Antologia do XXX Concurso Literário de Poesia e Prosa

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XXX CONCURSO LITERÁRIO DE POESIA E PROSA

2022

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FICHA TÉCNICA

DIAGRAMAÇÃO Neusa Maria Soares de Menezes

ARTE DA CAPA ECOS Exposição Comunicacão

REVISÃO TEXTUAL Maria José Garganni Moreira da Silva

REVISÃO GRÁFICA Beariz Virgínia Camarinha Caslho Pino

COORDENAÇÃO GERAL Nívea Poli Barbosa

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PALAVRA DA PRESIDENTE

De passo em passo, ese Concurso que nasceu mido e resrio, divulgado por meio de olheos enregues de mão em mão, chega à sua rigésima edição, com número expressivo de inscrios e alcance inernacional. Sobreudo, esa Arcádia celebra agora os rina anos de conança deposiada pelos concorrenes que lhe êm encaminhado seus rabalhos, bem como os rina anos de dedicação de acadêmicos disposos a julgar os exos, a revisá-los, a ediá-los e a coordenar os passos do cerame. Tudo isso az do Concurso Lierário de Poesia e Prosa da Academia de Leras de São João da Boa Visa uma consrução coleva, empreendida por muias mãos – por milhares delas. É uma honra que o XXX Concurso Lierário enha como parono o acadêmico Vedionil do Império, hábil na crônica e na are da ironia. Advogado por ormação, é grande conhecedor da língua poruguesa e deenor de vasa culura, endo auado por muios anos como proessor volunário de Poruguês de inúmeros alunos. Desde 1998 ocupa a Cadeira n° 41, para a qual escolheu como parono o escrior Lima Barreo. Buscando superar o desao enrenado pelas insuições culurais – maner-se ava e auane perane a sociedade –, esa Arcádia em cuidado não só de oerecer evenos ao público, mas ambém de promover um Concurso Lierário que dá espaço às dierenes vozes de seu empo. São escriores de gerações, localidades e culuras amplamene diversicadas, o que az crescer a riqueza lierária e o prazer da leiura. Por ese Concurso perpassam os mais variados emas que impacam o homem conemporâneo – doença, miséria, guerra, meio ambiene e políca – ao lado de emas aemporais, como amor e amizade, alegrias e dores, esperanças e crenças. -5-


Cumprimeno aos premiados e a odos os parcipanes do Concurso, incenvando-os a manerem-se rmes no propósio de escrever. Invocando Camões, lembro-lhes que a obra lierária exige “engenho e are”. Ou seja, que a inspiração deve ser acompanhada do exercício da escria – ao que acrescenaríamos a necessidade da leiura de bons modelos. Agradeço às conreiras e aos conrades que, com seu meculoso rabalho, colaboraram para o êxio do XXX Concurso Lierário: à Comissão Julgadora, à coordenadora Nívea Poli Barbosa, à revisora exual Maria José Moreira e à designer gráca Neusa Menezes, responsável pela diagramação da Anologia. Às leioras e aos leiores, auguro um bom passeio por esas páginas que, em dierenes eslos, oerecem dierenes hisórias e emoções, a permir-lhes experimenar ouros senmenos e viver novas vidas.

Beariz Castlho Pino Cadeira n° 31 Parono: Paulo Seúbal Presidene da ALSJBV

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PALAVRA DO PATRONO

O inasmo aávico, undamenado no Idealismo, desvincula o conhecimeno humano do meio e prega as ideias como aneriores à experiência. Aravés da dialéca socráca, com a ironia e a maiêuca, o esmulo desabrocha a essência do indivíduo, em um movimeno de aporiaepiseme. O dualismo corpo-alma, no enendimeno plaônico, reorça a Teoria Inasa. Com a more do corpo, a alma ascende ao mundo ineligível e conempla as ideias verdadeiras. Ao reencarnar, esquece-as. Cabe ao homem, rene aos esmulos ambienais, recordá-las e apereiçoá-las. Mesmo no céco Discurso do Méodo, Renée Descares assume a exisência de ideias inaas. Conrariamene à losoa escolásca, o inasmo caresiano, undamenado no Racionalismo, é a predisposição para o conhecimeno, não mais aquele conhecimeno adormecido. De enconro à eoria primordial, o empirismo arisoélico, ancorado na concepção ambienalisa, xa a experiência como aor imprescindível para a aquisição de conhecimeno. O esmulo orna-se a própria experiência e esa se molda em conhecimeno. Pela observação de enômenos empíricos, o homem induz princípios gerais (do parcular para o universal) e, poseriormene, deduz (dos princípios gerais esabelecidos para o parcular). A aquisição de conhecimeno é aqui o resulado de indução, observação e dedução. As ideias não são inaas. John Locke reoma Arisóeles e sugere a mene humana como uma ábua raspada (“abula rasa”), uma olha em branco, de coneúdo zero, a parr da qual, com experiências inernas e exernas, as inormações capadas pelos sendos humanos vão sendo gravadas. “In medio virus”, a virude esá no cenro, já nos advera Virgílio -7-


(Vergilius). E, no cenro, vem a concepção ineracionisa, segundo a qual o conhecimeno é produzido pela ação do homem sobre o meio e do meio sobre o homem. O meio é ormado de esmulos sicos dos objeos e de esmulos sociais das relações inerculurais. Na Teoria Ineracionisa Socioconsruvisa de Vygosky, o homem se consui na ineração com o meio no qual esá inserido, não apenas inernacionalizando as ormas culurais que recebe do meio, mas ambém inererindo e as ransormando. Segundo Jean Piage, o conhecimeno não nasce no sujeio nem no objeo, mas sim na ineração enre o sujeio e o objeo. A aprendizagem deve ocorrer em odos os ambienes, com esmulos oriundos de educadores, amiliares e ouros componenes da sociedade. Sob qualquer ópca eórica de aprendizagem e méodo de ensino, a condição sine qua non, no processo de aprendizado, é o esmulo. Seja para resgaar ideias aávicas, para desperar ideias adormecidas, para moldar conhecimenos absraos, para ser a própria base do conhecimeno como esabelece o Empirismo, ou apenas para mediar a ineração sujeio-objeo (undameno da aquisição de conhecimeno do Ineracionismo), a necessidade de esmulo é consenso. Desa orma, a Academia de Leras de São João da Boa Visa cumpre seu papel, promovendo educação e esmulando o aprendizado. O binômio esudo-aprendizado é o caminho seguro para a evolução pessoal, social, prossional, nanceira e espiriual. Faciliar a chegada ao desno assise a nós, enquano educadores e sociedade, mormene pelo ao de o caminho por que se chega ao desno ser oruoso, repleo de armadilhas sociais do nosso país. Agradeço por azer pare dese rajeo e aciliar a chegada.

Vedionil do Império Cadeira 41 Parono: Lima Barreo Parono do XXX Concurso Lierário

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PALAVRA DA COORDENADORA

Há quaro anos, venho exercendo o cargo de Coordenadora do Concurso Lierário Poesia e Prosa da Academia de Leras de São João da Boa Visa, o que oi, para mim, uma honra e ambém uma oporunidade de conhecer anas pessoas alenosas desse nosso país, bem como de ouras pares do mundo. Escriores (as) que buscam nas leras a melhor orma de se expressarem e, usando as palavras com maesria, vão criando exos que envolvem e ransporam os leiores a uma oura realidade, avando a imaginação diane do espaço que os cerca. Esamos no XXX Concurso Lierário, e esa Anologia é a prova do esorço e da responsabilidade desa Arcádia, que sempre eve olhos e dedicação volados a enalecer a língua poruguesa. Tivemos, ese ano, um número recorde de inscrições, 1.145 (um mil, ceno e quarena e cinco), vindas de várias pare do Brasil e de ouros países, como Porugal, Bélgica, Irã, Esados Unidos, Suécia e Canadá. Foi um grande sucesso! Agradeço à conreira Maria José Garganni Moreira da Silva pela revisão exual das obras vencedoras e aos colegas acadêmicos que se dispuseram a colaborar como julgadores dos exos a nós encaminhados. Obrigada, conreira Neusa Maria Soares de Menezes, pela sua dedicação na diagramação da nossa Anologia. Meu sincero agradecimeno ao conrade Vedionil do Império que, genlmene, aceiou nosso convie para ser o Parono dese Concurso Lierário. -9-


Parabéns aos premiados e a odos os que enviaram suas obras. Connuem escrevendo e acrediando em seu poencial, pois “enho em mim odos os sonhos do mundo” (Fernando Pessoa). Em nome da Academia de Letras de São João da Boa Vista, agradecemos a credibilidade que deposiaram em nosso rabalho.

