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(Contornos

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NOVEMBRO 2010

( DO DESCOMPASSO À HARMONIA ( DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS ( EXEMPLO DE SUPERAÇÃO

Dezembro 2010


( CARTA AO LEITOR Acordes jornalísticos Como o som dos acordes do baixo acústico, que ilustra a capa da terceira publicação da revista Contornos, os temas das reportagens desta edição ressoam em busca de lacunas, curvas, cantos e arestas. Muitas vezes escapando à rigidez de uma partitura – representação escrita de música padronizada mundialmente –, os registros compostos pelos futuros jornalistas para este concerto, às vezes, reverberam destoantes da escala tradicional, mas produzindo sons e melodias harmônicas e percepções antes inaudíveis. A primeira peça, executada pela repórter Débora Gomes, traduz a sensibilidade de uma amante da música diante do ensaio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, resgatando suas lembranças ainda pueris, no interior do Estado, de seu primeiro contato com a música clássica. Na próxima peça, quase como trilha para uma tragicomédia, Ana Sandim e Vitor Hugo revelam o que as pesquisas não mostram. A dura jornada dos recenseadores do IBGE, que não têm acesso às fontes de suas pesquisas. A triste melodia que embala a dura realidade de mães que abandonam os próprios filhos, buscando um futuro melhor, encontra novos arranjos em allegros de mulheres que se doam à maternidade, mesmo sem ter gerado a criança. Esse é o compasso da matéria de Danielle Pinheiro e Iara Fonseca. Subvertendo as escalas harmônicas, Bruna Luíza, Sérgio Moreira e Juliana Magalhães revelam a força de um deficiente visual que, além de ter

superado as barreiras impostas pela cegueira, hoje ajuda outras pessoas a encontrar seus ritmos no mercado de trabalho. Lailiane Freitas e Izabela Pacheco regem a sinfonia que retrata o dia a dia de mulheres surpreendidas pela contaminação, por meio dos próprios parceiros, com o HIV. À capela, Tomas Saffran consegue, por meio de uma médium, atingir notas – em outro plano – sobre o sucesso da doutrina espírita no cinema brasileiro em entrevista com “uma amiga espiritual”. João Paulo Costa Jr. e Raphael Jota, em dueto, buscam desvendar um novo método, usando como instrumento o Evangelho, para tratar e, em alguns casos, curar problemas psiquiátricos. Como num arranjo de Hermeto Pascoal, os sons dissonantes do trânsito se afinam em uma tentativa de análise, regida pela repórter Camila Sol, e que revelam um descompasso com o crescimento do número de veículos de Belo Horizonte. Para o tema da crueldade com os animais de estimação abandonados na capital, como os cachorros, por exemplo, “a única coisa a fazer é tocar um tango argentino” para tentar sensibilizar os ditos “humanos”. A execução fica por conta de Natalia Guimarães e Ricardo Gioia. O último ato fica por conta de Lívia Lima que, convocando os torcedores de futebol de Belo Horizonte, organiza um coro, uníssono, para entoar suas paixões pelos clubes mineiros no palco do Mineirão, que atualmente passa por uma reforma. Boa leitura, Profs. Aurelio José e Reinaldo Maximiano

(EXPEDIENTE

Instituto de Comunicação e Artes Centro Universitário UNA

Coordenação: Reinaldo Maximiano (MTb 06489)

Reitor: Prof. Pe. Geraldo Magela Teixeira

Professores colaboradores: Aurélio José e Pedro Coutinho

Vice-reitor: Átila Simões

Projeto gráfico original: Hélio Monteiro, Ana Lúcia, Daniele Ferreira e Wilton Melo

Diretor do ICA: Prof. Silvério Otávio Marinho Bacelar Dias Coordenadora do curso de Jornalismo Multimídia: Profª Piedra Magnani da Cunha

Diagramação: Ana Paula P. Sandim, Danielle Pinheiro, Débora Gomes

Reportagens: Ana Paula P. Sandim, Danielle Pinheiro, Débora Gomes, Iara Fonseca, Bruna Luíza, Jésus Sérgio, Juliana Magalhães, Vitor Hugo da Rocha, Livia Lima, Camila Sol, Lailiane Freitas, Izabela Pacheco, Tomaz Saffran, João Paulo Costa Jr., Raphael Jota, Natália Guimarães, Ricardo Gioia Foto capa: Raoni Jardim Foto contracapa: Débora Gomes


( SUMÁRIO 04 DO DESCOMPASSO À HARMONIA Débora Gomes

06 DADOS RELEVANTES QUE AS PESQUISAS CAMUFLAM

Ana Sandim, Vitor Hugo Rocha

08 DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS Danielle Pinheiro, Iara Fonseca

11 EXEMPLO DE SUPERAÇÃO

Bruna Luíza, Jésus Sérgio e Juliana Magalhães

12 O ENCONTRO DAS SEMPRE VIVAS Lailiane freitas e Isabela Pacheco

14 EVANGELHOTERAPIA INSTRUMENTO DE CURA?

João Paulo Costa Jr. e Raphael Jota

16 DA PSICOGRAFIA PARA A SÉTIMA ARTE

Tomaz Saffran

18 TRÂNSITO SEM SOLUÇÃO Camila Sol

20 “O BICHO, MEU DEUS, ERA UM HOMEM”

Natalia Guimarães e Ricardo Gioia

22 MINEIRÃO UM MISTO DE EMOÇÃO Livia Lima


( Do descompasso à harmonia (

“O compositor deve ser um ser mágico que consegue tocar profundo no coração das pessoas com a arte musical” Jesus Figueiredo

Naquele momento, quem acolhia extasiada cada nota que ecoava pelo ar era a menina de quinze anos que se apaixonou, instantaneamente, já na sua primeira vez. Mas ela não tinha ouvidos treinados ou sensíveis o bastante e buscava entender: “como pode, meu Deus, cada um com um instrumento e, ao final, uma formação tão linda, tão perfeita!”. Prestava atenção nas técnicas e nas mãos dos violinistas, queria aprender, fazer igual.

Naquele dia, ela ouviu o Bolero de Ravel tocado pela Filarmônica de Minas Gerais, ao ar livre, na Praça da Matriz, no aniversário da pequena cidade em que morava. A música durou cerca de quinze minutos, tempo suficiente para fazer daquele momento um marco que regularia sua vida. E mesmo em meio às situações adversas e lágrimas que teimavam embaçar seu olhar curioso, decidiu que daria ao seu genitor a satisfação de ter sua vontade atendida. Entender é ativar a racionalidade para desmembrar um processo de criação, que no caso da música é quase divino, ou seja, difícil de fazer. Hoje, oito anos depois, já sei disso e é impactante perceber como me emociono sentada nesse pedaço de arquibancada, na

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companhia apenas de uma câmera fotográfica e de uma filmadora. Toquei violino por cinco anos e parei de fazer aulas há dois. Era a primeira vez depois desse tempo que eu via uma orquestra tão de perto. Poucas pessoas sabem que nas manhãs de segunda a sexta, uma grande sala no quarto andar do Palácio das Artes é tomada aos poucos pelos músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. As vozes

vão misturando-se a um abrir e fechar de estojos e dedilhados de cordas que buscam a afinação certa, pouco antes de o ensaio começar. Aos poucos, tudo aquilo foi ficando pequeno e infinito aos meus olhos, que percorriam por todos os lados, enquanto cada um se ajeitava como podia e devia. Um 1, 2, 3 silencioso, visível na batuta do regente. E começava a “dança”. Antes de tudo, é preciso afinar os instrumentos. Quem dá Fotos: Débora Gomes

Delicada ela sempre foi, mas não sabia que, no momento que se ouve uma orquestra, primeiro se sente, com todas as forças possíveis, o maior nível de deleite que as consonâncias podem oferecer, e só depois quando tudo o que estava vazio dentro do peito ficou cheio, é que se procura entender.

por Débora Gomes


profissional”, define o músico.

