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Lili St. Crow


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Lili St. Crow


L ili S t. C row Lili St. Crow


Mundo Real é um lugar apavorante. Pergunte a Dru Anderson, dezesseis anos, órfã, garota durona que encarou sua cota de vilões. Armada e perigosa, ela não vai se entregar sem lutar. Assim, vai levar um tempo até que ela descubra em quem pode confiar... Pobre Dru. Seus pais se foram. Seu melhor e (está bem!) único amigo Graves foi mordido por um lobisomem. E ela acabou de saber que o sangue correndo em suas veias não é totalmente humano. Agora seu estranho e belo salvador, Christophe, a escondeu em uma Schola secreta para djamphir e lobisomens adolescentes. O problema é que ela é a única garota por ali. E sabe quais são as más notícias? O instinto assassino de Dru diz que um de seus colegas de escola quer vê-la morta. Com todos os olhares sobre ela, descobrir um traidor dentro da Ordem significaria muito mais do que suicídio social...


DRU ANDERSON Nテグ TEM MEDO


Lili St. Crow é autora da série Dante Valentine. Ela vive em Vancouver, no estado de Washington, em uma casa cheia de gatos, com seu marido e filhos. Strange Angels é sua primeira série para o público jovem. Visite o site www.lilistcrow.com para saber mais.


Para Gates. N達o solte a linha.


AGRADECIMENTOS

Sem Miriam este livro não aconteceria. Sem Jessica este livro não seria nada. Sem você, querido Leitor, este livro estaria perdido. Obrigada a todos.


O

AMOR É TUDO O QUE VOCÊ AINDA PODE

TRAIR — John le Carré


PRÓLOGO

Os limpadores de para-brisa, pesados por causa da neve, iam e vinham. A respiração misturada de três adolescentes lutava contra o aquecedor. Graças a Deus, a caminhonete ainda estava funcionando, mesmo depois de a terem usado para atravessar uma parede. — Então você está nos mandando para um lugar onde você sabe que há um traidor — o queixo de Graves afundou ainda mais, comprimindo o alto da minha cabeça com mais força. Eu tinha pensado em tudo aquilo e não senti nada além de uma surpresa fraca e tímida. — Eu tenho amigos na Schola; eles vão cuidar dela assim como eu faria. Ela vai estar perfeitamente a salvo. E enquanto estiver lá, ela poderá me ajudar a encontrar quem está passando informações para Sergej. Ela foi recrutada. Graves ficou tenso. — E se ela não quiser? — Então vocês não vão durar uma semana por aí sozinhos. Se Ash não encontrar vocês, outros irão. O segredo foi revelado. Se Sergej sabe, outros chupa-sangues também saberão que há outra svetocha. Eles vão caçá-la e arrancar seu coração. Os limpadores do para-brisa funcionaram. — Dru? Você está me ouvindo? Estou mandando você para um lugar seguro e manterei contato. — Eu acho que ela está ouvindo — suspirou Graves. — E quanto à caminhonete?


E todas as coisas dela? —Vou me certificar de que também cheguem à Schola. A coisa mais importante é tirá-la daqui antes que o sol se ponha e que Sergej possa se levantar fortalecido. Ele não está morto, apenas foi forçado a se esconder num buraco escuro e está com muita raiva. — E como nós vamos... — Quieto — ele não disse aquilo rispidamente ou com maldade, mas Graves se calou. — Dru? Você está ouvindo? Oh, Deus, me deixe em paz. Mas eu levantei a cabeça e olhei para o painel. Não tinha mesmo escolha. O cabelo caía em meu rosto, os cachinhos foram alisados pela umidade e, pelo menos uma vez na vida, estavam comportados. — Hã — parecia que eu tinha alguma coisa pegando na garganta. A palavra era uma simples sombra dela mesma. — Eu ouvi. — Você teve sorte. Se você se meter em um problema desses de novo, eu faço você se arrepender. Entendido? Igualzinho ao meu pai falando. A semelhança foi como um prego no meu peito. — Entendido — consegui responder. Meu corpo todo doía, até meu cabelo. Estava molhada e com frio, e tinha a lembrança dos olhos mortos do chupa-sangue, e aquela voz estranhamente errada e melodiosa enterrada no meu cérebro. Não conseguia parar de pensar nela. Aquela coisa tinha matado meu pai. Transformado-o num zumbi. E minha mãe... — Minha mãe... O mesmo tom de voz rouca e monótona. Em choque. Talvez eu estivesse em estado de choque. Ouvi muita coisa a esse respeito do meu pai. O silêncio ficou mais intenso, mas logo em seguida Christophe teve pena de mim. Quem sabe? Ou talvez ele houvesse entendido que eu tinha o direito de saber, e que agora eu o escutaria. Quando falava, sua voz saía áspera; se era por causa da dor ou do frio, eu não tinha como adivinhar. — Ela era svetocha.. Decidiu desistir de tudo, parou de caçar, casou-se com um simpático fuzileiro da roça e teve uma criança. Mas os nosferatus não esquecem e não param de jogar só porque nós tiramos o nosso time de campo. Ela ficou enferrujada e a apanharam longe de seu refúgio e de seu bebê.


Christophe engatou a marcha da caminhonete. O para-brisa ficou limpo depressa. — Eu... lamento. — O que mais você sabe? — eu me afastei de Graves, seu braço foi caindo para o lado. Ele afundou, parecendo terrivelmente desconfortável. Uma máscara roxa, lembrando a de um guaxinim, começou a se formar ao redor dos olhos dele. Com certeza, seu nariz estava quebrado. — Vá para a Schola e descubra. Eles vão treinar você, mostrar como fazer coisas que só sonhava fazer. Deus sabe o quanto você está perto de desabrochar... — Christophe olhou fixamente através do para- brisa; seu perfil nunca esteve tão nítido e severo. Seus olhos eram claros o bastante para brilhar até mesmo através da luz cinzenta do dia. Seu rosto estava coberto de sangue secando, um fio vermelho fresco escorria de um corte ao longo de seu couro cabeludo. Estava totalmente encharcado com aquilo, mas aquela coisa não parecia incomodá-lo. — E quando você tiver notícias minhas, vou lhe propor um desafio digno de seus talentos. Algo como encontrar quem quase matou você aqui. A caminhonete ainda rodava tipo em um sonho. O bom e velho aço americano. A carteira de meu pai estava no bolso da minha jaqueta, um volume pesado e acusador. — E quanto a você, Dru? Vai ser uma boa menina e voltar para a escola? Por que ele ainda perguntava? Como se eu tivesse algum outro lugar para ir. Mas havia uma outra pergunta. — E Graves? O garoto mencionado me olhou. Não dava para dizer se ele estava agradecido ou não. Mas eu estava falando sério. Eu não iria a lugar algum sem ele. Ele era tudo o que eu tinha, de verdade. Ele, um medalhão, a carteira do meu pai e uma caminhonete entulhada de coisas. Uma sombra passou pelo rosto de Christophe. Um intervalo longo o bastante para que eu entendesse o que ele pensava de mim, só por fazer aquela pergunta, e como ele estava pesando a probabilidade de que eu pudesse dar uma de difícil. Ou só me deixando entender que eu não tinha mais para onde ir. — Ele pode ir com você. Existem lobos por lá, e um ou dois outros loup-garous. Ele será um aristocrata. Vão dar lições a ele também. Então está tudo certo. Concordei com a cabeça. Meu pescoço doeu com o movimento. — Assim eu vou. — Bom — Christophe tirou o pé do freio. — E, só para constar, da próxima vez em


que eu pedir as chaves, entregue. Não achei que aquilo merecesse uma resposta. Graves se remexeu um pouquinho mais para perto de mim, e eu nem liguei para aquilo. Pus meus braços em volta dele e o abracei. Não ligava se aquilo ia machucar meu braço, minhas costelas, meu pescoço e praticamente todas as partes do meu corpo, principalmente meu coração. Quando você está zoada, é a única coisa a fazer, certo? Se agarrar ao que puder. E se agarrar com força. *** Dez horas depois, a van preta fazia um semicírculo bem caprichado. — Fim da linha — disse o garoto de cabelos pretos. — Vamos. A escuridão se avolumava em torno do enorme edifício, passando uma impressão confusa de pedras cinzas, frias e empilhadas. As torres e as duas alas principais cresciam para os lados, e o resto do prédio crescia para trás, lembrando uma espaçonave gótica. Voltados para a passagem de carros ampla e circular, dois grandes leões de concreto liso apoiados em pedestais olhavam para baixo, para a fina faixa de asfalto que tinha saído da rodovia municipal e nos trazido até aqui. Uma trepadeira esquisita, com jeito de corda, subia pelas paredes como dedos longos e ossudos. A névoa da manhã era um lençol cinza e espesso, e, por todos os lados, as árvores pingavam em silêncio, comprimindo o espaço gélido ocupado pela construção. Graves ainda segurava minha mão com tanta força que meus dedos já estavam dormentes há muito tempo. O motorista e o garoto de cabelos negros no banco do passageiro saltaram para fora com tanta graça quanto possível, carregando a espingarda e o rifle AK-47. —Você Está legal? — perguntou Graves pela centésima vez. Tossi um pouco, limpando a garganta. O balanço da van quase me embalou, principalmente porque nela era aquecido e eu estava esgotada. Sentia muita dor nas costas, estava tensa e andando como uma velha acabada. Além disso, eu estava louca de vontade de fazer xixi.


Os filmes de terror nunca mostram isso — sobre como, na maioria das vezes em que se enfrenta o indescritível, o que a gente mais despreza é a necessidade de um banheiro particular. Meu cabelo estava oleoso, cheio de frizz porque tinha secado ao natural depois de ter ficado encharcado pela neve. A massa de cachos rebeldes estava embaraçada sobre os meus ombros, e eu queria muito lavar aquilo. Mesmo, mesmo, mesmo. Sem falar no resto de mim. Se me esfregasse com força, talvez conseguisse retirar todo o medo. Aquele medo denso, excessivo, que me envolvia feito chocolate — só que não tão doce, nem tão quente. Agarrei minha sacola com a mão desocupada — tudo o que eu possuía no mundo, desde o momento em que Christophe levou minha caminhonete e minhas chaves. Agora eu dependia completamente deles, e nem teria ligado tanto se me dessem apenas uma cama e me deixassem dormir um tempinho. Daí eles podiam fazer o que quisessem. Até me matar. Não mesmo, Dru. Nem brinque com uma coisa dessas. — Um deles está indo para a porta — resmungou Graves. Ele vinha fazendo aquilo o tempo todo, narrando os detalhes como se eu não pudesse vê-los. Era uma coisa toda formal. Mantive meus olhos fechados a maior parte do tempo. Não estava nem aí. — O cara com a arma grande Está perto da frente da van. Claro. —Montando guarda — minha garganta estava em carne viva. Queria beber água tanto quanto queria fazer xixi. Era uma ironia. — Só para garantir. —Como você Está? — Graves se afastou da janela escura para me examinar, todo ansioso, os olhos verdes queimando na penumbra, assim como seu brinco de prata, uma caveira com ossos cruzados, pendurado na orelha esquerda. O cabelo formava uma massa emaranhada tingida de preto. Era pouco antes do amanhecer, um céu cinza e calmo, e agora que a van parou, dava para dizer que fazia frio do lado de fora. Um carro aquecido nunca fica quente por muito tempo. O calor é como o amor. Vai escoando aos poucos. Tentei falar algo engraçadinho, mas me contentei em ser bem sincera:


— Quero fazer xixi. Incrível, ele riu. Aquele latidinho amargo de costume, agora mais alto e mais profundo. Parecia cansado, e seu nariz orgulhoso e bicudo se ergueu um tantinho. Parecia tão esgotado que seu colorido meio oriental estava quase ficando cinza. Tinha sobrado bem pouco do Garoto Gótico com cara de bebê que ele havia sido. Acho que isso acontece quando puxam o tapete da sua vida. A gargalhada de Graves foi cessando aos poucos. Ele se acalmou: — E, eu também. Ainda mais que não nos deixaram em paz desde que nos colocaram naquele helicóptero. Você acha que... O que quer que ele fosse me perguntar se perdeu quando o garoto do AK-47 abriu a porta da van — Tudo limpo. Ele sorriu de um jeito que parecia tentar recuperar minha confiança. Até que era bem bonito, com um nariz achatado e cabelos negros soltos, um sorriso charmoso e olhos castanho-claros, quase amarelados. Porém, a arma e a forma como olhava por cima do ombro, examinando o espaço entre a van e a porta da frente da grande pilha de pedras, era algo que eu tinha visto algumas vezes, quando acompanhava meu pai enquanto ele caçava as coisas do Mundo Real, o mundo das coisas que surgem do nada, estraçalhando e uivando pela noite. Profissionalismo. Ficava bem desconfortável naquele rosto jovem. Cada uma das pessoas da Ordem parecia adolescente — tirando August, o amigo do meu pai que aparentava ter por volta de 25 anos. Eu não sabia o que pensar daquilo; por um instante fiquei ali sentada, observando a luz enevoada do dia, que aumentava de intensidade muito depressa do lado de fora da van. — Senhorita Anderson? — inclinou—se um pouco para frente, a ponta da arma mirando com cuidado para baixo e para longe — Está tudo bem. A gente está em uma Schola; é seguro. Nenhum lugar é seguro. Não mais. Mesmo assim, eu me mexi de leve, e Graves entendeu aquilo como um sinal para deslizar pelo banco, soltar minha mão e saltar para fora. Virou-se de um jeito atrapalhado, como se quisesse me ajudar.


Só que o garoto de cabelos negros afastou Graves com os ombros e me ofereceu sua mão livre. — Aqui. Sério, está tudo bem. Outro daqueles sorrisos, e seus olhos reluziram para mim. Saí da van sem ligar para a mão dele. Meus pés mal tocaram o solo, e ele bateu a porta com força. — Vamos pôr você para dentro. Acenou com as mãos como se tentasse reunir galinhas ou algo assim. Foi o ponto alto do absurdo. O ar frio pressionava meu rosto; senti cheiro de gelo e folhas úmidas, e o apodrecimento típico de uma floresta no inverno frio. A pressão da neblina próxima abafava todo o som. Esfreguei o rosto e me surpreendi ao descobrir as bochechas ainda molhadas. Será que eu fiquei chorando? Os degraus eram imensos e sólidos, e a porta de carvalho rígida e maciça por cima de tudo abriu-se devagar. O Sr. AK-47 nos conduziu feito gado na direção dela, e meus dedos buscavam algo cegamente, até que fisgaram e apertaram os de Graves. Os dois olhos do Garoto Gótico estavam inchados por causa dos ferimentos, e a parte superior do osso do nariz estava meio achatada, mas o inchaço tinha descido com uma rapidez no Estável. Ele subiu os degraus com facilidade. Eu precisava parar em cada um deles porque as minhas costas davam a impressão de que iam se romper. Meus joelhos estalavam. Olhei de relance para o céu — cor de ferro bruto. Não se parecia com neve, e aquilo me alegrava. Já tinha tido minha cota de neve por um bom tempo. Mas eu sentia frio, e ali tinha cheiro de manhã bem cedinho. Parecia gosto de metal na língua, como plantas encharcadas e congeladas. E o peso uniforme e branco da neblina. Meu queixo caía na direção do meu peito. O bater suave e abafado das asas de uma coruja ecoava dentro da minha cabeça. A coruja da minha avó avisava sobre algum perigo. Eu devia ter contado ao meu pai que a tinha visto havia uma semana e meia. Talvez ele tivesse ficado em casa e ainda estivesse vivo. Deusdocéu. Precisou um pouco mais de uma semana para detonarem com a minha vida. Deve ser algum tipo de recorde.


— Jesus! — disse um garoto, em tom suave, logo acima de nós — É verdade, então! Nem ao menos olhei para o alto. Chegamos ao topo da escada, e Graves apertou minha mão antes que separassem a gente e eu fosse levada às pressas por três garotos que não pareciam tão jovens quanto seus rostos sem marcas me teriam feito acreditar. Estavam cochichando por cima da minha cabeça, um monte de coisas em código. Nem prestei atenção. Eles me levaram por corredores, e escutei cochichos enquanto crianças se agrupavam em portas. Era como enfrentar um desafio ou coisa parecida, e eu me voltei para mim, me concentrando em meus passos, um pé na frente do outro. Por fim havia um lance de escadas comprido e depois um quarto com carpete azul. — Você parece bem cansada — disseram. — Está com fome? Com sede? Tem alguma coisa que a gente possa... Vi algo parecido com uma cama vazia e soltei um suspiro: —Não, valeu. Só quero dormir. Só quero deitar e morrer. —Tudo bem — era um borrão sem rosto, de tão cansada que eu estava. Nem ao menos perguntei onde estava Graves. — Então tenta descansar. O banheiro é por ali e... Depois disso não ouvi nada do que ele disse. Cheguei até a cama e afundei em uma nuvem de suavidade. O máximo que reparei foi que a manta também era azul. Nem pensei em proteger as paredes. Minha avó e meu pai iriam pegar no meu pé por causa disso. Esse pensamento era como beliscar um lugar amortecido. Minha avó e meu pai. Ambos mortos. Eu devia levantar e ir fazer xixi, pensei, e a seguir, a escuridão me engoliu. Sonhei com a coruja da minha avó, a luz da lua contornando suas asas enquanto ela voava rumo à escuridão. Uma sensação confusa de perigo me encobria, mas eu estava cansada demais para ligar para aquilo. E foi assim que cheguei à Schola.


CAPÍTULO um

ma semana depois eu já tinha problemas. O lance de uma escola cheia de meninos aprendendo a matar chupasangues é que o treino de combate se torna um evento grupai. E como quando rola briga em uma escola comum, só que aqui os professores não se metem — ou, pelo menos, não se meteram em nenhuma das outras quatro brigas que eu tinha visto desde que cheguei. Você avista uma multidão de espectadores, todos gritando, e isso pode virar um problema, fácil, fácil. E a coisa não para até que alguém esteja sangrando. Ou pior. A capacidade de cicatrizar depressa só aumenta a probabilidade de os garotos se machucarem. Eu ainda não conseguia cicatrizar como eles porque não tinha "desabrochado". Grande coisa ser especial. Aqui eu era tão frágil quanto um civil. Só que quando você passa a maior parte do seu tempo livre aprendendo a usar o seu máximo contra coisas que surgem do nada no meio da noite, não dá para desistir facilmente. Saí do chão com um murro, meus pés debaixo de mim, e Irving agarrando meu pulso. Ele usou meu impulso para rapidamente me lançar longe, mas eu esperava por isso; juntei meus outros dedos e enfiei o punho na cara dele. Meu pai chamaria isso de "lutar sujo", algo que ele aprovava em uma garota. Opa, não existem regras em uma luta. Achar que "regras" existem pode custar sua vida. Meu pai vivia insistindo com esse assunto, querendo enfiar isso na minha cabeça — você luta para vencer, para sobreviver. Sem essa de


parecer que é o bonzão ou dar ao outro sujeito uma chance. Para de pensar no seu pai, Dru. Eu tinha outros problemas. Irving apostou que podia me vencer em menos de dois minutos. A gente estava em noventa segundos e contando, e eu estava vencendo. Uma aposta desse tipo não passa batido. Não quando seu pai, um exfuzileiro naval, ensinou você a acabar com os outros durante anos. Não quando uma bolha de ácido fica fervendo bem atrás de seu osso esterno constantemente. Não quando você está praticamente sozinha em uma escola lotada de garotos adolescentes. Não qualquer tipo de adolescente. Meninos que, num piscar de olhos, podem se transformar em tapetes de pelúcia malcriados. Meninos djamphir que nasceram com a velocidade abrupta e assustadora dos chupa-sangues, transformando-se, num estalar de dedos, em um borrão para o mundo corriqueiro, lerdo e idiota, como se eles fossem efeitos especiais toscos. Um djamphir garoto não tem que esperar para "desabrochar". Ah, não! São sempre mais fortes e mais rápidos. Só melhoram quando suas vozes começam a desafinar e eles "pegam a manha" na puberdade. Alguns deles mais tarde, com vinte e poucos anos. Mesmo assim, antes dessa fase eles peitam qualquer humano numa boa. Torci o corpo, meus tênis abriam valas no tatame detonado. Respondi com um chute rápido e violento que acertou o joelho dele, e eu ouvi ossos estalando e um rosnado alto. Caí para desviar dele, o tatame arranhando meu joelho, já que eu estava só de regatinha e jeans. Não sou idiota. Quando a gente ouve o barulho peculiar de lobisomens passando para a forma peluda, que os tornam impossíveis de matar, isso é a coisa mais inteligente a fazer. Só que Irving não era um lobisomem. Era um djamphir, e já estava pronto para saltar. Então, de onde vinha aquele som? Girei bem na hora de ver Irving pairando no ar por cima de mim, o rosto pálido e iluminado, reflexos dourados deslizando suavemente por seus cachos castanho-avermelhados, à medida que foi apanhado dentro da cena. O mundo ficou lento, se movendo através de uma onda, tempo suficiente para que eu fugisse cambaleando, percebendo claramente o peso do meu corpo exercendo


sua força contra cada músculo. Snap! Um som parecido com o estalo de um elástico brotando de dedos treinados ressoou pela minha cabeça, enquanto o tempo voltava à sua velocidade normal e o garoto atingia o tatame com tudo, uns bons 90 centímetros de distância de onde eu estava agora, mas exatamente onde eu tinha ficado. O joelho dele bateu forte demais — sem a minha cara para amortecer a queda — e ele deixou escapar um grito curto e estridente. As linhas ao longo de seu rosto, deixadas pelas minhas unhas, ganhavam um tom vermelho raivoso. Seu cabelo se ergueu e ficou emaranhado. Agora ele não era só um adolescente precisando manter a reputação com a galera. Agora ele estava levando a sério. E faltavam 20 segundos. Bom. Recobrei depressa minhas forças e saltei para trás duas vezes. A massa de espectadores recuou de repente, nos dando espaço suficiente para nos movermos. Irving ricocheteou como se estivesse cheio de gás hélio. Seus cachos se agitavam como em um comercial de xampu, e ele se arremessou através do espaço entre nós numa velocidade tão bizarra que o transformava num borrão. Eu nem sequer começava a me acostumar com aquela rapidez. A rapidez que eu não conseguia usar — ainda. Daí o instinto dominou. Não exatamente um instinto ruim — prepare-se e acerte bem na cara do sujeito. No entanto, meu pai teria gritado comigo por eu ter sido tão idiota; porque Irving tinha uma velocidade assustadora. E a força direta, como a do caratê, não funciona muito comigo. Meu físico é muito magro, e meus braços e pernas são compridos. Nem meus seios têm um tamanho razoável. Eles se parecem com — ah, deixa para lá com o que eles se parecem. Pelo menos ficam bem presos quando eu me enfio em um top de ginástica. Não que ser garota seja uma droga, mas às vezes é quase isso. Eu tinha que ter agarrado o braço do Irving, torcido e o feito deslizar para longe de mim, usando o próprio impulso dele para ajudá-lo a dar de cara com a parede de pedra do outro lado da sala. Em vez disso, eu o atingi. Ouviu-se um "crack" quando meu punho e o nariz dele se encontraram, e ele colidiu comigo como um trem de carga. A gente estava indo em direção à parede. Isso vai doer, foi o pensamento que passou por mim como um raio, tipo


eletricidade pipocando no filamento de uma lâmpada. E isso ia acontecer, também, se alguém não tivesse nos atingido pelo lado, rosnando. Ganhei uma cotovelada na cara e saí aos tropeções, fazendo um estrondo no tatame detonado e manchado, e senti uma bela fisgada nas costas. Fiquei lá por um segundo, ouvindo sinos tocando dentro do meu crânio e o mundo todo parecendo um lugar muito distante. Levou um tempão para eu piscar, olhando para cima, para a cúpula formada por reforços de abóbada no forro. Essa parte do conjunto tinha sido uma capela. Agora, porém, era o espaço dedicado às armas e aos treinos de combate, se abrindo com um tatame que já tinha visto dias melhores e tinha o aroma do suor de jovens saudáveis. Por baixo havia um cheiro muito suave de incenso. Se fosse de dia, alguns raios de sol fracos poderiam passar pelas barras e penetrar a penumbra empoeirada. Durante o dia, porém, a Schola dormia. Naquele momento já passava da meia—noite, e eu estava um lixo. Mesmo. — Dru? Tinha alguém se inclinando por cima de mim e me chacoalhando. Tentei empurrar a pessoa, mas minhas mãos não estavam funcionando como deveriam. Um tipo de pânico vago passou por mim, e eu me ergui para trás com outro estalo elástico: snap! Isso vinha acontecendo muito ultimamente. O ar estava cheio de estrondos e sussurros, e havia uma porção de gente gritando. Ai, meu Deus. Acho que isso foi uma má ideia. Agarrei um par de mãos solícitas e dei impulso para me erguer. Tinha uma campainha tocando na minha cabeça, e minhas costas doíam pra caraca. — Maldito cão do inferno! O que está acontecendo por aqui? As palavras tiveram o poder de retalhar a muvuca inteira, menos aquele rosnado profundo e monótono. Sacudi a cabeça. Um filete úmido e quente escorria do meu nariz, e abri passagem entre dois garotos djamphir — Clarence, seu cabelo tigelinha totalmente preto, molhado de suor e entusiasmo, e Tor, usando seu disfarce, camadas gordurosas, amarelas e espessas escorrendo por seu cabelo. Ambos eram mais altos do que eu, e mesmo assim os empurrei de lado com os ombros e me coloquei na fila da frente.


Graves tinha jogado Irving no chão. Seus dedos compridos e bronzeados, fechados na garganta do djamphir. Seus olhos eram estilhaços de chamas esverdeadas, e o rosnado era tão intenso que deixava borrado o ar ao redor; o som de um transmorfo muito pê da vida. Talvez ele também não conseguisse falar — seu maxilar tinha uma modificação sutil para acomodar dentes maiores e mais afiados. O estalar de ossos tinha vindo dele. Graves não ia ficar peludo — era um loup-garou, não um lobisomem. Só metade deles são marcados pelas criaturas que os tornam capazes de se transformar —, mas ele estava bem motivado a machucar de verdade, e zangado o bastante para não ligar caso ferisse alguém. Até agora isso tinha acontecido três ou quatro vezes. Duas vezes lá na região de Dakota, todas as vezes que a gente estava em perigo — ou quando ele achava que a gente estava em perigo, já que Christophe mostrou que, afinal de contas, estava do nosso lado. E na primeira tarde em que acordei na Schola quase participei de um empurra-empurra entre ele e um djamphir no refeitório. Pelo que eu soube, o djamphir tinha perguntado alguma coisa sobre mim, e Graves ficou doido com o cara. O resultado foi empurrão, empurrão, rosnado, um pouco mais de empurrão, gritos e eu indo para cima deles para impedir a confusão. Não achei que me contaram a história toda, mas Graves não comentava o fato. E agora era aquilo ali. — Mas que — disse Dylan outra vez, abrindo caminho à cotoveladas pela galera. Eu fingi que não o vi e dei um passo adiante. Senti a perna direita engraçada, e alguma coisa pingou em meu lábio superior. Três passos, quatro, meus coturnos arrastavam um pouquinho no tatame. Quando pousei a mão no ombro de Graves, o zumbido que emanava dele me fez achar que eu estava colocando a mão num transformador elétrico tunado. Ele rosnou de verdade, o cabelo tingido de preto enrolando, sem ao menos ficar eriçado, e estalando de energia. A estrutura óssea forte e definida de seu rosto agora tinha uma deformação sutil, o nariz menos orgulhoso e as maçãs do rosto ficando mais com jeitão recurvado de lobo do que de "humano". Por sua pele fluía uma coloração translúcida, que escurecia seu tom


sempre bronzeado. — Fica tranquila — tentei falar. Só que, por causa do nariz entupido, eu parecia o Hortelino Trocaletra. Além disso, meus olhos estavam ardendo de leve e lacrimejando. — Jesus — saiu mais como Xessus, e eu até poderia ter rido. Só que não tinha graça. —Todo mundo calando a boca! — Dylan cruzou os braços, a jaqueta de couro estalando. O ruído acalmou. Aqui na Schola, quando um professor fala, você escuta. — E recuando. Recuando! Graves rosnava outra vez, enquanto Irvin engasgava. Ele estava se transformando em uma sombra rubra, profunda e horrível. Seus dedos fracos puxavam as mãos de Graves, mas com o braço torcido por baixo de si e um transmorfo feroz por cima, ele não levava muita vantagem. Me pendurei no ombro de Graves. Um espasmo de dor chegou a cada um dos lados da minha coluna. — Vai, babaca! Fica sussa! Isso Está ficando ridículo! — Por que você não me esperou? — Dylan se dirigiu ao ar acima da minha cabeça — Estou começando a ficar um pouco cansado desse... Deus do céu, menina, você está sangrando! Graves soltou Irving e ficou de pé, se livrando de mim. Os lábios dele tinham recuado, os dentes faiscavam, os olhos lavados de uma fosforescência feroz. Percebi os lobisomens agrupados em um bloco atrás dele, e a tensão que rolava entre todos ali era palpável. Poucos deles também ficaram meio peludos. A tensão fez com que os "lobos jovens" também se agrupassem, os ombros apertados nas costuras das camisas. Eles não passam para a forma de lobo a menos que precisem, mas dá para diferenciá-los dos djamphir. E o jeito de se mover — como se estivessem chegando para dominar, de forma fluida, pela grama iluminada pelo sol, em vez da graça cruel e elegante dos seminosferats. Os djamphirs não se transformam, mas a aparência se destaca em todos — o movimento e a ondulação dos cabelos, mudanças na cor, olhos brilhando e um ou dois deles exibindo covinhas com os caninos que tocam o lábio inferior. Garotos. Deusdocéu.


Meu pai sempre dizia que os lobisomens e os chupa-sangues não se topavam. Eu estava começando a achar que era questão de genética. Até onde eu podia entender, djamphirs e lobisomens estavam do mesmo lado, contra os chupa-sangues. Era por isso que a Ordem existia. Mas eu tenho a mais plena certeza de que eles não parecem gostar muito uns dos outros. Puxei Graves para trás, e a gente só teve um probleminha ligeiro quando eu me pus na frente dele e ele tentou passar por mim com um empurrão. Agarrei o-que-certa-vez-foram-ombros-ossudos e dei um chacoalhão nele. Meus dedos afundaram em músculos, e eu não liguei se ia ou não machucar. A cabeça dele ficou oscilando, mas o olhar cruzou depressa com o meu e o rosnado foi morrendo aos poucos. Sustentei seu olhar por um tempo que me pareceu bem demorado. Ele piscou e os ombros relaxaram um tantinho. Foi quando me virei e topei com Dylan, de braços cruzados, em pé diante de Irving, com uma sobrancelha preta em forma de asa erguida e o restante dos djamphirs completamente imóveis, atrás dos dois. Os olhos dos djamphirs brilhavam, e seus caninos estavam à mostra. Ai, ai, testosterona. Dava para cortar com uma faca. — A gente estava treinando combate e eu vacilei — dei mais dois passos, meus calcanhares pisando com mais força do que deveriam, e a dor abalou toda minha coluna. — Tudo bem aí? — essa foi para o Irving, que tossia, fazendo um som profundo de algo raspando. Só que agora ele não estava quase roxo. Ele me encarou e eu senti pena dele. Tinha sido só um treino amigável, nada mais. Eu deveria ter só virado os olhos e deixado quieto. Só que, em vez disso, eu fui para cima dele. E vamos levar em conta que eu supostamente deveria ser bem mais madura do que os garotos desta idade. — Desculpa, Irving — minhas costas travaram de novo, e eu soltei a respiração pela boca. O grunhido resmungado atrás de mim diminuiu um pouco, e eu abaixei a mão para ajudá-lo a se levantar. — Eu devia ter te agarrado e ajudado em vez de tentar te dar um soco no nariz. Vai entender. Era mesmo complicado dar um tom conciliatório com alguma coisa pingando e gotejando do meu lábio superior. Torcia para que não fosse caca


de nariz. Ia ser um nojo. Dei uma fungada, e o resto do sangue do nariz caiu em um jato ritmado. Irving me encarou, petrificado. As pupilas dele encolheram. Um jato de sangue vermelho brilhante ficou suspenso no ar, e então espirrei... ... bem nas roupas dele, desenhando uma estrela também no tatame ao lado. — Saco! — disse Dylan, e pulou sobre o garoto — Tirem essa garota daqui! Mãos me agarraram, quentes, contra a pele nos meus antebraços nus. Fui arrastada de costas, e o mundo ameaçava rodopiar comigo presa a ele. A campainha dentro da minha cabeça piorou, o som das asas da coruja escovando dentro do meu cérebro em espasmos frenéticos. Os lobisomens me carregaram para fora, e eu escutava Irving gritar, enquanto Dylan o mantinha abaixado, o apetite por sangue transformava sua voz em um guincho de harpia1. É isso aí. Mais uma noite na Schola. A luta não acaba até que haja sangue no chão. Mas quando o sangue é meu pode fazer um menino djamphir surtar um pouquinho. Tem a ver com eu ser uma svetocha. Um treco superlegal no meu sangue mesmo antes de eu "desabrochar", algo que consegue alcançar e tirar do armário o lado doido de qualquer um que tenha um quê de nosferat. Depois que desabrochar, eu vou ter meus próprios poderes: superforça e supervelocidade. E esse treco superlegal em meu sangue vai me deixar tão nociva para chupa-sangue quanto como o inseticida é terrível contra os insetos. Agora, porém, isso só me deixava vulnerável. Na verdade, eu tinha o cheiro de um lanchinho delicioso. Dylan ficou buzinando na minha orelha a semana inteira, direto, que eu não podia treinar combate com alunos djamphir. Eles não conseguiam controlar muito bem o apetite por sangue, eu poderia ter me machucado de verdade, bla-blá-blá... Christophe nunca tinha me dito nada a respeito. Os lobisomens me arrastaram dali para o corredor, e o barulho apressado dentro da minha cabeça cresceu. Acho que talvez eu tenha desmaiado. Pelo 1

Uma das maiores aves de rapina do mundo e a mais pesada, com evergadura de dois metros e meio e pesando até dez quilos. Também conhecida como gavião-real ou uiraçu-verdadeiro (N.T.).


menos o mundo ficou mesmo bem distante e sombrio, e a única coisa que me importava era ouvir Graves. Agora que a raiva tinha passado, ele conseguia falar e estava repetindo sem parar as mesmas coisas, um realce na voz dele pouco antes do meu nome. — Está tudo bem, Dru. Juro que está. Não me pareceu que ele também levasse fé naquilo.


CAPÍTULO dOIS

bolsa com gelo doía como uma agulhada. Apesar disso, colocá-la sobre o septo nasal era sinônimo de deixá-lo menos inchado e menos machucado. Suspirei, troquei de posição de um jeito bem desconfortável e pisquei para me livrar do fluxo quente das lágrimas involuntárias. Graves também tinha pensado em pegar minha jaqueta para cobrir os arrepios na pele dos meus braços. — Foi tudo minha culpa — eu repetia com insistência. — Eu devia ter jogado Irving para o lado em vez de dar uma porrada no nariz dele. — A questão não é essa — Dylan suspirou. Tinha dias em que ele suspirava mais, e em outros parecia que ele só fazia isso. O rosto dele poderia ter estado numa moeda da Roma Antiga, e eu tinha ouvido falar que o nome real do cara era algo impronunciável e de origem germânica. Nada do tipo batom preto-depressão, mas um nome bárbaro de verdade. Num lugar como aquele, vai saber. Até os professores pareciam adolescentes. Os que eram velhos de verdade tinham cara de vinte e poucos. Mas eles tinham acabado de chegar à Schola e nunca pareciam ter trinta anos. August, o amigo do meu pai — aquele para quem eu telefonei para confirmar a história de Christophe — deveria ser um deles. Pensei no assunto, mas achei que não seria educado perguntar. Dylan passou a mão pelos cabelos, da frente para trás, e se acomodou com mais firmeza em sua cadeira. A mesa dele tinha pilhas e pilhas de papéis e uma bolha imensa de prata que eu fiquei encarando na primeira vez que entrei aqui. Só então me liguei que era uma caveira que haviam mergulhado em metal


brilhante. A caveira tinha caninos compridos e dentes incisivos grandes e pontudos, e eu resolvi pela milésima vez não perguntar se era mesmo o crânio de um chupa-sangue. Atrás de Dylan, prateleiras de livros encadernados e empoeirados ficavam me encarando do alto, teias de aranha balançando em silêncio, acima do topo. O lugar cheirava a couro, pó e tinha o perfume de almíscar dos hormônios adolescentes. Ainda assim, parecia uma sala de diretor. Já estive em salas de diretores do país todo. Antes de sacar que a melhor maneira de passar por aquilo era me manter de cabeça baixa e só. Ultimamente eu vinha ficando de saco cheio daquilo. Graves estava em pé logo atrás de mim. Dylan não ofereceu uma cadeira para ele. Eu não gostava daquilo, principalmente porque Dylan se negava a falar ou se sentar até que eu me sentasse. A sala tinha janelas, com as barras de ferro obrigatórias. Da primeira vez que entrei, eu fiz uma piadinha sobre se as barras nos mantinham aqui dentro ou os chupa-sangues lá fora. O silêncio mortal e os olhares de dor nos rostos de todo mundo me mandaram calar a boca. Do lado de fora das janelas com barras, a relva era pintada pela luz da lua. Arvores montavam guarda, prateadas com trançados de névoa, uma parede branca que erguia dedos fantasmagóricos para tocar os ramos escurecidos e sem folhas. A bolsa com gelo estalava, conforme eu a mantinha segura sobre o septo nasal. Por detrás dela, eu observava Dylan. — Olha — lá vinha ele de novo com aquele tom de "Estou sendo paciente" — os treinos de combate vão demorar um pouco no seu caso, e não vão começar até depois de você desabrochar. Caso você precise, vá treinando com os professores, não com os alunos. E Graves... ele não pode ficar se intrometendo todas as vezes que achar que alguém ofendeu você ou coisa do gênero. Não é seguro. Para nenhum de vocês. Dylan estava sendo generoso esquecendo a parte em que eu despertei o apetite de Irving ao sangrar em cima dele. Uma graça. Esperei que Graves fosse falar alguma coisa, mas ele ficou num silêncio teimoso até quando eu olhei para ele. Seus olhos reluziam por baixo de um


tufo de cabelos tingidos de preto, sua pele voltando à cor normal. Havia uma ferida acima da maçã do rosto, transformando-se em uma mancha roxa conforme inchava. Amanhã ele não teria mais nada no rosto. Os loup-garous saram ainda mais rápido que os lobisomens. Ganham todas as vantagens da mudança, tipo velocidade e força, sem a alergia à prata ou o risco de perder o controle. Vai entender. Aprendi mais sobre lobisomens em uma semana aqui do que com todo trabalho super cuidadoso que meu pai e eu fazíamos com os livros encadernados e anos caçando coisas bizarras. A boca de Graves estava imóvel, os cantos para baixo, e ele parecia dono de uma teimosia desafiadora. Tirando o brinco que faiscava um pouco por baixo daquele cabelo todo. Ele se mantinha em pé, atrás da minha cadeira, e encarava Dylan com raiva. Nenhuma ajuda viria dali. Estava tudo em minhas mãos. — Foi tudo minha culpa! — repeti, enfim. — Nenhum dos professores tem tempo de treinar combate comigo. Tratam—me como se eu fosse de vidro, e as aulas em que você me botou são um paliativo sacai que eu poderia ter em qualquer escola comum. Não vou melhorar nada se continuarem me botando para fazer trabalhinhos de jardim da infância. —Você é uma svetocha, Dru. Você é valiosa. Você não faz a menor ideia do quanto vale, morta pros nosferats, ou viva para nós. — Dylan repousou os cotovelos na mesa. Papéis estalaram. — Será que eu preciso dizer outra vez? Você ainda não desabrochou. Tão logo isso aconteça, você vai poder entrar em combates mais difíceis, mas até lá... — Até lá a minha obrigação é ficar sentada e ser uma gracinha? Não, obrigada — dava para sentir meu queixo se projetando para frente, um sinal claro de que eu estava sendo difícil. — Eu quero ajudar. Eu estava caçando por aí com o meu pai quando a maioria desses meninos provavelmente fazia o curso básico de "Como identificar chupa-sangue". Me deixar no jardim da infância não vai dar certo. Por que aquilo não entrava na cabeça dele? Eu não era dessas pessoas acomodadas, que só querem saber do empreguinho, do salariozinho e da vidinha.


Eu era uma caçadora também. Tinha sido a ajudante do meu pai, não tinha? — Ó, Senhor. Esse argumento de novo, não! — suspirou Dylan. Tinha os olhos avermelhados e olheiras de cansaço. Sempre aquela cara de cansado e estressado. Ainda assim, não ficava feio. — Muitas coisas você aprendeu errado, lá da época em que era amadora, Dru. Já está na hora de desaprender tudo e começar do zero, ou seja, estudar o básico, igual a todo mundo. Como manda a diretriz de controle. Eu estou de mãos amarradas. — Ele me olhou de um jeito estranho, seus olhos negros impenetráveis, e então continuou: — Irving vai ficar totalmente curado em menos de doze horas. Seu amigo loupgarou aqui, em menos de dezoito. Você está presa a um tempo maior de cura, e também à força, velocidade e resistência menores. Você não está pronta nem para uma operação prática, que dirá então de algumas das expedições de limpeza menores. Sem contar que qualquer nosferat que descobrir que você existe vai tentar drenar suas forças para saciar a própria fome, ou então levar você... — ele parou e engoliu em seco. — Pro Sergej — falei o nome dele. Isso me queimou a língua e deixou o ar denso. Ninguém aqui falava sobre isso. Dizer os nomes dos chupa-sangues dava azar, e vai saber se eles estavam ouvindo! Até caçadores como o meu pai não falavam o nome de um chupa-sangue em voz alta. Eles usam as iniciais ou códigos. Só que eu já tinha falado antes. Dylan não recuou. Entretanto, deu um suspiro. Outra vez. — Dru. Você ainda não desabrochou. Não chega nem perto dos alunos monitores ou dos mais graduados, e não existe ninguém com controle suficiente, se alguma coisa... que Deus não permita! ...acontecer e você começar a sangrar de verdade. Se... — ele se calou a tempo. — Se Christophe estivesse aqui, as coisas iam ser diferentes — fiz daquelas palavras uma ladainha. — Fala sério, Dylan. Eu não sou idiota. Christophe não Está aqui, e mais ninguém teria permissão para me treinar, mesmo se ele sumisse, e ninguém fala dele. Mesmo ele tendo salvado a minha vida. Que é que Está rolando? — É muito complexo — ele olhou para o crânio banhado a prata na


mesa, e seu maxilar ficou rígido. Todos os garotos na Schola tinham pele boa, olhos brilhantes, dentes que faiscavam. Era como estar presa em uma maldita comédia de situações. Só dava para distinguir os alunos dos professores se você os visse dando aulas. Ou pelo jeitão que alguns dos mais velhos tinham, de parar e inclinar a cabeça, ficando absolutamente imóveis. Nem parecia que estavam respirando quando aprontavam dessas, e em geral era um sinal de que eu ia pro Castigo. Ou seja, eu seria mandada para o meu quarto enquanto todo mundo ia para as frentes de batalha. Semana passada isso aconteceu duas vezes, e eu ouvi dizer que também eram exercícios normais de Castigo. Igualzinho aos exercícios de simulação de incêndio lá no imbecil do mundo corriqueiro. Beleza. Era meu sonho de consumo ficar socada em um quarto enquanto outros saem e partem para a luta. O gelo estalou de novo conforme eu me ajeitei na cadeira. De algum modo, eu machuquei uma das minhas nádegas ou qualquer outra coisa do gênero. — Bom, eu sou uma garota esperta. Me dá um teste. — Não se trata da sua inteligência, Dru. Trata-se do que é seguro para você, já que Christophe acha que tem um infiltrado na Ordem. Você é a única svetocha que fomos capazes de manter com a gente já há uns bons trinta anos. Você é uma raridade, e outras svetochas que tentamos localizar acabam assassinadas antes que a gente consiga trazê-las para cá. Nós queremos ter certeza de que não vai acontecer nada de ruim com você, e parte disso é ter certeza de que você vai receber o treinamento adequado, desde o começo. Embora o motivo de terem mandado você aqui e passarem essa diretriz confusa... — ele parou de novo, de um jeito que me enlouquecia. Conversar com Dylan é desse jeito. Ele para no meio das frases, se recusa a ir além, fica olhando para baixo, para sua mesa, com um olhar melancólico. Quase dava para sentir pena do sujeito. Larguei a bolsa com gelo em cima das pernas. Alguma coisa úmida gotejou bem fininho e beijou meus jeans, bem nos joelhos, deixando-os ensopados. — Se eu sou tão importante assim, porque os professores não têm tempo para me dar treinamento? Por que é que a gente está esperando Christophe,


quando esse seu Conselho tem problemas com ele? E por que... — O Conselho não tem problemas com ele. É uma minoria significativa que tem. Não é a mesma coisa, e nem é nada para você se preocupar. Você já tem muitas coisas para administrar — chegou bem perto e me observou. — Isso vai inchar mais. Melhor você tomar um analgésico e ir pro chuveiro. Em outras palavras, blá-blá-blá, dispensada. — Você não está respondendo ao que eu perguntei — fiz força para me levantar, grudei a bolsa com gelo no meu rosto de novo. — Obrigada por nada. — De nada. Pelo menos seu amigo aí não vai ser suspenso por se intrometer e piorar as coisas. Provavelmente ele se arrependeu do que disse na mesma hora, porque girei o corpo e o peguei fechando a boca com um estalido. Mas Graves, enfim, fez alguma coisa: agarrou meu ombro e me carregou para fora do escritório de Dylan, passou por duas armaduras idênticas de bronze cheias de aranha e ferrugem que encaravam a gente com raiva, perto da porta, rumo ao corredor silencioso. — Deixa para lá, Dru — Graves falou, enfim. Quando chegamos ao final do corredor, a escadaria surgia ameaçadora em uma espiral que parecia um ouvido. — Ele só Está te ameaçando. Ah, até que enfim você abriu a boca! — Valeu mesmo, hein? Eu sei disso. — De nada. Vai, chuveiro. Ele me soltou e enfiou as mãos nos bolsos de seu casaco comprido e escuro, até surgir com um maço todo detonado de cigarros Winstons. Ele saía do campus para fumar quase todo dia. Ele podia se enturmar com os lobisomens sem uma enxurrada de cochichos atrás. Podia treinar combate e frequentar as aulas com eles, ele estava até começando a sacar as piadas dos caras e fazendo alguns amigos. Agora, eu? Era a única menina de um colégio só para garotos, e me mantinham aqui dentro como se eu fosse um maldito de um hamster, enquanto todo mundo saía e se divertia. Não que eu estivesse a fim de ir para algum lugar por um tempo, depois de ter sido arrancada da neve e da loucura


e largada aqui. A comida era boa, trouxeram jeans e camisetas para mim, e não ficam regulando papel para desenho nem qualquer coisa que eu queira. Eu só precisava que Dylan ou outro "conselheiro" soubesse e daí tcharaaaaam, a coisa aparecia na minha porta na manhã seguinte. Ou noite seguinte. Era de arrepiar. Especialmente porque todas as vezes em que eu queria dar um passeio, mesmo fora, no quadrado da calçada rachada e pelos quarteirões de jardins de inverno abandonados, também aparecia um "conselheiro". Em geral era Dylan, que nem ao menos fingia estar olhando outra coisa ou passeando por ali. Não, ele me encarava fixamente, com um misto de preocupação e bizarrice no rosto. E isso também estimulava umas ideias. Só não sei que ideias eu deveria estimular. — Há quanto tempo a gente Está aqui? — olhei bem séria para Graves, ao redor da bolsa de gelo. — Uma semana mais ou menos, né? Mais uma vez ele ficou com aquele olhar afetado de quem procura a exatidão. Igualzinho a todas as vezes em que ele me corrigia. — Por volta de nove dias. É. — curvou os ombros magros. Isso e o nariz bicudo faziam com que ele se parecesse com um pássaro. Agora, porém, havia mais alguma coisa no conjunto do rosto. Graves parecia mais preocupado e adulto do que nunca. — É sério, você deveria tomar banho. Isso aí Está inchando e ficando com uma cara bem feia. A bolsa de gelo estava vazando. A água fria deslizava em curvas que passavam por meu pulso, descendo, invadindo e ensopando a manga da minha jaqueta... ou a manga da jaqueta do meu pai, já que era a verde reserva dele, de sobras do exército. A carteira dele embaixo da minha cama. Não era o lugar mais seguro do mundo, mas... Aquele pensamento também doeu no meu peito. A bola de fúria instável e mais alguma coisa atrás das minhas costelas aumentou um pouco. Agarrei meu humor com as duas mãos e empurrei para baixo. Soltei um suspiro brusco. — Certo, eu vou tomar banho. Deus do céu. Por falar nisso, por que você pulou no pescoço dele?


Como se eu não soubesse. Dessa, vez, porém, quem sabe ele ia dizer. Mas não disse. Só ficou com o olhar perdido pelo corredor, se curvando ainda mais, seus dedos longos e ligeiros brincando com o maço de cigarros. — Você estava sangrando. Abri a boca para dizer que não estava. Funguei de novo, minha pele estava cheia de crostas de um sangue seco cheirando a cobre, e imaginei que, se o faro de um lobisomem tinha sensibilidade suficiente para saber antes de um nariz começar a sangrar, um loup-garou também teria. — Bom... Valeu — tentei parecer simpática, e o gelo estalou outra vez. Mais água fria que vazava da bolsa escorreu pela minha manga. Que maravilha. — Sem problema, Dru. A gente vai sair essa noite para comer hambúrguer. Quer que eu traga algum para você? — ele parecia otimista. Meu peito apertou contra si mesmo. —Não — eu detestava ser estraga prazeres — Eles já vão ter esfriado quando você voltar. Eu pego qualquer coisa no refeitório. Por todo o caminho até a escada, ouvindo o silêncio dele atrás de mim enquanto eu me afastava pisando forte, eu quis me espancar por não ter dito sim. *** Na parte da capela de treino de combate ocupada pelos garotos, havia um recinto enorme com várias banheiras escavadas no chão e circundadas por pedras. Havia também uma porção de divisões e banheiras coletivas, e eu tinha ouvido que sempre ficava alguém lá dentro. Na parte das garotas, o recinto enorme era tão grande quanto. Havia quatro banheiras largas o suficiente para afogar duas garotas por vez. Seis baias de privadas. Piso de granito, tudo mantido bem limpinho e espaçoso. Fora os cantos, que eram um nojo, sinônimo de que tinham ficado na umidade por um tempão. Nem cloro daria jeito naquele horror. Mesmo assim, o lugar era morno e cheio de vapor, e as banheiras estavam sempre borbulhando. Só que nunca tinha ninguém ali, além de mim.


Me abaixei para entrar na banheira, do lado mais distante da porta. Minhas roupas ficaram bagunçadas a alguns passos da beirada. Eu tinha jogado a bolsa com gelo de um jeito bem displicente no conjunto de latas de lixo tinindo de novas, perto das pias, e ela ficou pendurada sobre a beirada, a água gotejando no piso. Eu não conseguia nem ligar para aquilo. A água nebulosa "de mentira" borbulhava. Uma coisa com cheiro de mineral, um gosto uniforme e nada parecida com água normal. Tem uma espessura de gelatina. Durante alguns segundos, é tão quente que pinica. Depois, ela reveste a pele, e as bolhas ficam transparentes em vez de translúcidas. O tempo que se passa nessas banheiras acelera o processo de cura de um jeito muito doido. O que é bom, já que o treino de combate aqui é estilo full-contact. No caso de você ser um garoto. Eu me sentia meio esquisita caminhando sozinha no vestiário. Era como ter uma suíte todinha só para mim, enquanto os garotos ficavam em dormitórios. E nenhum deles tinha prateleiras vazias, ou um CD player só para eles, ou um orientador pessoal prestando atenção em cada espirro que dessem. Ou um computador só para eles, com sites de compra pela Internet já marcados e um cartão de crédito cadastrado como "Sunrise Ltda." repousando em uma folha de papel bonita em uma mesa de pau—rosa, mais uma folha com informações dizendo onde mandar as coisas: caixa postal e endereço de correspondência. Me dava arrepios. Meu pai jamais usou cartões de crédito. Não dele mesmo, de qualquer modo. Os recursos líquidos que vinham das caçadas eram os melhores. Esses caras, porém, eram a Ordem. Eram grandes — era preciso ter uma grana para administrar um lugar como este. Ainda assim não parecia tão grande quanto Christophe me tinha feito imaginar. O que era outra coisa para ficar pensando. E eu nunca tinha entrado em nenhum site que prestasse, tipo um localizador de GPS para descobrir exatamente onde eu estava, ou registros municipais para saber quem era o dono daquele pedaço de terra — sem falar em fuçar tudo para achar alguma notícia sobre o meu sumiço ou de Graves. Esse tipo de informação teria sido


útil, mas não havia por que eu deixar pistas em uma máquina que eu sabia que não era minha. Daí, nada de compras e nada de proveitoso naquele computador. Um pedaço de plástico mudo dava no mesmo. Um horário de aulas — Uso do Disfarce, História, Álgebra, Moral e Cívica — tinha sido pregado na minha porta dois dias depois que eu havia chegado aqui, mas depois do primeiro dia de amolação, eu fiz uma bola de papel com aquilo e comecei a pentelhar o Dylan, para que ele me desse algum desafio. Mesmo as aulas de Uso do Disfarce não tinham nada de mais; eram só um período para uns cinco garotos djamphir contarem piadas sujas e usarem a visão periférica para ficar me olhando. As aulas de História eram dadas por um professor loiro que me encarava com muita intensidade entre uma frase e outra, como se desejasse o meu sumiço. Eu não permanecia em nenhuma sala de aula por muito tempo. Passear perto de onde guardavam as armas parecia mais interessante. Graves sempre ficava me enchendo por causa disso. Você não devia ficar cabulando, Dru. É importante. Claro. Como se eu precisasse de aulas de moral e cívica, pelo amor de Deus. Como se alguém ligasse para o que eu fizesse, contanto que eu continuasse dentro da Schola. Como se eu ligasse, agora que meu mundo todo estava de cabeça para baixo. Agora que meu pai tinha morrido. Não pensa nisso. A pedra era escorregadia e arenosa ao mesmo tempo. Achei uma banqueta, tossi, juntei as mãos em concha, peguei um pouco daquela água de mentira e passei pelo meu rosto com delicadeza. A coisa estalou, um calor que aliviava a dor de um par de olhos ficando roxos, e eu liberei um som meio suspiro, meio choro. Aquilo ecoou sem expressão em cada superfície limpa e rígida do lugar. Os espelhos estavam embaçados, como de costume, mas, mesmo assim, o som ricocheteava neles. Como fazia todas as vezes em que sentava ali, fiquei pensando se minha mãe tinha escolhido alguma vez aquela banheira. Se ela alguma vez se sentou aqui e escutou a própria voz ricocheteando na pedra, no vidro e no metal. Se


ela alguma vez se sentiu solitária. Ela havia participado da Ordem, ou pelo menos Christophe e Dylan tinham me falado isso. Mas ninguém falava mesmo sobre ela, como se fosse uma coisa constrangedora. E eu não sabia se ao menos ela havia estado aqui; esse conjunto era bem grande, mas ainda minúsculo dentro do esquema todo. Uma escola pequena, com mais ou menos 400 alunos. Não era o tipo de lugar de onde helicópteros poderiam decolar rapidinho. Mas eu poderia ter me confundido, já que Cristophe não estava exatamente dando informações desencontradas. Eu só estava evitando pensar naquilo o máximo de tempo que eu conseguia. Não estava resolvendo. Meus olhos se abriram depressa, a água falsa estilhaçando e aos poucos se transformando em pequenos cacos brancos. O cabelo molhado e trançado, os cachos lutando para aparecer. Toquei na curva macia de metal próxima ao meu pescoço e me retraí como se tivesse batido em um machucado. O medalhão ficava um pouco abaixo do meio da minha clavícula. Prata pesada, do tamanho do meu polegar; em uma das faces, o coração e a cruz entalhados, e símbolos lembrando aranhas, que pareciam estrangeiros; na outra, as bordas repousando em minha pele. Eu tinha me acostumado a ver seu brilho prateado em meu pai. Ele nunca ia a lugar nenhum sem aquilo. Agora, sempre que eu batia o olho naquilo em um espelho ou o esfregava com minha mão, sentia um choque passar por mim. Como se tivesse enfiado o dedo em um soquete de lâmpada. Era errado ficar usando aquilo. O pensamento que veio a seguir chegou bem no horário. Eu não conseguia mais enrolar. Meu pai. Ele caminhou pelo corredor, e o zumbido piorou tanto que chacoalhava tudo ao meu redor, o sonho escorrendo igual à tinta colorida em papel molhado, e conforme recuava, eu lutava para dizer alguma coisa, qualquer coisa para alertá-lo. Ele nem ao menos olhava para cima. Continuava andando em direção àquela porta, e o sonho fechava como as lentes de uma câmera, a escuridão engolindo tudo pelas bordas. Ainda estava tentando gritar quando meu pai, bem devagar, ergueu a mão sem a arma, como um sonâmbulo, e girou a maçaneta. E a escuridão atrás da porta gargalhava, e


gargalhava, e gargalhava... Fechei os olhos outra vez. Relaxei as pernas e escorreguei para debaixo da superfície da água. Aquilo se fechou sobre mim como um sonho, como um bálsamo, e o calor se infiltrava em meus ossos. Só que havia um frio dentro de mim, profundo demais para que esse calor alcançasse. Um gelado que não era físico. Ele está morto, Dru. Você sabe quem fez isso. Você sabe por quê. Ou será que conseguia alcançar? Eu sabia que meu pai tinha a esperança de voltar para casa. Ele tinha de ter — não havia como ele me largar eternamente em uma casa, sozinha. Ele sempre retornava, cedo ou tarde. Se bem que ele voltou. Só que não vivo. Atirei em um zumbi na sala de estar da minha casa, e ele tinha sido meu pai. Jesus. De todas as coisas que estragam a vida de uma criança, essa merecia uma categoria exclusiva. Eu sabia quem o tinha matado e transformado em um zumbi. A mesma pessoa que Christophe, Dylan e todo o resto diziam que tinha matado a minha mãe. Sergej. O nosferat que parecia apenas mais um adolescente, com cachos negros e ensebados e olhos que poderiam engolir você totalmente. O mesmo chupa-sangue que tinha tentado me matar. O motivo pelo qual eu estava presa naquele conjunto que era a Schola, sem ao menos sair para dar uma volta nos jardins de inverno estéreis e sem folhas. Eu poderia ir lá fora, mas não sem alguém aparecendo do nada para ficar me secando. Montando guarda. Porque Sergej — ou algum outro nosferat como ele — poderia voltar. Ele era uma grande engrenagem entre os chupa-sangues, a coisa mais próxima a um rei que eles tinham, e eu sabia que estava vivo. Tremi de cima a baixo. Meus pulmões queimavam. A falsa água sibilava ao meu redor, o calor penetrando pelos meus músculos, aliviando e cicatrizando. Senti no rosto uma última onda de dor violenta, que depois se acalmou. O tremor ia piorando conforme eu boiava, e por um instante eu pensei em abrir a boca e deixar que o troço na banheira entrasse e cobrisse tudo que estivesse atrás e abaixo da minha língua e... Voltei à tona rápido, espalhando água. O troço ia pingando do meu


cabelo, escorria da minha cara, estilhaçava ao entrar em contato com o ar e instantaneamente formava um revestimento esquisito, um "branco cera" que cobria cada milímetro da minha pele exposta. Eu ia levar dez minutos no chuveiro para enxaguar tudo aquilo do meu cabelo. Pisquei para me livrar do grude nos meus cílios e inspirei, abri a boca no limite máximo para respirar bem fundo aquele ar cheio de vapor. Uma luz branca me atingiu nos olhos, como se esfregasse com força a confusão dentro da minha cabeça. Minha respiração ficou mais profunda, normalizando-se com um tranco sempre que eu terminava de expirar. Por baixo daquela cobertura branca, esquisita e com jeito de parafina ou algo do tipo que formava aqueles banhos, as lágrimas eram quentes e oleosas. Elas limpavam meu rosto, mas não tinha ninguém por perto para ver. Ou ouvir. Sentei sobre o assento de pedra, juntei meus joelhos para poder abraçá— los e chorei de soluçar. Então fui para a droga do meu quarto e chorei mais um pouco, até que o amanhecer chegou em meio a um bloco de nuvens escuras, e eu, enfim, caí em um sono leve e agitado.


CAPÍTULO três

refeitório era um espaço comprido, estreito e com todos os balaústres e acabamentos em madeira escura. As paredes eram de pedra e semidecoradas de carvalho pesado e com verniz envelhecido. O piso, porém, era feito de placas de madeira azul "cheguei". Ambos estavam em cacos, gastos de tanto uso. As mesas e as cadeiras de plástico que rangiam poderiam ter vindo de qualquer colégio dos Estados Unidos. Eu me sentava sozinha, perto da saída que dava para os corredores que levavam aos bastidores das salas a oeste, em vez da outra ramificação que ia para a enfermaria e para a biblioteca. As bandejas eram de plástico vermelho, detonadas e retorcidas. Os pratos, de porcelana industrial, os talheres, de aço com gravações. Sentia saudade da minha cozinha. Sentia saudade da minha louça, até dos pratos que não combinavam, e do jarro de biscoitos da minha mãe, preto e branco, em forma de vaquinha. Sentia saudades do meu colchão, das minhas roupas e dos meus CDs, e de todas as armas do meu pai. Eu passava a manhã toda — ou a noite, que seja — perambulando diante do arsenal, inventando desculpas para ficar em frente ao balcão e respirar o cheiro do metal e do óleo para armas. Sentia saudade das caixas, e da minha caminhonete e de tudo o mais. Sentia saudade até de cozinhar — e caramba —, nunca achei que isso fosse acontecer. A comida aqui não era ruim, mas era aquela coisa industrial e de baciada, além disso, eu nunca conseguia ver ninguém na cozinha. Só formas indistintas através de um banco de nuvens, como a névoa que saía da floresta


todas as noites. Dizia algo sobre minha vida recente: que uma tela de vapor em movimento servindo as refeições era uma coisa apenas levemente bizarra para mim. A comida era servida em esquema self service, bem na frente da cortina de vapor. Massas e saladas e sobremesas. Hambúrgueres e pizzas e batatas fritas para os mais jovens, ou aqueles que gostavam de comer como verdadeiros adolescentes. Carne crua e mal passada para os lobisomens, inclusive fígados e outras coisas que eu não olhei tão de perto. Havia também caixas e mini garrafas de vinho, mas dessas eu fiquei longe. O prato de hoje era macarrão gravatinha ao creme, com presunto cru e ervilhas. Salada com tomates frescos, e você escolhia o tempero. Um pão de alho melhor do que eu esperava. Só que ele ficava lá, em cima do prato, congelando. Havia leite achocolatado em saquinho e uma bebida energética em uma lata azul. O azul da lata contrastando com o vermelho da bandeja, com o branco do prato, os detalhes verdes das ervilhas — se eu estivesse com meus lápis de cor, desenharia essa coisarada toda e chamaria de Natureza Morta com Sabor Artificial. Eu estava doida para desenhar alguma coisa, qualquer coisa. Mas bastava eu me acomodar com um bloco de papéis, essa vontade toda sumia. Era a primeira vez na vida em que eu não ficava rabiscando furiosamente. Sonhava em Technicolor, mas eles não me impulsionavam a fazer esboços. Eu só me sentia ansiosa, como se estivesse esperando algo acontecer. Rolava uma barulheira muito alta. As paredes refletiam uma centena de conversas acontecendo e as zoações ocasionais. Um bando de adolescentes em uma praça de alimentação é uma receita de encrenca a maior parte das vezes. Os lobisomens tinham as mesas deles, os djamphir também — geralmente em locais de destaque, como bem no fim de uma fila ou perto da saída para a enfermaria. Até aqui tinha panelinhas. Ninguém sentava à minha mesa. Poucos tentavam, mas eu não estava mesmo a fim de bater papo, então eles paravam de me procurar. Era como ser a garota nova outra vez, todos os dias, malditos dias. Irving tinha tentado me dizer alguma coisa antes, mas eu só abaixei a cabeça e saí de perto. Ainda me sentia mal com o fato de tê-lo feito surtar na frente de todo mundo. Era


vergonhoso. Que é que eu podia dizer, caraca? Eu não tinha o costume de fracassar em tudo. E, meu Deus, eu não estava a fim de fazer novos melhores amigos. Para que encanar com isso? Quer dizer, alguma coisa estava prestes a acontecer. E sempre assim. Nunca fiquei mais de três meses em nenhuma escola. Não desde que minha avó morreu. Dylan continuava a dizer que eu era importante, só que nenhum dos professores arrumava tempo para algo que prestasse, como treinos de combate. A única vez que eu pratiquei meus katas na capela de treinamento havia uma plateia cochichando. Foi péssimo. Eu estava acostumada com o meu pai só olhando em silêncio, talvez dando sugestões quando eu acabava. Agora uma enxurrada de sussurros me seguia em todos os lugares. Daí eu fiz tai chi no meu quarto uma ou duas vezes, mas mesmo assim não ajudava. A calma e a elegância que sempre esperavam por mim se eu me resumisse a fazer os movimentos durante um tempo suficiente tinham sumido. O que costumava me deixar bem o bastante para lidar com as coisas simplesmente não estava funcionando. Eu me sentava por ali, sentindo os olhares sobre mim. Odeio essa sensação. Irving se sentava a duas mesas de distância. Continuava me examinando depressa, até que, por fim, colocava as palmas das mãos sobre a mesa e fazia que ia se levantar. Mas aí ele caía com tudo na cadeira e olhava para a bandeja. Graves mexeu na cadeira perto de mim: — E aí, criança? — Opa — deixei o medalhão da minha mãe cair sobre o meu peito como se tivesse levado uma alfinetada, ergui os olhos e dei um sorriso aberto. Senti algo esquisito no meu rosto, mas então a felicidade me apanhou e eu fiquei mais natural. Atrás do meu osso esterno, senti um alívio explodindo feito um morteiro. — Como foi sua manhã? Sua noite? Sua qualquer coisa? Ele pousou sua bandeja e caiu em cima da cadeira. — Cheia de informações novas. Você sabia que alguns vampiros com danos no cérebro não conseguem atravessar água corrente ou as rodovias mais importantes? E que o tipo mais comum de poltergeist se alimenta quase que


exclusivamente de bioeletricidade de garotas adolescentes? Sua monocelha ficava se agitando para mim. Ninguém ainda o tinha segurado e cortado a taturana que cruzava a testa dele. Pensei em falar alguma coisa a respeito, e decidi não fazer isso pela centésima vez. Seus olhos verdes queimavam, e não era só na minha imaginação. O rosto dele estava diferente. Menos infantil, mais pontudo. Ele tinha mais cara de lobisomem, agora. — Sim, eu sabia disso. Quer dizer, o poltergeist. Uma vez, no interiorzão da Lousiana... — a frase morreu. Eu não queria pensar naquilo. Meu pai prendia a garota enquanto eu fazia o lance de "arrancar o poltergeist", com água salgada e a varinha de tramazeira2 da minha avó. A coisa tinha atirado todo o tipo de itens domésticos pequenos em nós dois, fazendo um belo corte na cabeça do meu pai com uma xícara de chá, antes que eu me lembrasse de desenhar um círculo ao redor da cama em que a garota estava amarrada, para bloquear o acesso do poltergeist a ela. Isso o enfraqueceria o suficiente para separá-los. Meu pai não tinha dito uma só palavra sobre o fato — não precisava. Eu queria me dar uma surra por causa daquilo. E aqui eles estavam querendo me botar em aulas chatas, comuns e paliativas. Jesus Cristo. Graves estalou os dedos. Tinha dois cafés com leite em copos de papel e me ofereceu um. — Terra chamando Dru. Quer falar sobre isso? — Na verdade não — curvei os ombros. — Não sabia dessa com os nosferatu. Danos no cérebro? — Fizemos essa experiência hoje com água-benta e fatias de tecido. Bem divertido! Se eu tiver notas boas no curso básico, posso começar a fazer modelos de migrações de vampiros por computador. Usar meus poderes matemáticos para o bem — seus olhos brilharam e ele engoliu seu café com leite antes de lançar um olhar penetrante sobre minha bandeja. — Quer um hambúrguer? Ele tinha de fazer lições verdadeiras, enquanto eu estava presa aos ensinamentos de moral e cívica. Encolhi os ombros. — Não estou com tanta fome assim. Queria poder ver quem é que 2

Espécie de árvore comum nos EUA, cujo nome científico é Sorbus aucuparia (N.T.)


cozinha tudo. Ele balançou a cabeça afirmando, daquele jeito que me dizia ter entendido completamente. — É. Nem dá para sentir o cheiro das coisas nesse troço enevoado. É por isso que eu tento ficar na comida frita em vez da cozida ou fervida. Ainda não tenho a manha com a carne crua. Mas descobri uma coisa interessante — o canto de sua boca se torceu em um daqueles sorrisinhos amargos dele. — Vai, pergunta aí! O sorriso involuntário no meu rosto não se desmanchava. — Está, vou perguntar. O que foi que você descobriu? — Aqui tem garotos encrenqueiros que vêm de famílias de lobisomens. Papai e Mamãe Lobisomem se livram dos moleques mandando-os para as Scholas. As garotas ficam em casa e aprendem a lutar com os pais. Não é interessante? "Garotas lobas" têm de ficar em casa. Então existe mais de uma Schola. Aquilo respondia pelo menos àquelas perguntas. — Por que os encrenqueiros são mandados para cá? Aqui é, tipo, um reformatório? Mais uma vez ele se iluminou, como se eu lhe desse exatamente a resposta correta. — É, meio que isso. Disciplina rígida, tratar com rédea curta, mas dando incentivo e amor, essas coisas todas. Só que tem mais coisa. Não são só os encrenqueiros, mas todos os meninos são mandados para as Scholas. É o acordo. Um acerto entre os grupos de lobisomens no poder e os djamphir que cuidam da Ordem. Os que fazem parte da Ordem não são os únicos lutando por aí, mas são os que fazem isso oficialmente, e eles têm uma infraestrutura grande, no lugar, para manter as crianças a salvo enquanto elas recebem treinamento, e prometem apoiar as famílias de lobisomens que mandam no pedaço, desde que enviem uma parte de seus garotos todos os anos. Chamam isso de Tributo. Bom, isso responde essa dúvida. — Tem famílias djamphir? — Alguns djamphir se casam ou vivem com garotas normais. A maioria


deles vive na surdina por causa das equipes de caçadores de vampiros, e muitos desses só aguentam o tempo suficiente para descobrir se a garota gera mais djamphirs. Tem vezes que elas não conseguem. Você precisa assistir às aulas, Dru, de verdade! Credo! Tem uma palavra para caras que fazem isso. — Aham. Quando me mandarem assistir aulas tão legais quanto as suas, eu vou — tomei cuidado com o gole de café com leite. Meio quente demais, mas beleza. Não era como o café do meu pai. Quase me encolhi de dor. Outra vez esse negócio. — E você, como Está indo? — Graves pegou um hambúrguer e deu uma boa mordida. Ficou mastigando. Em todas as refeições, ele me perguntava sempre a mesma coisa. Melhor dizendo, em todas as refeições em que ele estava aqui, em vez de estar correndo por aí com os novos amigos. Do outro lado do recinto, um empurra-empurra irrompeu entre um djamphir de cabelos escuros e um lobisomem alto e magrelo. O barulho mudou durante um minuto, rosnados e latidos agudos cruzando a superfície da galera urrando, e um professor lobisomem — calças de couro, camiseta do Kiss e costeletas que ficavam bizarras naquele rosto sem rugas — pulou no meio deles, mandando o lobisomem ir para um lado e o garoto djamphir para outro. O garoto djamphir esperou até ver o professor lobisomem pelas costas; daí fez um gesto obsceno para todo mundo ali. Eu meio que esperava que garotos que conhecessem o Mundo Real não agiriam feito marombados babacas. Parece que eu me enganei. Deixei sair o ar que eu nem sabia que estava prendendo. — Ótimo — baixei o copo de papel. — Quer dar uma volta? Graves engoliu a bebida rapidinho. — Preciso treinar combate depois. Um inferno. Não sabia que eu podia me machucar tanto. — Treino de combate, hein? — Vão ensinar luta para ele. Sem crise. Mas para mim, ninguém tinha tempo. — Que é que estão te ensinando? Ele encolheu os ombros. — Shanks está me ensinando o básico. Ele diz que eu tenho de superar


esse lance do medo de me atingirem. Também fala que é melhor que me esforce nos treinos, porque quando eu pirar de vez é o treino que vai me salvar. — Shanks? Seu cabelo caiu sobre o rosto, pesado e fazendo barulho, enquanto ele balançava a cabeça em um "sim". — Bobby. E o apelido dele. Um cara alto, principalmente quando se transforma. Pernas de gafanhoto. — Ah, Está. — Você não Está só fazendo amizades por todo o lado. — Você vai sair de novo depois das aulas? — Vou, a gente vai correr. Tem lua cheia daqui a duas semanas. Alguns dos garotos vão fazer a primeira Transformação. Se eu treinar meu parkour3 direito... — Parkour. Que palavra engraçada. — disse eu, pela centésima vez, e o vi rindo pela centésima vez. Os olhos dele se acenderam. De verdade. Ele parecia feliz de verdade. — Você ia gostar. Mesmo. É do caramba. E assim que te ensinarem o lance de pular e cair, é fácil pra caraca. — Mas isso é só para lobisomens? Outra encolhida de ombros. — Você pode vir com a gente. Alguns djamphir também fazem. O treino, não a corrida na real. — Graves! Ô, Graves! — alguém gritou, e ele ergueu os olhos. Um lobisomem de cabelo cacheado berrou alguma coisa do outro lado do refeitório, e Graves mostrou o dedo médio tão rápido quanto os olhos conseguiam acompanhar. Uma enxurrada de rosnados agitava-se através do recinto, mas foi acalmando conforme Graves observava fixamente o tal lobisomem, espremendo seus olhos verdes. Lá na região de Dakota, o Garoto Gótico jamais teria feito isso. Ele era o último elo da cadeia alimentar, que nem eu. Agora, no entanto, ele era mesmo, meio que, assim... Está, popular. Ou pelo menos estava chegando lá. Ajudava o fato de ele ser um loup-garou — com todas as vantagens de ser um 3

Um esporte ou atividade no qual o participante procura se deslocar de forma rápida e natural por uma área, em geral urbana, vencendo obstáculos como paredes e barreiras, saltar por espaços abertos, como uma escadaria ou entre edifícios (N.T.).


lobisomem, sem a parte de endoidar. Não ficava com 2,15 m de altura nem cabeludo feito uma peruca mega crescida. Christophe tinha dito que isso faria dele um "figurão" aqui. E Graves era isso mesmo, ao máximo. Voltei a encarar minha bandeja. Nada mais ali parecia nem remotamente comestível. Então, eu dei outra golada no meu café com leite, que caiu com tudo dentro do meu estômago, borbulhou bem de levinho e aquietou. — O que foi isso? Ele encolheu os ombros. — Nada. Eles gostam de encher o saco. — Por quê...? Porque você se sentou do lado da Gripe Vampírica. — Por nada, Dru. Toma — fez minha bandeja escorregar para o lado e empurrou um pratinho da bandeja dele, colocando na minha frente. Um hambúrguer e uma montanha de fritas. — Está quente, come aí. Apanhei uma batata frita. Também tinha saquinhos de ketchup e ele apertou um sobre o próprio prato. Caímos no silêncio, uma bolha de quietude amistosa, quase profunda o bastante para engolir as cadeiras vazias enfileiradas dos lados de nossa mesa. Talvez eu tivesse algum tipo de doença social. Além do mais, não queria conversa. A não ser com Graves, e, na verdade, não havia muito que falar. Descobri que tinha fome, afinal de contas. Ele até colocou picles e cebolas. Devia ter certeza que eu ia comer. — Valeu. — Opa, sem problema. O primeiro é grátis. Ele arrancou outro sorriso involuntário meu. — Esse aqui não é o primeiro hambúrguer que você me arruma. — Nem vai ser o último. É o primeiro que eu te arrumei hoje, então come, Está? Eu tenho uma meia hora antes de descer para levar porrada. Então, conversa comigo. Finalmente conseguiu que levassem alguma coisa pro seu quarto? —Não. — As roupas que eu estava vestindo naquele momento tinham aparecido em pacotes com um número de caixa postal diferente do endereço


correspondente ao meu quarto. Eu as tinha anotado e escondido na minha sacola — informações que poderiam ser úteis mais tarde. Alguém adivinhou meus tamanhos de roupas e fez um belo trabalho. E os lobisomens tinham levado Graves "pro povoado". Tinha alguma coisa por perto para arrumar material, mesmo se aquele local ficasse a alguns tantos quilômetros de Caipirópolis. Mas eu não. Ninguém poderia saber sobre uma garota aqui nesta escola. Fiquei imaginando de onde vinha todo o dinheiro, então resolvi que talvez eu não quisesse saber. Eu tinha um maço de grana na sacola de lona preta e surrada, e, em geral, não é preciso nenhum malabarismo para conseguir mais. Mesmo assim. Nunca tive de me virar para pegar mais grana antes. Claro que eu sabia como. Mas meu pai sempre estava por perto e... —Alô? Terra chamando Dru! — Graves agitava a mão larga, de dedos compridos, na frente do meu rosto. — O que você está pensando? Deve ser algo profundo. Encolhi os ombros. Peguei outra batata frita. — Só imaginando de onde vem toda a grana. Não é uma operação barata isso que Está rolando. Será que as outras escolas são maiores? O que leva à questão: como pagam para ter isso? Graves ficou me examinando de lado por um instante. Aquele olhar adulto tinha voltado, como se ele estivesse escutando uma música que eu nem conseguia ouvir. — Verdade. Eu também penso nisso. Quer ver se eu consigo descobrir? — Com certeza — outra batata frita e outra mordida no hambúrguer e uma bicada no café com leite. — Posso ir com você? No treino de combate? A pausa que ele fez foi longa o bastante para que eu soubesse o que ele ia falar. Provavelmente não é uma boa ideia, Dru. Mesmo assim, eu queria ouvi-lo dizer. A bola de ácido borbulhando dentro do meu peito expandiu-se mais outro tanto. — Por quê? Curvou os ombros. Aquilo não era bom. Ele não era mais magro como um pássaro, como tinha sido algumas semanas atrás, antes de ser mordido.


