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Sefarad Universo

ANO 1 No 1 JULHO DE 2018

PRESENÇA EM SEFARAD:

UMA ARQUEOLOGIA DAS ORIGENS 1


Parabenizamos a

pela brilhante iniciativa de lanรงar a revista

Sefarad Universo


Inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil, Portugal e Israel MARCOS WASSERMAN LUCIA WASSERMAN Advogados e notários

Sderot Hen 57, 2o. andar, Tel Aviv

Tel: 5226091 - 5290942 Fax: 5241553

Desejamos muito êxito a nova revista UNIVERSO SEFARAD Acompanhamos com muita alegria mais este magnífico projeto da TALU CULTURAL e desejamos muito sucesso

Sucesso e vida longa para este belo projeto, a nova revista

UNIVERSO SEFARAD

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Sefarad Universo

Diretor/Editor Executivo Elias Salgado Editora Executiva Regina Igel Diretor de Arte e Design Eddy Zlotnitzki Diretor de Projetos Culturais Renato Athias Conselho Editorial HOMENAGEM ESPECIAL: Prof. Samuel Isaac Benchimol z”l Andre de Lemos Freixo Fernando Lattman-Weltman Heliete Vaitsman Henrique Cymerman Benarroch Ilana Feldman Isaac Dahan Jeffrey Lesser Michel Gherman Monica Grin Regina Igel Renato Athias Wagner Bentes Lins Editor Elias Salgado Projeto gráfico e arte diagramação Eddy Zlotnitzki Revisão Mariza Moreira Blanco Colaboram neste número Henrique Cymerman Benarroch Guga Chacra Renato Athias Monique Sochaczewski Israel Blajberg Graça Cravinho Suzana Moreira Marques Jonathan Edstein

Universo Sefarad Talu Cultural Email universo.sefarad@gmail.com ediçoestalu@gmail.com

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EDITORIAL

Elias Salgado

Em 2017, a Editora Amazônia Judaica, fundada no Pessach de 2002, na cidade de Belém do Pará, pelo chazan e pesquisador, David Salgado, completou 15 anos de atividades ininterruptas. Ao longo desta trajetória, ela cresceu, intensificou suas atividades e projetos: um portal, um arquivo histórico, projetos de pesquisa, uma revista e a edição de livros e agora a criação de novos selos editoriais, sempre abordando nossa temática principal, o judaísmo na Amazônia e mundial. Este marco cronológico e de atividades, tornou-se para nós, um divisor de águas. Percebemos que se fazia necessário, também, crescer e se multiplicar – “Prú urvú, umilú et haaretz”. (“Frutificai e multiplicai e enchei a terra” E aqui nenhum ato de pretensão de nos pensarmos semelhantes ao criador do universo, mas sim inspirar-nos nele espiritualmente (Rambam) e levarmos à prática, outra passagem do Gênesis: “Betzelem eholim bará otó, zachar unekevá bará otam” (“A imagem de D-us o criou: macho e fêmea os criou”). E assim foi. Inspirados pelo espírito do criar, do crescer e do inovar, optamos por ousar: Amazônia Judaica, é hoje um pequeno complexo de comunicação e cultura, agora denominado “TALU CULTURAL”, e composto de 4 selos editorias: Amazônia Judaica, Talu Cultural, Postagens Sagazes e Universo Sefarad. E para comandar este novo “comboio criativo”, um time de primeira linha, entre os bambas do setor cultural, foi convocado

para formar a diretoria da “TALU CULTURAL”: Profa. Phd. Regina Igel, da Universidade de Maryland, USA, assumiu o cargo de Editora Executiva. Prof. Phd. Renato Amram Athias, da Universidade Federal de Pernambuco, é nosso Diretor de Projetos Culturais Eddy Zlotnitzki, nosso sócio desde 2017, segue, como há mais de 6 anos, no comando da exitosa Diretoria de Arte e design da editora. E no comando deste comboio de estrelas, este que humildemente vos escreve. Este primeiro número, o de lançamento da revista UNIVERSO SEFARAD, além de brindar o nosso público leitor com matérias, artigos e crônicas do mais alto nível cultural, conta com uma seleção primorosa de articulistas: Henrique Cymerman , nosso correspondente para o Oriente Médio; Guga Chacra; Renato Amram Athias; Monique Sochaczewski; Israel Blajberg; Graça Cravinho; Suzana Moreira Marques e Jonathan Edstein. Além disso tudo, criamos uma coluna especial – PELAS COMUNIDADES – onde várias entidades sefarditas, do mundo inteiro, terão um espaço reservado, para divulgar suas atividades. Chazak Ubaruch, dizem em nossa cultura sefaradi marroquina. E assim gostaríamos de ser brindados, queridos leitores. Boa leitura. E não deixem de nos enviar seus comentários e críticas. Serão sempre muito bem vindos.


ÍNDICE

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MIGRAÇÕES - Os judeus, o Império Otomano e o Brasil

16

HISTÓRIA Judeus em Cabo Verde

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DIÁSPORAS Os Judeus Portugueses Nas Américas

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ARQUEOLOGIA - O mais antigo vestígio judaico na Península Ibérica

MEMÓRIA De Volta A Toledo

52

TRADIÇÃO Daf… O Aroma Da Harmonia!

56

CRÔNICA Uma Conversa entre Pares

44

ORIENTE MÉDIO - "O Louco De Ryad" ou o homem mais influente do O. Médio

60

MARCOS O Universo Sefarad

66

MENSAGENS

68

PELAS KEHILOT

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MIGRAÇÕES

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OS JUDEUS, O IMPÉRIO OTOMANO E O BRASIL*

Em 1492 os judeus foram expulsos da Espanha e em 1496 de Portugal. Muitos deles foram para os Países Baixos e de lá vieram para a AméricaPortuguesa quando aquela potência ocupou o Nordeste no século XVII Monique Sochaczewski

*Esse artigo é uma versão de trecho do livro de minha autoria “Do Rio de Janeiro a Istambul: contrastes e conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850-1919”, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), em 2017 7


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MIGRAÇÕES

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utros se transferiram para o Império Otomano com o auxílio do então sultão Bayezid II (r. 1481-1512). Juntaram-se aos romaniot, judeus de fala grega que já viviam sob o domínio bizantino; aos karaítas, seita judaica que rejeitava a autoridade da tradição pós-bíblica incorporada no Talmud e nos trabalhos rabínicos posteriores; e aos ashkenazim que de tempos em tempos refugiavam-se em território otomano, por conta de perseguições ou expulsões de reinos como a Hungria, a França e a Bavária. Posteriormente teriam ainda a companhia dos musta´aravim, ou mizrahim, que eram os judeus de fala árabe, adicionados aos domínios otomanos a partir de 1517. Os judeus viviam segundo a lógica otomana dos

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millets, um sistema autônomo de auto-governo sob líderes religiosos próprios. Havia também millet dos cristãos armênios e dos cristãos gregos, por exemplo. Tinham o status de dhimmis, protegidos. O historiador Mark Mazower, descreve essa questão como de uma “coexistência complexa”, embora não se deva perder de vista que tratou-se de uma entidade política bem mais tolerante aos judeus do que boa parte da Europa. Os números são incertos, mas fala-se de cerca de 150 mil judeus sob domínio otomano, sendo estes primordialmente urbanos. As cidades de Constantinopla, Salônica e Esmirna contaram com grande número de judeus, embora também houvesse representatividade


nas duas primeiras capitais otomanas: Bursa e Edirne. Salônica, porém, era a cidade com maior comunidade judaica. Atuavam no comércio em larga escala, coleta de impostos e serviços, mas sobretudo, como mediadores e tradutores. Os chamados sefaradim, acabaram por impor em grande medida sua cultura, e em especial seu idioma, o ladino, à comunidade judaica otomana. O historiador Yaron Ben-Naeh, em seu livro “Jews in the Realm of the Sultans” ressalta, porém, que os romaniot e outros grupos de judeus resistiam a

essa preponderância. Mark Mazower, porém, em sua linda biografia da cidade de Salônica, publicada pela Companhia das Letras em 2007, ressalta o largo impacto dos sefaradim, sobretudo na cidade de sua pesquisa. Diz: “Eles adoravam a Deus em sinagogas com nomes de suas antigas terras natais abandonadas – Ispanya, Çeçiliyan (siciliana), Magrebi, Lizbon, Talyan (“italiana”), Otranto, Aragón, Ktalan, Pulya, Evora Portukal e muitas outras -, nomes que perduraram até que as próprias sinagogas foram

Sinagoga em ruínas em Esmirna - Turquia

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MIGRAÇÕES

destruídas no incêndio de 1917. Seus sobrenomes – Navarro, Cuenca, Algava -, jogos, pragas e bênçãos, e mesmo suas roupas, remetiam-nos ao passado. Eles comiam pan d´Espanya (pãode-ló de amêndoas), nas festas, rodanchas (bolo de abóbora), pastel de kweso (pastel de queijo com sementes de gergelim), fijones kon karne

(ensopado de carne e feijões) e keftikes de poyo (croquetes de frango), e ofereciam aos visitantes dulce de muez verde (compota de noz verde). As pessoas mascavam pasatempo (sementes de melão secas), conduziam o vaporiko através da baía e curtiam o ar da noite no varandado de suas casas. Quando acadêmicos espanhóis visitaram a cidade no final do século XIX, espantaram-se ao encontrar uma viva e florescente península Ibérica em miniatura no reinado de Abdul Hamid”. 10 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

Quando da tomada de Constantinopla pelo sultão Mehmet II, em 1453, a fim de repovoar e revitalizar a cidade tomada dos bizantinos, já havia sido mandado transferir judeus romaniot que viviam em várias cidades dos Bálcãs e da Anatólia Ocidental para a nova capital. Essa ação ficou conhecida como sürgün, e as sinagogas e congregações fundadas receberam os nomes das cidades e aldeias de origem como Gelibolu (Galípoli), Üskup, Dimetoka e Tiro. Aquela criada pelos judeus de Ohrid, na Macedônia, ganhou o nome de Ahrida e ainda hoje resiste, no bairro de Balat, sendo possível se visitar, mediante agendamento prévio. Províncias otomanas tornadas independentes, como a Grécia, a Bulgária, já haviam levado a migrações de judeus também, assim como judeus da Síria buscando melhores condições em Alexandria ou Cairo. O verdadeiro movimento emigratório por parte dos judeus otomanos, porém, se deu a partir das sérias modificações ocorridas no império na virada do século XIX para o XX, em especial após a ascensão dos Jovens Turcos em 1908. A sorte dos judeus otomanos seguiu em grande parte a sorte do próprio Império Otomano como um todo. Sua época áurea foram os séculos XV e XVI. O geógrafo Nicolas de Nicolay, no século XVI, lembrado na obra de Avigdor Levy, “The Sephardim in the Ottoman Empire” ressaltava que justamente os judeus e marranos expulsos da Península Ibérica tinham entre eles “trabalhadores de todas as artes e ofícios os mais excelentes (...) que


Sinagoga Balat Ahrida

para prejuízo e dano da cristandade, ensinaram aos turcos diversas invenções, ofícios e artefatos de guerra, para produzir artilharia, arcabuzes, pólvora, cargas e outras munições; eles também estabeleceram ali a tipografia, desconhecida naqueles países, pela qual belos caracteres dão a lume diversos livros em diversas línguas, como grego, latim, italiano, espanhol e a língua hebraica, que para eles é natural”. Era a época de figuras emblemáticas como Gracia Mendes e Joseph Nasi, financistas de larga importância, próximos a sultões como Suleiman, o Magnífico. Seguiu-se, porém, um longo período de dificuldades e declínio. Ao longo do século XIX, por exemplo, os judeus foram seriamente atingidos por todas as transformações pelas quais passava o império frente seus conflitos com potências europeias, uma vez que os súditos otomanos cristãos passaram a contar em sua maioria com facilidades permitidas através das capitulações (ahdname). Esses eram privilégios concedidos pelo sultão aos estados estrangeiros para o benefício de seus súditos ali residentes

e incluíam direito a pagar baixas tarifas ou não pagar impostos internos, por exemplo. No caso dos millets cristãos, em especial o armênio, o missionarismo europeu e norteamericano bem como o interesse direto das potências começaram a alterar suas organizações internas desde o início do século XIX. No caso dos judeus é possível usar a data de 1840 como um marco importante de alterações sofridas pelo millet judaico como um todo. No dia 5 de fevereiro de 1840, na Síria otomana então ocupada pelos egípcios, sob circunstâncias até hoje obscuras, um religioso cristão e seu servo muçulmano sumiram sem deixar rastros. Como foram vistos pela última vez no bairro judaico de Damasco, logo começaram circular rumores de que foram ali assassinados em mais um caso de “morte ritual”. Instigado pelo cônsul francês na cidade que desejava reforçar a responsabilidade francesa sobre os cristãos de Damasco, o governador egípcio prendeu e torturou judeus. Um dos presos era um mercador judeu que também era súdito austríaco, o que acabou transformando 11