a primeira nota de referencia é sempre o spalla*. Por meio dela, todo o grupo traça uma igualdade harmoniosa, em que quintas, sétimas, oitavas, encontram-se sem permitir dissonâncias. Do corredor, pude ouvir os primeiros compassos que iam formando-se pouco a pouco. O ensaio é uma oportunidade que os músicos têm de aperfeiçoar e se familiarizar com a música de concerto. Não é fácil! As trompas precisam ajustar seu som metálico aos agudos dos violinos, que por sua vez, buscam o equilíbrio na sonoridade grave dos violoncelos. Para Claudio Marcus Serafim, tocar na orquestra é um desafio: “Todo dia tem que buscar a perfeição naquilo que você toca e, acima de tudo, tem que se anular da orquestra porque aqui você está trabalhando por um todo e não para o seu instrumento, só para sua música. Aqui, você é parte de um contexto”, descreve. Serafim é trompista da Sinfônica há 10 anos e me contou que conheceu a música de orquestra por uma filarmônica, a de Berlim, e pelo rádio. Assim como aconteceu comigo, logo se apaixonou. “Em geral, tocar é uma questão muito mais amorosa do que

Para quem pensa que o mais fácil é tocar, os músicos afirmam o contrário. É preciso antes de tudo, saber ouvir. A música de Orquestra não existe sozinha: ela é a mistura, a junção de vários instrumentos de sonoridades diferentes trabalhando por uma harmonia comum. “É um ciclo. O compositor tem uma concepção e, por meio de sua técnica, ele coloca a música no papel. Só que o compositor para no papel e o maestro é quem tem que olhar para aquela partitura e, com o conhecimento que tem, extrai daquela partitura e faz a música. Só então, entra a orquestra”, explica o maestro carioca Jesus Figueiredo, convidado para reger a OSMG apenas para o Ballet Dom Quixote.

Ensaio Geral Naquela manhã, os músicos ensaiavam um contagiante ballet de Dom Quixote que seria apresentado dali a uma semana no Grande Teatro do Palácio das Artes. A sensação é bem diferente da causada pelos grandes concertos. No ensaio, pude perceber com clareza os detalhes mínimos que, muitas vezes, passam despercebidos à plateia. Respirações, pausas, firmatas: tudo que a gente nem idealiza, sentado na poltrona do outro lado, prestando atenção na melodia, sem nem imaginar o tempo que leva e o trabalho que dá para se chegar a um resultado. Diferenças à parte, percebi que a intensidade e concentração dos músicos é tão envolvente quanto naquele primeiro dia, lá atrás, em

que me apaixonei. Mas de tudo, o que mais ainda me impressiona é o regente com seus gestos e movimentos tão perfeitos e precisos, que pareço acompanhar uma apresentação oficial e não só um ensaio. Hoje, tenho um violino que não é meu e toco de vez em quando, para não perder a “forma” da mão e a afinação do ouvido. Em audições, ou até mesmo pequenas apresentações com a Orquestra de Câmara de Itaúna, eu sentia o mesmo frio na barriga que essa experiência me devolveu. E, por várias vezes, senti que alguém além acompanhava todo meu caminho musical. Talvez por amor à música, ainda não tenha conseguido deixar esse instrumento de lado. Quando preciso relaxar ou sempre que sinto saudade tiro ele do estojo e passo horas afinando, com cuidado, para só então tocar as pequenas lições que aprendi. Ainda quero voltar a fazer aulas. Início do próximo ano, quem sabe? Porque nessa história toda, além de muitas notas, uma coisa aprendi: música é equilíbrio, leveza, doçura, harmonia. E a vida, não existe sem ela.

* O spalla ou concertino é o nome dado ao primeiro violino de uma orquestra, que fica na primeira estante, à esquerda do maestro. É o último instrumentista a entrar no palco, sendo o responsável por afinar a orquestra.

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(Dados relevantes que as pesquisas camuflam ( Conheça as histórias dos recenseadores do IBGE, fatos e curiosidades que só descobrimos batendo de porta em porta MapaBeloHorizonte.pdf 1 22/11/2010 13:42:54

por Ana Paula P. Sandim, Vitor Hugo Rocha

Caminho por horas. Toco interfones e campainhas. Bato de porta em porta. Encontro portões, janelas e, muitas vezes, rostos fechados. Senhoras que não respondem ao interfone, patrões estressados e mal educados, domésticas educadas e atenciosas e porteiros nem sempre de bom humor. A carência da população. O café amargo ou doce demais. O pão de queijo que acabou de sair do forno e contagia todo o ambiente. As respostas curtas, algumas grossas. A falta de respostas. Esse é um retrato do país que o Censo não mostra em suas pesquisas. Há três anos, a professora de Geografia e Sociologia, Diliana Márcia de Barros, 42, trabalha como recenseadora para o IBGE e relata os altos e baixos na hora de realizar as pesquisas. “A recepção é muito boa principalmente pela classe baixa, pessoas que moram em vilas, por exemplo, a carência é demais. Eles ficam felizes quando alguém vai até eles para ouvir os problemas que eles enfrentam”, revela Diliana Barros. C

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A professora ainda destaca que no momento da abordagem alguns moradores dizem estar ocupados, e quando tentam marcar um novo horário e dia para realizar a entrevista, alguns confirmam e até remarcam. Porém, quando retornam a residência à pessoa não se encontra. “Acreditamos que elas marcam um horário só para se ver livre de nós

naquele momento”, opina Diliana. O problema entre as classes sociais se revela na recepção dos recenseadores. Mesmo uniformizados, com crachá e número de matrícula, as pessoas ainda desconfiam. Os patrões, alegando o crescimento da violência, alertam os seus empregados a não abrir a porta para estranhos. Porém, a população de classe baixa diz ter ouvido nas rádios e visto na televisão propagandas do censo 2010, e por este motivo sabem da dimensão e importância de tal pesquisa. Ao contrário disso a maioria dos patrões desta parte da população mal dá importância ou não sabem o que é o censo. Um exemplo desta falta de informação é relatado pelo estudante universitário Felipe Torres Bueno, 19, que este ano trabalhou como recenseador na Zona Sul de Belo Horizonte. “Ao chegar em um domicílio, uma empregada doméstica pede para que eu aguarde na sala o seu patrão. Ao entrar na sala me apresento ao morador com o meu crachá, identidade e falando sobre a pesquisa do censo 2010. Ele me olha e diz que não irá me receber porque eu tinha cara de bandido. Ao ouvir tamanho absurdo tive a vontade de lhe dar um soco. Respirei fundo e detalhei toda explicação: meu nome é Felipe, sou recenseador do IBGE, vim fazer a pesquisa para censo 2010. Essa pesquisa direciona futuras políticas publicas. É realizada


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“Acreditamos que elas marcam um horário só para se ver livre de nós naquele momento”, opina Diliana.

de 10 em 10 anos, portanto sua ultima edição aconteceu em 2000. Ela abrange todo território nacional, bem como todos os domicílios e estabelecimentos. As perguntas contidas no questionário servem para mostrar o perfil do brasileiro e como ele vive. A prestação de tais informações é uma obrigação de todos os cidadãos prevista em lei...”, enfatiza Bueno que após a explicação consegue as respostas para o questionário. O estudante ainda destaca que algumas empregadas domésticas ao terminarem seus afazeres na partida para casa o encontravam pelos corredores e portarias dos prédios e diziam que seus patrões estavam em casa e poderiam sim responder,

mas que não tinham nenhum interesse. Diferentemente dos estrangeiros que ele encontrou pelo caminho que o receberam bem e responderam o questionário. Entre a lista encontramos: um chileno, dois italianos, um argentino e dois americanos. Final de mais um dia, várias portas se fecharam e perguntas foram respondidas, outras questionadas e alguns casos nem respondidas. Assim o Censo concluía suas pesquisas do ano de 2010. No último dia 04 de novembro o Censo apresentou números e mais números em todo território brasileiro e os recenseadores apresentaram em um dia de porta em porta histórias de brasileiros e brasileiras como você.