Nívea Poli Barbosa Cadeira 35 Parono: Casimiro de Abreu Coordenadora do XXX Concurso Lierário de Poesia e Prosa

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POESIA Prêmio Emílio Lansac Toha

Emílio Lansac Toha (1897-1984), um dos undadores da Academia de Leras de São João da Boa Visa, era exímio sonesa e, como al, empresa seu nome ao Prêmio Lierário promovido pela insuição na modalidade de Poesia. Naural de São Simão/SP, Emílio Lansac ormou-se em Conabilidade e em Direio. Fundou o Insuo Comercial e auou como proessor ular de Direio Comercial na Faculdade de Ciências Conábeis e Adminisravas (aual Uniae) e na Faculdade de Direio (aual Unieob) de São João da Visa. Foi direor dos jornais A Cidade de São João e O Constucionalisa, bem como redaor dos jornais O Município e A Evolução. Em São Paulo, undou o jornal lierário O Colibri. Foi direor e redaor-chee da revisa Crepúsculo e da Revisa de Conabilidade. Colaborou em odos os jornais, endo-se desacado no período da Revolução Consucionalisa de 1932. Foi membro correspondene de academias e insuições culurais de odo o país. Publicou os livros Enardecer (soneos), Mensagem, Remanso, Vigília de ernura, Todos canam sua erra, Cânaro vazio, Anologia poétca e Verbena. Quando aleceu, nha ouros dois livros pronos para publicação: Aclive e Música ao longe, ese úlmo com soneos originais.

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Prêmio Ocávio Pereira Leie especial para auores 60+

Ocávio Pereira Leie (1902-1989) oi um dos undadores e principais organizadores da Academia de Leras de São João da Boa Visa. Foi seu presidene por rês gesões consecuvas, de 1981 aé sua more. Escrior inspirado, eve seu nome aribuído ao Prêmio Lierário desnado aos maiores de sessena anos de idade, seja em prosa ou poesia. Pereira Leie nasceu em Bananal/SP. Exercendo a avidade de carorário, residiu em Mogi Mirim, onde ambém colaborava em jornais, e em São José do Rio Pardo, cidade em que chegou a preeio. Mudou-se para São João da Boa Visa, onde auou como abelião, redaor do jornal A Cidade de São João e vereador. Foi ainda coundador da Sociedade Culural de Debaes e do Serviço de Assisência Social, além de presidene do Roary Clube, endo recebido o ulo de cidadão honorário sanjoanense em 1967. É auor dos livros Sob os céus da Europa, Velhas páginas, O Nordese e a Amazônia e Minhas memórias, além de obras écnicas.

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COMISSÃO JULGADORA DE POESIA

Beariz Virgínia Camarinha Caslho Pino Carmen Lia Basa Boelho Romano João Basa Rozon Luiz Fernando Dezena da Silva Maria Cândida de Oliveira Cosa Maria Cecilia Azevedo Malheiro Marly Terezinha Esevam de Camargo Fadiga Maria José Garganni Moreira da Silva Silvia Tereza Ferrane Marcos de Lima Sonia Maria Silva Quinaneiro

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POESIA: TEXTOS VENCEDORES Prêmio Emílio Lansac Toha Até 12 anos 1º lugar - “Senmenos ruins” - Ana Laura Toledo Beo - São João da Boa Vista - SP 2º lugar - “Toda criança” - Beariz Helena de Oliveira Pan - São João da Boa Vista - SP 3º lugar - “Amizade” - Dandara More Braz - São João da Boa Visa - SP De 13 a 18 anos 1º lugar - “Divórcio” - Ana Luísa Amorim Queiroz Marques da Cruz - Rio de Janeiro - RJ 2º lugar - “Amizade” - Mariana Colleone Peneado Saveli - São Paulo - SP 3º lugar - “Liberdade na leiura” - Ana Clara Cabral de Carvalho - São Paulo - SP De 19 a 39 anos 1º lugar - “Menina à beira” - Saulo Lopes de Sousa - Imperariz - MA 2º lugar - “O mar de vidro” - Gabriela Lages Veloso - São Luís - MA 3º lugar - “Mundo moderno” - Víor Aparecido Pereira da Cosa - Barueri - SP De 40 a 59 anos 1º lugar - “O rio sou eu” - Aline Brasil Quadros - Vola Redonda - RJ 2º lugar - “Chuvas” - Moisés Selva Sanago - Poro Velho - RO 3º Lugar - “Todas as cores (de Rosa)” - Arnaul L. Dias - Praia Grande - SP Prêmio Especial Octávio Pereira Leite 60+ 1º lugar - “Tricô” - Ney Jorge Campello - Lauro de Freias - BA 2º lugar - “Coneor” - Mário Luiz Ferraz Araújo - Mairiporã - SP 3º lugar - “Todos os meus versos” - Adelgício Ribeiro de Paula - Franco da Rocha - SP

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1º Lugar Poesia até 12 anos

Sentmenos ruins Esou cansada de ser eu. Esou cansada de er vergonha. Esou cansada de não gosar do meu corpo. Esou cansada de me senr inerior. Esou cansada de não conseguir alar, de guardar udo para mim e explodir depois. Esou cansada de senr o peso das coisas, com as quais eu não devia preocupar-me. Estou cansada de me importar com quem não merece, pois, mesmo sabendo, eu me imporo. Esou cansada de me achar eia e esranha, quando na verdade sou bonia e legal. Esou cansada de me achar burra, quando na verdade sou mais ineligene que muios ouros. Estou cansada de me comparar com os outros, mesmo sabendo que somos únicos. Esou cansada de senr inveja de ouras meninas e não viver minha vida. Esou cansada de car rise por não ser convidada quando nem mesmo goso de quem oi. Estou cansada de tentar ser aceita por pessoas com quem nem goso de alar. Esou cansada de ligar ano quando não devia nem mesmo pensar nisso. - 15 -


Esou cansada de ngir ser alguém que não sou. Esou cansada de vesr personagens que não são meus Esou cansada de ser insegura comigo mesma. Estou cansada de me preocupar com o que os outros pensam e não minha opinião. Esou cansada de só ver meus deeios e não minhas qualidades. Ninguém é pereio, muio menos eu. Somos bonios e ineligenes, mesmo não enxergando isso. Eu sou eliz, mesmo não percebendo às vezes. Somos únicos e isso é o que impora. A vida deve ser aproveiada, não ineliz.

Ana Laura Toledo Beto São João da Boa Visa - SP

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2º Lugar Poesia até 12 anos

Toda criança

Toda criança em: Um brinquedo avorio Direito de ser cuidada e protegida Uma proessora preerida Um amigo por oda a vida. Toda criança gosa: De brincar de cabaninha E de mamãe e lhinha Fazer bolinha de sabão Ter bichinho de esmação. Toda criança quer: Ganhar brinquedo no aniversário Dormir na casa da avó Comer doce escondido Fazer um novo amigo. Toda criança precisa: De um dia de sol para nadar Um quebra-cabeça para brincar Lápis de cor para pinar Aquarela e uma ela para criar.