Não podia mais parecer pequeno. — Sem querer ofender, mas você gosta muito de comprar briga. E eu odeio que uma menina me veja depois que eu tomei uma chuva de porrada. É coisa de homem. Senti o rosto engraçado, então deixei o cabelo cair entre nós dois, cobrindo a cara que eu estava fazendo. Cabelo comprido é bom para certas coisas. E já que a gente não estava mais naquela cidade— zinha no meio do nada, meu cabelo vinha se comportando direitinho. Vai entender. — Esta menina aqui poderia te dar uma chuva de porrada, você sabe disso. — Um dos professores poderia surgir do nada ou me expulsar se a gente fizesse isso, Dru. Melhor não. — Ninguém ia expulsar você. Eu também iria embora. Eu vou para qualquer lugar para cair fora daqui. Só que eu não posso, não é verdade? Não com o rei vampiro me procurando, né? — A gente ia acabar morrendo — nem parecia ele falando, de tão sério. A mão desocupada se levantou e tocou o outro ombro. Bem onde ele tinha sido mordido. Esfregou um pouquinho, como se ainda doesse. — Dru, por favor. Melhor não, tá? Larguei o hambúrguer, que se espatifou no prato. Empurrei minha cadeira para trás. Meus lábios estavam oleosos. A comida já mastigada, parada no meu estômago, parecia uma bola de boliche. — Então tá. Melhor não. Boa diversão lá no treino. — Dru... Mas eu me levantei, empurrei a cadeira com força para baixo da mesa e saí correndo. Quando, mais tarde, ele voltou pro meu quarto, eu tinha deixado a porta trancada. Ele ficou batendo por um tempo, depois foi embora. E eu fiquei sentada na cama, passando os dedos pelo medalhão da minha mãe e imaginando por quanto tempo eu ia ficar aprisionada naquela armadilha.


CAPÍTULO QUATRO

ap. Taptap. Tap. Eu revirava na cama, inquieta. O sono se retraía feito um gato sobre patinhas macias. Eu não queria que acabasse, e me agarrava a ele com dedos que ainda sonhavam. Eu vinha tendo sonhos com algo importante, um aviso, asas de coruja varrendo o ar à minha volta. A cama era larga, profunda e suave, um dossel de madeira ácer com cortinas transparentes, empoeiradas, puxadas para trás. O quarto todo era azul, desde a manta de edredom, de veludo anil, ao papel de parede cor de céu pálido estampado com cruzes de ouro, passando pelo verniz tingido nas sete estantes de livros e as cortinas de veludo azul-cobalto bem forte. O tapete era cor de safira, e tão grosso que dava para perder moedas dentro, além disso, ele era mais velho do que eu. A janela atrás dele não tinha barras de ferro, pois abria para um pequeno jardim particular, completamente cercado por muros altos e lisos — três andares abaixo, com uma porta bloqueada, a qual eu só alcançava saindo pela minha porta, dando três voltas e descendo dois lances de escadas. Muito esforço caso eu quisesse caminhar lá fora até um lotezinho de terra bruta, com ventos, trilhas de cascalho e sem folhas, coisas com jeito de que foram arrancadas, que poderiam ter sido roseiras — em outras palavras, na primavera. Se eu quisesse mesmo, de verdade, perambular por essas vinhas cheias de espinhos afiados debaixo de um céu cinzento. Em vez de barras, havia persianas pesadas de ferro, com coraçõezinhos e cruzinhas saltando como fileiras iguais marchando por toda sua extensão.


Aquelas ali, eu deixei abertas. Quando estavam fechadas, o quarto todo ficava silencioso e, bom, morto. Meus olhos se abriam lentamente. O aviso tinha ido embora. Teria sido minha avó? Quem quer que fosse, estava tentando me avisar sobre alguma coisa importante. Taptaptap. Tap. Taptap. Eu era banhada por um horror gelado; começava no meu couro cabeludo e ia deslizando pelo resto de mim. O som era conhecido — dedos batucando com impaciência sobre vidro. As lembranças se misturaram aos sonhos, conspirando para me puxar para baixo à medida que o travesseiro endurecia e esquentava em meu rosto. Havia um zumbi na minha porta dos fundos. Seus olhos iam de um lado ao outro; eram azuis, e a parte branca, já esfumaçava com podridão da morte. Seu maxilar era uma confusão de carne e sangue congelado; alguma coisa tinha comido metade da cara dele. As pontas de seus dedos, já reduzidas a tocos ossudos, arranhavam a janela. A carne pendia em tiras de sua mão, e meu estômago embrulhou. Uma névoa negra subiu nos cantos de minha vista, e aquele barulho acelerado e esquisito na minha cabeça soava como um jato em plena decolagem. Eu conhecia aquele zumbi de algum lugar. Mesmo morto e mutilado, seus olhos eram os mesmos. Azuis como o gelo do inverno, rodeados de cílios pálidos. O olhar do zumbi fixou-se no meu. Ele balançou a cabeça como se já tivesse ouvido um barulho distante. Deixei escapar um ganido rouco, e minhas costas bateram na parede perto do corredor de entrada, acertando meu quadril contra uma pilha de caixas. Meu pai fechou seu punho apodrecido, os ossos dos dedos aparecendo, já que a carne havia sido mastigada por algo que eu não quis imaginar, nem pensar, e ele começou a abrir caminho pela janela a socos.

Sentei depressa, buscando ar, lutando, livre dos cobertores pesados. Lençóis de cetim gastos deslizavam pela minha pele, escorregadios de suor, transformados em dedos molhados que me agarravam o quadril e o tornozelo. Meus punhos se confundiam, e eu não acertava nada a não ser o ar, o grito


morrendo em minha garganta. O rufar suave das asas abafadas pelas penas varreu e encheu o quarto por um instante, mas a coruja da minha avó — o pássaro que tinha pousado no parapeito da janela enquanto ela morria, o pássaro que havia me avisado sobre o perigo e me levou até a caminhonete do meu pai uma semana e meia atrás — não apareceu. Tem algo muito errado aqui, Dru. Toma cuidado. Mas a voz se retraiu assim que eu recobrei bruscamente a consciência, e descobri que estava apertando o medalhão da minha mãe em uma mão úmida. Pisquei de novo, tentando separar o sonho da realidade. Tap. Taptap. O som era real. E estava vindo da janela do meu quarto. Rolei para fora da cama e atingi o chão com tudo. Meus dentes batiam — sorte que minha língua não ficou entre eles. Minhas mãos estavam atrapalhadas e lerdas demais, tateando o alto do criado-mudo atrás de uma arma. Em casa eu tinha uma arma. Aqui, porém, não havia nada, fora uma adaga carregada com prata — todas as armas ficavam registradas e guardadas na capela de treinamento ou no arsenal, inclusive a pistola que estava comigo quando me resgataram. Tirando o canivete que tinha ficado esquecido no meu bolso, e sobre o qual não contei a ninguém a respeito. E que parecia uma boa ideia não contar. Apertei o botão da suicide spring. A lâmina saltou, e o batuque na janela foi interrompido. Pisquei e tirei as remelas dos olhos com o punho da mão livre. A luz pálida da manhã de inverno formava lâminas finas, que mudavam de posição enquanto algo desconhecido se mexia do lado de fora da minha janela. Já era dia. Claro que era — é quando a Schola repousa, porque é o horário seguro. Seguro contra os nosferatu, pelo menos. Alguns dos alunos lobisomens mais velhos frequentavam o local durante o dia, atuando como vigias sob a forma humana ou não humana. Achei que talvez uns poucos professores djamphir também fizessem isso, mas não me dei ao trabalho de perguntar. Já parecia bastante ficar só dormindo durante o dia e estar acordada a noite toda, mesmo com alguns probleminhas para ajustar meu relógio biológico. Senti a respiração pesar na garganta. Agachei ao lado da cama, verificando as opções.


Click. A trava da janela estalou. A adaga virou-se em minha mão, a lâmina plana contra meu pulso e meu antebraço. O revestimento de prata ao longo da lâmina iria machucar alguma coisa maligna, e eu acertaria pelo menos um ou dois golpes em qualquer luta. Enchi os pulmões com aquele ar parado e poeirento, meu coração se arrastando rumo à minha garganta. No entanto, uma sensação estranha de tranquilidade caía sobre mim. Tudo o mais naquele lugar me deixava perto do oceano. Mas será que alguma coisa estranha estaria ameaçando rastejar pela janela do meu quarto? Eu sabia como lidar com isso. Era uma coisa que eu conhecia. Uma vez, em Louisiana, a gente se enroscou com um rei vodu, e tinha dado o maior trabalho colocar um feitiço numa janela pela qual passavam espíritos de baratas. Mas eu havia visto a coruja da minha avó antes e avisei ao meu pai; daí, quando a janela tinha se quebrado com um som nitidamente metálico, e as primeiras baratas gigantescas começaram a jorrar dela, estávamos preparados. Quando o que quer que fosse surgisse pela janela, eu estaria preparada. Era por aquilo que eu esperava, sem ao menos perceber. Todo o resto era manter a cabeça acima da água. Isso, mais meu coração na garganta e meu corpo todo acordado de repente e formigando de medo, era a realidade. E eu não tinha que pensar em estar sozinha ou solitária quando sentia medo. Ainda estava agachada, meu top de ginástica retorcido e a calcinha boxer com a qual eu tinha dormido enfiando no meu "cofrinho", quando notei que as linhas de energia azuis e finas correndo pelas paredes não estavam cintilando e estalando. Tinha dado o maior trabalho criar uma proteção sem a varinha de tramazeira da minha avó, mas eu tinha conseguido. Afinal de contas, a varinha era só um símbolo — como vovó vivia me lembrando. Num é nem de perto de ser tão boa quanto a vontade por trás dela, Dru. Basta você se alem— brar disso. Ela sempre dizia coisas assim. Basta você se lembrar disso, Dru. Basta se lembrar. Aquele era o problema. Eu estava começando a repetir coisas que estavam grudadas na minha cabeça, coisas que eu preferia esquecer. Tipo um zumbi na porta da minha cozinha, ou um espacinho escuro, cheio de animais


empalhados e o cheiro do medo sonolento de uma garotinha. Contra o que uma proteção não funcionaria? A lista era pequena. Comecei a recordar alucinadamente. A janela se abriu. Um sopro de ar gelado, pesado por causa da chuva, bafejou pelas cortinas, que se afastaram o suficiente para que ele passasse vibrando por entre elas. Suas botas pisaram o carpete, a janela fechou com um rangido suave, e ele se voltou. A luz fraca e cinzenta da manhã tocava seu cabelo negro e lustroso, os reflexos dourados deslizando e recuando como dedos penteando mechas tão leves quanto a seda. Seus olhos varreram o quarto uma vez, e então pararam sobre mim. Olhos em chamas, de um azul de inverno. Usava uma jaqueta de couro de roqueiro que batia na cintura e passou uma das mãos pelos cabelos, sacudindo-a para baixo enquanto atirava a água para longe. Aquele olhar azul e frio vinha pousar em mim, e de repente veio o gosto de torta de maçã assando. — Olá, Dru — sua boca curvou para cima, em um sorriso. Eu tinha esquecido como as partes lisas e angulosas de seu rosto trabalhavam todas em conjunto, fazendo com que ele não fosse bonito, apenas... correto. Como suas sobrancelhas inclinadas um tantinho para cima e como seu corte de cabelo bagunçado pareciam ao mesmo tempo extravagantes e tranquilos. — Você tem sido uma boa menina? Seu anjo da guarda quer saber. Fiquei encarando Christophe, minha boca levemente aberta, e percebi o quanto eu talvez parecesse ridícula enquanto ele corria as cortinas e o quarto ficava escuro. — Meu Deus — sussurrei — Onde é que você se meteu? — quase chegava a ser a pergunta mais inútil do mundo, e saiu da minha boca de uma só vez. — Por aí, por aqui e por perto — atravessou o quarto com passos largos e saltos rápidos, parou diante da porta e tocou no cadeado de correntes, no ferrolho e na tranca que eu usava lá em casa, antes de cair no sono. — Muito bem, bloqueando a porta e protegendo as paredes. Agora você não é um passarinho descuidado. Eu nunca fui descuidada!


Mas havia coisas mais importantes para as quais valia a pena abrir a boca. Todas as perguntas que tinham ficado sem resposta há mais de uma semana brigavam para se ordenar, mas perderam para duas sem a menor lógica: — Cadê minha caminhonete? E todas as minhas roupas? Bom, talvez não fossem sem lógica, mas eu poderia ter perguntado outra coisa. Tipo, Por que você não me falou do apetite por sangue? Ou Este aqui foi o quarto da minha mãe? Ou até mesmo Por que parece que estavam esperando pela minha vinda aqui? O que você contou a eles? Por que não me ensinam nada sério? Christophe girou sobre um dos calcanhares, examinou o resto do quarto e, por fim, voltou outra vez os olhos para baixo, para me observar. Eu ainda estava agachada bem perto da cama, a faca pronta no meu punho. — Tenho tomado conta de tudo o que é seu direitinho, passarinha. A caminhonete está num galpão ao sul do Estado, com outro nome, sã e salva — ergueu uma sobrancelha, de leve e com elegância. — Não lhe deram roupa alguma? Ou uma conta de reembolso? Meu rosto esquentou tanto que eu me surpreendi de não ter brilhado. Me endireitei, reprimindo a vontade de ajeitar a calcinha. Arrumar as roupas de baixo "entaladas" não é lá jeito de mostrar competência. — Claro que deram. Só que eu estava dormindo. —Você está completamente a salvo em um pequenino ninho azul. Me pergunto por que colocaram você aqui — se sacudiu de novo, espalhando água. Estava ensopado. — Sentiu saudades? Ah, pelamordedeus! Coloquei a faca no criado-mudo sofisticado e puxei para baixo a ponta do meu topzinho. — Vou te arrumar uma toalha e me vestir. Daí a gente pode... Um olhar bem azul, antes que ele ajeitasse os cabelos negros para trás com dedos rijos e examinasse rapidamente o restante do aposento. — Uma toalha iria bem, mas com relação a se vestir, você não precisa se incomodar. Você não vai a parte alguma. O quarto ficou coberto pelo silêncio. Ele me observava com firmeza, eu devolvia o olhar, e meu rosto perdeu o rubor. O cheiro de torta de maçã preenchia o espaço entre nós, e de repente eu me sentia muitíssimo feliz por


não ter sangrado em lugar nenhum, nem de ter alguma casquinha na pele. Sabia o quanto Christophe era forte e rápido. Se ele resolvesse saciar toda sua fome de sangue em mim, que chance eu teria contra o cara? Tudo isso me fez pensar de repente em outra coisa. E se Irving estivesse pegando leve comigo? Ou se não estivesse, e Christophe fosse mais forte, por que diabos ele era assim? Quantos anos tinha esse djamphir que me resgatou? Estava muito na cara que ele era um "orientador", e a tendência deles é serem mais velhos. Tipo, bem mais velhos. —Tem uma porrada de coisas que você não me contou — tentei parecer que não estava acusando. Subitamente, eu estava muito consciente do topzinho agarrado em mim e o ar gelado tocando a pele exposta. Minhas pernas pareciam compridas demais, magras demais e implorando por depilação. Qual é? Eu usava jeans direto. Não tinha grana para me depilar, e quem tem tempo para fazer isso todo dia? Quando eu morava abaixo da linha Mason-Dixon4 , até conseguia, mas ficar me mudando com os ursos polares e descobrir que eu estava mais enfurnada no Mundo Real do que eu imaginava não me deixava com tanto tempo assim para raspar meus pelos. Eu achava, porém, que poderia arrumar tempo a partir de agora. Meu rosto estava tão quente que eu até me impressionei por não estarem brotando vapores da minha pele. — Dru — ele deu dois passos na minha direção, seus coturnos apertando o carpete —, não tive tempo para fazer uma série de sutilezas. Você percebe isso, certo? Cruzei meus braços sobre o peito. Deusdocéu, de repente ficou frio ali. E ele sempre teve esse aroma tão bom? Seria colônia pós-barba? Eau de Torta de Maçã? — Acho que sim — disse eu, finalmente. A gente não tinha tido tempo para uma porção de anotações, mas ainda assim ele poderia ter me contado algumas coisas. Será que eu acreditaria nele? Tudo o que eu precisava fazer agora era 4

Trata-se de uma linha imaginaria nos EUA que dividia as colônias favoráveis à escravidão (abaixo) e contra (acima). No texto, é uma referência entre Norte e Sul (N.T.).


olhar em torno daquele quartinho lindo e pensar nas barras das outras janelas. Ou na primeira Restrição, quando a campainha faria aquele barulho irritante e todo mundo ia saltar para suas posições, e Dylan ia me arrastar até este quarto e me dizer para trancar a porta. Mas por quê? Eu queria saber, e Dylan tinha mostrado os dentes, os caninos se curvando para baixo enquanto seu disfarce deslizava para longe dele. Porque isto aqui não é uma simulação, ele tinha dito. E você é aquilo pelo que vamos morrer se eles ultrapassarem as defesas externas. Agora, tranque a sua porta. Christophe balançou a cabeça de novo. A água fluía feito joias. — Uma toalha iria bem, Dru. — Sim, com certeza. Joia. Fui batendo os pés descalços em direção à porta entre duas estantes de livros. Tinha meu próprio banheiro, enquanto os garotos nos dormitórios precisavam se virar com banheiros comunitários. E eu ainda não tinha descoberto quem limpava o meu, embora ele não fosse tão detonado pelo tempo quanto as cavernas do andar de baixo. Nem eu sou tão bagunceira. Pelo menos o convívio com meu pai me ensinou isso tudo. As toalhas também eram azuis, um pouco gastas. Azul brilhante, feito um céu de verão. A cor da nossa caminhonete, a cor dos olhos do meu pai — mais calorosos que os de Christophe, mesmo avermelhados depois de uma noite bebendo Beam5 , ou quando ele estava no que chamava de "um tremendo mau humor" Tive que parar e respirar fundo. Bem perto do pânico esquisito de ter sido abandonada de novo, havia uma sensação de banho quente de alívio, tão nítida quanto tinta a óleo. Era uma sensação conhecida — o alívio que eu experimentava sempre que meu pai aparecia de volta para me pegar. Do que eu precisava me aliviar? De nada, tirando o fato de que alguém tinha voltado por minha causa. Quando você passa sua vida esperando para ser apanhada que nem um livro de biblioteca ou parte da bagagem, a intensidade desse alívio fica um pouquinho ridícula. Mas pelo menos Christophe não tinha se esquecido de mim. 5

Jim Beam. Uma marca de Uísque Bourbon (N.T.).


Catei uma toalha e voltei do banheiro pisando forte. Christophe não tinha se mexido. Estava observando as prateleiras vazias com um olhar peculiar no rosto. Tentei fazer com que elas parecessem um pouco menos vazias arrumando alguns dos enfeitezinhos — inclusive um elefante azul de vidro com a tromba erguida — em estantes diferentes. Meus livros, meus CDs, meus colchões — estava tudo na caminhonete. Nada ali era meu. Até o cheiro estava errado — dá para saber quando alguém ficou num lugar por certo tempo. O próprio ar fica viciado. Mudar-se para um local onde ninguém ficou respirando durante um período é como experimentar sapatos que não cabem e torcer para que sirvam na gente. Sapatos assim nunca servem. Nunca permaneci tempo suficiente em uma casa com tal sensação de antipatia. Nem sei se esses caras relaxam. Mesmo assim, eu estava começando a pedir uma trégua para alguns daqueles enfeitezinhos. Eles tinham perdido aquele jeitão de coisinhas afetadas me censurando e passaram a pegar mais leve com a ideia da minha presença. E, quando eu voltava do refeitório, pelo menos cheirava um pouco mais feito um hotel, em vez de uma cripta. — Pega! — atirei a toalha a Christophe, que a pegou com um gesto limpo e econômico. — Vai falando. — E se eu só passei para ver você? Ele esfregou o cabelo, enxugou o rosto e as mãos. A jaqueta rangia um tiquinho. As mãos dele estavam molhadas, e eu vi fios vermelhos e profundos que se cruzavam gotejando das palmas e marcando os nós dos dedos antes que ele a jogasse longe em chacoalhões. Seus dedos ficaram pálidos e perfeitos novamente, quando ele ergueu um e o examinou com cuidado, soltando o ar dos pulmões. Meu coração sacudiu de um jeito engraçado. — Ah, fala sério! Você não ia esperar se tivesse tanta vontade assim de me ver. — E não ia entrar de mansinho pela minha janela se tudo estivesse bem. Achei uma camisa de flanela com padrões xadrez grandes, que Graves tinha arrumado em uma de suas compras, e me enfiei dentro dela, meus dedos remexendo os botões. Tinha um cheiro leve de fumaça de cigarro e outro forte, de sabão de coco. Outra sensação bizarra de alívio correu por mim. — Onde você estava, de


verdade? Guiando por aqui? Você está legal? — Estou bem. Sensibilizado com a sua preocupação — esfregou atrás da orelha e sorriu que nem um felino. Os reflexos dourados deslizando por seus cabelos tinham escurecido por causa da água. Mesmo assim, ainda eram visíveis. Se livrou também da jaqueta e procurava um lugar para colocá-la. Apontei a cadeira de escritório barulhenta, em frente ao computador, e ele a pendurou ali, os músculos se movendo sob seu suéter preto e fino com decote em V. Olhei para as cortinas puxadas sobre a janela. Estava bem escuro aqui, e aquilo meio que me deixava alegre. Mas também tinha uma porrada de motivos para não me alegrar com a escuridão. Acendi o abajur — um antigo, com base de bronze e um anteparo azul feito de vitral — e me voltei para descobrir que Christophe me observava. Seus olhos estavam ainda mais azuis do que o quarto, mas estranhamente descoloridos. Olhos de inverno. — Afinal de contas, quantos anos você tem? — não cruzei os braços, mas apanhei a adaga de novo. Não tentei voltar a lâmina, só a segurava de leve. Aquilo me fez sentir melhor. Meu cabelo estava todo zuado, e minha calcinha, arrumada de maneira esquisita. Pelo menos eu me sentia preparada para lidar com a situação se segurasse o cabo da faca. Por quê? Ele não vai me machucar. A sensação de alívio explodiu dentro do meu peito de novo, mas por baixo dela havia a fronteira desprotegida do medo. Agora eu tinha visto o que um djamphir poderia fazer. Eu era idiota por não ter medo deles. Christophe se mantinha bem imóvel. Estava observando o meu peito, onde o medalhão da minha mãe brilhava. Quando eu me mexi um tantinho, fechando a ponta de cima da camisa de flanela xadrez, ele, por fim, mudou o olhar, examinando meu rosto. Minhas bochechas estavam tão quentes quanto as bocas de um fogão. — Tenho só uns aninhos a mais do que você, Dru — mais uma vez ele deu uma rápida olhadela no resto do quarto, tipo esperando que houvesse


alguém escondido nas sombras. — Este lugar me lembra o quarto da sua mãe. Ela foi a última svetocha que conseguimos salvar. — Pronto, dizia seu tom de voz. Isso responde ao que você estava mesmo perguntando? Sacudiu a toalha e novamente passou os olhos pelo quarto. Um hálito com cheiro de torta tocou meu rosto. — Ela guardava livros, uma porção deles. Talvez estejam em uma sala de espera. Aguardando por você. Minha mão se mexeu muito de levinho, querendo tocar o medalhão da minha mãe. Obriguei-a a ficar para baixo. — Ninguém vai me treinar — explodi feito uma cachoeira, que tentei não transformar num gemido. — Você disse que eles iam. Nada de treino de combate, nem coisa nenhuma. Me tratam como se eu fosse... — De vidro? — inclinou a cabeça. Sua pele molhada pela chuva era perfeita, como seda úmida. — Como se você fosse frágil? Preciosa? Há coisas piores, moj ptaszku6. Não do meu ponto de vista. — Olha, eu não vou melhorar em nada se continuarem me tratando feito... Nem ao menos o vi se mexer. Em um instante ele tinha cruzado o quarto, com a toalha nas mãos e a cabeça erguida. No outro, seu nariz estava colado ao meu, um borrão aquecido, com aroma de maçãs e tempero, me puxando pelo cabelo, beijando meu rosto. Quase caí para trás ao rasgar com a faca. Faixas de aço quente fecharamse ao redor do meu pulso e o torceram. Meu braço parecia gritar de tanta dor, a faca foi arrancada de mim, de meus dedos que, de súbito, perdiam a força, e meus joelhos dobraram. A outra mão dele prendeu-se em minha nuca, sob meu cabelo. Meu ombro era deslocado, gritando à medida que torcia de um jeito que não era seu natural. Anda, Dru! A voz do meu pai enchia minha cabeça. Só tinha um jeito de sair daquela, e foi o que eu usei — me inclinar para frente, aumentando a força para rodar, meu ombro dando um tremendo estalo de dor enquanto os dedos de Christophe afrouxavam. Meu pé descalço acertou o joelho dele, o calcanhar fincado no chão. Foi um bom chute, e ele deixou escapar um som curto e 6

Meu passarinho, em polonês (N.T.).


agudo, tipo uma risada. Caí no chão, rodei e me ergui agachada. A faca estava fora do campo de visão, e Christophe curvou um pouco a perna, sacudindo para aliviar a dor. Deveria parecer ridículo em um pé só, mas em vez disso parecia um gato puxando a pata depressa, o restante do corpo perfeitamente equilibrado. Fica abaixada. Se ele vier para cima, você tem uma chance melhor de se livrar dele. Dei uma olhada rápida para a porta. Ali não tinha jeito — eu ia levar segundos preciosos abrindo, destravando, desacorrentando. —Boa — disse ele. — Procurando por onde fugir, já que eu sou rápido demais. Muito bem. Mas eu já estou aqui, e você está sem armas, moj maly ptaszku. O que você faz, então? Sem armas o cacete. Sempre existe uma arma. Vasculhei ansiosamente ao redor e não encontrei nada além dos enfeitezinhos, para tacar nele. Mais uma vez, ouvi o som abafado das asas, cujas penas varriam o ar no quarto. Meu cabelo ficou em pé com uma brisa tímida que parecia não vir de lugar algum, e me mantive imóvel. Eu meio que esperava ver a coruja da minha avó. Só que não aconteceu nada. Permaneci atenta, observando Christophe. — É isso aí — ele fez que sim com a cabeça. O cabelo dele tinha ficado oleoso e escuro conforme seu disfarce surgia. Você podia ter uma aparência fraca ou forte, e os disfarces que surgiam "externalizados" em outras formas — geralmente um animal que nenhuma pessoa normal conseguia ver — eram os mais fortes de todos. Era dessa parte que também surgia o apetite por sangue. Um lugar profundo e sombrio que faz você enlouquecer ao sentir o cheiro da coisa vermelha. Christophe baixou, lentamente, até ficar agachado. As pontas de seus dedos repousavam sobre o carpete, mantendo o equilíbrio, e seu olhar jamais abandonava o meu. — Você está bem perto de desabrochar, Dru. Você tem uma facilidade natural, principalmente quando se encontra em um estado emocional elevado. Mas você não pode contar com isso. Pode ser que não tenham te deixado treinar combate porque estão elaborando um programa para você, ou pegando


professores de fora. Ou pode haver outros motivos. Algo me disse que ele estava mais para os "outros motivos". Ainda não me contava o que ele sabia, ou o que ele achava que fosse. — Dylan falou que era porque você ainda não tinha voltado — não relaxei. Nem ele. A tensão era uma corda entre nós, um calor obscuro que percorria meus ossos. —Ah, o Dylan. Como ele está? — o sorriso que se espalhava pelo rosto de Christophe não era nada simpático. Era o riso de um gato diante de uma toca de ratos. — Ele disse que estava apaixonado por ela? Hã? — O quê? — Todos nós estávamos. Ela era um instante de luz, a sua mãe. Sergej a roubou, se bem que não antes de ela ter nos largado por escolha própria. Todos nós estávamos... — ele se endireitou devagar. A adaga rodopiou por entre os dedos dele, a lâmina carregada de prata borrando em uma série complicada de meios arcos conforme sua mão se agitava velozmente. — Já chega por hoje, Dru. Pode se levantar. Fiquei onde estava. Aquilo era mais do que eu já havia tirado de alguém. Além disso, eu não confiava que ele não fosse saltar em cima de mim de novo, só para provar algo. Eu deveria ter sentido mais medo. Mas não sentia, apesar de meu coração bater forte o suficiente para abrir caminho à força pela pulsação na minha garganta. Minha respiração saía em bufadas curtas e bruscas, e meu corpo inteiro pinicava por causa da adrenalina. Era a primeira vez, desde que eu havia chegado ali, que eu me sentia desperta e razoavelmente viva, de verdade, em vez de adormecida e aterrorizada. — Teimosa como sempre — ele suspirou e atirou a faca de volta sobre o criado-mudo. O objeto fez um estardalhaço ao bater na base do abajur. — Eu tenho mais ou menos meia hora até poder ir embora. Não vou perder esse tempo atirando você por todos os lados deste quarto. — Nossa! Valeu, hein? — não consegui soar mais sarcástica, mas estava a fim de tentar. Minha respiração voltou ao normal. — Então para que você


veio? Para tomar chá com biscoitos? — Minha boca queria salivar. Ele tinha cheiro de biscoitos. De canela, com bocadinhos de recheio de torta de maçã. Meu estômago, porém, tinha encolhido até o tamanho de um uma moeda. Se eu somasse as coisas — uma escalada de janela mais "meia hora até poder ir embora" — não dava nada de bom como resultado. Pelo menos eu tinha sacado bastante coisa. Toda aparência de diversão tinha sumido. Do nada, ele parecia muito mais velho, mesmo sem mudar nada do rosto. — Para achar você e ter certeza de que você está segura. Ai, como você é fofo. Meu coração deu outro salto. Fiz meus joelhos funcionarem, forçando o resto de mim a se erguer devagar. Meu ombro doía demais. — Não me deixam nem ir lá fora sozinha. — Não é o "lá fora" que me preocupa. Tanto — Christophe soltou um suspiro. O suéter grudava nele, e seu jeans estava todinho ensopado, principalmente nos joelhos. O que levantou outra questão. — Ainda assim, como é que você chegou nessa bendita janela? E o que é que te preocupa tanto aqui dentro? — Um traidor — ele olhou para a cama, e dava para ver que ele tinha decidido não sentar ali e esticou as mãos em um movimento curiosamente vulnerável. — Alguém que entregou a Sergej a localização de uma casa segura, aprovada pela Ordem, alguém que eu nem deveria conhecer. Que, sem querer, permitiu que ele armasse uma emboscada para nós dois. Tentei não estremecer com esse pensamento. Christophe atravessando os escombros da parede e voando sobre o capô da caminhonete, igualzinho ao Super-Homem. Graves atrás do volante, aterrorizado e segurando a onda. E eu, quase afundando nos olhos negros e oleosos de Sergej. — Mas a gente arregaçou com o cara, né? Mesmo que alguém tenha traído a gente. E... Christophe balançou a cabeça e, por um momento, pareceu triste. Se moveu, e eu me encolhi, mas bastava bater na cadeira do computador e jogá-la no chão enquanto ela guinchava de leve. — A gente levou vantagem, Dru. Quase isso. Se não fosse de dia, se Juan


e os outros não tivessem acreditado em mim em vez de numa ordem de controle, se seu amigo não tivesse confiado em mim, se você já não tivesse enfrentado Sergej com mais habilidade e poder do que qualquer um esperava, se, se, se. Você teria morrido — o rosnado que atravessou seu rosto veio e se foi em um instante, tão depressa que eu poderia ter imaginado tudo. — Eu teria perdido você. Falou como se tivesse acabado de pensar na hipótese. Outro silêncio desagradável encheu o quarto, pressionou as cortinas e deixou a luz filtrada pela chuva parecer mais fraca. Fiquei a encará-lo. — E nem era para você estar aqui — respirou fundo. — Imaginei que você seria enviada para a Schola principal. Não sei como você foi acabar nesta filial, entre... bom, essa gente. Bom, a gente já havia respondido a essa pergunta — aqui não era a única Schola. Mas do que ele estava falando? — Que gente? Lobisomens? Tem também djamphir por aqui, você sabe, né? — Deixa para lá. Quem sabe... eles... decidiram que seria mais seguro para você em uma escola menor. E isso facilita as coisas para mim. —Que coisas? — minha voz saiu suspeita até para mim mesma. Meu rosto tinha incendiado de novo, e meus joelhos não me pareciam lá muito firmes. — Coisas como vigiar minha passarinha descuidada até ela desabrochar. Eu conheço muito bem esta Schola. Não, sua mãe nunca esteve aqui. Aí, valeu, Christophe. Eu não perguntei, hein? Mas parecia bom saber de um jeito furtivo. Outro daqueles espaços silenciosos e desagradáveis entre nós. Tentei não encolher os ombros. — O que mais você não contou para mim? — Nada de importante. Nada sério. Mas você quer que eu conte? — seu queixo inclinou-se para baixo à medida que ele me encarava. — Então, skowroneczko moja, sente aqui aos meus pés e escute. Não temos muito tempo. E eu tenho algo para lhe dar.


CAPÍTULO CINCO

entei na minha cama, os braços dobrados em volta dos joelhos. Às vezes me mexia para minhas pernas não ficarem dormentes. Na maior parte do tempo, porém, eu só ficava sentada e encarando a luz cinza e fraca do dia revestindo a janela, o granizo agora batendo em ondas. Ele tinha saído pela janela e simplesmente... sumiu, mesmo quando eu atravessei o quarto correndo e botei minha cabeça para fora, feito uma idiota, procurando por ele com ansiedade. Christophe deixou para trás o cheiro de tortas de maçã assando, que agora ia morrendo, pegadas molhadas no carpete, uma toalha ensopada com manchas de ferrugem, uma cadeira de computador encharcada... e os dois trecos de madeira. Espadas de treinamento? Toquei na empunhadura de uma delas. Estava quente, a madeira gasta e oleosa, escurecida pelo uso. A textura era densa e bastante dura. Não. Christophe tinha tocado em uma delas, do mesmo jeito que eu estava tocando agora, percorrendo os dedos gentilmente pelas curvas. São malaika, feitas de madeira de espinheiro. Não são para treinar. São para matar coisas que caminham na noite e foram criadas para as mãos de uma svetocha. Pouquíssimos djamphir têm habilidade para usar as espadas tradicionais de Kouroi, hoje em dia. Mas para que servem espadas de madeira? Espadas compridas, ligeiramente curvas, com um formato bizarro de folha. Parece até que pertenciam a uma superprodução de artes marciais, do tipo que eu assistia centenas de vezes, de madrugada, na TV a cabo, esperando meu pai voltar.


Esse pensamento me fez ficar encolhida. Era bem mais fácil e mais agradável pensar na voz ponderada e uniforme de Christophe. Madeira de espinheiro é letal para os nosferatu, e ainda mais letal quando manejada por um Kouroi. Até que ponto seria assim letal, se fosse manejada por você? Seja boazinha e você vai aprender a usá-la. Quando for mais seguro, e eu voltar. E ele as largou aqui. Armas. Mesmo tendo sido feitas de madeira, as pontas eram afiadas pra caramba. Para provar isso, Christophe cortou um punhado de seu cabelo. O cachinho castanho com mechas loiras repousava no criado-mudo perto da adaga. Um lembrete, ele disse. Assim você saberá que eu vou voltar. E eu corei, de novo, feito uma idiota. Era absurdo o conforto de saber que alguém ia voltar por minha causa. Agora que eu perdi tudo aquilo — ou todos aqueles — que tinha. Baixei o olhar para as espadas, o calor morrendo em minha face, escorregando de volta por minha garganta e se acomodando no meu peito, perto da tal bolha de ácido. O medalhão era um ponto aquecido no meio do meu peito. Uma luz cinzenta e pálida deslizava sobre cada curva. Parecia que faziam parte do lugar, aqui na cama, contrastando com o veludo amontoado da capa do edredom. Mais do que eu, pelo menos. Havia uma casquinha recente na perna que eu não tinha depilado, uma irritação formada por machucados cicatrizando em minha outra perna. A medida que a manhã caminhava rumo à tarde, eu me levantei. Minhas pernas estavam meio bambas por eu ter me sentado dobrada na cama por tanto tempo. Levei uma das espadas de madeira ao banheiro. Havia um espelho sobre a pia, grande e bonito. A luz aqui também era boa, um dourado quente que vinha das lâmpadas empoeiradas. Corria pelo meu cabelo emaranhado e pelos riscos debaixo dos meus olhos. Apenas uma adolescente normal, de braços e pernas compridos, e esquisita. Com as maçãs do rosto desproporcionais, olhos azuis de um tom diferente dos de Christophe. Eu tinha os olhos do meu pai, com linhas levemente violeta na íris. Tinha o cabelo da minha mãe, mas sem a maciez sedosa dos cachinhos dela. As tranças se emaranhavam de qualquer jeito, mas


não eram a auréola de frizz que costumavam ser. Eu nem tinha mais espinhas. Acho que por causa do banho. Só não conseguia me sentir bem nem mesmo com aquilo. Estava tão pálida quanto um cadáver. Entre os círculos abaixo dos meus olhos e os dois pontos quentes nas minhas bochechas, eu parecia um fantasma. Eu sabia do que estava falando. Já tinha visto alguns. Ergui a espada, inclinei sua curva para baixo, para trás. — Malaika — sussurrei. Tinha cara de que fazia parte daqui. Com o veludo e o cetim e a pedra lascada. Mas eu não. Os círculos sob meus olhos eram restos de ferimentos. Meu lábio superior estava muito fino, o de baixo, muito inchado, meu nariz grande demais, e meu cabelo, esquece. A camisa xadrez era uma mistureba de um mau gosto evidente: vermelho com amarelo e verde; e minha calcinha boxer de dormir tinha estampas de pinguins. E ainda estavam entrando pelo meu "cofrinho". É isso aí. Jamais ganhei um prêmio. Só que eu era durona. Não era? Consegui localizar meu pai, não importa o que ele estivesse aprontando. Fiz Graves escapar de um lobisomem doido varrido e o tirei de um Shopping Center deserto, atravessando uma tempestade de neve, e peitei Sergej sozinha. E daí se eu precisasse ser resgatada? Ainda aguentei uns rounds com ele, meti uma bala naquela cabeça e consegui fugir, ainda sangrando. Meu pai. E minha avó. E minha mãe. Todos mortos. Algo quente e afiado demais para serem lágrimas cresceu na minha garganta. Eu era a única que tinha sobrado. Se você se comportar, assistir às aulas, por mais chatas que sejam, mantiver seus olhos abertos, eu vou te ensinar a usar isto aqui. Sua mãe era mestra na malaika. Não sei por que ela abandonou as que tinha. Ele tinha tocado de novo em um cabo, seus dedos estranhamente gentis e a boca caída de um jeito amargo. Guardei as duas que ela usava em um local seguro. Quando você estiver preparada, elas serão suas. Meu fôlego travou na garganta. Permiti a mim mesma me lembrar da minha mãe. Era o que mais doía porque... bom, porque sim e pronto. O cabelo dela sempre cheirava a calor e perfume novo. Seu rosto em


forma de coração e a beleza até nos menores gestos. Seus olhos negros e a fotografia dela, que meu pai guardava na carteira, com um ponto brilhante gasto pelo tempo no plástico sobre o rosto dela. Aquele ponto brilhante ainda estava lá, embora a foto não. Se fuçasse a carteira do meu pai, eu ia achá-la e o lugar onde eu sempre passava o polegar enquanto apanhava uma nota de vinte ou cinquenta me encarando. Se eu olhasse por mais tempo, quem sabe até visse as curvas e as linhas de seu rosto, de muitos anos atrás. Ai, meu Deus. Afastei as lembranças que queriam vir à tona, mas não tão depressa. Nem dá para parar de pensar em alguma coisa com tanta velocidade. Coisas dolorosas sempre nos apunhalam rápido demais, antes que a gente feche a tampa com tudo e as empurre para bem longe. Vamos brincar, Dru. Ela me escondeu em um closet e saiu para lutar contra Sergej. Meu pai tinha me deixado em casa e ido peitar Sergej sozinho. Minha avó tinha tentado ficar comigo, mas a idade a levou embora. O corpo dela não tinha conseguido se livrar das preocupações, e eu posso jurar que ela odiou ter me abandonado. Havia aguentado o verão inteiro, mas o primeiro vento frio que subia do vale foi demais para ela, e o hospital... Lá estava ele de novo, um pensamento doloroso. Deixei o ar sair dos meus pulmões, bem demorado e bem devagar, como se estivesse lidando com uma câimbra. Não deu certo. Essa câimbra vinha de dentro, em um lugar que nenhuma respiração profunda podia alcançar. Eu não era tão bonita quanto minha mãe, nem tão esperta quanto meu pai. Não era boa com tudo o que eu botasse à mão, como eles dois. Era só uma magrela sem sorte na vida e mal paga. Encontrei meus próprios olhos no espelho. Eu não tinha cara de quem deveria estar segurando a espada de madeira. Eu a agarrei, desajeitada, com uma das mãos, longe do meu corpo como um taco de beisebol do qual eu tinha medo de levar uma mordida. Era só eu. Só a Dru. A garota no espelho sorria um pouquinho, o que me fez concluir que eu também sorria, mesmo sentindo o rosto congelado. Tomei todo o cuidado para abaixar a mão e deixei a espada balançar.


Voltei para a cama batendo os pés e deslizei as espadas por baixo dos babadinhos do edredom, junto da carteira do meu pai. Ninguém ia saber que eu estava com elas. Ninguém ia saber que eu tinha visto Christophe —, mas tinha uma pessoa para quem eu precisava contar. Se Graves não estivesse tão ocupado correndo por aí com seus novos amigos, se eu pudesse apanhá-lo sozinho, ele poderia... o que ele poderia fazer? Será que era justo jogar isso nas costas dele também e pedir que ele me ajudasse a descobrir e lidar com essas coisas? Acima de tudo, ninguém deveria saber que agora eu tinha um serviço, que Christophe tinha me dado. E que era tentar descobrir quem, na Schola, me queria morta com tanta vontade que também tinha traído Christophe. Então, eu não sou nem bonita nem esperta nem outra porrada de coisas. Só que eu sou teimosa. E durona. Já estava na hora de começar a usar o que eu tinha.


CAPÍTULO SEis

barulheira no refeitório derramava-se sobre mim em ondas. Assobios, vaias, conversas, gargalhadas — todo mundo estava tomando café da manhã. Finquei o garfo nos ovos mexidos. As panquecas estavam quentes e fresquinhas; agora, ficavam só por ali. Tipo eu, só por ali. Era pouco depois do anoitecer, as aulas iam começar em 45 minutos e eu estava mesmo sentindo uma vontade imensa de voltar para a cama. Quer dizer, eu nunca morri de amores pela escola, e tinha tomado a decisão de começar a fazer alguma coisa, mesmo que fosse enfrentar as imbecis das aulas paliativas sem reclamação. Só que subir, me trocar, fazer tranças no cabelo de novo e encarar o refeitório estava testando essa minha decisão. De verdade. Meu ombro ainda doía, resultado daquele pequeno tango com Christophe, mas não tanto quanto deveria. Aqueles banhos faziam maravilhas com a gente. Uma sombra caiu sobre mim. Senti dificuldade em não me retrair. Mas era só um lobisomem novinho e loiro, com olhos negros e um rosto agradável. Era pálido e agarrava sua bandeja com tanta força que os nós dos dedos tinham esbranquiçado. Ele parecia prestes a quebrar alguma coisa, de tão nervoso. Dei uma força para essa emoção. Sua boca se mexia, só que eu não conseguia escutar nada do que ele dizia com aquele barulhão. A cortina de vapor de onde surgia a comida sibilava por baixo de todos os sons da multidão. — Hein?


Meu garfo caiu na minha bandeja, fazendo um escândalo. Ele se retraiu, os ombros se curvando por baixo de um suéter azul tricotado à mão. Tinha uma estrutura franzina e a cintura fina demais para um lobisomem, mas músculos amplos e definidos se projetavam de seus antebraços, por baixo dos punhos do suéter, puxados para cima. — Dibs — coaxou. — Eu sou Dibs. Fechei a boca num estalo. Já tinha visto gente tímida por todo o país, e esse garoto era um caso sério. Minha consciência me deu uma cotovelada bem forte. Empurrei a cadeira para perto de mim. — Oi. Dru. O jeito que a cara dele se iluminou dava para imaginar que eu tinha acabado de lhe dar um bilhete premiado de loteria. Ele se sentou com tudo. Sua bandeja tinha uma pilha imensa de carne crua derramando—se por sobre a borda do prato. Vi duas bistecas T-bone e uma bagunça de hambúrgueres, e meu estômago embrulhou. Engoli e catei meu café correndo. — Oi — ele coçou a perna por sobre o jeans e sorriu. Dentes brancos brilhavam, e seu cabelo brilhava com gel. Talvez as garotas o adorassem. Ele tinha aquele olhar saltado de um alce apavorado — Eu... é... Oi. — Epa! — dei uma garfada nos ovos mexidos. Tentei não olhar para o prato dele. — O que é que está rolando? — Quê? — seu ar confuso me parecia sincero. — Ninguém quer trocar uma ideia comigo. Por que você está aqui? — eu estava contente com a companhia, principalmente quando Graves não estava à vista. Mas eu já tinha sido a garota nova da escola em todo o país. Não dá para ir confiando no primeiro garoto que chega junto. Ou você aprende a sacar, pelo menos, o que eles podem estar pensando que podem ter com a garota nova no pedaço. É claro que Graves foi o primeiro que chegou junto lá na região de Dakota. Eu não sabia o que pensar daquilo. Deve ter sido sorte. Quem sabe. Se bem que no caso dele não foi tanta sorte assim, porque ele foi mordido e acabou aqui. — Você parece solitária — ele se inclinou por cima do prato, os dedos


longos quase, mas nem tanto, tocando a carne. — E apostaram que eu não ia conseguir, já que sou um sub. As vezes você precisa mostrar que eles estão errados, mesmo os doms. — Sub? Doms? Ai, ai. — Eu, é, nasci desse jeito. Nasci, não fui mordido, e nasci sub também — piscou. — Você não sabe nada disso, né? Graves disse que você manjava muito, mas algumas coisas não. — Ele disse, é? — dei outra garfada nos ovos. Dibs relaxou um pouco. — O que mais Graves disse? — Que se alguém mexesse contigo, ele ia chamar pro pau. Ele entrou num desses no primeiro dia, provou que era dom. Ele dorme na cama de cima do beliche — mesmo mostrando os dentes, Dibs tinha uma expressão gentil no rosto. Apanhou uma das bistecas e mordeu, os dentes cortando a carne sem fazer esforço. Que interessante. — E você, não? — brinquei com uma linha do melado no meu prato, furando com as pontas do garfo e fazendo rodamoinhos. — Tem um montão de camas, mas nem todo lobisomem dorme em uma. E complicado — deu outra mordida das grandes. A carne se esparramou e fez um ruído, senti um enjoo bem discreto. Vai se acostumando, Dru. Só que eu me lembrei dos dentes do lobisomem rasgando e penetrando a carne e esmagando-se no ombro de Graves. Esse pensamento me fez sentir completamente pálida. Daqueles pálidos de inverno, mesmo. — Fala, cachorrinho! — um grito de um djamphir que passava; um dos amigos de Irving, um garoto magro, com cabelos escuros, camisa vermelha e jeans, passando todo despreocupado, com aquela elegância apavorante. — Bota o pratinho no chão. Ele deu um sorriso sarcástico e elegante ao passar. Dibs se curvou mais ainda, e a bola de ácido dentro do meu peito ferveu como se algo tivesse caído dentro dela. Deslizei minha cadeira para trás, minhas pernas estavam ficando tensas, mas a mão de Dibs baixou sobre meu pulso com uma força surpreendente.


— Deixa para lá — sussurrou, sob o barulho da multidão. — Não quer dizer nada. — Quer, sim — tentei puxar a mão — Quer dizer algo. Uma onda de sussurros percorreu o refeitório. Virei a cabeça, mantendo o djamphir no meu campo de visão. Ele se sentou com tudo à mesa de Irving, um dos locais mais importantes das imediações do refeitório, e riu. Os amigos dele também estavam rindo. Minha trança batia nas minhas costas, enquanto eu tentava livrar minha mão da mão de Dibs outra vez. Mark. A memória me forneceu o nome do djamphir bem na hora em que minha mão, agora libertada, se fechou em um punho. Tenho certeza de que o nome dele é Mark. E ele até tem cara de quem se chama Mark. Vai entender. — Caraca. Você encanou de verdade com isso — ele riu, fazendo um sonzinho tremido. — Ele que se dane. Eu nem esquentei, Está vendo? Você só vai arrumar problema se disser alguma coisa. Fica de cabeça baixa. A tensão foi diminuindo, mas não me largou. Meus ombros tinham virado uma barra sólida debaixo da minha camiseta e do meu casaco de capuz, e eu perdi o apetite. — Não discuta com eles — me soltou, um dedo de cada vez. — Nem com um lobisomem. Eles não pegam pesado contigo, sacou? Vão pegar pesado comigo. Mas desencana, os doms vão dar um jeito nisso. Mais cedo ou mais tarde. Sempre dão. — Jesus — deixei escapar um fôlego trêmulo. Aquilo já tinha me incomodado antes, a indiferença com que Christophe tratava Graves; como se fosse alguma coisa contaminada. Inferior, de certa forma. Aqui também me incomodava: os djamphir estavam no topo da cadeia alimentar. Eu havia imaginado que, de algum modo, as coisas seriam diferentes. Que, no Mundo Real, não existiam as brincadeiras babacas e insignificantes que rolavam na escola. Só que, aqui, nada mais era do que a velha coisa de sempre. Grande coisa deprimente. Será que alguém conseguia se livrar daquilo? Mas comprar briga no dia em que eu tinha resolvido virar uma página não era a melhor das ideias. Eu precisava começar com o pé direito. Dibs estava olhando para mim na maior ansiedade, criando uma linha


vertical entre suas sobrancelhas douradas conforme elas se uniam em uma ruguinha. Parecia um golden retriever que eu tinha visto uma vez, um cão adorável que morava em um acampamento de trailers saindo de Pensacola 7. O jeitão como ele inclinava a cabeça e mastigava ao mesmo tempo reforçava essa impressão. Coçando atrás das orelhas... Ah, que bonzinho que ele é! Engoli com força. Aquele pensamento me desagradava. Eu não era como eles, esses belos e indiferentes garotos djamphir. Sempre me senti excluída. Dei uma garfada nas minhas panquecas, como se estivesse esfaqueando o rosto da estupidez: — Todos eles agem do mesmo jeito, esses djamphir? — Sim. Quer dizer, menos você. Graves falou que você era diferente. Disse que você... — E aí, Dru? — Graves puxou com tudo a cadeira do outro lado e se jogou nela. Cheirava a ar frio e fumaça de cigarro, seu casaco preto comprido ainda trazendo a temperatura gelada de fora. Um avermelhado logo acima das maçãs de seu rosto lhe fazia bem, e seu brinco cintilava. Seus olhos também soltavam faíscas. — Dibs, bom te ver, cara! Dibs emudeceu tão depressa que eu até me surpreendi de ele não ter perdido um naco da própria língua. Ficou se ocupando em rasgar a carne e mastigar, com um olhar de cachorrinho pego na travessura. — Então você é um dom, hein? Beleza — mais uma vez, garfei as panquecas. — Safadão. — Quem amarra os outros na cama é você, guria — o olhar de Graves passou correndo por mim, encontrou Dibs e voltou. — Que é que está rolando? Dibs encolheu os ombros e apanhou outro bocado de carne. O tom da minha voz era duro e indiferente: — Um djamphir babaca quis encher o saco, só isso — garfa aqui, garfa ali, o garfo acertou o prato com força. — Estou quase pronta para as aulas. — Eu te acompanho; a gente faz o primeiro período juntos. Que bom que você resolveu aparecer — ele parecia estar "se achando". Irritantemente 7

Cidade do sul do Estado da Flórida (N.T.).


"se achando". Seu sorriso era um V enorme, e por causa disso uma covinha surgiu na bochecha esquerda. Não tinha mais aquela cara de bebê, e o que era aquilo brotando do queixo dele? Uma barba escura por fazer? O cabelo estava realçado por perolazinhas de umidade; devia estar chovendo lá fora. Legal. Ele saía, fumava, voltava e... Jesus. Agarrei a beirada da mesa com as duas mãos. O garfo amassou contra a madeira falsa. Meus dentes travaram com tanta força que minha mandíbula doeu. Já havia ficado furiosa antes. Enlouquecida. Esse sentimento era novo, e me apanhou com tudo. Sério, eu vi faíscas vermelhas ao redor dos cantos do meu campo de visão, e minha mão ficou louquinha para arrancar na porrada aquele sorriso da cara dele. Eu disse mão? Nada, o corpo inteiro estava vibrando de vontade de fazer isso. — Ai, ai, ai... — a cadeira de Dibs arranhava o chão conforme o garoto ia para trás. — Graves? Ela sentiu cheiro de sangue. Tremi. A onda de tremor me atravessou. Que merda foi essa que passou pela minha cabeça? Era Graves. Ele era meu único amigo ali dentro, caramba. Eu ia mesmo ficar louca de ódio? Por causa de quê? — Ela está beleza — Graves só olhou para mim. Seu rosto nem de perto mostrava que ele estava "se achando" agora. Só pensativo e familiar. — Às vezes ela fica meio ansiosa, mas ela está bem. Não é, Dru? E, do nada, a fúria evaporou, deixando apenas aquela bolha dolorida e vermelha de tão quente dentro do meu peito. Achei minha voz: — Certo. Ansiosa. — De onde veio aquilo? O que foi aquilo? — Meu Deus. — a voz veio entrecortada e exausta. Curiosamente, o refeitório era um sussurro só. A tensão corria debaixo da superfície do silêncio, antes que meus ouvidos se abrissem e eu ficasse um pouco mais calma. — Você se machucou bastante — foi tudo o que Graves disse. — Eu acho que você deveria comer outras coisas, e não isso. Quer um pouco de bacon? Christophe me visitou. Preciso te contar. As palavras morreram nos meus lábios. Dibs quebrou algo com os dentes perto de mim. Parecia osso, e meu


estômago deu um chacoalhão gozado para os lados. — Eu, hã, vou ficar só na torrada — para provar isso, apanhei meia fatia de pão de massa azeda, coberta de manteiga. Mesmo fria, eu a coloquei na boca e mordi. Meus dentes estavam formigando. Era uma sensação bizarra, como se tivessem colocado analgésico neles e o efeito estivesse passando. Quer dizer, nunca tive uma cárie, mas consigo imaginar. Graves concordou com a cabeça. Uma sombra de alívio passou por seus olhos verdes. — Beleza. Ah, a gente vai atrás de comer hambúrguer de novo depois das aulas. Quer que eu te traga alguns? Não. Até você chegar, eles estarão frios. Não quero suborno, valeu. — Quem sabe um milkshake um dia desses? Faz tempo que não tomo um. Não desde que ele me ofereceu um na praça de alimentação de um shopping e me perguntou o que estava errado comigo. A lembrança foi se arrastando à força na minha cabeça, com as cores do pânico, e eu soltei outro suspiro trêmulo. — Vou te trazer então. Se você ainda estiver acordada quando eu voltar — seus cabelos caíram sobre o rosto à medida que ele balançava a cabeça em um "sim", as mechas negras feito a morte parecendo normais nele. — Certeza de que não Está a fim do bacon? Aham, se eu ainda estiver acordada quando você fizer o grande favor de voltar? Não, valeu. Dei outra mordida apressada na torrada enquanto Dibs quebrava outro osso, e deixei escapar um sonzinho feliz de quem estava adorando o gosto da comida. Acho que eu deveria estar preparada para aquilo. Uma coisa era se sentir solitária porque ninguém se sentava com você. Outra coisa, completamente diferente, era ter um lobisomem mastigando logo ali do seu lado. — Nem. Relaxa, estou legal. Sério — fiz as palavras saírem de uma boca cheia de torrada bem úmida e fria e manteiga congelada, e falei para mim mesma que era melhor começar a comer a comida enquanto ela ainda estivesse quente. Quem sabe eu deveria ter contado mesmo a ele sobre Christophe. Fiquei encanando com aquilo até que o sinal do primeiro período tocou, e ainda


estava encanando horas mais tarde, quando caí no sono, em meio à luz cinzenta que precede o amanhecer. Graves não apareceu com o tal milkshake. Mas eu nem estava esperando por ele também. Está bom.


CAPÍTULO SETE

inha segunda semana na Schola terminou um gelo só. A temperatura despencou, principalmente à noite, hora em que as estrelas se transformavam em pontos de uma clareza intensa, num céu sem nuvens e escuro feito tinta. O gelo gotejava das janelas, e nem aquela neblina eterna recuando me fazia sentir aliviada. Todos os lobisomens reclamavam porque esse tipo de clima os faz ficar dentro de casa. E, acredite, se você nunca ficou presa em uma sala com vinte "lobos jovens" inquietos, enquanto um djamphir adolescente fala com voz monótona sobre a anatomia dos chupa-sangues, bom, você está perdendo uma diversão daquelas. Em geral, as salas de aula de uma Schola não são como as de um colégio comum. Na maioria das vezes elas têm um formato côncavo. Os professores ficam na parte de baixo da região recurvada, e os alunos sentam-se em banquetas ou sofás, formando círculos. Havia sofás nas aulas de História do primeiro período; isso significava ter Graves sentado bem perto de mim, inclinado para frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Ele também parecia prestar atenção debaixo daquela zona de cabelos tingidos de preto caindo na cara dele. O nariz se projetava para fora, e o queixo ficava firme. O velho casaco preto de sempre, manchado nos ombros. A intensidade de seus olhos verdes, porém, era nova. Nunca o tinha visto tão concentrado. Ainda me sinto mal por tê-lo arrastado até essa confusão toda. Do meu outro lado, o único aluno djamphir na sala se inclinava, afastandose de mim, escrevendo em um bloco de anotações amarelo. Era Irving, com


seus cabelos cacheados, um tanto alisados para baixo. Parecia ter me perdoado por aquele lance do combate. O menino não levava jeito de quem ficava guardando rancor. Seu amigo de camisa vermelha não estava aqui. Graças a Deus. Todo mundo tinha acabado de sair do chuveiro com os olhos brilhando para a primeira aula da tarde, estava tão frio que eu vestia muitas camadas de roupa sobre mim: a camiseta, a camisa xadrez de Graves e um suéter de lã azul. Por mim, eu ficava lá fora, na frente do arsenal, mas pelo menos a palestra era sobre algo que eu não tinha ouvido antes. O professor havia se livrado do caderno e estava ensinando uma coisa nova. — No ataque dos lobisomens, o alvo principal é, geralmente, o estômago desprotegido — o instrutor, um djamphir loiro, tinha parado de me encarar. Ainda fazia umas pausas de vez em quando, olhando de relance para mim e ficando completamente imóvel por alguns segundos. Era assustador. — Isso faz um wampyr sangrar e, além disso, conseguimos um rastro de sangue caso a coisa escape. Irving ergueu a mão. — Por que não a garganta? — parecia até o melhor aluno da sala dando uma deixa ao professor. Seus olhos se iluminaram, e ele se inclinou para frente. — As garras de um lobisomem duram mais que uma porção de armas. — Boa pergunta — o professor concordou com a cabeça. Eu ainda não tinha descoberto o nome dele. — Alguém sabe? Um lobisomem de cabelos negros e bagunçados, empoleirado em uma das fileiras bem ao fundo da sala, se manifestou: — A garganta é um alvo muito pequeno — o lábio superior dele se ergueu por um instante, uma faísca de dentes. — Além disso, você fica perto demais da coisa. É mais seguro deixar um braço de distância. —E? — as sobrancelhas do professor se ergueram. Ninguém falou. Hesitante, ergui uma mão. Na mesma hora, todos os pares de olhos da classe se prenderam em mim. —Sim? — agora o loiro não estava me desprezando. Em vez disso, olhava para mim com atenção, as sobrancelhas baixas. Ó, Senhor. Vou me sentir uma idiota. Meu coração estava à toda.