Curiosidades do Censo A partir de 1960 os recenseamentos passaram a adotar a técnica de amostragem na coleta das informações. Para a operação do Censo 1990, o IBGE precisava contratar mais de 180 mil pessoas em caráter temporário. Quando a contratação desse contingente foi autorizada, em julho de 1990, não havia mais tempo hábil para se realizar o processo seletivo público dos recursos humanos destinados ao censo, cuja coleta de dados estava programada para se iniciar no mês de setembro. Por tal motivo, o IBGE decidiu realizar o Censo Demográfico de 1990 em 1991. Para os Censos de 1991 e 2000, após estudos realizados por especialistas em amostragem, foram adotadas frações amostrais diferenciadas, de acordo com o tamanho da população do município. Assim, os municípios com até 15.000 habitantes tiveram 20% de seus domicílios investigados pelo questionário da amostra e nos municípios com mais de 15.000 habitantes, a fração amostral foi de 10%. fonte: IBGE

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(Dois pesos e duas medidas

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De um lado, mães que abandonam usando o argumento de proporcionar um futuro melhor; do outro, as que acolhem e amam incondicionalmente crianças que não saíram de seu ventre.

Apagaram-se as luzes e alguém pede silêncio fazendo um sinal encostando o dedo indicador nos lábios: chiiiiiiii o filme vai começar. A história é de um menino negro e pobre que mora na periferia, no interior de Minas Gerais, com sua mãe e irmãos. A casa é modesta e pequena e, na cama, mal tem espaço para todos dormirem. Alguém está narrando o filme, que se passa no ano de 1978: “fomos assistir televisão na casa do vizinho e a mãe viu a propaganda da Febem”. A mãe das crianças entende que essa é a solução para diminuir o nível de miséria em que vivem seus filhos, mas ela só pode mandar um deles, “Roberto meu filho, cê vai ser doutor”. O filme continua e agora Roberto e sua mãe estão dentro do ônibus. “Não acredito que ela vai fazer isso?”, alguém na sala comenta. Ela faz. Leva seu filho “caçulinha” (pois ainda era pequeno e tinha chances de ser bem educado), e sem ao menos poder se despedir e deixa-o chorando, no pátio da Febem, sem entender porque ficava para trás. O filme é o Contador de histórias e o narrador-protagonista da história verídica é Roberto Carlos Ramos. Muitas das crianças que viveram na Febem, no período em que a instituição ainda “educava” pequenos mineiros, sentem-se um pouco protagonistas desse filme, pois o sol que nascia sob a cabeça de um, nascia sob todas as outras, e o medo, a revolta e agressão que sofriam, eram agruras compartilhadas por todos. Dormitórios e banheiros também eram compartilhados pelos

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por Danielle Pinheiro e Iara Fonseca

internos, assim como materiais de higiene, roupas e calçados, enfim, não se cultivava uma política de individualidade entre as crianças. Chegar à conclusão que a Febem foi um programa que não funcionou não é difícil. A fama da instituição não é das melhores e recorrentes são os boatos – que se comprovam por meio das cenas da vida de Roberto e de uma exinterna que quem viveu no local. Ela que conta como foi bárbara sua estadia na instituição. “Cheguei lá em 1981 e tinha sete anos, apanhava muito (das outras internas e dos funcionários) e, por muitas vezes, fiquei presa em um quartinho de castigo, sem comida, sem água, sem cama para dormir, só de roupa íntima”, revela Maria dos Anjos de Oliveira, 39, que é portadora de necessidades especiais, aliás, um dos piores desacertos da FEBEM, que não usava critérios e espaços diferenciados para deficientes físicos ou mentais. Em outras palavras, os mais frágeis sofriam em dobro: nas mãos dos funcionários impacientes e dos internos mais fortes e revoltados. A Febem foi extinta em Dezembro de 1995 e, posteriormente, vieram outros programas sociais que, de alguma

forma, tentavam preencher a lacuna familiar nas vidas das crianças abandonadas em Minas Gerais. Um deles foi o Pró-vida, que trabalhava em parceria com a Secretaria de Estado da Criança e adolescente (SECAD), que passou por reformulações e iniciou uma proposta de “reordenamento institucional” nas unidades oriundas da Febem, resultando na parceria com a APAE e no remanejamento de todos os internos da antiga instituição problemática para unidades de Casa Lar. E se nessa história tem uma mãe que precisou ser corajosa o bastante para, em nome do progresso pessoal de seu filho, deixá-lo na Febem, também tem a de mães que seguiram em uma direção contraria. Em vez de usar a coragem para abdicar, elas a usam para acolher. Com a criação do programa Casa lar surgiu a necessidade de ter um profissional que efetivamente cuidasse das crianças e fosse ao mesmo tempo mãe, líder e educadora: a mãe social. Uma mulher que não se tornou mãe por pressão da sociedade, hábito ou acidente, mas por escolha própria, tem uma atitude que vai de encontro


Fotos: Iara Fonseca

com outra que, mesmo acreditando ser o melhor, repassa ao Estado o seu direito de ser mãe. Essa ambigüidade de comportamento leva a crer que, para além do alcance das lentes das câmeras cinematográficas, às vezes as mulheres usam dois pesos e duas medidas para pautar suas decisões maternas. No script da mãe social Carmem Martins de Souza, 49, por exemplo, não estava escrito que teria que apertar, com tanta força, os laços afetivos e muito menos vivenciar um vínculo de amor tão profundo com os internos da Febem. Carmem, que chegou a trabalhar na antiga instituição, conta, com lágrimas nos olhos, que lá não compunham uma família. “Hoje nós, mães sociais, somos as raízes das crianças que cuidamos, dando-lhes valor, chamando a atenção ou colocando para refletir quando necessário. Negros, brancos e pardos, todos convivem como irmãos, nesse lar”. O projeto Casa lar não prevê que os internos fiquem restritos ao ambiente da casa, em outras palavras, eles não ficam presos, têm liberdade de ir e vim, estudam, passeiam e são educados para conviver em sociedade. Têm acompanhamento médico, odontológico, psicológico e fisioterápico, quando necessário. Pelas políticas de tratamento das

mães sociais não se usa castigo e muito menos correção física. “Castigo é uma palavra um tanto bruta para essas crianças, usamos na Casa Lar a palavra reflexão” relata Carmem. Outra personagem principal é Janice Pinheiro da Cruz, 49, que neste ano completou quatorze anos na profissão de mãe social e diz ter aprendido a valorizar a vida e agradece a Deus pela oportunidade de estar ao lado de pessoas tão queridas. Ela conta dois dos episódios que marcaram sua experiência e que nunca mais esqueceu, um deles aconteceu com uma das crianças que residem com ela, transferida da Febem, “ela vinha da escola e quando chegou ao portão levantou os braços e disse: ‘graças a Deus, cheguei à minha casa’, ela realmente sentiuse em casa e poder contribuir com isso é muito gratificante”, desabafa Janice. O outro episódio aconteceu logo quando mudaram-se para a casa que estão hoje: um dos meninos dormia abraçadinho com o chinelo dele eu tive que conversar, falar que ninguém iria pegar as coisas dele, que não iria sumir, isso porque, na Febem, as crianças dormiam com os chinelos nas mãos. Como uns recebiam sapatos, chinelos e roupas e outros não, alguns pegavam os pertences do outro. Eles não estavam acostumados a viver assim

e ficaram assustados com a situação, relembra Janice. Ela conta também que a rotina de uma Casa Lar é igual à das outras casas mineiras, que têm mães tomando conta de seus filhos, cada um arruma sua cama, escova os dentes, toma banho, brinca e ajuda nas tarefas da casa, todos freqüentam a escola, alguns precisam de educação especial e outros da convencional. A mãe explica também que luta pela inclusão social dos menores, “a sociedade deveria olhar melhor pelos nossos meninos, quando digo nossos meninos é porque eles são meus filhos de coração”, atesta Janice. O trabalho das mães sociais é dividido com auxiliares que revezam nos cuidados da casa e com aqueles que requerem maior atenção. À exemplo de Roberto, que perdeu durante muito tempo o contato com sua mãe biológica, as crianças que moram em um lar e já sofreram muitas perdas, sentem dificuldade de se apegar e criar vínculos com as mães sociais, pois têm receio de um dia elas irem embora. “Conseguimos criar um vínculo, mas porque os antigos internos da Febem perderam o medo e foram assumindo o amor e o gostar. Não é nada fácil vir da rua e encontrar uma pessoa que tem que colocar normas, horário para dormir, comer, tomar