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Toda criança sonha: Comer bolo aé doer a barriga Esourar um mone de bexiga Casa na árvore para brincar Com os amigos viajar. Toda criança merece: Receber carinho e aenção Ser por todos respeitada Ter boa educação Ser sempre muio amada.

Beariz Helena de Oliveira Pan São João da Boa Visa - SP

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3º Lugar Poesia até 12 anos

Amizade Não há palavras para explicar Como são os amigos verdadeiros. Não há maneiras de se alar Quem diria descrevê-los. Há amigos mais esperos Também os que podem mais Há aqueles mais aberos E os que êm vários animais. Há amigos mais pacienes Que aconselham sempre a gene Há aqueles mais ineligenes Que para udo usam a mene. Na amizade não existe preconceito Não impora o seu jeio Só amor e respeito E nela odo mundo é aceio!

Dandara Moret Braz São João da Boa Visa - SP

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1º Lugar Poesia de 13 a 18 anos

Divórcio

Pais separados Dois presenes de aniversário Dois “Feliz Naal” adianados Dois “Feliz Ano Novo” arasados Dois ovos de Páscoa Duas menras em primeiro de abril Duas hisórias podem ser conadas: A menra Em que os rês se abraçam na sala elizes pela conquisa da menina E a verdade Em que a menina se deita no chão Sozinha Sem ninguém parabenizando-a Por rar dez No rabalho de solidão repenna.

Ana Luísa Amorim Queiroz Marques da Cruz Rio de Janeiro – RJ

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2º Lugar Poesia de 13 a 18 anos

Amizade

Amizade, aquela que e enrola e desenrola Aquela que esá sempre no rala e rola. Cabeluda ou não, sempre será minha irmã do coração Minha prima de consideração. Amizade é ser leal e nunca desisr Amizade é insisr e nunca deixar ir Amizade é redimir e sempre descontrair Amizade é se distrair no pior momento Amizade é saber se alegrar com as viórias, mas saber chorar juno com as derroas. Às vezes, a amizade signica amar a “mó coa”, mas deixar ir sem nenhuma derroa. Amizade é como as esrelas, mesmo longe, elas brilham. Amigos são aqueles que e molham e e acolhem Aqueles que êm a coragem de e conar a verdade. É melhor andar com um amigo na escuridão do que sozinho na claridade. Amizades não precisam ser pereias e sim verdadeiras Amigo come congo na rene da geladeira Nada vale mais do que ver-e ajudando um amigo Aquele que esá sempre comigo é meu abrigo.

Mariana Colleone Peneado Saveli São Paulo - SP - 21 -


3º Lugar Poesia de 13 a 18 anos

Liberdade na leiura

Em uma vida de criança A leiura não só exise Ela orma e desenvolve Além disso, envolve. Viajamos com William Shakespeare Passeamos com Machado de Assis Pensamos nos personagens E imaginamos as imagens. Na verdade, quando criança, A única coisa que se ouve São histórias de montão Porque só impora a diversão. Mas quando adolescene As coisas mudam. Para quem não gosa, ca chao E, para ouros, uma pedra no sapao. É dicil er persisência Pois é algo que se conquisa Mas com um esorço diário Criamos algo exraordinário. - 22 -


Começamos com os gostos Depois vêm as desculpas Às vezes para não ler Vale aé se esconder. É dicil escolher Qual gênero se vai ler Com anas opções Nossa cabeça vira mil conusões. O empo vai passando E as preerências vêm chegando Não são só mais escolhas São hisórias em diversas olhas. A leiura é imporane Uns cam reluanes Mas quem se dedica de verdade Descobre a liberdade.

Ana Clara Cabral de Carvalho São Paulo - SP

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1º Lugar Poesia de 19 a 39 anos

Menina à beira I Seu desno pôs no rio, água urva morde o pé. Embruiado em assobio, da menina Marizé. Noie unda, oi princesa, anasia mãe na cama. Mas, de cor, nha cereza: seu caselo era de lama. No raiar, de manhãzinha, voz pequena, e rouca, diz: “Se princesa ou raĩa, quére mai é sê liz!”. II Ao descer da ribanceira, ela sabe, mora o rio, que belisca babaneiras, eio moça em peioril. Ela desce, já aceira. No erreiro, ave em bando. Mãe no tacho da doceira, Os irmãos, passarinhando.

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Vai descalça – nem se impora! – Tem cosume; é da erra. Lá se deia, livre e ora, no barranco do Boiberra. III Rio se achega, moia, lima; eima o veno no vesdo. Esrada, d’ôi pra cima, com pezinho encoído. Tem braveza essa menina; num assombra ar rincão! – Te alevana! Embruia a sina, á na hora da canção: “Ó, rio largo! Ó, rio undo! Lev’im eus redimoĩos meu desno, barco-mundo. Leva o sonho que adivĩo.” IV Marizé, então, sumiu oda ela, na undura. E seus olhos de navio aundaram com ernura.

Saulo Lopes de Sousa Imperariz- MA

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2º Lugar Poesia de 19 a 39 anos

O mar de vidro Em ua ria e unda lâmina, encontram-se mistérios escondidos, o medo do conrono com verdades oculas, ou, quem sabe de, simplesmene, perder-se. Tua dura água refee e encanta os Narcisos, levando-os ao eerno desconenameno. Teu lume rio revela a era inerior que, em vão, ena-se esconder. Espelho, és o poço mais proundo que exise. Em uma só mirada aravessas as barreiras do empo e da vida. Mágico, sombrio ou verdadeiro, apenas, és um mar de vidro. Gabriela Lages Veloso São Luís - MA

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3º Lugar Poesia de 19 a 39 anos

Mundo moderno Acordo Olhos no celular Nocações pelo ar Pincelando As (pa)redes sociais Nocias redundanes Regurgiadas em orma de novidade Nada realmene relevane Para quesonar a vonade De ser auômao Após o desaogo inempesvo Prevalecem as disrações Doses cavalares de dopamina Para ngir esar vivo Perpetuando a sina De humano corrosivo Durane o édio das ocupações Um devaneio de um mundo irreal Ah se pudéssemos viver de alienação e poesia Como seres plenamene livres Que se nurem de criavidade Porém somos prisioneiros das obrigações Do corpo e do meio Não há alegorias - 27 -


Para amenizar a água ria A louça na pia Não há lierária beleza Nas roupas sujas Amonoadas sobre a mesa É preciso salário Para preencher o armário Nem o mais soscado verso Pode conserar o adverso O pneu urado A conta atrasada O alimeno esragado A tomada queimada A poeira acumulada Muito menos Celesais rimas Podem curar cealeias Apenas uma bela ideia Não é capaz de desobsruir Uma artéria entupida No mundo moderno O poea se desboa Torna-se um estranho dentro de si Quando percebe Que a realidade E só o que existe Mesmo assim ele insise Sem enender o movo Do seu coração conoavo

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Antes de adormecer Mais uma espiada na vida alheia Nas elas iluminadas Vidas ransiam pelas mesmas eias Enquanto mais um poema (Re)nasce Apesar do cecismo do sisema.

Víor Aparecido Pereira da Cosa Barueri - SP

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1º Lugar Poesia de 40 a 59 anos

O rio sou eu

Vejo a correne, crisalina, Em movimeno consane. Nunca a mesma água É a que refee meu semblane. Nunca o meu rosto É o mesmo, ali, exposo. Eu e o rio não somos, estamos O rio e eu sempre mudamos. Se chego à sua beira agora Não sou mais quem ui ourora. Se molho meus pés na correneza Não é o rio de anes, com cereza... As curvas que vão surgindo no caminho Trazem olha, for, pedra, espinho... Seguimos, o rio e eu, nossa jornada Que vai dar no mar, ou dar em nada... Só há um ao que é denivo: Quem deu início a esa poesia Tal qual o rio, se modicou E já não se vê mais como se via...

