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gol·pe (latim colaphus, -i, bofetada, murro, do grego kólafos, -ou, pancada na face) 1. Golpe mesmo só de bicada, de pinga, daquelas amortecidas em barril de jequitibá rosa. E o consumo só aumenta, depois da pancada que esses 8.516.000 km² levaram esse ano. Forte a tal ponto que todo o sistema auditivo do país sofreu um traumatismo. Um silêncio-rumor se instalou por aqui, um efeito-golpe. Tudo que é sinônimo de golpe é dolorido, menos a pinga. Porque esse tipo de golpe, o de estado, incide diretamente nos direitos do povo. É imoral e marca um dos momentos políticos mais desgraçados desde sessenta e quatro. 2. Golpes são arquitetados aos sussurros [em voz baixa], de forma inaudível e [in]compreensível. Em silêncio o soco se faz ferida, depois apenas infortúnio e choque. Corrente de rombo, roubo e desfalque. 3. A lufada do golpe e a precariedade política levaram à revolta todos aqueles que não cederam ao murro e que acreditam que a democracia radical pode derrotar o neoliberalismo. 4. Bombas de efeito moral? Aqui a justiça finge que não vê. Ela trama, é ardil, é truculenta, é seletiva. 5. Os golpistas lançaram rajadas sobre panelas, acreditando que o panelaço os salvaria da corrupção. Nem panelaço, nem buzinaço: hipocrisia. O som do golpe foi derramado por vazamentos tortuosos e escutas sigilosas, coroado por ênclases, mesóclises e citações em latim: — “Vocês sabem que religião vem do latim religio, religare, portanto, você, quando é religioso, você está fazendo uma religação. E o que nós [o governo golpista] queremos fazer agora, com o Brasil, é um ato religioso, é um ato de religação”. 6. A história atesta uma realidade feita em linguagem teológica semierudita, que é a linguagem oficial do golpe. Uma tragédia sucedida pelo drama - corrosiva. 7. Um estado de exceção e degradação que preza somente pela destruição e alienação, uma fonte de angústia. 8. [a galope, o tempo é emergencial]. 9. Tensões e distensões se mantém permanentemente ao som de enfrentamento, resistência e luta. O gozo é possível ainda, em momentos de CONTRA-golpe.




Trinta e Três Mesmoi 1.

Como desfazer o mesmo? Aceitamos dicas e outros remendos. 2. Regularmente: se tem ‘mais almas que uma’. ‘Mais eus do que eu mesmo’. 3. Na indústria são fabricados do mesmo material dois tipos de sons/carcaças: carcaças com alma (com miolo) e carcaças sem alma (sem miolo). Em uma a carcaça é o miolo. Na outra o miolo é a carcaça. 4. O mesmo ‘é um doido que estranha sua própria alma’. É uma tripa virada pra fora. 5. O mesmo é uma palavra que contém cinco letras. Destas letras apenas duas se repetem. 6. Da palavra mesmo derivam três outras palavras: esmo, mo e mês. 7. O mesmo a esmo tem como fundamento o acaso. O mesmo a mês tem como espelho os ciclos do satélite da Terra: mesmo nova; mesmo crescente; mesmo cheia; mesmo minguante. E, o mesmo a Mo, é uma contração. 8. Em civilizações antigas o não-eu se manifestava a partir do exercício do mesmo.

9. Mesmo é um vício. 10. O mesmo não é um antídoto ao novo. Contudo existe judicioso grau de indiferença do mesmo em relação ao novo. 11. Foi demonstrada em diversas épocas, por meio de evidências não empíricas, a inutilidade do mesmo. Por isso mesmo, confirmou-se elevado grau de credibilidade do mesmo no combate ao pragmatismo crônico. Os resultados são meramente especulativos. 12. Há momentos que não se sabe quem é o mesmo. Em efeito não se conhece momento algum que seja o mesmo. 13. Pasmem! Em Galáxia, mesmar é um verbo, “onde o mesmo esma mesma miasma marasma manadas de mesmo em resmas paradas.” “O mesmo remesma”. “Mesmam”. 14. O mesmo não parece com o mesmo, nem com outro mesmo. Um e três mesmos. 15. Cinco mil guaranis mesmo. 16. Recentemente, a existência do mesmo foi associada com o vírus colonial. Da manipulação desse vírus, a partir