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“A Casa Lar é uma modalidade inovadora de acolhimento e abrigo para crianças, adolescentes e adultos em situação de risco pessoal e social – pessoas com deficiência intelectual e múltipla, sem referência familiar – que, sob a tutela de “mães ou casais sociais” vivem em unidades residenciais”. banho, brincar e tudo mais”, explica Carmem. Ela confessa que passa mais tempo com eles que com a própria família e seus filhos legítimos, porque quer o melhor para eles. As mães tentam incorporar seu trabalho à vida familiar e, muitas vezes, promovem as reuniões em datas comemorativas, por exemplo, em conjunto com as duas famílias. “Meus filhos vêm na casa, brincam com as crianças, falam de futebol. Conseguimos tranquilamente conciliar essa relação. É bom para os meus filhos e para as crianças da casa”, comprova Janice. Atualmente, são recebidas até sete pessoas em cada residência e, de acordo com a Assistente social da APAE, os convênios da instituição com o Estado estão esgotados – não há mais como receber crianças. Quando é necessário encaminhar uma criança para algum abrigo, o departamento do Estado responsável liga para os abrigos com os quais mantém convênios até encontrar a vaga. “Nosso convênio é para atender 48 pessoas e hoje atendemos 53”, esclarece Alessandra Cândida da Trindade, 34. O filme acabou e a história de Roberto teve desfecho feliz. Mesmo em meio a tantas adversidades, hoje ele tem uma boa formação, assim como desejava sua mãe. Não é fácil encontrar muitos finais felizes, como o de Roberto ou de outro egresso da Febem, que não carregue profundas marcas feitas no tempo em que viveram por lá. E não é verdade que tudo são flores, muitos dos joãos e marias que vivenciaram o dia-a-dia daquele lugar não foram ouvidos, mas a intenção é demonstrar que muitos dos adolescentes

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que hoje vivem em um lar, tiveram uma opção, assim como Roberto, de escolher viver melhor. Tiveram oportunidade de estudar e de crescer, de ser uma pessoa melhor. O governo que nos desculpe se estamos sendo simplistas demais com “suas boas intenções”, mas o projeto só tem dado tão certo, em grande parte, pelo empenho das mulheres que se dispuserem a enfrentar esse desafio. Mulheres que têm uma coragem que muitos de nós não teríamos. Quantas de vocês dedicariam suas vidas para cuidar de filhos herdados da Febem e gerados por mulheres que decidiram, um dia qualquer, deixar ser mães ? Tarefa difícil.

Minas conta com 45 Casas Lares, em 29 municípios. A região metropolitana conta com dez (10) Casas Lares. A Rede Mineira de Apaes é pioneira e serve de modelo para o Brasil.


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(Exemplo de superação Se mudar a própria vida, assolada por dificuldades financeiras e por limitações, físicas parece ser difícil, imagine superar tudo isso e ainda ajudar outras pessoas com problemas semelhantes

Rio Grande do Sul, Vacaria, 1970. A família Couto Silva decide partir para Belo Horizonte trazendo os três filhos, dentre eles um deficiente visual, e na bagagem poucos pertences. O casal se agarrou à esperança de uma vida melhor e o sonho de realização e vitória dos filhos. Aqui começa também a história de Flávio Couto Silva, o caçula da família, que, além das adversidades enfrentadas pelos pais, teria que enfrentar também um desafio pessoal, transpor a cegueira. Esse foi um longo percurso e, como toda boa história de superação, carregada de altos e baixos. Desde muito jovem, Couto lutou para superar limites e preconceitos. Através do método desenvolvido para alfabetizar pessoas com este tipo de deficiência, o Braille, Flávio Couto aprendeu a ler e, a partir daí, não parou mais. Além de professor do curso de Comunicação Assistiva Libras e Braille da PUC Minas, foi membro do departamento de história da UFMG e da escola de música da Uemg. Tanta experiência faz de Flávio Couto palestrante para diversos eventos principalmente aqueles que enfocam direitos humanos. Porém, a maior parte do seu tempo é dedicada à Coordenadoria de Apoio à Pessoa com Deficiência (CAADE). O trabalho de Flávio bem como o da coordenadoria é dar apoio

por Bruna Luíza, Sérgio Moreira e Juliana Magalhães

psicológico aos portadores de necessidades especiais e, mais que isso, encaminhar essas pessoas para o mercado de trabalho. É a partir deste ponto que a história de superação de Flávio Couto passa a influir na vida outras pessoas.

Encontros

Em que medida a decisão de uma família do sul do país pode afetar a vida de outra família, 40 anos depois? Foi o que aconteceu com Márcia Lúcia de Moraes, moradora do bairro Nova Gameleira conheceu a CAADE e, hoje, se considera realizada na vida profissional. Ela apresenta seqüelas da paralisia infantil, que a acometeu aos sete meses de vida, na perna esquerda. Márcia Moraes conheceu a CAADE por meio do jornal Super Notícia, que abordava o trabalho do órgão. Márcia Moraes trabalhou por 30 anos no Mercado Central, mas sem as garantias trabalhistas legais. Ao ficar desempregada recorreu à CAADE para ser reinserida no mercado de trabalho. “A escolaridade foi importante para mim, pois eu tenho o 2º grau completo e isso ajudou no processo. Consegui registro de carteira através da CAADE na Concessionária Recreio”, enfatiza, informando a existência da abertura de mais uma oportunidade de trabalho em outra empresa. Otimista quanto ao avanço nos últimos anos em prol dos

portadores de deficiência e ciente da sua importância na vida das pessoas, Flávio Couto reconhece que ainda se há muito a melhorar. A Constituição de 1988 foi fundamental para os direitos desses cidadãos. Esses direitos foram reafirmados em 1999, a lei exige que as empresas com mais de 100 funcionários reserve de 2 a 5% das vagas para os portadores de deficiência. “Não é o bastante”, afirma Flávio. Segundo ele, a maioria dos empresários desconhece o potencial dos portadores de necessidades especiais e ainda os vêem como geradores de despesa e não como investimento. “Isto gera preconceito e não contribuí em nada para cidadania”, avalia. “Além disso, ao ajudar uma pessoa com deficiência deve-se ter cuidado para não frustrá-la. O portador de necessidades especiais não precisa de compaixão, mas, sim, de incentivo”, completa.

Apoio familiar

Outro pilar importante para a realização pessoal e profissional dos portadores de deficiência é a família, de acordo com o coordenador da CAADE. Para ele, é através dela que o deficiente deve encontrar apóio e ter o reconhecimento de sua capacidade. “Encarar as diferenças como riquezas e não como algo negativo. Todas as pessoas são limitadas. Ninguém é perfeito”, conclui Flávio Couto.

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(O encontro das sempre vivas No Brasil, o número de mulheres infectadas pelo HIV aumenta a cada dia. Hoje, o principal motivo para esse alto índice é a contaminação de mulheres por seus parceiros. por Lailiane Freitas e Izabela Pacheco

Senhoras bem vestidas, com aspecto saudável, que se reúnem uma vez por semana para atividades de socialização. Você acha que são amigas em um clube do livro? Um encontro para o chá das cinco? Amigas em um jogo de carteado? Poderia ser, mas... A maioria dessas mulheres não imaginava que o que iria uni-las, numa reunião semanal, seria o fato de ser soropositivas. Mas o drama não para por ai. Elas foram infectadas pelos próprios maridos ou parceiros fixos, em quem confiavam e acreditavam na fidelidade devido à convivência de anos. Mas só a confiança delas não bastou, pois seus parceiros possuíam histórias que elas desconheciam. Esse cenário está cada vez mais comum na sociedade brasileira, pois, a cada dia, o número de mulheres infectadas pelo HIV aumenta. Os motivos para esse aumento? São vários. Submissão sexual, excesso de confiança, resistência de o parceiro em usar o preservativo, que juntos viram uma bomba relógio. Teoricamente, essas mulheres não pertenciam a nenhum grupo de risco ou se enquadravam no chamado comportamento de risco. Elas levavam uma vida corriqueira de casada, e foram surpreendidas por uma “fatalidade”. Para enfrentar essa nova situação, elas se reúnem na ONG ACP SEMPRE VIVA onde desenvolvem atividades de integração social, como oficinas de bordado, tricô e artesanato, além de receber auxilio psicológico e financeiro. O espaço da ONG proporciona a troca de experiências vividas por essas mulheres, dividindo suas angústias e expectativas. Lá as histórias de vida se misturam. Juntas tentam construir um futuro melhor. Cada uma traz uma peculiaridade em seu trajeto, algumas dizem não saber como foram infectadas, mesmo afirmando que só tiveram relações

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com o único parceiro. Outras têm a certeza que foram infectadas por seus parceiros, e mesmo com toda raiva e decepção do momento da descoberta continuam ao lado deles, cuidando de seus parceiros até o último momento.Nem todas tiveram a coragem de assumir para seus familiares que possuem o vírus. Algumas preferem o silêncio como companheiro, pois o medo do preconceito fala mais alto.