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MIGRAÇÕES

o ocorrido em incidente internacional, envolvendo também o cônsul austríaco em Paris, James Rothschild. A agitação de Damasco atraiu a atenção dos judeus da Europa Ocidental e levou a diversas iniciativas destes de tentar melhorar as condições dos judeus orientais. Os banqueiros Rothschild baseados na Europa e Camondo baseado em Constantinopla, bem como alguns judeus europeus de forma individual financiaram a construção e a implementação de várias escolas na década de 1850. O caso de Damasco, junto com o caso Mortara, que envolveu o afastamento de um menino judeu Sede da Sociedade Bené Hertzl

de seus pais pelas autoridades papais para ser educado como católico, em 1858, tiveram papel importante na criação da instituição que de fato atuou de maneira sistemática e por todo o Império Otomano: a Alliance Israélite Universelle. Esta foi fundada por Adolphe Crémieux e vários profissionais judeus e homens de negócio, em 1860, em Paris, buscando autodefesa e autossuficiência judaica através da educação e do 12 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

desenvolvimento profissional. Uma Anglo-Jewish Association e uma associação judaica alemã também seriam criadas com a mesma finalidade, todas elas com o interesse comum de melhorar a vida dos judeus dentro das fronteiras otomanas, a princípio sem incentivar emigração para a Europa ou o sionismo então nascente. Em 1864 já tinha sido fundada uma escola em Bagdá, e em 1870 foi fundada a Mikve Israel, na Palestina. Em 1878 foi criada uma escola em Izmir e em 1900 já existiam cerca de 100 escolas por terras otomanas. Em função da ênfase em educação com foco profissionalizante e também por mudanças internas otomanas, os judeus voltaram a atuar no comércio internacional, conseguindo então melhorar suas condições de vida. Moise Hemsi, em depoimento publicado no livro “Passagem para a América: relatos da imigração judaica em São Paulo”, contava, por exemplo, que sua família radicada em Esmirna (Izmir), estabeleceu uma agência de navio na década de 1880, chamada Khedivial Mail Line, que levava os muçulmanos da Turquia para Meca. Com a Revolução dos Jovens Turcos e o objetivo de igualar todos os súditos otomanos, judeus, assim como cristãos passavam a ser obrigados a servir ao exército otomano. Além de serviço longo e provavelmente fatal, por conta da fraqueza militar otomana e das muitas guerras que passava a se envolver, muitos judeus optaram por emigrar. Muitos foram primeiro para o Egito ou para a Europa, antes de seguirem para localidades como o Brasil, por exemplo. Para outros tantos a ascensão do nacionalismo turco significava o fim da vida comunitária independente, uma vez


que grassava forte movimento de turquificação. Nos últimos anos do século XIX se iniciou a imigração por motivos econômicos, inicialmente das pequenas aldeias próximas a Esmirna tendo como principais destinos Cairo, Paris e Buenos Aires. Uma vez instalados, os jovens mandavam vir seus parentes e amigos. O sentimento de perseguição religiosa não constava no rol de Sociedade Israelita Bené Hertzl - 1929 motivos que levaram à opção pela Na década de 1920 os judeus otomanos já se saída do Império Otomano. Abraham Alberto organizavam em instituições no Brasil com a Hanna, em depoimento, dizia: “Nós espanhóis criação de sociedades sefaraditas de originários sefaradins vivíamos muito bem lá na Turquia no de Esmirna e outras cidades turcas em São Paulo tempo dos sultões. (...) E tinha um sinal para não e no Rio de Janeiro, a Sociedade Sionista Bene atacar os judeus: um lampião na porta. (...) Eu Herzl. João do Rio diz que os judeus otomanos no vim para o Brasil em 1922. Naquele ano eu tinha Rio de Janeiro do início do século XX ligavam-se dezessete anos. (...) Porque quando eu tinha onze “aos turcos maometanos, aos gregos cismáticos anos minha mãe tirou o papel de nascimento e a outras religiões e ritos degenerados, que como se eu tivesse oito anos por causa que havia pululam nos quarteirões centrais”. este perigo: quando se chegava a uma certa idade, Ao que parece, porém, com o avançar dos anos, tinha que fazer o serviço militar. Então, por causa sua inserção no Brasil foi muito mais ligada disto eu vim para cá com a idade de quatorze à comunidade judaica maior já presente no anos, pela papelada. (...)” país, como os marroquinos e os ashkenazitas Justamente a saída dos jovens da família para que já instalados, distanciando-se em geral da não servissem ao exército acabou por fazer com representatividade oficial do governo otomano. que demais membros da família optassem pela Passariam com o tempo a compor o grande imigração para que pudessem se manter unidos. A mosaico da “comunidade judaica brasileira”, América do Sul, tendo a Argentina em primeiro lugar, carecendo ainda de uma pesquisa pormenorizada, se mostrava destino preferido por estes por conta que espero poder fazer em breve. do idioma, já que o ladino que falavam nada mais era do que um dialeto nascido do espanhol. Monique Sochaczewski tem doutorado e pós-doutorado O historiador Boris Fausto, a escritora Tatiana Salem em História pela Fundação Getúlio Vargas. É autora do Levy, o empresário e apresentador Silvio Santos livro “Do Rio de Janeiro a Istambul: Contrastes e Conexões (Senor Abravanel) são alguns dos que compartilham entre o Brasil e o Império Otomano (1850-1919)”, Brasília: a origem comum sefaradita otomana. Seus FUNAG, 2017. antepassados vindos de Urlá, Esmirna e Salônica, É fellow do Summer Institute for Israel Studies, da Brandeis University (EUA). Tem larga experiência nas áreas de instalaram-se principalmente no Rio de Janeiro História e Relações Internacionais, com interesse em e São Paulo, também optando pela profissão de especial por questões relacionadas à História Global, à mascates, já praticada pelos imigrantes árabes História Pública, ao Oriente Médio e ao Cáucaso do Sul. otomanos, em um primeiro momento. 13


Sucesso para a UNIVERSO SEFARAD

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HISTÓRIA

JUDEUS EM CABO VERDE

Não se sabe quantos são, mas são muitos os descendentes de judeus, Cabo Verde está a redescobrir a sua herança judaica Por Susana Moreira Marques - (Fonte: RA – Grande reportagem)

Mindelo, Cabo Verde/Arquivo RA

S

im, há negros com sangue judeu, assim como há brancos que são simultaneamente africanos e judeus. Continua a causar surpresa falar da presença judaica em África. No que toca a Cabo Verde, recentemente, o trabalho da associção Cape Verde Jewish Heritage Project, fundada pela jornalista americana Carol Castiel nos Estados

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Unidos da América, que já renovou dois cemitérios judaicos em Cabo Verde, veio fazer com que a herança judaica caboverdiana se tornasse mais conhecida, mais discutida e começasse a ganhar um lugar no caldo cultural que caracteriza o arquipélago. Existem muitos descendentes de judeus caboverdianos, não se sabe quantos. A maior


parte deles são hoje católicos e muitos vivem fora de Cabo Verde. Todos os que falaram com o Rede Angola descreveram Cabo Verde como um lugar onde nunca foi demasiado importante a diferença. É, ironicamente, por isso, que se torna difícil, hoje, fazer um retrato dos judeus caboverdianos: foram tão bem aceites que se integraram e assimilaram em poucas gerações. O que se sabe é isto: no século XIX, vários judeus, na sua grande maioria homens, comerciantes, ou o que chamaríamos hoje de homens de negócios, fixaram-se em Cabo Verde, sobretudo nas ilhas de Santo Antão, São Vicente e Boa Vista. Teriam vindo depois da extinção da Inquisição – que durante três séculos ferozmente perseguiu judeus e cristãos novos – em 1821,

e impulsionados por um novo tratado de comércio marítimo entre Portugal e o Reino Unido, assinado em 1842. Eram judeus vindos sobretudo de Marrocos e que chegavam via Gibraltar, que estava sob domínio britânico. Em Marrocos havia, naquela época, uma forte comunidade de judeus sefarditas, que aí se tinham instalado, como aconteceu um pouco por todo o espaço mediterrâneo, após a expulsão em 1492, de Espanha, ou “Sefarad”, como lhe chamavam os judeus. Espanha tinha sido berço de um período de ouro da cultura hebraica. Yehuda Halevi (1075-1141), um dos grandes poetas hebraicos, talvez o mais importante nascido em Sefarad, escreveu: “Estou a fazer o caminho pelo coração do mar / Para o lugar onde os pés de Deus encontram descanso”.

Uma americana em Cabo Verde Carol Castiel conheceu alguns caboverdianos nos anos 80, quando era diretora de um programa de bolsas de uma instituição sediada em Nova Iorque e era a responsável para os países africanos de língua portuguesa. Surpreendentemente, um desses primeiros caboverdianos que conheceu chamava-se Levy, um nome logo identificável: os Levy seriam descendentes de uma das principais tribos judaicas. Depois, apercebeu-se de que haviam outros nomes judeus nas ilhas: Benoliel, Benros, Anahory… Essas pessoas, que depois foi conhecendo, tinham apenas uma vaga ideia de uma linhagem judaica na família. Tinham algumas histórias de bisavós vindos de Marrocos, pequenas anedotas ou Carol Castiel pequenos mitos de quem teria ficado apeado para sempre em Cabo Verde a caminho talvez de uma América ou de outro lugar de dimensão mais ambiciosa. Em geral, sabiam muito pouco sobre a sua origem e sobre a cultura judaica. Já não se encontrava ninguém a praticar a religião. Tinha sobrado apenas um orgulho em transportar aqueles nomes. E tinham sobrado vestígios na paisagem: inscrições hebraicas nos cemitérios, uma vila chamada Sinagoga. Carol Castiel quis, desde logo, fazer qualquer coisa por aquela herança, mas só 20 anos mais tarde conseguiu fundar uma associação, a Cape Verde Jewish Heritage Project, e começar verdadeiramente o trabalho de pesquisa, de preservação e de divulgação da história judaica caboverdiana. Muitas vezes lhe perguntam porque é que uma americana, sem qualquer relação com Cabo Verde, decidiu 17


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HISTÓRIA

dedicar grande parte da sua vida a recuperar a história judaica caboverdiana. Em parte, a resposta tem a ver com o facto de Carol ser judia e com o forte sentimento de solidariedade que existe na cultura judaica. Comove-a ver os túmulos com as inscrições hebraicas e pensar que aquelas pessoas que morreram ali faziam parte do seu povo e acha que têm direito a ser lembradas. A partir de Washington D.C., Carol Castiel foi estabelecendo pontes entre Cabo Verde, Marrocos, Estados Unidos e Portugal, e, com a renovação de dois cemitérios judaicos e investimento em pesquisa histórica, o trabalho dela já está a ter impacto em Cabo Verde. Se a história dos judeus caboverdianos começa no século XIX, a história dos descendentes parece começar agora, no século XXI.

Uma caboverdiana em Lisboa Fernanda Levy era já uma mulher adulta, estava em Lisboa, a terminar a sua formação para ser professora, quando pela primeira vez lhe perguntaram se era judia. “Levy” nunca lhe tinha parecido um apelido estranho em Cabo Verde, nunca tinha suscitado muitas perguntas. – Não sei – respondeu. – Não tenha medo, já não é perseguida. Foram precisos quase 500 anos para que esta frase pudesse ser dita com esta confiança em Portugal. Em Cabo Verde, onde nunca tinha havido um problema de discriminação, Fernanda Levy percebeu que havia um problema de memória. Fernanda Levy tem nome judeu por parte do pai, um homem que foi deputado em Lisboa no tempo colonial, não porque fosse um homem do regime, diz a filha, mas porque queria conseguir conquistas para Cabo Verde. Queria um liceu na Praia, por exemplo. O liceu não chegou a tempo e Fernanda veio para Lisboa aos 12 anos para poder continuar a estudar. O pai falava-lhe do amor à terra, mas depois da independência, sentiu que a terra deixara de ter lugar para ele. Curiosamente, foi a sua mãe, que não tinha qualquer linhagem judaica, e que era meia galega, que transmitiu alguma informação a Fernanda sobre a sua família judaica Levy. Gostava de conversar sobre isso com a sogra. Fernanda lembra-se da avó paterna, que pedia 18 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

Ponta do Sol, Cabo Verde (DR)

para estar sozinha sempre que queria rezar. Entre esse episódio em que lhe perguntaram pela primeira vez se era judia e os últimos anos, nunca parou muito para pensar nos seus antepassados. Foi só recentemente, depois de reformada, talvez por ter mais disponibilidade ou talvez porque começasse a restar pouco tempo para se conhecer melhor, que decidiu começar a investigar, a tentar reconstituir a história da família e a procurar outros Levys. Com a internet e as redes sociais, tornou-se fácil encontrar ligações e todo um mundo novo de novas relações e possibilidades começou para ela. Não sabe ainda bem explicar porque é que conhecer a sua herança judaica se tornou importante. “Não sei porque é que comecei esta busca. É uma coisa interior”, diz. “Gostava de ir a Israel.”


Um lisboeta em Cabo Verde

Rafael Benoliel de Carvalho

O mar vê-se do cemitério. E as antigas salinas estão logo ali, fazendo com que o trabalho e a presença do homem estejam permanentemente a ser sabotados. É um cemitério muito pequeno. Apenas oito campas, cinco delas da família Benoliel. Rafael Benoliel é arquiteto e foi importante para ele poder contribuir para ver o cemitério da sua família renovado. Fez o projeto gratuitamente. Muitas vezes, em Lisboa, o pai tinha-lhe falado daquele cemitério. Os túmulos, tanto os da família Benoliel como os outros, são todos iguais. São túmulos simples, mas dignos. “Na cultura judaica não há ninguém que não tenha direito a uma sepultura condigna, ninguém fica numa campa rasa nem numa gaveta, mas também não há mausoléus nos cemitérios judaicos, todos têm a mesma sepultura, ricos ou pobres”, explica. “Em hebraico, cemitério é “Beth Haim”, que quer dizer literalmente “casa da vida”. Na religião judaica entende-se que não há morte, só há o mundo, e a vida não desaparece, transforma-se.” Rafael Benoliel nasceu e cresceu em Lisboa.