— Lobisomens lutam em bandos? — chutei — Tipo, eu não vi tantos assim, mas parece que eles são muito bons lutando como um grupo. Acho que os djam-djamphir — gaguejei de nervoso a palavra e imediatamente me senti uma retardada — Bom, eu não os vejo trabalhando em conjunto, não em um caso assim. — Muito bem! — o professor abriu um sorrisão, como se eu tivesse acabado de lhe dar um presente de Natal. — Acertar o estômago é uma estratégia com maior retorno se a criatura estiver sendo distraída por outros membros da equipe. Quais são as outras estratégias para distrair um wampyr? Me senti igual alguém que acabava de ganhar um prêmio. E aquilo tudo era verdade. Não uma aula idiota de História, em que não te contam a real, apenas a colagem comum das mentiras aprovadas pelo governo, que tiram toda a graça de qualquer negócio. Não, aquilo ali era sobre o Mundo Real. Quantas vezes eu tinha dito ao meu pai que o ginásio não ia me preparar para nada? A gente vivia caindo nesse assunto. Pensar no meu pai doeu, daí tentei pensar em outra coisa. Agora eu meio que me sentia mal por ficar cabulando aula direto e lutando com ele. Quem sabe, se eu não tivesse... Também não queria ficar pensando naquilo o tempo todo. Me ajeitei melhor no sofá. Graves me olhou de um jeito que não tinha como interpretar. Nem se preocupou em erguer a mão. — Sangue — ele disse. Uma única palavra que caiu na sala como se fosse uma rocha em um lago. — Dê uma bela jorrada e esses animais ficam malucos. Uma onda de sussurros percorreu o lugar todo. Irving fez um só movimento inquieto perto de mim. O sofá rangeu. A boca do professor mexeu em um tique nervoso bizarro. Ele não deu a Graves um olhar rápido e venenoso, mas chegou perto. — O apetite. — Na verdade, é mais uma sede — Irving se remexeu de novo. Entendi que ele estava tentando chamar a atenção do professor. — Por que chamam


de apetite, afinal? — Para deixar mais bonitinho? — Graves sugeriu com doçura. Consegui sacar o que ele estava fazendo meio tarde demais, e o professor ficou tenso de verdade. Ó, Senhor. Aqui vamos nós. Suspirei por dentro e joguei uma pergunta que não faria se não fosse para tentar distrair todo mundo: — O que eu quero saber é: por que eu não sinto isso? E isso faz mesmo os chupa-sangues surtarem? — me mexi, e meu cotovelo acertou Graves. Com força. Torci para parecer sem querer. A classe emudeceu outra vez. Eu estava quase me acostumando com o jeito que o povo calava a boca sempre que eu fazia uma pergunta cretina. Pelo menos agora eu vinha assistindo às aulas há uns dias, mesmo que Moral e Cívica e Uso do Disfarce ainda fossem completas perdas de tempo. Talvez não fosse tão ruim assim. Loirão parecia aliviado, mas deu uma olhadela rápida para Graves. Depois foi a minha vez, e eu juro que vi um raio de ódio. — Algumas svetocha têm o apetite por sangue, mas não até desabrocharem. E, sim, até mesmo uma quantidade pequena de fluido vital pode fazer um nosferat jovem, ou um mais velho, entrar em estado de racionalidade severamente reduzida. Depende de há quanto tempo ele fez sua última refeição, e... Refeição. Tipo, como as pessoas. Tremi, mas não tive a chance de terminar o pensamento. Os tons nítidos e baixos de uma campainha recortaram o que quer que Loirão estivesse querendo dizer, e todo mundo na classe saiu voando. Porcaria. Restrição. Talvez fosse um treinamento. Agarrei o braço de Graves, uma decisão tomada quase antes de eu ter consciência de ter tocado nele. — Vem comigo. — Eu tenho que... — ele tentou se afastar de mim, parou e me olhou de cima. Os lobisomens estavam se amontoando diante da porta, alguns deles já


meio transformados, com pelos percorrendo seus corpos. Irving se deteve bem em frente à porta para olhar para trás, seu disfarce deslizando por seus cachos com reflexos dourados, enquanto seus olhos se iluminavam. O lábio inferior ganhava uma covinha, as pontas de seus caninos tocavam a carne só de leve. O professor já tinha ido embora, desaparecendo em um vento que cheirava a algum tipo de colônia pós-barba forte demais. Mas ele não cheirava à vela de natal. Só Christophe. Para quem eu poderia perguntar sobre isso? Eu continuava prendendo Graves. — Por favor. Eu vou surtar se me trancarem no meu quarto sem ninguém para trocar ideia. — E não tenho conseguido apanhar você sozinho; você está sempre por aí com Os Peludos. Eu quero te contar de Christophe. Vai entender. — Graves. Por favor. Ele encolheu os ombros, fazendo-os subir e descer. — Teoricamente, eu deveria ir para o arsenal. Se eu não aparecer por lá, é detenção. Como é que é? Você só vai se envolver se eu for levar porrada? E desde quando você Está aí pra detenção, Deusdocéu? Um gosto amargo encheu minha boca. — Beleza — mas não larguei o casaco dele. Dylan talvez pintasse a qualquer segundo. — Vai, lá, então. — Você não está entendendo... — aquilo era de enlouquecer: ele fechava a boca e ficava me encarando, como se eu fosse o problema. O sinal bateu outra vez, com urgência; Graves se livrou de mim com um puxão e se dirigiu porta afora, o casaco esvoaçando em torno das panturrilhas. Me deixando sozinha na sala de aula vazia. Meus dedos ardiam como se tivessem arranhões. O medalhão da minha mãe era uma coisa fria e pesada debaixo de camadas de roupas. O sinal parou de tocar, e o silêncio bizarro de estática da Schola sitiada rastejava para dentro da minha cabeça. Todos os garotos tinham o que fazer quando o sinal tocava. Postos de batalha, alguns deles iam para o arsenal distribuir as armas, outros iam se encontrar em pontos predeterminados e ficavam lá, esperando. Os estudantes


mais velhos e os professores saíam para rastrear a área. Da última vez, alguns deles tinham voltado de uma treta bem detonados. Até sangravam. Por causa dos chupa-sangues. Fiquei lá por uns segundos, minha mão em carne viva por causa da lã bruta do casaco de Graves, que tinha se livrado, com um puxão, do meu aperto. Com aquela, era a quarta Restrição. Alguém sempre surgia para me levar de volta até o meu quarto. Desta vez não. Os segundos passavam em tique-taques, um atrás do outro. As luzes fosforescentes zumbiam e as teias de aranha nos cantos de cima balançavam feito algas marinhas. Alguns dos tijolos do forro também estavam esmigalhando. Esse lugar está caindo aos pedaços. Deus do céu. De repente me liguei que esta era a primeira vez que eu ficava mesmo sozinha, fora do meu quarto, desde que tinha chegado aqui. Curvei os ombros, puxei as mangas do suéter para baixo e saquei que estava aguardando alguém aparecer e me dar ordens. O canivete era uma coisa que me pesava no bolso de trás, coberto pelo suéter e pelas bordas da camisa de flanela de Graves. Vamos embora, Dru. Provavelmente tinha alguma outra coisa que eu poderia estar fazendo. Qualquer coisa. Eu vinha sendo a ajudante do meu pai desde que a minha avó tinha morrido, a gente ia de um vilarejo para o outro, se livrava das coisas escrotas que saltam do nada no meio da noite. Ficar lá, parada, e só, não ia ajudar em coisa alguma. E ficar esperando alguém voltar e me enfiar no quarto também não. O silêncio ganhou uma nova característica, o ruído de estática sumindo dali, substituído pela falta de ar. Pisquei com força duas vezes e dei a volta com firmeza. Me mexi tão rápido que meu cabelo formou um arco. Empoleirada na parte de trás do sofá onde eu tinha me sentado, a coruja da minha avó agitava suas asas brancas, cada uma com uma ponta sombreada de cinza. Seu bico preto parecia indecente de tão afiado. Um olhar amarelo sustentava o meu corpo, e eu deixei escapar um suspiro agudo de alívio e dor misturados. Ai, graaaças a Deus. Onde é que você estava? Era a primeira vez que eu via a coruja da minha avó desde que eu estava


ali, sem ser em sonhos. A campainha habitual começou a tocar em meus ouvidos, um tom alto, nítido e agudo, feito um sino badalando de novo e de novo. Aquilo enchia meu crânio como chumaços de algodão. A coruja virou a cabeça, tipo Que é que há, velhinho? Pisquei. Partículas de poeira ficaram suspensas no ar, e o relógio de parede redondo preso acima da porta silenciou. Nem ao menos fazia tique-taque. Aquele era o espaço entre a premonição e algo bizarro prestes a rolar. Algo bizarro ou bastante ruim. Ainda era cedo demais para dizer qual dos dois. Vuush. A coruja levantou voo em uma confusão de penas. Era um pássaro grande, quase grande demais para a sala, girando em círculos fechados e se dirigindo para a porta. As asas baixaram fazendo barulho bem no instante em que iam acertar os batentes; ela se virou, tão elegante quanto uma espaçonave em um filme, e saiu para o corredor. De repente, fiquei plena de certeza. Era para segui-la. Minha avó sempre me dizia para confiar naquela sensação, e meu pai sempre me falava para não deixar que bobagens de matutos substituíssem a lógica exata. Só que ele nunca me impedia quando eu ficava com aquele olhar — o olhar que dizia que eu estava enxergando algo que ele não conseguia. Vovó era famosa num raio de quilômetros de distância pelo seu "Toque", e eu sempre achei que tinha herdado o meu dela. Afinal de contas, ela tinha me treinado, né? Só que agora eu me perguntava o que eu tinha herdado de onde. A coruja tinha aparecido no parapeito da janela do meu quarto na última manhã que eu tinha visto meu pai com vida. Da última vez, a coruja tinha me levado até a caminhonete do meu pai — e a Christophe. O lobisomem com listras na cabeça, que tinha mordido Graves, também estava lá, mas aquilo foi sem querer. Não foi? Eu não tinha tempo para ficar de bobeira. Saí no maior pique atrás da coruja da minha avó, minhas pernas oferecendo uma resistência pesada. O mundo desacelerou dentro de um treco coberto em plástico duro e gosmento, um fluido nítido pelo qual eu era obrigada a abrir caminho à força, aonde quer


que eu fosse. Aquele peso todo também fazia parte do espaço intermediário. Não estava com tempo para imaginar se estava indo depressa demais para que o mundo acompanhasse, ou se eu precisava atravessar só mais um pouco do espaço para atingir o corpo com o qual eu me movimentava todos os dias. Meu ombro machucado trombou na porta de saída da sala, e um ziguezague de dor intensa veio descendo até minhas costelas. Meus tênis estalavam no piso de pedra, e eu consegui uma boa vantagem de velocidade mesmo através daquele fluxo pegajoso, do que quer que seja essa substância que deixa o mundo mais lento quando você está seguindo a coruja de sua avó morta. O corredor se afastava como uma passagem de uma casa de espelhos, onde os reflexos se multiplicam infinitamente. O brilho amarelo pálido da iluminação fluorescente rastejava para dentro de cada rachadura e lasquinha nas paredes. O chão de pedra com alguns rompimentos no carpete industrial desgastado ou piso de linóleo velho borrava sob as solas de meus tênis barulhentos. Ao meu redor, a Schola se afastava, os corredores se distorcendo. Uma das mangas do suéter azul grande demais para mim tinha desenrolado e se agitava em torno da minha mão esquerda, mas eu não tinha tempo para erguê-la. Era complicado manter a coruja à vista enquanto eu deslizava e escorregava, ricocheteando pelas paredes e perdendo a conta das vezes em que eu quase tropecei. Até que ela inclinou-se novamente, zunindo e descendo até outro corredor pequeno, e me vi diante de um par de portas duplas. Tomara que não estejam trancadas. A da direita, porém, abriu sozinha assim que eu bati nela, a travinha que fica em cima e fechava a porta devagarzinho estalou e fez um estardalhaço, enquanto choviam pedacinhos dele. A porta bateu com estrondo na parede de pedra, e suas dobradiças rangeram alto. Um ar gelado penetrou e jogou meus cabelos para trás. Saltei a passagem feito uma nave espacial à toda velocidade, e o frio era como o golpe de um martelo sobre cada centímetro de pele descoberta. Aquilo me atravessou e minha língua prendeu no céu da boca. O gosto viscoso e espesso de cera e frutas cítricas despejou-se em meu palato. Mais uma vez, a coruja fez uma curva num círculo bem fechado, e então seguiu em frente num bom ritmo. O gosto de laranja é sinônimo de encrenca da grossa; minha avó chamava


de ara. Na verdade, ela queria dizer "aura", tipo quando as pessoas com enxaquecas sentem gostos ou cheiros esquisitos pouco antes de suas cabeças cismarem em desmoronar. No meu caso, eu fico com a boca meio que cheia de frutas de cera apodrecendo, quando vai rolar alguma coisa muito ruim e muito bizarra. Tipo assim, quando um chupa-sangue está prestes a sair do nada e te dar uma bela de uma surra. Quer dizer, eu também sinto isso —, mas com um sabor diferente, — quando estou para me encontrar com um velho amigo, ou quando as coisas vão ficar esquisitas, mas não vai rolar perigo. Eu é que não ia andar mais devagar para descobrir que sabor de bizarrice seria aquele. Não com aquela certeza repentina no meio do meu peito me puxando para frente. Me apressando para seguir adiante. O bosque ia se fechando para dentro do espaço interno do prédio, e tiras brancas e oleosas penduravam-se entre galhos pretos e sem folhas. O cheiro estava errado — muito "poeirento" para uma neblina, com um meio-tom do aroma seco e feio do couro de cobra. E o frio ia além do clima — era um peso sobre a pele, o coração e os ossos. Desci três lances de escadas num pulo e pousei com tudo, o cascalho se esmagando sob meus pés. Quase escorreguei, mas me ergui, alta e segura, feito uma bailarina, e me joguei com tudo atrás da coruja. Havia uns jardins ali — quem sabe iam ficar bonitos com a chegada da primavera. Agora, no entanto, o gelo circundava as placas de madeira que sustentavam lotes largos e uniformes de um jardim destruído pelo inverno, e pingava em estalactites vindas das árvores enfaixadas pela névoa. Ali era a ala leste do complexo de prédios que formavam a Schola, e eu fiquei meio que pensando e viajando como é que eu tinha chegado aqui. Logo abaixo, o pânico ressoava como um segundo coração dentro de mim. E o medo corria por todo o meu corpo e me ensopava. Alguma coisa ruim estava para rolar, agora eu tinha certeza. Só me restava torcer para ter recebido o aviso em tempo e ser capaz de fugir rápido o suficiente. Depois dos jardins, a terra descia em uma colina, formando uma ladeira suave, na direção do rio. Uma faixa de trilha pavimentada fazia uma curva para baixo, rumo ao barracão de uma palafita de barcos, se agigantando contra a


água que refletia a luz prateada da lua. Ela não estava totalmente cheia, derramando sua luz sobre uma paisagem cinza e branca, exatamente parecida com uma escultura de gelo com camadas de lã de algodão ensopadas de óleo pendendo de cada borda afiada. A névoa se fechava ao redor da Schola com seus dedos cheios de ganância e veias. A meio caminho colina abaixo, árvores jovens e arbustos começavam a florescer, criando as separações da floresta. As árvores cresciam, densas e escuras, mesmo se estivessem sem folhas e enfeitadas com fragmentos de gelo. A coruja plainou, retornou, desenhou um círculo em torno de mim enquanto eu corria e partiu colina abaixo, deixando para trás a trilha de cascalhos e atravessando o pavimento, rumo às árvores lambuzadas de preto. Meu fôlego vinha em grasnados ásperos de esforço. Eu corria e a coruja voltava, como se estivesse me pressionando a ir mais depressa. Circulou mais uma vez sobre minha cabeça, e eu pensei ter ouvido a voz de minha avó. Um animal sábio é aquele que sacode as asas sem deixar o camundongo escutar, Dru. É um animal sábio aquele que se esconde quando tudo está tranquilo. Nunca se sabe quando alguma coisa está no alto, acima de você e olhando pra baixo. A primeira vez que eu vi a coruja da minha avó foi sobre o parapeito da janela do hospital em que ela havia sido internada. Na noite em que minha avó morreu. Desde então eu nunca falei sobre esse bicho com ninguém. Só meu pai sabia disso, e ele estava... Para de pensar e corre. Desta vez, era a voz do meu pai, cheia de urgência silenciosa. O único lugar onde as vozes ficavam era dentro da minha cabeça. Melhor do que ficar sozinha, mas era uma coisa muito, muito solitária. Tentei ir mais rápido, mas a gosma transparente e espessa que englobava o mundo ia piorando. Meu coração batia com força contra as paredes do meu peito, pulsando na minha garganta e nos meus punhos com tal energia que parecia querer escapar. O mundo brotou de volta à velocidade normal como uma tira de elástico, e eu estava me atirando para frente como se uma mão quente e enorme tivesse me alcançado e me golpeado como uma bola de sinuca. Quase caindo, me


arrumei e saltei sobre a última caixa do jardim, passando por ela com muitos metros ainda a percorrer. O som retornou depressa. Gelo estilhaçando, pedras voando, minhas próprias passadas criando uma tatuagem pesada no chão congelado, o ritmo duro da minha respiração... ... e, atrás de mim, passos exagerados e um uivo alto e assustador, dissolvido de forma esquisita pela névoa estranha e brilhante. O gosto de laranjas percorreu minha língua outra vez; não podia cuspir para limpar a boca, e nem faria isso, porque o gosto não era só de laranjas de cera. Eu tinha certeza do seu significado agora: algo total e completamente ruim estava descendo. Saí no maior pau rumo às árvores como se minha vida dependesse daquilo. Porque, no fundo, no fundo, eu sabia que ela dependia.


CAPÍTULO OITO

alhos batiam com força no meu rosto e em minhas mãos. Pulei por cima de um tronco caído, esmaguei uma pilha de folhas ao cair sobre ela. Pelos meus dedos espirrava uma coisa escrota e ruidosa formada por melecas de folhas. A escuridão marcava a si mesma com pequenos orifícios de diamantes de luz da lua, reflexos elegantes e congelados. Me levantei correndo, atrapalhada, e disparei novamente, desviando de uma neblina rasteira. O medalhão era uma pedra de gelo no meu peito. Atrás de mim, outro uivo erguia-se para o céu frio. O tal uivo era tão afiado quanto vidros quebrados e navalhas, e forçou sua entrada pela minha cabeça, raspando meu crânio por dentro. Acharam meu rastro. Não sabia quem "acharam", ou mesmo por que eu tinha tanta certeza de que tinham encontrado meu cheiro por acaso. Eu só... sabia, como a gente sabe respirar ou tirar a mão de perto de um fogão quente. Do jeito que eu sabia como evitar os dedinhos assustadores de vapor vindos do chão. Do mesmo jeito que eu sabia como continuar correndo. Sem ligar para quantas vezes eu caía. Corria aos tropeções, e desabei. O woo-woo suave e indiferente da coruja deslizava pelo bosque, ricocheteando no tronco duro que nem aço de cada árvore congelada. Tinha um tipo de trilha meia-boca, correndo ao longo do chão, repleta de folhas espalhadas; eu atravessei correndo um lamaçal profundo e respirei com dificuldade enquanto a água gelada se agarrava aos meus tornozelos. Pulei e fiz uma péssima aterrissagem, meu tornozelo quase


torcendo, e eu, tropeçando. A coruja chamou outra vez. — Depressa, Dru. Outro grito inumano iluminou a noite, escarafunchando a carne atrás dos meus olhos com garras de navalha. Deixei escapar um choro triste, fraco e engasgado, e tropecei para frente, minhas mãos surgindo para apertar minha cabeça até cortar a dor no meio de um uivo, como quem dá um tapinha num interruptor. Que inferno foi aquilo? Eu, porém, não tinha tempo para descobrir. Criei um punho interno no crânio e arrastei a consciência para lá, como minha avó tinha me ensinado. Quando outro grito se ergueu no meio da noite, algum lugar à minha esquerda e a um bom pedaço de distância, nem conseguia alcançar o interior da minha cabeça. Só raspou minha pele feito um arame com ácido; se eu não estivesse me forçando a seguir adiante, talvez também gritaria, cheia de surpresa e uma dor horrível. Esse é o problema de quem se envolve com o Mundo Real. Assim que você entra, não dá mais para desligar um botão e voltar para a vidinha corriqueira. A gente fica presa ao esquema de correr pelos bosques à noite, arriscando quebrar uma perna ou coisa pior, enquanto alguma coisa medonha fica te caçando. A trilha miúda desapareceu aos poucos, como costumam fazer as trilhas falsas nas florestas. Em um momento, você acha que está seguindo a estrada para voltar a um lugar conhecido; no outro, você está pulando para o lado, a fim de evitar a neblina que não deveria se mover daquele jeito, se proteger em um ramo de arbustos espinhosos e amigáveis, e se perguntar que droga aconteceu. Esses arbustos não são seus amigos, não. A não ser quando a gente está correndo para salvar a própria vida. Eles se lançam através da roupa e rasgam a pele, e na hora em que você arrebenta tudo para ficar quase livre, as pegadas atrás de você ficaram bem mais próximas. Tão próximas que dá até para ouvir cada vez que a pessoa muda o peso do corpo sobre as pernas e o estalar de ramos se quebrando, cada jorro de sujeira do solo da floresta, enquanto saltam, mais alto e mais rápido do que um humano conseguiria. A coruja da minha avó estava fora de vista. Eu congelava, enroscada em um monte de trepadeiras com espinhos, tentando controlar a respiração


entrecortada. Meus pulmões pegando fogo; meu coração parecia pronto a estourar minhas costelas e fugir à toda. Eu, entretanto, tentava ficar imóvel e em silêncio. Os galhos estalavam, os espinhos arranhavam. Um deles encostou em meu rosto, um arranhãozinho frio. Queria fechar os olhos, deitando de lado, emaranhada, mas a ideia de estar num bosque escuro de olhos fechados não era das mais brilhantes. Agora, até a neblina fazia barulho. Um raspar baixo, como escamas sobre vidro. Meu quadril, pressionando o solo frio, quase dormente. A umidade escorria para dentro do suéter e do jeans. Uma nuvem pairava diante do meu rosto — minha própria respiração, transparente e translúcida. Passos deslizavam ao meu redor. Pareciam dois grupos circulando entre si. Espremi bem os olhos; novamente perdi a batalha comigo mesma e os abri. Uma linha de espinhos apertava e penetrava as costas do meu suéter. Meus tênis estavam ensopados e meus pés ficaram tão frios que já tinham sumido debaixo de tanta dormência. Crepitações. Galhos estalando. A luz da lua se insinuava lentamente, pontos de cores falsas rodopiando na frente de meus olhos ávidos por luz. O vapor branco e oleoso encurtando a distância, procurando por entre os ramos das árvores e se esticando até a poça, as folhas congeladas contrastando com aquele som miúdo e aterrorizante. Um movimento suave e sorrateiro sob o crepitar. Não conseguia dizer de onde estava vindo, e travei os dentes sobre um barulho desprotegido. Fiz força para engolir. A neblina, apavorante, cada vez mais perto... mais perto... seus fiapinhos tocando as folhas por baixo. Pareciam garras com pontas nos dedos arrancando a textura do solo da floresta. Algo se mexeu dentro do meu campo de visão. Assim que vi o que era, tudo se esclareceu numa imagem nítida. Qualquer coisa que se mova fica mais fácil de enxergar à noite. O problema é quando o que quer que seja para e fica imóvel; essa visão, porém, tinha um retalho branco e felpudo perto da parte de cima. Movia-se feito um lobisomem, uma graça despreocupada, os pelos borrando seus contornos enquanto desviava de um cordão de névoa branco e comprido que o perseguia.


Eu conhecia um único lobisomem com listras na cabeça, e já havia me enrolado com ele antes. Meti—lhe uma bala no queixo, mas não antes de ele ter mordido Graves. Christophe também tinha atirado nele, bem diante da caminhonete do meu pai. O bichinho de Sergej, um lobisomem sem vontade própria. Eu não estava achando que ele tinha vindo aqui para me oferecer biscoitos. Putamerda. É Ash. Tomei fôlego bem de leve. Tinha os pulmões famintos, implorando por ar. Fiquei deitada sem me mexer, com uma tosse coçando no fundo da garganta. Isso sempre acontece quando a gente está se escondendo — uma tosse, um espirro, alguma coisa. E imbecil. O corpo resolve que vai aprontar alguma contigo, mesmo sabendo que ficar quieto é a única maneira de permanecer vivo. Ash parou, cabeça jogada para cima, e farejou. A coceira piorava. Sua cabeça baixou um pouco, inclinou o focinho que gotejava, experimentando o ar. Caminhou para o lado, no mais completo silêncio, e parou de novo. A névoa se encolheu para longe dele. Continue andando. Meu Deus, faça-o continuar andando. Outro chamado suave da coruja da minha avó quebrou o silêncio repentino, mas eu conseguia vê-la. As crepitações e os estalos haviam parado. Tudo estava quieto, até as manchas e os fachos da luz da lua prendiam a respiração, presos a véus de vapor branco que refletiam essa luminosidade. Lembrei tarde demais do canivete no bolso traseiro. Se eu tivesse pensado em sacá-lo, agora eu poderia ter uma arma, em vez de estar ali, deitada, indefesa, em um emaranhado de espinhos. O lobisomem de cabeça listrada andou outros três passos para o lado. Rápido e com uma graça arrepiante. Voltou a cabeça, e o brilho enlouquecido de seus olhos parecia perfurar a escuridão e queimar minha pele. Será que ele me viu? Ai, meu Deus, ai, meu Deus. Será? Minha mão se moveu de repente, querendo alcançar a faca. Só que, para isso, eu ia ter de girar em torno de mim mesma e fazer barulho. E ter a sorte de puxá-la do meu jeans a tempo de fazer alguma coisa com relação ao lobisomem. Deus, como eu queria uma arma. Qualquer arma, até uma pistola calibre


22. Uma 9 mm seria melhor. Melhor ainda, só uma .45 ou um rifle de assalto. E alguém para resolver isso, que tivesse essa coisa na mira, também ia ser legal pra caraca. E já que eu estou sonhando, queria ter um pônei. Meu coração martelava, espancava e, basicamente, tentava me fazer engasgar outra vez. Eu nem podia me dar ao luxo de começar a mexer a mão na direção do bolso — se eu conseguia enxergar movimentações à noite, com toda certeza um lobisomem também conseguia. Se ele já não tivesse conseguido me farejar. Por que ele estava hesitando? A tensão não parava de aumentar, cada segundo mais insuportável do que o anterior. O gosto de cera e laranja estragada explodia na minha língua, tão forte que eu quase engasguei. Odeio isso. Revirava os olhos enquanto tentava não engolir, com a boca cheia de cuspe — Jesus, agora eu ia começar a babar. Sei que esse gosto não é de verdade, sei que não tenho nada na boca, mas não vou engolir isso aqui nem ferrando! O lobisomem de cabeça listrada se dobrou como um brinquedo, em um movimento vagaroso e fluido. Sua forma ondulava, e ele se transformou em um animal de ombros mais caídos do que vagamente humanos. A faixa branca ganhou maior realce, ou quem sabe foi um facho de luz da lua que pulsava sobre sua pelagem. Um som chiado, chato e bem suave saiu dele. Estava dando as costas para mim, e eu me perguntava se alguns dos professores da Schola estariam agora no bosque.

Por favor, Deus, Deus, por favor. Me ajude um pouquinho aqui, vai? Por favor! Outra forma ficou mais nítida graças ao claro-escuro entre a lua e as árvores, contornada pela névoa que se misturava, em um manto de algodão oleoso. Era levemente humanoide, alta e com ombros largos. A luz da lua apanhava o borrão branco de um rosto e dois borrões brancos das mãos. O restante eram apenas sombras. — Legal isso, hein? — sibilou o recém-chegado, uma ofensa ao silêncio


que preenchia a floresta. A aspereza subjacente às palavras percorreu minha pele outra vez como uma escova de aço. Tentei não me encolher. — Cadê a vagabundinha? Eu sinto o cheiro dela. Ash rosnou. O rosnado nem ao menos chegava perto de ser uma fala, mas vinha repleto de advertência. Os pelos ondulavam, e a listra branca em sua cabeça brilhou. — Cala a boca e acha ela! — as palavras tinham um chiado sutil, e eu sabia o porquê. Porque a língua não se mexia direito ao redor de caninos grandes. Aquele ali era um chupa-sangue, um nosferat. Eu sabia pelo jeito que a voz sugava o mundo em volta, oleosa e fria. E soava como se ele estivesse atrás de mim. Dããã para você, Dru. Grande coisa. Fica quieta. Aquela coceira na garganta, que já me deixava doida, piorou. Era feito um bastão afiado que ia escavando o fundo da minha garganta. A reação veio em lágrimas surgindo em meus olhos, quentes e doloridos. Um dedo fino de névoa estava se aproximando cada vez mais dos meus pés, apavorante, e eu sabia que iria encostar em mim, e quando isso acontecesse, o chupa-sangue ia saber que eu estava aqui, e... O rosnado do lobisomem mudou de intensidade e de tom. — Não se atreva a latir para mim, monstro. O Mestre deseja... Não consegui sacar o que o Mestre desejava, já que o lobisomem deu um salto — para longe de mim. Ele colidiu com o chupa-sangue feito um trem de carga desgovernado, um som de esmagamento que ecoou entre as árvores mantidas na neblina. O chupa-sangue deixou escapar um uivo espetacular, de gelar o sangue. Os dois rolaram e rolaram, atingindo as árvores e fazendo voar estilhaços delas; ossos e dentes estalavam.

Vaivaivaivai! A voz de meu pai berrava dentro da minha cabeça, como se eu tivesse voltado ao saco de pancadas, murros brotando, eu transpirando, querendo deixá-lo orgulhoso. Ou como se estivesse enfrentando aquelas baratas sobrenaturais novamente, eu passando munição pela janela, minhas


mãos tremendo e... Me ergui de um salto, aos tropeções, os espinhos raspando cada parte desprotegida e puxando meu suéter como se me avisando para ficar abaixada, e saí correndo. Pulei por cima dos dedos de vapor rastejando sobre o solo, como se estivesse num teste para jogadores de futebol americano ou coisa do gênero, saltando rápido demais para manter de verdade meu equilíbrio. Não queria saber para onde eu estava indo, contanto que fosse longe. A floresta foi ficando mais profunda e mais densa, e eu ia rasgando tudo ao abrir caminho por ela. As árvores passavam chicoteando por mim, algumas delas me agarrando como se estivessem do lado do chupa-sangue, tentando me atrasar. Mais trepadeiras espinhentas serpenteavam por toda a trilha, mas a névoa tinha se afastado. Eu me debatia toda atravessando a floresta, fazendo uma mega barulheira, e escutei um uivo alto e apavorante atrás de mim. Eu achava que uivos de lobisomem eram sinônimo de coisa ruim quando eu os ouvia na minha garagem. Ouvir o grito alto e inexpressivo no meio das árvores à noite é infinitamente pior, porque os uivos soavam como palavras se você conseguisse prestar atenção. A parte mais horrível é que isso puxa o lado profundo e oculto de todas as pessoas — o lado cego e animalesco. O lado que sabe que você é a caça. Mas sabe o que é pior? E quando esses sons vêm logo atrás de você, e alguma coisa te acerta por trás, fazendo você tropeçar para dentro de outra massa confusa de espinhos afiados de trepadeiras e galhos, bolor de folhas e sujeira entrando no seu nariz, e uma mãozona imensa, quente e peluda enroscando no seu cabelo.


CAPÍTULO NOVE

entei gritar, mas a outra mão-pata tinha se prendido sobre minha boca pouco antes que eu conseguisse puxar o ar para dentro. Um hálito quente tocava o alto da minha cabeça, enquanto nós dois deitávamos por um segundo, meus sentidos arrancados de mim, eu completamente atordoada e entrando numa fria. Pelamordedeus, garota, assim você não vai conseguir! A voz do meu pai berrava na minha cabeça. Um pouco de ação aqui! Era o que ele costumava gritar quando eu estava treinando no saco de pancadas, tão cansada que meus braços estavam a ponto de cair. Isso significava que eu ia ter de fazer mais, ser mais, para ajudá—lo. Ele precisava da ajudante dele, que era eu, e a morte não espera até você estar descansado e pronto. Ela vem sorrateira, quando a gente está esgotada, com fome e com frio, e tão apavorada que nem consegue enxergar com nitidez. Eu me debatia; joguei minha cabeça para trás com força e acertei um nariz frio e molhado. Isso doeu, e o lobisomem soltou um ganidinho de dor, que nem um cachorrinho que tromba em alguma coisa. Meu cotovelo afundou em seu diafragma, e ele soltou o ar com tudo, produzindo outro som com um gemido no fim. A mão dele soltou meus cabelos, mas só para poder me agarrar pela cintura, enquanto eu lutava e ele se recompunha. Os braços dele travavam como tiras de aço, e ele rosnava. O terror provocou um curto-circuito em tudo dentro da minha cabeça, e eu ainda não sei como consegui me soltar, rodopiando para longe em meio a uma faixa escorregadia e gosmenta de folhas apodrecidas.


Mais uma vez, ele urrou e se ergueu aos tropeções, com movimentos fluidos. Corri, as palmas das minhas mãos imundas, escorregando em gosma e sujeira, e peguei fôlego para gritar, à medida que o lobisomem se recuperava, as listras brancas brilharam em suas têmporas como um sinal de neon, e saltou — direto por cima de mim, trombando com uma forma no meio do ar e ambos caíram a menos de um metro de mim com um solavanco que estremeceu tudo, esguichos e borrifadas de neblina evaporando. Chiados, rasgação e ossos quebrando enchiam minha cabeça enquanto eu dava meia-volta para longe daquela nova doidera. Ambos rolavam, a listra branca chacoalhava, depois um som intraduzível e o final do esmagamento foi seguido de um jorro negro e quente que espirrou nas árvores por todos os lados. Sangue de vampiro virava fumaça ao tocar o chão, e um pouco dele passou tirando fina do meu rosto, tingindo meu suéter e mandando uma faixa de calor espesso que subiu pela perna esquerda do meu jeans. Soltei um grito, um sonzinho de nojo que se perdia dentro do som mais alto do lobisomem de cabeça listrada que rosnava, um barulho de trovão retumbante e devastador. Eu ainda estava tentando sair dali, correndo no meu jeans ensopado, o vapor do sangue do vampiro soprava adentrando a mesma névoa oleosa, corroendo minha calça. Na verdade, eu estava indo tão rápido que trombei com tudo numa árvore pela primeira vez naquela noite. O que era um tremendo de um milagre, sabe como é: ser a primeira em vez da quarta ou quinta vez. Um barril de dinamite saiu de dentro da minha cabeça, e minhas costelas gritavam de dor. Tudo em mim estava repleto de agonia, e eu tinha a mais plena convicção de ter deslocado alguma coisa nas minhas costas, outra vez. Deus, se eu viver até ficar velhinha, é provável que eu tenha vários problemas de coluna —, mas pelo visto eu não ia estar por aí tanto tempo assim. O lobisomem de cabeça listrada se atrapalhou e atirou-se pelo espaço entre nós dois. Folhas úmidas e mortas explodiram de dentro de sulcos por todos os lados, e ele fincou suas garras no chão e parou com seu focinho na minha cara e seu hálito encostando na minha pele molhada. Deixei escapar outro som ao recobrar o fôlego enquanto meus músculos tensionavam. A respiração dele tinha um cheiro esquisito de hortelã com


cobre. Seus olhos estavam a centímetros dos meus, seu focinho comprido e brilhante quase encostava a ponta do meu nariz humano. Puxando ar para os pulmões de um jeito beeem demorado, me inclinei para trás, entrando no tronco da árvore o mais que podia. O brilho em seus olhos negros era de uma humanidade horrorosa, terrivelmente doloroso e alucinado. A listra branca brilhava para mim, de um jeito tão intenso que achei que outro facho aleatório de luz da lua tinha caído em seus pelos. Ele me farejou de novo e emitiu um som baixo, doloroso. Sua boca não conseguia formar uma palavra humana, então eu não fazia ideia do que ele estava dizendo, se estava me ameaçando ou... Ou o quê? Por que ele estava se limitando a ficar agachado ali, me olhando nos olhos? A árvore atrás de mim era uma muralha gelada de aço bruto, e minhas pernas ainda crispadas, tentavam me empurrar. O lobisomem inclinou-se para frente outra vez, fazendo aquele som estranho e horroroso, e eu senti o cheiro de cobre quente. Sangue. Tinha alguém sangrando. Será que era eu? Será que eu não tinha sentido quando ele abriu um rasgo em mim com suas garras? Um som apressado encheu minha cabeça, e eu escutei o farfalhar abafado de asas pouco antes de o lobisomem se abaixar fazendo com que, a ponta de seu focinho apertasse minha bochecha por um instante. Então, ele se dissolveu no ar. Correu pela pequena clareira, apertando e protegendo sua mão-pata dianteira esquerda, e desapareceu entre as árvores tão logo eu escutei alguém gritando meu nome: — Dru! Dru? Caramba, Dru, onde é que você está? Era Graves, rouco de tanto gritar, e eu fiquei levemente surpresa. A surpresa maior era por não ter morrido. Agora não havia mais névoa. As árvores tinham apenas a cor prateada da luz da lua e os enfeites de gelo. Eu me curvei contra a árvore, o sangue de vampiro soltando evaporava pelas minhas roupas completamente estragadas e imundas, e eu fiz a coisa mais inadequada que poderia. Comecei a gargalhar. Uma gargalhada estridente, feito um apito, tão alucinada quanto o olhar de Ash.


CAPÍTULO DEZ

ermitam-me ser curto e grosso — o cabelo de Dylan era uma confusão só, o disfarce brilhando através dele conforme ele brigava para manter a compostura. O jeito que seus caninos ficavam alongando e retraindo não era sinal de alegria, nem de que ele queria ajudar — Três nosferatu mortos te caçando, você ferida e coberta com o sangue deles, e você não se lembra do que aconteceu? Eu não conseguia parar de tremer. Só acenava que sim com a cabeça. Meus cabelos pingavam água suja de lama, e eu cheirava como se tivesse mergulhado na morte. Graves tinha colocado o braço em volta do cobertor com o qual ele havia me enrolado, e se mexia inquieto. — Vamos. Vou te levar para um lugar quente. Seus olhos verdes encararam rapidamente Dylan, e ele começou a meio que me carregar, com todo o cuidado. — Espera aí, saco! — Dylan não tinha pensado muito antes de falar. — A Schola foi invadida. Alguém foi direto para a classe dela. De algum jeito ela escapou de um trio de caçadores; não podemos identificar nenhum deles ainda, todos os três eviscerados naquele maldito bosque. Ela precisa nos contar o que aconteceu, para que a gente possa... —Matá-la por hipotermia? Grande plano, hein? Meu Deus, vocês aqui são um bando de babacas — a bainha do casaco de Graves se agitava conforme ele andava mais depressa. — Olha para ela, droga! Está com os lábios azuis e coberta de lixo. Será que está sangrando? Você liga para isso?


Agora eu sei porque não tem garotas por aqui. Me perguntei o que aquilo tinha a ver com tudo, não consegui descobrir e soltei outra gargalhada semi-histérica e abafada. E toda vez que via a luz clara do luar, olhava rápido em volta e me encolhia. Os olhos de Dylan faiscavam na penumbra: — Cala a boca, cachorrinho. Só porque você é o bonzão entre os da sua espécie não quer dizer que possa... Uma fúria quente borbulhou dentro de mim. Aquilo estava ticando ridículo, mas agradeci o calor, porque já era algo diferente da dormência de choque e pânico. — Dylan — ouvi minha voz entre dois risinhos engasgados e uma fungada de tosse, já que havia lama em meu nariz se você ofendê-lo novamente, eu faço seus dentes voarem na porrada — descobri que meus pés ainda podiam se agarrar ao solo e, até melhor, minhas pernas fracas e trêmulas ainda conseguiam me carregar. — Graves... — a palavra morreu em um fluxo profundo de catarro quase vomitado. — Fica de boa, criança — resmungou Graves. Seus braços estavam tensos por cima de meus ombros, me trazendo para mais perto de seu calor. A comida da Schola estava fazendo maravilhas com o físico dele. Ou, vai ver, eu só estava me sentindo pequena, de um jeito que eu nunca havia sentido. — Jesus. E, eu me sentia pequena. E vulnerável. E muito, muito amedrontada. Dylan balançou a cabeça como se eu nem tivesse falado. — Por que você saiu da Schola, Dru? Porque tinha alguma coisa vindo me matar, dãã. Quando a coruja da minha avó dá as caras, eu vou atrás dela. Simples assim. Estava cansada demais até para começar a explicar. Uma massa de silhuetas em disparada se agrupou no alto da colina. Alguns tinham pensado em levar lanternas, e fachos dourados varriam a escuridão. Inútil — djamphir e lobisomens conseguiam enxergar muito melhor que um ser humano comum depois do pôr do sol. Aquelas espadas de luz, no entanto, eram uma visão bem-vinda, porque não se tratava de névoa oleosa, nem da luz da lua sobre a pelagem de um lobisomem alucinado, e deixei


escapar um meio soluço. O braço de Graves comprimiu-se sobre meus ombros outra vez. —Tudo bem — gritou ele. — A gente encontrou! Dylan falou um palavrão. Começaram a descer. Uma massa de garotos. Os lobisomens pulavam na frente, alguns deles desfocados entre pelo e pele, daquele jeito "barro debaixo da água" bem a cara deles, e eu engoli outro som áspero. E sempre esquisito vê-los mudar e ouvir o estalar de ossos se transformando, a carne se mexendo rápida e os pelos brotando... Isso mesmo. Quase faz seu almoço querer pular fora, mesmo você não tendo almoço para devolver. E mesmo se você fosse acostumado ao Máximo do Bizarro. — Caramba! — Dylan fez um movimento curto e elegante, e sua voz diminuiu num sussurro de raiva e mágoa. — Eu não posso ajudar se você não fala comigo, Dru. Certo. Não acho que você ia conseguir me ajudar; nem se eu falasse com você. Não existem palavras suficientes no mundo. Meu cérebro doía, e o resto de mim estava atrapalhado e com frio. Não dava para parar de tossir. Ou rir, barulhinhos apertados, vomitados da minha garganta entre as raspadas ásperas. Graves só me puxava com ele, e os lobisomens chegaram até a gente em uma maré de pelos e olhos brilhantes. Eles fluíam em volta de mim, alguns dando tapinhas de aprovação no ombro de Graves, a maioria deslizando entre a forma humana e a peluda, marchando meio quadrúpedes. Um fuzuê repentino, depois do silêncio e do terror na floresta. — Ela está bem? — Ela está legal? — Dru? — Dibs se aproximou com um passo, foi empurrado, mas não antes que seus dedos ferissem meu punho: um toque quente e fugaz. Outro som engasgado saiu de mim. — Ela está legal? Atrás deles, os djamphir criavam uma multidão. Irving estava pálido, seus cachos saltitando à medida que seu disfarce deslizava por ele e recuava. Começaram a perguntar se eu estava bem, também, mas Graves simplesmente


me arrastou por entre eles, os lobisomens acompanhando e, de algum modo, todo mundo saía da frente, até que a gente chegou às portas do lado leste da Schola. As portas estavam arrebentadas de dentro para fora, estilhaços de madeira caídos sobre os degraus, e eu pisquei. Eu não fiz isso. Mas talvez alguma coisa atrás de mim tenha feito. Mais uma vez, a coruja da minha avó me salvou do perigo. Ou me colocou em perigo, isso depende. E, xi, meu Deus... outra lembrança estava vindo à tona: a coruja no parapeito da minha janela na manhã passada em que eu tinha visto meu pai com vida. Comecei a tossir de verdade. Não queria pensar naquilo. Preferia tossir até expelir meus pulmões. O corredor que atravessei estava uma zona, com sangue negro de vampiro esparramado e evaporando, o carpete rasgado e o papel de parede descolando. Os sulcos fundos mais claros da madeira da parede me encaravam. — J-j-j-j — tentava expressar meu assombro. Graves, porém, continuava a um bom ritmo, seu braço como uma barra de aço por cima dos meus ombros. Meus pés se arrastavam inúteis a maior parte do tempo. Ele saiu dando ombradas de verdade para tirar uns garotos do caminho, um rosnado corria por baixo do fuzuê de vozes. Concluí que havia duas equipes de chupa-sangue, uma que entrou rasgando perto da capela de treinos de combate e fez um tumulto, e um trio de "caçadores" que se infiltrou em silêncio na ala oeste da Schola — aquela em que eu tinha tido minha primeira aula da tarde. Devo ter escapado deles por pouco. Aquilo era um pensamento incômodo. Meus pés se arrastavam pelo chão. Eu deixava folhas de arbusto sujas por onde quer que tentasse pisar, mas Graves estava fazendo todo o trabalho de deslocamento, o dele e o meu. Enquanto ele estivesse sendo útil, eu não ligaria. A capela de treinos de combate estava bem longe dali, e parecia frio, muito gélido. Meus dentes ainda batiam, e tudo parecia muito distante, mesmo o barulho, enquanto começava um tipo de briga com gritaria. Chegamos à capela abandonada, cada passada ecoando. Graves abriu a


porta do banheiro feminino com uma espalmada, e alguém engasgou atrás da gente. Ele seguiu adiante, me arrastando junto, e a porta fechou com uma lufada. Um vapor espesso e sedoso chegou como uma onda e, mais uma vez, eu tossi. — Droga! — disse ele em voz baixa, e me carregou pelo piso de lajotas. A palavra ricocheteou e voltou para gente em meio ao vapor. — Que porra está acontecendo? — Eu n-n-n-n- — eu ia falar que não sabia e desisti. Ele me olhou de cima, o rosto pálido na luz repleta de vapores, e seu queixo firmou. Quando ele ficava daquele jeito, sério e decidido, dava para ver que ele ia ficar bonito. As garotas iriam correr muito atrás dele, especialmente aquelas que não dão muita bola para quem tem visual estereotipado. Só de pensar nisso, um raio de calor vergonhoso e inexpressivo me atravessou. — Você quer uma ajuda com as roupas? — o cobertor caiu, encharcado: "Plop!" E ele arrancou seu casaco, quase rasgando a manga, porque não conseguia tirá-lo e me segurar erguida ao mesmo tempo. — Ou, é, eu posso ficar perto da porta. Para garantir. — M-m-me a-a-a-a-ajuda — tremendo daquele jeito ficava difícil pensar ou respirar. Agarrei a ponta do suéter com dedos atrapalhados e inchados pelo frio. Graves puxou minha roupa enquanto me sustentava; fiquei perdida nela por um segundo e, por fim, foi a maior briga para sair daquela lã pesada e molhada. O suéter chegou ao chão com um som de algo jorrando e eu me perguntei em quanta água eu me deitei na floresta, e porque não estava ainda mais congelada, se havia gelo em todo canto. Havia faixas de vapor no ar, brancas e pesadas. Não queria pensar naquilo. O mundo todo ficou de um branco bem brilhante por um minuto, e em seguida eu sacava Graves me segurando em pé e, de um jeito bem atrapalhado, tirando as mangas da camisa de flanela dos meus braços cheios de arrepios. Foi uma briga tirar minha camiseta, balançando para lá e para cá enquanto ele me mantinha em pé. Meus dentes batiam como castanholas, e ele foi até o meu jeans enquanto observava, bem severo, por cima do meu ombro. Até meu sutiã tinha se molhado, mas graças a Deus, não estava sujo.


Meus dedos eram como salsichas molhadas, atrapalhadas demais para fazer muita coisa. Os jeans estavam frouxos, e ele assobiou baixinho ao ver os machucados rodeando meu ombro, minhas costelas, e os mais recentes que começavam nos meus braços e na lateral da minha perna direita. Minhas meias estavam imundas, e eu perdi um tênis. Para ser sincera, eu não lembro onde. Nem ao menos percebi que não tinha mais. As mãos dele agora me queimavam; ele me arrastou para a beirada da banheira mais próxima e se deteve só por meio segundo, procurando no teto como se estivesse reunindo as próprias forças. Sua carteira de nylon, preta e detonada, caiu no chão a quase um metro de distância, e ele foi oscilando comigo pelos degraus, para baixo e para dentro da banheira enorme, totalmente vestido, seus sapatos dando um rangido triste debaixo da água antes que eu perdesse meu apoio e gritasse horrivelmente. Senti como se me mergulhassem em lava quente, mas ele continuou me segurando, me conduzindo para baixo. Nunca tinha tomado banho de calcinha e sutiã. Era uma sensação esquisita, como sentar em uma banheira quente cheia de geleia vestindo um maiô que, sem sombra de dúvida, não tinha sido criado para aquilo. — Dru? — pela primeira vez desde que anoiteceu ele parecia assustado. — Vai, pô! Diz alguma coisa! Os dentes tinham parado de bater, mas eu ainda tremia. De algum modo meu braço tinha ficado ao redor da cintura dele, e ele se ajeitou sobre o assento bem perto de mim. A superfície da água estalava contra seu suéter. Engasguei outra vez, minha pele descascando e doendo feito queimadura de sol, e inclinei a cabeça para trás. A falsa água borbulhante ficou cinza, a sujeira rodopiando por ela antes que fosse sacudida para longe pela corrente. Uma folha caiu do meu cabelo, atingiu a superfície turbulenta e foi puxada para o fundo. A água falsa me chegava até o pescoço. Nele, só no peito. —Dru? — agora ele parecia à beira do pânico, e percebi que eu estava fazendo outro som baixo e bem agudo. Minha garganta estava cheia de algo quente e desagradável demais para serem lágrimas. — Fala alguma coisa, porra! Engoli o tal som bizarro de gemido que eu produzia. Minha boca se


abriu: — A-a-a-a-al-guma coisa — pausa —, p-p-po-porra. Ele riu pelo nariz. A risada o pegou desprevenido, sua risadinha latida, amarga e sarcástica de costume, e eu era grata demais por ainda estar viva para ficar me preocupando com o fato de estar seminua em uma banheira com um garoto. Além do mais, era Graves. E o braço dele ainda estava em volta de mim. Baixei a cabeça sobre o ombro dele e esqueci de tudo que não fosse o calor que me ferroava a pele com seus alfinetes e agulhas. Não tinha estado assim tão próxima dele desde que nos enfiaram em um helicóptero que levantara voo durante uma tempestade de neve no meio-oeste. E eu também estava chorando naquela ocasião. Agora eu ficava viajando em cima de uma porrada de coisas. Principalmente com ele tendo que lutar na primeira vez em que chegou aqui. Deixar Dibs de lado e fazê-lo explicar algumas coisas pareceu uma boa ideia. Fiquei admirada por não ter eu mesma pensado naquilo antes. Minha cabeça estava pesada demais, e o ombro de Graves, mesmo ossudo, era confortável. — Fala comigo — insistia ele. — Não desmaia aqui na minha cara, Dru. Ah, eu tenho uma pergunta. — Hã — um som afirmativo era tudo o que eu conseguia produzir. Então faz. Por que Ash não me matou? E por que, em nome de Deus, eu começo a contar tudo isso para você quando nem para mim faz sentido? — Dru é apelido do quê? Jesus. Minha vez de dar uma quase risada pelo nariz. — N-nem p-pergunte. — Tarde demais. Eu venho pensando nisso esse tempo todo. Os tremores começaram a acalmar. Minha mandíbula estava dolorida quando, enfim, relaxou. — De-depois eu te conto. — Então você quer me contar o que aconteceu? — falou com gentileza e cuidado, como se erguesse um Band-aid e verificasse por baixo. — Eu... — a água borbulhou. A porta bateu de leve, como se alguém estivesse encostando-se a ela. O som ecoou pelo vestiário. Pisquei, acordando


algo dentro da minha cabeça — Aimeudeus, você entrou aqui! — Hããã... é! — não parecia surpreso — Achei que você podia cair e se machucar ou coisa do tipo. Se afogar. Se você está legal, ou... Deixei a cabeça no ombro dele. Apertei um pouco para baixo e tencionei meu braço — Não. Não vai embora — meus dentes doíam. Até meu cabelo doía. — Tinha... eu vi... tudo bem, era a coruja da minha avó — uma breve faísca de pânico se revolvia dentro de mim. — Na verdade, eu nunca fui a fim de falar para ninguém sobre ela, e o hábito do segredo foi difícil de perder. Mas era Graves. E ele não me decepcionava. Apenas aceitava. — Coruja — fez que sim com a cabeça, o queixo pontudo afundando. — Tá. — Daí ela me levou lá para fora, e eu corri. Acho que ela estava tentando me afastar dos chupa-sangues. Acabei nuns arbustos e vi... — o resto saiu cuspido numa mistureba incoerente, mas ele balançava a cabeça fazendo que sim de vez em quando. Eu gostava disso nele. O cara era tão esperto que você não precisava dar tudo mastigadinho. Ele preenchia as lacunas por conta própria. — Tem certeza de que era o mesmo? — os olhos dele ficaram meio espremidos. A água falsa começou a aquietar, borbulhando e fazendo aquele som efervescente. Pinicava minhas mãos arranhadas e se espalhava pelos meus ombros em nacos pequenininhos que lembravam cera, o calor penetrando cada vez mais. De repente eu queria lavar o cabelo. Meu couro cabeludo formigava. Meu coração parou com aquela batedeira e enfim tinha acalmado. — Acho que sim. Quantos lobisomens com listras brancas na cabeça a gente já viu? — Boa — a cabeça dele mergulhou, concordando de novo. Os cabelos, umidecidos por causa do vapor, caíram nos olhos dele. Com um chacoalhão repentino se livrou deles. Suspirei. Não dava para segurar mais tempo. E aquilo saiu sussurrado: — Eu vi Christophe. Durante o dia — tinha mais cara de três ou quatro dias atrás, mas eu não queria contar isso para ele. Graves ficou tenso. Trinta segundos completos se arrastaram, com ele


encarando a parede refletida através dos véus de vapor. — Meu Deus, Dru. Como se a culpa fosse minha. — Não estava conseguindo te pegar sozinho para poder contar. — Então você tentou fazer isso? — mas ele estava de sacanagem. Se remexeu, desconfortável, como se tivesse câimbras no braço, mas o deixou lá mesmo. Os dedos dele não queimavam mais no meu outro ombro. — Onde você o viu? — Ele apareceu na minha janela. Não conta para ninguém. Revirou os olhos. Não conseguia ver, mas conseguia sentir o movimento. E o revirar de olhos de um adolescente tem um som sem som que é próprio dele. — Dããã. Mas que é que ele estava fazendo indo lá na tua janela? Como é que eu vou saber? — Me dar algumas coisas. Uns troços que eram da minha mãe. E me contar uns negócios aí. — Como é que esses troços que eram da sua mãe foram parar com ele? É bom contar com Graves para chegar à essência das coisas. — Não são nada; só parecem ser dela. E, bom, acho que ele a conhecia. Eu não tinha pensado dessa maneira antes. Com certeza parecia que ele a conhecia. E agora que eu tinha pensado nisso, ele havia dito especificamente que as espadas de madeira não eram dela. Abri a boca para continuar as explicações, mas antes que eu conseguisse, ele veio com outra pergunta que valia um milhão de dólares: — Afinal, quantos anos esse cara tem? E quem é ele? — Sei lá — deslizei mais um tantinho para o abraço da água falsa, e outra nuvem de sujeira vinda dos meus cabelos molhados passou pela gelatina borbulhante. Deusdocéu. Em quanta meleca eu fiquei rolando? —Estou mais preocupada em não ser morta por Ash. Ele teve oportunidade para isso. Se livrou dos outros chupa-sangues e... — Você viu isso? —Vi um. Concluo que ele acabou com os outros dois — um tremor atravessou o centro dos meus ossos. — Meu Deus. Eu podia ter morrido. Não


tinha saída naquela sala de aula, e três chupa-sangues... — Ele estava colando o nariz dele no meu, Graves. Era nariz com nariz. — meu cérebro travava de um jeito engraçado quando chegava à lembrança, voltando a cena, lançando as mãos para frente com horror e parando de funcionar, que nem um motor. — E a neblina... Mas eu não queria mais pensar na neblina de novo. Graças a Deus ele não encostou em mim. Se tivesse... Sei lá o que ia acontecer, mas teria sido bem ruim. Eu sabia disso até o fundo dos meus ossos sacolejantes e doloridos. É difícil discutir com tamanha certeza. Graves estava mais preocupado com a essência da questão. — Um lobisomem sozinho fez isso? E ele... só saiu correndo? — Acho que ele escutou o resto de vocês chegando — os tremores aumentaram. Não eram tremores. Era o meu corpo, revoltado com tudo. Eu queria um cheeseburguer e queria ficar em posição fetal e dormir, e queria umas coisas que não dava nem para classificar. Acima de tudo, queria fechar os olhos e mandar essa maluquice toda embora. Minha cabeça ainda estava sobre o ombro dele. Ele ainda estava me segurando. Ainda completamente vestido e nem tinha dito uma palavra a respeito. Um silêncio demorado passou por nós, cheio de vapores do borbulhar engraçado, parecendo uma risada arrotada, da água falsa. Ela chiava um tiquinho conforme eu escorregava um pouco mais dentro dela, e mais sujeira era jogada para fora do meu cabelo. — Não sei o que fazer — sussurrei, enfim. Aquilo me assustava mais do que eu queria admitir. Estava acostumada a conhecer os procedimentos de cada situação; estava acostumada que o meu pai soubesse o que eu não sabia, e me dava ordens quando a coisa estava além do meu conhecimento. Quer dizer, meu pai nunca me deixava fazer algo errado. Não como certos pais, que ficam na deles, vendo você se danar por aí. Vi isso acontecer uma porrada de vezes, e sempre me pareceu que os adultos queriam que a criança errasse. Quem sabe isso os fazia se sentirem melhor, ou sei lá. Graves suspirou. — Certo — seus ombros ergueram, acertando as maçãs do meu rosto. Minha cabeça estava apoiada em seu ombro. — Precisamos limpar você. E


Dylan vai surtar. — Por que ele não estava lá? — me arrependi na mesma hora em que falei isso em voz alta — Quando toca o sinal, alguém sempre aparece para me pegar. Dessa vez não tinha ninguém. ��� Pois é — a água falsa espirrava conforme ele se mexia. — Também estava pensando nisso. Vamos limpar você — ele se desembaraçou de mim, e eu precisava erguer a cabeça. A queimação tinha passado para um calor mais brando, penetrando em mim. Minhas costas doíam, mas não tanto quanto deveriam. — Graves? — Eu! — ele se virou para trás, e pela segunda vez naquela noite me vi cara a cara com um transmorfo. Este, porém, tinha olhos verdes brilhantes, e seu cabelo tingido de preto balançava em mechas úmidas. Ele era o mesmo garoto meio feio que se tornou a única pessoa de quem eu podia depender, desde que um zumbi atravessara a porta da minha cozinha à força. Menos de um mês, e toda a minha vida tinha virado aquele tipo de zona que só o Mundo Real era capaz de produzir. Eu não fazia a menor ideia de como começar a arrumar as coisas, mas lá estava ele, e ainda não tinha me decepcionado. Ficamos nos encarando por um instante demorado. Minha garganta estava seca. Eu estava crente que tinha sujeira borrando todo o meu rosto, e o meu cabelo estava todo espetado, feito o da Medusa. Mas eu me inclinei para frente só um pouco, e se ele não tivesse virado a cabeça um tiquinho, meus lábios não teriam chegado à bochecha dele. A pele dele era mais suave do que eu tinha imaginado, debaixo da penugem que ia surgindo, e eu precisei fungar porque meu nariz estava cheio. Mas apertei os lábios no rosto dele e me senti uma idiota. O que é que eu estava fazendo? Legal, Dru. Hora de segurar a onda. — Valeu. Quer dizer, por me colocar aqui, e tudo o mais — recuei, de repente me ligando de que estava só de calcinha e sutiã, e que, provavelmente, estavam agora detonados, e que ele havia se jogado na banheira sem nem tirar a camisa. E talvez aquela minha cara imbecil estivesse cheia de sujeira. —


Você sempre está, sabe, por perto. Quando eu preciso. Valeu. Com tanta coisa melhor para dizer. DROGA, Dru, como você pode ser tão cretina? Fui para o outro lado da banheira torcendo para o calor ocultar o vermelho que subia pela minha nuca e ia se plantar no meu rosto. Graves tossiu. Mesmo. Era respeitoso da parte dele. — Sem crise — subiu as escadas que saíam da banheira, todo desajeitado sacudindo um monte de cera esmigalhada em torno dele. Batendo os braços e as pernas, quase escorregou e agarrou a borda da banheira. — O primeiro é grátis. Talvez ele estivesse tão sem graça quanto eu. Afundei de novo na banheira, voltei à tona e fiquei pendurada por sobre a borda. Sentia meio que como se os braços e as pernas fossem me faltar a qualquer momento. Fiquei recurvada no banho por um tempão, tremendo e chacoalhando, e a única coisa que me tirou dali foi pensar que algum professor podia imaginar que eu talvez estivesse me afogando e viesse me "resgatar". Ou, sabe como é, me matar. Porque parecia bem óbvio que a Schola, onde Christophe tinha jurado que eu ia ficar a salvo, era um local perigoso, muito perigoso.


CAPÍTULO ONZE

uando a gente fica acordada a noite inteira o tempo todo, meia-noite vira meio-dia. Ainda não é tão tarde para almoçar, mas é para tomar o café, e quando estão caçando a gente e nos fazem rolar na nojeira, não é para ter fome? Eu tinha. Estava morrendo de fome. Só que em vez de ficar no refeitório, estava sentada na sala de Dylan outra vez. Olhando as estantes de livros com capa de couro e esperando. Parecia a sala do diretor da escola, e Graves tinha desaparecido depois de me dar um punhado de roupas secas trazidas do meu próprio quarto pela porta do vestiário feminino. Eu não gostava daquilo. Eram só os números um e dois de uma lista de coisas que eu não gostava. Alguém — talvez o próprio Graves — teria de ter atravessado o guarda—roupas de jacarandá no meu quarto, e quem quer que fosse trouxe até calcinhas, faz favor! Me dava arrepios. Graças a Deus eu não tinha nada escondido ali. Quer dizer, a gaveta das calcinhas tem de ser o primeiro lugar que alguém vai olhar, estou certa? E onde é que estava Graves? Eu tinha um pressentimento engraçado e secreto no meu peito quando pensava na ausência dele. Queria vê-lo. Queria ver qualquer rosto amigo. Ninguém mais ali se qualificava, tirando, talvez, Christophe, e ele não estava por perto. Nem havia uma pista sobre onde ele se encontrava. Dylan estava fora, fazendo seja lá o que ele faz quando não está suspirando para mim, ou se preparando para entrar e suspirar para mim. O que me deixava totalmente sozinha, meu cabelo lavado e escorrendo e meus dentes batendo. Sem falar da minha cabeça, cheia de perguntas, e dos meus


braços e pernas, que não me pareciam nada firmes. Me afundei na velha cadeira de madeira talhada e encosto alto, encarando os livros. Havia uma arca do tesouro de títulos referentes ao Mundo Real, de levantamentos demográficos sobre lobisomens até uma parte inteira sobre bruxaria e feitiços com magia negra, com lombadas letradas folheadas em rubro. Roí a unha do indicador direito, e mastiguei até ela sumir. Fui para a unha seguinte. O que eu não teria dado por uma fuçada em alguns desses quando o meu pai estava vivo. Talvez ele também gostaria. Eu não teria ligado em dar uma olhada nos livros sobre feitiços. Meu pai ia preferir informações secretas — fazer perguntas em lojas de ocultismo e em bares onde os seres do Mundo Real se reuniam. Eu entrava e saía desses lugares desde que minha avó tinha morrido e meu pai passou para me apanhar, e estava começando a achar que isto era muito mais perigoso do que ele jamais imaginou. Todas as vezes em que ele me levava a algum lugar para "sentir" o que estava rolando, ele ficava mesmo tenso. Agora eu me pergunto se isso acontecia porque eu estava com ele ou porque um vacilo significaria a morte de nós dois. E me perguntava por que ele nunca tinha me dito que minha mãe era uma svetocha. Por que ele não tinha contado nada? Alguma coisa? Será que ele estava planejando me contar quando eu tivesse idade suficiente? E qual seria essa "idade suficiente"? Que porcaria ele estava esperando? Ou será que ele não sabia? Será que esse segredo era da minha mãe? O que poderia ter sido? Comecei a roer a unha do dedo anular. Por outro lado, meu pai nunca foi do tipo carinhoso e emotivo. A gente passava dias sem conversar, só aprontando as coisas. Sempre tive orgulho de saber exatamente o que fazer sem precisar que ele me dissesse o tempo inteiro. Minha avó também não era muito de conversa; preferia ensinar dando exemplos, mas se comparada com o meu pai, sem dúvida era uma tagarela. De qualquer modo, como é que o meu pai ia me contar? Dru, querida, sua mãe era meio vampira, o que quer dizer que você também é. Desculpe por isso. Meu coração doeu. Espremi os olhos, tentando não pensar naquilo. A porta abriu. Continuei socada na cadeira, mesmo com o coração


pulando de um jeito incômodo, e precisei engolir uma engasgada. Agarrei os braços da cadeira, e meus pés deslizaram um pouquinho para frente, caso precisasse me levantar rapidamente. Quem quase morre fica meio arisco. — Eis a garota — Dylan parecia cansado. — Entrez-vous8 , a casa é sua. Ouvi um passo suave e algo zunindo. Um aroma apimentado e gostoso encheu o ar, e eu estiquei o pescoço, abrindo a boca para perguntar a Dylan onde tinham enfiado o Graves, caramba. As palavras morreram na minha garganta quando o orientador deu um passo para o lado, fechando a porta e ficando em posição de sentido bem diante dela. Uma sombra deslizou por ele e planou na minha direção. Era alta para uma garota, e seu cabelo uma exuberância de cachos avermelhados. Ombros curtos, olhos grandes e azuis, queixo pontudo e um vestido longo e antiquado de seda vermelha. O cabelo era todo certinho, preso atrás do rosto em formato de coração com dois laços de veludo preto. Deu meia-volta, se inclinou para trás e deu um salto para se empoleirar na mesa de Dylan, empurrando os papéis para trás com sua saia. Fiquei encarando. Ela usava botas pontudas e com saltos, e linhas de botõezinhos rumavam até suas canelas. Cruzou os tornozelos e olhou para mim. Os olhos dela se tornaram um pouquinho mais claros conforme as tiras escuras deslizaram por seus cabelos, os cachos ficando mais frouxos e compridos, à medida que o disfarce a inundava. Os pontos gêmeos dos caninos pequenos e delicados tocavam os brilhos rosados de seu lábio inferior. Puta merda. Encarei-a um pouco mais. — Dru — disse Dylan, com bastante calma —, esta é Lady Anna. Milady, esta é Dru Anderson. — Olá, Dru — a voz dela era doce e harmoniosa. Fiquei onde estava, pregada no lugar, minha boca semiaberta — "Dru" é um apelido? De qual nome? Eu estava tão a fim de não responder a isso...! Mesmo assim, minha boca abriu. — Você é uma svetocha. — Jesus Cristo. Eu pensei que eu era... — parecia 8

“Entre” (N.T.).


que eu a estava acusando, e Dylan se endireitou, de um jeito desconfortável, a jaqueta estalando. — Puta merda! O sorriso dela vacilou por um instante: — Eu sou um segredo bem guardado. Se os nosferatu suspeitassem, iriam atacar todos os nossos locais muito mais vezes, até este pequeno satélite da Ordem. Neste momento, como temos você por aqui por um período de tempo tão breve, já contamos com vários estudantes feridos e um aumento considerável no número de... ocorrências. Então é minha culpa? Meu Deus. Dentro de mim, um sentimento quente e desagradável veio à tona. Fechei a boca num estalo. A gente olhou, uma para a outra, durante alguns minutos, os caninos dela recuando, os cachos dos cabelos apertaram, até ela ficar parecendo a imagem impressa de uma princesa de livro. — Esperamos que o ataque a esta Schola seja uma simples rotina, que eles estejam sondando nossas defesas. Se bem que isso parece improvável, não é mesmo? — inclinou sua cabeça certinha. — Ainda bem que nenhum deles escapou para contar a história. Por fim, acabei arrumando alguma coisa para dizer que não fosse um palavrão: — Cadê o Graves? — tudo aquilo era lindo e maravilhoso, mas ele era a única pessoa com quem eu queria conversar. Precisava dele ali. Dylan se revirou, pouco à vontade: — No dormitório — os caninos dele estavam para fora e ele parecia infeliz. Houve apenas uma inclinação sutil para baixo dos cantos da sua boca, mas foi uma tal mudança na sua expressão facial, geralmente irritada, que me deixou passada. — Milady queria conhecer você, Dru. É uma grande honra para uma aluna de primeiro ano. Legal, vocês conseguiram me deixar impressionada e curiosa. — Por quê? Tipo, por que ela quis vir até aqui se eu sou esse problemão todo? — Você não é um problema — começou Dylan, mas a garota olhou-o de relance, muito suave, e ele se calou tão depressa que eu fiquei surpresa por não ter arrancado um pedaço da própria língua.


— Me permite? — ela pendeu a cabeça e Dylan afastou as mãos, desprotegido. A moça sorriu um tantinho. Aqueles caninos pequenininhos me davam arrepios, principalmente quando ela dava aquele meneio de cabeça e tinha aquele ar felino. — Você é indisciplinada, senhorita Anderson. Há quase duas semanas que está aqui e já forçou um Kouroi a treinar combate, com resultados desagradáveis. Você não demonstra orgulho pela sua herança, o que não é culpa sua, levando-se em conta a criação que teve, mas isso é lamentável. Você tem muito potencial, mas parece se contentar em desperdiçá-lo com uma teimosia sem sentido — agora ela estava toda séria, a boca curvada para baixo, como se tivesse comido e não gostado, mas tivesse educação demais para cuspir. — Culpa nossa. Nós não lhe apresentamos os motivos pelos quais agimos do modo como agimos, e eu confesso que tenho estado bastante atarefada fazendo acertos para que você se mantenha a salvo, assim como outros... acertos para a segurança dos outros dentro da Ordem. O trabalho vem tomando tanto do meu tempo que não fui capaz de me encontrar com você até agora. E... bom, acho que a melhor maneira de dizer isso é dizendo isso. Não estou gostando do que estou ouvindo. Minha "intuição antierro" estava apitando feito louca. Me remexi, bem desconfortável. De repente, a cadeira tinha ficado mesmo muito dura. Dylan emitiu um som de tosse suave, limpando a garganta. Seus olhos escuros relampejaram, mas se aquilo era uma advertência ou um surto alérgico, eu não saberia dizer. Anna ergueu uma mão fininha, e suas unhas também tinham esmalte rosa. Meu Deus. Só falta um regalo9 felpudo e um celular cor- de-rosa bonitinho, todo coberto de diamantes falsos. Argh. O cheiro dela — um perfume de pimenta, bondade e calor — me lembrava algo; eu só não sabia o quê. Eu estava ocupada demais encarando aquele rosto impecável, o vermelho das bochechas destacado pela maquiagem, a curva dos cílios. Meu pensamento seguinte veio do nada, e me apavorou. Nem em um milhão de anos eu ficaria assim. Com certeza não ia querer. — Não sabemos por que Reynard a salvou de Sergej — o tom de voz dela mudou para confiante em vez de apenas preocupada e "se achando". — Ele disse alguma coisa a você? 9

Agazalho para as mãos de forma mais ou menos cilíndrica, lembrando uma bolsa. (N.E.).