Confiança cega Maria, que preferiu preservar o sobrenome, 47 anos, infectada pelo parceiro em 1998, convive com o vírus há12 anos. Viveu três anos com um homem no qual confiava cegamente. Afinal ele nunca deu motivos para ela desconfiar. Mas Maria cometeu um erro, (o mesmo que várias mulheres cometem), ela entregou sua saúde física e psicológica nas mãos de uma pessoa de passado desconhecido. Ela mantinha relações sexuais com ele sem camisinha. Arriscando-se todos os dias. Maria começou a se relacionar com esse homem durante o namoro, que durou um ano, e casaram-se. Durante esse tempo, ela contou que quando ele bebia dizia que tinha um segredo que não poderia contar para ninguém, nem mesmo para sua mãe. Após um ano e sete meses de casamento, começaram brigas, e a relação se tornou insustentável chegando ao fim após 2 anos união. O ex-companheiro, não conformado com a separação, insistia para voltar, mas Maria nunca quis, pois já estava voltando com seu antigo parceiro, pai de sua filha. Em uma última tentativa de reatar o relacionamento esse homem teria feito ameaças, ele dizia: “ficaríamos juntos de qualquer forma, aqui ou no inferno”, relata. Depois de um tempo,


Maria começou a passar mal, sentindo fortes dores no peito e falta de ar.

Recomeço

Então, procurou um médico, que não conseguiu diagnosticar o que havia com ela. Após vários exames e manifestação de algumas doenças como pneumonia, um infectologista sugeriu que fosse feito o teste Elisa para detecta o HIV. Com o resultado do exame, a suspeita do infectologista foi confirmada. A lembrança mais triste deste momento foi a forma como recebeu a noticia do médico. “Não esperava receber a notícia no meio do corredor lotado de um hospital, foi constrangedor. Fiquei sem chão, muito abalada, afinal, não esperava este resultado”.

Atualmente, Maria é a vice-presidente da ONG ACP Sempre Viva, que foi fundada em 2004, com o objetivo de promover a melhoria da qualidade de vida, o resgate da auto-estima e da cidadania das mulheres portadoras do vírus HIV. Maria continua casada com o pai da sua filha, que lhe deu e continua dando todo suporte e apoio. O que mais surpreende em Maria e nas demais mulheres da ONG é a forma como levam suas vidas, de maneira muito alegre e bem disposta, diferente de um suposto estereótipo social. Juntas, elas mantêm a ACP Sempre Viva, cujo trabalho não se resume apenas no auxílio à mulher soropositiva. Elas orientam o uso dos preservativos e o combate a AIDS entre as mulheres. Nas palestras, o objetivo é conscientizar e valorizar uma posição mais firme da mulher sobre sua vida sexual. Além de tentar combater o preconceito com os soropositivos na sociedade, lutando pelos seus direitos já garantidos e pela conquista de novos.

Ao revelar para sua família o resultado do exame, todos suspeitaram do atual parceiro. Mas, rapidamente, foi feito o exame cujo resultado foi negativo. Maria teve a certeza que foi infectada pelo ex-companheiro. A partir daí, Maria começou a sua luta pela direito à vida, com o apoio incondicional de sua família. Passando por diversas dificuldades e doenças, que a levaram a perder a visão de um olho, tendo que colocar uma prótese e a ter apenas 20% na outra visão. Além disso, outra conseqüência foi a perda de massa muscular em todo o corpo, tendo que fazer preenchimento facial.

Serviços: Atendimento/apoio aos portadores do vírus HIV em BH - Hospital Eduardo de Menezes Rua Dr. Cristiano Rezende, 2213, Bom Sucesso Telefone:3328-5011

Foto: Izabela Pacheco

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(Evagelhoterapia- Instrumento de cura? (

O uso do Evangelho como tratamento terapêutico em casos de transtornos mentais traz esperança para pacientes, mas divide opiniões por João Paulo Costa Jr. e Raphael Jota

Era o fim da tarde de uma quinta chuvosa. Após atravessarmos a cidade chegamos ao nosso destino, o Hospital Espírita André Luiz (HEAL), que atende pacientes com transtornos mentais, fazendo a reabilitação e o tratamento psiquiátrico tendo por instrumento o Evangelho. Não sabíamos ao certo com o que nos depararíamos. Iríamos ter contato com um tratamento psiquiátrico pouco convencional, a sessão de Evangelhoterapia. Nossa chegada coincidiu com a dos familiares dos pacientes que participariam da sessão. Com os semblantes de sofrimento e os olhares de esperança eles nos cumprimentaram. A sala de terapia, com 10m x 8m, com luz bem clara, teto pintado de azul, paredes acolchoadas e poucas cadeiras ao redor das macas, nos esperava. Nas macas, três pacientes acompanhados por dois

enfermeiros. Num canto da sala dois sofás onde se sentaram os familiares dos pacientes. Ao fundo, uma música suave serenava os corações dos familiares de aparência aflita. A sessão começou. Um homem, de aproximadamente cinquenta anos, iniciou a terapia com a Prece de Cáritas. “Deus, Nosso Pai, que sois todo poder e bondade, dai força àqueles que passam pela provação” (...) Ele fechava os olhos, sua face se harmonizava e começava a citar passagens do Evangelho para os pacientes. Caminhava de maca em maca fazendo imposição de mãos nas cabeças dos pacientes e convidou a todos a uma prece conjunta. Um desses pacientes era Laura dos Santos Valle, 48, que abrandou a hiperatividade com os passes magnéticos e as palavras do Evangelho. Fotos: João Paulo C.osta Jr.

Coquetel de remédios Ao nosso lado no sofá estava à mãe de Laura, a aposentada Delza da Silva Santos, 67, católica. Após o término da sessão, ela explicou que a filha sofre de transtorno mentais há oito anos, tendo passado por várias clínicas da capital mineira.

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Dona Delza nos confidenciou ainda que não suportava mais ver sua filha tomar um coquetel diário de remédios e drogas antipsicóticas, antidepressivas e anticonvulsivantes. A dificuldade em encontrar um tratamento menos agressivo para sua filha, a fez procurar o HEAL para experimentar um tratamento


diverso daqueles que sua filha havia experimentado. “O tratamento aqui deixou minha filha mais consciente das coisas. Aqui ela tem acesso a leituras diárias do evangelho e, duas vezes por semana, recebe passes magnéticos. Esse tratamento mudou um pouco a Laura”, garante. Saímos da sessão atordoados. Um misto de euforia e racionalidade nos agitava. Como poderiam pacientes que sofrem de graves transtornos mentais ficarem tão calminhos e serenos apenas ao ouvir palavras do evangelho? Nosso pragmatismo nos levou ao encalço de explicações. Na outra semana, já estávamos em Mário Campos, região metropolitana de Belo Horizonte, na Casa Espírita Benção, onde encontramos Wagner Paixão, 48, funcionário público e adepto da Doutrina Espírita. Paixão esclareceu que o Evangelho como fonte de tratamento psíquico é uma indução poderosa na recuperação do paciente. “A Evangelhoterapia seria o encontro com aquilo que é pleno. Nesse sentido, o Evangelho quando sentido e buscado vai fazer com que as pessoas se sensibilizem com valores nobres e vai amenizar a sombra do passado daquela pessoa”, explica.