A ilha da Boa Vista é a terra do seu pai, dos seus avós e dos seus bisavós, que aí montaram um estabelecimento comercial, desses que nesses tempos, vendiam tudo e faziam tudo. A ideia de casa, para ele, passa por ali e por aquele cemitério com menos de uma dezena de túmulos. A mãe de Rafael chegou a Cabo Verde fugida de uma Alemanha a caminho do Holocausto, sobrevivendo ao maior crime da história da humanidade. Aí, conheceu o pai de Rafael e ele acha que não passou de uma coincidência, ela, que era judia, ter gostado e casado com um cabo-verdiano de ascendência judaica. De qualquer maneira, nenhum dos dois era religioso e Rafael Benoliel, em casa, aprendeu pouco sobre a religião e as tradições judaicas. Foi já na escola, um pouco incomodado com o facto de nas aulas sempre se falar do judaísmo de forma cinzenta, como algo de irrelevante,

Cemitério judaico

como se já estivesse morto, que ele decidiu aprender por si. Hoje, aprecia a sua cultura judaica e a sua história, mas não se tornou um homem religioso. Já o seu irmão acabou por mudar-se para Israel. Rafael Benoliel continua a viajar de vez em quando para Cabo Verde para ajudar a manter viva a presença da herança da família na Boa 19


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HISTÓRIA

Vista. A ilha cresceu muito nos últimos anos, de população quer residente quer visitante, com os seus novos, enormes, modernos resort. Ao cemitério que ele recuperou chegam muitas vezes autocarros de turistas de passeio pela ilha. Os turistas não podem entrar no cemitério, porque é pequeno e a sua conservação frágil, mas espreitam pelo muro. A Rafael Benoliel parece-lhe um pouco estranho que os visitantes se possam interessar tanto pelos túmulos da sua família. Ultimamente, tem sido contatado por jornalistas e investigadores, para contar memórias e histórias de família. É uma atenção apreciada, mas, por vezes, diz no final da nossa conversa, parece-lhe que é, ele mesmo, um judeu caboverdiano, um objeto de museu ou uma espécie em extinção.

Saber de onde se vem Abrão Levy Lima é de Santo Antão, a ilha de Cabo Verde onde mais judeus se fixaram. Há muitos anos que coleciona informação sobre a família e a história judaica de Santo Antão, mas queixa-se de que há pouca bibliografia disponível. Há pouco tempo contactaram-no do Chile, um outro Levy; tornou-se mais fácil com a internet descobrir parentes e fazer as ligações familiares, mas nem sempre é possível reconstituir todas as ligações. Abrão tem 66 anos mas é um homem vigoroso. As telas enormes que pinta, com uma minúcia, um detalhe quase mágico, devem exigir uma enorme energia. No seu atelier, quando começámos a conversar, trabalhava numa enorme paisagem de Lisboa. A perspectiva é frontal, como se estivéssemos no Tejo, a chegar à Praça do Comércio, e Lisboa, com os seus telhados, monumentos, ruínas, caísse sobre nós. Do rio talvez tenha partido uma avó que, conta-se na família, teria sido banida da sua comunidade e por isso teria ido parar a Cabo 20 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

Verde. Levy Lima também chegou pelo mar, pelo rio; veio para Portugal muito novo, ainda antes do 25 de Abril. A sua Santo Antão continua a ser a da infância, um lugar de enorme liberdade e solidariedade, apesar do regime colonial. Recorda um lugar onde as pessoas eram, em geral, cultas, e onde o tempo nunca passava aborrecido apesar da ilha ser tão pequena. Cresceu cristão e manteve-se cristão. Foi mais velho e longe da terra natal que se interessou pela história da sua ilha e da sua família. O seu pai tinha deixado muitas coisas escritas sobre a história de Santo Antão, mas pouco sobre a presença judaica. Foi da mãe que herdou o nome Levy. Um nome podem ser só letras mas carregam ideias, muitas vezes preconceitos, bons e maus, mas, na sua vida, o nome “Levy” tem lhe trazido mais vantagens do que desvantagens. Aquilo que herdou sobretudo é um certo orgulho, por um lado, e uma responsabilidade, por outro, que vem de fazer parte de uma família com bastante impacto na sociedade em redor. Hoje, vê a teimosia de continuamente tentar descobrir as origens da sua família e saber de onde vem. Saber de onde se vem ajuda a entender para onde se vai.

À procura dos descendentes O que mais surpreendeu a historiadora, especialista em história africana, Ângela Benoliel Coutinho, desde que começou a trabalhar em arquivos, para lançar as bases para se fazer uma história dos judeus cabo-verdianos, foi a quantidade de judeus de que encontrou registos de terem chegado a Cabo Verde no século XIX; até agora 100. Parece pouco, mas para uma população pequena – Cabo Verde teria então cerca de metade da população que tem actualmente – já é um número muito significativo. E ela própria é descendente de uma dessas pessoas que descobriu em arquivos.


Familia Wahnon

Através da Cape Verde Jewish Heritage Project, Ângela está a trabalhar desde Janeiro e pretende analisar arquivos portugueses, cabo-verdianos, marroquinos e até britânicos. Está quase tudo por fazer e depois do primeiro levantamento será preciso ainda muito trabalho para fazer um retrato fiel dos judeus cabo-verdianos e dos seus descendentes. Para já, o retrato que Ângela faz é de uma comunidade que foi bem acolhida e que manteve tradições judaicas até à geração dos seus bisavós, possivelmente dos seus avós. É um retrato de poucas famílias mas influentes. Os judeus que chegavam escreviam português, espanhol, árabe, hebraico, eram homens com negócios, algumas posses e os seus descendentes foram médicos, engenheiros, advogados, e tornaram-se fundamentais na sociedade cabo-verdiana. O antigo primeiroministro, Carlos Veiga, era da família Whanon. “Essa é a face mais visível, mas agora que comecei a pesquisar vejo que há mais para descobrir do que eu imaginava”, diz Ângela. “Os homens judeus comportavam-se como os

outros homens na sociedade cabo-verdiana e tiveram também muitos filhos ilegítimos, que muitas vezes podem não ter o nome mas que conhecem a sua ascendência e que, como aqueles que têm os nomes, são muito curiosos e ficam realmente comovidos com esta busca.” Para além de fazer pesquisa nos arquivos, Ângela está a procurar e a entrevistar descendentes. Estão em Cabo Verde, em Portugal, nos Estados Unidos, diz que, possivelmente, até em Angola. Eles são memória viva e o facto de tantos estarem neste momento a querer contar as suas histórias pessoais e a querer saber mais sobre si próprios, é fascinante. Eles são descendentes, não só de uma cultura judaica, mas também de um espírito de união em Cabo Verde, onde viveram e se misturaram católicos, protestantes e judeus. São ainda a prova de que a história africana é muito mais cosmopolita do que se pensa e, por outro lado, que a diáspora judaica é vasta, talvez impossível de abarcar, e que uma ilha no meio do mar pode ir dar a muitos corações. 21


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OS JUDEUS PORTUGUESES NAS AMÉRICAS* Os nomes de família dos primeiros judeus americanos soam estranhamente familiares: Dias, Costa, Cardozo, Faro, Ferreira, Fonseca, Gomes, Lucena, Navarro, Nunes, Henriques, Machado, Maduro, Mendes, Mesquita, Pacheco, Peixotto, Pereira, Pinto, Penha, Seixas… Por Jonathan Edelstein

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ram portugueses. Judeus portugueses do século XVII. Muitos deles “cristãos-novos”, que finalmente descartavam a capa que foram obrigados a envergar para escapar às fogueiras inquisitoriais; que ali procuravam abrigo, um refúgio da intolerância que mergulhava Portugal numa histeria de fanatismo sanguinário, que acabou por arrastar o país para um abismo do qual ainda hoje se sentem cicatrizes profundas. Os judeus portugueses chegaram a Nova Iorque a 7 de Setembro de 1654, quando a cidade era holandesa e ainda se chamava Nieuw Amsterdam. Faz hoje 351 anos. Os primeiros vieram do Brasil, alguns depois de emigrarem primeiro de Lisboa para a 24 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

Holanda. E tal como já acontecia na Holanda, estes emigrantes judeus de Nova Iorque eram conhecidos como “gente da Nação Portuguesa” (ver Hebrews of the Portuguese Nation). Mas para seguir a génese da comunidade judaica portuguesa em Nova Iorque é necessário primeiro viajar até ao Brasil colonial do século XVII, mais concretamente a Pernambuco, um território de extensão considerável capturado pelos holandeses em 1630. Os judeus tinham desempenhado o seu papel na descoberta e colonização do Brasil. Desde 1500, quando Pedro Alvares Cabral desembarcou nas Terras de Vera Cruz acompanhado por Gaspar da Gama, um “cristão-novo”, até 1654, altura


em que os portugueses expulsaram os holandeses, navegadores, pioneiros e colonos judeus ajudaram a moldar a história do Brasil. A Inquisição não tinha ainda atravessado o Atlântico e a distância emprestava uma ilusão de segurança. Muitos dos que ali chegavam eram deportados, condenados ao degredo por suspeita de judaísmo, transformando o território virtualmente numa colónia penal. Mesmo assim, o espectro inquisitorial pairava ainda na penumbra e sobre os judeus pesava o receio de poderem ser repatriados para Portugal a mando dos tribunais da Inquisição. Num contraste extremo com o obscurantismo inquisitorial que dominava a península Ibérica, em Pernambuco a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais – responsável pela administração dos territórios da coroa dos Países Baixos nas Américas – proclamara logo de início, de forma inquestionável, a liberdade de consciência e de culto entre as populações das suas colónias: “A liberdade dos espanhóis, portugueses e nativos, quer sejam [católicos] romanos ou judeus, será respeitada. A ninguém será permitido que os moleste ou os sujeite a inquirições em matéria de consciência ou nas suas casas privadas; e ninguém os ouse inquietar ou perturbar ou causar-lhes dano – sob pena de punição arbitrária ou, dependendo das circunstâncias, de severa e exemplar reprovação.” in “Leis e Regimentos das Índias Ocidentais”, citada por Arnold Wiznitzer, “The Records of the Earliest Jewish Community in New York” (1957). Apesar de algumas tentativas por parte de clérigos para restringir estas liberdades (especialmente contra os católicos, tidos como inimigos naturais dos calvinistas), a Companhia Holandesa das índias Ocidentais reafirmaria por várias vezes os princípios de tolerância. Perseguidos pela Inquisição em Portugal, este

pedaço de “Brasil Holandês” aparecia aos olhos dos judeus portugueses como um oásis de tolerância, que lhes permitia praticar a sua religião livremente, libertando-os do receio, constante e real, das torturas inquisitoriais ou da morte nas fogueiras dos “autos-de-fé”. E assim foi durante 24 anos. No Pernambuco holandês, sob a administração de João Maurício de Nassau, a comunidade de emigrantes judeus de Portugal floresceu, fundando a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Tzur Israel (Comunidade Rochedo de Israel), em 1637. A 26 de Janeiro de 1654 as tropas portuguesas reconquistam o Recife com um ataque de proporções épicas, comandadas pelo general luso-brasileiro Francisco Barreto de Menezes – que a partir de então ficaria conhecido como “o restaurador de Pernambuco” –, pondo fim ao domínio holandês naquela região do Brasil. Os termos da rendição, assinados em Taborda, perto do Recife, são generosos para com os derrotados, dando aos holandeses um prazo de três meses (que seria prorrogado por mais três) para se retirarem do território recém conquistado, período durante o qual, segundo os mesmos termos, “não serão molestados ou vexados e serão tratados com respeito e cortesia.” Surpreendentemente, o general Barreto de Menezes mostra uma tolerância muito pouco habitual ao permitir igualmente (ajudando até) a saída dos judeus portugueses, apesar destes terem passado a ficar sob a alçada da Inquisição, o que lhe teria à partida vedado qualquer possibilidade de clemência. A lei exigia a deportação imediata dos judeus para Portugal. A 20 de Fevereiro de 1654 os funcionários do tesouro real efetuaram um inventário de todas as casas no Recife e Maurícia anotando os seguintes nomes como “judeus proprietários de casas e lojas”: Jacob Valverde, Moisés Netto, Moisés Zacutto, Jacob Fundão, Moisés

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Navarro, David Atias, Benjamin de Pina, Abraão de Azevedo, João de Lafaia; Gil Correa, Gabriel Castanha, Gaspar Francisco da Costa, Fernão Martins, Duarte Saraiva e David Brandão. Outras aparecem mencionadas no inventário como “casa de judeus”, mas o nome dos seus proprietários não consta do documento. Devido à escassez de embarcações holandesas que possibilitassem uma evacuação total, o general Barreto de Menezes ofereceu navios portugueses para transportar os judeus e assim os ajudar a escapar à Inquisição. Este gesto não seria esquecido, e os anais da história judaica portuguesa registam ainda hoje o nome de Francisco Barreto de Menezes, católico e “cristão-velho”, como um homem de nobre carácter – um hassid umot ha’olam (gentio justo e íntegro do mundo.) Ao todo, 16 navios portugueses foram colocados à disposição dos seus compatriotas judeus pelo general Barreto de Menezes e a esmagadora maioria das cerca de 150 famílias judias do Brasil Holandês partiu em direcção à Holanda. Alguns optaram por ficar nas colónias holandeses nas Caraíbas onde, ainda hoje, a predominância de nomes de família portugueses (e a linguagem litúrgica) entre os judeus sefarditas do  Suriname  e de Curaçao prova essa ligação ancestral (ver também bloGUSblog: A estrela oculta do sertão, sobre os descendentes dos judeus portugueses que ainda restam no sertão brasileiro.) Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns deste judeus. Em Amsterdão, o rabino português  Saul Levi Morteira  – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta 26 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

dos percalços sofridos por uma destas embarcações no livro Providência de Deus com Israel, um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias: “O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os

seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.” Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Cetherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Cetherineaporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque. Era o primeiro grupo de judeus a chegar a América do Norte. Faz hoje precisamente 351 anos.