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de procedimentos de saturação antropofágica, se obtém a “água decolonial”. O mesmo tem um pé em cada canoa. Um pé na canoa de nome “inutilidade” e o outro pé na canoa de nome “engajamento”. Essa situação é suficiente para indicar uma “eficácia paradoxal” dos arranjos do mesmo, sejam eles analíticos, sensoriais ou contextuais. Anti o imperialismo do mesmo. A tarefa do mesmo é “conduzir as palavras do seu emprego metafísico de volta ao seu emprego cotidiano”. Se não me fala a memória não escuto o mesmo. Embora não haja consenso, a relação entre o mesmo e o outro é de paridade. O mesmo tautológico é um prolongamento autorreflexivo (uma lata amassada, um formato levemente deformado). Pelo presente e a partir do mesmo, confirma-se: uma coisa mesmo, uma ideia mesmo, uma construção mesmo, um modo de apresentação mesmo e um contexto mesmo.

24. O mesmo é uma estratégia de desapropriação. Vide o caso: João Severino apropriou-se do termo desconstrução do filosofo francês Jacques Derrida, como Marcel Duchamp se apropriou de um mictório de R. Mutt. Ambos com seus atos de apropriação desapropriaram (reconfiguraram) o objeto/conceito apropriado. De quem é a propriedade desapropriada, de João ou de Derrida? De Duchamp ou de Mutt? Um pouco de ambos? Ou de nenhum? 25. O mesmo existe como linguagem. Em qualquer caso, “arte significa práxis, então qualquer atividade artística, inclusive a atividade artística “teórica”, é praxiológica”. 26. O esgotamento do mesmo produz mesmice. 27. Lá foi dito “não é o mesmo, mas é igual”. Cá digo, igualmente, é o mesmo, mas não é igual. 28. Haja visto que sair as águas não seja empreitada desprovida de ordenamento, peço apenas um barco do tamanho do mesmo. Não prometo nada. Tendo dito isso e nada mais.


29. Em certas ocasiões o mesmo conversa com Metrodoro que “professava a arte de repetir com fidelidade o que escutara uma única vez”. Araribóia por sua vez não se deixou fixa. 30. Uma comunicação depois da comunicação, o mesmo. Da classe de “palavras que foram especificamente criadas para fazer pensar em outras palavras”. 31. Três afirmações mesmo: Quase tudo começa pela imagem; Conceito não é teoria; Números não é matemática. 32. A criatividade mesmo, uma grande invenção. 33. O mesmo não sou eu, a pesar de não ter nada a ver com ele terei que me escrever todo através dele.

Nota ao leitor. Primeiramente, prezado leitor, as palavras não tem dono. Segundamente, todas elas já foram ditas. Terceiramente, daquelas ditas – as que reconhecemos – deixamos aqui seu paradeiro livresco: Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da língua portuguesa (2010); Belchior. Alucinação (1976); Darlei Dall’Agnol, Arturo Fatturi e Janyne Sattler (org). Wittgenstein em perspectiva (2012); Fernando Pessoa. Poesias/Fernando Pessoa Antonio Nogueira Pessoa (1996); Georges Perec. Especies de Espacios (1999); Gilberto Gil, Metáfora (1982); Haroldo de Campos, Galáxias (2015); Hélio Oiticica. Aspiro ao grande labirinto (1986); José Saramago. O homem duplicado (2002) e O conto da ilha desconhecida (1997); John Cage. Escritos al oído (1999); Jorge Luis Borges. El Aleph (2011) e Ficções (2007); Joseph Kosuth. Art after philosophy and after (1991); Juan E. Díaz Bordenave. O que é comunicação; Ludwig Wittgenstein. Investigações Filosóficas (1994); Luigi Russolo. El arte de los ruidos (1998); Silvio Rodriguez. Unicornio y otras canciones (1994); Clarice Lispector. A Hora da Estrela (1977); Deleuze. Conversações (2006). i