Cura do espírito Elcione Galantini é pastora da Igreja Batista da Lagoinha e defende a eficácia do Evangelho como instrumento de cura do espírito. “Deus pela sua palavra cura as emoções e o físico também”, ensina, “mas, em nenhum momento, nós invalidamos o cuidado prestado pelo médico ou psicólogo”, enfatiza. O juiz do trabalho, Haroldo Dutra Dias, 43, é espírita kardecista e acredita que as palavras

do Evangelho podem ser usadas para a cura. “O Evangelho não pode ser visto como um livro religioso do ponto de vista tradicional destinado ao culto, adoração ou simplesmente veneração, mas sim como uma ferramenta terapêutica”.

Divergências A psicóloga, Teresa Maria Catete Cruz, 28, especialista em transtornos afetivos bipolares, é categórica. “Cada caso é um caso. Não posso afirmar que o Evangelho pode ser trabalhado junto com o tratamento de transtornos psiquiátricos. Não podemos esquecer nunca da medicação e das drogas que são mais importantes para as melhorias do paciente”, defende. A psicanalista, Maria Betânia Batista, 44, acredita que quando um paciente é tratado dentro de um regime em que ele se depara com o Evangelho pode obter melhoras do seu quadro patológico. “Em alguns casos acho que pode auxiliar, mas temos que pensar, também, que sem os remédios o efeito é reduzido ou não há efeito algum. Temos que entender que o Evangelho pode ajudar, mas não é a solução”, reforça. O psicólogo Gilberto Ribeiro Vieira, no livro Evangelhoterapia – A Ciência de Amar, afirma que as causas das enfermidades se encontram em dimensões mais profundas do ser humano. Muitos médicos se dedicam a tratar somente o corpo e se esquecem do restante. Olhos para enxergar, ouvidos para ouvir talvez seja a receita da evangelhoterapia. Fica a reflexão: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem aventurados o que não viram e creram” – João 20: 29-31.

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(

(Da Psicografia para a sétima arte Sucessos de bilheteria, os filmes com a temática espírita ganham fôlego na produção do cinema nacional e já se preparam para estréia, prevista para este ano, nas telas internacionais Em entrevista exclusiva, médium belo-horizontina psicografa mensagem de “uma amiga espiritual” explicando os desdobramentos do fenômeno espírita nas produções cinematográficas

)

por Tomas Saffran

Essa nova onda ganhou grande fôlego com a figura emblemática de Francisco Cândido Xavier ou, simplesmente Chico Xavier, duplo sucesso de bilheteria em 2010, com os filmes “Chico Xavier” e “Nosso Lar”, uma vez que estes foram baseados em livros publicados pelo médium que, por sinal, foi recentemente considerado o médium do século e maior psicógrafo de todos os tempos e completa o seu centenário nesse ano. E os projetos não param por aí. Está prestes a ser lançado o filme “Área Q”, de Luiz Eduardo Granjeiro Girão. O filme será uma co-produção EUA e Brasil. Segundo Girão, o longa-metragem será a porta de entrada do tema espírita nas telas de todo o mundo. Também previsto para este ano, em homenagem ao centenário de Chico Xavier, o filme “As mães

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de Chico Xavier”, que, seguindo a linha de sucessos anteriores, promete ser mais uma explosão de bilheterias. Uma curiosidade a respeito dos filmes espíritas é que foram baseados em psicografias de Chico Xavier, e o médium psicografou nada mais, nada menos do que 451 livros, e ainda existem cerca de 150 psicografias não publicadas. Na quinta-feira, 19 de novembro, durante uma entrevista com a médium Lídia Verônica sobre o

tema, a reportagem recebeu a contribuição inesperada de Berê, que se identificou como “uma amiga espiritual”. Em psicografia, atendendo solicitação de ajuda da médium, que foi seu instrumento, Berê respondeu às questões pontuadas pelo repórter, sob a perspectiva espírita. Leia, a seguir, a mensagem da “amiga espiritual” em entrevista exclusiva a revista Contornos.

Ilustração Maria Amélia

A doutrina espírita vem ganhando espaço nas telas do cinema brasileiro. Os principais personagens dessa nova narrativa estão saindo das páginas dos livros direto para a Sétima Arte. O personagem Bezerra de Menezes é um dos precursores dessa nova fase. Por meio de patrocínio do empresário Luiz Eduardo Granjeiro Girão, decidido a fazer o filme a qualquer custo, teve sua história contada nas salas de projeção cinematográficas, em 2008, no filme “Bezerra de Menezes – Diário de um Espírito”.


CONTORNOS - O que você pensa sobre a divulgação da Doutrina Espírita no cinema?

um maior número de adeptos desta doutrina, o que também contribui para o sucesso de seus filmes.

Berê - Uma oportunidade maravilhosa para conhecimento de milhares de pessoas, pessoas que, em grande parte, não tinham um conhecimento aprofundado da Doutrina Espírita. A cada duas horas, uma nova sessão recomeça em centenas de salas de cinema, de norte a sul deste país. Isso significa que centenas, milhares de pessoas, cada uma com sua forma de entendimento, tiveram a oportunidade de ter um pouco mais de conhecimento da verdade do mundo espiritual. É maravilhoso como a obra divina é cheia de sabedoria.

Com essa divulgação da doutrina em uma mídia de grande alcance, como está sendo a repercussão nos centros e na venda de obras espíritas?

Qual o motivo de tanto sucesso de filmes com temática espírita? Atribuímos o sucesso dos filmes espíritas no Brasil a uma série de fatores. O Brasil é um país de história e cultura mística e religiosa,e temas neste sentido atraem muitas pessoas. Outros tantos vão movidos pela simples curiosidade. A grande maioria do público acredita na continuidade da vida após a morte, na espiritualidade, mesmo os não espíritas propriamente ditos. Filmes espíritas mostram também um plano etéreo que chega a ser um “espetáculo”, pessoas ficam fascinadas e muitos, muitos mesmo, saem de uma sessão de cinema questionando e revendo seus valores e objetivos de vida. Também não podemos deixar de citar que, apesar do Espiritismo ter surgido na França, o Brasil é o país que possui

A venda de obras literárias espíritas cresceu significativamente no último ano. Pessoas que assistiram aos filmes começaram a buscar um maior entendimento sobre o assunto. Muitos indecisos, no sentido religioso, encontraram algumas respostas para suas dúvidas e anseios e, consequentemente, buscaram e buscam palestras, centros e livros espíritas. Por que o grande interesse de cineastas e produtoras não espíritas no tema? Cineastas não espíritas produzem filmes espíritas simplesmente pelo lado profissional e não religioso. Chico Xavier foi e é um homem, um ícone, uma figura carismática e símbolo da verdadeira caridade e humildade. Homens e Mulheres, das mais diversas crenças, nutrem uma admiração por Chico Xavier. O 1° grande sucesso de bilheteria foi a biografia de Chico Xavier. Ao decidir produzir tal filme, o cineasta e demais envolvidos visaram a fama, o carisma de Chico. Ao reafirmar tal sucesso, produziram “Nosso Lar” e estão produzindo outros. O objetivo é a venda praticamente garantida

à divulgação do seu trabalho, das novas tecnologias aplicadas aos filmes nacionais.O que esses cineastas não imaginam é que, além do sucesso e retorno financeiro que tem, eles estão divulgando verdades divinas e semeando em centenas de corações, sementes de luz e entendimento. Como você vê o interesse de católicos, protestantes, ateus, materialistas e pessoas indiferentes ao espiritismo em filmes como "Chico Xavier" e "Nosso Lar"? São muitos os motivos que levam pessoas de crenças tão distintas a assistirem aos filmes espíritas. Já é sabido que entre os católicos, que é uma religião com um número muito significativo no Brasil, muitos se declaram católicos, mas simpatizantes ao espiritismo. Muitos vão ver o filme por acreditar mesmo na doutrina. Também é grande o número de curiosos. Outros vêem os filmes para criticálos, para os que condenam o espiritismo, por exemplo, também é importante saber do que se trata para pautar suas críticas. Independentemente da crença de quem quer que seja, os filmes espíritas transmitem mensagens de Amor, de conhecimento, de continuidade, de esperança e o ser humano, crente ou ateu, busca sempre um sentido para a vida. Como a Doutrina Espírita transmite esse sentido pautado em bases não só religiosas, como também científicas e filosóficas, muitos encontram respostas, conforto, sentido, ou apenas uma oportunidade para rever seus conceitos, através dos filmes.