Aline Brasil Quadros Vola Redonda - RJ - 30 -


2º Lugar Poesia de 40 a 59 anos

Chuvas

Chuvas amazonenses são rias Casanheiras imensas seus braços esendem em os umedecidos Deslizam em ons de marrons dos caules como molhadas esrias Mulascinam olhares enverdecidos Chuva pernambucana é morna Coqueiros sorridenes bailam a plumagem como seres alados Reservam a uerina água no coco que de boa adoça e adorna Mulalimena olhares calados As amazonenses são roneiras Orquídeas exibem plumagens ão rágeis de odores luxurianes Laçam rios sinuosos e largos em águas iguais a eias eseiras Muldesaam olhares fuuanes A pernambucana é esperada Cacos pacienes degusam elizes a goa da goa em muios espinhos Ávido e árido o serão olo segue bebendo e sugando o udo e o nada Mulenrisece olhares sozinhos Aquelas são reumbanes Trovões ensurdecem e cereiro é o medo do mais el coração Torrencialmene envolvem mil vidas como imponene urbane Mulexasiam olhares de emoção - 31 -


A outra é esparsa Relâmpagos em fashes proclamam no azul o m oura vez dos rises esos Descobre-se revolado ano após ano que a seca enriquece do políco a arsa Mulconsola olhares doenos As ropicais são volupuosas Gineceus e androceus ão loucos e elizes apelam exalando odores cordiais Ovários e espermas nesse imenso calor deslam sus sensações volumosas Mularaindo olhares sensuais A liorânea é convidava Licores e bolo-de-rolo e ladeiras ligam qual pones simples amigos Engenhos secream canas ão doces que degusadas o desejo ava Mulemperando olhares unidos As amazonenses são insáveis Floresas e cidades e seus avaares simbiocamene denudam uuros Gaiolas cananes perenes fuuam nos rios beijando as ribos amáveis Mulfuindo olhares seguros A pernambucana é bem-vinda Alânco é o mar que sussurra e acaricia paixões e bravura em anos amanes Jangadas e redes desbravam as ondas com peixes de brisas em viagem innda Mulgerando olhares muanes As amazonenses são assim Vivo-as aqui nessa idade A pernambucana em mim Irriga agora ana saudade.

Moisés Selva Santago Poro Velho - RO

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3º Lugar Poesia de 40 a 59 anos

Todas as cores (de Rosa) E ali esava a cena, ele a olhava vermelho de raiva e ela encolhida digna de pena, branca de medo, pelo apa que criva. Numa hisória cinza e pequena. E assim oi, mais oura vez, que as marcas roxas escondia. Mas ela se enganava de um viés e sorria amarelo a quem via oura nova mancha a cravar sua ez. Porém, enre eses, houve um dia mais preo que podia supor... E eve muios grios e correria aé que: silêncio... e ela perdeu a cor. Praa do aço... e não mais se mexia. Se Rosa cresse anes de al hora que o “udo azul” era só em lembrança, saberia que o verde, viso ourora, não ora o verde da esperança. Mas um sinal para ir-se embora. Arnaul L. Dias Praia Grande - SP

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1º Lugar Poesia 60+

Tricô

É assim que ando sendo, à noie me eço, de dia me reazendo. Como a sábia senhora em sua cadeira de balanço, ecendo o a o, a linha do empo e a rama da vida. Assim me reconheço, pedaço a pedaço, como a agulha que desenha o raço; à noie me canso, de dia renasço. E a velha senhora az e reaz seus mosaicos ecidos, como aconece comigo; realho a realho, sou o novo por um segundo, e o velho mudado, que se vê renascido. Não impora o empo para essa senhorinha, nem o ricô deseio; impora ecer a cosura da lida, como na vida ambém é: cada um do seu jeio. E, ao escurecer, o bordado majesoso descansa ao seu lado, aé o novo amanhecer, quando desperam os primeiros raios do dia; e a velha senhora vola a bordar, com inimiável maesria. E é assim que sendo, eu ando, de dia me desazendo, à noie me bordando. As agulhas doem, mas a rama recompensa: é a acupunura da vida, que só cura quando ura. E se me pergunam sobre o m dessa essiura, eu de prono respondo: impora ecer, não impora quando.

Ney Jorge Campello Lauro de Freias – BA - 34 -


2º Lugar Poesia 60+

Confeor

Que mais vos pedir? Deses mais que bálsamo às minhas dores! Tudo de que sequer careço, Tantos amores, Imensuráveis, Sem preço... Mereço, Senhor? Mereço? Que mais vos rogar? Ineliz que sou, sabes... Mea culpa... Ah... Se crédio inda houver, Ora vos rogo perdão: Por udo que não ui, não z, não quis, Nem enei... Pelo que ora sou E quem, quiçá, nem sei, Pelo que serei... E se amanhã houver, Senhor, Se houver, Senhor... Amanhã, Senhor, Se...

Mário Luiz Ferraz Araújo Mairiporã - SP - 35 -


3º Lugar Poesia 60+

Todos os meus versos

Ouviu-se o esrondo de um rovão E as revas ornaram a noie mais escura, Por um momeno, no céu um clarão, Mas depois, a solidão da sepulura. Aconteceu, não mais que de repente, Foi num piscar de olhos lacrimejanes, Com um brilho inenso e reluzene, E a erra jamais será como anes. Então, cessaram o riso e o canto, A canção de amor oi esquecida, O homem corajoso se pôs em prano E a mão ore se ornou esmaecida. Quando a virude evola e a alma se desencana, E aé o mais proundo da honra se corrói, O sangue que ransborda, já não espana, Nem incomoda a erida que no ouro dói. Já não há vinho que cure as dores da alma, Ou sequer um beijo que despere a saudade. Fala uma voz que conduza à calma E corações que produzam a liberdade. Mas, por que insisto com a minha poesia, Perane ese mundo caóco e insano? Pois escondida em sua cula hipocrisia, Não soa irônica a essência do humano? - 36 -


No discurso desigual, é igualdade o que se nega, Mas a realidade codiana não desvela, Porque raiçoeira é a cereza, e deveras, cega, Devora a odos que cegamene conam nela. Diane de uma lua inglória e desigual, Alcancei os limies da própria calma, Manve a delidade e, mesmo no nal, Não se deu por vencida a minha alma. Mas eu sei que um dia chegará à exausão Aquele que empunha a baionea, E ambém sei que jamais cansará a mão De alguém que bem maneja a canea. Por isso eu me derramo todo em poesia, Esparramo as palavras, como o veno às fores, Para secar as lágrimas da ironia E desazer as nuvens dos dissabores. Se em essência a minha rima oi pouca, É porque eu evoquei lerados aresãos. Não se ez silêncio, na minha boca, E rêmulas leras rabiscaram as minhas mãos! Ao ndar essa jornada, permaneço inquieo, Taciurno, como algum errane que caminha, Vou seguindo como quem esá compleo, Porém incomplea segue a poesia minha. Assim, ensaiei os meus passos na rebeldia, Fiz emergir senmenos ourora submersos, E para esriar a riseza, que em  ardia, Foi que junei as rimas de odos os meus versos. Adelgício Ribeiro de Paula Franco da Rocha - SP - 37 -


PROSA Prêmio Fábio de Carvalho Noronha Fábio de Carvalho Noronha (1918-1991) oi prosador, poea, composior e jornalisa. Foi um dos undadores da Academia de Leras de São João da Boa Visa. Como reconhecimeno por seu rabalho, leva seu nome o Prêmio dedicado aos prosadores nalisas do Concurso Lierário da insuição. Nascido nessa cidade, oi um auodidaa com exraordinária culura geral. Foi por muios anos direor da Câmara Municipal, além de radialisa na Rádio Diusora de São João da Boa Visa e jornalisa em várias publicações, como O Município, A Gazea de São João, A Cidade de São João (onde oi redaor), além de jornais e revisas da região. Exímio comunicador e orador, grande conhecedor da hisória da cidade, era ambém mul-insrumensa e composior. É de sua auoria a música do Hino Ofcial da cidade – que em lera da ambém acadêmica Lucila Mararello Asolpho. Escreveu conos, crônicas e poemas, enre os quais soneos e rovas, modalidade que ajudou a divulgar. Deixou um livro pósumo, Esórias do cotdiano, de contos curtos, e o inédito Pérolas e plumas, de poemas.