Reynard? Ah, tá. Estava falando de Christophe. — Ele me disse que fazia parte da Ordem, e que... — Ele disse isso? — o olhar dela se aguçou por cima do meu ombro, e eu soube que ela e Dylan estavam trocando um olhar que poderia ter sido entre dois pais. Ou pelo menos, do tipo "professor". Quantos anos tinha essa garota? Parecia ter uns 18, o que não significava nada por aqui. — Você ficaria surpresa se soubesse que Christophe Reynard não faz mais parte da Ordem, oficialmente falando, já há uns bons dezessete anos? As negociações para trazê-lo de volta a nós têm sido... difíceis. — Ninguém confia nele — falei. Perto da voz cuidadosa, educada e bem modulada dela, a minha era áspera. De tanto tossir, tinha deixado a garganta em carne viva: — Dylan disse que quando Christophe voltasse, ele ia me treinar, porque... — Dylan está a serviço de Christophe. Ele tem lhe dado apoio há muito tempo e, de fato, foi um patrocinador de Reynard. Dylan teve de brigar, pressionar e convencer muitos para que concordassem que Reynard tivesse a honra de entrar em nossas fileiras, apesar de sua... deplorável ascendência. — Sua o quê? Mais devagar e na minha língua — me endireitei na cadeira. Estava cansada e com fome, e queria ver Graves. E, ah, sim, queria me deitar em posição fetal e ficar tremendo. Queria trancar a porta do meu quarto, as travas na minha janela e passar um tempinho só tremendo. Com certeza isso me parecia uma boa opção. Houve um silêncio demorado e desconfortável. — Você também pode contar a ela — disse Dylan —, se vai mesmo fazer isso. — Presumo que sim — ela me lançou seu olhar sereno, e eu senti cada espinha que já tinha aparecido no meu rosto brigando para subir à tona novamente. — Christophe lhe contou alguma coisa sobre a família dele? — Só que a mãe dele também estava morta, eu acho — difícil lembrar quando meu pensamento estava enevoado. Voltando a pensar naquilo, ele não tinha me contado muita coisa. — Além disso, nada. Qual é o lance? Ele não me falou porcaria nenhuma, e para dizer a verdade, ninguém me contou nada


desde que eu cheguei aqui. — Então, você ficaria surpresa em saber que o nome de batismo de Christophe era Krystof Gogol? — fez uma pausa significativa enquanto eu balançava a cabeça, muda, imaginando onde é que ela ia chegar. — E o nome de nascença do nosferat do qual você escapou há dois meses, o famoso rei dos que caçam a noite, é Sergej Gogol? — Hein? — eu estava exausta. Foi o único motivo que me fez levar dez segundos completos para sacar o que ela estava dizendo, em meio à névoa dentro da minha cabeça. — Você o quê? Os ombros de Anna afundaram. Pela primeira vez, ela também aparentava cansaço. Aquilo, entretanto, era só um brilho sob sua beleza. — Você não sabia. Christophe é filho de Sergej. O mais velho deles e, durante um tempo, o mais orgulhoso e cruel de sua descendência. Ele a salvou do pai e desapareceu. Mas mesmo antes disso, Reynard estava se metendo com a sua família. Meu coração batia muito alto. Todo o meu fôlego saiu de uma vez só. — Como é? — um chiado fininho saído de uma garganta seca. Anna saltou para fora da mesa e me encarou fixamente. Acabou dizendo o que eu tinha medo que dissesse: — Temos motivos para acreditar, Senhorita Anderson, que foi Reynard que revelou a Sergej onde se localizava sua mãe. E precisamos da sua ajuda para descobrir se ele fez isso. *** Ela colocou a pasta de cor parda sobre a mesa totalmente zoneada. Suas unhas com esmalte cor-de-rosa arranharam de leve: — Nós imaginamos que aconteceu o seguinte: sua mãe estava em um local seguro — a pasta se abriu de uma só vez, e o mundo deu uma freada brusca debaixo de mim. Por trás do lago congelado que era o meu rosto, meus dentes rangiam. Aquele formigamento apareceu outra vez, e as faíscas vermelhas na minha visão periférica estavam de volta. Engoli áspero, sentindo o gosto do perigo e


do ódio. Era uma foto brilhante, com mais ou menos 20 por 25 centímetros, em cores vivas, mostrando uma casa amarela com um carvalho crescendo perto dos degraus da entrada. Observei a fotografia e minha pele gelou, esquentou e gelou de novo. Cada dor nos meus músculos deu uma pontada; daí elas pioraram, se transformando num enjoo. Já se sentiu tão zonza que parece que o corpo inteiro quer vomitar? É tipo assim. A última vez em que eu tinha visto aquela casa foi em um sonho. Seria mesmo um sonho? Alguma coisa que foi despertada por Christophe e por Graves, ambos no quarto, brigando contra um ladrão de sonhos — uma serpente com asas que sugava meu fôlego, uma coisa que fugiu sorrateiramente para ir botar seus ovos em meus vizinhos. Aqueles ovos tinham vingado na manhã seguinte, e além disso, guiar a caminhonete no meio de uma porrada de ladrões de sonhos novinhos e agitados, para escapar do ataque dos lobisomens na minha casa, tinha sido "o" pesadelo. Eu tinha achado que talvez fosse alucinação; era impossível uma visão clara e detalhada da minha mãe me escondendo no meio da noite. Não fora um sonho. Uma voz dura e fria falou bem no meio da minha cabeça. Foi uma lembrança. Foi isso que aconteceu quando minha mãe morreu. Foi nessa casa que ela morreu. Ela me escondeu no closet e saiu para lutar. E acabou assassinada. A svetocha perto de mim colocou a foto de lado. A seguinte era outra brilhante, 20 x 25. Desta vez, o carvalho estava cheio de folhas, em pleno verão — tirando a imensa metade ressecada, retorcida e enegrecida por alguma coisa horrenda ainda vibrando entre os galhos. As dobradiças da porta com tela tinham sido detonadas, e os degraus, estilhaçados. Havia algo terrível agarrando-se às pontas da árvore. Alguma coisa na forma humana, mas dolorosamente distorcida. A imagem queimava sob meus olhos, enterrada dentro do meu cérebro. — Achamos que ela morreu sobre os degraus — disse Anna, de modo suave —, mas Sergej a deixou pendurada na árvore e... bom... não conseguimos chegar lá em tempo. Seu pai já tinha ido embora com você, também. Só fomos saber que você existia anos mais tarde.


Ele a deixou pendurada na árvore. Meu Deus. — Vocês não sabiam sobre mim? — minha voz parecia sem fôlego, até para mim mesma. Assim que respondeu, havia um tom fraco de algo. Amargura? Raiva? Não consegui decidir e não me preocupei. — Não. Sua mãe... deixou a Ordem por motivos pessoais. Ninguém sabe quais motivos foram. Nem eu. Pisquei com força. Limpei a garganta. — Pensei que as svetocha fossem nocivas aos chupa—sangues. Foi o que... Foi o que Christophe disse. — Nós somos. Nós os envenenamos só por respirar, só por existirmos perto de onde eles vivem. Mas alguns... bem poucos... nosferatu são poderosos o bastante para resistir a essa qualidade tóxica por um breve espaço de tempo. E um breve espaço de tempo era tudo o que Sergej precisava — suas sobrancelhas certinhas se juntaram. — Existe um motivo para ele ser o líder. Era bizarro. Ninguém mais falava o nome dele. Diziam ele ou aquele sujeito. Mas Christophe e essa guria diziam no maior sossego. Como se estivessem falando de um conhecido. Não queria pensar naquilo. Todo meu corpo e tudo dentro da minha cabeça parecia querer vomitar, desmaiar ou simplesmente afundar no chão e ficar tremendo um tempinho. — O que é que isso tem a ver com Christophe? Ela virou aquela foto também. No verso havia um garrancho feito com caneta azul, uma marca, como se alguém a tivesse cortado. Mais papéis. — Aqui temos uma reprodução por escrito de um telefonema entre um membro não identificado da Ordem e um nosferat da linhagem de Sergej. Nele, o Kouroi não identificado dá a localização da sua mãe. Christophe é a única pessoa que poderia saber: ele treinou sua mãe pessoalmente, e eles eram próximos. Ele a treinou? — Próximos? Quantos anos ele tem? — O suficiente para se lembrar da metade final da Primeira Grande Guerra, senhorita Anderson. Não temos mais provas; os registros sumiram, e


a pessoa que fez essa transcrição morreu em combate. De forma muito suspeita, se me permite acrescentar — saquei que ela me olhava com bastante atenção. Tem um jeito que as pessoas olham quando não estão concentradas no que está à frente, quando estão nos procurando com a visão periférica. — É muito provável que Christophe entre em contato com você no futuro. Se e quando ele fizer isso, é imperativo que você comunique a um orientador e fique de sobreaviso para interrogatório. Está claro? O tom de comando na voz era novidade. Entendi que, quando a mocinha dizia Pule!, todo mundo em volta imitava um jogador de basquete enterrando a bola. As palavras pairavam bem na ponta da minha língua. Ele já veio me ver. Palavras simples, poucas, e eu poderia parar de me sentir como se houvesse um peso sobre o meu coração. Poderia largar o problema no colo de outra pessoa e parar de encanar com ele. Poderia deixar na mão de um adulto e pronto. Só que, novamente, eu escutei o som suave das asas, e as penas escovaram meu rosto. Quase me encolhi, de tão real que era aquela sensação. Olha o que aconteceu da última vez em que você tentou despejar o problema no colo dos outros, Dru. Você telefonou pro Augustine, parecia que as coisas iam melhorar — e dá só uma olhada onde você está. Era um aviso, dado como todas as lições da minha avó. Simples e sem um monte de mentiras para zoar com tudo. — Como cristal — me ouvi dizer. Foi a primeira vez em que pareci tão esgotada quanto um adulto, como Graves fazia de vez em quando. Será que ele também sentia essa pressão toda? Talvez sim. Minha vontade de vê-lo era tanta que minhas mãos quase tremeram. — Então eu devo ir — ela reuniu os itens do arquivo, e eu bati os olhos nele. Dylan, como sempre, parecia preocupado, e estava me encarando. Como se quisesse que eu descobrisse algo, os lábios se apertando e os olhos negros emitindo uma mensagem que eu não conseguia decifrar. — A transcrição. Posso dar uma olhada? — não quis parecer teimosa, mas acho que dei essa impressão. Dylan se encolheu de verdade, e Anna se


deteve. Só então descobri o que me incomodava na cara dela. Ela parecia aquelas garotas populares da escola. Nunca ficou deslocada na vida; todos nós nos limitávamos a existir para lhe devolver o próprio reflexo. Era o mesmo tipo de beleza incompleta e gananciosa que eu tinha visto nas patricinhas e nas jiboias por toda parte nos Estados Unidos. Se não fosse uma djamphir, talvez tivesse se tornado uma daquelas mulheres de meia-idade, obesas, muito maquiadas, de lábios caídos e de mal com a vida. Do tipo que arma o maior barraco em um supermercado por conta de um cupom de desconto vencido, ou por uma lata de conserva quinze centavos mais caros do que ela imaginava. Do tipo que sempre consegue o que quer, porque não tem vergonha de vencer pelo cansaço. Bem esse naipe. — É confidencial, senhorita Anderson. Quando Christophe entrar em contato, ouça o que ele tem a dizer. Decore tudo e esteja pronta para repetir. Ela inclinou a cabeça num gesto brusco e acomodou a pasta parda debaixo do braço. Seu vestido de seda esvoaçava enquanto ela se dirigia à porta. — Meu guarda-costas vai me acompanhar até a saída, Dylan. Obrigada. — Milady — como ele conseguia dizer aquilo sem engasgar é que eu não sei. Ela se foi sem deixar rastro e seus saltos batiam no piso com sonzinhos agudos. A porta fechou com um vaivém. As teias de aranha no alto das estantes enormes se moviam esvoaçantes. As telhas do teto também estavam apodrecendo por aqui. Este lugar estava mesmo caindo aos pedaços em mais de um sentido. Dylan inclinou a cabeça, erguendo uma sobrancelha. Fiquei parada ali, morrendo de dor e molhada de suor. Não tinha me tocado que estava tremendo até me sentar de novo na cadeira, pesada. Cada parte de mim vibrava feito uma geleia eletrocutada. O cheiro dela custava a sair, um peso que me revestia o fundo da garganta — em especial aquele lugar no céu da boca que as pessoas normais não têm, onde eu sinto o gosto do perigo. É como o gengibre em conserva que vem com o sushi. Para mim, aquilo sempre tem gosto de perfume. Este aqui também, um perfume pesado e


oleoso. O que isso aqui me lembra? Juro por Deus que me lembra alguma coisa. Mas aquela molinha que faz as memórias acionarem as engrenagens e saírem de seus encaixes e as joga em seu cérebro estava detonada dentro da minha cabeça. Eu simplesmente não conseguia arrumar nada coerente. Subir pelas escadas até meu quarto parecia uma tarefa horrorosa de tão grande. Porém, o pensamento de me esconder debaixo da cama com babadinhos no edredom, as malaika e a carteira do meu pai, mais que compensava. Por algum motivo que eu não sabia dizer, eu estava feliz pelo medalhão de minha mãe ter ficado alojado a salvo debaixo da minha camiseta. Só de imaginar que Anna pudesse vê-lo gelava meu coração. Os ombros de Dylan afundaram. — Eles foram embora — disse, com calma. — Você está bem? Que pergunta. — Estou — limpei a garganta. — Maravilha. Beleza. Não. — Desculpe-me — ele me pareceu sincero. Até aí, ele sempre parecia. — Ela insistiu em ver você, e então... E então o quê? Que porra era aquela? Fiquei observando o espaço da sua mesa bagunçada, onde o arquivo havia sido colocado. Agora eu sabia que existia. Tinha visto onde minha mãe havia morrido. Ele a deixou pendurada na árvore. Sua vozinha doce dizendo aquilo fazia tudo parecer trivial, quando não era. Não era trivial. Era minha mãe, e ela... — Você viu Christophe, Dru? — a jaqueta dele estalava à medida que ele se inclinava para longe da parede. — Acho que não preciso lhe dizer que ele está ferrado. E a situação dele só vai piorar. Eu estava tentando pensar, mas ele dificultava a coisa ao conversar comigo. — Quero ir pro meu quarto — eu parecia uma criança de 5 anos. — Por favor. — Certo —, mas ele não ia deixar barato. — Dru... — Quem deveria estar me vigiando? — o espaço onde o arquivo tinha estado era um buraco no mundo, e eu não tinha certeza de como o vento estava soprando sobre o tal espaço. Odeio esse som oco, feito uma


tempestade raspando contra os cantos de uma casa vazia enquanto você está esperando seu pai chegar e apanhar você. Aquele resmungar baixo e impaciente. — Quem é que deveria me levar pro meu quarto quando a campainha tocou? Foi a única vez em que alguém não apareceu para me pegar. — Eu não sei, não tive tempo de examinar a agenda. E agora a lista de tarefas desapareceu — ele se mexeu de novo, inquieto, o couro crepitando. Tossi mais uma vez, um som áspero e profundo. — Fui chamado para receber o transporte de Anna. Nós nunca recebemos nenhum aviso sobre as visitas dela, então... — Ela não mora aqui? — mas eu nem liguei. Minhas pernas me deram a impressão de que agora iam funcionar. Mais ou menos. Outra coisa que ele havia falado parecia importante, mas não consegui fazer meu cérebro funcionar. — Não, não mora — novamente ele caminhou, sem ir muito longe, e eu estava mesmo me cansando da sensação de que ele não estava me contando tudo. Se é que estava contando alguma coisa. Me apoiei na cadeira, e a empurrei. Não consegui de primeira. Dylan deu um passo adiante, tipo querendo me ajudar. Saltei como se a cadeira estivesse queimando, coloquei—a entre nós e o encarei. — Dru — ele se deteve, imóvel. A gente ficou se olhando, separados por poucos metros de ar traiçoeiro. Não parecia que ali tinha o bastante para respirar, mas com certeza havia o suficiente para me empurrar para baixo por todos os lados. Alguém aí já se afogou em oxigênio? Avancei até a porta. Ele se manteve bastante imóvel, como se não soubesse ao certo para qual lado eu ia pular. O disfarce se dobrava por cima dele, recuava, os caninos deslizando por baixo de seus lábios. — Estou do seu lado — disse ele, quando eu estava quase diante da porta. — Eu queria... — Eu não tenho um lado — informei, achei a maçaneta com uma mão dormente e vazei dali. Todos os corredores estavam vazios, e eu tentei chegar até meu quarto sem que nada mais acontecesse. Foi um presente completamente inesperado. Eu meio que esperava que


tivesse fogo no meio do caminho, outro ataque, ou qualquer desgraceira. Tranquei a porta, botei as costas sobre ela e segurei minha mão. Eu tremia que nem uma folha soprada pelo vento. No quarto, um silêncio mortal, as cortinas só um tiquinho na diagonal e um quadrado de papel branco contrastava com o azul do cobertor. Calor e frio me varreram em ondas alternadas. Atravessei quilômetros de carpete azul. Minhas meias sussurraram, e será que mais alguém via as marcas sutis onde os pés molhados de Christophe tinham se fixado? Mesmo se eu estivesse toda saltitante por causa do excesso de adrenalina que agora ia enfraquecendo, e bem detonada, não sou nenhuma idiota. Ali tinha algo muito errado. Duas fotos da casa onde eu morava no tempo do Antes — antes da morte da minha mãe e de o mundo ter mudado — não davam para enquadrar Christophe. Se a informação era assim tão secreta e confidencial, Anna nem tinha que ter me revelado o arquivo. E ficar mandando em mim é exatamente a maneira errada de me botar para fazer aquilo que você quer. E, quer dizer, eu entendo o lance de obedecer a ordens quando a gente está sob fogo cerrado. E completamente diferente. Só que o meu pai não criou uma retardada que obedecia a tudo cegamente. Não acho que ele seria capaz disso. O papel era fibroso, pesado e caro. O texto vinha numa caligrafia cuidadosa e arredondada. Svetocha, Tome cuidado. Nada aqui é o que parece ser. Encontre-me na palafita dos barcos. Seu amigo. Desabei sobre a cama. Se aquilo era um código, eu não tinha sacado a mensagem. Que porra é essa? E o que é que alguém — quem sabe Christophe — estava fazendo, deixando mensagens no meu travesseiro, enquanto tinha vampiros tentando me matar? E, de todas as pessoas envolvidas (se é que pessoas era a palavra


correta para um lobisomem), porque logo Ash tinha vindo me resgatar? Será mesmo que Ash tinha vindo me resgatar? Finalmente meu cérebro começava a funcionar, embora tarde demais. E agora a lista de tarefas desapareceu. Isso significava que, quem quer que estivesse me vigiando tinha sacaneado a gente, porque sabia que eu ia ser atacada. Assassinada. Não só atacada, mas assassinada. Põe o nome certo nisso, Dru. Soltei o ar de um jeito demorado e tremido. Christophe. O filho de Sergej. Ele tinha razão — alguém estava tentando maEstá—lo. Só que nem ele estava me contando toda a verdade. Todas essas mentiras se acumulando em volta de mim, me aprisionando. Mentiras perigosas. Mentiras mortais. O que aconteceu esta noite poderia ter ter—minado lá no bosque, com a minha morte. Fácil. Eu poderia acabar morta amanhã. Até durante o sono. Estremeci, me abraçando em busca de calor. O quarto estava frio, e esse frio não vinha de mim. A única pessoa com quem eu poderia ter conversado, a única que teria me ajudado a encontrar lógica no meio daquela loucura, estava lá embaixo, no dormitório. Não me sentia capaz de descer até lá. Não agora. Me aconcheguei na cama. Lá fora era de noite e a Schola estava acordada e viva. O falso ruído de pessoas vivendo dentro de um espaço, preenchendo-o com suas respirações e com cada batida de coração, estremecendo no ar. Ainda me sentia total e completamente sozinha. Mais sozinha do que já havia me sentido em uma casa, esperando meu pai voltar, e isso não é pouca coisa.


CAPÍTULO DOZE

frente fria vinda do Canadá chegou com tudo, finalmente, dois dias depois. O gelo derreteu, o rio se transformou em uma serpente prateada flexível, em vez de uma faixa plana cinzenta. Tudo ficou ensopado, em vez de duro de tão frio. Tempestades de relâmpagos chegavam de surpresa, despejando uma tonelada de chuva todas as noites. A luz do dia atravessava um filtro de névoa sombria, branca e seca. Era como estar em uma bola de vidro, porque eu só via a situação do clima através de janelas com barras. Não conseguia ficar confinada no quarto. Era tipo estar na cela de uma cadeia. Daí, eu ia para as aulas. As aulas eram um tipo especial de inferno. Eu ficava lá, pensando Ele mentiu para mim. Ou, melhor, até, Alguém aqui quer me matar. Isso derrubava qualquer outro pensamento da minha cabeça, ficava martelando algumas vezes, e depois eu perdia o fio da meada do que o professor estava dizendo. Dibs ficava comigo no café da manhã e no almoço, mas não dizia muita coisa. Ele tinha tudo com o qual podia lidar só por ficar sentado, quieto e às vezes se obrigando a me dar um alô. A timidez desse menino beirava o estado terminal.

Tirando Graves, ninguém mais conversava comigo. E até ele próprio mal conversava. Pelo menos, não sobre algo importante. Tudo se resumia a A gente foi dar uma corrida pelo parque ou Shanks levou a gente para fazer compras ou Ouvi falar de um cara aí nos treinos de combate, sabe o que ele fez? Por aí.


Eu fazia sons, balançava a cabeça e tentava fazer cara de interesse. Daí o gongo soava de repente na minha cabeça. Ele mentiu para mim. Ou Alguém aqui quer me matar. Talvez neste mesmo local. E aí meu olhar perdido ia lá longe, porque eu tinha medo de começar a examinar cada um, buscando sinais de intenções assassinas. Não era como se eu pudesse dizer a idade de qualquer um ali. Todos poderiam ser idosos, e eu nem ia saber, ia? Para ser sincera, eu nem sabia por que me sentia tão traída. Afinal de contas, Christophe era meio vampiro. Era como se todos por aqui me quisessem morta. Que nem eu. A mancha não saía com uma lavagem. Descobri isso nas cada vez mais proveitosas duas horas que duravam uma aula de História. Não importa o quanto o chupa-sangue está distante de sua árvore genealógica, ainda assim seus filhos nascem djamphir. Ganham o disfarce, a velocidade, a força — e o apetite. E são todos garotos, tirando as garotas, que são uma em mil. E que raramente chegam à fase adulta, porque os chupa-sangues as encontram antes do desabrochar e bebem todo o sangue delas, ganhando um upgrade de força com isso. Legal, né? Eu era uma pessoa especial no lugar todo. Eu e Anna. Será que tinha mais? Poderia ter. Talvez eu não fosse tão especial. Também me ocorreu que os lobisomens provavelmente fossem minha melhor opção de sobrevivência. Na real, eles não iam querer que eu morresse. Não é? Porque de qualquer modo eu não importava para eles, a menos que também estivessem a serviço de Sergej. Não tinha como ter certeza disso. O que significava que os lobisomens não eram, afinal de contas, uma opção tão boa. Não havia jeito de eu sair daqui. Não por um bom tempo. Graves não estava tão a fim assim de ficar comigo, e o que eu podia fazer? Ficar no pé dos lobisomens até eles terem peninha de mim? E se alguns deles tiverem um motivo, vai saber, para me odiar? E será que eu ia ter coragem de descobrir como ir escondida até a palafita dos barcos?


Mais uma vez, eu estava na aula de História, sentada numa das pontas do sofá. As portas tinham sido trocadas, e os corredores, consertados, mas ainda dava para ver as marcas brancas de escavação no painel de madeira e era mais do que óbvio que o carpete não combinava, os únicos remendos de um piso novo em toda a escola. Os pedaços restaurados cheiravam a formol, e eu joguei os joelhos para cima, repousando neles o bloco de papel. Os rabiscos brotavam debaixo do meu lápis, arcos longos e estreitos e muralhas de pedra. Fiz sombras em cada bloco de rocha, a grama abrindo caminho pelos pavimentos de pedra, e trabalhei tudo em volta de um imenso espaço em branco no meio da página. Graves se empoleirava perto de mim, e o garoto que ele chamava de Shanks — um Emo com o cabelo penteado de lado atravessando a testa e balançando sobre seus olhos cor de chocolate, pulsos ossudos saltando de suas mangas, botinas pretas com fivelas e um sorriso de lado — se inclinava para frente do outro lado dele, cotovelos presos I aos joelhos. Irving tinha se arrumado no chão, joelhos para cima e os braços em volta. Tirando isso, todo mundo ficava bem longe de mim. Até Dibs agia como se não me conhecesse dentro da classe. Peguei Graves e o tal de Shanks trocando olhares de desagrado, em geral, sempre que o Irving abria a boca. Naquele momento, Loirão, o professor, dissertava, com sua voz zumbida e monótona, sobre as regras básicas de interação entre djamphir e lobisomens. Sombreei outro bloco de anotações. — Os djamphir têm treinamento Estático, e os lobisomens, treinamento logístico. Isso desempenha a força particular de ambos. Os lobisomens não têm a sensibilidade dos djamphir à proliferação de nosferat, e os djamphir não têm as características peculiares de consenso e cooperação naturais dos lobisomens. Cada uma dessas é a metade de uma equação equilibrada, e foi somente quando começamos a colaborar uns com os outros é que passamos a ter a capacidade de limpar e manter territórios completos. — E antes, o que acontecia? — quis saber Graves. Os dentes de Loirão apareciam bem de leve por trás de seus lábios. Bem brancos, mas não se achava o disfarce dele em lugar algum.


— Antes? Nós morríamos. Nós chegamos bem perto de ser completamente exterminados, e havia uma guerra contra os lobisomens sempre que os nosferatu queriam. Os que não eram aprisionados eram mortos, ou viviam apenas com a permissão dos Príncipes do Sangue. Eram chamados os Submissos. Aquilo me deixou de orelha em pé. Submissos. Sem vontade própria, sussurrava Christophe dentro da minha cabeça. Olhei por cima do papel. — Submissos? O que quer dizer isso? Na mesma hora, me senti uma imbecil. Provavelmente não era a melhor coisa para perguntar em uma sala cheia de lobisomens. Eles podiam ficar, sabe como é, ofendidos. Aimeudeus. Um sussurro suave atravessou a classe. Shanks curvou os ombros e se ajeitou de novo no sofá. — Alguém quer responder a isso? — Loirão deu um giro de 360 graus, observando todos os rostos ao seu redor — Não? Bom, então vamos em frente. "Submeter" um ser humano, até mesmo um djamphir, é fácil. Privando de sono, perda temporária de proteína, um fluxo constante de propaganda ideológica... Isso se chama lavagem cerebral, e é muito simples de fazer. Já com um lobisomem, ou um transmorfo, como o senhor Graves aqui, é mais difícil, por causa da resistência deles tanto a danos físicos quanto a persuasão. — Eles são teimosos — disse Irving, em voz baixa, e outro sussurro correu pela sala de aula. Podia até soar como gargalhada se você não estivesse tão perto para escutar. — São resistentes — corrigiu Loirão, com a voz mais esnobe possível. — Não obstante, isso pode ser feito. O método mais popular era acorrentá-los a uma tatra, que nada mais é que um cubo de pedra grande o bastante para manter a vítima ereta, mas não o bastante para ela se voltar, inclinar-se ou sentar. A corrente é presa a uma coleira de espinhos, com os espinhos postos ao contrário, assim — seus dedos com unhas bem feitas riscavam o ar. — Assim, a vítima deve se mover com cuidado, mesmo naquele espaço restrito. Em seguida, joga—se carne crua sobre o chão ou coloca—se do lado de fora. O cheiro da comida é um tormento, até que a carne comece a apodrecer, e em


todos os dias se joga água por uma abertura acima da cabeça. A água cai em cascata, e o perigo de aspirá-la e desenvolver pneumonia é muito real. Então, há os Revelle, os ladrões de sonhos, monstros criados pelas Marajás. Aquilo prendeu minha atenção outra vez. Ao meu lado, Graves ficava tenso. — O ladrão de sonhos é levado para bem perto do lobisomem, alimentado com carniça e deixado ali para cantar. Alguém aqui sabe o que o canto de um ladrão de sonhos pode fazer? — Eu sei o que acontece quando eles enfiam a língua na boca de alguém e começam a beber — resmungou Graves. — Ele estava cantando. Eu lembro daquilo. Eu não lembrava. Ainda não tinha decidido se eu tinha saído do meu corpo ou se aquilo era um sonho muito nítido que estava no meu inconsciente, agrupando as coisas e me mostrando-as como lembranças. Mas me lembro do que aconteceu depois que Graves arrancou o ladrão de sonhos de mim e Christophe deteve minha ânsia de vômito e minha convulsão. Christophe. Ele mentiu. Ele não me contou. Canalha. E mais alguém. Talvez aquela garota, a Anna. Mas ela também é svetocha. Não faz sentido. Os vampiros são os inimigos, certo? Por que alguém iria trabalhar com eles? O filho dele. O filho de Sergej. Loirão fez uma pausa. Era evidente que tinha decidido por não responder. — O canto de um ladrão de sonhos tira as esperanças e leva a vítima à beira da insanidade. Uma exposição de pouco mais que algumas horas põe abaixo as barreiras entre a mente consciente de um lobisomem e o Outro: a coisa dentro deles que reveste e permite a metamorfose. Deixando o lobisomem psicótico e ao mesmo tempo incapaz de recobrar sua forma humana. — Também fazem isso com garotas? — alguém atrás de mim parecia aterrorizado. Acho que o cavalheirismo não está totalmente morto. Eu, porém, estava pensando no quê de enlouquecido e insano nos olhos de Ash. Ele já tinha sido um lobisomem, como os garotos da minha sala, todos eles se ajeitando desconforEstáveis em seus assentos. E Sergej tinha


feito aquilo — acorrentado o menino em uma caixa de pedra e o transformando em algo que não conseguia voltar a ser um garoto. Loirão agora aparentava incômodo. Eu estava gostando cada vez mais dele nesses últimos dias, até que me lembrei que ele tinha desaparecido porta afora e me deixado sozinha para sofrer o ataque. Neste exato momento, porém, ele era o professor de quem eu me aproveitava mais. — Às vezes — disse, tranquilo — uma fêmea lobisomem psicótica quase não pode ser detida. No entanto, é mais difícil quebrar a resistência de uma fêmea e transformá-la numa Submissa. Outros métodos foram utilizados para obrigar a submissão delas. De qualquer modo, a partir do instante em que o lobisomem não consegue mais voltar nem mesmo a um simulacro de humanidade, seu mestre lhe coloca uma coleira e o torna um autômato sem vontade própria. Passa a ser simplesmente apetite e obediência. Peraí. Me endireitei no assento, o bloco de papéis deslizando sobre meu jeans: — Dá para impedir isso? Quer dizer, dá para alguém assim voltar a ser humano? — Recuperar um Submisso? É possível, se você tiver uma corrente bem forte, tempo suficiente e um motivo convincente para tanto. Mas o senhor dessa criatura raramente vai deixar isso acontecer, e vai chamá-la de volta com tamanha intensidade que o lobisomem em geral se mata na tentativa de escapar. Os lobisomens têm sido conhecidos por quebrar os próprios pescoços, mastigar os próprios braços e pernas... — Apesar disso, existiram projetos de reabilitação — Shanks cruzou os braços. — Meu pai fala sobre eles. Havia equipes completas deles por volta de 1920. — O corpo inteiro dele gritava Não gosto disso, desde os ombros recurvados até o jeitão desconfortável que seus dedos sacudiam e seus joelhos chacoalhavam. Claro que, para um cara que podia virar o bicho de pelúcia dos outros, ouvir aquilo talvez fosse incômodo. — Havia — concordou Loirão. — A maioria dos projetos acabava em fracasso miserável, ou com a morte daqueles que tentavam reabilitar os Submissos. No entanto, quando os lobisomens e os fundadores da Ordem


criaram seu acordo, ficou muito mais difícil para os nosferatu sequestrar os lobisomens para seus propósitos — um sorriso estranho fez tremer os cantos de sua boca. — Neste continente, os wampyr é que estão sendo perseguidos. Pelo menos, na maior parte do tempo. — Mas tem um jeito de reverter o estrago, de consertar? — insisti. — Exatamente como se faz isso? Ele me olhou demoradamente. — Essa pergunta fica para outra hora. Dispensados. Todo mundo começou a se mexer e arrastar os pés, e Loirão me olhou por mais um tempo antes de deixar a sala a passos largos. Dobrei meu bloco e o coloquei dentro da sacola. Fiz força para me erguer do sofá com um estalo e um suspiro. Graves me olhou com atenção, sua "monocelha" subindo ao máximo uma vez por cima de cada olho. O rosto todo dele gritava Que diabo você está pensando? Senti como se tivesse acabado de mergulhar em um banho frio, cada nervo se erguendo e gritando estridente. A próxima aula era de Uso de Disfarce. Nem fazia ideia de quem era o professor, então dava para faltar naquela sem erro. Aposto que tinha alguma coisa na biblioteca da escola — ou até no escritório de Dylan — sobre os Submissos, e eu sou mesmo boa para encontrar tranqueiras desse naipe. Me dê uma coisa para pesquisar e eu entro nela com tudo. Ter encontrado algo de prático para fazer era um alívio! Um toque gelado de pavor atingiu minha nuca. O bilhete na minha cama. Meu "amigo". Será que era o mesmo amigo que teria me levado até meu quarto, onde os vampiros atacaram? Será que era Christophe? Mas o que ele estaria fazendo no meu quarto enquanto os vampiros estavam atacando? Será que ele não tinha escutado o barulho e... Meu Deus, se eu pudesse parar de pensar nisso talvez conseguisse dormir um pouco, ou parar de dar pulos de susto a cada sonzinho que escutava. Arrã. Até parece que isso vai acontecer. — Posso te acompanhar até a classe? — disse Graves, interrompendo no ato o barulho na minha cabeça. — Hum — pisquei. No que exatamente você está pensando, Dru? Mas tinha de


ter uma explicação. Alguma coisa não está encaixando e... bom, era loucura. Era doideira. Mas eu estava começando a ter uma ideia. Podia até ter sido boa, mas de tão cansada eu não conseguia contar. Aparentemente, Graves entendeu meu Hum como um Sim, acho eu, porque ele se levantou e enfiou as mãos nos bolsos do casaco preto comprido. Ele usava aquela porcaria em tudo quanto era lugar. — Ok. Vamos embora, você não vai querer se atrasar. — Costumam assar no fogo quem se atrasa — Shanks se ergueu de um salto, juntando seu caderno e alguns livros cobertos com papel kraft. Olhou para mim de um jeito esquisito e sorriu mostrando os dentes, que eram bem afiados e brancos. — Mas não os alunos especiais. — Para com isso — disse Graves por cima do ombro. — Jesus! — Na verdade, eu estou interessado. Quer saber como fazer uma lavagem cerebral em um lobisomem, Dru? — um rosnado crepitava por baixo das palavras. — Quer começar a criar uns em estábulos? Tinha gente que também fazia isso. Dá para achar imagens na Internet. A molecada costuma trocar insultos horríveis, todos os dias, em todos os colégios dos Estados Unidos. Isso aqui, no entanto, era diferente. — Perguntei porque eu quero saber como se arruma isso — dei uma encarada nele. — Qual o seu problema? Ele fez cara de assustado, mas tirando uma comigo: — Nuóóóóssa, você vai arrumar isso, como uma boa djamphirzinha? — Bobby — Graves deu meia-volta, seu casaco esvoaçando e tocando meus joelhos. — Para. Com. Merda. — Ela consegue mesmo falar quando não está lambendo o saco dos professores? — se inclinou para frente, sobre os dedos dos pés, e o rosnado baixou de tom. — Ou fazendo biquinho para você? Já conseguiu o próprio guarda-costas loup-garou. Que é que ela está fazendo aqui? Jesus. Nunca falei com esse moleque! Eu meio que começava a ver por quê. —Vem — puxei a manga de Graves. — Vamos embora. Ele se sacudiu e se livrou de mim, dando dois passos para frente. Embora


Graves fosse alto, Sanks era mais. Ainda assim, ele não parecia impressionado ou, pelo menos, com medo. — Vai se ferrar. Ou então procura um veterinário para te castrar. Dos dois jeitos você sai no lucro. Aimeudeus. Tinha de ter acontecido isso na hora em que me veio a ideia de algo para fazer de verdade, em vez de ficar perambulando nesse lugar enorme roendo as unhas? — Olha... A pelagem crescia lentamente no rosto magro de Bobby. — Segura ele, sua vaca — rosnou, os ombros recurvando e crescendo de uma só vez. E sempre desconcertante ver os músculos incharem em um lobisomem quando o cabelo brota sobre o corpo inteiro e a mandíbula começa a modificar. Ele só estava a meio caminho da mudança, mas já bastava. — Putame... — não consegui terminar, pois Graves recuou e o derrubou na pancada. Voaram para trás do sofá em um emaranhado de pelos e um casaco de pano preto estalando; os outros lobisomens se juntaram, dando aqueles latidos bizarros que às vezes emitiam para instigar uns aos outros. Ah, pelamordeDeus! Larguei minha sacola e saltei por cima da parte de trás do sofá e comecei a empurrar. O grupo de lobisomens se espremia, ombro contra ombro, gritando — e eu chutei atrás dos joelhos de alguns, de verdade, abri caminho adiante e empurrei um outro de lado com uma força que eu não sabia que tinha. Estavam rolando pelo chão, Shanks meio transformado e fazendo muito barulho, Graves rosnando enquanto seus olhos reluziam — até que Bobby tomou uma joelhada no saco. E esmurrou-o direto na cara. Ouvi o primeiro golpe, o osso quebrando, e quase o senti na minha própria cara. Graves! Alguma coisa dentro de mim estalou. A fúria tingida de vermelho se acumulou, revestiu minha pele e me empurrou para o lado. O mundo ficou novamente com a velocidade reduzida, um xarope claro endurecendo por cima de cada superfície, e eu disparei para frente. Desta vez,


o peso não se fechou sobre meus braços e minhas pernas, e eu tive uma vaga ideia de que estava indo muitíssimo mais veloz antes de chutar. Alguma coisa estraçalhou, com uma distorção e uma amplificação bizarras, enquanto o tênis que eu calçava arregaçava a cara do outro garoto. E ele foi inclinando para o lado e para trás, ainda em câmera lenta, e a dilatação adicional de ódio que fluía por mim tinha uma intensidade limpa e cristalina. Era uma onda de maré de pura fúria incandescente, me transformando numa garota de vidro cheia de fluido vermelho faiscante. Acertei-o duas vezes mais antes que ele chegasse ao chão, dois golpes bons e firmes. Ele se espatifou em um nó emaranhado de lobisomens, cujas bocas abriam à medida que gritavam. Toda a cena se passou estranhamente sem som, e os lobos começaram a se esparramar em câmera lenta. Eu estava em cima de Shanks outra vez, minha mão se fechando ao redor da garganta dele, empurrando-o para baixo por meio do xarope. O braço dele subiu feito o de um sonâmbulo. Evitei as garras que teriam me retalhado o rosto e desviei do golpe com um pulso, recuando-o com um tapinha de leve. O movimento continuou, meu braço recuando, e mais uma vez escutei a voz do meu pai. Coloca o polegar para fora, Dru. Bota ele para dentro e você quebra quando esmurrar esse canalha coitado e infeliz. Muito bem. Agora acerta ele com força, e acerta ele bem! Boa garota! Os sons estendidos e esquisitos ao meu redor continuavam avançando. O tempo desacelerava ainda mais, e eu sabia que aquilo logo ia dar um estalo e acelerar. Tinha tempo suficiente para acertá-lo direitinho com meu punho inclinado para trás. Talvez eu quebrasse o nariz dele, ou se batesse um tiquinho mais abaixo, esmagaria sua laringe, e ele sufocaria. Dru, que você está fazendo? O ódio ainda me queimava por dentro. Ele tinha acertado e machucado Graves. Eu, porém, estava levando em consideração um murro que poderia, na real, aleijar alguém, até mesmo matar. E aquilo não passava de uma briguinha de escola. Tipo todas as outras de que eu me mantive afastada, tanto no mundo normal quanto aqui.


Bom, talvez nem tão afastada. Na real, que é que está rolando aqui? Por que os professores não interferem mais? A resposta veio a mim numa fração de segundo depois. — Estão ensinando a lutar. E também a odiar-se mutuamente. A fúria ainda borbulhava dentro de mim. Eu me sentia como um fio rodopiando sobre um abismo. O estalo que iria acelerar tudo estava para chegar. Eu conseguia senti-lo, pairando à beira da minha consciência como um espirro que coça o nariz. Certa mão se fechou sobre meu ombro, e se eu fosse acertar o moleque, tinha de fazer isso já. Meu punho saltou uns dois centímetros e meio para frente e desviou para trás enquanto o lobisomem se contorcia lentamente, sua boca entreaberta, sangue esparramado de seu nariz. Larguei dele com câimbra nos dedos. Alguém me arrastou para trás, dedos arrancando minha carne com tanta força que eu já sentia as feridas aparecendo. Eu era o saco de pancadas do pedaço. Deusdocéu. O tempo voltou depressa que nem um elástico bem esticado que é solto, e desta vez eu senti que até meus ossos chacoalhavam. Mais uma vez eu tinha acabado de cair dentro do mundo, um tranco tipo um carro trombando numa muralha de tijolos. Uma gritaria danada rolava solta, e meu cabelo balançava na minha cara. Eu observava, hipnotizada, mechas loiras que deslizavam pelos meus cachos. Elas se esticavam, ficando mais compridas e mais soltas, formando ondas macias em vez do tal do frizz. As mechas douradas recuaram, tragadas pela escuridão, e meu cabelo voltava a ser meu cabelo. Puta merda. Isso foi... — Para trás! — Graves berrava, me arrastando para ainda mais longe, enquanto os lobisomens se fechavam sobre a figura imóvel de Shanks, deitado no chão contra a parte de baixo de um sofá, o sangue vermelho e apavorante. Vários deles tinham se voltado para a minha direção e avançavam, a pelagem crescendo lentamente sobre a pele, ombros e pernas ganhando massa. — Isso é um aviso para vocês, caramba! — Foi um rosnado de verdade, o corpo inteiro dele vibrava. A voz dele me atravessava em tremores. Nunca o tinha ouvido soar daquele jeito antes.


A voz vinha com um estalo. Uma mordida. Eu quase conseguia ver que aquilo empurrava os lobos agrupados para trás. Dominante, percebi na hora. É a voz de comando de um loup-garou. Todos pararam, rosnando. Até o pálido e gentil Dibs, que raramente falava num tom abaixo de um sussurro amedrontado. Seus rostos enrugavam, os dentes cresciam, a pelagem deslizando e ondulando por suas formas de menino. Graves me puxou mais alguns passos para trás. — Fiquem aí onde estão! — um estalo, ainda naquela voz imponente. Na verdade, tudo ali chacoalhava, inclusive dentro da minha cabeça. Daí eu me liguei que também estava fazendo um som esquisito, um som alto e penetrante, com interrupções estranhas, quando minha traqueia trancou e eu tive de respirar. O cheiro me atingiu — cobre, quente e bom. Acertou um lugar bem na parte de trás da minha garganta que eu nunca soube antes que existia, bem perto da área que as pessoas normais não têm. Aquela que me avisa quando algo bizarro vai rolar. Aquele cheiro vermelho, de cobre, ia até lá embaixo e rasgava o mundo. Mais uma vez eu me atirei para frente, lutando contra as mãos de Graves sobre mim, mas, de algum modo, ele conseguiu colocar o braço em torno da minha cintura e me puxava para longe. Mergulhei novamente, quase arrastando-o comigo, e saquei o que eu queria fazer. Queria tirar todos eles do meu caminho na porrada e colocar minha cara na garganta do lobisomem ferido. Queria beber. Uma sede intensa se arrastava para fora de mim, vinda lá do meio da minha garganta, e se espalhava por todo meu corpo. Eu estava seca, estalando e queimando, e a única coisa que iria conseguir extinguir o fogo era o líquido doce e vermelho cujo cheiro eu podia farejar por todos os locais. Ele formava uma conexão dentro da minha cabeça, que sussurrava e me persuadia, e meus dentes passaram a doer de tão sensíveis. Eu quase conseguia senti-los aumentar. Meu cabelo pinicava, e cada milímetro do meu corpo acordava de novo. A exaustão persistente dos últimos poucos dias desapareceu, substituída por uma energia elevada e crepitante. O outro braço de Graves veio ao redor do meu pescoço, e ele não


conseguia falar diante daquela emoção toda, enquanto eu me contorcia, me jogando para frente e para trás. Meus dentes estalavam uns contra os outros, fazendo cliques. Os lobisomens rosnavam em resposta, mas Graves emitiu novamente aquele som bizarro, imponente, e eles ficaram afastados. Queria poder dizer que estava aliviada quando Shanks se ergueu do meio de um grupo de lobisomens, seu rosto uma máscara de sangue e seus olhos em chamas. Só que não estava. Queria tirar o treco na cara dele com lambidas e meter meus dentes na garganta dele, e queria beber. Ele rosnou e Graves rugiu de volta. E não sei o que teria acontecido se uma enxurrada de djamphir não tivesse entrado com tudo pela porta e me cercado. Eles me mantiveram abaixada enquanto eu começava a gritar, empurrando Graves de lado com o ombro. Ele, porém, insistiu em segurar minha mão mesmo quando meus dedos a apertavam e os ossos em nossas mãos estalaram. Foi a primeira vez em que o apetite por sangue tinha me atingido. E agora, por Deus, eu estava entendendo muito mais. Graves não me abandonou, mesmo com todo mundo berrando. Ficou bem ali, repetindo um som várias e várias vezes; por fim, eu me liguei que ele estava dizendo meu nome. O apetite chegou até o talo, e quando, finalmente, recuou, comecei a chorar. Graves foi o único que me puxou para perto e me abraçou. Eu soluçava e tremia feito uma criancinha, e alguns deles mandavamno ir embora, mas ele só se livrava deles e continuava me abraçando. Também eu me segurava firme nele. Não iam conseguir me tirar dali.


CAPÍTULO treze

raves pousou a pilha de livros sobre a mesa de madeira com uma pancada ruidosa. Meus dentes ainda doíam. Assim como meu corpo inteiro. Mas, no final das contas, o lance aparentemente não foi tão drástico assim na Schola. Shanks estava nos banhos, e Graves estava enrolando para fazer algo que deveria, "só para ir a um lugar qualquer e esfriar a cabeça". Está bem. Esfriar a cabeça. Uma das expressões mais inúteis do nosso idioma. Só que Dylan me contou que o problema tinha passado, e que eu não ia sair por aí mordendo o povo. Disse que era normal. Porque eu estava bem perto de desabrochar. E que eu ia me acostumar com aquilo. Eu não tinha essa certeza toda. Também disse que não havia ocorrido uma morte "por conta de interações entre estudantes" naquela escola há cerca de sessenta e dois anos, o que não aliviava tanto assim como poderia. A biblioteca toda estava cheirando a pó e papel velho. Janelas com barras deixavam entrar as espadas afiadas da luz dourada da tarde entre as prateleiras ancestrais e pesadas de madeira — finalmente o sol tinha saído, tarde demais no dia para melhorar em algo. Não tinha ninguém atrás do balcão de atendimento. Bom sinal. Eu ainda conseguia sentir o cheiro de sangue. Meus dentes ainda estavam sensíveis, como se eu tivesse acabado de ir ao dentista. Cada nervo meu estava em carne viva, e eu me sentei juntando joelhos com braços, abraçando a mim mesma. — Droga, que loucura! Você está louca! — disse Graves, com uma voz


bem monótona. — Que é que você vai fazer? Amarrar alguém na sua cama? Vão matar o sujeito! Pelo menos ele estava falando sobre outra coisa que não fosse meus caninos crescendo e sobre eu ter dado uma de nosferat para cima de alguém. Só se recusava abertamente a discutir aquilo, e eu era grata. Bom, tão grata quanto poderia, com meu cérebro se recusando a funcionar direito e meu cabelo mudando de cor, e Deusdocéu, que é que estava acontecendo comigo, diabo? Quem eu ainda era? Quando me olhar no espelho, ainda vou ver a mim mesma? Era como desaparecer dentro de um parque de diversões e se perguntar — tipo assim, perguntar a si mesmo na real, num parque de diversões onde o terror era verdadeiro e não tinha um pingo de graça, e ver o que ia acontecer. Aquele tipo de pergunta faz tudo o que não está bem resolvido dentro da gente dançar de um jeito engraçado e rápido. Eu ainda tinha bem poucas coisas valiosas e bem resolvidas. Se me concentrasse em outra coisa, quem sabe superaria. — Tem algo que simplesmente não faz sentido — pelo menos eu não estava sibilando por aí com caninos. Meus dentes estavam normais, mas eu não parava de passar a língua neles, testando. Pareciam normais. Tirando a dor e o local no fundo da minha garganta, que sentia sede. — Ele estava assim pertinho de mim, Graves. E ele não tinha feito nada a não ser se meter na minha vida. Eu... — Cala a boca! — se largou sobre uma cadeira e ficou me encarando. — Que merda está rolando contigo, hein Dru? Tipo, além de terem assassinado meu pai, descobrir que sou meio vampira, ter sido perseguida e espancada e me transformado num demônio sedento por sangue preparado para machucar alguém de verdade? Deusdocéu, me sinto tão feliz! Estou ótima! Sou o retrato da saúde. Abri a boca para dizer algo bem sacado ou quem sabe menos idiota que o normal, mas fechei de novo porque, bom, o que é que eu podia dizer? Não tinha jeito. Olhei para baixo, vi o brilho suave da superfície de madeira. Um calor se ergueu por trás dos meus olhos, a bola de ódio instável presa em minhas costelas deu outro chute mais forte e eu engoli com força.


Segurando meu gênio com todas as minhas forças. Agora que eu sabia o que o apetite por sangue causava, será que ia conseguir me olhar no espelho? Ou para qualquer djamphir sem me encolher toda? — Ah, vai! — ele ainda estava me encarando, eu podia sentir. — Diz alguma coisa, Dru. Não fica aí sentada com essa cara, como se eu acabasse de te dar uma punhalada. Jesus Cristo! O brilho do sol sumia aos poucos, enquanto o anoitecer ia dominando. Afundei de volta na cadeira, me abraçando. O rodopio dentro de mim não parava. Inspirei, expirei, tentando fazer aquilo diminuir um pouco. Se eu tivesse outro surto agora, o que mais poderia acontecer, caramba? Será que eu voaria para cima de Graves? Será que os meus dentes ficariam compridos e afiados, e será que eu iria querer colocar meu rosto na garganta dele e beber? Meu peito doía. Me abracei com mais força. — Vai! — o tom de sua voz ficou mais gentil. — O que você está fazendo? Continua segurando tudo dentro de você e vai acabar com uma úlcera ou coisa parecida. Estou aqui, viu? Aguentei tudo o que esse lugar poderia tacar em cima de mim. Eu não vou à parte alguma. Aquilo só me fez sentir pior. Ele estava aqui por minha culpa. Maravilha. — Você nunca quis ir para casa? — eu tinha de brigar para manter as palavras firmes. Meu peito doía. Era a mesma velha dor de sempre, a sensação de falta de fôlego de estar sentada no corredor de um hospital assim que minha avó faleceu, só repetindo sem parar, Meu pai vem vindo, ele vai tomar conta de mim. Ele está chegando. E torcendo para que fosse verdade. Rezar para aquilo ser verdade. Só que desta vez eu tinha sido deixada para trás para sempre. Não tinha ninguém que vinha me buscar. Pelo menos não no bom sentido. E quanto antes eu começasse a lidar com aquilo, melhor. Mas, ah, meu Deus, o pensamento me amedrontava até bem lá no fundinho de mim. Ele ficou quieto por alguns instantes demorados. — Não, que merda! — disse, enfim. — Olha, não sei se você sacou a ideia, Dru, mas eu não tenho uma casinha com lareira e cerquinha de madeira


para voltar. Eu era garoto de rua, tá? Eu desconfiava, mas era uma coisa completamente diferente ouvir isso em voz alta. — Você tinha... — Aquela sala no shopping center? Porra, que tipo de moleque mora num shopping center? Aqui pelo menos tem comida de sobra. Tem uma cama que eu ganhei por mérito próprio, e eu estou mantendo ela. Não tem nenhum bêbado tentando me fazer trabalhar feito um filho da mãe, nem tentando me bater — puxou o ar de repente, depois soltou. — Aqui, pelo menos, tem regras. Eu me viro com lobisomens e vampiros. Com os adultos do outro mundo aí já não dá. Eles... Aqui pelo menos o mal tem seus motivos. Não é só... — procurava a palavra, o rosto retorcendo por um segundo, enquanto brigava para se expressar. — Não é só uma coisa sem sentido. O que aconteceu com o meu pai foi uma coisa sem sentido. Não falei isso. Como é que a gente pode falar uma coisa assim para alguém? — Você queria ser professor de física — minha garganta tinha fechado; eu só conseguia sussurrar. — É. Bom, mas as coisas mudam. Agora eu quero estar aqui — outra pausa demorada como o tique-taque do relógio. O pó dançava dentro de um clarão de ouro que sumia aos poucos, vindo de uma janela baixa, seguindo redemoinhos compridos e preguiçosos que desciam até o chão. — Com você. Eu olhava fixamente para as partículas suspensas no ar, todas dançando uma música que ninguém conseguia ouvir. Uma vez eu li em algum lugar que o pó podia mesmo ser formado por pedaços de estrelas que explodiram, caindo na Terra. Até que distância um pedaço de uma estrela ia cair e flutuar antes que desistisse e fosse simplesmente puxado para a órbita de um planeta? Aquilo importava? O sol deslizava abaixo da linha do horizonte, e a Schola suspirava, se acomodando melhor. — Eu não sei mais quem eu sou — as palavras engasgaram no meio caminho e morreram no silêncio da biblioteca. Esperei o mundo rachar ao meio e que o céu caísse assim que eu dissesse aquilo. Não aconteceu nada. A biblioteca era de prender a respiração, e Graves


ainda estava ali, parado, olhando para mim. — Ninguém sabe, Dru — era o mesmo tom calmo, estranhamente adulto, que ele tinha usado naquela primeira tarde, sentado no shopping e me perguntando se as coisas estavam tão ruins assim e se eu precisava de um canto para dormir. — Isso se chama "crescimento". O redemoinho dentro de mim tinha acalmado um pouco. Finalmente eu conseguia retirar meus braços que tinham ficado ao redor do peito. Joguei o cabelo para trás com as mãos. Os cachos estavam esquisitos. Sem o frizz, mas sedosos, firmes quando eu passava meus dedos nele. — Desculpa... — É, bom... — ele estava corando? — Eu nunca que vou me conformar com o fato de uma garota ter detonado a cara do Bobby para me defender. Deusdocéu! Alguma coisa muito tensa dentro de mim relaxou um bocadinho. A raiva retrocedeu. Havia espaço suficiente para respirar, e eu respirei bem fundo e enchi os pulmões. — Então da próxima vez eu deixo ele zoar com você. Beleza? — Está bom. Mesmo assim, eu tinha dado conta dele. Deixa para lá, você quer pegar metade desses livros? O mundo parecia fácil de gerenciar outra vez. Como ele fazia aquilo? — Para quê? — Bom, se você está tão interessada na recuperação de lobisomens submissos, esses livros parecem um local sensato para começar. Você tinha vindo aqui antes ou não? — Uma ou duas vezes. Mas você está certo, é uma bela ideia. Meu pai sempre dizia que a pesquisa era o que salvava a gente. Aí, bem na horinha, o pensamento mais desagradável dali se mudou para dentro da minha cabeça, chamando-a de lar. Eu devia era cobrar aluguel dos pensamentos desagradáveis. Tirando isso, o que eles me davam em troca? Provavelmente algo ainda pior. — Você tem ido mais às aulas — separou a pilha em duas partes iguais, e agora era oficial. Ele estava corando. Sinais elevados de vermelho se


destacavam na cara dele, tão profundos que estavam perto demais da cor do vinho. E uma ferida feia também se espalhava pelo maxilar. Antes eu o achava meio feio. Uma cara de "falta algo". Era difícil acreditar. — É, bom, né, mais nada para fazer — peguei a pilha e empurrei em minha direção. — Isso não te incomoda...? Que eu... bom, que eu queira... sugar o sangue dele? Seu gogó subiu e desceu quando ele engoliu. O brinco de prata piscou para mim de um jeito malicioso, apanhando um clarão perdido de sol. — Nem... Você não ia fazer isso, você mesma se segurou. Eu não tinha essa certeza toda, e abri a boca para dizer isso. — Além do que — disse ele, abrindo de relance o primeiro livrão de capa de couro com uma pancada —, sangue é meio quente. — Um sorriso pairava ao redor dos cantos de sua boca, brigando para ficar oculto. Quê? Encarei-o por alguns segundos. Meu queixo caiu, na real. — Você é doentel — O sujo falando do mal lavado, é? Começa a ler. Não tinha certeza que seria capaz de me concentrar, mas consegui. A sensibilidade na minha boca diminuiu, e depois de um tempinho eu não sentia mais o gosto do sangue. E eu conseguia mesmo ler a página na minha frente sem que brotassem lágrimas para borrar todas as palavras. Fingi que estava tirando sujeira do rosto, quando na verdade eu estava espalhando água quente e salgada. Graves não disse uma palavra sobre meu chororô. Só que também ficou sem virar a página um tempão. Na hora em que precisou ir até sua última aula da noite, ele me acompanhou primeiro até meu quarto, levando duas braçadas de livros, que a gente empilhou na minha cama. Por fim, eu caí no sono com um deles apoiado na cabeceira, e dormi direto até o vermelho fraco da alvorada surgir no céu. Até dava para dormir mais, porém eu tinha muito o que fazer.


CAPÍTULO QUATORZE

omei uma ducha, fiz tranças na parte de trás do cabelo. O corredor tinha um jeitão esquisito. Parei do lado de dentro da porta, a mão aberta contra o ar triste e frio, e senti alguém do lado de fora, escutando atentamente. A mesma sensação que costumava ter antes de dizer ao a meu pai que um certo hotel de beira de estrada ou determinada casa não eram seguros. Ele nunca contestava. Assim, sobrava uma única opção. Da qual eu não gostava, mas era melhor do que ficar sentada lá, apática. O sol fraco deslizava pelos furos marcados das persianas de ferro. Tentei abri—las ao máximo, brigando contra a janela. Precisava fazer aquilo de maneira tênue, sem abri—la no arranque, e em silêncio. Um ar frio, úmido e pesado, com cara de chuva jorrou para dentro, e eu bati os olhos no jardim de rosas mortas lá embaixo. As passagens pavimentadas com pedras pareciam muito duras dali de cima. Era uma queda e tanto. Engoli com dificuldade. Queria ter uma corda. Deusdocéu. Mas se Christophe tinha conseguido, eu também podia. O pior que poderia acontecer era quebrar a perna e uma pancada de perguntas, certo? Jamais quebrei um osso antes. E aquelas perguntas vêm com dentes. Tudo aqui vem com dentes. Que ideia mais imbecil, Dru. De qualquer modo, eu ia realizá-la. Com alguém vigiando minha porta, eu


tinha que. Não podia dar a ninguém, amigo ou não, a oportunidade de me seguir. E eu tinha de saber se era possível fugir da Schola durante o dia. Agarrei a moldura da janela e botei o pé em cima, para ter certeza de que era seguro, e me puxei com cuidado até ficar em pé no peitoril. Disse a mim mesma para não olhar para baixo, em vez de ficar estudando a muralha de pedras e o telhado se projetando. Parecia telha de ardósia, e o ângulo complicava a tarefa. Também não havia calhas. Aquilo era bom — as calhas podem ser arrancadas do teto — e ruim ao mesmo tempo, porque eu não tinha nada para me prender com os dedos, além da beirada do telhado. Me voltei de costas para o jardim morto, me sustentando no peitoril. Estiquei a mão para cima e para trás. Essa ideia é ruim. Descobre outro jeito de fazer isso. O problema é que não havia mais opções. E Christophe tinha feito isso. Ai de mim se eu ao menos não tentasse. Sem falar que, se eu conseguisse superar esse obstáculo, já ia ter uma rota de fuga ao meu alcance. E seria o último caminho que alguém pensaria que eu pudesse tomar. Menos velocidade, menos força, menos resistência, já que eu não havia "desabrochado". Mas aposto que eu estava superando todo mundo por aqui em termos de inteligência. Era tudo o que eu tinha. Então por que você está fazendo tamanha cretinice? Mandei essa tal de voz da razão passear e coloquei os dedos em volta da ponta da projeção do telhado. Até que o ângulo não era tão ruim, só meio ruim. Fechei os olhos, respirei fundo, soltei o ar, a ardósia arenosa e gelada sob as mãos. Agora os fios vermelhos e profundos que se cruzavam nas mãos de Christophe faziam sentido, como eu sabia que iam fazer. Minha outra mão também encontrou a beirada do telhado. Executei a ação várias vezes na minha cabeça, como meu pai tinha me ensinado no treino de disparos com rifles. Metade disso é deixar claro dentro da sua cachola, Dru, e o corpo vai saber o que fazer quando a ocasião chegar. Veja isso atrás de seus olhos, sinta você mesma fazendo isso. Eu só precisava de uma chance. Meus braços ficaram tensos, depois relaxados, só praticando. Aquietei o movimento em mim, dentro da minha pele, me concentrando em meu interior. Ouvindo.


Minha pulsação dava pancadas fortes, um ritmo que encorajava. Minha respiração ficou uniforme, suave e profunda. A trança molhada tocou minhas costas, mexendo conforme meu corpo se balançava no peitoril da janela e jogava o peso adiante. Os calcanhares estavam suspensos no espaço, a brisa gelada da manhã passava bruscamente por mim e entrava no quarto. Inspire, expire. Senti picadas ao longo da pele. Pequeninos movimentos musculares que criam o equilíbrio — a gente nunca fica totalmente imóvel. Se ficar, cai. A imobilidade é um ajuste constante, uma série de correçõezinhas minúsculas, que nem guiar um carro. Meu pai me ensinou isso. O pensamento ardeu como uma ferroada, me atravessou depressa, e cada fibra muscular ficou tensa. Ouvia o bater de asas varrendo o ar e sussurrando contra minha pele. Não precisei me inclinar tanto para trás. Era quase como me puxar de dentro de uma piscina. As bordas do telhado beliscavam fundo a carne das minhas mãos. De repente, deixei escapar o ar, ergui um joelho. Que bom que eu estava de jeans. Vi a mim mesma desesperada, arranhando o declive do telhado, curvada por cima dele e agradecendo a Deus por calçar tênis em vez de botas. As solas agarraram firmes, e as unhas dos meus dedos arrancavam lascas das telhas conforme eu as penetrava com força. Ai, merda. Incrível o quanto o declive era acentuado! Fui até o topo e afastei as pernas sobre ele. Os músculos grandes das minhas pernas tremiam. Meus braços, inclusive as feridas fundas no meu ombro, latejavam demais. Eu era uma canção de dor, e a capacidade de cura dos banhos não estava ajudando tanto quanto eu esperava. Minhas mãos gritavam com todas as forças, as palmas cheias de uma umidade quente e as pontas dos dedos em carne viva. Eu, porém, me arrumei de um jeito para não cair dali, e ergui a cabeça. O vento batia em meu rosto, cheio daquele aroma peculiar de quem está nas alturas, e eu vi. Hoje não tinha neblina. A paisagem rural se desdobrava por todos os lados, as árvores se sufocando de tão próximas, tirando os locais onde o asfalto rasgava a terra em


duas pistas. Até onde eu sabia pela minha viagem até aqui, aquela era uma rodovia municipal. Ali era o ponto mais alto para vários desvios. Havia um borrão azul lááá longe, ao sul, que eu imaginei que fossem as Montanhas de Allegheny, mas que podiam ser só uma névoa ou uma nuvem. Descendo a colina, passava um rio cheio de curvas, trazendo um brilho prata opaco ao tempo nublado. As nuvens estavam se desfazendo e se afastando, e em breve a gente ia ter um pouco de sol quando elas desaparecessem. Vi a palafita de barcos, um casebre bem detonado que não parecia rígido o suficiente para se manter com uma brisa mais forte. A Schola o esnobava, suas asas enfiadas para trás como uma ave de rapina. Uma ave cinza, de bico afiado, acomodada e adormecida em seu ninho. Não consegui enxergar bem a passagem de carros ampla e circular, mas vi os pedestais com trepadeiras no final dela e pisquei, esfregando os olhos. Eu jurava que tinha leões de pedra ali... Não, sussurrou a voz do instinto, tinha, mas não tem mais agora. Por algum motivo qualquer. De repente, uma imagem mental bastante nítida começou a brincar dentro da minha cabeça, do jeito que uma música gruda na nossa cabeça, entre o cérebro e o ouvido. Um leão de concreto cinza se espreguiçava suave através da luz manchada pela floresta, músculos sólidos sob uma pele amaciada pelo desgaste. O leão voltou seu pescoço pesado e ergueu a cabeça, os olhos de pedra cegos vasculhando, e sua boca abriu. Dentes lascados, afiados como agulhas, bem próximos, e ele soltou o ar, agitando as folhas no solo da floresta. Sentia olhares sobre si, e a confusão se recolhia para dentro de sua cabeça fria e maciça. Tem os olhos de um Governante, mas distantes, e a juba de pedra cai em cachos sobre seus ombros, comum som que parece argila molhada escorrendo sobre si mesma... A imagem desapareceu aos poucos. Sacudi a cabeça para removê-la. Precisava manter o equilíbrio, pois, para todos os lados, o telhado era bastante inclinado, e a ardósia estava úmida em alguns lugares. Eu poderia ir escorregando e rolando por um bom tempo antes de cair da beirada do telhado, e isso não seria engraçado para ninguém. Segurei minhas mãos ensanguentadas perto do peito e desejei ter me lembrado de usar luvas. Só que aí eu perderia a tração. As vezes você tem de


abstrair o prejuízo. Ultimamente eu vinha fazendo bastante isso. O vento assobiava através dos montes e dos vales de telhas de ardósia. Algumas faltavam, outras estavam tortas, mas, no geral, o telhado aparentava bastante solidez. Minha mão tremia e eu fazia força para manter os dedos longe do medalhão. Mais uma vez, soltei o ar de repente, agora por estar admirada. Meu coração bateu forte uma vez, duas, e passou para um ritmo de galope. Levei um instante antes de perceber que não estava com medo. Não. Na real, aquela sensação era de felicidade. Ela crescia por trás da minha pulsação e empurrava meus braços para fora, dedos bem abertos à medida que um enorme sorriso de quem não estava acreditando naquilo me enrugava o rosto. Com certeza eu deveria estar parecendo uma retardada, me balançando na ponta de um edifício e mantendo os braços para cima feito uma artista de circo. Mas aqui, com o vento cortante passando entre mim e as árvores se apertando na massa cinzenta da Schola, eu me sentia... bom, me sentia livre. Pela primeira vez desde há muito tempo. Aqui em cima não existia nada além de mim e do vento. E os dentes pinicando, como uma sensação de certeza de que o disfarce borrava por mim. Desta vez, era um brilho quente e confortável que bania a dor. Minhas mãos pararam de sangrar, e quando eu baixei o olhar para elas, os cortes com jeito de malha estavam criando casquinhas. O cheiro de cobre fosco de meu próprio sangue tinha sido lavado pelo ar fresco e chuvoso; mesmo assim, achei que tinha pegado um fiapo de perfume quente. Quando fechei de leve as mãos em punhos, elas não doeram tanto e as casquinhas não se partiram. Uau. Me perguntei por que isso não funcionava com os ferimentos e as dores internas. Mas elas estavam quietas agora também. O disfarce pinicava em mim, recuando com um som que parecia asas de coruja. Será que isso é o desabrochar? Queria poder perguntar a alguém. Minha avó me contou muito cedo sobre As Coisas da Vida, e meu pai me falava, com seu jeito seco, o que ele achava que eu deveria saber — isso se resumia a Não seja idiota e Não compre absorventes baratos; nós temos dinheiro. Esse lance de "desabrochar" era como voltar a ter as dúvidas da puberdade e não ter para onde ir e, sabe como é, pesquisar. Talvez a biblioteca


tivesse alguma coisa para garotas djamphir curiosas. Dei uma risada, um som breve de descrença, e me senti mais eu mesma do que tinha sentido durante semanas. Depois de um tempinho parada ali feito uma idiota, me veio à mente que era melhor começar a procurar um jeito de descer. Afinal de contas, eu tinha um plano, que não incluía ficar aqui em cima o dia todo. Então, eu parei de admirar o bosque e o céu e de respirar a bizarra felicidade ensopada pela chuva fria. Que ainda se mantinha em mim conforme eu examinava a camada dos telhados, tentando vê-la como os espaços ocos e as arestas ao redor da casa da minha avó. Se a gente pode conseguir um ponto de vantagem, dá para arrumar um caminho em quase qualquer lugar — em outras palavras, com uma bússola e um pouco de bom-senso. E tudo o que eu precisava aqui era do tal do senso. Quanto de senso eu tinha por escalar um telhado eu não sabia. Mas dei uma boa olhada e aquele punho dentro da minha cabeça se abriu um tiquinho, enviando pinguinhos de consciência investigativa. Esperei pelo formigamento que ia me dizer que era seguro ir e me contar também qual estrada tomar. Nunca se pode apressar esse tipo de coisa. E o mesmo motivo pelo qual não dá para perguntar a um pêndulo nada que você queira mesmo, mesmo, mesmo, saber. Essa vontade cria uma tela na frente da verdadeira resposta, que pode ser algo que você talvez prefira não ouvir. Assim, a gente precisa ficar imóvel e tranquila, e o mais desprendida possível da resposta. E diferente da necessidade real por uma intuição numa emergência, quando só se precisa desligar da gritaria ao nosso redor e ouvir a vozinha silenciosa da certeza. Na verdade, minha avó sempre repetia isso até cansar, como o pêndulo às vezes dizia só o que a gente queria ouvir e segurava o resto. Bom-senso, ela vivia dizendo e repetindo. Rã! Raro como os dentes de uma galinha, talvez. Você precisa usar aquela carne velha entre as orelha, querida! Uma onda de saudade me atingiu com tudo, tão afiada e quente que quase me fez balançar e cair sobre os calcanhares. Desejei estar de volta àquela casinha apertada nas montanhas Apalaches, ouvindo a vibração e as pancadas da sua roda de fiar numa tarde fria, sentindo o cheiro de alguma coisa que ela havia cozinhado para o jantar e os líquidos de lavar pisos e janelas que sempre


usava: — mil-folhas, lavanda, rosa canina, esfregando sem parar. Mas havia também aquela hora da tarde em que ficava escuro demais para trabalhar lá fora, e minha avó ia para a roda de fiar e eu ficava meio deitada no velho sofá de dois lugares e olhava o fogão de ferro. Era quente e seguro, e eu nunca precisei esperar pela minha avó voltar para me buscar. Ela sempre estava por ali. O formigamento me repuxando na boca do estômago surgiu. Examinei o telhado um pouco mais e vi como ia descer. Não parecia muita coisa; eu teria de contornar umas inclinações pontudas, e havia uma quedinha "básica" sobre um telhado estilo galeria. Dava para saltar dali para baixo em um ângulo protegido, usando um grupo de — aquilo eram caçambas? Tinham de ser, é, ali era bem atrás da cozinha. Quem sabe eu poderia até dar uma espiada e ver quem cozinhava atrás daquela tela de vapor. E que tal voltar? Você é tão esperta, que tal voltar para dentro da Schola? Entrar não ia ser problema. Era só martelar a porta da frente por um tempo. Iam me deixar entrar, certo? Pensei nos leões de pedra desaparecidos e não tive tanta certeza disso. Mas era tarde demais agora para não ir até o fim. Eu ia bolar alguma coisa. Examinei as mãos sarando uma última vez e fui em frente. *** Não foi difícil entrar na palafita de barcos. Uma porta de madeira comum, um trinco escancarado e enferrujado que, talvez, chegou a segurar um cadeado. Procurei por qualquer sinal de que alguém morava ali; não achei. Empurrei a porta forçando com meu pé, pulei de susto por causa do guincho de travas enferrujadas e dei um passo para dentro. O canivete se acomodou sozinho no meu bolso. Bem que eu queria ter uma arma em vez dele, para examinar o lugar. A estrutura inteira estava estragando. Um barco tinha afundado, podre, debaixo da água translúcida, com ondas que batiam no vão central dele. Tinham pendurado outro no alto, com correntes enferrujando: parecia que não tinham tocado nele por uns bons vinte e tantos anos. Seus lados tinham


furos bem destacados, e as correntes não me pareciam tão sólidas. Molas de corda esfarelavam-se nos cantos. O local cheirava a podridão e mofo, com aroma de ferro de passar roupa, água de rio e neve derretida. Mesmo tomando cuidado a cada passo que eu dava, o chão afundava debaixo dos meus pés. E do outro lado do vão, onde o barco a remo chafurdava no fundo arenoso sob um lençol de peso reconhecível, ele simplesmente apareceu. Christophe caminhou para fora das sombras, os olhos azuis iluminados. Nem um só reflexo loiro de seu cabelo impecável estava fora do lugar. Suas mãos caídas para os lados, como se ele as estivesse segurando. Que é que ele tinha planejado fazer? Será que pensava que eu era sua inimiga? Tudo fervilhava dentro de mim, e deixei escapar um som estridente e feminino. Ao mesmo tempo, o canivete se abriu num clique. Maravilha. Que maravilha. Todo o treinamento que tive para este momento não me valeu para nada, e eu fiquei ali imóvel, perto de uma pilha de toras caindo aos pedaços, apodrecidas pela umidade, encarando-o: — Você mentiu para mim! — eu soava como alguém que havia levado um soco muito forte. — Um "oi", em geral, é considerado um cumprimento mais adequado — ergueu um ombro e em seguida o relaxou. O hálito de maçãs e canela chegou até mim, atingiu o fundo da minha garganta e instigou o apetite por sangue. — E sobre o que eu teria mentido para você, Dru? Toda vez em que eu o via era como se eu tivesse esquecido como os detalhes do rosto dele funcionavam, a proporção de cada linha e cada plano. — Dezesseis anos, você disse! Disse que te chamavam de mestiço, mas que tecnicamente você tinha 16 anos. — Quê? Uma palestra sobre genética? — seu rosto, porém, ficou incerto. Obviamente ele adivinhou aonde aquilo ia chegar. Durante um longo segundo eu levei em conta o quanto seria agradável acertar um golpe nele, libertar a bola de fúria atrás das minhas costelas e ver se ele ainda conseguia ficar me batendo com tanta facilidade. — Sergej — o nome parecia lançar em minha cabeça um prego de pensamentos odiosos — Seu pai.