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(Trânsito sem solução texto por Camila Sol fotos Mautirico Vieira

A espera por um transporte público demora de 15 minutos a uma hora. Quase sempre os ônibus estão superlotados e muitos passageiros vão em pé, depois de um dia de trabalho. O valor cobrado é muito alto e o conforto não existe. Hoje já não se pode dizer que chegaremos em certo lugar em determinado horário. O trânsito de BH vem se tornando cada dia mais caótico. A possibilidade de solução é mínima e alguns acreditam que a educação seja a reposta. “O trânsito não irá parar”, afirma Frederico Rodrigues, professor do curso de Transporte e Trânsito do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) e Diretor da Imtraff Consultoria e Projetos de Engenharia. A questão é que o número de veículos está aumentando e a qualidade da malha viária nem tanto. “Existirão situações de trânsito cada vez piores e, se não houver investimento em transporte coletivo, haverá cada vez mais congestionamentos”, explica. Para o especialista, é preciso enfatizar que o coletivo, neste caso, significa compartilhar o transporte particular com outras pessoas. O serviço de transporte público é, por princípio, coletivo, mas o particular não. A intenção é orientar as pessoas para que usem o mínimo de veículos possíveis com o máximo de pessoas. Nos centros urbanos, a ocupação média veicular é mínima, da ordem de 1,4 passageiro por veículo. “Fazer com que todos usem o transporte público é utopia, mas é possível fazer com que pessoas que vão para o mesmo lugar planejem ir juntas, diminuindo assim a quantidade de veículos nas ruas, colaborando para evitar os congestionamentos”, diz Rodrigues.

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Segundo o professor e diretor, o problema de congestionamento se deve ao fato de haver um número X de veículos querendo passar em uma via que tem limite Y. “Uma via que tem capacidade para 1.800 veículos passarem em 1 hora e encontra ali 2.000 veículos irá causar uma fila, ou seja, um congestionamento por excesso de capacidade. São mais pessoas querendo passar do que aquele lugar permite”, explica. A auxiliar de dentista, Keila Ferreira, reclama que a demanda de passageiros por transporte público está aumentando e o número de veículos não. O estudante de Medicina, Ítalo Facella, reclama que o centro de BH parece um funil. “Todas as ruas convergem para lá, o que causa um baita engarrafamento. Os ônibus demoram demais a passar e, muitas vezes, quando passam não param”. A aluna do curso de Transporte e Trânsito do Cefet-MG Ana Luiza Silva, argumenta que os aumentos no preço das

passagens de ônibus faz com que a população deseje, cada vez mais, comprar um carro por acreditar que o custo\benefício é melhor. Muito alunos do curso de Transporte e Trânsito do Cefet-MG concordam que o centro de BH é ponto nevrálgico do problema. Adriano Ferreira afirma que as pessoas andam de carro por estarem com pressa, mas deviam pensar que, se têm pressa, deviam ir de ônibus, pois assim diminuiria o número de veículos em circulação. Já para Pedro Henrique de Oliveira, a população não leva as autoridades do trânsito a sério e a sinalização ainda é falha. Ele acredita que se o comércio das periferias se desenvolver fará com que a população evite ir ao hipercentro, diminuindo o tráfego nessas regiões. Por sua vez, Gustavo Canesso acredita que uma alternativa seria proibir o estacionamento no hipercentro para liberar as vias, tendo apenas o transporte local.

Educação no trânsito A longo prazo, a única alternativa viável é a educação das crianças para o trânsito. O Cabo Silvestre, instrutor da Transitolândia, recepciona excursões promovidas pelas escolas. “As crianças recebem as primeiras orientações de como atravessar a rua, a importância de olhar os sinais de trânsito, conceitos e riscos”, explica. A Transitolândia é uma minicidade com ruas, postos de gasolina, faixas de pedestres e semáforos criados com o intuito de preparar as crianças para a rotina do trânsito. Em fevereiros abrem-se as inscrições para as escolas que querem fazer as visitas. Apenas na Semana Nacional do Trânsito é que as atividades são alteradas.Os

pais também podem ligar e marcar para trazer seus filhos aos fim de semana, informa o Cabo Silvestre. A professora Andréia Silva levou seus alunos do 3º ano do ensino fundamental à Transitolândia e defende que esse tipo de educação tem que começar na escola e ter continuidade em casa. “É na prática, no dia a dia, que as crianças entendem melhor o que ensinamos”, acredita. “Assim como há obrigatoriedade em diversas matérias escolares, devia, também, ter educação no trânsito na escola”, defende Gustavo Canesso, do curso de Transporte e Trânsito do CefetMG. A professora de legislação do Cefet-MG, Junia Nunes de Paula,

cita a constituição para defender a inclusão da educação no trânsito nas escolas. “O brasileiro precisa aprender a viver na legalidade. Mas falta política de investimento”, acrescenta. A Assessoria de Comunicação e Marketing da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHtrans) em release divulgou que “O prefeito Márcio Lacerda e o ministro das Cidades, Márcio Fortes, assinaram o contrato de financiamento com a Caixa Econômica Federal para obras de melhoria da Mobilidade Urbana. As obras estão incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal. Ao todo, serão investidos R$ 1,23 bilhões nas obras”

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por Natália Guimarães e Ricardo Gioia “Meu nome não me vem mais a memória, assim como meu passado, se já fiz parte de alguma família, como nasci, quantos irmãos tive, quantos sapatos já estraguei. Minhas lembranças só começam no dia que prefiro esquecer, quando estava desacordado, abandonado no lixo no meio da rua. Abri meus olhos, mas não enxergava. Quando teria perdido minha visão? Por qual motivo? E por que estava lá? Me sentia cansado, minhas pernas tremiam, pareciam já estar se dando por vencidas. Sintia dores, sabia que algumas feridas consumiam minha pele. Pêlos, quase não os tinha. Lembro que tudo coçava muito, mas não me sobravam forçar pra me coçar. Não tinha nada pra comer, nem menos água para me refrescar nos dias mais quentes, parecia que minha vida iria terminar daquele jeito, sem ao menos saber se merecia tal destino.

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E quando não me restava mais esperança, senti um toque. Uma mão quente, aconchegante. No início, fiquei com medo, mas a cada segundo que passava aquela mão me parecia mais confortante. Me chamaram de Vôzinho, não sei exatamente por qual motivo, mas gostei. Me ofereceram comida e muita água, a ponto de eu me engasgar tamanha minha verocidade. Depois, veio uma moça e cuidou de todas as minhas feridas e me encheu de remédios. Até meu cheiro mudou depois que me jogaram debaixo d’água e me esfregaram todo. Hoje, vivo com vários cachorros, e tenho um enorme espaço para passear e nunca me falta água ou comida. As pessoas que me trouxeram pra cá continuam me tratando com muito carinho, dizem que sou parte da família e de lá não saio nunca mais. E minhas lembranças? Daquele dia pra frente, lembro de cada instante”.

(

Fotos: Ricardo Gioia

“O bicho, meu Deus, era um homem”

Citação da Poesia de Manuel Bandeira - O Bicho

Essa é a história de um, dentre milhares de animais abandonados nas ruas. Ele teve sorte, porém a grande maioria vive outra realidade. Na cidade, hoje, existem cerca de 300 mil cães e 37 mil gatos, sendo que 10% deles vivem abandonados nas ruas, segundo dados da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, referentes ao ano de 2009. O caso mais sério é de pessoas que, simplesmente, descartam os animais quando eles atingem a fase adulta. A grande maioria da população brasileira, infelizmente, se não maltrata, trata com descaso e acha tudo normal. Todavia, há os que não toleram tal descaso e lutam sempre em prol dos animais, mesmo sem melhores condições e qualquer apoio. E alguns mineiros vêm dando exemplos. Conhecemos os dois lados da moeda, os que têm maior poder aquisitivo e formaram ONGs, e os