dizier Palavra em busca de uma situação ou algo para chamar de seu. Sempre minúscula, não é nome próprio, adjetivo, substantivo ou qualquer outra definição que possa ser encontrada na gramática. Nas raras vezes em que foi falada – normalmente por um erro de pronúncia – aconteceu aos berros e brados, pois parte de sua missão em encontrar um referencial físico no mundo é mostrar-se visível, de modo parecido com que operam os vendedores de lojas de utilidades domésticas, que na porta de seus estabelecimentos gritam as principais promoções do dia. dizier surge de um acidente como sobra de outro processo, de outra criação, e por isso flutua solta e inconstante. dizier é acaso, não se pode prever seu aparecimento. O fluxo constante de carros nas grandes cidades é outro meio de aparição de dizier. Por mais atento que seja o olhar, é raro perceber dizier aproximando-se rapidamente de cada carro, tentando achar seu correspondente nas palavras anônimas, fragmentadas, estrangeiras das placas destes carros. dizier nunca encontrará a coisa que a define, pois só existe ao fazer, ao tentar.

Palavra que não se basta, ela encosta em todas as coisas possíveis, para logo ser enxotada – as coisas já tem um nome rodeando em torno de si, como a lua namorando a terra: este planeta já tem um satélite natural, sai!. dizier aproxima-se da palavra dizer, mas não é. As coisas não tem um centro gravitacional que puxa os nomes que passem perto para junto de seu corpo. Alguma coisa que tenha todos os nomes se anula, torna um nada. dizier não é o nada, pois é uma palavra, não todas elas. Não sendo nem o nada, dizier surge brevemente e tem a intensidade do bafo quente saindo da boca em dias frios – se dissipa em segundos, sem chegar a constituir algo. É instável como fita isolante colada na parede: cai, solta e pendente. dizier morre ao ser colocada no mundo. Por um tempo, dizier (que não sabemos o que é) acreditou que o uso da palavra dizer era seu: alguém, em algum momento, disse dizer muito rápido, e além da velocidade da fala, essa pessoa tinha um problema de dicção que confundiu dizier.


O resultado é que dizier escutou seu nome sendo falado e acreditou que tinham achado seu correspondente no mundo. Isso durou poucos segundos: entocado em um canto da coisa dita estava o dizer, dormindo em uma cratera de sua coisa, e ao pressentir a presença de um intruso logo tratou de expulsar dizier, que ainda vaga no espaço entre as palavras e as coisas, o único que lhe coube, embora ele se esconda quando percebe a presença do entre. Como palavra sem casa, dizier é um visitante. Um tanto intruso, é verdade, mas é o que conhece quase todas as casas onde moram as palavras. Já visitou pirralho, guaiaca, buzo, ferpa, fealdade, náiade, muxoxo. Nem uma palavra aceitou dividir apartamento. dizier soube que dependendo da região geográfica, uma mesma coisa tem nomes diferentes, pensou que se continuar movimentando-se, acabará encontrando uma região que ainda não saiba como chamar algo novo. Dizier estará lá, pronto a cumprir com seu papel de facilitador do mundo. Para ele, o mundo não tem sentido se não for nomeado.


rádio-enterrada. Condição de uma rádio coberta por terra. “Ela cobriu os aparelhos com terra”. Situação ou condição de uma rádio envolta por terra, em sua totalidade ou parte de seus objetos característicos como discos, válvulas, transmissor, etc. “Nós enterramos os discos, aliás, eles meio que se enterraram sozinhos”. Soterramento resultante de forças naturais, do ato consciente de enterrar, semiconsciente, ou mesmo o autoentrerramento por condições diversas. Encovar lentamente. “As crianças jogavam os discos no buraco”. Expressão usada para designar a desaparição de uma rádio, seu fechamento ou mesmo sua falência. Rádio sepultada. “A radio só parou quando ele faleceu”. Aparelhos, discos e locutores sepultados, inumados. “As coisas que sobraram foram enterradas no terreno, embaixo da casa”. Rádio escondida em local secreto, rádio oculta. “Aqui no terreno, ali pra trás”. Encerramento de transmissão por tempo indeterminado por enterramento do transmissor, válvulas, discos, mesa de amplificação, etc. “O transmissor a mãe jogou ali pra trás, ele meio que se enterrou sozinho”. Fig. Pôr fim a uma rádio, encerrá-la.