Christophe ficou completamente imóvel, os olhos queimando. Os polegares enganchados nos bolsos de seu jeans, mas as mãos tensas e os ombros rijos sob o suéter preto de sempre. Ele me encarou por um breve instante, a cabeça inclinada como se tivesse acabado de ter uma boa ideia e a estivesse elaborando antes de botá-la em prática. Por fim, falou: — Quem contou isso a você? Engoli com dificuldade, baixando a faca. A lâmina piscou uma vez naquela luz dura e fraca. Meu Deus. Você ajudou a matar a minha mãe. Me conta. Eu preciso saber. Preciso saber alguma coisa, qualquer coisa, para ter certeza. — Quem? Ah, ninguém. Só a Anna. Outra svetocha que nem eu. Foi alguma coisa que você também esqueceu? Ela disse... — Ah, Anna. Destilando seu veneno — um rosnado silencioso fluiu por seu rosto. — Eu não pedi para nascer nessa linhagem, Dru. Assim como você não pediu para nascer svetocha — mostrou os dentes, reflexos loiros deslizando ao longo de seus cabelos conforme o disfarce se desdobrava por ele. — Ainda assim, você devia agradecer. A força do meu pai foi transmitida para mim, e é por esse motivo que você ainda está respirando o bastante para lançar acusações — ficou sério. — O que é que você está fazendo aqui? Alguém deveria estar te vigiando durante o dia. Ah, sim, claro que sim. Do mesmo jeito que teoricamente alguém deveria me vigiar quando rola uma Restrição. Isso está funcionando bem, mesmo. — Eu saí do meu quarto. Não foi você quem me deixou isso? — puxei o bilhete do bolso, de repente desejando poder abrir a faca outra vez — Na noite em que eu fui... atacada? —Atacada? E... Anna — o disfarce manteve o cabelo dele escuro, e os dentes não se retraíram. — Me conta. — Eu quero saber — novamente meu coração veio até a garganta. Nem mesmo o vi se mexer. Num instante ele estava lá do outro lado da palafita. No outro, a tela prateada de água sobre o barco a remo afundado ficou ondulando, e ele se encontrava bem na minha frente. Me atirei com tudo para trás, os ombros batendo na porta e o nariz dele a centímetros do meu. Um som oco: suas mãos tinham espancado a madeira atrás de mim, seus


pulsos contra meus ombros machucados. O aroma de maçã fluía ao meu redor. Jesus. Ele era muito rápido. E seus olhos queimavam. O disfarce recuou, o tom loiro deslizando por seus cabelos acariciados por uma faixa perdida de luz solar. — O que você pensa que quer saber? Se eu quisesse traí-la, kochana10, eu poderia fazê-lo. Facilmente. Se eu quisesse feri-la, eu já teria feito isso. Eu poderia... — fez uma pausa. Seus dedos baixaram, dando a volta pelo meu pulso. A faca se ergueu, e ele a segurou com a ponta bem acima do lado esquerdo de seu peito. — Aqui. O ponto é esse. Entre essas duas costelas e torça, se conseguir. Não hesite, Dru. Se você sinceramente acha que eu sou um perigo para você, enfie a faca. Eu ajudo — seus lábios descobriam seus dentes, e seus dedos tensionavam-se sobre os meus. Num gesto brusco, empurrou a faca para frente, e fiquei surpresa comigo mesma ao arrancá-la para trás. Não conseguia — ele a segurava muito firme. Uma dor feroz irrompeu dos meus dedos arranhados, depois enfraqueceu. Ele tentou de novo, com um puxão. A ponta tocou seu suéter em decote V preto e fino como papel, que ele sempre vestia, mesmo com a neve que chegava até os quadris em Dakota, ou congelando aqui. — Vá em frente — seu hálito tocava meu rosto. — Tecnicamente, todo djamphir tem 16 anos. Um pouco além disso e somos nosferatu—, um pouco menos e somos coisas deformadas, nem ao menos humanas. Isso tem a ver com os pares de genes. Não estou afirmando que sou um cientista. Foi uma piada. Mas se sinta à vontade para usar sua faquinha, kochana. Tentei abrir os dedos. Ele não deixava. Ficamos ali parados, ele forçando para frente e eu puxando para trás, até que ele largou minha mão. Deixou as mãos espalmadas sobre a madeira atrás de meus ombros e se apoiou. — Satisfeita? Minha boca abriu. A faca caiu e balançou em minha mão fraca. Não achava porcaria alguma para dizer. Ele esperou, e o som de água sussurrando ao longe debaixo de metade do piso da palafita, tocando seus pilares apodrecidos, era um sussurro frio e macio. 10

“Querida” em polonês (N.T.).


— Agora vamos falar sobre alguma coisa válida. Atacada? Quando? Conte-me antes sobre isso. Depois sobre Anna — arrancou o bilhete dos meus dedos fracos, segurou perto do nariz e inspirou. Ele nem se moveu, e o bilhete desapareceu em seu bolso traseiro. Tipo assim, sumiu. — Ah, Dylan, velho sorrateiro. Aqui costumava ser nosso ponto de encontro. — Eu... quê? Jesus. — Qual era a do Dylan, para ficar largando bilhetes no meu travesseiro? Isso, porém, resolvia um dos enigmas. Christophe voltou a se inclinar em minha direção, suas mãos nos meus ombros outra vez. — Ele está garantindo que a fidelidade dele se mantenha. Estou sensibilizado. E também lhe deu um motivo para afrouxar tua coleira nas horas do dia. Disso eu não tenho certeza se gosto. Agora comece a falar. Quando? Contei a ele a história toda, algumas vezes olhando de relance sua expressão facial. Era o tipo de alívio de quem coloca tudo para fora, como se estivesse extirpando uma infecção ou espremendo uma espinha. Também é meio complicado conversar com um djamphir encarando a gente. Principalmente, quando o disfarce fica ondulando através dele, os caninos tocando seu lábio inferior, criando covinhas suaves. Seu corpo inteiro ficou tenso quando cheguei à parte de Ash com o chupa-sangue. Estava ocupada pensando o que faria se ele ficasse irritado. Será que dava para derrubá-lo na água e sair correndo? Minha voz vacilou quando contei de Ash me farejando. Só... me farejando. Depois de ter arregaçado alguns chupa-sangues, que disseram que o Mestre queria alguma coisa. Não precisava ser um gênio da física quântica para descobrir que o "Mestre" era Sergej. Ou para sacar o que ele queria com "a vagabundinha". — Mój boze11 — sussurrou Christophe. — Tem certeza? Certeza de que era ele? Fiz que sim com a cabeça. Ele estava tão próximo que era difícil respirar. Era exatamente como estar perto de um fogão assando uma torta de maçã bem saborosa. 11

“Meu Deus!” em polonês (N.T.).


— Ele mordeu Graves. Eu o reconheceria em qualquer lugar. —Mój boze — repetiu, e em seguida agarrou meus ombros. Estava confusa, mas daí me vi presa em um abraço de urso, os braços dele em torno de mim e seu queixo por cima da minha cabeça. Não era tão alto quanto Graves, mas tinha uma rigidez forte e bastante quente, até queimava através das roupas. — Ele deve ter matado a todos, ou Sergej teria mandando mais. Agora é só uma questão de tempo. Parecia que ele estava falando consigo mesmo, e eu estava imóvel. Nunca tinha estado tão perto de alguém recentemente, a não ser de Graves, e havia uma sensação esquisita naquilo. Uma sensação esquisita e quente. Um calor que me atravessava toda, como se tivessem me mergulhado em óleo. O abraço era meio que igual aos raríssimos que meu pai me dava quando eu tinha feito algo realmente muito bom. Só que tinha um algo mais naquele. Meu pai não cheirava a torta de maçã nem me apertava com tanta força a ponto de estalar meus ossos, nem respirava em meus cabelos. O hálito de Christophe era um ponto quente em minha cabeça — ele tinha agora acomodado o queixo para o lado, e suas mãos se abriam em minhas costas. O medalhão, preso entre nós dois sobre o meio da minha clavícula, era uma massa rígida de advertência. — Meu Deus — embora os braços dele não estivessem apertados, ele ainda estava tenso. Eu tentava descobrir exatamente qual sentimento era esse. A resposta então me atingiu. Segurança. Christophe não ia deixar que ninguém me machucasse. Não sei quando eu tinha começado a acreditar naquilo em vez de ter medo dele, mas lá estava aquela sensação. Tipo o que eu sentia quando escutava a caminhonete do meu pai ribombando pela passagem de carros em uma casa nova e estranha, voltando para me pegar. Como se alguém fosse começar a Lidar Com as Coisas, e eu pudesse ficar um pouquinho tranquila e só levar adiante. Como se eu conhecesse meu lugar no mundo outra vez. Ficamos parados daquele jeito por algum tempo, Christophe e eu. Aspirei o aroma de torta de maçã e tudo o mais foi sumindo aos poucos. A palafita estalava de leve na tímida luz solar, e eu não conseguia ver nada porque meu rosto estava enterrado no encontro do pescoço com o ombro dele, meu nariz


naquele vãozinho pouco abaixo de sua clavícula. Não me importei tanto quanto achei que iria. — Ouça-me — disse, enfim, como se eu estivesse discutindo com ele. — Você está me ouvindo, passarinha? Minha voz não funcionou direito. Em vez dela, balancei a cabeça bem de levinho, porque — que tal isso, esquisito o bastante? — não queria que ele me soltasse. Ele se retraiu um pouco, apenas da cintura para baixo, e tive medo de que a queimação no meu rosto incendiasse o resto de mim, e eu tinha uma ideia do porquê. Uau. Ai, ai, ai... uau. — Vou levar você até a entrada de segurança. Suba de volta até seu quarto. Não se preocupe se alguém a vir. A esta altura, não importa. Tenho de pedir para você esperar, Dru. Vou me ausentar por um dia, talvez até três ou quatro; há acertos que eu devo fazer para a sua fuga. Você vai confiar em mim? Sabe como é, se ele tivesse me perguntado dessa maneira na primeira vez — a sério, em vez de tirando uma, com a voz quase entrecortada — eu teria entregado a ele as chaves do meu carro. Ou quem sabe eu só estava pensando naquilo agora, por ele estar tão perto e tremendo. Tanto ele quanto eu estávamos. O tremor se derramava por mim como o vento pelas folhas de álamo. — Anna disse que você traiu minha mãe. Que c-contou a Sergej onde a encontrar — a frase morreu porque ele me apertou, com força. Quase tive medo que meus ossos fossem quebrar. O ar soprou para fora de mim, contra o pescoço dele. — Eu nunca — rosnou — faria isso. Nunca. Você está me entendendo? Por Deus e pelo demônio, eu não pude salvar sua mãe, mas vou salvar você. Juro. E, sabe como é, eu acreditava nele. Qual garota não acreditaria?


CAPÍTULO QUINZE

uas horas depois, eu caminhava sussa pelo corredor. Não vi ninguém fora do meu quarto, mas sentia que tinha gente ali. Chegando lá, tranquei a porta, coloquei obstáculos e travei tudo. E isso, aparentemente, bastava. Christophe disse para não me preocupar caso alguém me visse voltando — o problema era sair sem ser apanhado. Aquilo me lembrou o meu pai. Sacudir a cauda ou perseguir os outros era um hábito adquirido, e era melhor que alguém perdesse a gente de vista a caminho de um encontro, assim não se comprometiam outras pessoas. Queria ser uma mosquinha para ver contarem a Dylan que eu tinha sido vista voltando para o quarto. Era uma diversão macabra e irônica. Espere, Christophe tinha dito, Eu vou voltar por você, tão logo eu saiba... quando eu tiver um local seguro para você. Vai confiar em mim? Era igualzinho ao meu pai me deixando em casa aos 15 anos e me mandando praticar os katas. Mas sempre que eu pensava em Christophe me abraçando, descargas escaldantes continuavam passando por mim. Eu ficava quente, depois esfriava, como se alternando as torneiras de temperatura. Isso continuou pelo resto do dia ensolarado e pelo anoitecer adentro, e eu quase não escutei o sinal para acordar. Estava ocupada demais tentando adivinhar de onde vinham o calor e o frio. Meu termostato interno estava bem zuado. O refeitório tinha virado um caos de barulhos misturados. Graves pousou a bandeja. — Tive uma ideia. — Ai meu Deus — olhei fixamente para o meu prato. Nada nele parecia, nem de longe, gostoso. — Que foi agora?


O lugar todo ecoava à nossa volta, e ele deu uma boa olhada no meu rosto. — Jesus. Você está pálida! Não conte a ninguém. Nem ao Dylan. Mas se acontecer outro ataque, tente encontrálo. Não fique no seu quarto. Nesse ponto, Christophe riu, mostrando os dentes, uma curva suave dos lábios. Agora, se você fizer isso, passarinha, tenha certeza de que sua porta está protegida. — É que... sei lá — agora era a hora de um instante de frio. Estremeci. O local todo estava barulhento e brilhante demais. Os garotos continuavam a me olhar de relance, apesar de que, quando Graves se sentou, todos voltaram ao que estavam fazendo. E só olhadelas sorrateiras para mim em vez de me observar diretamente. Tirando Shanks, que me encarava por baixo de sua franjinha emo, até que travei os olhos nele, e ele desviou depressinha. Também... estava lá do outro lado do refeitório. Dibs ainda não tinha dado as caras. Na verdade eu... bom, meio que sentia saudade dele. Acabei me acostumando ao tal estado terminal de timidez. — Você está bem? Eu vi Christophe outra vez. As palavras ferviam por baixo dos meus lábios. — De boa. Ainda sentia frio. Até o fato de meus cabelos estarem se comportando não conseguia me alegrar. Ajeitei a bagunça toda com uma trança para trás e a primeira coisa que fiz foi esquecer dela. Parecia que, no momento em que meus cabelos ficaram legais, eu também comecei a sentir esses calores súbitos. E a guardar mais segredos do que imaginei possível. Deusdocéu. — Tem certeza? Você parece... — É o meu quarto — a mentirinha inocente me pareceu suja e deixou um gosto ruim na minha boca. — Estive pensando nisso. Alguém tem de ter as chaves. Vários alguéns poderiam ter as chaves. Não consigo trancar o cadeado com fechadura de cilindro a menos que eu esteja lá dentro, mas alguém poderia ter a chave para fazer isso também. Tem um cadeado e uma corrente, só que os dois estão velhos e a porta não vai aguentar um arrombamento. E quem estiver montando guarda não vai deter djamphir ou


lobisomens. Nunca detiveram Christophe. Dizer o nome dele foi como um beliscão num lugar já machucado. Eu o vi. Ele me abraçou, e... Jesus, Graves. Você nem mesmo gosta de mim desse jeito, mas eu também não posso te contar sobre Christophe. — Boa — Graves olhou fixamente para o papel, mastigando gentilmente o lábio inferior com dentes brancos de dar medo. Não eram tão brancos assim antes. Era o plano odontológico dos lobisomens: leve uma mordida e nunca mais se preocupe com seus caninos outra vez. — Você sabe, né, você está só se apavorando. É só isso e pronto, acabou? Nossa, está funcionando bastante, viu? Curvei os ombros. Esperar Christophe voltar e me levar ia deixar meus nervos chegarem ao osso. — Verdade — Graves persistia. — Você Está bem segura aqui. Se os chupa-sanguesestivessem planejando te matar, poderiam ter feito isso com mais facilidade se você estivesse sozinha e fugindo, sem ninguém para tomar conta de você. — Sei lá se tem alguém tomando conta de mim ali — resmunguei para o meu prato. — Olha só o que já aconteceu. — Alguns deles, os professores, devem estar. E, meu Deus, Dru, Eu também estou tomando conta de você — pegou o hambúrguer, deu uma bela mordida. Ficou mastigando enquanto me examinava, com um ar de homem que considera a questão encerrada. Isso só conseguiu me fazer sentir pior. Ele foi mordido por minha causa, e estava aqui por minha causa — não interessa se ele achava que era um lugar melhor do que onde esteve. O Mundo Real não é brincadeira, e ele poderia ser assassinado amanhã ou até esta noite, caso um grupo de chupasanguesatacasse novamente. E Christophe. O segredo estremeceu de novo atrás dos meus lábios. Engoli até que ele pousasse no meu estômago feito uma pedra. Eu tinha de falar alguma coisa sobre ele. Talvez Graves adivinhasse, e eu não teria de dizer em voz alta. — Por que Christophe nos trouxe para cá? Peguei meu garfo e enfiei na pilha de salada no meu prato. Tinha jogado


uns temperos de gorgonzola por cima, e ainda assim não parecia gostoso nem de longe. O que eu não daria pelas panquecas especiais do meu pai, ou pelo chili do jeito que ele preparava. Ou uma porção generosa do frango e das massas da minha avó. Ou frango frito e salada de repolho, com biscoitos do jeito que ela tinha me ensinado a fazer. — Eu venho pensando nisso. Opa, aquilo era bom, porque eu havia gasto todas as ideias. Os segredos se cercando dentro de mim lutavam para se libertar, topavam com a bolha de calor atrás do meu peito e recuavam. Mesmo em duas horas eu não tinha perguntado a Christophe nem metade do que eu queria. Ele estava na maior pressa de me levar de volta aos muros da Schola e sumir para fazer acertos. — E? — Talvez ele não estivesse querendo nos trazer especificamente para cá. Esta escola é pequena. Deve ter outras. E se a gente foi colocado num lugar que ele não tinha planejado? Revirei isso dentro da minha cabeça. Faria sentido, principalmente se Anna quisesse acusá-lo de ter matado minha mãe. Mas por quê? Por que esse mistério? Por que essa mentirada toda? Não tinha resposta para isso, e me empurrei de volta ao presente de uma só vez: — Mas ele me encontrou. Entrou justamente pela janela. — E se ele não puder entrar de novo por causa da vigilância que os professores botaram nos locais mais importantes? Esse local é mais fechado do que a Casa da Moeda. E, bom, Dru, talvez os teus maiores interesses não sejam prioridade para ele. Ele está na palafita de barcos, ou estava e disse que nunca iria... e se você estivesse lá... Só que imaginar Graves parado ali olhando enquanto Christophe me abraçava fluiu esquisito por mim, com um quê de culpa. Senti meu queixo se ajeitar de um jeito teimoso. — Ele me salvou de Sergej. — Mas ele pode ter feito isso por mil motivos diferentes, que a gente não sabe. Ele vazou da Ordem e disse que fazia parte dela, mas tem muita gente aqui que também acha que ele é algum tipo de traidor. E... — ele se calou e


deu outra mordida monstruosa. Parecia com fome, e seus ombros estavam ganhando corpo. Agora, em vez de magro, ele tinha braços e pernas longos. Como os outros "lobos garotos", de ombros largos e cintura fina. — Olha, tive uma ideia. Curvei mais ainda os ombros. — Você não está entendendo. Eu não consigo nem dormir em algum lugar a salvo. — Então vamos roubar uma cadeira bem forte e colocar debaixo da maçaneta da porta do seu quarto. Mesmo se alguém tiver as chaves, não vão passar por aquilo. E isso vai reforçar a porta, dificultando um arrombamento, né? Era uma solução tão simples e óbvia que me senti uma débil. — Ah, sim. — A menos que eles botem a porta abaixo a golpes de picareta, mas com certeza eu ia acordar. E sair pela janela outra vez. Fantástico. — Acho eu. — Beleza. Isso resolve o problema — me deu um olhar de relance, de lado. — Você está bem? Não, não estou. Todo mundo mente para mim, estou confusa, está tudo zicado e agora também estou me sentindo uma idiota. E para coroar, eu sinto que até eu estou mentindo para você. Me afastei desse pensamento. Empurrei o prato. — Estou ótima. Então? Qual é a sua grande ideia? Ele me disse, e eu fiquei ainda mais feliz por não ter comido. Discutimos a respeito até o sinal tocar, e ele se mandou para a aula seguinte. Fui atrás de roubar uma cadeira. Estava de saco cheio daquele lance de "frequentar aulas todos os dias", mas a cadeira era mais importante. E se uma porção de alguéns estivesse tentando me matar, uma cadeira faria um trabalho melhor do que uma sala de aula. Pelo menos eu ia poder dormir. Enquanto eu estava nessa, tentei pensar também numa forma de invadir o arsenal e reaver minha pistola. Assim que eu tivesse uma arma de fogo, ia me sentir melhor com relação a várias coisas. Se mais chupa-sangues atacassem ou se outros viessem atrás de mim durante a ausência de Christophe, uma pistola seria bem mais interessante do que uma cadeira ou um canivete. Levei a cadeira por longos lances de escadas espirais, coloquei—a no meu quarto e parei depois de dois passos lá dentro.


Alguém tinha estado aqui. Eu sabia, mesmo com tudo no lugar. Nem no pó tinham mexido, mas o cheiro do quarto estava errado. Frio e calor brigavam por mim. Nenhum venceu. Deixei a cadeira cair no carpete desbotado e alcancei o canivete. Minha mão parou no meio do caminho. Agora não tinha ninguém aqui; o punho relaxado dentro da minha cabeça acariciou o ar com dedos sensíveis e me revelou isso. Fechei a porta de uma vez só e olhei debaixo da cama, pondo de lado os babadinhos. As malaika ainda estavam lá, madeira envernizada com seu próprio brilho suave. A carteira do meu pai também. O cacho de cabelos de Christophe em cima do criado-mudo, porém, tinham sumido. Meu coração saltou até a garganta. Fiquei observando a borda pintada de azul do móvel, o frio voltando até que precisei travar os dentes para não batêlos. Ali, apanhado delicadamente no nó da madeira, estava um único cacho de cabelos dourados. Havia uma porção de loiros cacheados naquela escola. — Dibs, o professor Loirão, o Irving... Qual deles teria entrado no meu quarto? Fiquei um tempão agachada ali, me abraçando. O frio, enfim, venceu, e não queria ir embora.


CAPÍTULO DEZESSEIS

urante algumas horas eu tentei, de verdade, pegar no sono, com uma cadeira de madeira apoiada debaixo da maçaneta. Assim que a coloquei lá, a sensação de alívio foi intensa, mas breve. Tropecei por cima da minha cama, caí para dentro dela e só acordei quando uma coluna de luz fraca, fria e matinal brigando para atravessar a neblina e o vidro da janela tocou o pé da cama. Naquele instante meu relógio biológico estava todo bagunçado, então aquilo não pareceu importante. Além do mais, andar durante o dia era sinônimo de nenhum chupa-sangue por aí, e que a maioria dos professores estava dormindo. Parei diante do espelho do banheiro e xinguei de tudo quanto era nome feio que eu conhecia. Você consegue, disse para mim mesma pela centésima vez. Vamolá, isso não tem nada de mais. A luz do sol ensopada pela chuva brigava para atravessar a janela do quarto azul. Verifiquei meus tênis de novo, esfreguei as mãos no suéter. Andei o quarto inteiro, caí de joelhos para fuçar debaixo da cama e vi as curvas brilhantes da madeira acumulando pó. Quando será que Christophe ia voltar? Tão logo me perguntei, desencanei dessa questão. Não havia por que não ir atrás de tentar descobrir quem estava me caçando e, para fazer isso, eu ia precisar de aliados. Os garotos djamphir não iam ajudar em nada. Então, eram os lobisomens, e Graves disse... De repente, duas pancadinhas na porta. Me ergui num pulo, atravessei o carpete no maior pau e abri de uma vez, só para dar de cara com Graves do lado de fora. O corredor estava na penumbra, então os olhos dele soltavam


fagulhas verdes debaixo do cabelo bagunçado. Jogou-o para trás, me deu um sorriso mágico e pousou o dedo nos lábios. Concordei com a cabeça. Ele me entregou minhas roupas — jeans, uma camisa para o frio debaixo de um suéter enorme e cinza, de lã, tênis, o medalhão da minha mãe escondido em segurança — me examinou depressa e encolheu os ombros. Imagino que ele achou que ia fazer frio ou algo do tipo, mas eu sabia mais que ele. Se a gente fosse fazer isso, eu ia suar. Nada de mais. Vamos embora, Dru. Não desanima. Além disso, eu estava sentindo frio, bem no fundo, onde nem toda lã do mundo ia conseguir me aquecer. Quem teria entrado no meu quarto, pego o cabelo de Christophe e deixado o seu próprio para trás? Que coisa inútil! A menos que fosse o professor Loirão, e ele tivesse um motivo para contar a alguém — quem sabe Anna — que Christophe tinha estado no meu quarto. Eu não sabia o que ia rolar depois, mas talvez fosse algo desagradável. Seria mais provável que fossem me arrancar da cama e me perguntar, não? Tentei dizer a mim mesma para ficar sussa, que eu ia arranjar uma desculpa. Naquela hora, nem eu mesma ia conseguir dizer nada que me animasse. E que inferno eu estava prestes a fazer? Só que agora não dava para voltar atrás. E Graves... Fez sinal para mim. Dei um passo para fora do quarto e o segui pelo corredor. A gente atravessou com cuidado a Schola, que dormia sob a luz do sol. De vez em quando ele parava, erguia uma das mãos e a gente esperava um pouco, ou ele pegava um caminho alternativo. Parecia até que ele tinha se metido a fazer um monte de expedições nas últimas três semanas. Só que isso não me deixou surpresa. Conhecer sua área é um bom hábito estratégico, e eu também tive a boa ideia de fazer um layout. Devia ter caprichado mais, sair para explorar o local em vez de ficar diante do arsenal ou limpando o quarto. Devia, podia, ia, ia, ia, ia... Além disso, você não vai ficar muito tempo aqui. Pisava com delicadeza, respirando pela boca, e, por fim, acabamos em um corredor com piso de concreto, em algum local das profundezas da construção. Graves


escolhia esquerdas e direitas aparentemente no chute, e quando a gente entrou à direita num beco sem saída, demos com um vão para uma porta na parede. Ele a alcançou indo na pontinha dos pés, e fez algo na caixinha de plástico agarrada ã parede sobre o vão da porta. Afastou uns fios com um tapinha de seus dedos e abriu a porta de uma vez só, com um sorriso. Estávamos na metade da manhã; a luz do sol invadiu o local, e a gente botando os pés fora da Schola. Respirei fundo. Folhas apodrecendo, chão molhado, chuva sobre o vento que tocava os cachos do meu rabo de cavalo balançando livres. A luz que ia se despejando sobre mim era boa. Talvez a névoa fosse retornar por volta do anoitecer, mas naquele exato momento a gente tinha um céu limpo, de um azul pálido, e um sol que se parecia com uma moeda branco-amarelada muito distante. Cirrus brancos varriam o pouco horizonte que eu conseguia ver com as árvores tão próximas umas das outras. Na primavera aqui provavelmente era lindo. Pena que eu não ia ficar por aí para descobrir. Graves fechou a porta com um clique. — Vamos embora, a gente está quase atrasado. — Eu nunca mais vou conseguir fazer esse caminho — resmunguei. — Bom, na próxima vez vai ser diferente. Tem gente te olhando bem de perto, sabe como é. Não é tão ruim sair quando sou só eu. — Com todo esse valor que me deram e tal — E tem a outra svetocha. Mas eu ainda não tinha contado nem isso para ele. Parecia má ideia. Eu estava brigando para contar a ele sobre terem roubado o cabelo de Christophe. Duas coisas me impediram. O que ele poderia fazer a respeito e o que eu responderia se ele me perguntasse o que Christophe estava fazendo para deixar partes de seu cabelo no meu quarto. O que eu podia dizer? Os segredos estavam em todos os lugares, me comprimindo. Sou boa para guardar segredos. Quer dizer, Deus, minha vida toda se resumia a eles, desde que minha avó morreu. Guardá-los, porém, é bem mais fácil quando você tem alguém que sabe respirar no mesmo quarto. Carregá-los sozinha é como ter um peso imenso, cheio de pregos, escavando seus ombros


e seu peito, um peso que a gente não pode acomodar nem quando está dormindo. Graves soltou um suspiro de cansaço. Estava quase se parecendo com Dylan agora. — É, bom, vou começar a achar que está rolando mais coisa. Veja bem, presumo que você é treinada para sobreviver, certo? Todo mundo aqui é escalado para o serviço militar, infantaria. Tropas de choque. Mas no instante em que você surge numa aula... em outras palavras, tirando a do Kruger... rola uma queda geral no nível e os moleques ganham um dia de folga. É esquisito. E como se estivessem aguardando alguma coisa. Kruger? Será que ele está falando de Loirão das aulas de História? Aquilo me fez sentir um pouco melhor — se ele estava sendo sincero ao tentar me ensinar algo, quem sabe não tinha ido ao meu quarto. Achei difícil resolver o problema de quem poderia ter sido e ergui as mãos da mente em desespero. — Christophe disse que eu deveria estar aprendendo e que ele vai voltar! Mas ele está fora, fazendo acertos para me livrar desse lugar. Algo que eu não tinha levado em conta antes me atingiu: E onde fica Graves nessa história? Eu iria descobrir isso quando a ocasião chegasse: Ou ao menos eu dizia isso a mim mesma. Só que eu me senti ainda pior. — É. Isso aí. Christophe não é lá muito popular por aqui. Metade dos professores odeia ele, e os lobisomens dizem que ele tem um longo histórico de arrogância e grosseria. Quanto ao único cara neutro, Dylan, tem essa coisa dele mesmo rolando. Ele Está sempre te vigiando. Dá medo. — Pode crer. Aqui é a Capital do Medo. Só que a gente está numa escola cheia de lobisomens e mestiços de vampiros — não tinha certeza nem mesmo do que pensar de Dylan. Todo mundo estava agindo estranho. O que provavelmente seria de esperar em um lugar onde o Mundo Real era aceito sem questionamentos, mas... Estava feliz por ter Graves. E quando Christophe voltasse, eu iria brigar para levá-lo junto. Ele iria concordar — Não tinha como não. E assim que a gente estivesse fora daqui, eu ia poder contar tudo a Graves. Assim que eu decidi isso, o peso sobre mim diminuiu um pouco. Graves soltou uma risadinha amarga.


— Boa. Tem uns professores que são contra o Dylan também. Ou a favor. Aqui é tipo estar assistindo a um documentário sobre o mundo animal. Muito mais interessante que o colégio. Conte com ele para ter um ponto de vista diferente das coisas. — O colégio também é uma selva — segui-o até um caminho tomado pelo mato, quase trotando para acompanhar as passadas largas dele. Ele ainda andava de botas e casaco, e havia uma energia em seu andar. Ele até estava sorrindo. — Verdade. — Certeza de que isso vai funcionar? — Jesus Cristo, eu até parecia insegura. Quase melancólica. —Você quer amigos, certo? Eles não te odeiam, Dru. Isso é uma boa ideia. Confia em mim. Acho que era a primeira vez em que eu via o Garoto Gótico contente. A maior parte do tempo ele estava meio que lidando com isso. Agora, porém, ele parecia bem brilhante, ensolarado, cabeça erguida e os cabelos sacudidos para trás. A diferença essencial de um transmorfo brilhava através dele, uma diferença sutil entre ele e um lobisomem, mas a quilômetros de distância da beleza elegante de um djamphir. Ele ficava bem, contente, revelando a força em vez da bizarrice na estrutura de seu rosto. Molares destacados, nariz grande, queixo forte demais também —, mas ultimamente ele estava ficando mais bonito. Ou pelo menos não tão estranho. Eu estava olhando para ele com tamanha intensidade que quase tropecei; precisava olhar por onde andava. Me apressei ao lado dele, tirando da frente arbustos rasteiros e lixo vegetal. Ele pegou a bifurcação da esquerda quando a trilha se dividiu, e acabamos em uma pequena clareira no lado oeste, repleta de vegetação, da Schola. Aqui a floresta se curvava ao nosso redor e abraçava os prédios, e cerca de quinze lobisomens estavam reunidos. Todos ficaram imóveis assim que me viram. Dibs soltou um guincho e se curvou para baixo. Tentei não encarar o cabelo dele. Meu coração estava na garganta. — Que porra você está fazendo? — Shanks rosnou. Até sua testa de emo


inchou de uma só vez. — Ela vem com a gente — Graves não parecia nem um pouco constrangido. — A Irmandade de Sangue vigia ela — outro garoto foi saindo lentamente do toco de madeira caído no qual tinha se empoleirado, se erguendo e pulando para o chão amontoado de folhas —, e ela é lerda e atrapalhada. A gente não vai esperar ninguém. — Eu a trouxe sem ninguém saber — Graves cruzou os braços. — Ela vai conseguir acompanhar a gente. — Faz favor! Ela é uma deles — Shanks disse aquilo como se eu tivesse algum tipo de doença. O lábio superior de Graves se ergueu um pouco. — Ela está comigo. Algum problema? Quer que uma garota te dê outra surra? Tentei parecer perigosa. Provavelmente só consegui parecer pensativa. Ou gripada. Mas Dibs apanhou meu olhar e, a sério — vai entender! piscou para mim. A luz do sol corria por seu cabelo brilhoso, e eu apanhei um relance de um sorriso de incentivo antes que ele baixasse os olhos ao chão. Ninguém se ligou. E eu não conseguia ver Dibs entrando sorrateiro no meu quarto para roubar coisa alguma. O lábio de Shanks se levantou em um rosnado silencioso. — Se pegarem ela aqui fora com a gente, não vai ser a única que vão castigar. Você gosta tanto assim da detenção? Que é que tem de errado contigo? — Já está na hora de ela começar a saber mais sobre esse lugar — Graves não parecia nada incomodado. — Se a pegarem, vão me castigar. Em todo caso, a ideia foi minha, e ficar com frescura por causa de detenção é coisa de cretino. Agora, vamos fazer isso ou vocês vão ficar por aí entortando a boca o dia inteiro? — Eu não gosto disso — essa veio de um lobisomem loiro, de braços e pernas compridos, próximo a Dibs, que tinha uma cara larga, rústica e uma mancha de cabelo dourado. Liso, não cacheado. — Ela não vai conseguir acompanhar a gente.


— Ela vai — Graves suspirou e revirou os olhos. — E aí, vamos correr ou não? — Deixa ela tentar — um lobo pequeno e compacto com uma penugem escura preenchendo as bochechas pálidas se manifestou. — Se acontecer alguma coisa, ela não vai falar sobre a gente. Dedo-duro ela não é. — Verdade — Dibs fez que sim com a cabeça com muita intensidade, ainda encarando o chão. — Dru não vai dedar a gente. Ela é legal. Não é que nem eles. Eles nem se dão o trabalho de nos humilhar. Silêncio. Todos parados em círculo, pensando no assunto. É um lance dós lobisomens — levam um tempo para fazer qualquer coisa. Todos precisam concordar antes que algo aconteça. Quando você pensa no fato de que eles têm aqueles dentes e aquelas garras, isso faz mais sentido. Se não encontram um jeito de agir em conjunto, eles brigam entre si até a morte. Finalmente, surgiu um murmúrio entre eles. Pensei em tentar fazer cara de confiável. Levando em conta que eu guardava alguns segredos comprometedores, acho que estava funcionando. Uma certa tensão necessária escapou de Graves. Ele me olhou de lado, os olhos verdes faiscavam. Me endireitei um pouquinho. Estava na cara que eles tinham se decidido. — Hã. Bom — Shanks encolheu os ombros. —Está certo — É o teu que está na reta, em todo caso. Você acha que consegue acompanhar a gente, garotinha? Você sabe, né, que eu odeio gente que me chama assim. — Vou dar o máximo de mim — tentei não soar sarcástica e fracassei com louvor. Graves não deu um pulo, mas por bem pouco. Tão logo as palavras saíram da minha boca, uma corrente de eletricidade correu através do grupo de lobisomens. Olhei Graves de relance enquanto todo mundo começava a se erguer, batendo o pó das roupas, um ou dois pulando no mesmo lugar. Havia um bocado de energia nervosa neles, pipocando logo abaixo da pele. Eu não estou tão pronta para isso. Graves me lançou um único olhar. Sabe como é, quando você conhece alguém, às vezes só precisa de uma troca de olhares, uma erguida de


sobrancelha bem de leve, comprimir os lábios para falar uma tonelada de coisas? Tipo assim. Os olhos dele diziam Você tem certeza? Meu rosto mudou. Não, não tenho, eu dizia, mesmo assim vou fazer. Ganhei dele um sorriso inesperado, e Shanks revirou as articulações dos ombros, inclinou a cabeça para trás e inspirou durante um tempão, enchendo os pulmões. Um som de estalos e crepitações correu em torno da clareira, e eu peguei minha própria respiração acelerando. É só ouvir o uivo, Graves tinha falado. Eu te conto tudo o que você precisa saber. Deixa isso te arrastar. Vou estar bem do teu lado. Começaram a rosnar, todos eles, o som crescendo como vapor. Graves era um silêncio tenso e doloroso perto de mim. Eu estava torcendo mesmo para que aquilo desse certo. Daí pensei, Bom, se eu consigo encarar Christophe me abraçando com tanta força que os meus ossos estalam, se eu consegui escalar o telhado da Schola e se eu pude ficar nariz com nariz diante de Ash, provavelmente eu dou conta disso aqui também. Provavelmente. A cabeça de Shanks estalou de novo para baixo, a pelagem se agitando sobre as maçãs de seu rosto, os olhos trazendo um brilho de dor. Ver aqueles caras se transformando em plena luz do dia era outro papo. Perdi boa parte do ar à medida que seus perfis familiares de garotos se transformavam feito lama debaixo d'água, alguns deles agora se agachavam, os joelhos deslocados e as mãos tocando o chão coberto de folhas. Então, como se atendendo a algum sinal preestabelecido, todos eles arremessaram seus queixos para cima e uivaram. Ouvir lobisomens uivarem é... bom, é horrível. O som é inexpressivo, fica pairando nos limites mais altos da audição, e é cheio de garras na neve e corridas com o vento gelado acertando o fundo da sua garganta feito estrelas. Por baixo dessa intensidade inexpressiva há o som de carne rasgada em pedaços, a doçura do sangue quente e a selvageria dos ossos esmagando com dentes brancos e afiados. A pior parte é como isso invade o cérebro da gente, fazendo pressão, feito alguma coisa dura e afiada penetrando dobras suaves, e abre as portas à força, portas que a vida em sociedade fecha com tudo para manter o lance


predatório do uivo lá dentro, bem no fundo, e controlado. Esse lance de quatro patas com garras que mora dentro de todos nós. Uma pessoa civilizada se encolhe e se afasta dessa coisa. Na Schola, isso é chamado de o Outro. Os lobisomens usam para desobedecer às leis da termodinâmica e da física, para liberar a fera interior. E Graves, um loup-garou, a utiliza de um jeito diferente — para o domínio mental, em vez da mudança física. Eu me perguntava como, e por que, e torci para que eles me treinassem de verdade, em vez de me jogarem na turma do jardim de infância. Não importava. De qualquer forma, eu logo iria embora. Os dedos de Graves deslizaram pelos meus, quentes e duros. Ele apertou minha mão, e eu me encolhi. Minha reação inicial de pânico foi me recurvar com mais força dentro da minha cabeça, apertando para fora os dedinhos e garrinhas carinhosos que batiam delicadamente na porta do meu cérebro. Mas o lugar no fundo da minha garganta por onde o apetite por sangue abriu caminho à força ainda estava com a sensibilidade acurada, e o grito dos lobisomens o arranhou como a língua de um gato. O grito foi se ajustando e terminou em um som baixo e solitário, e os lobisomens se movimentaram. Graves saltou para frente, e eu tinha de acompanhá-lo ou teria o braço arrancado. Meus pés escorregavam nas folhas e na sujeira, e o medo chegou, me atravessando com tudo e depositando cobre na minha língua. Graves me arrastava. Eu já tinha trabalho suficiente mantendo os pés no chão. Os outros lobisomens saltavam em formas graciosas; comecei a ter um pressentimento muito, muito ruim, com relação a tudo aquilo. Chegamos ao topo de uma colina alta, arborizada, descendo por uma pilha de rochas e raízes, carvalhos sem folhas e arbustos que ficavam ensopados e silenciosos, agarrados ao solo de um modo que não escorregavam. Graves me deu um puxão repentino para frente, e conforme a gente atravessou o lado, seus dedos afrouxaram e deslizaram para longe dos meus. Eu estava caindo. Meu pé bateu numa rocha, os tênis escorregaram, e eu sabia que ia acabar toda arrebentada lá embaixo. Meu coração saltava; dei um grito curto e impulsivo — e o mundo deu aquele estalo outra vez, com força.


Meu outro pé aterrissou exatamente sobre um pedregulho que eu nem sabia que estava lá, meu corpo despertou, formigando total. O disfarce fluía por mim como o calor do álcool em um estômago vazio, a mistura de Beam com Coca que eu costumava beber quando esperava meu pai chegar em casa para me pegar. O calor foi queimando meu corpo, meus dentes ganharam sensibilidade ao som e até meu cabelo pinicava, à medida que o disfarce deslizava por ele. O medalhão da minha mãe dilatou—se em um ponto de calor, como se fosse derreter sobre meu peito. Você já correu tanto que pensou que seu coração fosse explodir? Só existem você e as suas pernas e o som do vento nos ouvidos, misturados a uma pulsação fortíssima. As endorfinas começam a funcionar se você conseguir ficar assim tempo suficiente e, do nada, você não está mais pensando. Seu corpo é que está fazendo isso por você. Salta que nem uma gazela, dança como uma estrela, e o único pensamento na sua mente é, Deus, continua aí, não desacelera, nem deixa isso parar. Correndo. Com lobisomens. Suas formas borravam ao meu redor, os uivos altos e sobrenaturais distorcidos por conta da velocidade, rebuliços de luz solar sobre a pelagem e olhos brilhantes, conforme nos deslocávamos em uma massa. Espalhavam-se ao meu entorno como numa "cama de gato", e se eu tivesse tempo talvez ficasse curiosa em saber quem estava escolhendo a direção. Mas correr já bastava. Se eu só corresse, nada mais interessava, e eu não tinha de pensar na minha mãe, no meu pai, na minha avó ou em Christophe ou em quaisquer outras centenas de coisas que rastejavam pela bagunça que era minha cabeça. Eu conseguia apenas ser. Tipo aquele lugar no meio de um exercício de tai chi, onde o mundo desaparecia aos poucos e só existia movimento, força e reação se derramando pelos braços e pelas pernas, mãos como pássaros e pés como os cascos de um cavalo. Chegamos ao topo de outra colina. O mundo rodopiava debaixo de mim, eu nem precisava ir para frente, apenas abaixar os pés de vez em quando para tocar nele. Ouvi as batidas abafadas das asas da coruja da minha avó, e uma alegria feroz tomou conta de mim, uma sensação mais limpa do que a fúria do apetite por sangue. Eu estava transparente. Dava para ver através de mim, eu era uma garota feita de cristal, e aquilo era a melhor coisa do mundo.


Não sei quanto tempo durou, mas a força se esvaiu. Foi ficando cada vez mais e mais complicado acompanhar o mundo, mas eu estava dando o melhor de mim quando alguém agarrou meu braço e tudo se tornou uma parada brusca, repentina e rodopiante. Pousei com tudo sobre os joelhos, sacudindo e vomitando. Alguém caiu ao meu lado e me deu um tapinha nas costas. Outros dois garotos também estavam tossindo. — Jesus Cristo! — alguém disse, engasgado, uma voz alta de garoto. Outros riam, um som agudo e instável, e o humor se espalhou pelo restante do grupo. A sensação borbulhou na minha própria boca, entre as golfadas, meu estômago me avisando que Ah, santo Deus, você não devia ter feito isso. Minhas pernas pegavam fogo. Tudo em mim queimava, e minhas costas eram uma barra sólida de dor. Mas isso não importava. O que importava era Graves, perto de mim, também esfregando minhas costas e gargalhando, tomado de imensa felicidade. Dibs estava do meu outro lado, de joelhos, se apoiando em mim e tossindo. Os olhos dele brilhavam com as lágrimas que lhe escorriam pelas bochechas, mas ele não parecia nada triste. Em seguida, Shanks ficou de cócoras diante de mim com facilidade, corado, o cabelo grosso e escuro bagunçado pelo vento, e com folhas presas. — Bom, você nos acompanhou — pelo menos uma vez, não parecia estar me tirando. — Isso nunca aconteceu antes. — Eu te disse — falou Graves sem fôlego. Uma risada soluçada interrompeu as palavras. — Está escrito nos livros: as svetocha conseguem nos acompanhar. — Hã — o garoto mais alto me examinava. Tentei não vomitar em cima dele. Por isso que Graves tinha me dito para não comer nada antes. Mas Deus do Céu. Tentava recuperar um pouco do fôlego. — Quando é... que a gente... pode fazer isso... de novo? Depois dessa, todo mundo caiu na gargalhada. Alguns de nós ainda botavam coisas para fora, mas a piadinha meio que cortou isso. Não queria saber o quanto eu tinha me machucado ou o jeito que meu coração parecia querer pular pela minha traqueia. Eu nem ligava que estava tudo uma merda


sem conserto e que eu estava tropeçando que nem uma cegueta no meio de um jogo grande demais para mim. Tudo o que importava era o sol em meus ombros, os lobisomens se agrupando à minha volta, e o jeito como cada um deles de repente parecia... sim... Com um amigo. E Graves bem ao meu lado, com a mão fazendo círculos nas minhas costas, o rosto todo iluminado. Era igual a ficar de pé no telhado da Schola e ver o mundo se desenrolando abaixo de mim, mas nem de perto tão solitário. Foi a melhor coisa que eu senti desde que meu mundo se despedaçou e um zumbi entrou em casa arregaçando a porta da minha cozinha. Opa.... O que dá para aguentar, a gente segura.


CAPÍTULO DEZESSetE

sala de aula abandonada ficava nas entranhas da Schola. Havia uma lousa vazia na parede curvada. Ao ser preenchido com lobisomens, todo o recinto ganhava um clima de tensão e impaciência. — Então não estão te ensinando nada? — Shanks balançava a cabeça. — É, e a gente se perguntava sobre isso. O que mais eles se perguntavam sobre mim? — Eu, hã, nem apareço nas aulas. E tudo uma merda paliativa que eu ia ter em um colégio comum. Graves sacudiu a cabeça: — Ninguém mais pode ficar cabulando. E a passagem até a detenção, e quem quer isso? Então por que é que deixam você cabular? Tipo, você é especial e todo esse lance — desprezou a risadinha de Shanks —, mas não tem sentido, muito menos colocar você fazendo aulas paliativas. Principalmente com a oportunidade de Aquele sujeito descobrir que você está aqui... deveriam querer você treinada e muito bem treinada, para ter uma chance de sobrevivência maior. — E tem também Christophe — Shanks estava acomodado em um sofá marrom empoeirado, ocupando a maior parte dele com suas pernas compridas. Um zum-zum percorreu o restante dos lobisomens com a menção do nome. — Ele não aparece faz um tempão, mas o pessoal ainda tem medo dele. — Você não teria? — Dibs se manifestou. — Ele é perigoso. Dá só uma olhada no número de assassinatos. Ele também nunca fez muita força para gostarem dele.


— Bom, o povo o vem chamando de traidor faz um bom tempo, mas eu nunca vi a cara do sujeito — Shanks encolheu os ombros. Tinha tirado do cabelo a maioria das folhas. — E foi ele quem trouxe ela para cá. Eu conheço o primo do Juan. — Falei com ele por telefone semana passada. Quando Christophe estava tentando salvar o rabo de vocês, alguém estava tentando matá-lo. O grupo de batalha tinha uma diretriz de matar um nosferat, e ele não percebeu que não era um wampyr, e sim Christophe, até que o sujeito peitou cada um deles, e teve chance de sobra para matá-lo, só que não fez isso, e ele, além de tudo, era djamphir. E ele ferrou direitinho o tal sujeito para resgatar ela. Um jorro quente passou por mim. Será que eles sabiam de Christophe e de Sergej? E agora que eu tinha dormido um pouco e corrido quase a ponto de ter uma parada cardíaca, parecia que eu pensava com clareza. Se Dylan achava que Anna estava certa, por que ele estaria me contando que Christophe iria me treinar? Se ele não achava, por que ficou calado quando ela o acusou? Por que ele disse que estava do meu lado? E qual era o esquema completo de Anna com o arquivo e as fotos da casa onde minha mãe tinha morrido na frente? Eu não lembrava o bastante da noite em que minha mãe tinha morrido. Não queria lembrar aquela noite. Pelamordedeus, eu tinha 5 anos. Tentei resolver isso de novo dentro da minha cabeça. Christophe tinha dito que Dylan era fiel. Eu tinha levado aquele bilhete entre eles feito uma mensagem, e teoricamente Dylan tinha de me achar caso rolasse outro ataque de vampiros. Mas não era para eu contar para ninguém, nem para Dylan, que eu tinha visto Christophe. Aquilo também não fazia sentido. Mas eu tinha ficado tão confusa com o calor do corpo de Christophe junto ao meu... Não pensa nisso, Dru. Jesus. Mas o que mais eu tinha para pensar? No fio de cabelo que tinha achado no criado-mudo? Outros segredos, outras mentiras, tudo isso me comprimindo? — Tem coisa errada — disse outro lobisomem. — Eles só ficam vigiando ela. Daí aconteceu aquilo na outra noite. — É — Graves se inclinou para frente, perto de mim. Ainda não tinha


tirado o casaco, e eu entendi por quê. A classe estava um gelo, e até o suor secava na minha pele. — Ninguém foi lá pegá-la depois da aula para levar para o quarto. Do jeito que estão vigiando ela, isso não é um pouquinho suspeito? Fiquei encarando o quadro-negro rachado. Quanto tempo fazia desde que eu tinha visto um quadro-negro? A maioria das escolas de hoje tinham quadros verdes, azuis, vermelhos, brancos... — Dylan disse que não sabia quem devia estar me vigiando. A lista de tarefas desapareceu e... — decidi não falar. Eu podia ter continuado, mas estava acreditando demais na palavra dele, e não ia conseguir dizer mais nada sem explicar todo o lance da Anna. Eu tinha certeza de que falar sobre outra svetocha não era uma boa ideia, já que ela seria um segredo daqueles. Só que não, talvez não parecesse que eu era tão secreta assim. Será que Ash teria matado todos os chupa-sangues? Se eles eram de Sergej e nenhum voltou, ele não teria certeza de que eu estava aqui — a menos que o traidor, quem quer que fosse, tivesse conseguido contar a ele. Ou um chupa-sangue ia conseguir sobreviver ao próximo ataque e ia lá contar a ele. Os pedaços se encaixavam dentro da minha cabeça. Christophe deve ter sacado isso — e por esse motivo estava voltando para me tirar dali. Ninguém sabia se ele ia voltar a tempo. Minha boca estava seca e meu coração ainda não tinha diminuído o ritmo. — Droga — Shanks esfregou o queixo. — Eu não sabia disso. — seus olhos escuros repousaram sobre mim durante um tempão — É verdade, isso? Concordei com a cabeça: — Era para alguém ter ido me pegar, ou um professor me levar até meu quarto. Aconteceu assim em todas as outras vezes. Só que, naquela vez, Loirão desapareceu assim que todo mundo foi embora. E não veio outra pessoa. — Loirão? — alguém deu uma risadinha. — Que da hora! — O Kruger — Shanks não parecia ter se divertido. — E suas palestras muito úteis. Então como você saiu de lá? — Eu vi — o hábito de guardar segredos sobre o U-hu, u-hu me deteve. Mergulhei de cabeça. Pelo menos aquele segredo eu podia confessar. — Eu vi uma coruja. A coruja da minha avó. Sempre que tem alguma encrenca, ela me


mostra e diz como fugir — respirei fundo. — Daí eu saí correndo. Mas quando eu estava do lado de fora... eu vi um lobisomem. — Quem? — na real: Shanks conseguia abrir um furo em alguém com aqueles olhos. Inclinou para frente, tenso e à espera, como se eu fosse produzir alguma coisa que ele pudesse caçar e morder. — Se chama Ash. Ele tem uma listra na cabeça... — Ele é um Submisso — alguém deu a dica — o último Cabeça de Prata. O lobisomem do tal sujeito. Shanks abanou uma das mãos: — Tá, tá, eu sei sobre o Cabeça de Prata. Você o viu? — Não vi, só. Ele matou os chupa-sangues que estavam me perseguindo. Depois ele ficou bem baleado. Me farejou, mas não me machucou — eu não estava contando a história direito. — Quer dizer... — Ele te farejou? — agora estavam me bombardeando com perguntas, uma atrás da outra. — Como que ele te farejou? — O quanto ele estava perto? — Ele estava sangrando? Shanks ergueu a mão. — Devagar, moçada! Jesus. Primeiro o que está na frente, certo? — me olhou de um jeito especulativo durante vinte segundos tensos e bastante demorados. — Dru — era a primeira vez que falava meu nome sem ser com desprezo —, você tem alguma ideia do porquê de estar aqui e não na Schola principal? Ou numa Schola grande? — Não. Isso é uma merda. Ele riu, e alguns dos garotos mais velhos também. Não eram gargalhadas simpáticas, mas também não eram por minha causa. — Aqui é tipo um reformatório. Somos os encrenqueiros, os debiloides. A Schola verdadeira deste município, a primeira Schola que fizeram, está lá em Nova York. Bem debaixo da linha divisória do Estado. Sempre me perguntei por que você estava tão longe de lá. Ah... — Ninguém... — agora fazia sentido. E é lógico que Anna ia ter vindo de


uma cidade maior, né? Tudo a ver com ela. — Ninguém falou que você tinha "necessidades especiais"? — encolheu os ombros — Interessante. Só que você não devia acreditar no que te contam, nem se eles abrirem a boca. Os Nosferatu mentem, e os meio-vampiros ficam logo atrás, às vezes. A gente não passa de fortões sem cérebro, e eles dizem que estão fornecendo o apoio tático. Então eles têm que ficar mandando na gente o tempo todo. — Mas agora, a gente está sobrevivendo — Dibs se manifestou. — Não como era antes. Meu avô me falou sobre a Era das Trevas. Não faz tanto tempo assim — um zum-zum de concordância saudou aquelas palavras. — Era das Trevas, cara — outro lobisomem escuro tremeu. — Pelo menos agora, a gente não é escravo. — E, bom — Shanks encolheu os ombros. — Ainda tratam a gente que nem merda, mesmo sem matar nem escravizar. Não é um baita progresso, mas eu aproveito. Na maior parte das vezes. — Isso sempre me incomodou — eu tinha que contar a Graves. — O jeito que Christophe tratava você — o outro segredo, mais extraordinário, inchava por trás das minhas costelas. Empurrei-o para baixo. Não conte a ninguém, ele tinha dito. E, de qualquer forma, eles não precisavam saber que eu ia embora logo, precisavam? Graves sacudiu a cabeça, o cabelo preto caindo em seus olhos brilhantes. A inquietação nele era evidente. — Isso aqui não está levando a gente a lugar algum. — Paciência — disse um lobisomem curvo e desengonçado, com ombros largos e cabelo loiro bem baixo. Não era comprido o bastante para que eu ficasse encarando. — E assim que funciona quando todos chegam a um acordo. — Exatamente o que a gente está discutindo aqui? — eu queria saber. Estava farta de ficar tropeçando de um lado para o outro com gente me dando informações com conta-gotas. Queria fazer algo. Shanks ergueu um dedo. — Você está num satelitezinho cheio de delinquentes, em vez de na Schola principal. Pode ser para fazer perderem sua pista, mas — outro dedo


— Ash sabe que você está aqui. O que significa que o tal sujeito poderia saber. Ele matou os nosferatu que atacaram da última vez..., mas a gente não sabe se ele matou todos — mais um dedo, com a unha todinha roída. — Estão mentindo para você sobre uma porrada de coisas, e se negando a te treinar. — Christophe disse que tinha um traidor na Ordem — disse, devagar. Shanks fez que sim com a cabeça. — Quem quer que tenha assinado a ordem de mandar o Juan e a galera dele atrás de Ash, certo? Está bom. Hã. Todo mundo ficou ponderando sobre o assunto. Eu, pelo menos, estava pensando com fúria, e todo mundo ao meu redor enrugava a testa. Graves se agitava um tantinho, depois um pouco mais. Abriu a boca, fechou e ficou me encarando. — Que foi? — parecia mais irritada do que eu estava de verdade. — O que você está escondendo? — Você é uma isca — as palavras vinham uniformes e afiadas. — Christophe quer saber quem é o traidor, e daí ele está te chacoalhando na frente de alguém. Você também foi a isca pro Sergej. Talvez ele tenha te mandado especificamente para cá. O quarto ficou frio quando ele disse Sergej, e vários lobisomens tremeram. Não era como Christophe dizia, com aquele tom de nojo, em vez de medo explícito. Mencionar esse cara ainda era como enfiar um espinho de vidro doloroso na minha cabeça. Graves pareceu não ter se ligado: — Ele estava totalmente empenhado em te arrancar da cidade assim que se tocou que o vilão da história sabia onde você estava, mas, e antes disso? Só estava perambulando para lá e pra cá, esperando alguma coisa antes de agir. Teu pai tinha o telefone dele. Pelo menos uma vez eles se falaram. E os professores aqui, alguns podem querer te dar treinamento, mas têm ordens para não fazer isso, que talvez venham de... — a frase morreu. — Ainda não saquei essa parte. Não sei por que não te treinam, mesmo se, supostamente, seja para ficar te chacoalhando na frente dos chupa-sangues. Mas aposto minha última baforada de cigarro que você é uma isca, Dru. Fique aqui, Dru. Confie em mim. Tudo se encaixou. Por mais que eu me


esforçasse, não conseguia achar uma falha naquela lógica. — Isso explica uma porção de coisas. Mas e Ash? — Que é que tem ele? Agradeça por ele não ter te arrancado as tripas — Shanks riu, um som gélido. — E se ele estiver precisando de ajuda? — insisti. — Eu venho pensando nisso, e... — Você quer ajudar um Submisso? Quer ajudar Ash? Talvez ele estivesse confuso, ou não quis te matar ainda porque o tal sujeito quer ter esse prazer. — Mas quando ele veio atrás de mim antes, ah, como ele estava a fim de me matar! — já estava gritando antes de me tocar. Meu peito doía com o tamanho gigantesco daquela confusão — Ele salvou minha vida na outra noite. Tem de ter um motivo! Graves agarrou meu ombro. — Calma aí. Calma aí? Ele queria que eu ficasse calma? Ah, não meesmo! Eu estava prestes a explodir. — Todo esse papo não resolve nada! E se a gente conseguisse achar Ash? A gente podia tentar ajudar ele, e daí a gente ia ter uma chance se descobrisse alguma coisa, qualquer coisa! — Por que essa obsessão toda? — Shanks queria saber. — Você estava pegando pesado pra caraca sobre salvar um Submisso, outro dia na classe. Pouco antes de a gente entrar nesse papo e eu arrebentar sua cara. Fiquei todinha gelada; arrepios brotavam na minha pele. Pouco antes de eu sentir vontade de beber sangue. Feito um chupa-sangue. — Você não viu os olhos dele — quase derrotada, pulei de volta para o sofá. — Simplesmente não viu. Eu quero ajudá-lo. — O cara tem sido lobisomem do tal sujeito faz um tempão. Desde a Era das Trevas. Não tem mais Cabeças de Prata por aí, só Ash. — Dibs estremeceu. Seu tom de voz era suave, assustado e bastante triste. Minhas mãos eram punhos. Respirei fundo. — Só que ele não me machucou. E quantos chupa-sangues ele matou? Não seria ruim um cara desses do nosso lado. Uma onda correu por eles, feito tinta se agitando na água, e eu soube que


tinha dito a coisa errada. — Lado. Vocês, djamphir, são todos iguais. Mais cedo ou mais tarde começam com esse papo de lados — os lábios de Shanks curvaram-se para cima. — Daí os lobisomens vão fazer o servicinho sujo enquanto vocês se deitam e... A bola de fúria dentro do meu peito inchou. Meus dentes formigaram, e eu senti alguma coisa afiada tocar dois lados do meu lábio inferior. Fiquei em pé tão rápido quanto um foguete. — Vai se ferrar! — Vamos acalmar aí — falava Graves. — Acalmar aí, caramba! Eu quase morri, e esse cretino fica agindo como se fosse tudo minha culpa — a frustração fervilhava escancarada sob a minha pele, me alfinetando e me empurrando. Cada segredo que eu guardava abria caminho na porrada para se libertar. — Se a gente vai começar com essa merda de Você é igual a eles, que tal achar outra pessoa para atormentar? Eu não pedi para nascer meio-chupa-sangue! Não sabia porra nenhuma até que todo mundo estava tentando me matar e o meu pai nunca mais voltou! — precisei parar para respirar fundo. Todos estavam olhando para mim. — Agora ninguém me conta que porra que está rolando, e eu estou de saco cheio disso! Estou de saco cheio de me sentir como se tivesse feito algo errado só pelo fato de respirar! Eu não pedi isso! — Ninguém está falando que você... — começou Graves. Para lhe dar algum crédito, tentava botar panos quentes, ou algo do gênero. Mas eu estava por aqui com essa história de quererem me acalmar. — Estão falando sim! — apontei um dedo acusatório para Shanks. — É exatamente o que ele está falando! Que eu, de algum modo, mereço essa merda toda por ter nascido do jeito que eu nasci. O ar mudou na mesma hora em que eu fiquei sem fôlego, e outra vez uma onda percorreu o lugar todo. Essa onda era fria, um hálito de advertência. Graves veio agarrar meu ombro, mas eu desviei dele. Se alguém botasse a mão em mim eu ia partir para a ignorância. O apetite por sangue era uma bola turbulenta de fúria dentro do meu peito; estava difícil empurrá-la para baixo e meter uma tranca nela. Será que os


outros djamphir se sentiam assim? O tempo todo, ou só quando o disfarce surgia por cima deles? Como eles aguentavam aquilo? Como é que alguém podia aguentar aquilo? — Ah, meu Deus — um lobisomem agachado perto da porta ergueu a cabeça e farejou — Djamphir a caminho. Deve ser um professor. — Bosta — Shanks saltou e ficou em pé. — A gente tem que se separar. Se pegam a gente aqui com ela... — Não esquenta com isso — já tinha girado sobre os calcanhares e me dirigia para a porta. Ele deixou escapar uma risada pelo nariz: — Que é que você vai fazer, hein? Conta! — Eu devia — falei de uma vez só, por cima dos meus ombros, juntando meus pés detonados. — Mas não sou uma babaca que nem vocês. Meu pai me criou direitinho, cacete. Vou despistar quem quer que seja para vocês poderem voltar para os seus dormitórios e irem à merda. Cheguei até a passagem principal no maior pau e mergulhei no corredor. Aqui nesta ala estava o maior frio, e meus sapatos estavam molhados e cobertos de sujeira. Fiz a maior barulheira, os pés batendo e eu gritando qualquer coisa que me viesse à cabeça —, em geral, palavras não muito simpáticas, que ecoavam de volta para mim, vindas das pedras e do revestimento das paredes de um modo aterrorizante. Pelo menos isso ia distrair qualquer professor que estivesse descendo até aqui. Por mim, os lobisomens podiam voltar aos dormitórios jogar cartas, brincar de girar garrafa ou o que quisessem. Saí no maior pau até o refeitório. Que estava estranhamente deserto, a luz do sol atravessava as janelas altas. Todas as cadeiras estavam empilhadas sobre as mesas, e eu peguei uma dessas pilhas e puxei para baixo com um estardalhaço que reverberava tudo. Isso tem de fazer alguém sair. Meu coração batia bem forte, e a maior injustiça de todas se ergueu para me sufocar. A bola de fúria atrás das minhas costelas soltava fumaça e fervia com tanta força que meus olhos vazavam calor e água. — MERDA DE LUGAR! — gritava — QUERO RESPOSTAS!


— Não precisa gritar — disseram atrás de mim, e eu me virei depressa. Dylan deu um passo e saiu das sombras com um estalar de couro, parando bem ao lado de uma coluna amarela formada pela luz do sol. — Você deveria tomar mais cuidado. Se eu consegui apanhar você durante o dia, qualquer um pode. Levou dois segundos para meu coração sair da garganta. — Jesus Cristo! — Ná-não. Só eu — um sorriso sacana ergueu os cantos de sua boca. Seus olhos escuros, porém, estavam sérios, e havia anéis com cara de machucado abaixo deles. — Não temos muito tempo, Dru, venha. Sabe como é, se fosse outro dia e eu talvez fosse com ele e pronto. Mas hoje não. Estava cansada de seguir as pessoas por todo lado, cansada de ser feita de palhaça. — Para onde? Será que a... como chama a bonitona? Quer me ver outra vez? Dylan suspirou, um som conhecido, piorado. Os anéis de insônia sob seus olhos combinavam com a tensão ao redor da boca, e o cabelo dele também estava uma zona. — Torça para que não. Vamos, Dru. Por favor. Tenho uma coisa para lhe mostrar. Cruzei os braços e me recusei a mover um só músculo. — Por que torcer para que não? — Porque eu não sei se Milady é confiável — deu um passo para trás, recuando da luz do sol. — Você vem ou eu preciso esperar por outro período de serviço meu para vigiá-la? — Você estava a serviço? Ele encolheu os ombros. — Por que você pensa que eu a deixei sair com seu amiguinho? Pelo menos eu tenho certeza de que ele e os lobisomens dele não vão matá-la, mesmo sendo delinquentes e ladrões — mais dois passos para trás. Os olhos de Dylan brilhavam, o disfarce deslizando por ele e se retraindo em ondas, emitindo dedos de reflexo cor de ébano por todo seu cabelo. — Dru. Acredite em mim. Você vai querer ver isto, e não é seguro


conversar por aqui. Por aqui? Suspirei. Era o que todo mundo dizia: Confie em mim, Dru. Acredite em mim, Dru. Deixa eu fazer o que eu quero, Dru. Eu estava sem saída, como estive o tempo todo. E a ideia de que Christophe talvez não voltasse por minha causa, de que ele estava me usando como isca, de que eu poderia ficar presa aqui por um tempo — já bastava para fazer qualquer um desistir de brigar. Meus ombros despencaram. A umidade no meu rosto se agarrava aos meus dedos conforme eu o esfregava. Segui o cara.