Destas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado. A princípio, reticente, o governador holandês Peter Stuyvesant opôs-se à permanência dos judeus, escrevendo aos seus superiores argumentando que “se deixamos vir os judeus não tardam a vir os papistas.” O desespero de Stuyvesant aumentaria ainda mais quando os judeus apresentaram uma petição à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais para poder fazer na Nova Amsterdão o que faziam em Pernambuco – viver livremente. A resposta da companhia foi favorável : “Após muita deliberação, resolvemos dar provimento à petição apresentada por certos mercadores [judeus] da Nação Portuguesa,

julgando-a favorável, para que eles possam viajar e comerciar com e na Nova Holanda e viver dentro dos seus limites.” Em 1664, Nieuw Amsterdam passa para a coroa britânica e muda de nome. Dai para a frente será New York. Por volta de 1695, apesar de algumas restrições, os judeus tinham a sua primeira sinagoga improvisada, e a 8 de Abril de 1730 era dedicada a primeira sinagoga de raiz da comunidade que, logo à chegada, em 1654, escolhera o nome de Shearith Israel(Remanescente de Israel). Até ao final do século XIX tiveram duas línguas “sagradas”, ditadas pelos genes, pela fé e pelo apelo da memória. Faziam-se as orações em hebraico. Em português escreviam-se os documentos. * [Este post integra-se num “blogburst” promovido por Jonathan Edelstein, destinado a celebrar Arrival Day, o Dia da Chegada, que assinala o aniversário do desembarque dos primeiros judeus em Nova Iorque, a 7 de Setembro de 1654]

Cemitério de NY guarda história de judeus do Brasil Descendentes de famílias expulsas de Pernambuco por Portugal em 1654 se tornaram figuras proeminentes na sociedade americana Por Gustavo Chacra (Fonte: O Estadão) Entre prédios com tinta descascada no bairro de Chinatown em Manhattan, o cemitério dos judeus originários do Recife e seus primeiros descendentes é um dos mais bem guardados segredos de Nova York. Poucos conhecem pessoalmente as tumbas das primeiras famílias judias que viveram na metrópole com a segunda maior população judaica do mundo, depois de Tel Aviv. Muito menos sabem 27


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que elas vieram do Brasil. Apesar do desgaste de séculos de chuva, sol e neve, ainda dá para ler em algumas tumbas sobrenomes como Fonseca, Seixas, Gomes, Nunes, Cardozo, Castro e Bueno de Mesquita. Todos judeus portugueses ou espanhóis, com passado ligado ao tempo de domínio dos holandeses no Recife, onde a primeira congregação judaica das Américas foi construída. Em 1654, Portugal retomou o controle de Pernambuco, que estava nas mãos dos holandeses da Companhia das Índias. Era o fim de uma era de liberdade para os judeus nas terras brasileiras. Eles mais uma vez eram expulsos pela coroa portuguesa. Antes, durante a Inquisição, haviam sido obrigados a deixar Portugal e rumar para a protestante Holanda, onde não eram alvo de perseguição.

Piratas Com a expulsão do Recife, alguns milhares de judeus seguiram para a Holanda em 17 barcos. Uma dessas embarcações se perdeu e foi atacada por piratas espanhóis. “Resgatados por um navio francês, foram levados para Nova Amsterdã, hoje conhecida como Nova York. Eram 23 pessoas, em sua maioria mulheres e crianças”, afirma Zacharia Edinger, o shamash (diretor de ritual) da gigantesca sinagoga Hispano-Portuguesa, denominada Shearit Israel. Localizada diante do Central Park, é a herdeira da primeira congregação judaica de Nova York. Atualmente, são eles que possuem as chaves do cemitério em Chinatown, abrindo-o em raras ocasiões, como nesta visita do Estado. Os descendentes desses judeus portugueses se transformaram em figuras proeminentes na sociedade americana. Um deles, Benjamin Cardozo, já falecido, alcançou o posto de juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Outro, Bruce Bueno de Mesquita, professor da Universidade de Nova York, é o mais destacado especialista de teoria dos jogos aplicada à ciência política.Antes mesmo de entrar no cemitério, em um movimentado cruzamento, há uma placa, em inglês, com os dizeres “O Primeiro Cemitério da sinagoga Hispano-Portuguesa, Shearit Israel, na Cidade de Nova York”. O tamanho do terreno é pouco maior do que o de duas quadras de tênis. Parte acabou sendo destruída quando uma rua foi construída décadas atrás. Ao redor, famílias chinesas observam muitas vezes sem entender o que existe de especial nesse cemitério unindo as histórias de Brasil, EUA, Portugal, Holanda e da diáspora judaica.

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Inscrições Algumas tumbas possuem inscrições em português, inglês e hebraico. Há palavras como “Faleceu” e “Aqui Jaz”. Uma delas tem o nome de Gershom Mendes Seixas, um dos rabinos mais importantes da história dos Estados Unidos e com um sobrenome que não esconde suas origens portuguesas. Ele era descendente dos judeus que vieram do Recife e foi líder da congregação na época da Revolução Americana. “Visitar o cemitério foi como viajar no tempo. Ver sobrenomes portugueses no cemitério retrata uma face interessante de Portugal e do Brasil, mostrando que o elemento judaico é integrante do tecido social brasileiro e português, com nomes completamente portugueses”, afirma o executivo Sergio Suchodolsky, que visitou o cemitério com o Estado. O israelense Efrahim Gil afirmou que esperava desde 1966 para ir ao local nesta inédita visita. O rabino brasileiro Mendy Weitman, do Jewish Latin Center, em Manhattan, disse ser “uma honra entrar no cemitério e ver como 23 judeus vindos do Brasil conseguiram construir a maior comunidade judaica fora de Israel, em Nova York” - seu pai, o rabino David Weitman, da Congregação Beit Yaacov, em Higienópolis, região central, escreveu o livro Bandeirantes Espirituais, justamente sobre os judeus do Recife.

Na sinagoga diante do Central Park, nomes em português Os judeus do Recife mantiveram como herança nomes e influências portuguesas. Embora a maioria da Congregação Hispano-Portuguesa não descenda dos pioneiros que vieram de Pernambuco a Nova York, ritos da sinagoga diante do Central Park ainda usam expressões em português. As cadeiras do presidente e vice da congregação são “bancos”. Quem carrega a Torah é o “levantador”. O coral ainda executa cânticos em português arcaico. “As diferenças entre os diferentes grupos de judeus pelo mundo não têm a ver com questões teológicas, mas históricas e de costumes, como algumas orações e rituais específicos; com roupas, comidas e inclusive línguas diferentes, apesar de o hebraico ser o idioma base dos ortodoxos. Os judeus portugueses tiveram uma forte influência da cultura católica portuguesa, que foi perpetuada em Amsterdã e Hamburgo”, afirma o professor da Unifesp Bruno Feitler. Segundo Daniel Breda, do Arquivo Histórico Judaico no Recife, cristãos-novos portugueses adotaram nomes portugueses. Feitler acrescenta que “alguns dos convertidos espanhóis adotaram sobrenomes específicos, como Santa Fé, mas a maioria dos convertidos simplesmente tomou sobrenomes comuns ou de padrinhos. Há casos de inquisidores julgando judeus que tinham o mesmo sobrenome que eles! A ideia de que sobrenomes portugueses baseados em nome de árvore ou animal têm origem judaica é mito infundado”. / G.C.N 29


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CAPA: ARQUEOLOGIA

A peça glíptica de Ammaia, no Algarve, Portugal. Séc. II D.C. O vestígio mais antigo, encontrado até agora, da presença judaica em Sefarad (Península Ibérica) 30 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018


O Mais Antigo Vestígio Judaico na Península Ibérica 1

São bastante antigas as referências literárias à riqueza da Península Ibérica (em especial às da Andaluzia) que a ela atraíam povos longínquos. Dos seus metais preciosos nos falam crónicas de viajantes orientais. Às naves de Tarschisch se refere a Bíblia Graça Cravinho (Doutoranda em Arqueologia e História da Antiguidade, na Universidade de Santiago de Compostela)

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CAPA: ARQUEOLOGIA

Sítio arqueológico a antiga cidade romana de Ammaia

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as, quando situar exactamente a vinda dos Judeus? Se eliminarmos a lenda que a faz remontar à época de Nabucodonosor, rei dos Caldeus (Séc. VI a.C.), teremos que, forçosamente, cingir-nos aos documentos escritos e aos vestígios materiais. De facto, já Lucien Febvre afimava: “A História faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando os há. Mas pode fazer-se, deve-se a todo o custo tentar fazê-la sem documentos 32 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

escritos, caso eles não existam. Com tudo o que o engenho do historiador pode permitirlhe utilizar (…). Com palavras, sinais, paisagens e telhas (…). Numa palavra, com tudo o que sendo do Homem, serve o Homem, significa a presença, a actividade, as preferências e as maneiras de ser do Homem”. Ora, entre esses vestígios materiais que nos atestam a remota presença judaica no actual território português, há uma pequenina peça


glíptica, encontrada nas ruínas da cidade romana de Ammaia (em pleno Alto-Alentejo, não longe de Marvão), datável do Séc. II d.C. Neste caso, o que nos permite “fazer História” é o seu estudo iconográfico e a técnica de gravação. Mas, o que é uma peça glíptica? A palavra Glíptica deriva do verbo grego gluptw, que significa a arte de gravar pedras duras (isto é, gemas) por incisão (no caso dos entalhes).

Mais tarde, porém, viria também a designar o trabalho de desbaste, em camadas, das pedras polícromas (como a ágata, o ónix e o sardónix) de modo a fazer sobressair as figuras talhadas em relevo (no caso dos camafeus)2. Objectos pequeníssimos e de trabalho minucioso, entalhes e camafeus são hoje elementos arqueológicos importantíssimos: quer para a reconstituição de rotas comerciais quer para o conhecimento da espiritualidade e do nível sócio-económico e cultural dos povos que os usaram, nas mais diversas e longínquas regiões do Império Romano em que têm sido exumados. Os temas que ostentam constituem o maior reportório artístico romano: cópias de grandes obras-primas da escultura clássica; cenas históricas, lendárias, mitológicas e da vida quotidiana; retratos; animais, plantas, objectos, símbolos, alegorias; máscaras, seres monstruosos e grotescos (grylloi) ou ligados à magia; inscrições – gravadas em positivo (com saudações dirigidas ao seu possuidor) ou em negativo (com o nome do artista ou do proprietário da gema, conferindo-lhe, neste caso, o carácter de sinete). É um vasto mundo iconográfico que podemos agrupar consoante a natureza dos temas, comuns, na sua maioria, à dos cunhos monetários (que, para além de um dado cronológico importantíssimo, nos permitem a identificação dos personagens retratados, sobretudo os de figuras políticas). Na posse da Drª Delmira Maçãs que, gentilmente, nos facultou o seu estudo, este interessante e raro entalhe de Ammaia (fig. 1), que teria estado engastado num anel, dános importantes informações3. E mais daria se tivesse sido encontrado em contexto arqueológico e não (como foi o caso) tivesse sido recolhido por um lavrador, num canal de rega. Onde teria sido produzido? Localmente? Ou teria sido trazido de Israel, do Norte de África ou de Roma (onde existia a maior concentração de 33