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Prêmio Octávio Pereira Leite especial para autores 60+

Ocávio Pereira Leie (1902-1989) oi um dos undadores e principais organizadores da Academia de Leras de São João da Boa Visa. Foi seu presidene por rês gesões consecuvas, de 1981 aé sua more. Escrior inspirado, eve seu nome aribuído ao Prêmio Lierário desnado aos maiores de sessena anos de idade, seja em prosa ou poesia. Pereira Leie nasceu em Bananal/SP. Exercendo a avidade de carorário, residiu em Mogi Mirim, onde ambém colaborava em jornais, e em São José do Rio Pardo, cidade em que chegou a preeio. Mudou-se para São João da Boa Visa, onde auou como abelião, redaor do jornal A Cidade de São João e vereador. Foi ainda coundador da Sociedade Culural de Debaes e do Serviço de Assisência Social, além de presidene do Roary Clube, endo recebido o ulo de cidadão honorário sanjoanense em 1967. É auor dos livros Sob os céus da Europa, Velhas páginas, O Nordese e a Amazônia e Minhas memórias, além de obras écnicas.

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COMISSÃO JULGADORA DE PROSA

Clineida Andrade Junqueira Jacomini Lauro Auguso Bitencour Borges Lucelena Maia Luiz Antonio Spada Luiz Fernando Dezena da Silva Maria Cândida de Oliveira Cosa Maria Ignez dos Sanos D’Ávila Ribeiro Marly Terezinha Esevam de Camargo Fadiga Raul de Oliveira Andrade Filho Silvia Tereza Ferrane Marcos de Lima Vania Gonçalves Noronha

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PROSA : TEXTOS VENCEDORES

Prêmio Fábio de Carvalho Noronha

Até 12 anos 1º lugar - “O anasma da água Iki - Miguel Luvezu Valverde - Vargem Grande do Sul - SP 2º lugar - “Temos que aprender!” - Luísa Basa Mesquia - Brasília - DF 3º lugar - “Sonho X Medo” - Felipe Ferreira de Oliveira - Vargem Grande do Sul - SP De 13 a 18 anos 1º lugar - “A ravessia” - Maria Luiza Salomão Smozono - Franca - SP 2º lugar - “Humber: uma releiura de Lolia” - Clara Siqueira Rangel - Campos dos Goyacazes - RJ 3º lugar - “Imago” - Camila Cosa Parma - Mococa - SP De 19 a 39 anos 1º lugar - “O Imigrane” - André Luiz Porreca Ferreira Cunha - São Paulo - SP 2º lugar - “Aurora” - Rebeca Nahália Barbosa Maia - Belo Horizone - MG 3º lugar - “Vingança” - Ana Crisna Melancieri Simão - Bauru - SP De 40 a 59 anos 1º lugar - “Tudo muda” - Silvana Lemes de Souza - Sarapuí – SP 2º lugar - “A cor da liberdade não é cinza” - Gisela Lopes Peçanha - Nierói - RJ 3º lugar - “Água limpa” - Anderson Almeida Nogueira - Cachoeiras de Macacu RJ

Prêmio Especial Octávio Pereira Leite 60+ 1º lugar - “Escrias de Tila” - Elísio Vieira de Faria - São José do Rio Preo -SP 2º lugar - “Moeda de roca” - Maria Lúcia de Moraes - Jacareí - SP 3º lugar - “O passo” - Waler Karwazki Chagas - Poro Alegre - RS

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1º Lugar Prosa até 12 anos

O Fanasma da Água IKI Ikai é lho de Yuki, um mesre espadachim no pódio mais alo dos Yorus. Assim como seu pai, Ikai queria ser um samurai. Tudo corria bem em sua vida, aé que sua mãe, Kireina, cou muio doene. Ela cava no quaro o dia odo, aé que um dia Ikai recebeu uma mensagem na qual ela mãe o chamava. O garoo, enão, oi aé o quaro da mãe, que lhe disse palavras que marcaram sua vida para sempre. – Olá, meu lho, como vai o reino? – pergunou Kireina. – Vai bem, mãe, eu sou bem ore! – respondeu Ikai. – Que bom! Mas se lembre: não impora o quão ore você seja, a bondade sempre será mais ore que você. Enão procure ajudar as pessoas e lembre-se, meu lho: o homem ore se deende sozinho, o homem mais ore deende os ouros – disse Kireina. Em seguida, ela morreu, mas deixando uma mensagem para o garoo. Ikai cresceu e virou um grande guerreiro, reinando sempre para ser o melhor. Todos nham orgulho de conviver com ele. Um dia, Ikai reinava, como sempre, aé que uma ave lhe enregou uma mensagem que dizia: “Ikai, lho de Yuki, você oi convocado para a seleção nal, raga apenas sua kaana e seu cavalo ao mone Gekko”. O jovem pegou sua espada, monou em seu bravo corcel Kiken e saiu de sua casa à meia-noie, já que o caminho para o mone seria longo. Aos galopes do cavalo e apreciando o luar, Ikai lembrou da mãe e de suas palavras. O rapaz, enão, pensou sobre a vida e como ela era boa, pensou em como sua mãe o zera eliz: ele precisava honrar seu nome! O jovem aperou as rédeas e acelerou a caminhada. Por vola de see horas da manhã, Ikai chegou ao mone. Mais quinze jovens ambém esavam lá, aé que um homem apareceu e griou: – Meu nome é Tsuyoi, sou o décimo erceiro comandane do esquadrão de samurais da ilha Iki. Vocês esão aqui hoje para provar que - 42 -


são bons o suciene para enrar para o esquadrão. Espero que enham vindo a cavalo, caso queiram ugir. Espero ambém que enham pegado suas espadas, caso precisem luar. E que comece a baalha! Ikai pegou a espada e saiu a galopes para a primeira ase da seleção nal. Chegando ao local, ele eria que corar pedras, mas não pedras normais e, sim, as pedras mais resisenes do mundo. Ele começou preparando a espada e as pedras começaram a voar em sua direção: ele desviou da primeira, mas a segunda o angiu. Concenrou-se e disse: – Posura da água, quina posição: Yakedo no miz! Ele pulou em direção às pedras e as corou com um único golpe. Quando ele percebeu o que ez, cou muio animado, mas logo volou a missão. Na segunda ase ele eve de baalhar conra cinquena soldados das orças do imperador. Vendo aquilo, ele cou em choque. Mas não pensou em oura coisa a não ser em aacar. Ele bradou: – Posura da água, décima posição: Dragon Taipu no rei Oa! Ele pulou em direção aos soldados, maando um por um com sua espada. A erceira e úlma pare era a mais enebrosa de odas: derroar quinhenos homens do Exércio Real. Ikai, vendo isso, cou perplexo, pensando em desisr, mas lembrou de sua mãe, o que lhe deu orças para connuar. Ele, enão, griou: – Que venham odos! Eu não irei desisr! Os homens correram em sua direção e ele correu com odas as suas orças, luando bravamene com cada um deles. Ao nal de rês longas horas, odos eles esavam derroados e Ikai passou na seleção nal. Tornou-se um grande espadachim, honrando sua amília. Passado um ano desde a seleção nal, Ikai ornara-se um homem ore e corajoso. Cero dia, o rapaz esava reinando, quando um homem o chamou para uma missão que consisa em derroar o líder mongol que esava invadindo sua ilha. Ele paru em sua jornada para proege-la. Observando de longe os navios mongóis, Ikai percebeu que as roas marímas eram racas e que ele, enão, poderia enrar na base pelo mar: mas seria muio arriscado, logo ele decidiu que o melhor era enrar pela rene. Ikai reuniu seus homens e oi para a baalha. Chegando ao local, percebeu que era uma armadilha: a lua começou com dez mores no exércio de Ikai. A lua cou mais inensa a cada segundo, com Ikai dando - 43 -