CAPÍTULO DEZOITO

u vinha passando muito tempo seguindo garotos pelos corredores com paredes de pedra. Dylan não falou durante um bom tempo, só me conduziu rumo à asa norte. Se movimentava sem fazer som em suas botas de engenheiro pesadas, com a elegância peculiar dos Kouroi. Saquei também que a jaqueta só estalava para dar um efeito. Enfim, eu precisei abrir a boca: — Os lobisomens. Eles não vão se meter em encrenca, né? — Lógico que não. Não sou um dos poucos e privilegiados — destrancou uma porta de madeira e parou por um momento, respirando fundo. — Há muito mais do que aquilo que lhe foi contado. Estou admirado por que a mandaram para cá, e ainda mais admirado quando a diretriz que veio era de que você precisava de "tempo para se recuperar" e não deveria ter um programa de aulas, e que não seriam feitas as distribuições para instrutores particulares ou guarda-costas neste trimestre — o tom de sua voz ficou mais amargo. — Então, Milady começou a interferir ainda mais. E quando Milady interfere, cuidado. Milady? — Você está falando da menina que estava aqui um dia desses. — A que acha que é mesmo importante que eu odeie Christophe. Ele também a chamou por esse nome. — Aquela "menina" é a rainha da Ordem, Dru, e a líder do Conselho. Svetocha são valiosas. Milady foi salva dos nosferatu quase quinze anos antes da sua mãe, e eu acho que esses anos deram a ela o sabor da ambição. Eu


imagino que... — parou de repente, uma coisa de enlouquecer. Daí, não deu para eu ouvir o que ele imaginava. — Na Schola principal, iriam lhe dar tudo o que seu coração desejasse. Aqui tivemos de nos virar por causa de restrições financeiras. Eu achava que você seria mandada para o sul do país assim que os acertos pudessem ser feitos. Eu pensava que você, pelo menos, teria uma unidade militar de instrutores particulares, sem mencionar um grupo de cinco guarda-costas, como a própria Milady. Mas isso atrairia atenção demais, dizia a diretriz. Você estaria mais bem protegida se estivesse menos protegida, pois não chamaria atenção para sua sobrevivência, e Sergej estaria procurando pistas. Quando ele disse aquilo, o nome não fez o ar ficar gelado e desagradável. Mas ainda lançava um relâmpago de quase dor por minha cabeça. Isso não faz muito sentido. — Isso não faz o menor sentido. Ele expôs seus dentes brancos de djamphir em um sorriso largo e sem alegria. — Foi o que eu pensei. Mas eu já tinha sido rebaixado a dirigir um reformatório minúsculo para buchas de canhão bem aqui, neste fim de mundo. Minha função não é questionar, Dru. Ah, que alívio, hein? Não, não... — Espera um pouco... Seus ombros encolheram. Um gesto rápido, que varreu para longe o passado. Sua jaqueta de couro estalou. — Quando você põe na balança o fato de que Christophe a encontrou, há também a questão da lealdade dele. E o fato de que você é... quem você é — empurrou a porta e fez um gesto para que eu passasse por ela. — Fiquei preso aqui por muito tempo. Minha própria lealdade, à sua mãe e a Christophe, custou bastante caro, em termos profissionais, para dizer o mínimo. — Daí então — queria dizer apenas uma palavra. Infelizmente, não me ocorreu nenhuma. Tentei mais uma vez — Tudo bem. Dá para você fazer o favor de me contar desde o começo? Que merda eu estou fazendo aqui? — Eu sou uma isca? Mas senti o calor do corpo de Christophe junto ao meu outra vez e não


acreditei nisso. Não conseguia acreditar. Não importava se fazia ou não sentido. O local era comprido e baixo, sem janelas e cheio de prateleiras de metal com caixas empilhadas sobre elas. Um lugar que se estendia bastante, onde a única luz vinha de lâmpadas em proteções de vidro grossas, entrecortadas por fios e embrulhadas com teias de aranha. Parecia um abrigo de bombas abandonado, e as filas de prateleiras iam se afastando até o infinito. — Acho que você está aqui porque alguém está aguardando novidades. E o mais esquisito, mas não consigo chegar até nenhum de meus contatos habituais além da fronteira do Estado. Esse nó inteiro está sendo mantido como uma área restrita. Isto sim, poderia ser algo para protegê-la. No entanto, está cada vez mais parecendo um esquema para que ninguém nem ao menos saiba que você está aqui. Ninguém na Schola principal, ninguém na Ordem, a não ser Augustine e Milady, e recentemente não se sabe nada sobre August. Ele perdeu as duas últimas chamadas com seu agente — que, por acaso, é amigo meu — Dylan fechou a porta com um vaivém, voltando-se para me encarar enquanto eu me afastava dele, inclinando, nervosa. — E Christophe também está inacessível — seus olhos traziam uma pergunta; será que ele suspeitava que eu tinha levado o bilhete dele a Christophe? Tinha de suspeitar. Isso significava que ele, também, estava jogando. Qual tipo de jogo que era, eu ainda não conseguia adivinhar. — O August sumiu? — minha garganta ficou do tamanho de um furo de prego; era difícil pronunciar as palavras. Augie era amigo do meu pai fazia um tempão; e a pessoa para quem eu telefonei para verificar a história de Christophe. Pouco antes de tudo ter ido para o saco com o ladrão de sonhos, com o céu escurecendo no meio do dia e com Sergej. Tremi. O suor que tinha secado na minha pele coçava e fedia. Era um cheiro azedo ao qual eu já havia me acostumado bastante de uns tempos para cá. Era medo. Nem me lembrava mais como era não estar aterrorizada. Dylan me examinou por mais ou menos dez segundos demorados e eu, do nada, me liguei muito depressa de que estava aqui embaixo sozinha. Ninguém sabia


onde eu estava. E ele estava me contando uma porrada de coisas ruins sobre como ninguém que tinha o poder de fazer algo em relação à minha situação ia sentir minha falta se eu só sumisse, do nada. Christophe, porém, tinha dito para eu achar Dylan se rolasse outro ataque. Tinha dito que Dylan era fiel. Também tinha dito que ia voltar para me apanhar, e, que se eu duvidasse daquilo, havia uma porção de outras coisas das quais eu podia duvidar. Ai, bosta. Não confio em mais ninguém. Nem em mim mesma. — Roubei isto aqui do arsenal — Dylan fez um pequeno movimento, e eu estava olhando a pistola. Estava do lado contrário, o traseiro virado para mim. Era a nove milímetros. Eu a entreguei quando o helicóptero tinha pousado na neve, me trazendo à Schola e, ao que imaginei, fosse a segurança. Meu coração batia alto e forte na garganta. — Se o que eu suspeito for verdade, você não está a salvo aqui. Não está a salvo em lugar algum, mas em especial não por aqui. Estiquei a mão para pegar. O metal frio e pesado de encontro aos meus dedos. Minha mão se fechou em torno da pistola. Puxei o carregador e o examinei como de costume. Ainda carregada com as balas revestidas de prata do meu pai. — Então, o que você espera que eu faça? —Venha ver isso aqui. Você não tem um coldre para essa coisa? Encolhi os ombros. Hã, não. Não posso registrar a saída de armas no arsenal. Todas as minhas coisas estão na caminhonete — que Christophe escondeu. E eu não tenho meio de entrar em contato com ele. — E se eu escondesse no meu sutiã? Não tive a intenção de parecer tão sarcástica. Mas, por Deus. Eu me sentia muitíssimo melhor com a pistola na minha mão. Tão melhor que era até ridículo. Dylan suspirou, um suspiro típico. — Vamos descobrir isso daqui a um minutinho. Por aqui. Eu o segui entre duas filas de estantes, a arma apontada com cuidado para o chão. — No que é que eu teria de dar uma olhada?


Seus ombros se levantaram um pouco. — Numa coisa que eu vim escondendo há um tempo. A transcrição da qual Milady estava falando existe, mas a que ela me mostrou passou por uma revisão enorme. Eu tenho o original. Meu fôlego se esvaiu de uma só vez: VUUUUSHHH! — Legal! Você está com ela aí? — Viu só? Eu falei que você ia querer ver. O agente que transcreveu o telefonema era meu amigo, e um bom Kouroi — recurvou—se ainda mais, como se o peso do mundo estivesse se concentrando todo diretamente sobre ele. — Morreu sozinho, agonizando, com dores terríveis. Ele foi traído. Não acreditei quando ele me deu o envelope e me disse para não compartilhar com ninguém, a menos que fosse uma emergência. — Então agora é uma emergência? — Eu imagino, sem dúvida, que a situação se qualifica como tal, Dru — Dylan virou de repente para a direita ao final da fila de estantes e seguiu até que a gente acabasse diante de uma porta pesada de madeira colocada na parede de pedras. — Pensei que daria isto a Christophe. Mas é provável que você o veja antes que eu. Se ele ainda estiver vivo — ganhei um olhar bizarro, seus olhos ficaram vagos. A ânsia de contar a ele que eu já tinha visto Christophe lutava com a cautela sensata de manter a boca fechada. Todo mundo estava mentindo, pelo amor de Deus. Dali a pouco eu ia descobrir que até Graves estava de sacanagem comigo. Não. Não ele. Você devia saber. Mas Graves estava numa boa, saindo com sua galera de lobisomens. A mim não pareciam maus garotos, só idiotas e agressivos. Opa, é assim que são os garotos. E se não era para ninguém saber que eu estava aqui, aonde isso levava? Dylan destrancou a porta com uma chave de ferro pesada. — Nós temos mais ou menos duas horas antes que Kruger assuma a vigília. Quero que você esteja de volta ao seu quarto antes disso. — Isso tem toda a cara de ser um plano — a sensação esquisita de rodopio tinha enchido meu peito de novo. Deus, queria que meu pai estivesse aqui. Ou o August. Ou até Christophe. Só mais alguém para lidar com isso.


Mandei esse pensamento para bem longe pela centésima vez e acompanhei Dylan porta adentro. *** Assisti ao pôr do sol esparramar cores laranjas e douradas pela janela do meu quarto. A pistola estava sobre o criado-mudo, cuidadosamente apontada para o ponto cego atrás da porta. Uma cópia da transcrição — três páginas e meia datilografadas em espaço simples — pousada obediente perto de meus pés descalços. A data e o horário escritos em formato militar; só de olhar eu já sabia. Tiras de números marchavam de um lado ao outro das duas pontas de cada página. O texto no centro dela era uniforme e estreito, formiguinhas pretas marchando sobre o papel branco. SFR12 —1: A informação está bem guardada. SFR—2: Isso não �� da sua conta. Onde ela está? Estamos preparados para pagar pela informação. SFR—1: Fique com seu dinheiro. Só quero essa cadela morta. SFR—2: Eu posso conseguir isso. Era da minha mãe que eles estavam falando. Discutindo na maior calma como iam assassiná-la, como se a morte dela fosse só mais um item de uma lista de supermercado. Também havia uma menção ao meu pai — "o marido". De mim, não diziam nada. Claro que, de acordo com a data, eu teria uns 5 anos de idade. Será que eu era o segredo da minha mãe? Apertei os olhos com tanta força que apareceram brilhos amarelos na escuridão por trás de minhas pálpebras. De todas, era a minha lembrança mais dolorosa, pior até que os olhos do meu pai, as partes brancas apodrecendo e a íris azul enevoada, enquanto seu corpo morto mastigava o ar e se arrastava em minha direção. 12

Special Forces Regiment, ou Regimento das Forças Especiais. (N.T.).


Essa lembrança repousava lá embaixo, num poço profundo dentro da minha cabeça, e arrastá-la fazia meu corpo todo estremecer só um tantinho: — Dru — ela diz, de um modo suave, mas apressado. — Levanta. Esfrego os olhos e bocejo. —Mamãe? Minha voz sai abafada. Às vezes, é a voz de uma criança de dois anos, às vezes, mais velha. Mas é sempre uma voz incerta, quieta e sonolenta. — Vem, Dru — ela abaixa as mãos e me apanha gemendo de leve. — Ufa! — Não consegue acreditar o quanto eu cresci. Sou uma garota grande agora, e não preciso que ela me carregue, mas estou tão cansada que não reclamo. Me aninho em seu calor e sinto a batida de seu coração, rápida como um beija-flor. — Amo você, meu nenê — sussurra em meu ouvido. Seu cheiro é de biscoitinhos saídos do forno e um perfume quente, e é aqui que o sonho começa a piorar. Porque escuto algo com jeito de passadas, ou de pulsação. No começo é calmo, mas vai aumentando e ficando mais rápido a cada batida. — Amo tanto você. — Mamãe... — coloco a cabeça no ombro dela. Sei que sou pesada, mas ela está me carregando, e quando ela me coloca no chão para abrir uma porta, eu reclamo só um pouquinho. E o andar de baixo, onde fica o closet. Como sei que é o andar de baixo é que não tenho certeza. Ela puxa alguma coisa no chão, e alguns de meus bichinhos de pelúcia foram socados em um buraco quadrado, junto a cobertores e um travesseiro da cama dela e do papai. Ela me apanha de novo e me coloca no buraco, e eu começo a sentir um leve pânico. — Mamãe? — Vamos brincar, Dru. Você se esconde aqui e espera o papai chegar do trabalho. Está tudo errado. As vezes eu me escondo no closet para assustar o papai, mas nunca no meio da noite. E nunca entro em um buraco no chão — um buraco que eu nem sabia que existia ali. — Não quero — respondo, e tento me levantar. — Dru — ela agarra meu braço, e dói um segundo antes que afrouxe a pressão. — É importante, nenê. E uma brincadeira especial. Se esconde no closet, e quando papai chegar em casa, ele vai te encontrar. Agora, fica deitada. Seja boazinha. Eu reclamo, choro um pouco. — Não quero.


Mas sou boazinha. Me acomodo no buraco, porque é escuro e quente, e estou cansada, e a sombra no rosto da mamãe fica mais escura. Somente seus olhos brilham, um azul radiante de verão, em vez do castanho suave risonho de costume. Ela me cobre com um cobertor e sorri para mim, até que fecho os olhos. Não demora muito para o sono chegar, mas enquanto desço, vou ouvindo alguma coisa e entendo que ela encaixou a tampa no buraco, e estou na escuridão. Mas tem o cheiro dela, e estou muito cansada. Escuto, muito fraco e muito longe, a porta do closet fechando, e algo arranhando. E pouco antes de o sonho acabar, ouço uma gargalhada longa, baixa e apavorante, como se alguém tentasse falar com a boca cheia de giletes, e sei que minha mãe está perto, em algum lugar, e está desesperada, e algo muito ruim está para acontecer. Meus olhos abriram com tudo. A luz do sol se despejava em uma torrente pela janela, atravessando as cortinas. As coisas não dão errado só uma vez. Dão muito errado e então explodem, e fica impossível arrumar tudo de novo. Se eu estivesse com o meu pai lá no extremo Sul agora, ou a gente estaria se preparando para sair e encarar alguma coisa — infestações de poltergeists, problemas com feitiços, baratas ou crocodilos sobrenaturais, você decide — ou ele ia estar se aprontando para sair e eu estaria fazendo o jantar, andando pela cozinha enquanto ele punha munição nos carregadores ou enchia frascos com água— benta, e às vezes jogava "Vinte Perguntas para Caçadores" comigo. Soltava as perguntas e eu respondia, em geral acertando. A cada resposta correta eu ganhava um sorriso e um Boa, Dru. Agora mais uma. A gente ia de Como você isola um poltergeist? Até Quais são as regras em um bar cheio de Outros? E se eu levasse mais de trinta segundos pensando, ele não deixava eu me atrapalhar. Já ia explicando. Não era como tantos outros por aí que se dizem professores. Diz aí, Dru. Diz em voz alta. — Não. Minha própria voz me apavorou. Aqui estava eu, sentada neste quarto, até que meio bonitinho, né, mas também tão frio e tão insensível, e sem a menor segurança. Dylan tinha acabado de me trazer de volta e me botado aqui com a pistola, a transcrição e uma advertência. Não confie em ninguém, Dru. Se formos atacados outra vez, esconda-se. Não permita


que ninguém saiba onde você se escondeu até ouvir os sons de que está tudo certo. Leve a arma com você e, pelo amor de Deus, mantenha-a escondida. E a questão central de toda essa coisa: a arma foi entregue pouco antes que ele fechasse minha porta. Vou tentar achar Christophe. Ele precisa saber que aqui é uma área restrita, e que os ataques de wampyr vêm aumentando. Temos de tirar você daqui. Lá estava eu, lançando uma distração para o outro canto do meu próprio cérebro. Diz aí, Dru. Você também pode. — Ele foi embora — sussurrei. Minha avó tinha me criado por um bom tempo, até que ela largou tudo e eu estava em queda livre naquele noite horrorosa antes que o meu pai aparecesse para assinar todos os documentos e me buscar. Não punha muita fé naquela "besteirada de caipiras", mas quando via sal derramado, ainda jogava um pouco por cima do ombro. Só um idiota não faria isso, quando a gente caça coisas que saltam do nada no meio da noite. E às vezes ele sacava umas coisas. Não ria quando falavam sobre intuição. E também nunca duvidou da minha. De verdade. — Ele morreu, de verdade — ficava ainda pior quando eu repetia. Como se eu tivesse acabado de compreender plenamente que não era um sonho, que eu não ia acordar e encontrá-lo na cozinha colocando as balas nos carregadores, ou em sua cadeira de campanha diante da TV, ou... Guiar com as janelas abertas e o atlas no meu colo, mostrando a ele a direção que precisava seguir, já era. Passar munição através de janelas quebradas enquanto coisas deslizavam e saltavam para cima dele, já era. Brincar de jogo de adivinhação, descobrindo contra qual parte do Mundo Real a gente estava lutando desta vez, já era. Ficar escutando a respiração de outra pessoa em uma casa no meio da noite, já era. Observá-lo afundado na sua cadeira na frente da televisão, já era. Suas panquecas especiais de sábado de manhã ou o telefonema de urgência, quando ele entrava derrubando a porta e dizendo Dru? Dru querida, você Está aí?, já era.


As noites com chili ou os braços calorosos ao redor do meu ombro, o conforto no meio da noite, quando eu acordava aos gritos — coisa que não acontecia com frequência até depois dos meus 14 anos, mas era gostoso saber que ele estava por lá, sabe como é? Pois é... já era! Ele tinha mesmo ido embora, de verdade, na real. Eu estava sozinha aqui, e o que eu pensava que fosse um lugar seguro ia se revelando um ninho de cobras. Como aquela lojinha em que havíamos passado antes de ir para a região de Dakota. A única com cascavéis e mocassino-boca-de-algodão em aquários de vidro, fedendo e fazendo aquele ruído horroroso de catraca. Os mocassinos também são do mal. Pulam para cima de você sem aviso. Batiam nos lados do aquário com pancadas secas o tempo todo em que eu estava lá, enquanto meu pai estava isolado com o dono. Será que ele tinha ido pegar o número do telefone de Christophe? O que mais tinha ido fazer? Esfreguei o rosto molhado. Odeio chorar. A cabeça fica cheia de idiotices e a cara toda dói. Dobrei a transcrição, deixando marcas de lágrimas pingadas nas bordas do papel. As malaika ainda estavam debaixo da minha cama. Bem perto delas, a carteira do meu pai e uma mancha de escuridão, que eu agarrei e puxei para fora. Era minha sacola preta de lona, ainda suja daquela confusão na neve da região de Dakota. Eu a tinha embrulhado com cuidado enquanto Graves e eu limpávamos a casa e Christophe estava ao telefone, discutindo com alguém sobre irem me pegar. Parecia que tinha sido há um século. Quando eu ainda pensava que as coisas podiam ser consertadas, talvez, se eu me empenhasse com bastante intensidade. A grana estava tanto na minha carteira quanto no espacinho debaixo da aba no fundo da sacola, uma espécie de compartimento secreto. Meu pai tinha me ensinado como costurar e usar aquilo. Documento de identidade, na carteira e debaixo da aba. Um carregador novinho com munição para a nove milímetros debaixo da aba. ChapStick13 , minha agenda do Yoda, um pente, duas canetas, um lenço, um par de calcinhas limpas e um sutiã, e uma barrinha 13

Espécie de condicionador labial, também usado para evitar lábios rachados, diferente de manteiga de cacau (N.T.).


de sabonete de hotel. Opa, a gente nunca sabe. O livro preto com os contatos do meu pai, porque pensei que seria uma boa ideia mantê—lo comigo. Mas se o August tinha desaparecido, para quem mais eu podia telefonar? E não era como se houvesse um telefone por aqui. Não tinha visto um nem no escritório do Dylan. Shanks tinha falado sobre telefonemas, só que eu não fazia ideia nem de onde arrumar uma linha no mundo exterior. Estava tão isolada quanto um prisioneiro. Bússola, um mapa rodoviário da Flórida e outro de Dakota do Norte e do Sul. Nenhum desses ia me ajudar em nada, mas a bússola podia ser útil. Uma mini lanterna — liguei e desliguei, verificando as pilhas adicionais. Ainda funcionava. Eram coisas boas para ter. Um analgésico potente, uma garrafinha de água-benta, garrafa com sal. Fiz deslizar o canivete em um dos bolsinhos costurados ao longo da parte de trás da sacola. Ele se agitou contra duas moedas grandes de prata e quatro ou cinco pregos de ferro. Bom, na verdade são de aço, mas o ferro que elas contém, as torna uma boa defesa contra todo tipo de coisa. Ressuscitados, determinadas aparições, fadas — você decide. Tremi só de pensar em fadas. Quem pensa que elas se resumem a asas e doçura devia rezar para nunca dar de cara com uma sidhe14 de mau humor e a habilidade de roubar anos da sua vida. E rezar para nunca escutar as trombetas de prata no período mais intenso da noite, ecoando pelas colinas, enquanto batidas de cascos chocalham em uma área abandonada de estrada e os Caçadores Fantasmas15 buscam uma vítima. Minha avó me disse para nunca, jamais me meter com fadas. Neste ponto eu mesma já estava me apavorando, mas era bom estar ocupada com alguma coisa. Planejando, em vez de só ser empurrada a tapa por aí fazendo as vontades dos outros. Eu podia preparar tudo isso até dormindo. 14

Palavra de origem gaélica (irlandesa ou escocesa), que se refere a um povo sobrenatural de espíritos da natureza vinculado às fadas, janas e elfos (N.T.). (Fonte: http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/sidhe) 15 Figuras do Folclore da Europa Central, trata-se de um grupo de caçadores sobrenturais que cavalgam pelos céus, pelo chão ou pouco acima deste (N.T.). (Fonte:http//em.winkipedia.org/wiki/wild_Hunt)


A carteira do meu pai ia no compartimento secreto debaixo da aba. Dobrei a transcrição mais uma vez e a enfiei dentro do livrinho preto do meu pai. Daí catei a nove milímetros e verifiquei mais uma vez o carregador. Era um hábito. Rasguei um pedaço de fronha da cama azul e embrulhei a pistola, assim não dava para apertar o gatilho sem querer. Coloquei a pistola embrulhada na sacola e desejei de verdade ter um coldre. Mas só desejando eu não ia conseguir nenhum. Vamos lá, Dru. Pensa. Pensa bem, e pensa depressa. Como o meu pai resolveria isso? Pense de forma lógica. Minha maquininha de lógica não andava funcionando muito bem de uns tempos para cá. Eu, porém, dava o melhor de mim. Anna quis me fazer achar que Christophe tinha traído minha mãe. Só que ele me salvou, daí isso não fazia lá muito sentido. Também pensou que eu era uma burra. Mostrar duas fotos da casa onde a gente morava no tempo do Antes não ia me fazer deixar de confiar em Christophe. A menos que... Algo estourou atrás dos meus olhos, meu cérebro, enfim, realizando algumas conexões. Ai, merda. Minhas mãos tremiam. Segurei uma delas. Até meus dedos chacoalhavam. Agarrei o medalhão com tudo e esfreguei forte com o polegar, como se eu pudesse polir até tirar o medo. Me mostrar duas fotos era inútil. A menos que ela quisesse descobrir o que eu me lembrava daquela casa. Ela ficou me observando com bastante cuidado enquanto tentava não olhar diretamente para mim. E por que cargas d’água ela viria até aqui sozinha, principalmente se era uma coisa tão perigosa para uma svetocha ? Guarda-costas e instrutores particulares, e aqui estava eu, trancada em um quarto, para que eles decidissem o que fazer comigo. Para que Anna decidisse? Ou para que Sergej decidisse? Fazia diferença? Bom, Dru, tem uma frase que se encaixa bem nisso. Que se dane! Quase define tudo. E quanto a Ash? E quanto a Christophe, que me pediu para esperar? Será que eu podia depender do retorno dele? Não importa. Você não pode ajudar nenhum deles se estiver morta. Neste momento é


a vez de Loirão ficar de vigília, mas assim que escurecer vai ser o horário da primeira aula do período e ele vai embora. Você vai ter uma chance. Mas chance de fazer o quê? O que eu poderia fazer? Não ia sair rastejando pelo telhado à noite. Ao menos eu sabia que Christophe estava vivo. Talvez a única pessoa que tinha certeza disso — e, mesmo assim, poderia acontecer qualquer coisa com ele nos próximos dias. E havia o fato de que Christophe podia estar me usando como isca. Tudo dentro de mim se ergueu e revolveu só de imaginar isso, porque todas as vezes em que eu pensava nele, sentia seu calor junto a mim e sentia um resquício de torta de maçã. Quem sabe eu devesse só ficar à espera dele para — Dru, você está confiando que outras pessoas vão salvá-la. Isso não vai dar certo. Deixei escapar uma respiração tremida. Dessa vez é com você. E quanto a Graves? Merda. E o único furo no meu plano. Mas se eu não estivesse por perto, será que ele correria tanto perigo assim? E ele estava contente por aqui, mesmo sendo um reformatório. Graves estava super bem, curtindo com seus amigos peludos. Seus amigos peludos que gostavam de me culpar por eu ter nascido. Deus do céu. Um grupo de sombras se movia por cima da janela à medida que o sol afundava, a luz adquirindo a moldura cor de mel dourado da melhor hora para captá-la, caso você consiga. Nunca me liguei muito em fotografia, mas lembro que eu desenhava com essa luz enquanto minha avó ficava na roda ou terminava o jantar, às vezes cantando daquele jeito uniforme e sem tom, em outras murmurando xinga mentos diante de uma canja de galinha ou sopa de legumes. Sinto saudade das duas coisas — a cantoria dela e o chiado com pancadas daquela roda de fiar velhíssima. Provavelmente estivesse largada sob um véu de pó no canto perto da lareira, bem onde ela havia deixado. Aquela casa, minha em termos de custódia, foi fechada de forma agradável e segura, e eu fiquei com as chaves no chaveiro — que, quem sabe, ainda estivesse na caminhonete que Christophe tinha escondido. Só que tinha outro chaveiro, que eu sabia exatamente onde estava. Em


uma caixa de metal enterrada sob o lado norte de um pedregulho grande de granito, um no qual minha avó despejava leite fresco a cada lua nova. Ela também trancava a porta em noites de lua nova. Sua casa era deixada em paz. Outro motivo pelo qual sempre me dá uns tremores quando penso em fadas. Não tem nada como esperar pela noite para deixar a gente nervosa de verdade. O plano revirava dentro da minha cabeça, e eu queria mesmo ter acesso a um carro. Qualquer carro. Como é que a comida chegava à escola? Quem cuidava da roupa suja? Era legal passar o tempo desejando olhar ao redor em vez de ficar passando o rodo aqui no quarto ou cabulando as aulas. Daí, mais uma vez, eu não ia ter pensado em nada que prestasse se ficasse assistindo as aulas, e agora eu ia. O povo estava empenhado em tentar evitar que eu aprendesse alguma coisa. Então... nada de carro, só eu. Havia uma estrada rural e isolada que ia descendo para longe da escola, indo se juntar com a rodovia municipal a uma bela distância daqui. Longe o suficiente para não ser vista do telhado da Schola. Duas faixas de asfalto inacabadas, com uma vala profunda de cada lado, que atravessavam as árvores e os campos que surgiam aqui e ali. Se unia bem ao norte do povoado para onde os lobisomens viviam correndo. Eu podia comprar um mapa por lá e... O quê? Você não conhece nada por ali, e qualquer um com quem você entrar em contato vai ser um ponto de interrogação. Se o August era parte da Ordem, quem sabe mais amigos do meu pai também fossem. E se o August sumiu, quem me garante que os outros também não vão, assim que você ligar para eles atrás de socorro? Minha cabeça doía tentando pensar em tudo isso. O primeiro passo, absolutamente essencial, era sair daqui. Tanto Graves quanto Christophe tinham deixado bem claro que, para os vampiros, era mais fácil me matar se eu estivesse longe da Schola. Só que, antes, eles iam ter de me encontrar. Levantei, deixei a sacola na cama. O que é que a gente veste quando está fugindo para salvar a vida? Um monte de roupas, botas, porque seus pés são


seu porto seguro e tênis são frágeis demais, e lã. A camisa de Graves tinha evaporado na lavanderia. Pensar nela me dava uma sensação engraçada. Parecia que eu tinha acabado de acordar depois de uma soneca de inverno demorada, mas não conseguia parar de tremer.


CAPÍTULO DEZENOVE

scureceu mais cedo, com nuvens escuras e pesadas chegando do noroeste. O céu ganhou uma cor azul metálica, e os trovões ribombaram ao longe. Nada de neblina se ergueu, e aquilo era bizarro. Tinha me acostumado ao lugar todo embrulhado em lã de algodão. O lugar parecia estranhamente nu, e eu não gostei daquilo. Também não gostava das nuvens. Elas não pareciam em ordem, uns lençóis espessos e escuros borbulhando cada vez mais baixo até que pareciam comprimir as copas das árvores de um jeito para lá de esquisito. Aquilo me lembrava o lençol cinza ferro do céu lá de Dakota, o dia em que eu fiquei frente a frente com Sergej. Um clima incomum. Um clima de vampiros. Fiquei parada perto da janela, esfregando o medalhão e observando as sombras se esticarem pelo jardim detonado lá embaixo. A Schola acordava, um zumbido subliminar pouco abaixo da superfície do silêncio. O mesmo de todas as outras noites. Só que nesta noite eu sentia frio, mesmo debaixo de três camadas de suéter, jeans e um par de botas quase novas. Tinha minha sacola, a alça aconchegada diagonalmente no meu corpo. Depois de pensar um pouco, coloquei o canivete no bolso esquerdo traseiro. Agora, se eu conseguisse ao menos puxá-lo — ou a pistola — quando alguém estivesse tentando me matar, eu já estaria preparada. Revi tudo mais uma vez na minha cabeça. Descer as escadas assim que o sinal para a primeira aula tocasse, atravessar os corredores rumo à noite. Agora era a minha oportunidade. Dei uma última olhada rápida no quarto, desde a pilha de roupas que eu tinha atirado na frente do closet até a cama amarrotada. Estava ficando


desleixada e não tomava cuidado com meu espaço. Com isso eu teria ouvido outro sermão do meu pai. Cristo. Eu estava sentindo saudade até dos sermões dele sobre Como deixar tudo limpo a fim de poder encontrar o que você precisa quando estiver sob fogo cerrado, Dru, e isso vai salvar sua pele. A solidão se ergueu em uma onda com gosto de ácido. Parei diante da porta, fechei os olhos e escutei, afrouxando o punho que minha avó havia me ensinado a fazer dentro da cabeça. Aquela sensação de apertar bem forte é necessária se você não quer terminar seus dias dizendo a coisa errada, ou repetir os pensamentos das pessoas de volta para elas. E tem mais, é difícil se concentrar em seus próprios assuntos se a gente está ocupada ouvindo os dos outros, como minha avó me dizia até ficar muito pê da vida. Minha avó era genial quanto a se concentrar nos próprios assuntos. Me pergunto como ela trataria desse assunto todo, e a saudade que senti dela foi uma pedra na garganta. Sem sombra de dúvida, havia uma sensação de presença na passagem do lado de fora do meu quarto. De repente, eu desejei ter subido e saído de novo pela janela; só de pensar em realizar isso tão próximo de escurecer, porém, me fez sentir os joelhos meio esquisitos. Uma vez só já chegava. Além disso, o motivo todo daquilo era sair antes que fosse uma emergência. Aguardei, mal respirando. A presença foi se afastando devagarinho, bem a tempo para o primeiro sinal. Ela fazia um sonzinho agudo e suave por toda a extensão dos corredores, abafado pela porta. Hora do café. Ou do jantar, dependendo do jeito que se encarava. Os garotos estariam acordando, se vestindo e indo até o refeitório. Respirei bem fundo, girei a maçaneta e dei um passo para fora, pisando no corredor. Vazio. O lugar todo fervilhava em silêncio. Impressão minha ou havia ali uma nota bizarra no fervilhar? Um quê febril? Impressão sua, Dru. Concentre-se no que você tem à sua frente. Ainda assim, eu hesitei. E quanto a Graves? Quanto mais longe você ficar dele, mais seguro ele provavelmente vai estar. Os lobisomens vão tomar conta dele. Mas não vão fazer porra nenhuma para ajudar você, assim, tira o teu da reta.


A porta fechou com um estalido atrás de mim. Dei dois passos e fiquei imóvel outra vez, porque um novo som vinha aos bocadinhos pelo ar. Era o sinal de Restrição, seus tons altos e pesados cortando o silêncio, feito faca quente na manteiga. Dava para dizer que também não era uma broca. A consciência do perigo me pinicou todinha com garrinhas de diamantes. A Schola respirou fundo, pegando equilíbrio, e assim que os tons da campainha iam morrendo ao longe, eu parti à toda pelo corredor, meu maxilar retesando e minhas mãos virando punhos. Jamais eu teria uma oportunidade melhor para escapar. *** Até os melhores planos têm seus furos. Meu planozinho lindo era chegar ao andar de baixo até as passagens que se cruzavam, onde eu podia virar a asa mais à direita e ter uma boa visão de uma galeria com portas dos dois lados. Metade dessas portas levava ao jardim do pátio; a outra abria para um parquinho de diversões caindo aos pedaços, com balanços e quadras para jogar queimada, enferrujando em silêncio. Daquele ponto eu tinha uma chance de chegar a uma faixa de arbustos, e uma vez lá... Bom, seja como for, eu não fui tão longe. Virei a asa mais à direita e, na mesma hora, minha cabeça badalou com passadas se aproximando. Alguém estava correndo, e cada passo pousava forte demais para um ser humano. Andei de costas, virei, saí à toda, como um jogador atrás da bola, dei a volta numa esquina, retornando ao corredor que tinha acabado de deixar, e, desesperada, fui atrás de proteção. Nada. Piso com carpete, iluminação industrial, paredes nuas. Salas de aula trancadas e vazias em ambos os lados, outras passagens se abrindo na direção do refeitório, dois armários de zelador. Armários de zelador. Maravilha. Um estava trancado. O outro não, e eu me atirei para dentro, puxei a porta e agachei no escuro. Meu quadril bateu em algo metálico; agarrei e evitei sua queda. Era um balde de metal. Deixei escapar o ar suavemente, me encolhendo, e torci para que estivessem fazendo


barulho demais para me ouvir. As passadas corriam em marcha, sons pesados de metal, tipo mastros de ferro batendo em terra congelada. O gosto de sangue enferrujado e laranjas de cera explodiu pela minha língua num fluxo de podridão, e aqueles lugares esquisitos no fundo do céu da minha boca se abriram feito flores. Meus dentes doíam, e até a pressão da minha língua e meus lábios sobre eles machucava. Pequenos espinhos frios largaram em disparada por meus braços e minhas pernas. Os passos iam com muita velocidade, e eu estremeci quando ecoaram na escada espiral que subia para dentro da sala da torre. O segredo já era. Agora já sabiam que eu estava aqui. Um vampiro que se feriu da última vez tinha escapado para avisar Sergej, ou o traidor havia conseguido contar que eu estava aqui, em um lindo quarto azul, toda embrulhadinha que nem uma refeição congelada numa folha de alumínio. Merda. Eu... Merda. O tremor me pegou pelo cangote como se eu fosse um filhotinho, me atirando para trás e para frente. Algo envergou na minha mão esquerda, o troço meEstálico que eu tinha acertado quando me agachava fazia um som bizarro à medida que dobrava. Vão subir até o teu quarto, disse a voz do meu pai dentro da minha cabeça, sem dó. Corre daqui, menina! Deslizei para fora do armário com as pernas moles feito macarrão, fechei do jeito mais silencioso que podia e me mandei para o corredor o mais veloz que meus músculos, embora protestando, permitiam. Tudo dentro de mim queria voltar e se encolher no escuro, esperando que alguém me achasse. Isso é frescura, Dru. Se mexe. Rumo ao lado do corredor, virei com tudo à direita. Havia minha opção de seguir a próxima parte do plano, e eu apostei nela, bem mais rápido do que eu achei que seria capaz. Minhas botas faziam um som esquisito de arranhar no carpete curto, enquanto eu corria no maior pau para dentro da galeria. Agora a escuridão pressionava as janelas e as partes de vidro da porta, e eu esqueci que seria nitidamente visível a qualquer um que estivesse olhando de fora. Merda. Merdamerdamerda! Nada de socorro por enquanto, nada a fazer,


além de seguir direto até a porta que eu tinha escolhido e torcer para que ninguém estivesse observando. Talvez todo mundo estivesse ocupado demais com... Um sobressalto enorme e esmagador sacudiu tudo em volta de mim. O tecido da Schola ondulou como um lençol de cama que levou um belo chacoalhão, e o vidro se rompeu, tinindo com graça, um chuveiro de neve cristalina. Isso chegou a tirar o chão dos meus pés, de verdade, me atirando para dentro de um lado do corredor, diretamente contra o revestimento de pedra. Meu ombro queimou com uma dor fortíssima; abri o berreiro e isso também foi bom. Porque, logo em seguida, a gritaria começou, eu me embolei na parede com a cabeça entre as mãos, tentando abafar. O barulho prosseguiu, raspando a parte interna e sensível do meu crânio sem dar tempo para respirar. Coloquei as mãos em concha sobre os ouvidos, em vão, e também gritei. O ódio explodiu entre os meus olhos, medo e dor estilhaçando fogos de artifício luminosos por todo o meu sistema nervoso. Foi uma briga para me puxar de novo para dentro de mim mesma. Um fiapo fino de alguma coisa quente pingou do meu nariz, acariciando meu lábio inferior com um dedinho úmido. Meti a língua sem pensar, e um gosto morno de cobre revestiu o interior da minha boca e despertou o apetite. Meus dentes doeram, uma dor aguda e penetrante. Duas agulhadas tocaram meu lábio inferior, e me empurrei para frente, sobre as mãos e os joelhos, rastejando. Lá fora. Vá lá para fora. O apetite por sangue me incendiou, mas também atirou longe a gritaria dentro da minha cabeça, dando-me a chance de criar o punho novamente. A mais pura aversão àquele som dilacerava minha pele, esfregando-a como uma escova de aço. Vidro quebrado se espalhava pelo chão. Levantei tropeçando enquanto o ar frio se derramava pelo corredor aos uivos. Acertei a porta em um emaranhado alucinado de braços e pernas e mergulhei num banho de ar gélido. Fazia uma noite iluminada, as estrelas surgindo em pontinhos fixos de diamantes, uma luz inútil, e eu parti com tudo até o parquinho de diversões o mais rápido que eu conseguia ir tropeçando. Os balanços que não estavam quebrados se moviam suaves, para trás e para frente, e as solas das minhas botas estapeavam o concreto despedaçado.


A gritaria atrás de mim acabou, e outro grito inexpressivo repartiu o ar, vindo do outro lado da Schola. Foi então que eu me liguei que o lugar todo estava com uma iluminação brilhante demais para ser noite, e quando bati os olhos por cima do meu ombro, descobri o porquê. A Schola estava em chamas. Não dá para imaginar que exista muito para queimar numa construção de pedra, mas labaredas amarelas e bagunçadas, com fios azuis no meio delas, saltavam e rastejavam pelos torreões, brilhando através de janelas quebradas, transformando a noite em sombras tremidas. Aquelas labaredas estavam erradas, e o ódio estalando e crepitando nelas me dizia o que eu precisava saber — que era um fogo com base em nosferat. Não havia nada de natural com aquelas chamas, assim como não existe nada de natural em chupa-sangue. O incêndio atenuou para um laranja comum sem filamentos azuis nas beiradas. Isso, porém, não o deixava menos assustador. Uau. Fiquei admirando. Se isso aí atingir a biblioteca, é improvável que a gente vá estudar depois dessa. Puta que pariu. Outra explosão esmagadora chacoalhou o prédio, e eu escutei mais gritos. Desta vez eram vozes jovens e humanas. Bom, a maior parte delas. Humanas bem lá no fundinho, e com uns rosnados. Ai, não. Dei uma freada escorregadia. Ai, merda, não. Porra. Não, não, não. Tinha garotos lá dentro. Eu os conhecia. Cody, Shanks, Dibs e... E, meu Deus do céu, Graves estava lá dentro, e a coisa queimando. Mantenha o plano, Dru. É um bom plano e vai deixar você viver. Fiquei plantada ali por alguns instantes, doente de indecisão, as agulhadas no lábio inferior cada vez mais definidas, enquanto metade de mim se ardia toda para correr em disparada até a faixa de arbustos na beira do parquinho. A outra metade me dizia, de um jeito bem específico, curto e grosso, para dar meia—volta e vasculhar o lugar todo até achar Graves. Eu tinha uma arma e um carregador a mais, e uma faca. Isso tinha de bastar. Mas... Sem "mas"! Desta vez era a voz da minha avó, falando alto e claro. Você pode se meter lá dentro e achar esse garoto. Ele nunca iria deixar você para trás! Não iria. Eu sabia que não. Mas eu não tinha planejando fazer exatamente isso com ele?


Ele já te deixou para trás! Está sempre brincando com seus ami guinhos felpudos e felizes. Vai nessa, Dru! Havia uma briga dentro de mim, entre as duas vozes, e eu não fazia ideia de quem ia vencer. O idiota do meu corpo, entretanto, deu meia-volta e começou a correr direto rumo ao prédio em chamas e para a morte certa. O porquê, eu não sei. Sério.


CAPÍTULO VINTE

u corria em paralelo com a lateral da galeria. Ele devia estar no refeitório ou nos dormitórios; ainda não era o período de aulas. Assim, se ele... Outro som enorme, de coisa rasgando. Jesus. Será que trouxeram dinamite sobrenatural para detonar com o lugar inteiro? Um troço cheio de chamas azuis caiu, acertando o chão a menos de um metro de distância e chiando como uma cascavel. Saltei para trás e descobri que tinha parado de tremer. Estava ocupada demais, e ali era quente demais. O suor brotava na curva no fim da espinha e nas minhas axilas. Era como ficar parada diante de um forno: o calor irradiava em todas as direções. O medalhão da minha mãe era uma lasca de gelo na minha pele. Dei a volta na esquina do prédio, saltei sobre mais uns destroços queimando e sibilando, e resolvi que talvez eu não devesse correr tão perto da parede. Formas voavam feito tinta molhada sobre o grande gramado diante da escola, a passagem de carros ampla e circular pintada com sombras saltitantes e uma luz laranja berrante. Os leões de concreto que vigiavam a entrada para a passagem de carros pareciam mudar de posição, erguendo as cabeças e mostrando os dentes assim que eu freei numa escorregada. Meus calcanhares fincaram no chão, e eu encarei a cena com o queixo caindo. Aquilo era uma zona de guerra. A área pavimentada, ampla e circular estava tomada de silhuetas peludas e recurvadas. Os lobisomens saltavam e circulavam, equipes mudando de pele para entrar com tudo, formas escuras se agrupando com olhos brilhantes e velocidade inumana. Também havia djamphir, uma linha de defesa na frente dos enormes degraus, com os quais eu briguei desde o dia em que chegamos.


Um deles tinha lâminas esguias e compridas que não brilhavam na luz. Um deles portava as espadas de madeira. Malaika. Era Loirão, seus cachos faiscando na luz trêmula, conforme erguia o queixo e gritava qualquer coisa. Os djamphir forneciam seu peso coletivo. Meus joelhos ficaram espremidos. Não conseguia ver Graves, e balancei feito bêbada por um instante. Outra explosão rasgou o ar, e de repente a brisa mudou de direção. Uma fumaça grossa perambulou pelo espaço aberto, passando em zigue-zague entre as formas imóveis e móveis como dedos que investigavam. Os lobisomens recuavam, retrocediam, e os djamphir na linha de defesa se agruparam um pouquinho. Era uma confusão, tudo se mexendo rápido demais, e eu vacilava, sem saber o que fazer. Meu pai nunca disse nada sobre investir em uma batalha já começada. Eu ainda estava parada lá feito uma idiota, olhando perplexa aquele caos, quando outro uivo sobrenatural repartiu a noite atrás de mim. Uma lufada de ar tocou a minha nuca debaixo da minha trança, e girei, me atirando para o lado e para baixo. Mais uma vez o mundo desacelerou, e desta vez eu senti, mesmo, o músculo dentro da minha cabeça se flexionar para envolver tudo em embalagem de plástico. Doeu um pouquinho, como quando a gente força uma coisa e não diminui o ritmo o bastante para deixar sarar. O lobisomem pairava sobre mim, a luz do incêndio soltando faíscas na faixa branca abaixo de um dos lados de sua cabeça. Todo o meu fôlego saiu de mim de uma só vez — VUUUSH! — e eu rolei, os pedregulhos raspando as costas do meu suéter. A luz do incêndio se torcia de formas bizarras, refletindo ao seu redor, e ele aterrissou, raspando o chão assim que percebi que ele não tinha mirado em mim. Ai, bosta. Me levantei aos tropeções, os dedos da mão direita remexendo na aba da minha sacola. Era hora de puxar a arma dali, porque todo mundo que estava brigando na frente da escola tinha visto a gente. Ash se curvou diante de mim, rosnando. Linhas de saliva pingavam conforme ele fechava os dentes brancos, duas vezes, num estalido. Deixei escapar uma engasgada, meus pés ameaçando se enroscar conforme eu andava para trás com uma pressa desgraçada.


Ele estalou outra vez o maxilar, e o brilho enlouquecido em seus olhos era como a luz sobrenatural do incêndio. Outra explosão sacudiu a escola, e a parede mais próxima de mim começou a esmigalhar. O barulho era monstruoso, Ash deu um arranque para frente, uns dois passos. Soltei um "quase grito" novamente e recuei, percebi que ele não estava atacando. Só estava estalando o maxilar para mim, feito um sheepdog16. Tomando conta de mim. E quando olhei para cima, pude adivinhar o porquê. Porque cada um dos vampiros que tinham tentado entrar pela porta da frente da escola estavam agora olhando para mim. O fogo os iluminava a todos em um estado bizarro de inatividade, formas de lobisomens fazendo malabarismos no ar, os djamphir sobre os degraus — vi o queixo de Kruger caindo — todos me encarando, pasmos, em várias expressões de terror. — Svetosssssssssssha! — o grito se ergueu sobre o vento noturno, e seus rostos borravam, transformando-se em caricaturas de ódio e dentes afiados — Svetosssssssssssha! Ai merda. O nosferat saltou e girou de uma só vez, borrando em minha direção. Ash mergulhou outra vez, em desespero, a faixa branca em sua cabeça deixando uma trilha de borrão, como uma vela agitada no escuro. Aquilo foi um chacoalhão que me tirou do choque, e eu rodopiei, minha trança fazendo um arco no espaço e, mais uma vez, parti à toda ao redor da lateral da escola em chamas. Não ia conseguir, eu já sabia que não ia. Estava mais do que claro agora por que estavam atacando a escola. E agora, novamente, eu estava correndo para salvar minha vida. Pouco antes de eu ter alcançado a esquina, ouvi os gritos atrás de mim — eram dos lobisomens, crescendo apavorantes e inexpressivos, dos djamphir, um lamento estridente e penetrante, e o dos vampiros, um grito bizarro e mortal se infiltrando no cérebro como lascas de cristal. Todos criavam uma harmonia tripla, e se a gente gravasse esse som, era capaz de parar o coração de alguém só tocando num volume alto o suficiente. O medalhão se agitava entre meus seios, preso em uma dobra de roupa, e tão gelado que me espetava. 16

Raça de cão pastor britânico, cujos exemplares mais famosos são Priscilla, da TV Colosso, e Digby, do filme Digby, O Maior Cão do Mundo (N.T.).


Meus dentes se enchiam de dor, e se eu tivesse fôlego o bastante, também teria gritado. Não havia tempo para aquilo, porque as pisadas atrás de mim chacoalhavam a terra, daí eu fiz a única coisa que poderia. Não era lá uma grande ideia, mas era tudo o que eu tinha. Corri em paralelo com a lateral da escola, os punhos latejando e a sacola estapeando minha cintura, e assim que a galeria ia crescendo à minha frente, eu atravessei o maior buraco que consegui encontrar, me prendi o melhor que pude e me atirei para diante, em direção àquelas chamas sobrenaturais. *** Chamas. Fumaças sufocando o ar. Alcancei o fim do corredor e caí com as mãos e os joelhos, me arrastando para frente dentro de um borrão. Vidros faiscantes esmagados sob meus joelhos protegidos pelo jeans, e eu torci para que minhas mãos não estivessem a ponto de esfolar. Minha boca tinha sabor de cera e laranjas podres. Cuspi e escutei um sibilado. O calor parecia óleo, minha pele tensa e brilhante. O incêndio ficou ainda mais esquisito — fios azuis no meio de chamas laranja, rastejando pelas muralhas de pedra como nervos e se espalhando pelo calor. Mesmo assim, um círculo cor de laranja se movia comigo, o azul das labaredas desaparecendo à medida que elas se ajeitavam. Gritaria atrás de mim. Se você nunca ouviu um vampiro morrendo em batalha, pode se considerar uma pessoa de sorte. Eles não se limitam a gritar com a boca — o som continua, continua e entra na sua cabeça, ricocheteando no interior do seu crânio e se entocando por baixo da sua sanidade até você mesmo querer gritar, até a borda do mundo se descascar e você sentir as coisas perversas que repousam por baixo da consciência desperta e normal. Corri aos tropeções pela galeria em chamas, o carpete derretendo por baixo e se enfiando em meus dedos, até eu me atirar contra outra porta quebrada para dentro do jardim do pátio. Foi puro instinto, uma corrente de ar mais gelado me puxando para fora. Tosses, golfadas. Corri tropeçando para o meio do jardim. A fumaça era expelida aos montes. Coisas queimando caíam feito meteoros se estraçalhando


contra o chão. Bom, Dru, esta não foi a sua melhor ideia. Quase me atirei de cabeça na trilha de cascalho, lancei depressa um olhar aterrorizado por cima do ombro. Havia uma parede de labaredas cor de laranja e fumaça negra, só que ainda sem vampiros. Seu entusiasmo ensopava o ar, alimentando as chamas. Era ódio puro, rolando em agonia e mantido ardente, tal como a própria Schola. Tentei evitar que o barulho me dominasse outra vez, não consegui, engasguei e sufoquei, e tentei novamente enquanto rastejava. Aqui fora os arbustos também queimavam. Consegui chegar ao centro do pátio — havia bancos de pedra com estrados de madeira, a tinta delas soltando fumaça. Me encolhi o mais que pude, joelhos para cima, as costas apoiadas contra as pernas de um banco. Fucei minha sacola, tirei a arma, e as lágrimas escorrendo por meu rosto não eram por dor nem por medo. Era a fumaça se arrastando em torno de mim, dedos grossos e oleosos que apertavam atrás dos meus olhos. A tosse me sacudia em acessos bem violentos. Achei que ia conseguir invadir a galeria e quem sabe encontrar uma parte da escola sem chamas onde me esconder. Agora eu estava numa armadilha. Os vampiros não podiam entrar e me pegar, mas o fogo talvez fizesse o trabalho por eles. Ainda assim, eu preferia ser assada viva do que rasgada em tiras por chupa-sangues. Ou não? Respirar estava ficando difícil, muito difícil. Me curvei ainda mais para baixo, tentando apanhar ar respirável perto do chão. O medalhão ainda estava estranhamente frio e zumbindo contra meu peito. Vapores se erguiam do meu suéter, e a tinta soltando fumaça no banco também não era "aquela" alegria, acrescentando um tom bizarro e sarcástico ao vapor espesso. Um botão de rosa parecendo morto em um canto do pátio desabrochava em chamas. Ah, que ótimo. Fiquei encarando os galhos secos, finos e cheios de espinhos, que agora ganhavam vida com as flores cor de laranja rastejantes, chiando e crepitando. A arma tinha ido mais para o fundo. Tudo virou uma muralha de chamas, e eu estava começando a me sentir zonza. — DRUUUUUUUUUUU! — um uivo extremamente prolongado. Não


reconheci a voz que sacudiu o fluxo de labaredas. Agora eu tossia com mais frequência, engasgando com a fumaça. Tudo ia ficando borrado, os fios azuis fazendo zigue—zagues pela pedra do pátio, pressionando o círculo laranja ao meu redor. O banco estava ficando muito quente, pelando, e de repente tive uma visão mental terrível da arma explodindo na minha mão. Tem como isso acontecer com munição, se ela esquentar muito. Meu pai tinha me dito isso. De verdade, não foi a sua melhor ideia, Dru, pensei, pouco antes de deslizar por cima de um dos lados, meus dedos latejando na arma. Uma mancha negra se dilatava em meio às labaredas: — DRUUUUU! Tossi mais uma vez, limpando meus pulmões. Não havia o que respirar; só havia fumaça. Uma cerração enchia meus olhos. Tinha alguém xingando direto. Pelo menos, parecia xingamento, mas as palavras estavam reunidas de modo engraçado. Tinham jeito de outra língua. Dedos morderam meu ombro, e eu fui arrastada dali. Lutei sem forças, a arma se afrouxando de meus dedos. Alguma coisa se comprimia contra minha bochecha, torrões pequenos e duros, e algo mais suave. Então, o movimento. O mundo aos poucos diminuía debaixo de mim. Caindo. Trepidação por todo meu corpo. Vidros estilhaçando e um urro, e eu estava em chamas, ardendo, a carne quebradiça e descascando antes que a gente surgisse, do nada, num ar mais gelado. Rolamos, o vapor se erguendo em ondas, um sibilado e um grito de dor. Então, mais confusão ainda. — Traz essa merda desse oxigênio! — gritaram. Mãos me agarravam, e eu reagia ferozmente, tossindo e golfando à medida que me defendia com punhos e pés. — Calma aí! — outro berro, e esse eu reconheci. — Cacete, Dru, a gente está tentando ajudar! Graves? Tentei dizer o nome dele, engasguei, tentei de novo. Meus olhos não funcionavam direito. Minha pele, ainda ardendo, e eu esperneei outra vez, sacudindo os braços e as pernas enquanto tentava respirar. Foi meu esforço final. Toda a briga simplesmente jorrou para fora de mim. Algo molhado e frio limpou minha cara. A sensação era boa. Mais tosse. Me viraram de lado, eu me engasguei numa massa grossa de


remela de nariz e catarro que ardia. Alguém pegou minha cabeça, algo foi enfiado no meu nariz e uma enxurrada de qualquer coisa gelada acertou a queimação nos meus pulmões. Desabei outra vez sobre o chão frio e duro, a grama molhada se intrometia entre minhas mãos. Meus braços e pernas se recusavam a funcionar como deveriam. Alguém colocou os braços em volta de mim, e eu pisquei, um troço arenoso enchendo meus olhos, e as lágrimas caíam em enxurrada. — Jesus Cristo — sussurrava Graves, a voz entrecortada. Tinha mais gente tossindo e xingando. Ouvi um estouro e um rosnado. — Deixa ele em paz, foi ele que arrastou ela pra fora de lá! Deixa ele em paz! As três últimas palavras atingiram aquele tom de trovão ribombando sob a superfície outra vez, e o barulho diminuía, menos o rugido do incêndio. — Vou cuidar do oxigênio — ouvi Dibs dizer. — Coloca no máximo que der. Ela está quase roxa de falta de ar. — Nunca tinha visto uma Incendiária antes. Pensei que tinham morrido anos atrás — alguém tossiu, um som profundo e excessivo. — Bom, acharam uma — era Shanks. Mal reconheci a voz dele sem o deboche. — Acho que precisavam, com uma svetocha por aqui. Jesus. — Você está na minha frente — Dibs tinha perdido aquele tom guinchado e assustado; sua voz demonstrava tranquilidade e profissionalismo. — Dá isso aqui, você não é médico. — Consegue levá-la? — Shanks parecia morto de cansaço. — Eles vão voltar assim que se reagruparem. — Eu levo — respondeu Graves, bem serião — Você está legal? — Já tive dias melhores. — Shanks tossiu com fraqueza — Vou ficar bem. Vem. — E ele? — perguntaram — Ele é um deles. — Traz aqui — disse Graves na hora. Parecia que estava se acostumando com o esquema de responder às perguntas. — Se a gente largar ele aqui, os caras vão matá-lo. Vamos embora. Daí me arrastaram. Eu estava ocupada demais, respirando, para ligar para aquilo. Bendito ar gelado que tocava meu rosto sujo de fuligem, e meus pés riscavam o chão inutilmente. Fiquei piscando, torcendo para minha visão


voltar. O mundo inteiro era preto com manchas cinzentas. Minha cabeça balançava, como se eu estivesse embriagada. — Está tudo bem com ela? — uma voz raspada e áspera, que eu deveria ter reconhecido. — Está? Engasguei, cuspi outra gosma. O troço se espatifava bem devagar. Bleeeergh! Que nojo! A canção de dor que todo meu corpo tinha se tornado subiu para outro nível, um coral de músculos repuxados e pele ainda ardendo. Não conseguia sentir o medalhão da minha mãe, e isso me incomodou, mas tinha outras coisas para me preocupar, até que o enjoo acalmou um pouquinho. — Ela está ótima. Talvez meio atordoada — Graves demonstrava preocupação. Agora estavam me empurrando e arrastando também, um de meus braços por cima do ombro de alguém, o outro por cima de um terceiro. Eu balançava entre os dois feito um espantalho. — Pelo menos ela ainda está respirando. — Deixem-me vê-la. Deixem-me vê-la — passos arrastados. O movimento parou de repente, e alguém emitiu um som agudo, de dor. Um toque leve como pluma por minha testa, grãos arranhando suaves contra a pele. — Deus do céu, dziekuje. Obrigado! — Dá para gente continuar? — Shanks parecia irritado — Eu ia odiar, de verdade, ter de lutar outra batalha já iniciada contra tropas de choque de vampiros e uma Incendiária. — Provavelmente estabeleceram uma faixa — a voz áspera era bem conhecida, só que eu não conseguia localizar. — Temos água? Shanks suspirou, de verdade, como quem tinha sido desrespeitado. — Dylan fugiu para o oeste. Eles estão indo rápido e fazendo barulho para nos distrair. Vamos embora — um som de água chacoalhando. — Bebe enquanto a gente corre. Você consegue acompanhar? — No dia em que eu não conseguir, aposento minhas espadas. Enfim me liguei de quem era a voz áspera e amarga. Meu coração saltava dentro do peito. Precisei tossir e cuspir antes que pudesse falar com uma voz arranhada. — Christophe? A palavra era uma casca de si mesma, deixando cicatrizes na minha


garganta. Você voltou. Um alívio intenso guerreava com o fato de que eu, sincera e honestamente, não estava me sentindo lá muito bem. A pessoa que estava me segurando em pé ficou um tantinho firme. — Bem aqui, malutka17 — tossiu de novo, um sofrimento profundo que encerrou em um aperto. — Continue respirando. Nós vamos lidar com o resto. Ele parecia mesmo seguro. — Eu pr—pr—pr — meus lábios se recusavam a me obedecer. Meu cérebro todo estava zuado. Tanta coisa para contar a ele. E tanto a perguntar. Mas ele tinha voltado. Por mim. — Mais tarde, moj maly ptaszku18. Mais tarde. Por ora, concentre-se em respirar. Houve uma crepitação no matagal. Começamos a nos mover de novo. — Seu anjo da guarda está aqui, Dru. Não tenha medo.

17 18

Do polonês, “pequenina” (N.T.). Do Polonês, “meu passarinho” (N.T.).


CAPÍTULO VINTE E UM

inha visão voltava pouco a pouco, e um tiquinho só mais tarde eu já conseguia andar. O troço que enfiaram no meu nariz era um tubo para limpeza acoplado a um cilindro de oxigênio suspenso sobre o ombro de Dibs, que me dava apoio pelo meu lado esquerdo. Graves ficava à minha direita, o cabelo muito bagunçado e o casaco chamuscado. O lado direito do rosto estava tingido de sangue e seu maxilar estava firme. Meu coração queria explodir. Meu braço ficou tenso, e Graves me olhou de lado. — Oba — disse, tranquilo. — E aí, criança? Minha boca estava repleta de veneno. Cuspi outra vez para limpar, e Dibs deu uma risadinha, um som alto e nervoso. — Maravilha — arrisquei. — O que aconteceu? — Virou tudo um inferno só — Graves mal olhava para onde ia. As árvores nos comprimiam muito de perto, a noite parecia uma toalha de rosto ensopada nos olhos da gente. Eu não estava cega; o lugar que era escuro. A escuridão típica do interior. Havia uma sensação de movimentos sorrateiros, e os brilhos e as luzes dos olhos em volta de mim me diziam que eu me encontrava no centro de um grupo de lobisomens. — Eles entraram na escola. Tinha uma vampira de cabelo vermelho. Bastava ela olhar para as coisas e elas começavam a explodir. Shanks e Dylan... — Economize seu fôlego — a voz áspera de Christophe chegava. — Ainda não estamos livres. — Christophe? — eu precisava saber. — Onde você estava? Eu pensei... — Por aí, por aqui e por perto. Agora, fique quieta — não se preocupou


em adoçar o comando, mas depois seu tom de voz suavizou. — Parece que você sente prazer em fazer o que é pior e mais perigoso. Tente se conter por um dia ou dois, hein? Só estou tentando ficar viva, Christophe. Valeu? Queria poder baixar a cabeça no ombro de Graves, empenhado em colocar um pé na frente do outro. Eu caminhava aos tropeções, com passos para frente e para o lado. O oxigênio era bom e esfriava o ardido na minha garganta. Meus dentes não doíam mais. Tanto. Minha cabeça caiu para frente. Suspirei. Tossi outra vez, tentando fazer isso em silêncio. Rolou uma pausa, todos os lobisomens parando de uma vez só. Um uivo se ergueu ao longe. Vampiro. O ódio por aquilo arranhou dentro do meu cérebro, o gosto de laranjas de cera na língua sobre a sujeira, e descobri que estava tremendo novamente. Não tinha energia para bloquear aquela sensação. — Que o Céu e o Inferno te amaldiçoem — disse Christophe em voz baixa, mas com uma frieza nas palavras que transformava a escuridão em um perigo. — Merda — Shanks parecia reforçar aquela emoção. — Vamos acelerar aí, galera. — O que aconteceu? — sussurrei. Graves apenas sacudiu a cabeça. Seu braço apertou em volta de mim, como se quisesse me afastar de Dibs. O lobisomem pequeno e loiro também tremia. Não dava para saber se eu o fazia estremecer ou se ele estava tão apavorado quanto eu. — Alguém acabou de morrer. Vamos torcer para que tenha sido a Incendiária; ela seria um alvo de alta prioridade. Sem ela, os nosferatu são apenas perigosos, não superiores — Christophe disse suavemente. — Limite-se a respirar, Dru. Temos outro tanque de oxigênio? — Só aquele — Shanks se afastou. Todos deslizavam em silêncio pela floresta. Meus olhos faziam coisas engraçadas; por um instante penetravam as trevas e me mostravam formas em movimento, varas e a textura das cascas. Meus dentes deram um estouro repentino de dor; então a escuridão voltava. Tudo aquilo que não consegui perguntar rodopiava dentro da minha


cabeça. Meu braço direito ficava tenso sobre os ombros de Graves. — Pensei que você estava lá dentro — minha voz era um coaxado áspero. — Deus. — Foi por isso que você correu para dentro de um prédio em chamas? — parecia escandalizado. Vai entender. Pensei que eu ia conseguir arrancar os vampiros do meu caminho. Era difícil demais explicar, e eu não tinha fôlego para isso. Mesmo assim, tentei. — Bom, é isso aí. Isso e... — Silêncio — Christophe era uma sombra mais profunda, os olhos brilhando um azul muito bizarro. A maioria dos olhos dos lobisomens só emitia faíscas embaçadas. Os de Shank eram amarelos, mesmo, e eu conseguia adivinhar quando Graves piscava porque as faíscas verdes perto de mim desapareciam por um instante e meu coração parava de bater de novo. A movimentação se deteve de repente. Todos ficaram imóveis. Me apoiei em Graves. A mão dele, com os dedos afastados sobre minhas costelas machucadas no meu lado esquerdo, ficou um tiquinho tensa. Tentei não respirar fazendo tanto barulho. O cilindro de oxigênio soltava um sonzinho, e eu estremeci. Dibs e eu tremíamos em conjunto, meus dentes cerrados para deter suas batidas. Pequenos ruídos enchiam o bosque à nossa volta. Não sabia distinguir se era a cacofonia normal das árvores à noite — porque raramente faz silêncio no interior — ou se era outra coisa. Me senti bem pequenininha, e muito envergonhada no meio dos lobisomens. — Precisamos nos proteger — disse Shanks, só mexendo os lábios. Inclinou—se em direção à silhueta que era Christophe, os olhos dos dois brilhando um para o outro. — Você ficou muito esgotado? Christophe piscou devagar e de propósito. O brilho azul de seus olhos voltou, fixo em mim. — E eu pensando que tinha conseguido enganá-lo. Um movimento que podia ser de ombros encolhendo. — Eu não quero morrer. E eu sou responsável por eles. — Verdade — aquela única palavra tinha pontas afiadas. — Eu vou ter de beber.