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CAPA: ARQUEOLOGIA

judeus), donde temos vários artefactos (embora não gemas) com a representação do Menorah e dos restantes símbolos e, nalguns casos, ainda a Macheta (incensório)? Na opinião da arqueóloga israelita Shua AmoraiStark, a simples presença do Menorah, parece demonstrar, só por si, se não a existência de uma comunidade judaica nesta cidade romana, pelo menos, a de um judeu, entre os séculos II e IV d.C.4 E isso porque os motivos gravados nas peças glípticas de época romana tinham sempre um significado especial para o seu portador: o seu deus protector (Júpiter, Minerva, Mercúrio), o animal que lhe estava associado e que o simbolizava (águia, coruja e galo, respectivamente), o seu herói preferido (Aquiles), a sua profissão (auriga, actor), a base da sua economia (espiga, bovídeo, caprídeo) ou as suas crenças (como o peixe e a âncora, em tempos e lugares em que o Cristianismo estava a implantar-se). Custaria, portanto, a crer que esta pedra de anel tivesse sido usada por alguém que não professasse a religião judaica… Sobretudo porque, para além do Menorah (o candelabro do Templo de Salomão, que igualmente aparece em relevos5, mosaicos6 e moedas7), outros elementos de inegável simbolismo judaico estão representados: - o Shofar (chifre de carneiro), que era tocado nas cerimónias do Templo, no Dia de Ano Novo (Rosh Hashana) e no Dia do Perdão (Yom Kippur); o Ethrog (limão), que é tido como um símbolo da fertilidade, já que a sua árvore produz fruto durante todo o ano e o seu órgão feminino (pittom ou stigma) permanece agarrado ao fruto mesmo depois de este ter sido apanhado e, nalguns casos, dele sai mesmo proeminentemente (o que mais reforça a sua simbologia). Por outro lado, por ter bom sabor e bom cheiro, representa 34 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

a pessoa com sabedoria e boas acções; o Lulav (palma), que era, tal como no mundo greco- romano, um símbolo da vitória (como a que os Judeus haviam obtido frente aos Gregos, segundo o Livro dos Macabeus). Motivo intimamente ligado ao Templo e, tal como o Ethrog, ao Festival de Sukkot (Festival dos Tabernáculos, que comemora os 40 anos durante os quais os filhos de Israel andaram perdidos no deserto), a palma aparece em artefactos posteriores ao Segundo Templo, sobretudo tardo-romanos e bizantinos: objectos em vidro e cerâmica, mosaicos e lucernas. Num sentido simbólico, ela oferece chaves importantes sobre o modo de alcançar a alegria através das relações humanas e, segundo os cabalistas, as suas quatro espécies representam as quatro espécies de judeus. Comestível mas sem cheiro, ela simboliza uma pessoa com sabedoria mas sem boas acções. Porém, já no Séc. II e nos inícios do período bizantino, tanto o Menorah, como outros símbolos, personagens (como Salomão) e palavras de origem judaica (como IAW e IOW, usadas para reproduzir a palavra “Jehova”) aparecem em abraxas (amuletos)8 que não eram necessariamente usadas por Judeus… Contudo, a natureza da pedra dessas gemas mágicas é diferente: ou é jaspe (vermelho, verde ou sanguíneo) ou hematite ou lápis-lazuli ou, mais raramente, cornalina. Estilisticamente, este Menorah, apoiado em três pés, com as suas velas acesas e o tronco e os sete braços lisos, sem qualquer decoração, tem paralelos em artefactos provenientes da necrópole de Beit Shearim (Israel), datáveis de finais do Séc. II ao Séc. IV d.C. Mas aparece também numa cornalina de finais do Séc. I-II d.C, encontrada em Aquileia (Itália) e actualmente no Museu de Viena, associado a outros objectos simbólicos. Quanto à pedra utilizada (o nicolo), é uma gema opaca, constituída por uma camada de


DESCRIÇÃO DOS ENTALHES Fig. 1 Natureza: nicolo Cor: negro sobreposto por azul muito clarinho, quase cinzento Forma: oval, com perfil de nicolo. Faces: planas. Dimensões: 12,3 mm x 10,8 mm x 3,7 mm. Estado de conservação: bom. Proveniência: Ammaia (Aramenha). Paradeiro actual: colecção particular (Drª Delmira Maçãs). COMBINAÇÃO SIMBÓLICA Ao centro, um menorah de sete braços, aceso, apoiado numa base de três pés. A ladeá-lo, à direita, o lulav (palma) e, à esquerda, o ethrog (limão) e o shofar (chifre de carneiro). Paralelos: ZWIERLEIN-DIEHL (Wien III), p. 123, est. 68, nº 2055 (menorah, ladeado por mesa de três pés, sobreposta por vaso, e uma videira). Cronologia: Séc. II d.C. Bibliografia: NEVES, J. Conceição. Uma Colecção Particular de materiais Romanos da Aramenha. (Tese de Licenciatura não publicada), p. 90, nº 18. Coimbra, 1971. Fig. 2 Natureza: nicolo Cor: negro sobreposto por azul-claro. Forma: oval, com perfil de nicolo. Faces: planas. Dimensões: 9,6 mm x 7 mm x 2,5 mm. Estado de conservação: bom. Proveniência: Ammaia (Aramenha). Paradeiro actual: colecção particular (Drª Delmira Maçãs). LIRA Ocupando todo o campo da gema uma lira. Paralelos: BREGLIA (Napoli), p. 74, nº 597. SENA CHIESA (Aquileia), p. 415, est. LXXVI, nº 1508. MAASKANT-KLEIBRINK (Haia), p. 128, nº 170 JOHNS (Snettisham), p. 94, nº 219. AMBRÓSIO-CAROLIS, p. 46, est. X, nº 106.

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CAPA: ARQUEOLOGIA

Vista da cidade de Ammaia, Portugal. Antiga cidade romana.

ónix azul-escuro, quase negro, sobreposta por uma ágata azul-clara ou acinzentada. Usada, em Glíptica, desde finais do Séc. I a.C., é a que predomina no Séc. II d.C. E perdurará ao longo de todo o Império, pelo belo efeito decorativo proporcionado pelos seus dois tons. Contudo, o seu uso, em Ammaia, é já atestado no Séc. I d.C., por um anel em ouro, datável da primeira era imperial (período Tibério-Flávio), em cuja pedra engastada figura uma cabeça de criança, exactamente como num exemplar encontrado em Pompeia9. Mas, e se num outro nicolo, igualmente encontrado em Ammaia (fig. 2), a lira gravada pudesse também conter um simbolismo judaico? Segundo a mitologia grega, a invenção da lira é atribuída ao deus Hermes (Mercúrio, para os Romanos) que, na sequência do sacrifício de dois bois, ao regressar à caverna onde 36 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

nascera (no Monte Cirene, no Sul da Arcádia), viu à sua entrada uma tartaruga. Decidiu, então, esvaziá-la e esticar, sobre a cavidade aberta da sua carapaça, umas cordas (provenientes dos intestinos dos bois). E, assim teria criado a primeira lira. Motivo iconográfico já presente em 10 escarabóides grego-persas e em cunhos glípticos e monetários de época romana (caso do reverso de moedas republicanas11 e de Augusto), neles a lira aparece formada por uma carapaça de tartaruga, pelas cordas (supostamente feitas dos intestinos dos bois) e, nalguns casos, por dois golfinhos dispostos ao alto, de um e de outro lado12. Mas, também entre os Judeus, a lira (Kinor) constituiu um objecto cheio de simbolismo: era o tipo de harpa que o rei David tocava para o rei Saúl (para acalmar o seu espírito atormentado) e um dos instrumentos musicais usados no


legenda “Rei David”, a lira que Orfeu segura, embora diferente, não foge muito a este tipo. Mas há que analisá-la mais detalhadamente. Curiosamente, não se conhece nenhum artefacto em que a Kinor apareça como símbolo único e sem o nome do rei David associado. Mas, alguma vez teria que ser a primeira… Por outro lado, ainda, é de excluir totalmente a possibilidade de estas gemas datarem da Renascença ou post-Renascença, porque, para alémdatécnicadegravaçãoser,incontestavelmente, antiga, a última coisa que um judeu faria nesse período seria ostentar publicamente símbolos que denunciassem a sua Fé…

1 Conferência proferida pela autora no “6.º ENCONTRO CULTURAL SAM LEVY”, no dia 21 de Novembro de 2004.

Templo para acompanhar o canto dos salmos. Todavia, se observarmos com atenção, estilisticamente a lira gravada neste entalhe nada tem a ver com a que aparece em gemas e moedas romanas. Além do mais, a técnica de gravação indica ser obra da mesma oficina da outra que ostenta o Menorah – o que pode ser ainda mais significativo… E, se, de facto, ambas foram feitas na mesma oficina e/ou para a mesma comunidade, então a lira pode, efectivamente, representar a lira do rei David e em Ammaia haveria mesmo uma comunidade judia!' Se bem que, por outro lado, esta lira possa ser a de Orfeu, que foi copiada na Arte Judaica nas representações de David. Uma Kinor semelhante aparece nas suas mãos no fresco da sinagoga Dura Evropus (de meados do Séc. III d.C.), em que David assume o papel de Orfeu tocando para os animais. E na cena de um mosaico da Sinagoga de Gaza (do Séc. IV d.C.), com a

2 Muito embora, entre os Gregos, houvesse já palavras distintas para os dois processos: diaglufh (diaglíptica), para o entalhe, e anaglufh (anaglíptica), para o camafeu. 3 Cumpre-me agradecer à Professora Doutora Shua Amorai-Stark, distinta arqueóloga israelita e especialista em Glíptica, toda a colaboração prestada na discussão dos entalhes que ora se apresentam. 4 E isso porque, no Séc. V, a Igreja proibiu o uso de muitos símbolos judaicos e pagãos nos objectos de adorno pessoal e sinetes 5 KOSHAV, p. 80; p. 217; p. 224 6 Idem, p. 218-219; p. 258 7 Idem, p. 58 (40 – 37 a.C.) 8 MICHEL-ZAZOFF (British), nºs 472 (Séc. IV d.C.); 473 (moderna?) 9 AMBRÓSIO-CAROLIS, p. 45, est. IX, nº 99 10 HENIG (Fitzwilliam), nº 59 (do Séc. V-IV a.C., sobreposta por uma ave) 11 STERNBERG, nº 214 (de c. 235 a.C.) 12 GRAMATOPOL (Académie), nº 629; CASAL GARCIA (Madrid), nº 115; 37


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CAPA: ARQUEOLOGIA

OS MAIS ANTIGOS VESTÍGIOS JUDAICOS NA PENÍNSULA IBÉRICA: Uma arquelogia das origens Trata-se de uma placa de mármore que, ao que tudo indica, terá sido uma lápide funerária e que data, no mínimo, do fim do século IV da nossa era

Vista da Cidade De Silves, Algarve Portugal

Quem terá sido Yehiel? Talvez um escravo judeu que viveu - e morreu - há mais de 1600 anos numa sumptuosa vila romana (uma casa senhorial) perto de Silves, no Algarve? Talvez nunca venha a saber-se. Mas o que parece estar garantido é que a descoberta agora anunciada por arqueólogos alemães, realizada em colaboração com arqueólogos portugueses, representa o mais antigo vestígio cultural judaico jamais encontrado na Península Ibérica.A equipa de Dennis Graen, da Universidade Friedrich Schiller de Jena, na Alemanha, desde 2008 que escava as ruínas de uma vila romana descoberta em 2005 por Jorge Correia no sítio das Cortes, próximo de São Bartolomeu de Messines e da Estrada Nacional 124.

À vista encontram-se as estruturas da vila romana, com mais de cem metros quadrados, que teriam sido destinadas ao curral e outras instalações de apoio aos animais.Para a presidente da Câmara de Silves, Isabel Soares, afirma propósito do novo achado na vila romana: «A comunidade judaica não deixará certamente de se identificar com este local.»A placa, de mármore, mede 40 centímetros por 60 e nela lê-se o nome «Yehiel» (um nome mencionado na Bíblia), seguido de uma série de letras cuja decifração ainda está em curso. Hastes de veado descobertas junto da lápide, que foram entretanto datadas por radiocarbono, remontam ao ano 390 da era cristã, o que sugere que a lápide não pode ser posterior a essa data.Até aqui, o vestígio arqueológico mais antigo deixado por judeus no actual território de Portugal era uma lápide funerária com uma inscrição em latim e uma gravura de uma menorá (candelabro de sete braços) datada de quase cem anos mais tarde: 482 d.C. «Essa lápide foi encontrada na basílica paleocristã de Mértola, no Sudeste do Alentejo», diz-nos ainda Graen. Há também duas inscrições em hebraico que, salienta o investigador, «datam provavelmente dos séculos VII ou VIII e foram descobertas em Espiche (Lagos) no século XIX».

| USfde | ANO 38 laje 1 - Nº 1 | JULHO 2018 A Yehiel (Crédito da foto: Foto: Dennis Graen / FSU)


Duas gravuras em pedra, encontradas na Basília de Mértola, no Alentejo. A primeira, com datação explícita de 482 DC.

PROF. Dennis Graen – Universidade de Jena, Alemanha. Líder da equipe de arqueólogos que trabalham no sítio arqueológico da Vila Romana de Silves Isabel Soares: Presidente da Câmara de Silves

Perguntamos-lhe: poderá Yehiel ter sido um escravo a viver na casa de Cortes naquela altura? «Sim, seria uma possibilidade», responde. «Mas talvez o dono da casa fosse judeu - ou, mais provavelmente, talvez tenha havido um cemitério na proximidade da casa e a lápide veio dali.» Por que é que ainda não foi possível decifrar toda a inscrição? «A má qualidade dificulta a decifração», diz Graen. «Mas fui contactado ainda hoje [ontem] por mais um perito que me garante que consegue ler «O judeu recebeu a bênção do céu».»