Quebrar, enferrujar perder-se embaixo da terra, na memória, silenciar.




silêncio 1. segredo [ ]. 2. palavras e silêncio: no silêncio as palavras fracassam, onde parece que seu único ponto de sustentação é a instabilidade – um grito mudo de uma desesperada travessia, na madrugada nebulosa sem horizonte. A palavra silêncio burla seu próprio significado, uma vez que toda palavra implica um ruído a desmentir o silêncio. Nomear o silêncio é anunciar seu fracasso. 3. silêncio e [algumas] coisas: Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no silêncio – de perto ou a distância servem ao silêncio. o homem que possui um suspiro e algumas lágrimas serve para o silêncio. Um corpo, sujo de vida – os que nele gargantearam: detritos de vozes, saliva; servem para o silêncio. Um sopro de vida, coleção de afetos e desafetos, o copo de café vazio, o cigarro acabado, servem para o silêncio. Os pensamentos que não levam a nada; servem demais para o silêncio. Cada coisa bem ou mal vivida é ordinariamente elemento de estima para o silêncio. Cada minúscula coisa possui um lugar no silêncio. 4. silêncio e a morte: A morte é o gozo do silêncio. O silêncio é

o silêncio é uma palavra que não é palavra, e o sopro de um objeto que não é um objeto. Bataille

sossego e desassossego. 5. silêncio e corpo: “o silêncio é a profunda noite secreta do mundo” (LISPECTOR, 1988). 6. silêncio e pensamento: o pensamento silencioso é insone. Onde há silêncio no pensamento o corpo todo escuta – é um silêncio sem pudor de ser silêncio. Silêncio com lembranças de palavras antigas se transformando em novas palavras. Em tudo há o silêncio, basta aprender a ouvi-lo.

[ Ressonâncias de leituras ] LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. CUNHA, Antônio Geraldo da (1924-1999). Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.


VERBO Se no início era o verbo, o logos, o verbo aparece como um marco, como a palavra então que dá início a existência. E antes do verbo, o que havia? O nada? O silêncio? Antes do verbo poderia ter apenas ruído. Um ruído disforme? Na sociedade científica atual o evento do big bang é a teoria mais aceita para a origem do universo. O big bang foi, como a onomatopeia da palavra sugere, uma grande explosão cósmica que teria colocado o universo em constante expansão. Uma explosão silenciosa, pois o som não se propaga no espaço. Não teria ela gerado algum ruído se quer? E mesmo que tivesse gerado, quem estaria lá para escutar? Não haveria testemunhas. Teria sido então o big bang um grande evento silencioso e solitário? Talvez, nesta grande explosão, o verbo em segredo já existisse, mas não havia quem pudesse escutá-lo, permanecendo em silêncio. “No início era o verbo, e o verbo estava...”


Xe.no.glos.si.a (do grego xen(o) = estranho, estrangeiro + gloss(o) = língua) substantivo feminino 1. Língua estranha. 2. Milagrosa habilidade de certos indivíduos de ler, escrever, falar ou compreender uma língua que nunca aprendeu; 3. Capacidade de falar, inesperada e espontaneamente, línguas desconhecidas, mas existentes hoje ou no passado. 4. Poliglotismo parapsicológico. 5. Mediunidade poliglota. 6. Fenomenologia metapsíquica. 7. Memória ancestral. Tipos de xenoglossia de acordo com o espiritismo: automatismo falante (possessão mediúnica); mediunidade audiente (clariaudiência); automatismo escrevente (psicografia e tiptologia); voz direta; escrita direta.


