica do Garducho (Mourão 2008) VENTURA TRINDADE, ARQUITECTOS #042 Edifício Administrativo e Show-Room “Móveis Viriato” (Paredes 2007) Nuno Brandão Costa #043 Edifício Anjos (Lisboa 2011) Appleton e Domingos #044 Edifício Burgo (Porto 2007) Eduardo Souto de Moura #045 Escola de Leça do Balio (Matosinhos 2010) aNC #047 Escola Francesa do Porto - Pavilhão de Acolhimento e Novo Edifício da Primária (Porto 2010) Nuno Valentim, Arquitectura e Reabilitação #048 Espaço Estratégia Urbana (Matosinhos 2011) Nuno Sampaio Arquitetos #049 Estádio de Braga (Braga 2003) Eduardo Souto de Moura #050 Estalagem Quinta da Casa Branca (Funchal, Madeira 2009) Atelier Bugio #051 Estoril Sol Residence (Lisboa 2009) Gonçalo Byrne Arquitectos #052 Farol Museu de Santa Marta (Cascais 2009) Aires Mateus e Associados #053 Forum Sintra (Sintra 2012) ARX Portugal Arquitectos

Centro das Artes Casa das Mudas Paulo David foto © FG+SG Abertura da Exposição no Instituto Camões

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Teleférico de Vila Nova de Gaia Menos é Mais Arquitetos Associados foto © Alberto Plácido


Dossier

EXPOSIÇÃO

DOSSIER

Participaram Daniel Malhão, Diogo Seixas Lopes, Inês Lobo, Joana Vilhena, Nuno Cera, Patrícia Barbas, Paulo Catrica, Paulo David, Pedro Costa e Ricardo Carvalho

Texto Gabriela Raposo Fotografias José Guerra, Nuno Cera e Nuno Gaspar

Curadoria Nuno Crespo

josé guerra

Assistente de Curadoria Cláudia Costa

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Sede do Banco BES, Obras de fotografia colecção BESart

AN-ARQUITECTURA. ESPAÇOS E IMAGENS A PARTIR DA COLEÇÃO BESart ‘não é uma exposição de arquitetura,’ diz Nuno Crespo, mas é uma exposição, também, sobre arquitetura, remetendonos para universos da sua representação, do seu diálogo com expressões artísticas, como a fotografia, o som e o vídeo, mas também para memórias e universos quotidianos. Com este tríptico expositivo, que manifesta uma visão possível de como várias áreas disciplinares, entre arte e arquitetura, se tocam, Nuno Crespo utiliza a expressão do artista americano Gordon Matta-Clark – Anarquitectura – para o título da mesma, apesar da ausência do sentido performativo, e de manifesto, a que o seu autor a associava. Com esta expressão somos transportados para os anos 1960-70, para o tempo da emergência de novas formas expandidas da arte,2 sem esquecer que, já no início do século XX, durante as primeiras vanguardas russas, se investigava sobre possíveis contaminações entre arte e arquitetura. Voltando à Anarquitectura que, além de denominar uma forma de expressão artística dos anos 1970, testemunha do trabalho de Matta-Clark, é também uma forma de expressão crítica, de reflexão sobre a sociedade de então, situando-se entre o readymade e a metáfora arquitetónica. Na época da arte conceptual e da desmaterialização do objeto, Matta-Clark,3 apropria-se de construções a demolir, que representam, como nos diz Pamela Lee, ‘a ruína da existência da classe média’4 e reinventa-as, transforma-as de ruínas ou pré-ruínas, em espaços de valor e significado, espaços críticos que comunicam pensamentos e ideais sociais. Em Anarquitectura de Matta-Clark encontramos obras com o sentido de construção invertido – uma temporalidade que se aproxima do fim – enquanto a arquitetura, na temporalidade construtiva que lhe está inerente, busca a perenidade – a afirmação do construído no espaço e no tempo longo. Apesar de se referir à atividade principal do seu trabalho como ‘des-construir’ (unbuild)5 - não no sentido da demolição mas no sentido de desdobrar, desmultiplicar para questionar e compreender, dando acesso a novas possibilidades e significados - Matta-Clark, com os seus cuts, faz uma reflexão sobre a aquitectura e a vida. Anarquitectura de Matta-Clark demonstra a fragilidade e a resistência da arquitetura em simultâneo, apesar dos cortes e subtrações, os objetos sobre os quais intervém mantêm-se construídos, apesar de possuidores de uma nova identidade, como em ‘Splitting’ (Nova Jersey, 1974).

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josé guerra

‘Ao se situar a arquitectura entre a arte e a técnica, a sua linguagem e sua interpretação encontram-se sempre relacionadas às linguagens e às interpretações da arte, da ciência e do pensamento.’1 Josep Maria Montaner


News

marketing

Maria Rodrigues | mrodrigues@revarqa.com Carmen Figueiredo | cfigueiredo@revarqa.com

2ª edição do concurso 24H Um espaço onde o limite de tempo serve de estímulo à sua criatividade. Empenho, perseverança, inspiração e capacidade de trabalho, são as bases necessárias para desenvolver uma proposta que responda às premissas que serão lançadas regularmente no brief do concurso. Em 24 horas é desafiado a probar o seu talento. Data de início de inscrições: ás 12:00 de dia 20.09.14 Fim do período de inscrições: até às 12:00 de dia 25.10.14 Data do concurso: das 12:00 de dia 25.10.14 até às 12:00 de dia 26.10.14 Periodo de avaliação dos júris 27/10/2014 a 04/11/1014 Anúncio dos vencedores a 09/11/2014. www.if-ideasforward.com

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Universidade Lusíada de Angola apresenta a IX Edição do Fórum Internacional de Arquitectura De 6 a 9 de Outubro, deste ano, realiza-se a nona edição do Fórum Internacional de Arquitetura, da Universidade Lusíada de Angola (ULA). O evento que é organizado pelo Centro de Estudos e Investigação Científica de Artes, Arquitectura, Urbanismo e Design (CEICA), unidade orgânica da Universidade Lusíada de Angola, teve como tema central para este ano o “MUSSEQUE”. Este é, como previsto e dada a sua complexidade, o segundo ano que a curadoria propôs para o desenvolvimento deste tema.

A CORTIZO torna-se no primeiro grande fabricante ibérico na produção de PVC O grupo Cortizo, referência europeia em sistemas de alumínio para a arquitetura e a indústria, já produz PVC a pleno rendimento nas suas novas instalações do complexo de Picusa, em Padrón. A fábrica tem uma superfície total de 9.000 m2 e uma capacidade de produção de 3.000 kg/hora. A empresa galega torna-se assim no primeiro fabricante ibérico a produzir PVC, e aposta forte neste novo mercado para completar a sua ampla gama de soluções e sistemas para a arquitetura. O novo centro de produção alberga 10 modernas linhas de extrusão totalmente automatizadas e monitorizadas. Segundo o diretor comercial da CORTIZO PVC, David Baños, “as nossas instalações vão ser o modelo de referência do mercado. Temos a fábrica de PVC mais moderna da península e o objetivo de entrar em força no mercado ibérico.” www.cortizo.com


Com a sua Assinatura

oferta

da edição Portugal Turístico em CD

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Revista arqa #115  

Revista portuguesa de arquitectura e arte - Portuguese architecture and art magazine

Revista arqa #115  

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