Pedra tumular hebraica do século VI - VII (?), Espiche – Lagos, Portugal

Porém, Graen frisa que a inscrição não estará em hebraico: «Foi provavelmente escrita em aramaico ou noutra língua semita.» Mas de uma coisa ele não tem dúvidas: «É a lápide do túmulo de um homem da Judeia e, portanto, um dos mais antigos vestígios deixados por um judeu na Península Ibérica”

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MEMร“RIA

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DE VOLTA A TOLEDO Todos recomendaram ,não deixe de ir a Toledo ...de repente, uma curva do caminho revela ao longe elegante calota esférica sobre suave elevação ,o casario denunciando que ali estava uma parcela do Patrimônio da Humanidade... Por Israel Blayberg

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MEMÓRIA

E

moldurada pelo Rio Tejo, que descreve um elegante meandro por quase toda sua periferia, do lado aonde ele não corre o famoso Alcázar de Toledo guarnece o único acesso terrestre. O casco histórico ocupa uma área relativamente pequena. Do centro, onde fica a Catedral, alcança-se rapidamente a Juderia, o antigo bairro judeu, naquela que um dia fora conhecida como a Jerusalém do Ocidente, berço de sábios rabinos. O dia está particularmente frio. Havia nevado um pouco, o que não é muito comum. A baixa temperatura afugenta os turistas, assim percorro quase sozinho as ruelas onde antigamente efervescia a vida da Toledo Judaica. Tudo estaria exatamente como há 500 anos, não fora alguns poucos carros que lentamente se esgueiram entre as paredes. Algumas vielas são tão estreitas que abrindo os braços consigo tocar as duas paredes... No inverno os dias são curtos, e ao entardecer sem sol, as sombras dos prédios de no máximo dois andares escurecem a Juderia. Percebo que estou sozinho perdido no silêncio ... o clima me faz divagar, como se estivesse realmente naquele passado distante...

acompanham. Chego a imaginar que me roçam os ombros. Tenho uma estranha sensação de que não é a primeira vez que passo por aquelas vielas... A multidão segue em silêncio, não se ouve aquele burburinho característico dos ajuntamentos judaicos. Afinal, estavam deixando a Pátria, apesar de tudo... Assim como Samuel, que acolheu El Greco em sua casa, também sou um Levita, Um gene perdido despertou em mim em plena Juderia. Sim, eu estive ali, no meio das filas dos irmãos que partiam ... meus antepassados haviam chegado pouco depois do inicio da Diáspora Judaica no ano 70 DC... mas ainda não terminara a busca do nosso destino ... Corria o ano de 1492. Madrid era ainda um pequeno povoado desconhecido. Na Corte de Toledo, os Reis Católicos Fernando de Aragon e Isabel de Castilla haviam resolvido expulsar os judeus de Espanha. Numa última tentativa, o Conselheiro Real Isac Abravanel tenta reverter o decreto. A súplica de Abravanel não fora em vão... elevando-se ao firmamento, durante cinco séculos ressoou pelos buracos negros do

Parece-me que a qualquer momento algum judeu poderia sair de uma daquelas esquinas, quem sabe a figura serena de Samuel HaLevy, o Embaixador e Tesoureiro d El Rey Pedro I de Castilla. Estou percorrendo as mesmas ruas por onde nossos irmãos e irmãs abandonaram penosamente Toledo em direção ao exílio. As ruas estão cada vez mais desertas, dado o frio intenso. Mas estariam mesmo? Sinto que me 42 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

Vista geral de Toledo, a “Jerusalém de Sefarad”


Universo, ate que um dia encontrou bons ouvidos ... Isac Abravanel nunca imaginou... mas um dia em terras de España haveria de reinar um soberano justo e humano, Juan Carlos I, de Bourbon e Battenberg, que aos 31 de marco de 1992 adentraria em Madrid a primeira sinagoga erguida em Espanha nos últimos cinco séculos, e diante da sua Reina Sofia, do General Chaim Herzog, Presidente do Estado de Israel, e de um punhado de descendentes daqueles mesmos judeus expulsos pelo Reis Católicos, declararia ao Mundo seu desejo real de que a Paz viesse para todos os Povos... A noite vem chegando. Preciso retornar a Madrid. Procuro a saída da Juderia. Mais uma vez sinto que me acompanham. Toledo é uma cidade plena de lendas. Nem todos gostam de passar de noite por perto do antigo anfiteatro romano, onde faziam Autos de Fé. Nossos irmãos se foram, mas as criaturas ficaram, e à noite aparecem de quando em quando pelos meandros do Rio Tejo.

Tangidos pela intolerância, os judeus de Sefarad se espalharam pelos quatro cantos do mundo civilizado de então.

A Humanidade tanto deve aos que percorrendo o mesmo caminho que hoje trilhei partiram sem saber que um dia seus descendentes, os Sefaradim, tão importante papel desempenhariam, nos negócios, nas artes, na cultura, nas ciências, e que afinal haveriam de retornar à mesmíssima Sefarad, novamente como outrora uma grande nação. ________________________ Fonte: Nosso Jornal Rio nº 82

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ORIENTE Mร‰DIO

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O “LOUCO DE RIAD”, ou o homem mais influente do ORIENTE MÉDIO

Uma análise retrospectiva Mohamad Bin Salman (MBS), já conhecido como “mister everything”, é o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e se converteu em um dos políticos mais influentes do Oriente Médio Por Henrique Cymerman Benarroch Correspondente para o Oriente Médio -Especial para Universo Sefarad

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ORIENTE MÉDIO

Neom uma megalópolis em pleno deserto

O

ministro de defesa mais jovem do mundo, nomeado com apenas 29 anos por seu pai, o rei Salman bin Abdelaziz (de 81 anos), é também, desde meados de 2017 o príncipe herdeir, vice primeiro ministro, presidente da comissão de assuntos políticos e de segurança, e presidente do conselho para questões econômicas e desenvolvimento. Bin Salman representa uma mudança geracional drástica e uma batalha aberta entre tradição e modernidade. Talvez por isso, o príncipe – que alguns de seus inimigos definem como um novato que brinca

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com fogo – dispara em todas as direções. Por um lado, dirige uma coalizão árabe sunita contra os houtis pró iranianos no Yemen; luta em todas as frentes possíveis com uma contundência sem precedentes contra o regime de Teerã e seu braço libanês, o Hezbolá; prendeu parte dos homens mais influentes da Arábia Saudita, acusandoos de corrupção e incentivou uma coalizão de países árabes contra o Daesh. Ao mesmo tempo invoca o fim dos extremismos islâmicos e o retorno à moderação; permitirá as mulheres sauditas dirigir carros a partir de junho de 2018; e tenta construir um sistema econômico que


não dependa unicamente do ouro negro, no qual se apoiou tradicionalmente a economia de seu reino. “ Com toda a honestidade, não vamos passar 30 anos de nossas vidas lidando com ideologias extremistas. Vamos destruílas hoje e imediatamente”, disse recentemente. Esta é somente uma lista parcial dos desafios que enfrenta. Diplomatas ocidentais credenciados em Riad no último ano afirmam a La Vanguardia que é difícil seguir o ritmo das mudanças trepidante que se vive em um país que até a pouco era o mais conservador do mundo. Numa das conferências organizadas por Bin Salman, ele explicou empunhando um smartfone, que personifica a modernização que tenta atingir, frente a um velho telefone Nokia que, segundo ele, representa tudo o que pretende superar. MBS não teme apertar o gatilho. Assim foi como meteu atrás das grades 208 destacadas personalidades, como príncipes milionários e altos cargos do governo, prendendo=os numa cadeia de ouro no hotel Ritz Charlton e outros hotéis da capital saudita.

Faz anos que como parte da luta contra os proxis do Irã e do xiismo, Arábia Saudita aprovou uma resolução na Liga Árabe para definir o Hezbolá como uma organização terrorista. O líder do Hezbolá, Hassan Nasrala, não poupa insultos a MBS, a quem descreve como “o louco de RIad”.

Porém, tanto na capital saudita, como no resto do mundo, todos tem claro que quem tem a última palavra não é o monarca – velho e enfermo -, se não seu filho eleito, que é um homem que mexe os pauzinhos e deixa suas pegadas em toda a região. O caricaturista jordaniano Imad Hajaj reflete em uma de suas obras publicadas na imprensa de Amã, o que pensam sobre o jovem príncipe, alguns, no mundo árabe. “ A aventura de Bin Salman” intitula Hajaj , mostrando um veículo militar saudita com a bandeira do reino e a placa MBS, com o príncipe ao volante e o carro quase capotando, enquanto ele tem a cabeça, um braço e uma perna fora do carro e ri a gargalhadas. Tanto os jovens sauditas que o amam – mais de 50% dos cidadãos do reino tem menos de 25 anos – como aqueles que o odeiam fora do reino, tem claro quem em Riad nasceu um líder revolucionário com grande poder. Até 23 de janeiro de 2015, MBS passava despercebido. Nessa mesma manhã, entrou no mapa político. Após a morte do rei Abdallah, iniciou seu próprio caminho rumo ao trono. Salman o herdeiro e novo rei, nomeou o seu sexto filho como o ministro da defesa mais jovem do mundo e o chefe de seu gabinete na casa real. Meses depois, MBS criou uma coalizão militar com outros países árabes para salvar o regime do presidente do Iêmen. O governo foi derrubado em função de ações dos revolucionários chiitas Houtis, que desde então gozam do apoio de Teerã e conquistaram amplos territórios no norte do Iêmen. Arábia Saudita se encontrou frente a uma força pro-chiita poderosa em seu pátio traseiro e recrutou os países sunitas árabes para lançar s bombardeios sobre o Imen. Segundo a ONU, morre uma média de 100 civis por mês no devastado país vizinho. Em março 47


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ORIENTE MÉDIO

de 2017, por ocasião do segundo aniversário do conflito no Iemen, a ONU assinalou que 4.773 civis morreram pelos bombardeios e segundo a UNICEF, 1.000 crianças morrem, semanalmente, por enfermidades e desnutrição. Um mês depois, o rei Salman nomeou seu filho número 2 na linha de sucessão; Assim foi como MBS se converteu no primeiro neto da casa real saudita, candidato a converter-se em futuro rei.

Nesse mesmo, 2015, os confrontos entre Arábia Saudita e Irã, levaram à ruptura das relações diplomáticas. Nesse mesmo ano, em outra frente, foi criada uma coalizão de países muçulmanos contra o Daesh, para mostrar que os sauditas se opõem ao terror islâmico radical e lutam contra ele. Em abril de 2016, MBS, pôs foco nos temas econômicos e aprovou o plano “Visão 2030”. O projeto pretende diversificar a economia e reduzir a futura dependência do petróleo, cujos preços estão caindo (em 2104, um barril custava 100 dólares e nos últimos tempos rondava os 55). Pretende colocar milhares de mulheres no mercado de trabalho, atrair investimento estrangeiro, trocar os numerosos trabalhadores estrangeiros por mão de obra local e desenvolver uma indústria militar própria. Uma das revoluções mais visíveis é a criação, por primeira vez na história saudita, da “Autoridade do Entrenimento” que promove a construção de cinemas e teatros em todo o reino, assim como, grandes produções internacionais, como a dedicada a “Al-Andalus”, a mítica Península Ibérica que foi ocupada e governada por muçulmanos durante quase 800 anos. Por primeira vez, também foram organizados concertos de música. Atualmente, 70% dos sauditas que trabalham, vive da indústria do petróleo, de forma direta ou indireta. Os auditas não pagam impostos e 48 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

recebem educação e serviço médico gratuita, assim como todo tipo de subvenções. O objetivo de MBS é criar 20.000 postos de trabalho domético e 256.000 novos empregos no setor da construção, até 2020. Numa recente conferência de negócios destinada a investidores estrangeiros, MBS apresentou a “jóia da coroa”, a cidade do futuro que será construída no deserto a noroeste do país, com um território que corresponde ao do Estado de Israel, Cisjordania e Gaza. Esta cidade ultramoderna, baseada nas tecnologias mais avançadas do mundo, se chamará Neom (novo futuro). A urbe se extenderá, também, até a Jordânia e Egito – países aliados -, e se converterá numa mega metrópole que servirá de capital econômica da região, na qual os sauditas investirão 500 bilhões de dólares.