VERBETES CAGEANOS ACASO - 1. Do que não concerne a emergências estéticas1. 2. Método para catalisar acidentes que pode ser percebido, por exemplo, num jogo de futebol. 3. “Método de disciplina do ego”2. 4. Método baseado na lei do não-impedimento. 5. Método para música indeterminada. 6. Continuidade que é não-continuidade. ACIDENTE - 1. O que se é usado metodicamente para causar música indeterminada. 2. O que não segue a física newtoniana. 3. Oportunidade. ARTE - 1. Algo que se estrutura por duração. 2. O que imita o modo de operação da natureza. 3. Algo que não tem propósito. 4. Ação que alguém faz para modificar a si mesmo. 5. Ato de expelir uma ideia e a colocar em simbiose com o meio em que foi expelida. COMPOSITOR - 1. Alguém que usa sons para expressar uma ideia. 2. Facilitador de sons.

DISCIPLINA - 1. O que implica liberdade. 2. Procedimento de sujeição a uma ordem que não é ditada pelo ego. DISCUSSÃO - Uma forma de entretenimento.3 DURAÇÃO - 1. Forma de um trabalho de arte. 2. Intervalo de tempo delimitado em que a interpenetração é destacada. 3. Espaço de tempo predeterminado para ocorrer acidentes. EGO4 - 1. Parede ou muralha individual metafórica ligada ao maya. 2. Situação pessoal de impedimento ao estado de interpenetração. 3. Do que proporciona julgamentos de valor. 4. O que incapacita o fluxo do indivíduo com o que está ao seu redor . ERRO5 - 1. Ficção. 2. Algo projetado a partir de expectativas do presente. 3. Algo que não é real, considerando que o real é somente o aqui/agora.


EMOÇÕES - 1. O que se relaciona diretamente ao ego. 2. Do que não serve para fazer arte. 3. Bloqueio da panopticidade da mente. 4. O que bloqueia a curiosidade, mantendo alguém envolvido somente com o que se está direcionando a emoção. I CHING - Catalisador de métodos musicais assim como mapas estelares, manchas de café, tarô, imperfeições no papel, etc. INTERPENETRAÇÃO - 1. Lei do nãoimpedimento. 2. Tente desordenar, descubra que, na verdade, nada está ordenado – mas está. 3. Rede formada por acasos e nãoacasos (visão ocidental)6. 4. O que faz fluxo constante entre todas as coisas. 5. Incalculáveis causas e incalculáveis efeitos. MÉTODOS DE COMPOSIÇÃO - 1. Procedimento de fazer perguntas ao invés de fazer escolhas. 2. Métodos para escuta.

MÉTODOS PARA A ESCUTA - 1. Meios de se alcançar o silêncio ou a indeterminação. 2. Procedimento para conscientizar a panopticidade da mente. MÚSICA - 1. O que proporciona uma atividade que envolve (não necessariamente somente) ouvidos. 2. Junção de ruídos, silêncio e sons (Visão Ocidental). 3. “Organização do som”7 que é notado e do som que não é notado. 4. Atenção dada às atividades do som. 5. Conjunto de sons que não tem intenção harmônica. 6. Um meio de transportação da mente. LECIONAR - 1. Ato de processar ideias horizontalmente entre os envolvidos. 2. Ato de estimular discussões. 3. Ato de estimular mudanças. 4. Conversação em que se muda de uma ideia para a outra como se os envolvidos fossem caçadores.8


P A N O T I P C I D A D E D A M E N T E - 1. Sentir/entender brahma (Visão oriental traduzida para ocidentês). 2. Estado em que se percebe a interpenetração das coisas. 3. O que ocorre quando se pratica silêncio. PERGUNTAS - 1. Método possível para se responder perguntas depois de uma conferência. 2. Dispositivo para desenvolver a escuta. RUÍDO - 1. Herança de Luigi Russolo. 2. Algo que ainda não foi intelectualizado. 3. Do que está presente na música. SILÊNCIO - 1. _______________________ (Visão oriental). 2. Catalisador de sons. 3. Fresta. 4. O que sublinha o oculto tornando-o exposto, presente. 5. Escuta. 6. Concernente à ação. 6. Panopticidade da mente. 7. O som agudo e o som grave que John Cage escutou na câmara anecoica. 8. O que permite brahma se mostrar de forma mais evidenciada.