As quatro outras caíram como uma pedra em uma piscina transparente e sumiram sem deixar vestígio. Uma tragada de ar, cortante e coletiva, rolou entre os lobisomens. — Espera um segundo — Graves dava a impressão de que se sentia mal com aquilo. Tentei manter a cabeça erguida. Ela caiu para frente. Os cachos tinham saído da minha trança e balançavam na frente do meu rosto. — Do que é que a gente está falando aqui? Shanks nem se preocupou em ouvir. — Você não pode tirar de mim. Então sou eu ou... Alguém se deslocou com gestos suaves. Graves engoliu o ar depressa e, do nada, Christophe estava bem na minha frente. — Dru — disse ele com doçura. A mágoa tinha abandonado sua voz. — Preciso da sua ajuda. Engoli em seco. Minha garganta estava cheia de ácido fumacento. — Sim, claro. O quê? Christophe se aproximou mais, mas não tanto quanto da outra vez. Mesmo assim, eu conseguia sentir o coração dele. — Dê-me a sua mão. — Ah, essa não! — Graves acomodou o peso do corpo, como se fosse me puxar para trás e para longe. Fiquei ali onde estava, enterrando os pés no solo. — Que é que você vai fazer? — Preciso pegar algo que é seu emprestado. Vai voltar, eu prometo. Vai salvar a todos nós — aqueles olhos azuis sustentavam os meus, brilhando na escuridão. Impressão minha ou eles não eram tão frios quanto costumavam ser? Ele também cheirava à fumaça, e por baixo havia uma margem de tortas de maçã: tempero e bondade. Jesus. Mesmo depois de tudo aquilo ele tinha o aroma de padaria. — Você terá de nos dar as chaves desta vez, Dru. Ninguém ia entender aquilo além de Graves e de mim. Uma vez eu me recusei a acreditar nele, e acabou que eu quase virei almoço de Sergej. Agora a gente estava no meio da floresta com vampiros atrás de nós, e havia uma pancada de garotos apavorados aqui na escuridão. Garotos que tinham dado o máximo de si para me salvar. Garotos que


estariam neste instante indo para o refeitório ou tendo a primeira aula se não fosse por minha causa. Dru. Você só sabe meter os outros em fria, não é? Lambi os lábios secos e salpicados de fumaça. — Isso vai tirar eles daqui? — Todos nós — Christophe parecia absolutamente seguro. — Só preciso pegar uma coisa sua emprestada. O que, as espadas de madeira? Deixei elas para trás, não dava para carregar. — Tá legal, o quê? — minha garganta estava repleta com alguma coisa. Graves se acomodou de novo. Eu, porém, fiquei onde estava. — Você não precisa fazer isso — sussurrou Dibs. Parecia morto de medo. — Dru... — Dê-me a sua mão — repetiu Christophe. — Qualquer uma. Meu braço esquerdo deslizou pesado dos ombros de Dibs. Sem enxergar, enfiei a mão esquerda na direção dele. — Não sei o que é que você vai fazer, mas faça — me apoiei em Graves, que também estava tremendo agora. Não saberia dizer se pelo desgaste de ficar me mantendo erguida ou por outros motivos. — Eles tão chegando perto — não sabia como eu sabia. Os sons nas árvores ficavam mais próximos, um riso nervoso e cruel e o som acolchoado de pés calçando botas. Dedos quentes se fecharam em meu pulso. Christophe percorreu as pontas de seus dedos até o meio da palma da minha mão, e uma sensação esquisita fez meu braço inchar. Eu precisava saber. — Christophe? Ele se mantinha totalmente imóvel. — O que, skowvroneczo moja19? — Onde você estava? Eu era uma isca? O que você estava fazendo? Você disse que iria embora, mas eis você aqui. — Eu estive fazendo acertos para voltar e apanhar minha passarinha — seus dedos morderam e penetraram, e ele ergueu minha mão, baixando as 19

Do polonês, “minha linda” (N.T.).


palmas para cima. — Você não achou que eu iria abandoná-la, achou? — havia um brilho de dentes sob as luzes de seu olhar e, de repente, eu soube o que ele iria fazer. O conhecimento se espalhou com força total, penetrando minha cabeça, e se eu não estivesse tão apavorada, esgotada, solitária e dolorida (você decide), quem sabe tentasse mudar de opinião. Graves soltou outro som sufocado, seu braço apertando enquanto eu perdia toda a força nas pernas. E Christophe introduziu seus caninos em meu pulso, bem onde a pulsação latejava. Era como uns espinhos enferrujados que fincavam meu braço, a dor se ramificando e subindo pelos nervos, detonando dentro da minha cabeça, e uma sensação horrível de estar sendo drenada se derramava por mim. Aquilo doía. Já chegou a se sentir tão zonza que morrer parece até uma opção legal, porque assim a sensação vai parar? Já chegou a sentir algo dentro de você, algo que você nunca reparou antes, algo enraizado lá no fundinho do seu peito, se despedaçando milímetro por milímetro? Ainda resistindo com teimosia, algo entrelaçado ao redor de suas costelas e os órgãos internos começa a abrir caminho rasgando tudo. Desabei. Uma onda de frio se dilatou em torno do medalhão da minha mãe, se mantendo preso contra a minha pele. Graves soltou um som suave de dor, me mantendo em pé. — Dru — sussurrou ele. A força de resistência voltava. Desta vez, ela se esticou até meu cérebro, uma mão ossuda escavando dedos com garras pela minha garganta e pelo meu cérebro, apertando a carne macia que eu usava para pensar. As lembranças se esparramavam e giravam num redemoinho, sugadas para longe de mim. Agora Graves estava me segurando de pé. Eu estava tentando gritar, só que não conseguia. Minha laringe tinha congelado. Tudo o que se relacionava a mim tinha congelado. Um pensamento tentava escapar da agonia inquieta, que me escavava — por favor, não, por favor, de novo não, por favor, não, não, não! Mas ele chegou uma vez mais, e desta vez pior, pois os dedos horríveis que escavavam não iam puxando nada que fosse físico. Em vez disso, ficavam arranhando e se entocando e retorcendo por dentro de mim. Aquela parte de mim


que não era nada além de mim mesma, o conteúdo invisível do que eu era. Eu a chamaria de alma, mas sei lá se é a palavra adequada. E o mais perto que consigo chegar. Um dilacerar que escavava, arranhava, puxava e despedaçava, coisas invisíveis dentro de mim puxadas para longe, e algo me abandonou em uma golfada imensa. Minha cabeça virou para trás, a respiração travou na garganta. Graves deixou escapar outro sonzinho de terror e tentou se afastar de mim. Num tranco, Christophe jogou a cabeça para trás, os caninos deslizando e se libertando da minha carne, e algo se embrulhou apertado em torno do meu pulso, abaixo do machucado que seu aperto forte fez no meu antebraço. Ele soltou o ar, estremecendo, e Graves tentou se afastar novamente. Meu braço se esticava feito Geleca entre eles, meu ombro gritando, e eu não conseguia emitir nenhum som. O azul inverno dos olhos de Christophe ficou nublado, estrias negras feito corantes ao cair na água, formando fiapos através da luz. Ainda brilhavam com muita intensidade, de um jeito que não devia fazer sentido. — Querida — disse, com um som sibilado, e fez um movimento esquisito, como se estivesse prendendo. Seu queixo afundou e seus dedos apertaram meu pulso até deixar feridas, como se fosse fazer tudo aquilo outra vez. Quis gritar; não dava. Nada estava funcionando em mim. Meu corpo se limitava a ficar lá, pendurado, congelado e inerte. — Christophe — Shanks parecia nervoso. — Ei, Christophe? O mundo estremecia na lâmina de uma faca. A escuridão se acumulava nos cantos. Minha cabeça se voltava ainda mais para trás. Graves me mantinha erguida, agora com os dois braços ao meu redor. Estava tão cansada que até respirar dava trabalho. Dentro, fora, dentro, fora, minhas costelas quase se recusavam a levantar. Tinha ar fora do meu rosto, mas era muito difícil trazêlo para dentro. Em vez disso, o oceano de atmosfera se comprimia e se esmagava sobre mim. — Jesus — sussurrou Graves. — O que você fez com ela? Outro brilho dos dentes abaixo dos olhos enegrecidos de Christophe.


— Só a peguei emprestado por um instante, cachorrinho — o limite casual e doloroso das palavras raspava o interior da minha cabeça como um removedor de gelo contra um para-brisa. Me encolhi. — Não se preocupe. Não vou deixar que nenhum deles ponha seus caninos feios em moja ksiezniczko20. A dor e o desgaste exaustivo puxavam cada nervo e músculo do meu corpo. Atrás da gente, outro uivo apavorante se elevou noite adentro. — A gente tem que se esconder — disse Shanks, apressado. — Eu sei do que vocês precisam. Cale a boca — Christophe tocou no meu rosto, dando um passo para mais perto e escorregando as pontas de seus dedos contra minha cara suja. Me retraí. Graves me arrastou para trás, e como era estranho isso: ele dando passos silenciosos. Tudo em volta da gente, a floresta estalava e suspirava na escuridão. O rosnado correndo por baixo da superfície da pele de Graves ia de um lado para o outro, ecoando dentro do meu crânio. Ambos se encaravam, os dois garotos, e, do nada eu tinha a mais plena certeza de que uma coisa ruim estava para rolar. Uma pausa no tempo, suspenso no ar frio da noite. — Eles estão se aproximando — alguém sussurrou. Christophe riu. Era um sonzinho amargo, não diferente do latido doloroso e sarcástico de Graves. — Não estou salvando vocês — disse, bem calmo. — Estou salvando ela. Lembrem-se disso. Ele se voltou e desapareceu, literalmente. O ar fez um som estalado esquisito, desabando onde parou, e um dos lobisomens farejou de modo bem profundo. Shanks praguejou, mas de um jeito suave. Uma umidade branca e grossa borbulhava no ar, se erguendo do solo onde Christophe tinha parado. O toque arrepiou minha pele. Era exatamente o tipo de névoa oleosa dentro da qual os chupa-sangues tinham aparecido. Peraí. O que é que ele acabou de fazer? — Névoa de sangue — um deles disse. — Vai cobrir a gente, e daí ele vai 20

Do polonês, “Minha princesa” (N.T.).


caçar os caras. Vamos embora! Naquele ponto tudo simplesmente virou uma capa cinza e bizarra. Dibs ajudava Graves a me erguer nas costas dele como se eu fosse uma criança andando de cavalinho. Tentei me desculpar, só que as palavras não saíam. Começaram a se deslocar floresta adentro, e tudo junto era um borrão. Minha cabeça sacolejava e batia contra o ombro de Graves, e eu o escutava xingando num ritmo uniforme debaixo da respiração. Os locais dentro de mim onde tudo havia sido picado em pedacinhos, latejavam feito um dente doendo. Era tipo uma dor de cabeça, só que não na cabeça. Nos locais invisíveis em que eu morava e que não se conectavam a nenhum músculo ou osso. — Graves — sussurrei por cima de seu ombro. Então, a escuridão me engoliu, e tudo dentro de mim doía. Enquanto despencava naquele buraco onde as coisas tinham aberto caminho e rodopiavam, vozes pequenas e arrepiantes gargalhavam.


CAPÍTULO VINTE E DOIS

os poucos voltei a mim, de um jeito bem gradual. Primeiro teve aquela luz cinza, vinda de duas rachaduras horizontais. Um pontinho de calor contra o meu peito, como se alguém estivesse respirando em cima de mim. Vozes, na maioria, de Shanks e de Graves. — Ela ainda está apagada? — preocupação misturada com má vontade. O lobisomem alto não parecia feliz. — Que nem uma luz. Não acredito que você sugeriu aquilo — Graves, também cansado e triste. A movimentação debaixo de mim não tinha parado. O vento me tocava os cabelos. Pela primeira vez senti o cheiro de outra coisa que não fosse fumaça. Lodo, ar fresco, o aroma de ferro bem de manhã ou muito, muito de tarde. — A gente precisava fazer isso. Jesus Cristo — pés chegando ao solo. — Tudo bem, pessoal. Vamos andando. As fatias horizontais de luz afinavam e sumiam. Mergulhei outra vez nas trevas. Alguma coisa dentro de mim parecia diferente; eu só não tinha descoberto o quê. Um som como o de asas me cercou. Esperei pela coruja, mas ela não surgiu. Suas asas batiam frenéticas, a batida abafada de um coração. As barras horizontais de luz emergiam outra vez, e percebi que eram minha pálpebras abrindo um tantinho para deixar a manhã entrar. Vozes discutindo. Sentia como se me tivessem rasgado ao meio e colado errado. Meus braços estavam ao redor de alguma coisa, e o tronco de uma árvore ficava apoiado nas minhas costas. Meus pés balançavam. Tomei fôlego. Que alívio descobrir que respirar não era mais uma batalha. Meus pulmões e


minhas costelas tinham resolvido trabalhar em conjunto, e o ar não era mais pesado feito chumbo. — Os wampyr chegaram à Terra... se é que o Reynard deixou algum vivo. A gente tem de ir andando, e já, e ir até um local seguro. — Tipo onde? E Shanks está quase morto. A gente não pode largar ele aqui. — Você não está no comando. A gente já está carregando ela. Você vai carregar ele também? — A sua bunda que não está no comando! A gente não vai largar mais ninguém para trás — era Graves, de um jeito que eu jamais tinha ouvido. Nervoso, decidido — e com aquele rosnado sob o limite das palavras. Dava a impressão de saber do que estava falando e de que não ia tolerar merda nenhuma. Percebi que minha boca estava aberta, seca e com o sabor de que tinha morrido alguma coisa lá dentro. Fechei e tentei um movimento para experimentar. A névoa de luz entrando pelas minhas pálpebras melhorou. — Fala sério. Com quem você pensa que está brincando? Talvez os djamphir achem que você vai controlar a gente, mas você não vai. Movimentação. Me mudaram de lado. Um sonzinho saiu de mim, como se eu fosse apanhada num pesadelo. Vai entender. — Vamos descobrir isso já — disse Graves, tranquilo. O rosnado se transformou em uma crepitação uniforme, como se ossos embrulhados em plástico estivessem estalando e virando poeira. Ai ai ai. O pensamento era preciso e nítido, e isso era outro alívio. Um pouquinho de calor voltou quase imperceptivelmente para mim, o medalhão pesando sob minha camisa de um jeito esquisito. Os lugares despedaçados dentro de mim estremeciam feito feridinhas. Com o pensamento, veio a minha existência. Eu era. Dru. Eu sou Dru. E aquele ali é Graves. Vida, cor e sons, todos voltavam apressados para mim. Abri os olhos e saquei que estava inclinada e fazendo contrapeso em Dibs, que tinha ficado branco e de olhos arregalados. Estava encarando a clareira, na qual vários


lobisomens em poses recurvadas formavam um círculo. Alguns até se deitavam estendidos no solo da floresta. Uma neblina branca e oleosa, quase brilhante, ia vagando como se embrulhada em algodão entre as árvores, e os pássaros piavam com indecisão. Até o cheiro era de amanhecer — se você já esteve ao ar livre quando o sol nasce, sabe do que eu estou falando. E aquele aroma metálico da luz do sol atingindo a atmosfera e todo mundo precisando de uma bela dose de cafeína. Graves e outro garoto de cabelos pretos eram os únicos de pé no centro da clareira. Gotas de água tocavam os cabelos zuados de Graves. A névoa era tão espessa que era como ser pego numa bolha, engolindo o resto do mundo. A forma aos meus pés era Shanks, completamente esparramado, sangue seco derramado de um jeito impressionante, descendo pelo lado do rosto. Suas roupas estavam esfarrapadas, e mais sangue — preto e ainda fumegando, além do vermelho e humano — formavam crostas nele. Parecia fora de forma, pálido feito queijo e fazendo força para erguer seus lados conforme respirava, arfando rápido. Graves se inclinava para frente. O outro garoto — esbelto, cabelos pretos curtos, olhos negros e grandes quase brilhando de fúria — recuava balançando sobre os calcanhares, como se tivesse levado um murro. A tensão invisível entre eles fervia feito aquelas ondulações de calor sobre a calçada em um dia quente o bastante para derreter asfalto. — Agora não é hora de zoar comigo, moleque, nem ferrando — Graves dizia cada palavra bem devagar e bem claro, os lábios se mexendo conforme ele as articulava. Era obrigado a fazer isso porque sua mandíbula estava se transformando. Ainda assim, a voz de comando chegava limpa e nítida. O outro garoto balançava ainda mais para trás sobre os calcanhares, os ombros caindo e o queixo afundando. — Nós todos vamos morrer — queixava-se o outro garoto, mas todo o vigor o tinha abandonado. —Você não está pronto. — Não estou pronto o inferno! — disse Graves em um estalo. — Eu nasci pronto, seu cretino inútil. Você quer me testar agora, vai em frente, mas isso vai desperdiçar um tempo precioso. Vão pegar a gente e você vai morrer que nem o resto. Então, para de ser babaca e cala essa porra de boca.


Um silêncio tenso e marcante como o instante entre caminhar para fora da prancha e o momento em que você atinge a água. Me inclinei contra Dibs e olhei para baixo, onde estava Shanks. Tinha os olhos meio fechados, pequenas faíscas espiando sob as pálpebras. Não havia sinal da íris, nem da pupila, só um branco cego. Tinha algo errado. O mundo parecia plano, estranhamente bidimensional. Inclinei a cabeça para trás, tentando ouvir alguma coisa, qualquer coisa, usando o toque. Tentando afrouxar o punho e enviar para fora dedinhos interrogativos para dominar o mundo. Meu pulso deu um salto, forte e bem alto, na garganta. Não tinha nada lá. Para. Você só está cansada. Deus sabia o quanto eu estava exausta. Mas era tipo ser cego. Nunca tinha reparado antes o quanto o toque sublinhava cada pensamento, borbulhando e fervendo e me mostrando a profundidade das coisas. Eu tinha partido, e estava cega. Odiei a sensação. Descobri que podia ficar em pé sozinha. Apesar disso, Dibs ainda continuava agarrado a mim. Sua pele em contato com a minha era quente, e ele tinha o cheiro de um garoto normal, sem aquele aroma subliminar de pelo frio e perigo. Então é isso que é ser normal? Um tremor se derramou por mim. As árvores pareciam mortas. A névoa estava uniforme. Ele encarava o outro garoto, olhos verdes perfurantes e uma vermelhidão forte nas maçãs do rosto, a sugestão suave da dobra de pele, bem dos orientais, desaparecia conforme seu rosto mudava mais para falcão do que japonês mestiço. Fora isso, tinha a mesma aparência de sempre, tirando que estava um pouco mais sujinho. Seu casaco estava chamuscado e melecado com lama em um dos lados, o cabelo todo zuado e uma peça de qualquer coisa quente e dura atravessou meu peito enquanto o outro garoto se agachava de verdade, como se o olhar verde pesasse muito. Parecia um filme colorido e granulado ao qual eu já tinha assistido, tarde da noite, numa TV a cabo num motelzinho esquisito, fora de um povoado minúsculo chamado Zavalla, no Texas. Era um especial da vida selvagem num canal via satélite, sobre alcateias, e tudo sobre como os lobos se rendem e


desistem para que o lobo dominante mantenha sua posição e o menos dominante não seja assassinado. Havia uma pá de estalidos e rosnados, mas matar a todos que quisessem subir um pouco mais de nível dentro do grupo seria uma grande falta de lógica evolutiva. Pisquei. Meus olhos estavam repletos de crostas. E Graves parecia mesmo o único ser humano real em três dimensões em pé ali. Mesmo com seu cabelo em fios zoneados e seu casaco chamuscado, ele parecia... Não tenho uma palavra para o que ele parecia. Sólido. Revigo— rante. Como se fosse o único pedaço do mundo sustentando todo o caos. Deixei escapar um pouco do ar que tinha sorvido, tentando não sentir o cheiro da fumaça se erguendo em volta de mim ou o fedor do perigo no ar. E também havia outra coisa — tudo cheirava a coisa lavada. Sem gosto. Nada tão real e verdadeiro quanto deveria ser. Havia, porém, aquela mancha de calor contra meu peito. Aquilo era revigorante. — Agora — Graves finalmente dizia —, tem mais alguém a fim de me deixar irritado? Mais alguém achando que esta merda é uma democracia? Engoli em seco. Minha garganta deu um estalido, mas ninguém nem reparou. Ele havia se erguido ao máximo de sua altura, e se voltou devagar, fazendo um círculo e olhando para todos. — Nós somos uma alcateia — ele parou de repente, assim que completou a volta, e olhou de cima o garoto diante dele. Em qualquer outro lugar ia parecer esquisito, mas aqui, no bosque, cercados pela névoa, tinha um ar perfeitamente normal. Bom, normal não. Mas natural. Parecia que fazia parte daqui, com lama e chamuscados esparramados nele, os olhos ardentes e o casaco se distendendo em seus ombros, que tinham ficado mais largos. Era o loup-garou queimando dentro dele, transformando-o em outra coisa que não o Garoto Gótico, magro feito um pássaro, oculto nos cantos de uma escola comum. As mãos dele eram punhos gritando com tanta tensão. — A gente não deixa ninguém para trás. Todo mundo aqui foi deixado para trás de um jeito ou de outro, e a gente não vai fazer isso com mais ninguém. Alguém tem algum problema com isso?


Os segundos passavam como o tique-taque do relógio. A tensão saiu do ar, mas Graves inclinou a cabeça. Dentre os garotos, poucos se levantaram, e o de cabelos pretos fez um movimento rápido e interrogativo. — Você ouviu isso? — sussurrou Dibs. Ou era a pele dele que estava quente de pegar fogo, ou era a minha que tinha ficado fria que nem gelo. Eu não sabia distinguir. — Helicópteros. Outra vez. — E se for a Ordem? — quiseram saber. — Vindo pegar a gente? — O duro é que é tarde demais — resmungou o garoto de cabelos pretos. Peter, disse, enfim, o meu cérebro zuado. É o nome dele. Graves esfregou o queixo com seus dedos longos. —A gente vai se deslocar o mais rápido que puder debaixo dessa névoa. Não dá para confiar que pode ser o tipo certo de pessoa por aí que está à procura da gente. — Agora a gente está por conta própria? A Ordem já era? — Dibs se manifestou. Estava sujo e desarrumado, como o restante de nós, sua cara redonda e loira enrugada de preocupação. Só que não parecia tão assustado como sempre, no refeitório. — Ainda não sei — suspirou Graves. — Vamos em frente, enquanto a gente ainda tem proteção, daí a gente se esconde até o anoitecer. Até lá Christophe já vai estar por perto de novo. — Os nosferatu também — este garoto, com cabelos compridos e castanhos, tinha se deitado de costas, com um braço em cima do rosto. Usava uma camisa de flanela que já tinha visto dias melhores e uma atadura zoneada amarrada em torno da cabeça, um remendo escuro ensanguentado por sobre a têmpora. — Tive uma ideia. — Manda — disse Graves na mesma hora. — Minha família mora por perto: não são primos de sangue, minhas tias é que casaram com eles. Quem sabe a gente devia se esconder. E pertinho do último povoado por onde a gente passou. Está todo mundo cansado pra caramba, a garota nem está com o cheiro dela mesma, e se a gente for com tudo agora, tem uma chance de correr esta noite em velocidade máxima; ou até melhor, amanhã, quando o sol nascer. Graves deu meia-volta e olhou até o outro lado da clareira, direto para


mim. Devolvi o olhar, tão firme quanto conseguia enquanto me apoiava em Dibs e formava um sanduíche com o menino e com um tronco de árvore. Me liguei que ele olhava para mim procurando um rumo. Lá na cidade dele, cheia das pilhas de neve, eu era a que sabia o que fazer quando tudo estava zicando. Pelo menos sabia o que fazer quando o cachorrão em chamas e o lobisomem da cabeça listrada tentaram matar a gente. Eu tinha levado Graves para a minha casa. Era eu quem tinha os livros e as armas e o conhecimento, embora irregular. A gente olhava um para o outro. Que é que a gente faz agora, porra? — ele me perguntava. Tentei pensar. — O que a gente tem? — minha garganta estava machucada, e as palavras não tinham aquele peso que eu era acostumada a ouvir por trás delas. Eram de papel. — Em termos de fornecimento. Porque eu sabia como fazer isso. Não dependia do toque, nem do disfarce nem de nada assim. Era só fazer o que eu tinha aprendido. A gente estava em território hostil, e havia um objetivo — o objetivo de não morrer. Primeiro você descobre o que você tem, diria o meu pai. Daí você descobre como fazer funcionar para o que você precisa, porque você não tem aquilo que quer. Você tem só o que está na mão e mais nada. O que acabou se revelando o seguinte: um monte de grana, minha sacola, as roupas em nossas mochilas, alguns canivetes, o tanque de oxigênio, um estojo de primeiros socorros que Dibs também estava levando e dois maços de cigarros. Shanks estava deitado no chão, com a respiração curta. Não parecia nada bem. Que alívio ter meu cérebro funcionando de novo! Cada músculo que eu tinha doía muito, e essa característica esquisita bidimensional do mundo era novidade e uma coisa terrível. Embora minha cabeça doesse, eu fazia muito esse tipo de coisa com o meu pai — ele me lançando situações, me ensinando a planejar. — A gente não teve tempo para ir até o arsenal — com muita cautela, Peter deslizou seu canivete de volta para o bolso. — Eles golpeiam rápido demais. E estão com a Incendiária. Jesus.


Pelo menos a gente tem dinheiro. Me apoiei na árvore, em vez de em Dibs. Meu pulso esquerdo estava enrolado em uma atadura de pressão muito bem feita. Fechei os olhos, apertei a luz para fora deles e respirei fundo. Vamos, Dru, você sabe como fazer isso. — Então nossas opções são gastar o dinheiro que a gente tem e tentar chegar até a cidade hoje à noite com os feridos, ou se esconder na casa da família do Andy até amanhã — fiz uma pausa. — A gente tem alguma ideia de para onde ir quando chegar lá perto da cidade? — Shanks tem — Andy tinha sentado e me olhava como se tivesse nascido outra cabeça em mim. — Minhas tias são fiéis. Iriam esconder a gente mesmo se estivéssemos na Era das Trevas. — Eu só não tenho certeza se a gente não vai causar problemas para elas — pisquei de novo, tentando me concentrar. O mundo ainda não estava com a aparência correta, e uma sensação engraçada de estremecimento vinha abrindo caminho pelo meu peito. Não precisei de dicionário para sacar que aquilo se chamava medo. Um tipo novinho em folha de sentimento de pavor, um calor inconstante, tipo indigestão, debaixo do ponto aquecido do medalhão da minha mãe. Eu começava a perceber que existiam tons de medo, assim como numa paleta de cores, todos levemente diferentes, mas ainda horríveis. Olhei com atenção para Graves outra vez. — Vocês não vão gostar disso. — Do quê? — ele se inclinou do outro lado da árvore na qual eu continuava me segurando, seu cabelo zoneado, sacudido e caído por cima dos olhos de novo. O Garoto Gótico tinha voltado a se revelar. O brinco dele piscou uma vez, um brilho de prata. — Meu pai me treinou para esse tipo de coisa. Eu consigo chegar à próxima cidade e arrumar um meio de transporte. Eu posso sumir, e isso significa que eles não vão ter motivo para caçar... — Não — Graves sacudiu a cabeça. — De jeito nenhum. — Deixa ela terminar — Peter se agachou perto de Shanks. Seu rosto se contorceu de um jeito amargo enquanto olhava para baixo, para o outro garoto. Graves enrijeceu.


— Você aí, cale a boca. Os caras vão caçar a gente esteja você conosco ou não, Dru. Que parte disso você não entendeu? Eu não vou te abandonar. — Se os vampiros forem atacar uma escola inteira repleta de gente treinada para lutar contra eles tentando me matar, o que faz você pensar que eles não iriam atacar a casa de um lobisomem? E... Sergej... pode também estar vindo. Fala sério — me segurei na árvore. Nenhum espinho dolorido me atravessou a cabeça, mas muitos dos lobisomens estremeceram quando mencionei o nome. — É uma combinação — Andy se manifestava. — Os parentes, eles acreditam no jeito antigo de fazer as coisas. Tem as minhas tias e os meus tios, avôs e avós, primos... Que maravilha. Mais gente para morrer. — É uma ideia melhor do que sair por aí sozinho e pronto. Eu consigo chegar até a próxima cidade, pegar comida, uma condução e... Graves soltou um som cuspido de perturbação: — Está somando roubo de carro ou furto na sua lista de coisas para fazer hoje? Nem a pau, Dru. Olha para você, você nem consegue ficar em pé. Ele tinha razão. Me segurei na árvore. — Eu consigo te arrebentar a cara. Só que isso era papo. Nós dois sabíamos disso, e ele sacudiu de novo o cabelo e me deu um sorriso mágico. Dali a uns anos aquele seria um sorriso de parar um coração. Quem eu queria enganar? O garoto já era de parar um coração. Por que eu não tinha visto isso antes? Ou será que esse lance vinha se ocultando dentro dele, só esperando para sair? — Qualquer hora que você se achar macho o suficiente, querida — ele se sacudiu todo, largou da árvore e eu me perguntei para onde tinha ido o garoto apavorado. Aquele que tinha me abraçado nas escadas frias, enquanto alguma coisa horrível batia na minha porta da frente; uma coisa velha e revoltante, com cheiro de sangue enferrujado. — Está legal, Andy. Mostra o caminho. Tony e Beau, vocês dois, carreguem Shanks. Ele precisa de outra injeção, Dibs? — Sem chance — o loiro chacoalhou a cabeça. — Se eu der mais


sedativo para ele, o cara pode ficar cansado demais para respirar ou se curar. A névoa se aproximava, comprimindo, como se estivesse escutando. A luz do sol refletia nela de um jeito bizarro, as formas se movendo em suas profundezas recobertas. Os lobisomens começavam a se mexer. Graves deu alguns passos em torno da árvore e me olhou de cima. Parecia mais alto, ou talvez era porque eu estava cansada, muito cansada, mesmo acordada e, no geral, erguida. A luz tinha ficado mais forte, e o barulho das hélices dos helicópteros ia sumindo à distância. Eu nem ao menos sabia em que direção a gente estava indo, ou onde a gente estava. Dois dos lobisomens levantaram Shanks. Ele parecia bem zuado. Graves caminhou para perto de mim, apanhou meu braço esquerdo e o pôs para baixo. Assim, ficou posicionado entre os ombros dele. — Não sou um ninguém. Nunca mais. — Desculpa — também tentei um tom de voz baixo. — Se eu não tivesse... — Cala a boca — deu uns passos para experimentar. Assim que eu larguei da árvore, o chão gingava feito bêbado sob os meus pés. — Vamos. — Sinsinhôr, Capitão! — disseram, e fiquei surpresa por estar dando risada. O som era bem baixinho e solitário, mas Graves me olhou, e o canto de sua boca mexeu um tiquinho. Só um tiquinho. Os locais vazios dentro de mim não pareciam tão grandes, afinal de contas. Preciso pegar algo emprestado... Vai voltar, eu prometo. Não perguntei onde Christophe estava. Estava ocupada demais tentando me manter erguida. E, além disso, se eu tivesse mesmo de reconhecer a verdade, eu não queria saber. Não enquanto meu pulso latejava, quente e dolorido. Não enquanto o mundo parecia um recorte de papel e o espaço dentro da minha cabeça, onde o toque deveria ficar, estava descaradamente vazio. Não enquanto eu estava apavorada, faminta e cheirando a fumaça. Era melhor me inclinar perto de Graves e cheirar o xampu que ele usava, não importava qual, antes de tudo piorar. Um pouco daquilo se agarrou nele, acima dos aromas do ar livre e fumaça. Um jovem saudável que precisa de sua chuveirada diária.


Fomos nos movendo para dentro da nĂŠvoa bizarra, nos apoiando uns nos outros. E desaparecemos como fantasmas.


CAPÍTULO VINTE E TRÊS

floresta era um país das maravilhas gotejantes e traiçoeiras. Esquentava um pouco, e das árvores escorriam gotas grossas de suor que vinham de toda a umidade do ar. Fiquei viajando naquilo, mas isso significava que os helicópteros passando por cima não eram nada mais do que sons. Eles se aproximavam de um jeito horroroso e circulavam por uns instantes, mas iam sumindo aos poucos à medida que a gente se movia ao longo dos declives de madeira, sobre pequenos riachos que se deslocavam lentamente com água preta sob o gelo, e se arrastavam pela lama escorregadia. "Pelo menos não está chovendo", alguém disse certa vez. Outro alguém fungou. — Djamphir — ele disse, como se aquilo explicasse tudo. Talvez sim. Como é que Christophe estava fazendo isso? Me dependurei em Graves e, aos poucos, saquei que a névoa — ou quem quer que estivesse por trás dela, nos mantendo debaixo de uma cortina de vapor — nos vigiava. Se não estivesse tão cansada e esgotada, talvez pudesse ter visto isso antes. O local vazio dentro de mim começou a parecer um tiquinho mais normal, a tridimensionalidade voltando ao mundo, e eu comecei a ver rostos espiando de dentro do vapor branco e espesso. Eram rostos magros e assexuados, com olhos em chamas, fundos e bocas que ficavam entreabertas o suficiente para mostrar seus caninos. Pouco depois da metade da manhã, a coisa ficou bem ruim. Não interessava quantas vezes eu piscasse, os rostos não iam embora. Agora eu podia caminhar por conta própria, meio que cambaleando. Rolava uma


conferência sussurrada sobre o que fazer com o cilindro de oxigênio. Eu só passei a alça dele no meu ombro e segui carregando. Não deixar rastros era a primeira regra de quem estava se movimentando por território hostil. Um dos garotos — Beau, o ruivo magro e veloz — trazia um embrulho de palitinhos de carne seca21, que a gente dividiu igualmente em uma das paradas. Todo mundo pegou um pedacinho, e a gente caminhava enquanto mastigava. O sal pinicava minha garganta, já em carne viva por causa da fumaça, mas alguns dos garotos traziam garrafas de água e cada um deu um gole ou dois à medida que a gente andava. Com a água, o espetinho virou um bolo de sal com uma nojeira sem gosto; mesmo assim, continuei mastigando. Estava com fome demais. Graves tinha me aguentado até eu conseguir andar sozinha. Mas eu dei uma guinada de um jeito tão de bêbado que ele se esticou e pegou na minha mão, dedos quentes deslizando pelos meus, molhados. Encanei com meus dedos suados e nojentos por cerca de meio segundo, até que minhas pernas me fizeram dar uma nova guinada. Não conseguia encontrar meus referenciais com a aparência que o mundo tinha: plano que nem papel. E estava muito esgotada. Minha cabeça parecia uma abóbora equilibrada numa haste. Mas era melhor com ele segurando na minha mão. Os rostos se agrupavam ao redor. Quanto melhor eu me sentia, mais o mundo começava a voltar à sua aparência normal, mais eles se reuniam à nossa volta, suas bocas se abrindo enquanto me encaravam. Alguns mexiam os lábios; outros desapareciam na fumaça diminuindo enquanto o sol ia se erguendo para o meio-dia. É. Muito normal...! Por que esse lance de eu só me sentir como eu mesma quando estava rolando a merda mais bizarra de todas? — A névoa está diminuindo — observou Peter. Isso chamou a atenção de Shanks. Ele puxou um fôlego bem profundo e acentuado, erguendo um tiquinho a cabeça felpuda. Parecia que ele tinha sido requentado pela morte, mas pelo menos o sangue grudado nele era seco em vez de fresco. O rosto era um aglomerado de arranhões incríveis e um olho 21

No original Beef Jerky, que nada mais é do que uma carne seca vendida como lanche, geralmente em formato de palitinho embalado a vácuo e já pronto para consumo. Pode ser aromatizado com diversos sabores e não exige refrigeração (N.T.). (Fonte:HTTP//www.sic.org.br/charque.asp).


tão inchado que quase fechava. E seus olhos estavam ali, não apenas os brancos evidentes entre as pálpebras feridas. — Meio-dia. O sol no seu auge. — O que significa que Christophe talvez não consiga nos cobrir de onde quer que ele se esconda durante as horas do dia — Graves disse isso com tranquilidade, como se estivesse falando só comigo. Ah, Está. Faz sentido. Quase. Meu pulso palpitava. Eu não queria botar a atadura de novo. Nem mesmo queria olhar, porque só de pensar naquilo pressionando tudo dentro de mim era horrível. Me fazia suar debaixo das minhas quatro camadas de roupa e do revestimento de sujeira e fuligem. Meu corpo todinho coçava de dar dó, mas era uma sensação melhor do que a dor de ser arrastada feito bêbada ou a sensação de que tinham roubado a tridimensionalidade do mundo. — Eu não sabia que um djamphir conseguia fazer isso — Dibs esfregou suas bochechas com as duas mãos. Tinha umas penugens de barba que pareciam pelinhos de pêssego. Um borrão de sujeira perambulava pela testa dele. — Em geral não conseguem, e agora ele está muito mais incapacitado até o pôr do sol — Peter saltou sobre uma árvore caída. O musgo brilhava com pérolas grandes de umidade; olhou de relance para mim, para trás, por cima de seu ombro. — Quanto que ele pegou? Essa foi para mim. Quanto de mim Christophe pegou? Uma onda de tontura me atravessou, acertou meus calcanhares e ressoou com força suficiente para levar bile até minha garganta. Resquícios de espetinhos de carne seca ficavam agarrados até na minha língua. Por baixo daquilo havia o pensamento real. Quer dizer, o quanto do meu sangue. — Não sei — precisei ajeitar minha bochecha com a carne seca mascada feito um fazendeiro fundamentalista cristão chupando um pedaço de tabaco. — Foi... foi horrível. — Bom, isso está na cara. Não é agradável ser mordido por um chupasangue, não importa de que casta ele venha — Peter saltou para baixo. O resto se aproximou conforme a neblina ia encolhendo. Para um grupo de


adolescentes perambulando pelo bosque, eram de uma tranquilidade notável. Sem perturbar uma folha nem estalar um galho debaixo deles, a menos que eu tropeçasse e Graves não me desse uma puxada rápida na mão para me trazer de volta ao meu equilíbrio. — Agora, falando sério. Quantas goladas ele deu? Jesus Cristo. — T-três, eu acho — a sensação de estranheza e insegurança sob meu coração também era melhor do que o vazio. Que alívio sentir qualquer coisa que não fosse aquela dormência que destruía a alma. — Isso é bom, né? — Dibs ergueu o olhar com ansiedade. — Mais do que isso, e você corria o risco de se unir a ele e... — Chh! — Peter parou. Todos ficaram imóveis. Graves chegou mesmo a dar um passo para perto de mim antes de paralisar por completo, e a maioria dos garotos tinha uma orelha inclinada. Lobisomens jamais parecem especificamente caninos, a menos que tenham mudado, mas ver todos sustentando as cabeças daquele jeito me fazia lembrar do cachorrinho da RCA de alguns discos antigos da minha avó. Uma risada repugnante borbulhou dentro de mim. Eu ficava escutando do mesmo jeito deles, o sangue latejando em meus ouvidos e o som de outro helicóptero cortando o silêncio arrepiante. Um pensamento pequeno e desagradável veio caminhando devagar e entrando na minha cabeça com patinhas de gato. Não importa de que casta o chupa-sangue venha, hein? Não sabia que os djamphir bebiam sangue. Eu suponho que o apetite se relacione com isso. Se eu bebesse o sangue de alguém, será que eu seria capaz de fazer... alguma coisa? O que quer que seja que Christophe fez? Ou o que a gente estava adivinhando que ele fez, já que esta neblina nem chega perto de ser normal? Sergej também tinha alterado o clima. Tinha tornado-o tão escuro quanto a noite em pleno dia, invocou uma enorme tempestade de neve. E Christophe era filho dele. Toda essa linha de raciocínio tinha me dado uma sensação de náusea. Uma coisa era ter algo dentro de você arrancado pela raiz. Outra, completamente diferente, era pensar em fazer aquilo com outra pessoa. Quer dizer, se for com quem me fez uma das coisas do Mundo Real, tudo bem. Aquilo me transformou em uma daquelas coisas para as quais meu pai


botaria munição nas armas dele e sairia atrás, à caça. Ai meu Deus. Estremeci. Graves apertou meus dedos frios, murchos e suados. A vibração das hélices do helicóptero tinha um som diferente de todos os outros que tinham passado desde a manhã. Como, eu não saberia dizer, mas... Senti cheiro de terra, um fiapo de perfume quente, e a aproximação de vapores ácidos sem a cor da violência. Um formigamento tocou meu peito, como se o medalhão estivesse vibrando outra vez. — Estão procurando a gente — sussurrei sem saber o que eu ia falar até que as palavras escorregaram, livres, dos meus lábios. — E não são amigos. Graves baixou o olhar, de relance para mim, sua boca abrindo, tipo querendo perguntar como eu sabia. Dibs deslizou para baixo até ficar agachado, e antes que eu me ligasse, o restante deles também tinha abaixado, tirando Graves e eu. Ficamos parados, e se meus joelhos não tivessem travado, em desespero, tentando me manter ereta, eu teria me descontrolado e começado a chorar. Alguma coisa escorregou pela minha cabeça, vidro quebrado e cinza de cigarro arranhando locais macios que eu nem sabia que estavam feridos, e me encolhi, batendo meu ombro no dele. Ele não se mexeu, sólido que nem rocha, e sua cabeça virou para cima. A névoa estava sumindo em espirais de vapor, e de repente senti o cheiro de um rastro de maçãs e temperos misturado com sujeira apodrecendo. O aroma vinha em ondas, expandindo e desaparecendo aos poucos, tentando criar uma cobertura sobre nós. — Será que a névoa de sangue vai se segurar? — sussurrou Dibs. Ele me olhava como se eu soubesse, e minha garganta se fechou. Não sabia o que dizer para ele, e o toque tremia dentro da minha cabeça. O som das asas da coruja se aproximou. Era difícil saber por causa da névoa, mas estava circulando. Eu conseguia senti-lo como se fosse um dente machucado, me incomodando por dentro. Foi um alívio sentir o toque pulsando em mim novamente. Nunca pensei que ficaria feliz por ter de volta a coisa que me deixava incapaz de me adequar a qualquer lugar. Meus dentes ficaram sensíveis à dor dentro de minha boca, já seca por


causa do sal. Meu cabelo pinicava e um calor se esparramava pela minha pele. A névoa se encolheu ainda mais. A luz do sol ganhava força, brilhando pela névoa como uma lâmpada através de papel vegetal. Ai merda. — Dru — a voz de Graves falhava. Ele me encarava como se eu tivesse duas cabeças. O disfarce fluía através de mim. Respirei fundo, com o medalhão se aquecendo como se estivesse perto da chama de uma vela. Será que isso acontecia com o meu pai também? Ou era só comigo? O que significava isso? Não havia tempo para perguntar, mesmo se existisse alguém por perto para me dizer. O som do helicóptero ia ficando mais alto, mais próximo. Uma sombra se agigantava pela membrana de vapor de água, nos mantendo a salvo. Vamos lá, Dru. Faz alguma coisa, qualquer coisa! Os locais em carne viva dentro de mim repuxavam e se contorciam. Eu os dominei, algo que deveria ter sido tão fácil como respirar de repente era como erguer um carro com as mãos. O céu azul espiava pela neblina que se esfarrapava, e a silhueta do helicóptero se avolumou, ficando mais escura, sua corrente de ar vinda de baixo dispersando a névoa ao redor em trilhas de vapor. A coisa se formou ao redor das minhas mãos, meus caninos deslizando, se libertando e tocando meu lábio inferior. O naco de carne seca na minha boca se transformou em uma irritação de sal, mas eu não podia me preocupar com aquilo. Minha barriga roncava, e o cheiro de maçãs temperadas desabrochava ao meu redor. Só que mais acentuado, com uma nuance de perfume conhecido e quente. A floresta ao meu redor de repente tinha o aroma da minha mãe, e as lembranças se arrebentaram dentro da minha cabeça. Lembranças e uma nova certeza. Vamos brincar, Dru. — Mas que porr... — Peter, agachado, quase se levantou por inteiro. Espetei minha mão livre, soltando um grito curto que se perdeu no som do helicóptero. O feitiço — igualzinho ao que eu tinha lançado numa professora lá em Dakota, um raio de intenção — voava livre, soltando faíscas e chiados, e se lançou rumo à sombra mecânica. Graves me apanhou assim


que minhas pernas dobraram, e meu coração foi parar nas orelhas. Minhas costelas queimavam, respirações curtas e rápidas, e por um instante as cavidades afiadas dos caninos que tocavam meu lábio inferior penetraram— no. Uma série de fluxos quentes deslizavam até meu queixo, e Graves caiu de joelhos, tentando me manter em pé. Um som bizarro de tinido, e o helicóptero mudou de direção, sua sombra em forma de tubarão fatiando os galhos das árvores sem folhas e o vapor que se dissipava. Um guincho de metal sendo retorcido e recortado, e Graves se levantou apressado, me carregando com ele. Helicópteros são máquinas muito complexas. E se você bagunçar um tiquinho dessa complexidade, coisas ruins podem acontecer. Foi um feitiçozinho de nada, que mal merecia esse nome, mas meu pai sentiria orgulho. É fácil derrubar um helicóptero, Dru, ele me disse algumas vezes. E só lembrar disso, Dru. Uma coisinha fica zoada e, do nada, cabrum! Será que, de algum modo, ele sabia? Meu coração doeu com esse pensamento. Eu teria dado qualquer coisa para tê—lo de volta para lidar com isso. Ele teria resolvido esse problema rapidinho. — Cabrum — sussurrei, e dobrei sobre Graves. Era só o segundo feitiço da minha vida que eu tinha lançado de verdade. O primeiro tinha sido há umas poucas semanas, e quase matei a Bletchley, minha professora de História dos Estados Unidos. Mas mesmo assim, ela merecia. No que é que eu estava me transformando? — Jesus — foi o sussurro suave e cheio de pânico de Peter. Uma trovoada profunda ressoou ao longe. Um trovão, engolindo o som estridente que o helicóptero estava produzindo. Isso não pode ser bom para nenhum dos envolvidos. O cheiro da chuva de repente brotou do chão, grosso e molhado, e um som enorme de algo sendo moído guinchou através da clareira. Uma explosão profunda e repentina. — Ai — disse, e empurrei cada músculo para baixo, lutando com uma golfada. O espetinho de carne seca ia passando por altas dificuldades para se manter na minha boca. Meus ossos pareciam flexíveis. O mundo recuava numa maré cinzenta que apareceu do nada com pequenas faíscas de céu azul e


a voz de Graves falando alguma coisa. Um som rasgado, de coisa se estilhaçando, estalava pela escuridão cinza chumbo. Tudo ficou uma zona, minhas mãos e braços despencaram feito os de uma boneca de pano. Meu estômago doía — tinha o ombro de alguém nele, e o mundo estava sacolejando para cima e para baixo — Cabrum! — sussurrei outra vez, e o cinza chumbo me engoliu todinha. Acho que eu não deveria ter feito isso, pensei, confusa, e depois não pensei mais.


CAPÍTULO VINTE E QUATRO

ecuperei a consciência bem aos bocadinhos. E me sentia uma merda. Meu corpo todo doía, minha cabeça mais que tudo. Dei um gemidinho e os lençóis se ajeitaram. O som de chuva pesada sobre um telhado encheu minha cabeça, e um estouro de trovão me fez pular de susto. Durante um segundo bizarro e vertiginoso, imaginei que estava de volta ao quarto azul, durante o dia, quando a chuva esparramava nas janelas e a Schola dormia. Então, uma mão gelada e dura tocou minha testa. — Shhh, milna. Está tudo bem. Meu pulso esquerdo deu sinal de vida com uma tremidinha de calor e eu abri meus olhos. Por um instante não conseguia ver nada e pensei que estivesse cega, mas em seguida algo foi ligado. Uma fonte de luz perto de alguma coisa com formato de porta apareceu, fez minhas pupilas arderem e as lágrimas surgiram. Me encolhi. A luz foi apagada. Meu pulso esquentou de novo, duas espetadinhas de fogo. Trovões estouravam e explodiam outra vez acima da minha cabeça. — Sua cabeça vai ficar sensível por um tempo. Descanse — palavras gentis, como se eu estivesse mesmo doente e ele estivesse tentando não me perturbar. Minha boca estava seca. Tinha perdido o espetinho por aí. Quando deixei os braços e as pernas tensos, consegui sentir a cama embaixo de mim e uma dor feito um rio por minha pele. — Os outros? — Sãos e salvos. Até o seu loup-garou — uma fagulha de olhos azuis aparecia na escuridão. As íris de Christophe brilhavam muito de leve.


— Que bom... — o alívio me preenchia, rivalizando com a dor, e recuava. Soltei o ar. Sua mão tocou novamente minha testa, as pontas dos dedos deslizando pela curva do crânio sob a pele. Então me lembrei do que ele tinha feito, e fiquei ainda mais tensa. Ele riu. Um som miúdo, tão amargo quanto o latido debochado de Graves. — Mais do que você esperava, hum? Desculpe. Sei que isso dói. Mas só peguei emprestado. Não tirei. Lembre-se disso. Pois é, não acho que vou esquecer, Christophe. Suspirei e afastei a cabeça de seu toque. Uma cadeira ao lado da cama — senti que ela estava lá sem vê-la. Difícil descrever. Minha garganta estava machucada e o medalhão não fazia nada de bizarro. Graças a Deus. Pelo menos o toque ainda estava funcionando. Me senti eu mesma outra vez. Acabada e detonada, mas ainda eu mesma. — Onde? Tipo, Onde é que eu estou? Pergunta totalmente clichê, mas cabível. Pareceu que ele tinha entendido. — Um dos lobisomens, Andrew, tem parentes por aqui. Você se encontra na parte mais segura da combinação. Agora é de noite; amanhã você tem de estar bem para viajar. Especialmente comigo por perto. Ah, que bom. Mas sinto que eu dormi demais. — Viajar? — Seu loup-garou foi bem convincente defendendo a chegada à segurança de uma cidade. Vou poder tolerar o sol depois desta noite, quando as trevas da aura sumirem — deixou escapar um suspiro acentuado. O brilho de seus olhos desapareceu, e sua forma ficou deteriorada. — Pensei que Dylan, pelo menos, iria explicar umas coisinhas. Eu imagino que ele talvez tivesse outras coisas em mente, Christophe. E eu achei que o professor de História também estivesse tentando. — Tentou. Ele tentou. Olha... — havia tanta coisa para contar a ele. — Durma — ele se moveu de novo, e ouvi roupas deslizando e o estalar da cadeira outra vez. Um hálito com cheiro de tempero perfumado com maçã soprou pelo meu rosto. — É o melhor que você faz agora.


Parecia uma boa ideia, mas eu queria algo mais. — Graves — engoli. Minha garganta seca estalou. Pelo menos minha boca não estava formigando e meus dentes estavam normais e arredondados quando eu passei neles minha língua seca e áspera. — Eu lhe disse, ele está bem. O bonzão da casa, aqui — os olhos de Christophe abriram novamente. —Você podia me perguntar como eu estou me sentindo. Também passei por uns dias difíceis. Sabe como é, quando se colocam as coisas desse jeito, não consigo me preocupar menos. — Fora. Daqui. — Adorável como sempre. Sinto muito, Dru. Então, eu me senti uma vaca. Ele tinha salvado minha vida, não tinha? Entrou correndo num prédio em chamas para me tirar dali. E a névoa, aquilo também foi ele. E seu calor contra mim, uma lembrança vergonhosa que teria me dado o maior remorso se eu não estivesse tão esgotada. — Não esquenta com isso — tossi um tantinho. As palavras saíam arranhando bastante. — Você acha que quer água, mas ela só vai piorar — seu tom de voz era muito suave. — Nada vai abrandar isso, nem ao menos o vinho. Vai suavizar um pouco. A queimação na minha garganta ficou um pouquinho pior. — Você... — Eu? Sempre, passarinha — outra risadinha. Parecia que o machucava — quanto mais forte o caráter de nosferat em seu sangue, mais forte o apetite. E se algum Kouroi se entregar a ele... Esperei. Meu coração batia forte, nos pulsos e na garganta. Estava mesmo escuro ali, e eu me perguntava de quem era a cama onde eu estava deitada. A gente tinha chegado em segurança. Uma casa de lobisomens. — Se alguma vez você se entregar, fica muito mais difícil ter controle. E se você for criada a não reprimi-lo, kochana... — suspirou novamente. A cadeira rangeu um pouco, enquanto ele se levantava e a empurrava para trás. Vi as sombras de pôsteres pendurados na parede, sem janelas, e uns traços rabiscados em carvão de um armário meio aberto. Ali era quieto feito a morte. — Meu pai me educou para ser um flagelo em vez de um Kouroi — seus olhos


perderam o brilho, e eu meio que o saquei esfregando o rosto. — Dylan me trouxe para a luz, mas foi sua mãe quem garantiu que eu ficasse. Se você não tem um motivo para combatê-lo, o apetite o transforma em um animal pior do que aqueles que exterminamos. Porque nós nascemos para ser tão mais que isso... — a silhueta imprecisa da porta estava escurecida pela sombra mais negra dele. — Vou fazer seu loup-garou entrar. Ele parecia tão... triste. — Christophe — nem ao menos eu conseguia me sustentar sobre meus cotovelos. — Espera. A sensação de movimento foi sumindo aos poucos. Ele parou na porta por um segundo prolongado, e então voltou. A brisa com aroma de maçã encheu meu rosto. Ele se curvou, e um medo irracional e repentino, de que ele pudesse me morder outra vez, deteve minha respiração. As pontas de seus dedos descansavam na curva aquecida do medalhão. Eu sentia o peso deles. Algo suave e quente foi pressionado contra minha boca. Fiquei ali por alguns segundos, meu nariz cheio de aroma de torta. Antes que eu me tocasse, ele se endireitou e deu um passo para trás. Agora seus olhos brilhavam, um azul "do mal". — Se eu preciso de um motivo, agora, Dru, terá de ser você. A porta foi tomada pela sombra dele. Me mexi, totalmente tensa. Nem conseguia começar a entender aquilo. Dormir parecia mesmo uma boa. Fechei minhas pálpebras pesadas e sumi. *** Quando voltei à superfície, estava ainda mais silencioso e alguém tinha se deitado perto de mim. Era quente e ocupava a maior parte da cama, e eu sabia quem era mesmo antes de dar uma cotovelada sem querer nele acordando—o de sobressalto. Pulou que nem um peixe no anzol, meio sentado, relaxando só quando descobriu onde estava. —Jesus — a palavra morreu. — Dru? Você está bem? Tossi. Minha pele arrepiou. — De boa — a força tinha voltado aos meus ossos, e eu me sentia um


milhão por cento melhor. E o melhor de tudo, os lugares destro—çados e vazios dentro da minha cabeça não estavam mais latejando como se alguém os tivesse arrancado à força. Tinha uma leve dor de cabeça e ainda sentia uma sede do caramba, mas o mundo tinha se ajeitado outra vez. — Opa. — Tem o chão — ele se curvou para se sentar, e os lençóis se mexeram. Dormir de roupa sempre faz a gente se sentir esculhambada quando é de manhã. — Caso você, sabe como é... — Por quê? — me ergui sobre os cotovelos. Que alívio conseguir me mexer. — Tipo, tudo bem com a gente, né? A menos que você ache esquisito dormir na mesma cama que... Ai merda. Fui da sensação de superbem para a sensação de imbecil completa. — Achei que você ia achar esquisito —, mas ele se acalmou de novo. Só havia um travesseiro, que estava esmagado entre nós dois. — Mas, sabe como é. — Pois é — não sabia, mas por mim tudo bem. — E Shanks? E o povo todo? — Deram um trato em Shanks. Agora ele só precisa dormir um pouco. E... esquisito aqui. Bom, deixa quieto. Como você está, de verdade ? Limpei a garganta. Ele ainda estava completamente vestido, e tentei empurrar o travesseiro para ele, mas ele não estava a fim. Nos ajeitamos, por fim, e eu inspirei o ar perto dele. Fumaça de cigarro, jovem saudável, o cheiro exclusivo dele. Eu precisava de um chuveiro e meus dentes precisavam mesmo de uma boa escovada, e de repente tive medo de estar com aquele bafão matinal. Daí fiquei onde estava, do meu lado, com o braço debaixo da cabeça, tentando não respirar em cima dele. A gente ficou quieto por um tempinho. O trovão estava acalmando. — Que chuva — enfim sussurrei. — Pois é. Christophe disse que foi porque ele mexeu com o sistema climático — Graves se agitou um tiquinho, cruzando seus dedos sob a cabeça. Era alto o bastante para que eu colocasse a cabeça quase na axila dele. Não era perfeito, mas pelo menos ele tinha cheiro de limpo, e eu não ia estar respirando em nenhum lugar em que ele fosse fazer uma careta.


— Você devia era dormir mais. A gente vai sair de manhã. — A gente? — como quem diz A gente quem? — Eu vou com você — quase mal—humorado. Suspirou. — Olha, Dru... — Esperava que você viesse junto. Para onde a gente está indo? — cheguei mais perto dele. Ele não se mexeu. Foi um alívio. — Para cidade. Christophe acha que se a gente levar você até a Schola principal, quem quer que esteja nessas de trair e te matar não vai conseguir. Dru, quero perguntar uma coisa. A tensão voltou. — Tá. Esperava algo tipo Como foi quando ele bebeu teu sangue? Ou Que é que você fez com aquele helicóptero, ou até... Sei lá. Alguma coisa com djamphir ou lobisomens. Algo complexo. — Você gosta do Christophe? — saiu num suspiro. — Tipo, você gosta mesmo dele? Levei um segundo para sacar o que ele estava perguntando de verdade. Ai meu Deus. Que trapalhada. — Não, gostar daquele jeito, não. Jesus. Não. Assim que eu disse isso, parecia que tinha mentido. Os braços de Christophe em torno de mim, o calor através das suas roupas, o cheiro de maçã temperada me cercando. A rudeza humilde de sua voz quando me abraçou, e meus lábios queimando, porque ele comprimiu seus lábios nos meus. Se eu preciso de um motivo, agora, Dru, terá de ser você. Mas havia também os dentes dele no meu pulso e sua velocidade assustadora e o deboche por baixo de cada palavra. Fiquei feliz por estar escuro. Meu rosto estava pegando fogo outra vez, o rubor transformando meu corpo inteiro em uma lâmpada na escuridão. Não podia gostar de Christophe daquele jeito, ou podia? Quer dizer, ele tinha conhecido minha mãe, E... — Ah, Está — e será que Graves me pareceu aliviado? O trovão reboou insatisfeito, ao longe.


— Quer dizer, ele conheceu a minha mãe — eu queria dizer alguma coisa diferente, tipo, Ele me dá medo. Só que isso ia ser uma bela queimada de filme na minha imagem de durona, né? E ultimamente essa imagem estava levando uma porrada atrás da outra. E se eu falasse em voz alta, talvez saíssem outras coisas. Do tipo, Quando ele me abraça, não é a mesma coisa de quando você me abraça. E quanto mais eu mexesse, mais ia feder, não ia? Não. Não gostava de Christophe. Não do jeito que ele estava me perguntando. Pelo menos, eu não queria gostar. E Graves jamais teria de saber sobre a palafita de barcos ou qualquer outra coisa. Eu já tinha decidido. Eu ainda estava corando. Quente de pegar fogo. — É — concordância silenciosa. — Posso perguntar outra coisa? Meu coração saltou. Ele parecia sério. — Você acabou de fazer isso. Mas vai em frente — uma baforada de leve me disse que ele estava sorrindo, e eu também dei um meio sorriso, na escuridão. Esperei. O silêncio se esticava. Por fim eu me mexi, inquieta. — Você está dormindo? — Não — ele também se mexeu, pondo os joelhos para cima e se virando para o lado, me apresentando as costas. — Desencana. Não é nada não. Ai meu saco. Meu coração despedaçou. Garoto tonto. Será que ele ia me perguntar se tinha mais alguém de quem eu gostava? Fiquei lá, deitada no escuro, ruminando a ideia. Minhas roupas estavam me incomodando, mas se eu tirasse qualquer uma delas, não ia dar certo. Quando eu me aproximei um pouco mais e escorreguei um braço por cima dele, ele ficou todo rígido de novo. Me aninhei mais perto e encaixei os joelhos atrás dos dele. Ele usava uma camiseta, então quando eu respirava formava um bolsão de calor entre as omoplatas ossudas dele. Aquilo parecia certo. O cabelo dele tocou o meu, e eu aspirei. Enfiei o braço debaixo da cabeça. Era um pouco desconfortável, com minhas roupas todas amassadas e suor seco na pele e tudo o mais rolando. Mesmo assim, com a chuva no telhado e o jeito como eu me sentia aquecida por dentro, em


vez de com frio e sofrendo, descobri que conseguia levar na boa. Não era o calor apavorante e ardente de ficar corando com Christophe por perto. Era um sentimento mais meigo. Como ficar sentada à distância correta de uma fogueira de acampamento, que aquece a gente perfeitamente, mas não muito. Menos doloroso. Menos intenso. Procurei pelas palavras. — Não, eu não gosto de Christophe. Estou me guardando para outra pessoa. Toda a tensão nos abandonou. Ele relaxou de uma vez, que nem um gato, e eu senti ainda mais calor dentro de mim. Quase grudento. — Outra pessoa? — o sussurro dele se partiu no meio e eu precisei me segurar para não rir. Alguém que não me assuste do jeito que Christophe assusta. Alguém com quem eu possa contar. — É, ele é um mané, mas eu gosto dele. — Nem é tão mané assim, se você gosta tanto dele — resmungou, mas dava para sacar que ele estava sorrindo. Bocejei bem ostensivamente. Soltei o ar, criando um ponto de calor nas costas dele. A queimação no rosto e na garganta, disse para mim mesma, ia sumir aos poucos. Estava escuro. Ele nunca ia ter de saber que eu estava corando. — Sem crise, Garoto Gótico. A primeira é grátis. Ele fungou uma risadinha, e eu sorri outra vez. Me senti bem. Meu coração foi de uma vagem seca e enrugada para algo mais, bem, do tamanho de um coração, dando pancadas nas minhas costelas. E fiquei lá deitada, escutando a chuva e a respiração dele por um tem— pinho, antes de voltar a cair em um profundo sono. Aquele calor de me deixar vermelha não me largava. Ficou me seguindo escuridão adentro. Mas quando acordei, de manhã, já tinha ido.


CAPÍTULO VINTE E CINCO

"combinação" eram três chalés grandes de madeira, de dois andares, construídos ao redor de uma saída de carros ampla e asfaltada, uma garagem imensa colocada atrás de um deles, e um grupo completo de lobisomens correndo ao redor. Descobri que estava em um dos "dormitórios para filhotes", no chalé central. Os acertos para dormir em uma combinação de lobisomens são meio que esquisitos — boa parte do pessoal dorme quando fica cansado, e os dormitórios existem para quando se precisa de certa privacidade. Quando acordei de manhã, Graves não estava lá, mas apareceu assim que eu descobri a passagem do lado de fora da porta do quarto, que levava a um banheiro e a mais quatro quartos. — Arrumei umas roupas limpas para você — o cabelo dele estava uma zona, e ele tinha cheiro de chuva, ar fresco e fumaça de cigarro. O brinco dele tinia alegremente para mim. — Talvez você queira se limpar. Esfreguei meus olhos e fiz uma careta: — Eu, provavelmente, estou fedendo. — Ná-não. Está com cheiro de você mesma — sorriu, os olhos verdes quase piscando. — O banheiro é lá. Usa qualquer escova de dentes, disseram. Vai ter café da manhã quando você estiver pronta. — Que horas são? — não tinha janela alguma, mas o som da chuva tinha ido embora. Ela batucava e resvalava pelo telhado. Ele socou uma pilha de roupas nos meus braços. — Umas sete. Você acorda cedo. — Meu sono está todo zuado. A gente vai embora logo? — engoli um


bocejo com as três últimas palavras, e o sorriso dele aumentou. O Garoto Gótico parecia bastante elétrico, levando tudo em conta. — E tem café aí? — Sim e sim. Christophe me mandou vir te acordar e te pôr para andar. A gente vai sair daqui em mais ou menos meia hora, assim que você estiver pronta e o sol tiver mesmo saído. Reprimi a ânsia de fazer mais perguntas. — Tudo bem — tirei o cabelo da cara. Os cachos se agarravam nos meus dedos. Provavelmente eu estava parecendo a Noiva do Frankenstein. — Então eu vou me apressar. As mãos dele voltaram a cair para os lados. Ele me olhou, eu olhei para ele, e um sorrisão idiota se espalhou pelo meu rosto, em resposta ao dele. — Que foi? — eu parecia mais incomodada do que estava de verdade. O incômodo só o fez alargar ainda mais o sorriso. Garotos são assim. — Nada — girou nos calcanhares, o casaco escuro e comprido esvoaçando uniforme, e se afastou quase aos saltos. O banheiro estava limpo, e eu me sentia bem desconfortável quanto a usar a escova de dentes de outra pessoa, mas quando parece que alguma coisa morreu na sua boca e você talvez matasse um cacto com seu hálito, isso coloca um brilho diferente na qualidade sagrada dos produtos de higiene pessoal. Era tão bom a água quente nas minhas costas que eu quase dei um grito, e a aparição interessante de machucados e ferimentos novos arranhava um pouco. Achei que estavam sarando um pouquinho mais depressa. Mas tinham muitos deles. Eu parecia um cavalo malhado. Incrível, mas as roupas novas couberam. Jeans, calcinhas, duas camisetas — uma azul, uma cinza — e um suéter azul que parecia bordado a mão. Nada de meias, nada de sutiã e minhas botas estavam escrotas. Eu, porém, me sentia tão bem usando roupas novas outra vez que nem ligava, mesmo tendo a sensação estranha de as roupas pertencerem a outra pessoa. Uma das coisas sobre se vestir em camadas é que a gente quase sempre tem suas próprias roupas para botar depois de uma noite ruim. Infelizmente, as minhas exalavam fumaça, sangue e terror, sem falar de terra e suor. Quase conseguia ver as "ondinhas de fedor" saindo delas. Minha sacola tinha sumido,


e eu me perguntava onde estaria. Essa pergunta foi respondida quando abri a porta do banheiro, abraçada às minhas roupas fedidas, mas dobradas com capricho e agarradas junto ao peito, e encontrei Christophe encostado na parede no fim do corredor. Ele balançava minha sacola de um jeito frouxo em uma das mãos e sorriu para mim, os olhos azuis faiscantes. — Pode deixar essas. Provavelmente estão estragadas. Seu olhar desceu, mas eu deixei minhas camisas engolirem o medalhão. Fazia com que eu me sentisse melhor do que colocá-lo contra a pele. — Lavando vão ficar como novas. — Além disso, eu não tenho muita roupa sobrando. Tentei não ficar encarando minha sacola. Meu cabelo pesava muito. Eu o tinha torcido para tirar toda a água que pudesse. — Você poderia me entregar, por favor? — É claro — me entregou a sacola e me livrou da pilha de roupas. — Então vou colocá-las dentro do carro. Você precisa comer. Siga-me — ele foi andando pelo corredor, rumo à porta e a um conjunto de escadas lavadas com a luz semelhante ao brilho de pérolas de uma manhã chuvosa. Pelo menos eu não estava corando. Tentei não pensar nisso. Ajudava o fato de ele estar ocupado demais para sacar. — Por que não tem janelas por aqui? — perguntei para as costas dele, que se curvavam para agarrar minhas botas. Ele nem sequer interrompeu as passadas largas. — Os nosferatu acham mais difícil entrar. E significa que os pais e as mães e os tios e tias podem defender seus pequeninos. Venha comigo, Dru. A cozinha era ampla, espaçosa, cheia de luzes e lobisomens. Era uma multidão, e eu vi as primeiras "lobas mulheres" da minha vida. Elas se moviam pela cozinha em ondas perfeitamente coreografadas, e alguns dos garotos e garotas estavam carregando pratos e travessas de comida para uma imensa sala de jantar com três mesas que pareciam ter, fácil, uns quatro metros e meio cada. — Bom—dia! — uma mulher de cabelos escuros, magra e usando um avental sobre o jeans e o suéter deu um passo para fora do fuzuê. Christophe tinha sumido naquela zona. — Você deve ser a Dru. E um prazer te conhecer!


— apanhou minha mão desocupada e me cumprimentou, observou meus pés sem meias e as botas carregadas de terra com um olhar rápido. — Eu sou Amélia. Bem—vinda ao nosso cantinho. — Hã — o barulho e a atividade bastavam para me cegar. — Alô. Oi. Café. Ovos assobiando em uma frigideira. Bacon. O som agradável de panquecas batendo numa chapa quente. Isso que eu senti é cheiro de suco de laranja e jalapeños22! Queijo cheddar? — Você deve estar esgotada. Por aqui — puxou para trás um punhado de cabelos castanhos-escuros brilhantes e me puxou para a sala de jantar, evitando com elegância as crianças tropeçando para trás e para frente. — Ah, que bom, couberam em você! Eu pensei que você era quase do tamanho da Danica. A gente tem umas meias em algum lugar por aqui, também, não se preocupa — parou e deu uma olhada rápida por cima do ombro. — A gente está feliz que você esteja aqui. E está feliz que você trouxe o Andy e os mais novos. — Eu não ajudei lá muito a trazer — arrisquei, desajeitada. Meu cabelo estava pingando no suéter, os cachos começando a se diferenciar da massa — Na maior parte do tempo eu estava apagada. Graves foi... — Ele disse que você foi tudo — a risada dela era como sinos. — Obrigada por ter trazido o Andy até a gente, e por confiar na gente. Somos fiéis. O jeito que ela disse, talvez com ansiedade, disparou um sinal de erro na minha cabeça. O dia de ontem era uma colagem de fotografias bizarras e vozes espectrais, e se eu pensasse demais naquilo, me confundiria. — Foi isso que ele... o Andy... disse. Eu, hã, valeu por deixar a gente dormir aqui. Como é que se diz para alguém, Nossa, valeu por deixar a gente fazer uma aterrissagem forçada aqui, talvez a gente esteja sendo caçado por vampiros doidões e um traidor da Ordem, e vocês estão arriscando suas vidas o bastante? Não conseguia achar as palavras, e algo tropeçou nos meus joelhos. Quando olhei para baixo, uma nenezinha sorridente, de pijama por cima de uma fralda caindo ria para mim, seus olhos negros animados e seu corte de cabelo castanho bagunçado. Ela 22

Espécie de pimenta mexicanas (N.T.).


agarrava meu joelho e dava um grito agudo. — Bella! — Amélia apanhou a nenezinha — Deus do Céu, quem é que devia estar cuidando dela? — Eu não — uma "loba garota" que passava com uma saia indiana larga e um suéter amarelo levou a bebê com desenvoltura. — Mas vou arrumar alguém. — Deus te abençoe, Imogen. Vem, svetocha, vamos arranjar alguma coisa para você comer. Você não é vegan, é? Quê? — Não — olhei a adolescente enfiar a bebê no quadril e mergulhei no fuzuê da cozinha. O nível do barulho era incrível. — Eu cresci nas Montanhas Apalaches. Sei lá por que eu disse aquilo. — É mesmo? Deve ser daí que vem seu sotaque — me levou para a sala de jantar adequada e, muito esperta, deu um tapa na cabeça de um garoto mais velho. Ele deixou escapar um latido. — Tire esses dedos do açucareiro e termine de comer seus ovos! Você aí, pare de provocar sua prima. E você, volte e esfregue direito essas garras! Era como ver um general num campo de batalha dando ordens à zoeira por meio da força pura do grito. Me lembrava do meu pai, de um jeito esquisito, e meus olhos arderam. Não contei para ela que qualquer que fosse meu sotaque, provavelmente era dos anos passados abaixo da linha MasonDixon, caçando com meu pai. E eu não acho que tenho um sotaque, só para constar. Todo mundo do Norte é que fala engraçado. Ela me deixou em uma mesa larga entre Graves e Shanks, que estava mastigando uma pilha de panquecas da altura da minha mão. Shanks me cumprimentou com a cabeça, o sangue já limpo de cima dele. Os ferimentos em seu rosto eram apenas sombras fracas. — Jesus, você está melhor — disse, sem pensar. — Falou tudo — pegou uma porção daquelas de panquecas encharcadas no melado e deu uma mordida enorme, e Graves empurrou um prato na minha frente.