Como parte de sua estratégia, Bin Salman desenvolveu excelentes relações com personalidades israelenses, especialmente do mundo da segurança e dos negócios, já que crê que a proposta de paz saudita de 2002 – convertida em proposta árabe - é a chave para tentar chegar a acordos no Oriente Médio. Conjuntamente com Israel, acredita que tudo o que sirva para debilitar a seu arqui-inimigo iraniano e seus aliados es desejável. “Como


podemos chegar a um acordo com um regime cuja crença se baseia numa ideologia radical?”, se pergunta Bin Salman em distintas entrevistas. “Sabemos que somos um objetivo do regime iraniano e que eles pretendem apoderar-se de Meca. Não esperaremos que a guerra chegue ou alcance o território saudita. Atuaremos para que a luta tenha lugar lá no Irã, sentenciou MBS. O braço saudi é cada vez mais longo e alcança, inclusive, Beirute, num incidente que só agora começa a se aclarar. O primeiro ministro libanês, Saad Harari, aterrissou em Riad para uma visita oficial. No segundo dia, vestido com jeans e camisa informal, esperava passar um dia

relaxado no deserto com o príncipe Bin Salman. Porém sucedeu algo imprevisto: foi-lhe tirado seu telefone, separado de sua guarda pessoal e insultado por agentes sauditas. Ato contínuo, foi forçado a ler um discurso na televisão saudita no qual anunciava sua renuncia como dirigente do Líbano, e o qual acusava o Irã de interferir na política interna do país. O gesto foi interpretado como um novo movimento do príncipe herdeiro saudita na sua disputa por ganhar hegemonia na região frente ao regime de Teerã. MBS se reuniu com o presidente Trump na Casa Branca antes de sua visita oficial a Riad, em maio de 2017. Após o encontro, Trump anunciou 49


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ORIENTE MÉDIO

uma das maiores vendas de armas da história à Arábia Saudita, num total de 110.000 lilhões de dólares em tanques, artilharia, sistemas de radares, helicópteros Blackhawk e mísseis Patriot. Segundo distintas fontes, assessores israelenses ajudaram Riad em seus sistemas defensivos diante dos ataques com mísseis procedentes do Iêmen, situado a 700 milhas de distância. Os houtis lançaram mais de 180 mísseis sobre a Arábia Saudita, desde que a coalizão árabe começara a luta “para restaurar o governo legítimo do Iêmen” em março de 2015. Segundo os sauditas, os houtis colocaram, também, 50.000 minas terrestres ao longo da fronteira, que foram detectadas e neutralizadas por experts da coalizão. Por outro lado, o “sheriff” Bin Salman, organizou uma frente com Egito, Bahrein e os Emirados árabes Unidos, que cortou as relações com o pequeno emirado do Qatar, por causa de suas relações com o Irã e seu suposto apoio a Inicialmente, o príncipe herdeiro do rei Salman era Mohamed Bin Nayef (58 anos), ministro de segurança interna – que é sobrinho do monarca – e coodenava a luta contra os grupos jihadistas, entre eles, o Daesh. Em junho de 2017, Bin Nayef viu como o rei e seu filho lhe impuseram uma prisão domiciliar, lhe retiraram todos seus cargos oficiais e congelaram sua conta bancária. Para que renunciasse à coroa, foi necessária uma noite inteira de persuasão por parte MBS, e finalmente, este beijou os pés de seu parente, após este afastá-lo com um chute do poder. “Temos que voltar ao Ilâ moderado”, disse MBS em entrevistas e declarações públicas. Segundo wlw, desde 1979 os wahabistas impõem uma visão conservadora do Islã, com interpretações muito estreitas do Al Corão. “ Não soubemos como enfrentar a revolução 50 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

organizações terroristas islâmicas, assim como a utilização do canal de televisão Al Jazeera, como uma arma para desestabilizar os países da região.

Mais da metade dos sauditas tem menos de 25 anos e é no setor jovem que MBS tem mais apoio. A velha guarda, por sua vez, sente que está perdendo a renda e é muito mais cética em relação ao ritmo acelerado imposto por Bin Salman. David Ottaway, expert em assuntos sauditas, comentou recentemente, que ‘nada como isso aconteceu, jamais, na história da Arábia Saudita, num momento em que o reino aproxima=se águas desconhecidas, com consequências imprevistas”. Todas estas ações podem afetar a estabilidade da casa dos Saud nos próximos anos e provavelmente a de todo o mundo árabe sunita e, porque não, a do Oriente Médio. iraniana de 1979, e por isso optamos pelo conservadorismo. Por isso agora devemos voltar ao Islã moderado, aberto a todo o mundo e todas as regiões. Esperamos que o mundo nos apoie” , opina o jovem príncipe. Desde então, foram aprovadas uma série de leis que limitam o poder da polícia moral e que suavizam a discriminação contra as mulheres, praticada durante décadas. MBS não é um democrata ou um defensor dos direitos humanos, mas sim, um jovem e inteligente político que intui as mudanças que acontecem no Oriente Médio nos últimos anos, desde a chamada Primavera Árabe e que tenta abrir caminho até o poder. Porém não duvida em utilizar uma mão de ferro contra todo aquele que cruze o seu caminho. E a pesar de falar de austeridade, possui mansões e iates avaliados em centenas de milhões de dólares.


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TRADIÇÃO

Daf…

O AROMA DA HARMONIA!

Há alguns anos atrás eu escrevi um artigo sobre a culinária dos judeus marroquinos na Amazônia que está publicado no portal da Amazônia Judaica. Foi um texto que eu gostei muito de escrever e foi quando me dei conta de como deveria ser difícil preparar essas iguarias marroquinas naqueles lugares longínquos, bem distantes do Marrocos Por Renato Athias*, 25 de novembro de 2017

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E

Sabemos que este prato é proveniente da península ibérica, levado para o Marrocos com a expulsão dos Judeus de Portugal e Espanha, em 1492. A interpretação mais aceita é que essa palavra vem do judeo-árabe, addafína, que deriva do árabe clássico “dafīnah” que significa “escondido” ou “enterrado”, como nos conta Ana M. Gomez-Bravo em seu texto sobre “A história por detrás da receita”.(*) Esta etimologia faz sentido, uma vez que a addafina se cozinha por muitas horas sem intervenção, em uma mesma panela coberta, colocada encima de uma placa de ferro em um fogão, cozinhando lentamente até o momento da refeição do shabat. Os judeus sefarditas do Marrocos ainda preparam suas adafinas, t’finas, Skhrinas ou hamim, dessa maneira.

Evidentemente, naquele texto, eu não poderia deixar de fora um prato muito famoso e tão comentado em todo mundo sefaradita e, sobretudo, tão saboroso como addafina, ou dafina, ou simplesmente “ daf ” como meus primos costumam chamar. Meu pai, me disse recentemente que sente ainda hoje o aroma e o sabor da adafina preparada pela sua mãe e seu pai desde quando ele era um garoto em Oriximiná, no Pará. Foi a mesma coisa que Ilan Buhbut, filho de maroquinos, morando na Alemanha me disse, esse ano em Colônia, quando comeu a dafina que preparei na casa de meus amigos Gisela e Tadeu. O aroma é realmente inesquecível. Durante os anos oitenta, quando eu ainda morava em Paris, este era o meu prato mais esperado do Shabat,

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TRADIÇÃO

nas casas de minhas primas Georgette Athias Fhima, carinhosamente chamada de Joah e de sua filha Gisèlle, nascidas em Salé, ambas preparam uma excelente adafina, para ninguém por defeito. No início dos anos noventa, Yuddah, de abençoada memória, nosso primo de Salé, e eu, viajamos para Alenquer (lugar onde passei minha infância, onde nasceu minha mãe, de saudosa lembrança, e lugar de meus avós (paterno e materno) na Amazônia), e foi nessa ocasião que ele e eu preparamos uma addafina (evidentemente no estilo dele) na casa da minha tia Ruth e Dilson de abençoada memória. Yuddah, neto e filho de açougueiros escolheu um pedaço da carne super bem apropriada, ele mesmo entrou no açougue e cortou o pedaço que precisava. Em Alenquer eu senti as mesmas dificuldades das mulheres em buscar os ingredientes no mercado. Não achávamos o que nós precisávamos. Enfim, saiu uma addafina bem saborosa. Foi desde esse dia, que eu comecei também a preparar, sempre que podia a adafina em diferentes lugares. Foi justamente meu primo Yuddah que

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me “desmitificou”, pois para mim a logística do preparo da adafina carece de uma grande habilidade, pois eu sempre pensava quão complicado era a preparação desse alimento que faz parte do mundo do shabat. Claro, a minha addafina jamais sairá, tenho certeza, como aquela de Joah ou a de Gisèlle, que, continuam tendo na minha opinião, a melhor pontuação. E, olha que eu já comi a adafina em muitos lugares nesse planeta. Atualmente eu estou em Williamsburg (VA) nos EUA e quando eu disse para Jack Farraj que eu ia preparar um jantar no domingo. Ele olhando para mim disse: “uma feijoada bem brasileira eu imagino”. Eu lhe disse que iria preparar uma addafina bem marroquina. Ele me olhando na cara, disse: “durante 40 anos eu comi e continuo com o aroma da addafina da casa de meus pais”. Não entendi se ele ficou decepcionado ou alegre, em seguida ele falou que ele poderia comparar. Pois é exatamente isso que todos nós fazemos depois de deliciar uma addafina: é dizer para os outros onde se comeu a mais saborosa.


Hoje, junto com meu amigo Bill Fisher fomos ao mercado de Williamsburg comprar os ingredientes para cozinhar a minha receita da addafina para os amigos. Senti novamente o que eu havia experienciado no mercado de Alenquer, certa dificuldade para achar os ingredientes que precisava para fazer a minha receita, que depois de algum tempo já é mais uma mistura das receitas de Yuddah, de Joah e de Gisèlle. A gente vai ficando velho e as lembranças bem do fundo do coração vem para a superfície. Eu fui longe hoje. Eu me lembrei de Beer Sheva, no início dos anos oitenta, na casa de meu tio-avô Eli de abençoada

memória, também de Salé, sentados na mesa saboreando uma addafina, preparada pela sua esposa, Mesody, ele se vira e diz para mim em uma voz baixa como se fosse confidenciar um segredo: “olha, rapaz, preste atenção, pelo aroma da addafina pode-se perceber a harmonia de um lar”. ________________________ * Renato Athias, Professor no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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CRร”NICA

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Memória e preservação:

UMA CONVERSA ENTRE PARES

Ontem, reencontrei um antigo companheiro de luta pela causa da cultura sefaradí, o doce amigo, Dr. Luiz Benyosef Graça Cravinho Elias Salgado

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CRÔNICA

N

os conhecemos no final dos anos 90 no escritório de Alberto Nasser, levados, nós e outros «sfatas» (palavra formada pelas iniciais de sefaradís autênticos, em língua hebraica), pelo entusiasmo de Nelson Menda, para juntos fundarmos o CONFARAD e realizar, no Rio, o seu primeiro congresso. Vem de lá minha admiração por este geofísico, pesquisador titular do Observatório Nacional, um antenado com o universo e amante incondicional das coisas e das causas humanas, em particular as judaico-sefaraditas.

Sempre apreciei em Benyosef, a simplicidade aristocrática de sua sapiência - um jeito «cool”, poderia dizer “kal”, do hebraico leve. Acho que é isso - uma sábia leveza de ser. 58 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

Posso dizer todas estas coisas sobre ele, para só depois lembrar, que como eu, é neto de tangerinos e também ama nossa ancestralidade e toda a sua tradição, mas se o fizesse primeiro, me julgariam suspeito, parcial, tendencioso. Por contingências diversas, nos afastamos um pouco, mas jamais, deixei de seguir suas pegadas. Eu fui tratar da minha paixão deslavada pelo judaísmo amazônico e ele seguiu ativo no CONFARAD, além de fazer um trabalho brilhante como diretor de pequenas comunidades da FIERJ. Foi nesta nova missão que Benyosef, em parceria com o saudoso casal Egon e Frieda Wolff de abençoada memória, “cometeu”, até aqui, na minha humilde opinião, sua maior contribuição à memória da presença judaica-sefaradita em


terras fluminenses: a criação do Memorial Judaico de Vassouras, o qual preside. Para conhecer a dimensão e importância de tão magnífica obra, acesse www.memorialjudaico.org.br/.    Mas voltemos ao nosso (re)encontro. Ele se deu na Adega Portugália, bem ali no tradicional Largo do Machado, outro lugar especial da memória do Rio e da minha pessoal. Falamos sobre isso e também, é claro, da nossa paixão comum: a memória e sua preservação, rememorando nossas origens pessoais comuns, de netos de judeus marroquinos oriundos de Sefarad (Espanha), com Dr. Luiz Benyosef suas particularidades – ele mineiro, cujos avós marroquinos se estabeleceram na Bahia e eu amazonense, cujos avós de mesma origem, se estabeleceram no Amazonas. Quase nada em comum...E para agravar ainda mais, dois grandes contadores de “causos”. E eu, como sempre, não perco o hábito de roubar os causos narrados por outros e registrá-los como um fiel escriba.

Pois vamos à história em questão Me contou Luiz, que em 1998 teve a felicidade de realizar seu sonho de visitar o  local de origem de seus antepassados, o Marrocos. Narrou com o entusiasmo e a graça de contador que lhe é peculiar, a maravilhosa e emocionante experiência ali vivida, e selecionou, como um exímio pescador de ostras seleciona a melhor de suas pérolas, a seguinte passagem da viagem, como destaque. Aconteceu, me contou, que estando em Tanger de nossos avós, resolveu, entre várias visitas, conhecer a sinagoga da família Benatar,

escolhendo como momento oportuno de   ali chegar, a hora da tefilá (oração). Não sei vocês caros leitores, mas eu, muitas vezes não sei o que pensar de certos acontecimentos, tipo aqueles que se assemelham a coisas quase inexplicáveis. Não que eu seja totalmente cético – não se esqueçam da minha ancestralidade espanhola, em cujo idioma há um dito bastante conhecido: “no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.  E mais ainda, da minha vertente marroquina, cuja tradição, entre outros elementos centrais, possui uma forte crença no poder e nas façanhas de seus tzadikim (justos). E para agregar mais “pimenta”, lembro da nossa literatura rabínica, o Talmud, que entre várias coisas, afirma o seguinte: o mundo, a cada geração, se mantém de pé, graças à existência de 36 justos ocultos que justificam sua preservação. Mas voltemos ao meu amigo Luiz e sua visita à sinagoga. Me contou que ao chegar naquele recinto sagrado, se deparou com nove homens que o receberam com um misto de euforia e surpresa de quem vê chegar, finalmente, alguém por quem ansiosamente esperavam: “ Oh. finalmente você chegou, já podemos começar, então”. Foi quando ele percebeu que era o décimo homem no lugar e que com ele podiam formar o minian  (quorum mínimo para se rezar coletivamente). Até aí nada demais, certo? Mas acontece que não chegou mais ninguém depois dele...