[ Notas ] 1 CAGE, John. De segunda a um ano. São Paulo: Editora Hucitec, 1985, p.28. 2 CAMPOS, Augusto. CAGE: CHANCE: CHANGE. In: CAGE, John. De segunda a um ano. São Paulo: Editora Hucitec, 1985, p.xvii. 3 CAGE, John. Silence. Midddeltown: Wesleyan University Press, 1973, p.126. 4 CAGE apud LARSON, Kay. Where the heart beats. New York: Penguin Books, 2013, p.172. 5 CAGE, John. Silence. Midddeltown: Wesleyan University Press, 1973, p.167. 6 WATTS, Allan W. O Budismo Zen. Lisboa: Editorial Presença, 1990, p.160. 7 CAGE, John. Silence. Midddeltown: Wesleyan University Press, 1973, p.3. 8 CAGE, John. De segunda a um ano. São Paulo: Editora Hucitec, 1985.


1 VERME DE OUVIDO Verme de ouvido (Fasciola auris) é um verme achatado, trematódeo da família dos fasciolídeos, filo Platyhelminthes, parasita dos canais auditivos e do cérebro do ser humano. Tal verme apresenta corpo de coloração avermelhada (acinzentada na porção anterior), foliáceo, achatado, com ventosa ventral e oral pequena e faringe bem desenvolvida. Também é conhecido pelos nomes de brainworm, earworm, Orhwurm, sticky music e stuck song syndrome.

1.1 Ciclo de vida O parasita se instala por meio de um fragmento de música, que entra e subverte o ouvido (e, posteriormente, o cérebro) do hospedeiro, forçando-o a disparar de maneira cíclica e autônoma, e que se repete incessantemente por dias a fio, causando irritação extrema. Embora seus efeitos no cérebro possam ser minimizados ou, até mesmo, parecer ter desaparecido, eles podem retornar de seu período de hibernação a qualquer momento. Em alguns casos, esse tempo de hibernação pode durar mais de sessenta anos. Trata-se, portanto, de uma doença incurável e de difícil tratamento. 1.2 Patogenia A patogenia se dá, não diretamente pelo toxicidade do parasita mas sim, pela resposta do hospedeiro, isto é, uma irritabilidade crônica capaz de gerar confusão cerebral e estafa. O verme entra e subverte parte do ouvido e/ou do cérebro, forçando-os a disparar de maneira repetitiva e autônoma.


1.3 Tratamento Não existe um tratamento comprovadamente eficaz contra o verme de ouvido. Por tratar-se de patologia sem cura conhecida, todos os tratamentos sugeridos são apenas paliativos e não funcionam da mesma forma para todos os pacientes. Cantar ou tocar conscientemente a música até o fim, para que ela deixe de ser um fragmento rodando incessantemente, incapaz de uma resolução, ou desalojar o verme de ouvido cantando ou ouvindo outra música (embora isso possa trazer consigo outro verme).

1.4 Um dos relatos mais antigos Em 1876, em um episódio que ficou conhecido como “Punch, brothers, punch”, um homem se descobriu indefeso diante de algumas “rimas bem cadenciadas”. Afirmou ele: Elas tomaram posse total e instantânea de mim Durante todo o café da manhã valsaram pelo meu cérebro. Por uma hora, lutei com todas as forças, mas em vão. Minha cabeça não parava de cantarolar. Fui dar uma volta pelo centro da cidade, e logo descobri que meus pés estavam marcando o ritmo daquela melodia implacável. Anoiteceu e eu continuei a cantarolar, fui para a cama, rolei, me revirei e cantarolei noite adentro.

Dois dias depois o homem encontrou um velho amigo, um pastor, e inadvertidamente o infectou. O pastor, por sua vez, inadvertidamente, infectou toda a congregação. Este caso foi narrado por Mark Twain, em um de seus contos, como ficção, embora a história seja verídica.