Ovos. Bacon crocante. Três panquecas. Duas fatias de torrada de pão caseiro com manteiga. Também apareceram um copo de suco de laranja e uma xícara de cerâmica grande com café. — Come — o ombro de Graves trombou no meu. — É falta de educação não comer. Todo mundo tinha tomado banho, vestia roupas limpas e falava pelos cotovelos. Era como almoçar na Schola, só que aqui as pessoas eram educadas, sem os djamphir e os lobisomens rosnando uns para os outros. Os mais velhos comiam rápido, com gritos de desaprovação e conversando; daí pegavam seus pratos e liberavam uma parte da mesa, levando tudo para a cozinha a tempo de outra pessoa vir, sentar e começar a mandar comida para dentro. Tudo corria com precisão — até a limpeza, quando um jarro imenso de melado foi destruído de alguma forma. Era uma coisa incrível de observar, e Graves ficava me cutucando e me mandando comer. Foi o que eu fiz. Estava morrendo de fome, e a visão da comida de repente fez com que eu me ligasse nisso. Comecei a comer, e não percebi que estava engolindo tudo inteiro até pegar um gole grande de suco de laranja e quase engasgar. Meu rosto tinha molhado. Graves me passou um guardanapo e obviamente não olhou. Vi Dibs, a cabeça baixa e os ombros curvados, e alguns dos outros garotos que eu conhecia. Peter estava lá do outro lado da sala, franzindo o rosto enquanto devorava uma montanhazinha de polenta. Tinha um olho roxo recém—adquirido. Fiquei me perguntando como. Havia mais dois bebês, ambos com idade suficiente para sentar em cadeirões. Vi aquela que tinha agarrado meu joelho sendo rapidamente presa à cadeirinha conforme ia mastigando pedaços já cortados de panqueca. Ela sorria e gritava de alegria, amassando com a colherzinha de bebê o que tinha no prato. Os outros dois estavam pronunciando sons, e quem estivesse mais perto ficava de olho neles e resgatava os talheres e os copinhos com bico que tinham sido arremessados. Será que as famílias eram assim? Ou só os lobisomens que se alimentavam desse jeito? Curti aqui mais do que a Schola, mas era tãão barulhento! Revirei os dedos nas botas — Amélia tinha me dado um par de


meias soquete. Era quase patético o quanto um par de benditas meias me fazia sentir mais humana. Me peguei esfregando o volume do medalhão debaixo do suéter, e me forcei a descer as mãos até as coxas, como uma garota bem educada. Comi até não aguentar mais, então sentei com minha xícara de café e esfreguei minhas bochechas. As lágrimas não foram ruins, só quentes e constrangedoras. Nem sabia o porquê do chororô. Mas foi alto, me consolou e ninguém prestou muita atenção. Shanks ainda estava mandando ver na comida em um ritmo constante — uma tigela imensa de mingau, uma montanha de ovos, um punhado generoso de bacon e algumas fatias a mais de torrada. Viu que eu estava olhando e engoliu ligeiro, com um sorriso que mostrava os dentes: — Preciso sarar — disse, assim que a boca ficou vazia. — Vou com você. — Ah — concordei com a cabeça e dei um gole no café pelando. — Esse cretino imbecil acha que está me devendo uma — disse Graves no meu ouvido. — Peter teria me largado para trás, filho da mãe — Shanks gritou de volta, todo contente. — Por isso ele não sai dali. Dei uma surra nele hoje de manhã. Acreditei naquilo. Desocuparam uma mesa, que foi limpa a uma velocidade inacrediEstável, bem a tempo para um grupo de "lobisjovens" atrevidos, alguns com os cabelos molhados e roupas úmidas, chegarem em bando. Todos pareciam jovens, entre treze e vinte e poucos anos, mas dava para distinguir os mais velhos. Era algo sutil — o jeito de se mexer ou como os olhos eram calmos, em vez de dançando com entusiasmo. Não consegui descobrir; mesmo assim, não quis ficar encarando. Talvez se eu tivesse um bloco de papel e um lápis, podia fazer alguns esboços e descobrir o que era. Pela primeira vez em duas semanas minhas mãos estavam coçando para desenhar, uma necessidade repentina e feroz. Esfreguei os dedos da mão direita contra a xícara de café, tentando arrancar essa sensação. — Eles estavam vigiando, correndo pela floresta — gritou Graves na


minha orelha. — Estão de férias da Schola ao sul do Estado. Ninguém lá nem sabe que você existe. Meu estômago se fechou feito um punho, e Christophe apareceu na porta que dava para a cozinha. Um quase silêncio esquisito se espalhou, partindo das pontas da mesa mais perto dele, e Amélia surgiu, se inclinando e conversando atentamente com ele. Era engraçado. Até os lobisomens obviamente adultos pareciam só um tantinho mais velhos que os djamphir. Ninguém aqui parecia ter um dia a mais que 25 anos, tirando um pouquinho ao redor dos olhos. Não tinha me ligado com que rapidez eu tinha crescido acostumada a estar cercada de adolescentes. Eu podia até me perguntar onde estavam os adultos que lidavam com esse tipo de coisa, mas eles estavam lá. Só que em corpos que pareciam de jovens. Christophe concordava com a cabeça, seu cabelo com faixas loiras caindo descuidadas nos olhos. Joias de água grudavam-se nos fios e criavam gotas orvalhadas em seu rosto. Fucei na minha sacola e encontrei a transcrição, afastando meu prato com um empurrãozinho. O papel enrugou. Não dava para tirá-lo aqui. Putz. — Você vai comer mais? — Graves quase me deu uma cotovelada, olhando de relance para ver o que eu estava observando. — Estou cheia — disse, mas minha voz não fez bem seu trabalho. Precisei limpar a garganta e tentar outra vez — Estou cheia, já. — Coma enquanto você pode — Shanks mandava para dentro outra garfada generosa. Talvez a gente não tenha outra chance depois. Era um bom conselho. Tinha ouvido meu pai dizer isso antes. Só que meu estômago havia encerrado suas atividades e eu estava lotada. Christophe olhou de relance ao longo da sala, me viu e acenou com a cabeça bem de leve. A expressão do rosto não mudou. Disse alguma coisa a mais para Amélia, que tirou o cabelo do rosto e desamarrou o avental. Christophe sumiu de novo e Amélia estava vindo até nós do outro lado da sala de jantar, a testa franzida. Empurrei a cadeira para trás e me levantei, catando as botas e agarrando a sacola. Depois de alguns segundos de surpresa, Shanks e Graves fizeram o mesmo.


Eu conheço aquele olhar na cara de um adulto. É sinônimo de hora de ir embora.


CAPÍTULO VINTE E SEIS

carro era comprido, afilado e azul escuro, mais velho do que eu, embora em excelente forma. Meu pai ia gostar dele, e eu reprimi o desejo de abrir o capô, porque um lobisomem escuro e magrelo tinha acabado de fechá-lo com uma batida forte, dado meia-volta e observado todos nós de relance, bem ligeiro. Seus lábios se voltaram para baixo assim que viu Christophe, mas disfarçou bem. — Esse é Corey. Nosso mecânico — Amélia parecia orgulhosa. — Tudo o que ele toca corre como um sonho. O "lobo jovem" revirou os olhos. — Pô, mãe! — É verdade — insistiu ela, que parecia ter sete níveis diferentes de orgulho. Enganchou um braço sobre os ombros dele e o beliscou. Depois de uns segundos, ele se contorceu, querendo se livrar, e ficou vermelho. Dava para ver que, no fundo, no fundo, ele tinha gostado. Meu coração doeu. Respirei bem fundo e empurrei essa sensação para longe. Ele enxugou os dedos calosos com um trapo sujo de óleo e mostrou o carro com um gesto curto e elegante: — Dodge Dart 74. Um bom carro. O velho metal pesado americano corre até as portas caírem. Só fiz um ajuste e uma troca de óleo, verifiquei as luzes e tudo esta manhã. As placas são novinhas também. Então está tudo em ordem. — Muito bem. Mal posso acreditar que é o mesmo veículo — Christophe acatou com a cabeça, examinando a pintura como se


quisesse encontrar pontos de ferrugem. — Quanto mais tempo ficarmos aqui, mais perigoso para vocês. Amélia encolheu os ombros: — A floresta está cheia de armadilhas e temos avisos. Além do Submisso — sua boca se ajeitou e seus olhos ficaram frios — nada ficou se movimentando a noite toda, e estamos bem preparados caso eles encontrem seu rastro. Submisso? — Ash? Ele está aqui? — meu coração saltou até a garganta e eu escondi a vontade de procurar um lugar seguro para me esconder. — Onde? — Ele vem seguindo a gente — Shanks cruzou os braços. — Aquele canalha descuidado. Andando sorrateiro bem debaixo de cada rede. — Ele salvou minha vida — puxei minha sacola mais para cima no ombro. — Duas vezes, até. — Ninguém está brigando por causa disso — Christophe concordou, de forma sombria. — Mas é melhor não deixá-lo perambulando por aqui. Vamos, crianças. As chaves? Corey atirou-as para ele. — Esse carro está acelerando bem, e os freios grudam no chão. Vai na boa com eles. Christophe concordou com a cabeça, colhendo as chaves no ar e me olhando de relance. — Bom trabalho. Dru, você fica no banco da frente. Vocês dois... — Peraí um segundo! — uma listra loira surgiu de repente na chuva, fora da porta aberta da garagem. Quase jogou Shanks longe, que escapou com um passo rápido para o lado. Era Dibs, a mochila sacudindo, ele espirrando a água com pisadas fortes. — Me esperem! Também vou! — Não há espaço — Christophe andava empertigado ao redor da frente do carro. — Eu vou! — Dibs o encarava com raiva; em seguida lançou um olhar de relance para mim. — Diz para ele, Dru. Eu vou com vocês. Você precisa de nós. — Dibs, meu Deus do Céu! — Shanks não dava a impressão de ter


pensado muito no assunto. Graves só me olhou. Ergui uma sobrancelha; ele encolheu os ombros e puxou um maço de cigarros do bolso. O casaco dele tinha acabado de ser lavado, e também parecia ter sido passado a ferro. Surpresas nunca acabam. — Estamos partindo — Christophe abriu a porta do motorista. — Todo mundo para dentro. — Por favor, Dru — Dibs pulava de um pé para o outro. Parecia muito mais com um pássaro do que isso seria possível para um lobisomem. — Por favor. Por que ele estava pedindo para mim, caramba? Mas já que estava, eu ia topar. Eu não tinha muitos amigos, e ele se sentava do meu lado no refeitório. — Entra — falei para ele. — Vocês também. — Três lobisomens no banco de trás — resmungou Christophe. — No que a senhorita está pensando? — Ele tem formação médica — puxei minha sacola outra vez. E ele cruzou metade do Estado me carregando. Pelo menos, eu achava que tinha. — Ele é meu amigo. Graves me deu um olhar indecifrável, e Shanks caiu na gargalhada. Estava meio de saco cheio de garotos me tratando como se eu tivesse perdido o juízo. Dibs se enfiou no carro e se ajeitou no meio do banco de trás, onde se sentou e agarrou a mochila, a fim de se proteger. — Vamos embora — a irritação deixava as palavras afiadas. Christophe se jogou no banco do motorista e um instante depois o motor acordou, ronronando bem alto. — Muito obrigada — eu dava a impressão de ser formal de verdade. — Por tudo. Tomara que os vampiros não achem vocês. O sorriso de Amélia surgiu no rosto dela como a luz do sol, seus olhos castanhos aveludados se iluminando. Corey deu um passo para trás, os olhos percorrendo o carro como se quisesse mais algumas horinhas para ficar mexendo nele. — A honra é nossa — disse Amélia, e foi o mais bizarro: ela parecia afirmar aquilo com sinceridade. Em geral, as pessoas não dizem exa—tamente o que pensam. — Vão depressa e fiquem a salvo.


Desabei no banco da frente. O carro era uma banheira, e Christophe o embicou com gentileza para frente, rumo à cortina prateada de chuva. Acenei para Amélia, que enganchou o braço por trás dos ombros de Corey e o abraçou, apesar do "Aaaah, mãe!" dele, se contorcendo. Alguma coisa quente e anônima borbulhou na minha garganta. Engoli com dificuldade duas vezes, senti gosto de panquecas quando arrotei e fucei minha sacola em busca de um pedaço de chiclete. Não tinha nenhum, quando espiei de novo tínhamos deslizado suavemente entre duas das construções e estávamos sobre a pista asfaltada. O lugar tinha aparência de deserto, todas as janelas escuras. Imaginei se era de propósito. Christophe resmungou algo, o carro percorreu fácil pela chuva e os limpadores de para-brisa funcionaram. — Tomara que fiquem bem. Tinha de ficar remexendo no cinto de segurança. Às vezes, cintos de segurança antigos são esquisitos. O desembaçador estava ligado, e o carro todo cheirava a óleo de motor e a aroma seco e saudável dos lobisomens. E um quê suave de tortas de maçã, soprando em meu rosto quando Christophe se inclinava para frente para girar o dial do rádio. — Fiz o que pude para deixar nossa trilha confusa. E para me certificar de que nenhum dos rastreadores dele sobrevivessem para fazer relatórios. — Seu rosto se ajeitava, contrariando a si mesmo, enquanto a gente atravessava uma faixa única de asfalto marcada por buracos de todos os tamanhos. — Você acha que os vampiros vão encontrá-los? — me torci para olhar o banco traseiro. Dibs estava sentado totalmente ereto, piscando feito uma coruja. Shanks tinha se acomodado e fechado os olhos. Graves olhava atentamente para fora da janela, o maxilar apertado. — Não é com os vampiros que eu estou preocupado — disse Christophe, de um jeito sombrio. O rádio estalou. — Ache uma música, Dru. Temos uma longa viagem pela frente.


CAPÍTULO VINTE E SETE

epois de passar um tempão caminhando era estranho ver a estrada deslizando e sumindo suave por debaixo do carro. Os limpadores de para-brisa marcavam o tempo, para trás e para frente, e Christophe cantarolava com a estação de clássicos do rock que eu tinha arrumado. Também guiava na velocidade limite — nem um fio de cabelo acima ou abaixo. Shanks respirava suave, de olhos fechados, a boca um pouquinho aberta; Graves olhava compenetrado pela janela. Dibs chacoalhava para cima e para baixo de vez em quando. Fora isso, ficava quieto. Era, em outras palavras, uma atrapalhação total. Christophe também se mantinha nas rodovias menos transitadas. Sequer bateu os olhos em um mapa. Se fosse meu pai que estivesse no volante, eu estaria dando as coordenadas. Em vez disso, ficava ali, sentada e inútil, agarrando minha sacola e encarando o mundo molhado do lado de lá da janela. Arvores desfolhadas se espremiam perto do asfalto, seus galhos nus se esticando para agarrar o ar vazio. A água faiscava sobre a estrada, os pneus chiavam molhados e Christophe ficava aumentando o volume do rádio com ajustes minúsculos quando a música estava tocando, e baixando quando vinham os comerciais. Almoçamos em um vilarejo no ponto mais distante do município, uma pizzaria que aparentava já ter visto dias melhores. Todos os três garotos no banco traseiro se dirigiram direto ao banheiro assim que conseguimos uma mesa, significando que eu podia pegar o papel da minha sacola quando Christophe me levou até a mesa de plástico vermelho. — A não ser que você também precise usar o toalete, kochana — passou


uma das mãos pelo cabelo, sacudindo-o para remover as gotas aleatórias de chuva. — Tenho de falar com você — me sentei com tudo e, em seguida, passei para ele as folhas de papel. Tudo isso aconteceu na maior pressa, enquanto ele olhava para mim, os olhos azuis se estreitando. — Dylan me deu isso aqui, pouco antes de tudo... bom, é importante. Quando Anna me mostrou a transcrição, ela queria que eu pensasse que tinha sido você. E era uma versão editada — parecia que eu não estava sendo coerente. — Ela queria descobrir também o que eu sabia. Dylan disse que esta era a versão original do telefonema. Quando alguém entregou a localização da minha mãe. Christophe se abaixou para perto de mim na mesa e varreu os olhos no papel. Sua boca ficou completamente retorcida, os cantos puxando na direção do maxilar. — Ele lhe deu isso? Por um momento achei que tinha visto algo próximo à verdadeira idade dele, apavorante em seu rosto sem rugas. — Quando ele mandou eu me esconder, o sinal de Restrição tocou logo em seguida — que alívio contar isso a alguém, pelo menos tirava um segredo do meu peito. — Foi bom ele ter feito isso, caso contrário eles teriam me apanhado no meu quarto. — Eles? — seu disfarce deslizava através dele, o cabelo amaciando e escurecendo. Seus caninos queriam pular para fora. Respirou fundo e eles recuaram. Fascinada, eu admirava seu perfil. — Bom, o sinal da primeira aula tocou. Daí, um pouquinho depois, o sinal de Restrição. Me escondi num armário e os ouvi correndo por lá. Tinham de ser os nosferatu — a palavra ficava estranha na minha boca. Até mesmo agora eu contava uma meia verdade, mantendo um segredo. — Você estava indo às aulas, como uma boa garota? Não, eu estava em direção às colinas. Por que isso interessa? — Estava fora do meu quarto. Ali era igual a uma tumba. As duas folhas crepitaram um tiquinho. Sua mão tremia. — Anna — devagar, pensativo. Como se a palavra tivesse um gosto ruim.


Dobrou os papéis, os juntou de novo e os entregou para mim. — Hum. — Ela disse que você — engoli. Minha garganta estava seca — Ela disse que você era quem tinha feito a chamada. Acho que queria que eu não confiasse em você. Christophe enrijeceu. Seus caninos quiseram sair de novo, recuaram. — Eu nunca iria... — começou. Corri para interrompê-lo. A vermelhidão ameaçava subir pela minha nuca outra vez e eu não queria aquilo. — Já te falei que eu não acredito nela. Ela que queria isso, ela queria saber o que eu sabia. Se eu desconfiava de alguma coisa, se eu tinha te visto. A emoção submergiu. Dava medo de observar aquilo, o rosto suavizando e os reflexos loiros voltando aos cabelos dele. — Então. Milady está interferindo. Dylan também disse isso. — Quero saber o que é que está acontecendo. Ele abriu a boca, mas Dibs apareceu na mesa, alisando o cabelo úmido: — Vamos pedir de pepperoni? Christophe meteu a mão no bolso, puxou três notas de vinte dólares. — Pede uma pizza com carne e outra vegetariana, sem cebola e sem azeitona. E cinco bebidas. Pode ir. Dibs pegou o dinheiro e saiu aos pulos. A mão de Christophe virou um punho, repousando na mesa. Em seguida, relaxou com um esforço. A diferença entre seu rosto suavizado e o jeito que ele tinha para forçar a abertura da mão e afrouxar era irritante. — Deixe isso em segredo. Nós conversaremos mais tarde. Era difícil bancar a durona quando meu coração estava trovejando, e eu, suando. Dobrei os braços e fiquei encarando—o, comprimida e desconfortável na mesa. De repente me dei conta de que ele estava entre mim e qualquer fuga possível. — Quero saber agora. — Eu não sei o suficiente para lhe contar alguma coisa útil. Existe um traidor na Ordem. Nós sabemos até aí. Agora sabemos que o traidor está no alto escalão e que eu não era o alvo. Até então eu não tinha sido o alvo, só um


dano incidental. Passou a língua pelos dentes, e o disfarce recuou ainda mais. Seus olhos ainda estavam frios. Me perguntei por que eu alguma vez pensei que poderiam aquecer. — Como é que você sabe? — o limite da temperatura que eu sentia vindo dele era o calor estéril e desconfortável daquelas chamas com faixas azuis. Estremeci. — Isso é uma vingança. Os pecados dos pais atingem os filhos... embora sua mãe não tivesse culpa alguma. Pelo menos nisso, você tem a minha palavra — num movimento rápido e econômico, ele deslizou para fora da mesa. Não estava olhando meu rosto; olhava meu peito. Para aquele volumezinho debaixo do meu suéter. — Deixe isso de lado. Não fale a respeito onde outros possam ouvir. E, pelo amor de Deus, Dru... Fiquei esperando. Ele, porém, não terminou. Em vez disso, caminhou irritado para o balcão, onde Dibs estava sem fazer nada além de saltar impaciente e a mulher entediada trabalhando atrás do caixa-registrador apertava os botões numa lerdeza só. O aroma crocante e o tempero de tomate, queijo assando e o cheiro pegajoso que sempre preenche uma pizzaria se fechou à minha volta. Coloquei a transcrição de volta em minha sacola e descobri que as minhas mãos também estavam tremendo. Vá para a Schola, ele tinha dito. Lá você estará segura. Só que eu não estava segura em lugar algum, estava? E nem ao menos sabia o por quê. Por que alguém na Ordem odiava minha mãe o bastante para querer matá-la? E, anos depois, me matar? Jesus. Como é que você pode odiar tanto alguém dessa maneira e ainda ser humano? Ou mesmo até melhor que um chupa-sangue? Graves caiu com tudo na mesa bem perto de mim. — Opa! — ele tinha ajeitado os cabelos atrás das orelhas, e seu rosto ainda estava cheio de gotinhas, por causa da chuva de fora. — Você está legal? Está meio pálida. Ah, está tudo bem. Não. Me estiquei por baixo da mesa e agarrei a mão dele, deslizando os dedos pelos dele. Sua pele estava quente, e meu coração


disparou, pulsando de um jeito completamente diferente. — Está tudo errado — apertei os dedos dele com força. — Uma merda de tão horrível. Ele apertou de volta. Uma vermelhidão invadiu sorrateira suas bochechas amareladas. Debaixo da coloração oriental, ele conseguia, mesmo, mudar. — Nem tudo. A gente está aqui, certo? E a gente está a salvo durante o dia. — Pois é — um milhão de perguntas fervia dentro de mim. Desde Você se importa que eu estraguei sua vida? Até Você consegue se imaginar odiando alguém a ponto de vender essa pessoa a um chupa-sangue? — Opa. Calma lá — apertou com mais intensidade, parando bem próximo da dor. — Vai ficar tudo bem, Dru. Vai dar certo. — Não sei — eu encarava a madeira falsa do tampo da mesa, a superfície plástica descascando. — A gente não viu nenhum djamphir desde a escola. — É, eu tenho pensado nisso — seu tom de voz baixou para um mais confidencial. Fregueses entravam pela porta giratória de vidro como se lançados por um conta—gotas. — Dru, se começar a acontecer coisas... — Que tipo de coisas? — Você sabe do que é que eu estou falando. Se as coisas piorarem, Dru, eu vou com você. Senti uma câimbra de leve na mão. Nenhum de nós largava o outro. Ele respirou bem fundo, e seus olhos encontraram diretamente os meus, os círculos verdes ao redor das pupilas brilhavam, mesmo com as luzes acesas. A chuva revestia a porta da frente da pizzaria, sombras se mexendo como ervas daninhas debaixo da água. — Eu... — as palavras me faltavam. — E que eu estava pensando... Você está com a sua sacola e três suéteres. Você estava se mandando. Ai, Jesus Cristo. Abri a boca. Fechei. — Está vendo? Normalmente eu me incomodo com essas coisas. Mas eu acho que você pensou que ia me ajudar me largando em algum lugar que você achava que era mais seguro para mim do que para você. Acertei? Minha cabeça foi descendo. Levantei—a novamente. Parecia que eu


estava de queixo caído. — Não faça isso — ele se inclinou mais para perto, e o resto do mundo foi embora. — Tá legal? Não me deixe para trás. — Estão me procurando para me matar — sussurrei. — Você não sacou isso. E a real. E... — O que você acha que eu estava fazendo na escola? Batendo figurinha? — a irritação deixou agudo o sussurro dele, que estava no mesmo tom que o meu. — Comigo você tem mais chances, Dru. Não vacile outra vez. Se acontecer alguma coisa, somos você e eu contra o mundo. Sacou? Fui salva por Dibs retornando à mesa. — Não era para você pegar nossas bebidas? — fez brotar uma pilha de copos de plástico vermelho sobre a mesa. — Acho que aqui é o único lugar em três Estados que serve Mr. Pibb . Da hora, hein? — Total — Graves apertou minha mão por baixo da mesa de novo, de um jeito significativo. Depois largou-a e agarrou dois copos. — O que você quer, Dru? — E... Coca. Pepsi. Tanto faz. — Diet ou não? — quis saber Dibs. — Você está de zoeira? — Graves lhe deu um cutucão com o ombro, mas foi suave. — Essa merda vai te matar. Volto rapidão. *** Jantamos fast-food em outro vilarejo esquisito, e a luz estava sumindo quando Christophe, enfim, encontrou uma autoestrada da qual gostava. — E proibido fumar no carro — disse pela décima quinta vez. Eu estava contando. — Você está mesmo a fim de me ver com abstinência de nicotina? — Graves deu um tapinha no isqueiro, inspirou e expirou. Sua janela estava baixa, e o som de pneus molhados na rua somados ao zumbido do motor e ao vaivém dos limpadores de para-brisa, e os Rolling Stones cantando sobre um burro de carga23 no rádio. — Conta para ele, Dru. 23

Citação da música Beast of Burden (N.T.).


Revirei os olhos. Nenhum deles ia ver, mas isso me fez sentir melhor. — Desde quando eu fui indicada como referência? Eu odeio perguntar, Christophe, mas falta muito? — Estamos quase chegando a uma localização segura. Ou que passe por uma — girou a manivela para baixar o vidro um pouquinho e enrugou o nariz, e eu dei um gole no meu milkshake de baunilha. — Movimentações depois que escurece não são lá uma boa ideia. — Porque é quando os vampiros saem — disse Shanks, se intrometendo na conversa, uma ladainha que tentava ser assustadora e sarcástica ao mesmo tempo. — E eles gostam de devorar pequenas svetocha. — Vai cagar — encostei uma botina sobre o painel. Não era tipo uma viagem com o meu pai. Ele e eu conseguíamos ir eternamente sem conversar, só com meus comentários breves para ajudá-lo a se localizar pelos emaranhados de travessas e ruas superficiais. — Não me faça parar este carro — Christophe aumentou um pouquinho o som. Os Stones iam sumindo e os Beach Boys começavam a cantar sobre as garotas da Califórnia24. Shanks fez o som de quem ia vomitar. — Deus, quando é que vocês vão tocar uma música decente? — Que tem de errado com os Beach Boys? Brian Wilson era um gênio — batia o pé acompanhando o ritmo. —Amém — resmungou Christophe, e girou o dial do rádio, fazendo outro ajuste. — Agora calem-se todos. Preciso encontrar esse lugar. — Se você tivesse um mapa eu podia ajudar — não estava gostando desse lance de "não sei onde a gente está", mas Christophe tinha se recusado a comprar um mapa quando a gente parou num posto de gasolina, e eu tinha que economizar minha grana. Não sabia quando eu ia precisar. — Não é preciso — diminuiu a velocidade, ligou o pisca-alerta, passou por duas faixas e jogou a gente com tudo numa estrada lateral. Buzinas berraram atrás de nós, e eu quase derrubei meu shake. — Chegamos. — Deusdocéu! — agarrei meu copo de papel. — Qual o seu problema, caraca? 24

Citação da música California Girls (N.T.).


Os garotos lá atrás davam risadinhas debochadas, bem ao estilo troll de ser. Viramos à direita, depois esquerda, e mergulhamos em uma rua coberta por galhos sem folhas, que se encontravam no alto. Parecia até que tinha sido asfaltada lá pelos anos 1950, e as árvores marchando ao longo dela, de cada um dos lados, estavam molhadas, escurecidas e desfolhadas, sob um céu cinza metálico. A escuridão se aproximava. — Aquilo foi mesmo necessário? — coloquei a tampa de volta no meu milkshake. Tinha amassado o copo, que saco! — Quer dizer, de verdade? — Ruas mudam — Christophe virou o volante bruscamente outra vez e nos atirou numa passagem de carros coberta pela vegetação. — Na verdade, eu não tinha certeza, até ver aquela torre de caixa-d'água. — Muito bem, crianças. Todos para fora. Vocês vão encontrar a garagem destravada. Bobby, por favor, abra-a. Os garotos no banco de trás saíram em um trio, cambaleando, e eu estiquei a mão até a maçaneta da porta. A casa era estreita e sombria, com revestimento branco e um telhado pontudo. Tinha uma varanda envidraçada à prova de chuva. Folhas mortas cobriam o quintal da frente, que era minúsculo. A rua era silenciosa e tinha um quê de decadência elegante que a maioria das vizinhanças realmente antigas e caras têm. Aposto que a associação das vizinhanças ficava mesmo agoniada no Natal; talvez fizessem reuniões sobre alguém que não recolhia suas folhas. Devem ter adaptações moralistas por todo este lugar. — Dru — Christophe esticou o braço e agarrou meu pulso. Seus dedos eram quentes e muito duros, quase a ponto de me ferir. O milkshake sacolejou. — Você fica. Um tiquinho de escuridão se abriu, Shanks ergueu a porta da garagem como se não pesasse nada. O carro estava embicado para a frente, enquanto Christophe agitava a mão livre como quem quer expulsar alguém. Sorriu, os dentes brancos soltando faíscas. Quando o motor desligou, o silêncio era ensurdecedor. Era, porém, um silêncio familiar, que eu escutava sempre que o meu pai desligava o carro em algum local que supostamente seria nosso novo lar temporário. — Acho que é melhor você preparar a proteção do seu quarto esta noite,


já que você consegue fazer isso — Christophe puxou as chaves para fora da ignição. — E durma de roupa. Eu estava planejando fazer isso, de qualquer forma. — Tá. — Vou dormir perto da sua porta — me deu uma olhada de lado, os olhos azuis ardendo na penumbra, enquanto Shanks puxava a porta da garagem para baixo. Mal dava para abrir as portas do carro, e todo o espaço cúbico com piso de concreto estava vazio e nu. — Você entendeu? Não aposto um centavo que estou entendendo qualquer coisa neste exato momento. Estava cansada, o corpo inteiro me doía por causa de todo esse agito e por ter ficado sentada por horas e horas num carro e meu estômago estava infeliz por causa das fast-foods. Nunca pensei que ia sentir saudades da comida da escola ou de cozinhar minhas benditas refeições, mas isso estava acontecendo. — Acho que sim — tentei afastar sua mão. — Vamos. — Não até eu ter certeza de que você entendeu. Não traí sua mãe, Dru. Isso... isso não é possível. Ah. Era disso que ele estava falando? — Tudo bem, Christophe. Nesse ponto, eu tenho certeza que não foi você. Graves deu uns tapinhas na janela semiaberta do motorista. — Ô, Christophe, abre o porta-malas, beleza? Christophe me largou hesitando, e eu puxei com tudo a maçaneta da porta. Dibs já tinha aberto a porta de algo que parecia uma lavanderia, e a luz elétrica quente inundou tudo quando ele tocou o interruptor. — Cheira bem — o lobisomem loiro deu meia-volta. — Como se ninguém viesse aqui há algum tempo, mas as luzes estão funcionando. — Verifique cada quarto — Christophe se ergueu do carro com elegância, eu lutei para tirar minha sacola e fiz barulho ao fechar a porta. — Robert? — A caminho — Shanks subiu os degraus aos saltos e passou por Dibs, empurrando-o. — Para trás, Dibby. Deixe os profissionais trabalharem. Dibs fungou:


— Só me diz onde eu posso dar um mijão. Eu abstraí e me dirigi à abertura iluminada. — Quando é que a gente chega à Schola? Quer dizer, à outra Schola? — Amanhã, um pouco depois do meio-dia. Quero fazer isso em plena luz do dia, e quero que todos sejam capazes de vê-la. Dessa forma, você estará mais segura. Christophe deu um passo adiante, a tensão quente que invadiu o ar me deteve, e eu olhei por cima do seu ombro. Graves estava parado perto da traseira do carro, mãos nos bolsos de seu casaco comprido escuro. No entanto, não olhava para Christophe. Tinha o queixo inclinado para cima e estava me encarando diretamente. Suas íris eram anéis de fogo verde, as pupilas refletindo uma coloração verde-ouro bizarra. Que nem os olhos de um gato à noite. Os ombros de Christophe enrijeciam à medida que ele dava passos para frente, bem acima da barreira entre o "espaço" e o "espaço íntimo de uma pessoa". Graves não se mexeu. Christophe deu outro meio passo. — Você vai ter de sair do caminho. Seu tom de voz tinha uma ambiguidade suave. Eu, porém, já tinha visto muitos empurra-empurras brotando nos corredores de escolas. Todos os sinais estavam lá. Graves baixou a cabeça um tantinho. Olhou diretamente para o djamphir apenas durante dois segundos a mais do que faria se estivesse sendo educado, mas só um segundo a menos do que em um desafio de verdade. — O lugar é apertado. Ei, Dru, espere por mim. Desviei da alça da minha sacola, ajeitando—a ao longo do corpo. — Vai logo, Está? — minha voz falhava. Por algum motivo, não queria ver aqueles dois entrarem na mesma ostentação de força fútil e idiota que já tinha visto um milhão de vezes. Graves era um loup-garou, e Christophe, um djamphir. Lobisomens e djamphir ficam de provocação uns com os outros, a violência e o desprezo fervilhando logo abaixo da superfície. Tipo marombados versus nerds — não, não era bem assim. Tipo dois grupos de marombados, cada um com um


motivo para odiar o outro. E eu não culpava tanto os lobisomens. O jeito que os djamphir os tratavam não chegava a ser criminoso, embora passasse perto. Entretanto, tinha mais alguma coisa entre esses dois garotos. Algo traiçoeiro e que rosnava bem abaixo da superfície. Talvez tivesse a ver com o calor que surgia de mim, manchando meu rosto com fogo. Respirei bem fundo. Graves girou nos calcanhares. Dava as costas como forma de insulto, e passou bem perto do resto do carro. Fiquei parada, observando. Quando ele chegou até mim, esticou a mão e agarrou a minha. Seus dedos também estavam quentes, apesar de não machucarem. O som do porta—malas abrindo era bem alto, mas quando olhei para trás, de relance, a cabeça de Christophe estava para baixo. — Samuel. Venha me ajudar. Samuel? Pisquei. Dibs se voltou ligeiro. — Ok. Com certeza — passou por nós aos saltos. O carro gotejava, seu capô estalando enquanto o motor esfriava, e eu decidi que precisava, mesmo, estar em outro lugar. A chuva varria o telhado sem descanso. Puxei Graves pelos dois degraus que davam para a lavanderia. Havia uma máquina de lavar feia, verde-abacate, um tanque grande e mais nada. A cozinha depois dela também tinha poucas coisas, e eu sentia, mais do que escutava, Shanks rondando a casa. — Para que você fez aquilo? — sussurrei, mas Graves se limitou a sorrir, mostrando os dentes. Não com aquele meio sorriso dolorido e tradicional dele, nem com o luminoso e escancarado, que era o que eu mais gostava nele. Não, aquela era uma careta larga, de lobo, mostrando cada centímetro de dente que ele conseguia revelar. — Só para ele saber, Dru. Vou dar uma mão para o Bobby. Fica aqui, Está bom? — daí deslizou pelos meus dedos e se foi. Ah, pelo amor de — nem consegui terminar a frase mentalmente, de tão ridículo. Meu pai costumava cronometrar o tempo que eu usava vasculhando cada casa nova para onde a gente se mudava; também treinava fazer isso em equipe. Graves estava ficando todo machão, e olha que, uns meses atrás, nem


sabia que o Mundo Real existia. E isso aí, as coisas estavam mudando dentro dos conformes. Fiquei parada no meio de uma cozinha que parecia ter visto sua última refeição ser preparada lá pelos anos 1970, respirando e escutando os estalos da casa. As janelas estavam cheias da luz magoada e enfraquecida do anoitecer. Eu conseguia ouvir cada um deles, lobisomens e djamphir, do mesmo jeito. E ainda me sentia completamente sozinha. *** A Schola pegava fogo à minha volta, enquanto eu corria. Meus braços e minhas pernas pesavam demais. Era como correr sobre melado — não com a transparência nítida na qual o mundo se transformava quando o músculo dentro da minha cabeça flexionava, mas uma maré de terror tingida de marrom que arrastava cada milímetro de carne. Estavam atrás de mim. Podia ouvi-los uivar, algo entre o grito inexpressivo e odioso de um vampiro e os urros de um lobisomem enfurecido. Corriam muito próximos uns dos outros, as botas batendo no piso em um ritmo de fanfarra, e as paredes encolhiam e queimavam para longe do som. Havia portas em cada um dos lados do corredor. Tropecei nelas, puxando várias vezes as maçanetas, mas todas estavam trancadas. Meus dedos ficaram chamuscados, e enquanto eu batia em cada porta com insistência, podia ouvir os garotos gritando atrás delas. A fumaça dava ferroadas em meus olhos e enchia meu nariz. E eles estavam lá por minha culpa, porque as coisas que estavam atrás de mim nem ligavam para quem machucassem. Era tudo minha culpa, assim como com o meu pai. Ele estava morto porque eu não tinha contado a ele sobre a coruja da minha avó, e a minha avó estava morta porque eu não passava de uma criança e não conseguia salvá-la, e minha mãe estava morta também porque... — Dru! — um sussurro feroz. Foi por minha causa, tudo por minha causa, e os rosnados e gritos estridentes aumentavam à medida que o corredor esticava rumo ao infinito e as passadas cruéis e opressivas se aproximavam. Não tinha para onde virar no corredor, e a qualquer momento eles iam conseguir me ver. As chamas assobiavam e sussurravam, vozinhas sujas e estridentes que chegavam dentro da minha cabeça e arranhavam as curvas do meu crânio até


deixá—lo seco. — Dru! Acorda! — tinha alguém me sacudindo. Sentei, fiquei na vertical, agarrando o espaço vazio, e engoli um grito. Graves segurava meu ombro, seus dedos fincados enquanto evitava meus golpes. O colchão daqui era fino e frio, colocado diretamente no chão, mas era melhor do que o andar de baixo — pelo menos tinha carpete nos quartos. — Opa — os olhos de Graves brilhavam. As venezianas da janela não estavam inclinadas para cima ou para baixo, e a luz tímida da lua brilhava por entre elas, lutando contra a iluminação da rua. A chuva tinha parado. — Você estava sonhando. Me atirei para agarrá-lo. Ele pôs os braços em torno de mim e apertou. Meu coração pulsava com tanta força que ameaçava sair pela garganta. Graves tinha aberto o zíper de dois sacos de dormir e colocado o casaco por cima de nós dois, e aquilo me surpreendeu pelo conforto até que eu, parece, comecei a espancá—los e chutá-los longe. Enterrei a cara no espaço entre o ombro e o pescoço dele e senti seu cheiro. Fumaça de cigarro, o desodorante que usava (qualquer um que fosse), o quê de loup-garou. Ele me abraçava, e não parecia uma coisa atrapalhada até que ele deu uns tapinhas desajeitados nas minhas costas: — Dru. — Que foi? — meu sussurro se partiu ao meio e caiu pela camisa dele. Soltei o ar, depois peguei. Não se mexa. Só por um segundo, não se mexa. Deixa eu fingir que posso contar com alguém. O pensamento se foi assim que surgiu. Empurrei-o depressa para longe. Ultimamente vinha fazendo isso bastante. Tipo um jeito de lidar com a situação, e era um saco. Seus braços se comprimiram em volta de mim. — Tem alguma coisa lá fora. Inclinei de leve a cabeça, tentando ouvir. Meu coração estava muito barulhento para eu conseguir ouvir de verdade. Engoli outra respirada bem funda e tentei me acalmar. — Tem som de quê? Um rangido súbito veio da porta. Como se alguém que estivesse se


apoiando nela acomodasse o peso. Christophe não tinha dito uma só palavra quando Graves me acompanhou pela escada. O que, provavelmente, era um bom sinal. — Como se estivesse tentando ficar quieto. Só que eu consigo ouvir. Meio que uma respiração — Graves se ajeitou de novo, meio desconfortável. Tentei largar dele, mas ele ainda se mantinha abraçado a mim. Meu coração começou a bater um tiquinho menos depressa. Eu estava suando. As linhas finas e azuis de proteção nas paredes brilhavam com suavidade e transmitiam segurança, sem faiscar. Minha avó teria orgulho de mim. Já fiz essa proteção algumas vezes sem usar a varinha de tramazeira dela. Engoli o volume de dor na garganta. O sonho persistia dentro da minha cabeça, os gritos e o incêndio, de algum modo, tão reais quanto os braços de Graves em torno de mim e o som da minha respiração, rápida e áspera. — Sapatos. — Quê? — inclinou a cabeça. — Calce os sapatos. E me passe os meus — me contorci para longe dele e achei minhas botas bem no lugar em que as havia colocado, logo ao lado do colchão. Um puxão duplo e rápido enfiou meus pés dentro delas, e eu agarrei minha sacola, deslizando a alça por cima da cabeça. A pistola ainda estava lá dentro. Fiz estalos muito altos ao conferir o carregador, ao encaixá-lo de volta e ao soltar a trava de segurança. Graves encolheu os ombros ao vestir o casaco. Soltei o ar suavemente e andei ajoelhada até a janela. Minhas costas doíam, mas não tanto quanto poderiam. Talvez eu estivesse sarando. A sensação de óleo quente do disfarce me amaciava, e o medalhão pulsava, me trazendo segurança. O quarto ficou mais brilhante. Quase bati os olhos no teto para ver se a luz estava acesa. Só que eu sabia que não estava. Era eu que estava enxergando melhor. Cheguei à parede perto das venezianas, me movendo aos poucos, com cautela, e resolvi que podia espiar lá fora. O quarto estava escuro, e ninguém iria me ver observando o lado de fora — ou eu esperava que não. Olhei para fora e descobri o que estava errado. Não senti gosto de


laranjas de cera e perigo na língua. O que quer que estivesse do lado de fora, não eram chupa-sangues. Então poderia ser alguma outra coisa. Ou podia ser, sabe como é, todos nós nervosos numa casa estranha. Fica quieta, Dru. A obrigação de permanecer em silêncio me pregou no lugar, meus olhos concentrados na porção estreita do teto e em três galhos que eu conseguia enxergar — então alguma coisa se mexeu, deslizando sobre a beirada do telhado com uma elegância silenciosa e aterrorizante. Meu fôlego saiu suave e admirado. A forma era delgada e comprida, graciosa e peluda. Uma listra branca se mexia suave em sua cabeça estreita. Era Ash. Em cima do telhado, ele deu uma paradinha, três patas para baixo e uma para cima, numa imitação apavorante do jeito que um gato para no meio de um passo quando algo chama sua atenção. Os brilhos alaranjados de seus olhos cessaram por um momento, e seu corpo todo desabou nas três pernas. — O que é? — sussurrou Graves. Não olhei para ele, mas conseguia adivinhar que ele sabia que eu tinha visto algo. Quem sabe era a minha cara. Com certeza parecia engraçada, ossos debaixo de uma pele pulsando, enquanto eu ficava paralisada, espiando o lado de fora entre os vãos das venezianas. O corredor do lado de fora do quarto tinha um silêncio de morte. Se Christophe estava se mexendo, eu não conseguia ouvir. — Dru? — Graves deu um passo adiante. Uma tábua do piso resmungou debaixo de seus pés. A cabeça estreita e canina de Ash deu um tranco para cima e virou depressa. Ele me encarava diretamente, por um momento que pareceu interminável, e a voz segura do instinto falou dentro da minha cabeça. Dei dois passos para o lado e agarrei o fio, puxando com tudo as venezianas com um som que dilacerou o silêncio sonolento. — Dru! — desta vez foi Christophe, abrindo a porta de uma só vez. Eu, porém, já tinha destrancado a janela. Puxei-a várias vezes e, maravilha das maravilhas, não estava presa com tinta. Ela se ergueu com um guincho assim que Graves gritou e Christophe xingou.


Ash entrou pela janela aos tropeções. Deixou marcas escuras no telhado e nas molduras da janela. A noite, o sangue parece ter a cor preta, e ele estava coberto daquilo. Ele todo, de comprido, atingiu o piso com uma pancada úmida. A mesma certeza anônima me fez ajoelhar ao lado dele. O ar gelado da noite despejava-se pela janela. Ash fez um som suave de cachorro quando toquei sua cabeça felpuda. Um latido quase rosnado que diminuiu no finalzinho, como se ele estivesse cansado demais para terminar. — Dru — Christophe, com o tom cauteloso de um adulto dizendo para uma criança não acariciar o totó bonitinho babando de raiva. — Dru, malutka, pequenininha, afaste-se. Ouvi um clique, e nem precisei olhá—lo para saber que ele tinha puxado uma arma. Quem sabe era a mesma espingarda com a qual ele tinha botado Ash para correr uma vez. Que droga, que é que eu estou fazendo? Mas Ash tinha salvado minha vida duas vezes. Não parecia certo deixar Christophe atirar nele. Assim como não parecia certo largar Graves para trás quando ele tinha sido mordido. — Ele está ferido. O lobisomem fez outro som cansado e virou a cabeça bem de leve para mim. Ele suspirou. E o pensamento desconfortável me veio à tona — e se eu tivesse largado Graves para trás? Quantas vezes ele também me salvou? Christophe engoliu de um jeito que dava para ouvir: — Dru, moja ksiezniczko, por favor. Afaste-se dele. O pelo ficava incrivelmente sedoso quando não estava emaranhado com água, sangue e sujeira. Toquei a listra branca, e Ash fez um som agudo e tremido. — Ele está ferido. Ele salvou minha vida na outra... — Ele é perigoso, como qualquer outro Submisso. E provavelmente ele os conduziu direto até você. Afaste—se que eu vou acabar com o sofrimento dele. Me inclinei sobre a cabeça de Ash. — Pelamordedeus, Christophe, me escute. Nós temos de ajudá-lo. Ele salvou


minha vida e... — Ele pode ter feito isso por uma série de motivos... — O mesmo vale para você — ergui os olhos. Os dele faziam tudo, menos brilhar, um céu de inverno. Graves tinha levantado as mãos e estava parado em um dos lados, olhando fixamente para Christophe, de perfil com a arma. Era a arma, a mesma que ele tinha usado antes. E estava apontada na minha direção. Um fio de medo correu pinicando pela minha coluna. A extremidade da arma parecia bem grande e bem preta quando fica olhando para sua cara. — Christophe — disse Graves, com bastante calma. Um rosnado chacoalhava debaixo das palavras. — Baixa essa merda dessa arma. — O que você vai fazer? Saltar sobre mim? — Christophe bufou. — Cale a boca, cachorrinho, e deixe os adultos conversarem. Dru, kochana, por favor. Eu imploro, afaste—se do animal e deixe eu me livrar dele. — Os espaços entre suas palavras ficaram mais esquisitos, e, mais uma vez, me perguntei, de um jeito sem noção, quantos anos esse cara tinha, cacete. — Não vou. A gente vai ajudá-lo — olhei para o cano oleoso da espingarda, sua protuberância mortífera. Meus dentes formigaram, ficando subitamente sensíveis. — E eu acho melhor fazer isso depressa. O rosnado zumbido no quarto não vinha de Ash. Um estalar de ossos mudando de forma, e a densidade varria o ar como o som suave das asas de um pássaro. E o gosto das laranjas de cera brotou no fundo da minha língua. Christophe olhou para cima, um movimento veloz, como o de um pássaro, e largou o cano da arma na direção do piso. — Hora de ir. Ele os trouxe até aqui. Malditos sejam, por Deus e pelo demônio — virou-se bem depressa num dos calcanhares — Robert! Samuel! Acordem! Era "da hora" vê-lo gritar comandos. Ainda mais da hora era Graves recurvando os ombros, os olhos brilhando verdes. —Dru? Meu nome saía meio zuado, porque o maxilar dele estava se transformando.


— Venha até aqui — tentei não parecer meio morta de medo, agachada sobre um lobisomem ferido e sangrando. — Me ajude. Ele está bem zuado. Ash fez um movimento convulsivo. O sangue esparramava pelo piso, e um som baixo de agonia escapou de seu focinho. Seus dentes pareciam bem afiados e muito brancos. Suspirou e afundou no chão como se não tivesse nenhum osso. — Graves? Ai, por favor, não perde a cabeça agora, não, por favor. — Hora de ir — rosnou Christophe diante da porta. — Lá para baixo, Dru. Já. — A gente vai levar ele junto — olhei para Graves, desejando que ele me ajudasse naquilo. As estaladas desapareceram. Com três passos largos, ele acabou perto de mim e do lobisomem de cabeça listrada. Ajoelhou com cuidado e eu pude ver o quanto ele tinha ficado pálido debaixo do amarelo oriental. As mãos tremiam quando ele as esticou e apanhou um punhado da pelagem ensanguentada. Foi quando me liguei que Ash era quem tinha mordido Graves. — Me ajude a botar ele em pé — queria pedir desculpas, mas não havia tempo. Porque as linhas azuis e finas de proteção na parede tinham começado a faiscar e correr juntas de um jeito ansioso, sentindo a aproximação de algo hostil. — Jesus Cristo — disse Graves, sem fôlego, e ergueu o braço de Ash. — Está certo, Dru. Está certo. Tudo bem. Ah, graças a Deus. Porque eu não ia saber como agir se ele não me apoiasse. Entre nós dois, a gente tinha erguido o lobisomem. Estava pendurado feito roupa saída da lavanderia, além de pesado e ensanguentado. O cabelo de Christophe ficava escorregadio e escuro, à medida que o disfarce se desdobrava sobre ele, os caninos tocando o lábio inferior e os olhos incandescentes. — Se você está achando que eu vou... — começava ele.


Como resposta, Graves rosnou de verdade, um som profundo e zumbido: — Cala essa porra dessa boca se você não vai ajudar — deu um passo para verificar, e o peso de Ash ficou mais fácil de lidar. — Vamos, Dru. Soltei o ar, um soluço de alívio. Andamos para frente, Christophe dando apoio, e eu ouvi um grito estridente e odioso se erguer ao longe. Raspava dentro da minha cabeça, sinônimo de que os vampiros tinham nos achado. E a gente estava seguindo em frente.


CAPÍTULO VINTE E OITO

as que m...? — o queixo de Shanks literalmente caiu, e Dibs deixou escapar um guincho super agudo, que teria sido engraçado se eu não estivesse sem fôlego, na real, de ter carregado um lobisomem inconsciente escada abaixo. — Mexam-se! — berrou Christophe, e os dois saíram no maior pau. Já tinham enrolado seus sacos de dormir e juntado o resto de suas coisas. Dibs enfiou tudo nos braços de Shanks e fuçou na própria sacola. — Como é que essa coisa vai caber no carro? — quis saber Shanks, mas estava se movimentando. Christophe lhe atirou as chaves. — Eu é que vou dirigir? Merda! — Depressa — Christophe girou nos calcanhares. — Coloque-os no carro. Ponha—a no banco de trás e me apanhe no jardim da frente — daí ele se mandou, deixando um brilho pairando no espaço onde ele tinha acabado de estar. A porta da frente se abriu e o cheiro da manhã entrou com tudo pelo corredor. Para o amanhecer, porém, faltava muito tempo. — Bora, mocinhas — Shanks partiu para a garagem, os braços cheios de roupas. — Vamos sair daqui. A cabeça de Ash ficou pensa. Eu quase caí fazendo—o descer os degraus até a garagem, mas Dibs deu um passo adiante com um sonzinho de cuspida e diminuiu o peso para mim. Eu meio que caí para o lado, me segurando com a ajuda da parede, e escutei uma quebradeira no andar de cima, algo que sacudiu a casa toda.


Shanks fechou o porta—malas com tudo. Mais estrondos enchiam o andar de cima. — Para dentro! Dru, banco de trás. Entra com eles! Entre Dibs e Graves, colocaram Ash no banco de trás. Me alojei do outro lado, Shanks bateu a porta do motorista e o motor ganhou vida enquanto eu me contorcia e fechava minha própria porta com um baita puxão. Graças a Deus que o banco traseiro era grande — se a gente estivesse guiando um carro importado, alguém teria de ficar para trás, algo que não seria bonito. Per aí, como é que a gente vai... Shanks engatou a marcha ré, soltou o freio de mão e detonou a gasolina. A porta da garagem era de compensado bem delicado, e explodiu em estilhaços e lascas. Os pneus morderam o cascalho, Shanks fez uma curva bem fechada e a gente deslizou até parar no meio da rodovia, faltando um fio de cabelo para bater num carro estacionado. Acendeu os faróis dianteiros e deixou escapar um sonzinho de "Uffff!" —Jesus — gritou Dibs, procurando seu estojo médico. — Mantenhamno abaixado! Ash estava esperneando. A cabeça dele se mexia rápido para trás e para frente em meu colo, dentes brancos mastigando, e eu me estiquei para segurá—lo. Graves se dobrava sobre o meio dele e a porta da frente do passageiro se abriu. — Vai! — Christophe bateu a porta e girou imediatamente, apoiando os joelhos no assento. Seus olhos pairavam por mim, enquanto seu ombro se mexia, e o ar frio se derramava dentro do carro. Usando a manivela, ele descia o vidro da janela. Shanks engatou outra vez a marcha e enfiou o pé no acelerador. O carro saltou para frente. Olhei de relance pela minha janela e vi que a casa estava fervilhando com silhuetas escuras se mexendo velozes demais e com uma elegância muito apavorante para serem humanas. Um facho de chamas de cor azul faiscou bem alto no telhado e desabrochou como uma flor. Uma das silhuetas escuras saltou para o jardim e correu rumo ao carro. Tudo estava rolando muito devagar. Os dentes de Ash estalaram, e Christophe tinha a espingarda apoiada no ombro, ajoelhado de um jeito impossível no


banco da frente. A arma disparou uma vez, um trovão que levou Ash a ter convulsões mais agitadas. Minha sacola, prensada do meu lado, se enfiou nas minhas costelas. Se eu pudesse largar o lobisomem em meu colo, ia conseguir baixar o vidro da janela e também disparar nas coisas que vinham nos perseguindo. — Fique calmo — minha voz se perdeu no ronco do motor. Me curvei por cima da cabeça de Ash, repetindo, tentando não gritar. — Fique calmo, fique calmo, a gente está tentando te ajudar. Ui! — o carro deu um tranco por cima de uma lombada, o motor roncou e a gente rodopiou, numa curva de queimar borracha. — Mais rápido! — a espingarda disparou outra vez. Christophe se mexia, forçando—a para baixo, perto do assento, e puxando uma 45 semiautomática parecendo bastante eficiente. Era um verdadeiro canhão, e ele também verificou o carregador como um especialista. — Caramba, Bobby, ultrapassa o limite de velocidade! — Já estou ultrapassando! — Shanks gritou em resposta, mas o carro deu uma bela acelerada e saltou para frente outra vez, o motor dizendo: Sinsinhôr, eu sou um metal pesado americano e nós podemos movimentar essa coisa, sim, nós podemos, só me dá um segundo. — Fica calmo! — berrei, e Ash acalmou. A cabeça dele estava pesada e molhada de sangue. O cheiro dele era terrível. O gosto de laranjas de cera apodrecendo dentro da minha boca aumentava, e eu morrendo de vontade de vomitar ou cuspir. Christophe se mexeu. A janela estava inteirinha abaixada, e ele botou a cabeça e os ombros para fora. — Que é que você está fazendo, cacete? — o grito de Graves quase se perdeu por baixo do rugido da ventania. —Merda! — gritou Shanks, e eu olhei para cima. Os faróis perfuravam a escuridão, e por um momento eu me confundi antes que o carro começasse a rodar e eu percebesse que a gente estava em uma rua de mão única. No escuro. Indo na direção errada. E Christophe, com toda a tranquilidade, enganchava uma perna por cima


do encosto do banco do passageiro, sentando na janela como se tivesse assistido um nĂşmero excessivo de reprises do seriado Os GatĂľes, disparando tiros atrĂĄs da gente.


CAPÍTULO VINTE E NOVE

rodovia! Pega a rodovia! — meu cotovelo acertou uma pancada no rosto de Ash. Inclinei para frente e gritei. — Para direita, para direita, pega o desvio! O DESVIO! — CALABOCAl — Shanks puxou o volante com tudo. Caímos na rampa que dava para o desvio a uns 110 quilômetros por hora pelo menos, e os xingamentos dele tinham uma criatividade impressionante. As luzes da rua zuniam por nós. Alguma coisa acertou o porta-malas e o carro derrapou, ficando na direção correta. Engasguei; mais uma vez o gosto de laranjas de cera apodrecendo me enchia a boca, e rezei para que eu pudesse cuspir. Um ponto de frio violento desabrochou em meu peito, e me encolhi. Um peso fora do normal desabou arrebentando a parte de trás do carro. Graves, Dibs e eu gritamos, um coral de três pessoas surpresas e aterrorizadas. O vidro não se partiu por completo, e a arma de Christophe falou mais uma vez, enquanto sua perna se soltou, quase se libertando, do encosto do banco. A botina em seu pé por pouco não pegou minha cara. Joguei a cabeça para trás e percebi uma impressão confusa de sombras, olhos vermelhos brilhantes, uma ondulação de cabelos cor de metal e um ponto de luz laranja com azul no meio. Era a Incendiária. Sua mão vinha repleta de chamas, e ela olhava através do vidro estilhaçado, os olhos cheios de um fogo rubro e maldoso. Ela gritava, um tom crescente de fúria, e Christophe disparou novamente. O carro deu um zigue-zague e o peso da vampira foi atirado longe. A janela de trás inteira estava estilhaçada. As chamas com fios azuis sibilavam entre as rachaduras e iam morrendo enquanto eu deixava escapar o ar em


arfadas curtas, minha pele pinicando com o calor do disfarce. A perna de Christophe se mexeu de novo. Ele deslizou de volta para dentro do carro e a primeira coisa que fez foi largar a arma, se apoiar no assento e agarrar meus ombros. — Você está bem? Dru? Você se machucou? Mas que m... — Estou legal! — precisei elevar minha voz esganiçada acima do zumbido do vento que vinha da janela. Shanks ia costurando naquele mínimo de tráfego. Felizmente a gente estava indo na direção certa — a única coisa na nossa frente eram luzes traseiras. — Você está bem? Fez que sim com a cabeça. O disfarce recuou, faixas loiras deslizando para trás em seus cabelos, à medida que o vento os beijava. Não largou meus ombros. — Diminua, Robert. Era a Incendiária, e ela não vai incendiar mais nada. Não agora que só sobrou metade dela. — Tudo bem — a ferocidade que enchia o carro relaxou um tiquinho. — Jesus. Tem certeza de que a gente está a salvo? — Certeza o bastante. Mas não pare por algum tempo — Christophe me examinou todinha e seus olhos caíram sobre a cabeça do lobisomem no meu colo. A iluminação da rua e o brilho refletido do farol dianteiro espalhavam— se, refletindo no rosto dele. — Você devia tê-lo deixado para trás — seus lábios formavam as palavras, mas elas se perdiam no vácuo. Meus dedos ainda se emaranhavam no pelo de Ash. Meu queixo levantou um pouco e meu rosto se acomodou. Fiquei encarando Christophe, meu olhar caminhando por seus traços perfeitamente proporcionais. Eu conseguiria desenhá-lo se ao menos tivesse tempo e papel. Mas como captar o modo firme como ele me observava, os pensamentos se movimentando por trás do frio azul de seus olhos? Meu coração ainda não tinha parado de bater forte. Mas, graças a Deus, não fiquei vermelha. Estava aterrorizada demais. Uma barreira de vidro de automóvel entre mim e a chupa-sangue lança-chamas. Jesus. — Ele está sedado — disse Dibs. — Não posso aumentar a dose, mas o que já foi ministrado deve mantê-lo calmo. Por que é que ele não se


transforma? — Ele não pode se transformar, é isso que significa ser submisso — os olhos escuros de Shanks sacudiam no retrovisor, que tinha ficado torto graças a uma pancada ocorrida naqueles últimos quinze minutos de correria. Ele arrumou o retrovisor assim que o carro diminuiu um pouquinho a velocidade, chegando ao limite respeitável de 96 quilômetros por hora, em vez de rodopiar animalescamente a mais de 110. — Sério isso? Que merda! — Dibs se encolheu de verdade, como que esperando Ash acordar e começar a criar confusão. — Por que, tipo assim, hã, ele é o cara? O cara de quem a gente estava falando? O último Cabeça de Prata? — É — concordei com a cabeça, mas meus olhos não desgrudavam do rosto de Christophe. — E o Ash. A gente vai ajudar ele. O quanto a gente puder. Falta muito para chegar à Schola? O djamphir me soltou. Ficou me examinando por mais alguns instantes, para depois escorregar para o seu assento e levantar o vidro da janela. O quase silêncio repentino era ensurdecedor. — Agora não falta muito. Continue rumo ao sul. Daqui a uma hora mais ou menos chegaremos à via expressa. — Não pensei que a gente fosse parar para um cafezinho — Shanks bocejou, mas ainda ficava de olho no retrovisor de quando em quando. Será que estava olhando para mim? Ou para Ash, afundado de comprido no colo de todo mundo no banco de trás? Para Graves, que tinha se endireitado e agora olhava para a frente, com um músculo do maxilar pulsando? Ou para Dibs, que estava pálido de choque enquanto fuçava o estojo de primeiros socorros? Ou, quem sabe, só ficava olhando a janela de trás, onde a marca do punho de um vampiro ainda aparecia no vidro quebrado, bem acima da minha cabeça, com pedaços se fundindo, como se tivesse sido beijado por um maçarico. O que teria acontecido se aquela mão tivesse atravessado? Não queria pensar naquilo. — Não sei se a gente pode com ele no carro. Christophe soltou uma risadinha distante.


— Continue até o sol nascer. Um problema de cada vez. Era um bom conselho. Olhei para baixo. Ash tinha parado de sangrar. Os cortes e talhos em sua carne estavam começando a fechar. Ver um lobisomem sarando é arrepiante; a gente tem a sensação de que, se olhar para outro lado, a pele irá repuxar e o dano vai se desfazer sozinho, como em algum filme ruim. O silêncio e o desconforto enchiam o carro quase suavemente. Soltei o ar de um jeito longo e uniforme. Meus ombros doíam. Fiquei observando a parte de trás da cabeça de Christophe. Ele tinha passado os dedos de novo pelas mechas loiras, e os reflexos voltavam a seus lugares. Como é que ele tinha aquela aparência certinha o tempo inteiro? Não era algo normal, que coisa. Só que, até aí, eu também não era, né? Desgrudei minha mão da pelagem de Ash, cheia de sangue coagulado, e estiquei o braço. Graves agarrou meus dedos e, quando ele apertou, um tranco muito quente de alívio endireitou meu braço e explodiu em meu coração. — Quase lá — disse para o rosto peludo e esguio sobre minhas pernas, para o silêncio, para Graves e para o meu próprio coração, que palpitava dentro do meu tórax que nem um hamster correndo na roda da gaiola. — Tudo vai ficar bem. Ninguém mais falou. Imagino que eu devia agradecer por isso, só que, ao contrário, me senti insegura e incerta, como se fosse começar a chorar. Minha cara de garota durona tinha ido embora para sempre. *** A cidade pintava de laranja o céu acima dela, que depressa mudava de cor, à medida que o sol chegava. Christophe entregou os dois cafés e o chá de ervas; Graves passou a Dibs o chá. Peguei um copo de isopor com café e tentei não olhar para Christophe. Meu cabelo estava uma zona completa, e eu me sentia inteirinha lambuzada. Ser atirada contra uma porta com a cabeça pesada de um lobisomem no colo também deixou minhas costas num estado realmente triste. Eu tinha machucados e dores por todo o canto. — Menos de um quilômetro e meio — disse Christophe, fuçando no pacote. — Egg McMuffin, Dru?


— Eca! — mas meu estômago protestou. Eu precisava comer alguma coisa. — É, acho que sim. O que é que a gente vai fazer assim que chegar lá? — Você vai ter que responder a perguntas. Assim como outras pessoas — começou a distribuir os "pacotes de óleo" já que não vão saber que você existe até você aparecer na porta da frente. Com um Submisso, dois lobisomens e um loup-garou — até demonstrava animação. — Será interessante, sem sombra de dúvida. Graves me ofereceu um Egg McMuffin e dois bolinhos crocantes de batata pelando. Suas sobrancelhas se juntaram. — Espera um segundo. O que é que você vai fazer enquanto... — Não quero dar a eles outra oportunidade para me matarem — Christophe lhe entregou outro punhado de fast-food. — E tenho outros negócios. — Daí você vai mandar a gente para outro lugar, outra vez, onde você sabe que tem um traidor — Graves continuava entregando a comida a Dibs. — Que beleza. — É onde eu achei que vocês iriam desde o começo — o tom de voz de Christophe era enganosamente suave. — Vocês dois foram varridos para um satélite, um reformatório na zona rural, em vez do único local onde eu poderia estar razoavelmente seguro de que vocês estariam a salvo. Desta vez eu vou me certificar de que vocês vão chegar até a porta de entrada e fazer um tal alarde que nem a presença nem a sobrevivência de Dru possam ficar ocultas. Outros do Conselho e da Schola vão começar a fazer perguntas, principalmente no momento em que vocês forem examinados — fez uma pausa. — No entanto, eu não sei o que se há de fazer com o Submisso. O Submisso. Nem ao menos Ash. E ele dizia isso com frieza e desprezo. — Estou apostando que, assim que passar o efeito da anestesia, ele vai começar a se jogar para cima de qualquer parede que estiver na frente dele, para voltar a Sergej — Christophe suspirou. — Vai ser uma bênção se ele morrer. Dei uma mordida enorme no bolinho inglês superindustrializado, uma salsicha que não tinha nada a ver com carne, e um ovo oleoso. Não disse nada. — Você não vai ficar por perto para se responsabilizar por ela? — Shanks


aceitou um McMuffin e rasgou a embalagem com os dentes, cuspiu para o lado e manteve uma das mãos no volante. O trânsito estava aumentando, já que era de manhã. — Tipo, é uma viagem só de ida para... — Talvez ela insista para que vocês sejam mantidos como seguranças dela. Pode haver mais alguns poucos ansiosos pela honra — Christophe encolheu os ombros, fazendo malabarismos com um bolinho de batata. — Se Dylan sobreviveu, talvez tenha encontrado um modo de enviar um relatório. Engoli áspero. — Ele falou que os contatos dele não estavam respondendo. Que nem o Augustine. Ele disse que o Augie tinha desaparecido. — Não tema pelo August. Ele é esperto — Christophe colocou de lado o saco de papel estalando. O carro inteiro cheirava a sal, sangue, fast-food e corpos de adolescentes sem banho. Sem falar de lobisomem doente. Ash se remexeu quando Shanks pisou com tudo no freio e enfiou a mão na buzina. — Retardado! — gritou — Fica na merda da sua faixa! — Motoristas urbanos — Christophe nem parecia perturbado. — De qualquer modo, Dru, a minha preocupação é levar você até as portas da Schola. Não se preocupe com Augustine. Mais seis quarteirões e vire à direita, Robert. — Saquei — lá adiante, um semáforo ficou verde. Shanks guiava o carro, tomando cuidado. Continuei comendo, mal sentindo o gosto da comida. Minhas mãos tremiam, e eu não achava que era por causa da fome. O trânsito se repartia feito ondas. As nuvens cinza e enfumaçadas eram irregulares, e eu via instantes de céu azul. O nascer do sol era sinônimo de que estávamos a salvo. Pelo menos dos vampiros. O medalhão da minha mãe estava oculto sob meu suéter. Era um calor que me sossegava, um calor de pele. Feito metal comum. — Você sabe quem era — minha voz me surpreendeu. — Na transcrição. Você sabe, Christophe. Balançou a cabeça. Deu uma mordida escandalosa no bolinho de batata. Seus dentes eram tão brancos quanto os de Ash. Brancos também como o sorriso agora aberto de Graves.


— Eu tenho uma suspeita, Dru. Não sei — uma longa pausa, outro quarteirão passava. — Mas vou descobrir. E então, Deus ajude quem estiver fazendo esse jogo. Não é um jogo. E da minha vida que a gente está falando. Dei uma golada naquele café pelando. Não ajudou. O mesmo instinto anônimo que me fez recusar a ir embora sem Ash me dizia que Christophe sabia mais do que estava me contando. Embora eu não precise ser um gênio para descobrir isso. Ele sempre sabia mais do que estava me contando. — O que é que você vai fazer? — Já lhe disse. Lembra-se? Agora tenho um motivo. Vire aqui, Bob. — Eu sei — o carro virou com dificuldade à direita. O motor parecia meio triste, e eu não o culpei. — Christophe — meu rosto estava pegando fogo novamente. Por que é que eu estava corando feito uma... feito uma garota, pelo amor de Deus? — Silêncio, Dru. Duas quadras à esquerda. Você está vendo? — Estou. — Shanks diminuiu a velocidade. — Entendo isso como você não quer um motorista particular? O djamphir gargalhou. — Por que começar agora? Cuidem dela, meninos. Graves me olhou de relance. — Espera um segundo — tinha as mãos cheias de café da manhã e Ash se mexendo no meu colo, pequenas faíscas aparecendo debaixo de suas pálpebras. — Não me diga que você vai... Tarde demais. O carro quase parou, a porta de Christophe abriu, e bem na hora em que meu protesto estava pela metade, ela bateu. Ele se atirou entre dois carros estacionados e desapareceu num beco entre dois prédios de pedra marrom. — Não acredito nisso. Acreditava, sim. Era bem do jeito que as coisas estavam rolando agora. — Não esquenta — Shanks socou, mesmo, o resto do bolinho dele dentro da boca, mastigou duas ou três vezes, daí engoliu de uma vez. — Merda, ele levou meu café. De qualquer jeito, Dru, a gente está fora de perigo.


— E isso aí — Graves me deu uma olhada de lado bem eloquente, na hora em que Shanks acelerou um pouquinho. As duas quadras deslizavam por baixo dos pneus cansados do carro, e mal ele dobrou para a esquerda, por um portão entreaberto de ferro trabalhado, a luz do sol explodiu pela rua, mergulhando tudo em ouro. — Fora de perigo. Até que mais alguém tente matar a gente. — Maravilha — quase derrubei o McMuffin na cara de Ash. Então comecei a mastigar. O que fosse acontecer em seguida, talvez seria necessário um estômago cheio para encarar. Uma passagem de carros escura e molhada se revelou, com árvores formando arcos de ambos os lados. As pontas de seus galhos, como dedos, sustentavam mudas verdes e delicadas. Quando saímos da fila dupla de vegetação, a luz do sol se esparramou por um prédio imenso de pedra branca. Os jardins eram imaculados. Também havia um par de leões de concreto montando guarda no fim da passagem, e eu pensei ter visto um deles se encolhendo. Mas poderia ser apenas a luz da manhã, fresca e ofuscante. Parecia familiar, mas percebi que a outra Schola tinha sido uma versão menor e mais cinzenta desta aqui. Tinha parecido mesmo grandiosa e imponente, mas isso era o Grande Barato. De repente minha garganta secou e eu engoli, com a ajuda de um último gole de café superaquecido. Larguei o copo perto dos pés e torci para que minhas pernas dormentes conseguissem me segurar quando, enfim, nós saíssemos do carro. — Graças a Deus — disse Shanks, suave. — Estamos salvos. Olhei para o meu colo. Os olhos de Ash tinham fechado novamente, o brilho sob as pálpebras agora havia sumido. — Tomara. Terminei o último pedaço do meu bolinho. Dibs suspirou, um som de alívio puro. Shanks correu para os degraus que levavam à porta da frente. Desligou o motor, e pressenti que as pessoas dentro da pilha enorme de pedras brancas estavam cientes da nossa chegada. Agora, a qualquer instante, a porta iria se abrir e a gente ia ter de responder a perguntas e fazer coisas e... A imensa porta dupla de ferro fundido no alto da escadaria brilhando de


tão branca já estava se abrindo, revelando um pedaço da escuridão interna apenas por um instante antes que formas adolescentes e esbeltas começassem a borbulhar para fora. Eram todos garotos, e todos djamphir. Quais seriam os inimigos? — Tomara mesmo, com certeza — repeti, e levei a mão à maçaneta da porta.

CONTINUA EM CI ÚMES


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