seu melhor pelo seu lar. O líder mongol chegou e o rapaz começou a luar conra ele. A cada golpe, Ikai cava mais eliz, mas ele ambém esava machucado. A lua esava muio ensa e o samurai já esava desisndo, mas se lembrou de udo o que passara e de sua mãe: ele junou suas orças, aacou o líder mongol e o acerou com um golpe na cosela; em seguida, assim que Ikai o angiu, uma pare do barco em chamas caiu sobre o líder mongol. Ikai levanou a madeira e o homem ainda esava vivo. A única orma que ele viu para derroar o líder mongol, era usando a écnica proibida da posura da água. Ele se preparou, respirou undo e suavemene disse: – Posura da água, écnica proibida, décima sexa posição: Inazuma de shakunesu na ora. Surgiu enão um gre escaldane, que acompanhava o movimeno da espada de Ikai. O líder mongol cou paralisado e, quando percebeu o que esava aconecendo, oi angido pela espada de Ikai. Logo após a baalha, Ikai oi levado a julgameno, pois usura a écnica proibida. Ele oi condenado ao ao de Seppuku, mas cou eliz porque conseguiu honrar sua mãe e seu lar. Conemplando-a em uma visão, ele cou eliz e se oi: mas seu nome Ikai Kyorioko cou na hisória como O FANTASMA DA ÁGUA IKI.

Miguel Luvezut Valverde Vargem Grande do Sul - SP

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2º Lugar Prosa até 12 anos

Temos que aprender!

Em um belo dia de sexa-eira, esava andando no meu bairro, Horizone de Raios, que ca em Brasília. Eu, por ser um dos melhores esudanes do Ensino Fundamenal, era muio cobrado pela escola, por isso esava meio esressado e enava me disrair ao ar livre. De repene, vi, pero de mim, um adolescene dierene dos ouros. Ele desperou minha aenção por er uma expressão rise e um ar soliário. Tinha ambém um cabelo bagunçado e preo, era alo, mas nem ano, e possuía olheiras. Além disso, usava um vesuário exravagane: camisea lisrada, calça verde e ênis roxo escuro e laranja. Alguns minuos depois, comecei a conversar com o indivíduo. O rapaz cou surpreso por dialogar com ele. Disse-me que seu nome era Renao e, por er uma aparência dierene, era rejeiado pela maioria dos colegas de classe. Fiquei rise por ele. Esava em dúvida do que alar, pois poderia ano alegrá-lo quano piorar ainda mais a siuação. Arrisquei e disse-lhe uma rase que havia pensado naquele insane: “As pessoas que não gosam de você não merecem sua amizade, dedicação e conança”. Depois disso, ele me abraçou e começou a chorar de alegria. Desse momeno em diane, passamos a ser grandes amigos. Desde enão, percebi que as pessoas precisam aprender a ver a beleza no dierene e a respeiar as diversidades, pois odos emos senmenos e devemos er empaa com o próximo. Luísa Batsa Mesquia Brasília - DF - 45 -


3º Lugar Prosa até 12 anos

Sonho x Medo

Meu nome é Felipe, enho 12 anos e moro em Vargem Grande do Sul. Esudei em um colégio muio bom aé o 6º ano, porém, desde o 5º ano, um dos meus sonhos era vir para o ão amoso Colégio Anglo em São João da Boa Visa. E, como quem sonha sempre alcança, aqui esou, sempre com Deus à rene de udo, cursando o 7º ano. Uma semana anes de vir para aula, a ansiedade omou cona de mim: eu ve dores na barriga, chorei, sorri, quei eliz, preocupado e com medo, mas Deus cou o empo odo ao meu lado. E enão as aulas começaram! Acordo odo dia às 4h50m, omo caé e aguardo o ônibus passar na minha casa às 5h30m. Conesso que é bem cansavo, minha rona mudou oalmene, mas esou eliz nesse aspeco. Minha mãe diz que udo serve de aprendizado. Na escola z algumas amizades com alunos, proessores, além de odo o pessoal que rabalha na escola. O méodo de ensino é anásco, mas é muio dierene do que eu ve na escola anerior; e conesso que isso me abalou: as primeiras provas oram esressanes, nha perguna que eu nem sabia o que signicava a palavra e não conseguir inerprear me prejudicou. Enm! O que era sonho acabou virando medo. Medo de não conseguir acompanhar, medo de car de recuperação, medo de er que volar para rás. Esou decepcionado com minhas noas, pois nunca oram baixas. Isso em me deixado rusrado, preocupado com meu uuro, pois quero ser um médico de sucesso. - 46 -


Preocupado com essa situação e com minhas notas, mudei o meu méodo de esudos: comecei a usar o méodo de “aula dada, aula esudada”. Sempre ui muio responsável azendo areas, rabalhos, presando aenção à aula, esudando para as avaliações e parcipando. Enão, acredio que meu erro oi não esudar odo dia. Bom, esá aí um pouquinho do Felipe e sua vida escolar. Espero, de verdade, que eu consiga superar essas noas baixas e, juno disso, que esse medo dê lugar novamene ao sonho.

Felipe Ferreira de Oliveira Vargem Grande do Sul - SP

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1º Lugar Prosa de 13 a 18 anos

A travessia

Não sei muio ao cero o porquê, mas eu esava em uma pone e nha que aravessá-la. Não sabia o movo, apenas nha que passar. Era quase 1:30h da madrugada. A pone era escura, esava cheia de musgos e inseos moros, nha poses de iluminação racos e um gao. Era um gao rajado e com algumas cicarizes, semelhanes a queimaduras. Me emocionei ao vê-lo, pois lembrava muio meu gao que havia alecido ano passado. Acho que não devo lembrar o movo de sua more.... Eu realmene me esqueci! Ele esá lá na rene, esá no limie máximo que meus olhos podem ver. Corro em direção a ele desesperado. Ele corre de mim. Aquela pone era realmene grande. Eu amava meu gao, e aquele não era o meu. Seu nome era Shakespeare, ele não correria de mim. Shakespeare, meu Shakespeare, já não esava mais vivo, enão não esaria comigo. Andei para o m da pone, era meu objevo. Andei mais e mais, não nha m. Parecia esar no mesmo lugar. Andei, corri, dei passos lenos, passos de maneiras dierenes, não nha m. Me cansei. Deiei-me e dormi de sono, esava realmene exauso. Acordei e, por alguns segundos, não sabia onde esava. O gao esava em meus pés, me encarando. Quando percebeu que eu havia acordado, oi para pero de mim. Peguei-o ao colo, z carinho e dei um beijo em sua esa. Shakespeare, meu Shakespeare, que não é meu Shakespeare. Shakespeare era conemplação e enusiasmo. Amor e caé ore. Amo as pálpebras de seus olhos casanhos, seus pelos morenos e macios, seu jeio suave, carinhoso e agiado. - 48 -


Levanei e enei aravessar a pone novamene. Agora eu podia ver o m! Esava chegando, e o gao em meu colo. Trocava-o de braço quase a cada quinze minuos. Shakespeare, meu Shakespeare! Seria ele meu Shakespeare? Já esava quase amanhecendo, quase 5:30h da manhã. Dormi pouco (quase nada), ainda esava com um pouco de sono. Lembrei! Agora me lembro! Shakespeare havia sido moro em um incêndio! Connuo rme na caminhada, agora olhando para suas cicarizes. O m esá a cinco passos de mim e eu esou a cinco passos do m. Olho para rás, olho para os gaos, dou um beijo e acaricio sua esa. Passo o m e sigo meu desno com Shakespeare, meu Shakespeare, que agora volara a ser meu.