1.5 Uso (criminoso) pela indústria fonográfica Criados pela indústria da música justamente para fisgar os ouvintes, para pegar e não sair da cabeça, os estudos para desenvolver vermes de ouvido como entes treinados para influenciar seres humanos são bastante antigos. Em 1920, por exemplo, Nicholas Slonimsky, um compositor e musicólogo, tentava inoculá-los com o uso de frases musicais, em uma tentativa de fisgar e dominar a mente humana. Relatos recentes apontam Lukasz Sebastian Gottwald - conhecido pela alcunha profissional de Dr. Luke – como um dos mais avançados pesquisadores no uso de vermes de ouvido como forma de fazer milhões de pessoas gastarem dinheiro consumindo música de péssima qualidade. Dr. Luke trabalha para megacorporações utilizando seu vasto conhecimento sobre o funcionamento dos vermes de ouvido para gerar lucro.


1.6 Caixa taxonômica Fasciola auris Classificação científica Reino:

Animalia

Filo:

Platyhelminthes

Classe:

Trematoda

Subclasse:

Digenea

Ordem:

Echinostomida

Família:

Fasciolidae

Género:

Fasciola

Espécie:

F. Auris Nome binomial Fasciola auris (Bagley, 1978)

[ Referência ] SACKS, Oliver. Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


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Publicação sonora e impressa proposta pelo Projeto de Ensino “Publicação Anecoica e exposição Espécies de escutas”, desenvolvido na disciplina Instalação Multimídia e no Seminário Especial Investigações sob(re) proposições sonoras, ministrados por Raquel Stolf nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Artes Visuais, do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, Florianópolis, em 2016. anecoica investiga usos heterogêneos do som e do texto, conceitos e experiências de silêncio/ruído, espaços sonoros, modos e modulações de escuta articulados em proposições artísticas. Propõe pensar intersecções entre som, texto e contexto, entre silêncios/ruídos impressos e sonoros. O plano de partida desta publicação foi tentar pensar sobre e sob a pergunta: como desfazer a palavra?


Participantes: Adson Loth, Ágata Tomaselli, Airton Jordani, Ana Camorlinga, Ana Carolina Ferreira, Ana Luiza Amaral, Barbara Baron, Bianca Caroline Schweitzer, Bruna Flôr, Bruna Domingues, Carolina Moraes, Clara Meirelles, Débora Moecke, Dolores Donovan, Fabio Wosniak, Gabriela Hermenegildo, Gabriela Todeschini, Guilherme Doze Santos, Joseane Fernanda Bernardo, Juliano Ventura, Kamilla Nunes, Karine Cupertino, Leila Pessoa, Leto William, Luana Navarro, Luanda Olívia, Marcos Walickosky, Mayra Flamínio, Mônica Hoff, Morru, Nycolle Correa, Rafael Schultz, Raquel Stolf, Silfarlem Oliveira, Telma Scherer, Viviane Baschirotto, Viviane Dalla Rosa.

Equipe do Projeto de Ensino: Anna Stolf, Juliano Ventura, Leto William, Luana Navarro, Mayra Flamínio, Silfarlem de Oliveira, Telma Scherer. Coordenação: Raquel Stolf Participação de Bianca Tomaselli (apoio de Marcos Walickosky) Projeto gráfico: Anna Stolf Edição: céu da boca e editora nave Apoio: Edital PRAPEG, CEART-UDESC ISBN: 978-85-60716-20-3


caderno-extra issuu.com/anecoica soundcloud.com/anecoicazerozero


(etc.) golpe Kamilla Nunes, 2016

VERBETES CAGEANOS Karine Cupertino, 2016

Sem título Leila Pessoa, 2016

VERME DE OUVIDO Airton Jordani, 2016

Trinta e Três Mesmo Silfarlem Oliveira, 2016

O discurso amoroso na era de sua reprodutibilidade técnica Dolores Donovan, 2016

dizier Leto William, 2016 rádio-enterrada Rafael Schultz, 2016 silêncio Fabio Wosniak, 2016 Sem título Barbara Baron, 2016 VERBO Viviane Baschirotto, 2016 Xe.no.glos.si.a Mônica Hoff, 2016