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O UNIVERSO SEFARAD O que aqui denominamos Universo Sefarad, constitui-se no imenso mosaico de kehilot (comunidades em hebraico), que os judeus sefaraditas (ibéricos), construíram através de séculos da chamada “diáspora sefaradita”, após sua expulsão de Espanha em 1492 e de Portugal em 1947. Elias Salgado

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MARCOS

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ão há quase nenhum país no Ocidente e em parte do Oriente Médio, onde os sefaraditas não se façam presentes: nas Américas, na Europa Ocidental, Central e Oriental, no norte da África e em parte do Oriente Médio, em territórios do antigo Império Otomano. Nestas regiões, eles recriaram toda uma vivência judaica, que em parte, preservou sua origem ibérica, sabendo enriquece-la de elementos da cultura local, em diversos aspectos: na tradição religiosa, na cultura, na aquisição de novos elementos identitários. Criaram novos idiomas (o ladino, djudezmo, haquetía); aprenderam e contribuíram com as línguas de seus novos países, com sua cultura, sua arte, sua literatura e seu desenvolvimento econômico. É sobre este imenso e rico universo, que nossa revista, e em especial, a presente coluna, deseja lhes contar. Aproveitamos para convidar as comunidades (kehilot em hebraico), as entidades, as sinagogas, os centros culturais, os sites e blogs que compõem este universo, para fazer parte desta coluna, contribuindo com notícias, notas, informações, artigos, imagens de eventos e festejos. E as empresas, os profissionais liberais e as famílias, a apoiar nossa revista.

O UNIVERSO SEFARAD E SUAS SINAGOGAS: O surgimento da sinagoga, (tradução grega do termo hebraico Beit Knesset (Casa de Congregação), também denominado, originalmente, de Beit Midrash (Casa de Estudo), representa historicamente o fim da prática de sacrifícios (do latim Sacrificium; literalmente "ofício sagrado") de animais, entre os judeus. No judaísmo, o sacrifício é conhecido como korban, palavra oriunda do hebraico karov, que significa perto (de Deus). Judeus medievais 62 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018

como Rambam (Maimônides) reinterpretaram a necessidade de sacrifícios. Em sua visão, Deus sempre colocava os sacrifícios abaixo de orações e da meditação filosófica. No entanto, Deus entendia que os israelitas estavam acostumados aos sacrifícios animais, que as tribos pagãs realizavam como forma de comunicação com seus deuses. Assim, na visão de Maimônides, era natural que os israelitas acreditassem que o sacrifício fosse necessário na relação entre o homem e Deus. Maimônides concluiu que a decisão de Deus de permitir sacrifícios era uma concessão às limitações psicológicas do homem. Era esperado que os israelitas passassem de sacrifícios à adoração pagã em pouco tempo. Assim, entendemos como o grande filósofo sefaradita, que esta passagem é na verdade uma evolução histórica: a sinagoga substitui o Templo de Jerusalém e a oração os sacrifícios. Seja pela impossibilidade de acesso (durante a primeira diáspora na Babilônia e depois no período greco-romano) ou mesmo para evitar ali estar por discordar da situação de assimilação e corrupção da elite de Jerusalém, bem como para fugir dos conflitos e revoltas contra Roma, alguns segmentos do judaísmo nos referidos períodos, criaram casas de reunião, oração e estudo, que ao longo do tempo se tornaram o que hoje conhecemos como sinagoga: o centro de facto da vida judaica dos praticantes, onde acontecem as orações, estudos, cerimônias e festividades religiosas. Os judeus souberam erguer, ao longo de toda a diáspora e em Israel, sinagogas das mais suntuosas às mais singelas e belas possíveis. Apresentamos, a seguir, uma pequena seleção de sinagogas sefaraditas, de parte da imensa “Diáspora Sefaradita”.


Em Espanha

Sinagoga Santa Maria la Blanca - A mais antiga de Toledo

Sinagoga del Transito - Toledo

Em Israel

Sinagoga em nome de Rabi Iochanan Bem Zakai. Bairro Judeu, Jerusalém

Sinagoga Abuhav em Safed, Israel. Está relacionada com o rabino Aboab da Fonseca, o primeiro do Brasil

Em Portugal Interior da Esnoga de Tomar, Portugal

Interior da Esnoga Shaaré Tikvá de Lisboa

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MARCOS

No Brasil

Fachada da Sinagoga Shaar Hashamaim de Belém

Interior da Sinagoga Beit YaacovRibi Meyr de Manaus

Sinagoga Kahal Tzur Israel. A mais antiga das Américas. Recife

Esnoga Beit Shmuel de Recife

Interior da Esnoga Essel Abraham de Belém. A mais antiga em funcionamento no Brasil 64 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018


Sinagoga Shel Guemilut Hassadim, Rio de Janeiro

Sinagoga Beit Yaacov (Sinagoga Safra de São Paulo )

Sinagoga Edmond J. Safra – Ipanema, Rio de Janeiro

Sinagoga Israelita Brasileira, Mooca, São Paulo

Sinagoga Ohel Yaacov ( Sinagoga da Abolição), São Paulo

Sinagoga Centro Hebraico Riograndense, Porto Alegre 65


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MENSAGENS

Desejamos sucesso a mais essa iniciativa de preservação do Judaísmo Sefaradi no Brasil. Anne, Jaime e José Benchimol Rebeca, Joshua, Benjamin e Daniel Neman

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PARABÉNS À TALU CULTURAL PELO LANÇAMENTO DA UNIVERSO SEFARAD BENI ALTER E FAMÍLIA

Vida longa para a UNIVERSO SEFARD. Cris, Lia e Fernando Weltman

Parabéns pelo lançamento da revista UNIVERSO SEFARAD Marcia Carmo

Êxito a mais este grande empreendimento Cultural. Salve UNIVERSO SEFARAD Claudia Caro

Bela iniciativa cultural. Sucesso, UNIVERSO SEFARAD Família de Cusatis

Parabéns por mais esta importante iniciativa cultural. Sucesso UNIVERSO SEFARAD Família Blanco Erbisti

Chazak Ubaruch! Sucesso para a UNIVERSO SEFARAD Sergio Benchimol e família

Felicitamos a TALU CULTURAL pelo lançamento da UNIVERSO SEFARAD Dr. Isaac Dahan e família

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PELAS KEHILOT

CIAM COMITÊ ISRAELITA DO AMAZONAS

Comunidade Israelita de Manaus – um mosaico de gentes, uma identidade e longas raízes judaicas. O Comitê Israelita do Amazonas foi fundado em 15/06/1929 quando então já funcionava a primeira Sinagoga local em 1925, a Beit Yaacov e a seguir foi fundada em 1937, a Sinagoga Rabi Meyr, que foram fundidas em um só grande e novo Templo em janeiro de 1962, tornandose desde então o orgulho dos judeus amazonenses e local principal das reuniões religiosas com funcionamento completo aos Sábados, todas as demais festividades religiosas e Shachrit semanal às quintas-feiras. É motivo de admiração para os que visitam nossa cidade, encontrar, no coração da floresta, descendentes de uma rica história que só a perseverança e o amor a Deus e à Amazônia puderam manter vivas.

A Comunidade de Manaus na Atualidade: Depois de mais de 200 anos do início da imigração judaica para o Norte, a kehilá de Manaus é composta por cerca de 200 famílias e possui uma vida judaica rica e variada. O CIAM – Comitê Israelita do Pará, é o órgão máter da comunidade, que conta também com as seguintes instituições: Sinagoga - Beit Yaacob - Rebi Meyr, A Hebraica – Sede Social , Grupo Feminino - Meretz da melhor idade, Grupo Juvenil - Habonim Dror, Escola Judaica Complementar - Jacob Azulay Conheça melhor a Comunidade de Manaus clicando aqui. www.comiteisraelita.com.br (Fonte: Portal Amazônia Judaica: www.amazoniajudaica.org) 68 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018


ATUALIDADES:

No dia 13 de junho passado, uma nova diretoria foi eleita para o próximo biênio. A seguir apresentamos sua composição e desejamos a seus membros pleno sucesso na sua gestão.

DIRETORIA EXECUTIVA: 1) Presidente: Benjamim Saul Benchimol 2) 1º Vice-Presidente: Salomão Israel Benchimol 3) 2º Vice-Presidente: Ezra Azury Benzion 4) 1º Secretário: Anne Benzecry Benchimol (Tradição e Cultura)

CONSELHO CONSULTIVO (10 MEMBROS): 1) Jaime S. Benchimol: Consultor Econômico 2) Lívio B. Assayag: Consultor de Patrimônio 3) Ralph Assayag: Consultor de Relações Públicas 4) Paulo Stelio S. Guimarães: Consultor Jurídico 5) Daniel Amaral: Consultor Financeiro 6) Denise Benchimol de Resende: Consultora de Educação 7) Myriam Koifman: Consultora de Assistência Social

5) 2º Secretário: Patrícia Benoliel (Eventos)

8) Sarah Lea Foinquinos: Consultora de Atividades Sociais

6) Diretor de Sinagoga: Davis Benzecry

9) José B. Benchimol: Consultor de Tecnologia

7) 1º Tesoureiro: Rogério Perales Rabelo

10) Yoram Yaeli: Consultor de Segurança

8) 2º Tesoureiro: Josh Neman

HEBRAICA DIRETORIA EXECUTIVA:

9) Diretora de Assistência Social: Nora Benchimol Minev 10) Diretores de Juventude: Ashira Benchimol / Natanael Yaeli

1) Presidente: David Vidal Israel 2) Vice-Presidente: Ilana Benchimol Minev

11) Diretora de Educação: Kamila Ohana

3) Diretor de Cultura: Nathan Salim Tayah

12) Diretor de Comunicação: Rafael Benzecry

4) Diretor Social Luiz Salama

13) Diretor de Patrimônio: Michel Vidal Israel

5) Diretora de Eventos: Lucia Regina Assayag Benoliel

14) Diretor de Chevrá Kdishá: Abraham Benmuyal

6) Diretor de Esportes: Vitor Benitah

15) 1º Diretor de Culto: Murilo Laredo

7) Diretora de Juventude: Sther Caloba

16) 2º Diretor de Culto: Sérgio Band (Contatos Externos)

CONSELHO CONSULTIVO

17) Diretor de Relações Públicas: Lúcia Assayag 18) Diretores de Segurança: Ariel Amzalak

Nora Benchimol Minev Sonia Cohen Margarida Benchaya Sarah Léa Foinquinos Denise Benchimol de Resende 69


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PELAS KEHILOT

Beit Sh’muel – Memória, Tradição Oral e Identidade

A Esnoga Beit Sh’muel é um importante ponto de encontro do judaísmo da grande Recife para o estudo e aprendizado da Torá, bem como, para a comemoração do ciclo de vida e eventos sociais judaicos da tradição sefaradita. Em 2004 foi estabelecida na rua Marquês de Amorim, com o apoio do Chazan Isaac Essoudry Z”L, com o mesmo grupo que já vinha se reunindo na Sinagoga Israelita do Recife da rua Martins Júnior, desde 1987. E, vem mantendo relações, desde essa época, com importantes personalidades e instituições judaicas no Brasil, em Israel e nos Estados Unidos, principalmente sobre os estudos criptojudaicos. Em 2010, a Esnoga passa a ser mantida pela Associação Israelita Sefaradi Beit Sh’muel de Cultura e Beneficência, devidamente registrada no Cadastro Nacional de Personalidades Jurídicas. A maioria dos membros da Esnoga vem de uma tradição marrana do Recife. O grupo se reúne todos os shabatot, para a Tefilá de Shaharit, o estudo da Torá finalizando com a Havdalá. Até recentemente, orientação dos estudos estava sendo conduzido pelo Chacham Isaac Essoudry Z”L, porém, desde novembro sob a orientação de Odmar Braga. 70 | USf | ANO 1 - Nº 1 | JULHO 2018


Os objetivos da Beit Sh’muel refletem a sabedoria talmúdica de que somos “Shutafim b’ma’aseh bereshit”, parceiros na criação. Isso significa que os membros da Esnoga estão comprometidos em serem parceiros na criação de um mundo de shalom: paz, harmonia e equilíbrio. Fazendo isso através do estudo da Torá segundo tradição sefaradita, e apoiando os esforços locais e mundiais para promover a justiça social. A Esnoga utiliza o nusach marroquino em grande parte dos serviços, bem como, usa a tradição hispano-portuguesa em alguns momentos da tefilá. O sidur adotado pela Beit Shmuel é aquele que foi organizado pelo Rabino Elmescany e o Chazan David Salgado. Evidentemente todos membros estão comprometidos com os treze princípios da fé de acordo com Rambam. É um grupo participativo, pois cada membro é encorajado a contribuir para a vida judaica na Beit Sh’muel, lançando novas atividades sociais e comunitárias.

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ANO 1 No 1 JULHO DE 2018 ISSN 2527-0826

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Universo Sefarad, Julio 2018 - Brasil  
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