Maria Luiza Salomão Smozono Franca - SP

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2º Lugar Prosa de 13 a 18 anos

Humber: uma releiura de Lolia

“Lo-li-a” é como Humber pronuncia o apelido que ele invenou, suave e pausadamene, como a calma anes da empesade, como o veneno que se espalha lenamene em uma rilha nociva. “Lo-li-a: a pona da língua descendo em rês salos o céu da boca para ropeçar de leve, no erceiro, conra os denes. Lo. Li. Ta”. Doce como a imagem que ele nure de sua ilusão. Mas Lolia nunca oi mais que um delírio de um pedólo, uma mulher na uopia de um predador sexual. Dolores é quem se esconde por rás do nome que Humber lhe dera, ão ervorosamene que beira o desespero, adoando a idendade de uma pessoa que não exise como uma máscara para aguenar a realidade cruel em que vive. Dolores, que vive de sorrisos quebrados e ações que beiram a besalidade quando udo o que a guia são insnos de sobrevivência. Dolores – que na verdade mal connua a ser Dolores, endo desisdo de udo o que a azia ser ela mesma na conradiória esperança de que isso pudesse ajudar a preservá-la – não é e nunca oi Lolia. Não Lolia, não ninea, não seduora; mesmo quando ela mal consegue enxergar denro de si uma casca própria. Não impora o quano seu padraso ene juscar seus vis aos como se ela esvesse de alguma orma provocando-os, a verdade é que ela é só uma criança assusada. Tudo o que ela quer é viver, e uma das únicas cerezas que em no auge de seus doze anos é que ela conseguirá, no nal. Talvez despedaçada e cicarizada, mas viva. É por isso que ela aceia anas das coisas que ele ena azer com ela, por isso que ela engole as palavras ásperas que rugem em seu peio para sair, por isso que ela abaixa a cabeça e nge ser a garoa angelical que ele parece alucinar que ela é. É por isso que ela deixa essa imagem de boa menina (com oda a condescendência da expressão, como se ele - 50 -


esvesse alando com um mero cachorro que não pudesse enender as palavras dias) fuir no dia a dia, adoa-a como se osse realmene sua, e ena ignorar o quão soliária esse modo de vida a az se senr. Dolores se sene muio soliária, esses dias. Não sicamene, Deus sabe o quano ela quer que seu suposo “pai” pare de ocá-la, o quano ela quer que seu corpo eseja livre de qualquer conao. Psicologicamene, por ouro lado, Dolores não consegue pensar em um empo em que enha cado mais sozinha. Sua mãe morreu recenemene, seu corpo reorcido esrado no asalo depois de ser aropelada, e a deixou por sua própria cona para lidar com o homem com o qual se casara. Dolores não pode pensar em um único ser que eseja pero dela por si só, e não da imagem de Lolia que ela se apropria. Sua única companheira consane é a vergonha. Vergonha pesa em seu esômago como uma pedra, e enope sua gargana como um nó. A vergonha é como gelo em suas veias, ão ria que quase queima com sua inensidade. A vergonha é como um verme denro de seu esômago, alimenado por odos os aos que ela nunca comeeria normalmene, pela ome que ela vê no olhar de seu abusador oda vez que ele a olha. Ela se sene graa pela vergonha, porém, porque é uma orça luando direamene conra os avanços sexuais de seu padraso, um impulso a maném alera para a barbaridade da siuação. A vergonha é como uma besa criada para enrenar um monsro muio mais cruel. E é, de ao, um monsro groesco que a ameaça. “Humber” é o nome que Dolores não quer pronunciar, o nome que daria humanidade ao monsro que arruinou sua vida. “Hum-ber: o ar saindo como os suspiros que ela nge serem de prazer, e os lábios sendo moldados numa pronúncia enganosamene suave. Hum. Ber.”. Ela não o chama pelo nome como uma rebelião silenciosa, como uma orma de reribuir a proanação que ele comee ao massacrar o nome que sua mãe lhe deu, mas não só por esse movo. Ela não pode ignorar a orma como o nome dele por si só já é o suciene para enviar calarios de horror por oda sua espinha e arrepiar cada pelo do seu pequeno corpo em nojo, e como ela oge dessas sensações como uma criancinha ugindo do escuro. - 51 -


Arrepios como esses são comuns para ela agora, inelizmene, e ambém requenemene mal inerpreados. O monsro só vê o que ele deseja ver, mesmo quando isso signica se cegar para o desprezo óbvio que ela sene enquano os dedos dele correm por seu cabelo ou odas as vezes que sua esa se ranze diane do que ele inerprea ser carinho; mesmo quando isso signica ngir não ouvir o choro desolado dela à noie ou não enender por que ela axa ão veemenemene qualquer ao que ele az com ela. Qualquer arrepio dela é um bom para ele, e isso signica que ele se sene livre para omá-los como aceiação. Essas são as horas em que a vergonha não é a única emoção que oma seu corpo, e ela não em cereza se ela se sene aliviada ou aerrorizada com isso. Nessas horas, Dolores odeia. Odeia o monsro que rou sua inância, odeia o mundo que permiu que ele o zesse, odeia sua mãe que a deixou sozinha à mercê dele. Ela odeia e odeia e odeia, e o ódio é quene e nada como a vergonha, que a gela aé su’alma. O ódio deixa um goso rançoso em sua boca e crava suas garras em seus ossos e inunda seu coração em líquido viriólico. Isso a aquece em chamas violenas vindas direo do conm do inerno, e Dolores nunca se sene ão assusada quano os momenos em que o ogo cana em suas veias. Mas seu ódio não impora para ele, assim como não impora que Dolores enha um nome próprio – não Lolia, nunca Lolia – ou que ela é sua eneada. Nada disso impora e nada disso iria impedi-lo; enão ela cava denro de si por um sorriso e nge como uma prossional; usa odos os seus 1,47 meros de alura como uma arma e um escudo, qualquer coisa que seja necessária para a sobrevivência. Acima de udo, Dolores quer viver. É o que impulsiona sua lua e a impede de desisr, é a gasolina que alimena as brasas inabaláveis de esperança que se recusam a se apagar. Mesmo que seja egoísa, mesmo que ela saiba que muios não enenderiam odos os sacricios que ela esá azendo, ela não pode desisr. É por isso que ela aceia quando o monsro desliza seus dedos suavemene sobre a bochecha dela, como se ela osse algo digno de adoração; o movo de ela engolir o grio urioso que surge em sua gargana - 52 -


quando seus oques se ornam mais ínmos do que jamais pensou; a razão pela qual ela orça suas pernas a carem paradas enquano ela não em condições de arranjar um abrigo decene para se esconder, mesmo quando udo o que ela quer é jogar odo o disarce para os ares e correr sem plano algum e sem olhar para rás, indo para ão longe quano seus pés possam levá-la. Mesmo quando ela sene que esá morrendo lenamene, denhando aé que udo o que sobra são cinzas da menina que ela cosumava ser, ela se agarra ao seu objevo com um apero urioso e se nega a deixar-se ir. É por isso que, mesmo enojada aé o âmago, Dolores se inclina para reribuir seus beijos e mesmo enquano odeia proundamene como nunca odiou nada anes, algo denro dela sorri. Ela sabe que essa é uma lua que ela vai ganhar no nal. Ela em quê.