“pequenos”, que lutam para conseguir espaço para acomodar os animais. O “Vôzinho”, o da história, vive na ONG Cão Viver, situada no bairro Braúnas, na região da Pampulha. As mãos aconchegantes que o salvaram são do engenheiro Vicente Martins e da aposentada Denise Menin, que, há sete anos, realizam esse trabalho. Lá, os 150 animais abrigados possuem amplo espaço, além de contarem com tratamento veterinário e bloco cirúrgico. Porém, quem acha que é tudo fácil da vida de Vicente, Denise e de seus cachorros coletados nas ruas, se engana. O número de cachorros em fase adulta abandonados na porta da ONG é absurdo. E mesmo com as boas condições que possui a ONG, vem faltando espaço para os animais. Sobre o assunto, Vicente é taxativo: “A única solução, para resultados de médio e longo prazo, é a castração”. O engenheiro menciona, também, a falta de apoio político e o atraso de Belo Horizonte em relação à proteção dos animais. “BH é uma das únicas cidades no Brasil que comercializa animais da maneira que faz o Mercado Central. E aqui há apoio para puxadores de carroça, fazendo cavalos sofrerem. Só aqui!”, explica Vicente. No abrigo da Dona Rosângela Avelar, no bairro Vera Cruz, região leste de Belo Horizonte, moram cerca de 25 cães e 20 gatos, em alta rotatividade. Dona Rosângela é cozinheira em uma Escola Municipal pela manhã. O resto de seu dia é totalmente dedicado as suas maiores paixões: Seus animais. Dona Rosângela

afirma já ter doado mais de 100 animais. Em parceria com um veterinário da região, todos os animais encontrados pelas ruas são tratados, e hoje em dia a cozinheira conta com o apoio da Prefeitura, que mediante agenda, realiza a castração dos animais.

Legislação

No Brasil, a Lei dos Crimes Ambientais (9.605/98) protege os animais. De acordo com o artigo 32, a prática de abuso, maus-tratos e mutilações de animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos é punida com 3 meses a 1 ano de prisão e multa, aumentada de 1/6 a 1/3 se ocorrer a morte do animal. Está em trâmite no Congresso Nacional uma proposta que enquadra as agressões aos animais em outra lei, com sanções menos severas, e os protetores dos animais vem travando uma batalha para impedir essa mudança, já que punições graves têm mostrado eficiencia: Na África do Sul, por exemplo, existem rígidas leis de controle e posse de animais , e lá não se vê um animal jogado às ruas. “Me paro sempre imaginando quantos animais vivem hoje nas ruas nas condições em que eu um dia estive. Somos seres tão simples, só precisamos de carinho e cuidados básicos, e costumamos retribuir com muito mais. Todos nós merecemos uma Denise, um Vicente, uma Rosângela...”

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(Mineirão, um misto de emoções (

"Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma." Carlos Drummond de Andrade por Livia Lima

Durante 25 anos os mineiros sonhavam com a construção de um estádio que não saia do projeto e nem de alicerces que não eram levantados. Na década de 40 começou a construção do estádio, pois Belo Horizonte seria uma das cidades sedes da copa do mundo de 1950 e com isso teriam que entregar o estádio em uma situação precária com uma capacidade de apenas 30mil lugares para uma demanda bem maior de torcedores. O projeto só foi concluído no ano de 1965, com uma capacidade de torcedores bem maior e seu espaço foi comparado ao do Maracanã no Rio de Janeiro.

teve um amistoso entre a Seleção Mineira x River Plate da Argentina. Com a vitória da Seleção Mineira com um gol Buglê que na época era jogador do Atlético Mineiro. O primeiro comentarista a abrir o microfone para a capital mineira foi Alberto Rodrigues que há 45 anos tem o privilegio de narra os jogos no estádio. O mesmo falou da emoção que sentiu ao fazer a narração. “Eu tenho o privilégio de ter sido o primeiro locutor do Mineirão e narrar o primeiro o gol do jogador do Atlético Buglê aos dois minutos do segundo tempo”. A rádio Itatiaia foi a primeira a abrir os microfones para o esporte A sua inauguração foi no dia em Minas Gerais, com a narração 5 de setembro de 1965, batizado de Alberto Rodrigues, que foi o com o nome do Governador narrador privilegiado. Magalhães Pinto. A torcida mineira carinhosamente chamou o estádio Quem vê o estádio do de Mineirão. Para a sua inauguração Mineirão no meio da poeira, cheio

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de tapumes, sem o gramado e com as arquibancadas sendo retiradas, não imagina que guarda historia de torcedores, narradores e do próprio estádio. O estádio que é considerado a segunda casa dos mineiros está de portas fechadas que só reabrirão daqui 3 anos. O Estádio Governador Magalhães Pinto mais conhecido como Mineirão foi escolhido pela FIFA para sediar alguns jogos da Copa do Mundo de 2014, por este motivo suas portas foram fechadas. Para alguns torcedores o Mineirão não é apenas um estádio, mas sim sua segunda casa, o refugio dos problemas e o encontro de velhos amigos. Como falou o torcedor Cruzeirense Luiz Felipe: “Quando eu vou ao Mineirão me sinto em casa, todo mundo é amigo de todo


mundo, tem a cervejinha antes do jogo e dentro do estádio tem o tropeiro. Mas o melhor de tudo é poder encontrar a china azul e o meu Cruzeiro”. Os torcedores do Atlético também não ficam de fora ao afirmarem sobre o estádio, como diz a torcedora Atleticana Roberta Almeida: “Vou ao Mineirão dês dos meus 4 anos e lá me sinto como se eu tivesse no quintal da minha casa, canto, motivo e choro junto com a torcida que ali parece mais uma família alvinegra. Não existe emoção maior do que ver uma partida do meu Galo e poder vibrar de alegria”. Mas com o fechamento das portas do Mineirão com o seu ultimo grande espetáculo que foi à gravação do DVD Ao Vivo do Skank. Os torcedores mineiros ficaram sem o seu estádio, tendo que se deslocar para, Sete Lagoas, Uberlândia e Ipatinga. Fazendo assim a media de publico durante o campeonato diminuir drasticamente. Mas mesmo assim seus torcedores acompanham seus times do coração em qualquer lugar do Brasil ou do mundo. O Mineirão leva em sua historia a emoção dos torcedores em suas arquibancadas, escadas

e corredores do estádio. Tanto para os Cruzeirenses como para os Atleticanos o sentimento é igual, mesmo ficando em lados opostos do estádio e vestindo camisas diferentes. Quando se entra pela primeira vez no estádio a emoção transparece em cada torcedor e o sentimento de amor pelo time só aumenta. A estudante Iara Nassif torcedora do Cruzeiro relata esse sentimento: “Nossa, eu nem sei explicar. Mas foi uma emoção muito grande quando eu subi por aquelas escadas e fui vendo aquele gramado verdinho e a torcida inteira cantando e empurrando o time, que tava entrando em campo na mesma hora que eu cheguei arrepio só de lembrar”, já o torcedor do Atlético Pedro Dias explica essa sensação: “Quando pisei pela primeira vez no Mineirão, meu coração disparou e comecei a suar frio. Escutando o barulho da bateria e a gritaria da torcida, não queria sair dali, tive a certeza que meu coração era Alvinegro e que não queria outra coisa alem de torcer pro Galo”.

derrotou a seleção brasileira no ano de 1969. O recorde de publico do estádio é do Cruzeiro na final do campeonato Mineiro de 1997 com 132.834 torcedores Celestes. O ex-jogador do Atlético Reinaldo que é o artilheiro do Mineirão com 144 gols marcados com a camisa Alvinegra. Com emoção e historia é assim que se constrói a paixão pelo futebol, fazendo do Mineirão a segunda casa dos torcedores desse estado chamado Minas Gerais. Com camisas, bandeiras e faixas que os torcedores das duas maiores torcidas fazem sua festa. Sendo em clássicos ou jogos com outros times do Brasil, mostrando a força do futebol mineiro em todo país. Deixando a rivalidade de lado e mostrando a paixão por esse Estádio que a torcida leva dentro do coração, mostrando que temos uma força no futebol. O Mineirão não é apenas mais um estádio no Brasil, mas sim o Estádio do coração de todos os torcedores Cruzeirenses e Atleticanos.

O Mineirão já foi palco de grandes jogos, como as duas libertadores do Cruzeiro e o Atlético sendo o único time do mundo que

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(Contornos

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NOVEMBRO 2010

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Revista Contornos  

Revista realizada para a máteria de TIDIR do Centro Universitário UNA

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