Clara Siqueira Rangel Campos de Goyacazes - RJ

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3º Lugar Prosa de 13 a 18 anos

Imago

Lá esava ela, de olhos aberos naquela madrugada de evereiro. Não conseguia dormir. Passou o dia ascinada com a energia conagiane e pica da alegria de complear mais um ano de vida, em especial o décimo oiavo. Passou a noie de seu aniversário com a amília e, mesmo em casa, não pôde resisr à enação de se arrumar e disarçar seu semblane cansado. Usava um vesdo vermelho, os cabelos casanhos caíam sulmene sobre seus ombros. Os olhos, escuros como o céu nourno, eram amáveis e miseriosos. E, embora não osse nada parecida com Capiu, com cereza aquele olhar era inenso como o de uma cigana oblíqua e dissimulada. Felizmene, sabia o signicado de ambas as palavras: amava escrever. Sempre oi uma garoa alegre - ou ao menos auava muio bem. Cosumavam dizer que seu sorriso razia conoro para as ouras pessoas. Por conseguine, sorria para odos a odo o momeno. Uma vez que o mundo já era amargo demais, nada cusaria olhar a udo e a odos com um olhar doce. Desceu as escadas da casa, chegou à copa. Seus pais esavam à mesa, esperando por ela. Como de cosume, empadão, ora de limão e Tubaína sobre a mesa. Comeram, conversaram, riram muio. Se pudesse eernizar esse momeno, com cereza o aria. Tudo corria bem, aé que uma rase, dia por seu pai, ressoou no recino: – Vou aproveiar, já que cedo ou arde minha for de maracujá não esará mais aqui em casa. A garoa sorriu, as palavras ouvidas ecoaram em sua cabeça. Ir embora... sinônimo de começar uma vida em uma cidade dierene, com pessoas dierenes e uma rona dierene. Nunca resisra à mudança, especialmene nesse caso onde sua maior mea era passar no vesbular. Enreano, ora obrigada a encarar o preço de seus sonhos. Eis a dose de - 54 -


realidade surgindo em sua essência mais pura: sul como um belo soco na boca do esômago. O janar seguiu normalmene, as horas se passaram e odos oram dormir. Menos ela. Lá esava ela, de olhos aberos naquela madrugada de evereiro, enando compreender como uma simples rase desencadeou uma crise ão prounda. Sempre oi muio apegada à amília, em especial aos pais. Os úlmos dois anos oram marcados por alos e baixos, desde uma inernação por coronavírus aé o desemprego do pai. E, a parr de uma série de aconecimenos inesperados e indesejados, esava decidida a ser ore, anal, não queria preocupar ninguém. Não obsane, não exisem oralezas pereias e em nenhum momeno deixamos de ser humanos. Logo, a dor é ineviável. A empesade insaurou-se em seu ser e o olhar, aé enão marcane, nublou. As duas íris casanhas revelavam com desreza a melancolia arrebaadora daquela alma juvenil. Jogou-se na cama de seu quaro, cobera pelo velho lençol lilás, e ransormou o leio em seu reúgio. Esava disposa a dar para si seu próprio presene de aniversário. Um presene úl e mais que necessário: o alívio. Esava cansada de remediar ou ignorar os sinomas. Ao menos por aquela noie, iria cuidar de si. Quem diria que por rás daquela moça sorridene e simpáca habiava um coração ão dilacerado.... Odiava o ao de ngir que as coisas esavam sob conrole. Odiava lidar com seu uuro incero, mero universo que oscilava enre desabar e ascender. Odiava o insuporável “c-ac” do relógio da sala de esar, seja pela poluição sonora ou pelo simples alera de que cada hora, minuo ou segundo jamais poderia ser vivido novamene. Sua dor, reprimida no mais proundo de seu ser, eclodira em prano. E as lágrimas surgiram, molhando o roso moreno. Quando armazenamos pólvora (ou senmenos) uma única aísca pode desencadear uma explosão. Ela, agora, esava em chamas. Quem viria apagar aquele incêndio? Provavelmene ninguém. Ela seria a única pessoa consciene sobre o que aconecera naquela noie. No nal, resariam apenas as ruínas, em cinzas, e a oporunidade de recomeçar. Não limiou o próprio sorimeno: chorou aé oda a maquiagem borrar, a cabeça doer e, por m, o sono vir. Adormeceu proundamene. E, quando o sol raiou, a calmaria surgiu no exao momeno em que abriu seus olhos. Levanou-se, ajeiou os - 55 -


lençóis, abriu a janela. O dia esava ensolarado, o céu indescrivelmene azul. Esava rise? Alegre? Não sabia dizer. Apenas exisa em meio a um marasmo senmenal, implorando para que isso signicasse uma régua para seus confios inernos e exernos. Foi quando percebeu algo apico camufado nos galhos da quaresmeira em rene aos seus olhos: um casulo. E, aparenemene, ele esava lá há um empo considerável, uma vez que havia uma enda naquela esruura. Nunca gosou de inseos, mas sempre oi ascinada por borboleas. E, nesse caso, aquele pequeno ser alado esava em sua imago: basava ulizar oda a sua orça, romper o casulo por compleo e aproveiar a liberdade para voar e desruar do nécar de diversas fores. E a resposa aos quesonamenos da insônia nalmene surgem para aquela menina mulher. Sua boca esboçou um sorriso, junamene com os olhos. Concluíra que esava em um processo de meamorose. Talvez, a ase dicil osse, acima de udo, uma ase necessária para seu amadurecimeno e ransormação. Quando isso acabaria? Não sabia. Todavia, compreendeu que a vinda da primavera não é mero jogo de palavras para disrair corações ansiosos. Ao conrário, a vinda da primavera é um ao: é impossível que o inverno seja eerno. Porano, resaria esperar e luar aé que seu casulo rompesse. Por ora, cuidaria de si, junaria orças, sorriria muio e aproveiaria cada momeno que oereça o mínimo de elicidade. E assim viveria, dia após dia, aé o m de sua ormena. Sua hora de forescer chegaria e essa cereza azia com que qualquer ornado se converesse em uma garoa de verão: leve, simples pare do processo. Os olhos abriram-se oalmene, redondos como se houvesse descobero um dos maiores segredos de odo mundo. Nunca mais seria a mesma. Surpresa com a esperança originada no âmago de seu ser, escreveu sobre o episódio no bloco de noas de seu celular, imoralizando seu renascimeno.

Camila Cosa Parmo Mococa - SP

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1º Lugar Prosa de 19 a 39 anos

O imigrante

15 de evereiro de 1893: quara-eira de Cinzas. O sino da Igreja da Imaculada Conceição enoava a sexa badalada e o vigário abria a robusa pora de madeira. Giovanni prosrava-se de joelhos diane da escadaria de pedra, com o rosário em mãos. A Sana Missa começaria em alguns insanes. Do ouro lado da rua, Luísa, sua esposa, o lho Mariano e o cunhado Nicola admiravam, pela úlma vez, as colinas bucólicas da pacaa Guilmi. Avisavam, não muio longe, a modesa casa de pedra da Srada Piazza, número rezenos e quarena e oio. A quaresma seria mais longa nesse ano. “Lembra-e que és pó da erra e à erra volarás”, disse o padre, ao nal da missa, como manda a liurgia. Giovanni sabia, no seu ínmo, que àquela erra não volaria. “Mas para que volar?” - quesonava-se, amargurado pela nosalgia e senndo-se ingrao pela oporunidade que Deus lhe proporcionava. Aos quarena e rês anos de idade, seu nível de omismo era sensivelmene reduzido, em comparação ao lho Mariano, que complearia dezessee em alguns dias. - “Reino da Iália”, para quê? Meu pai dizia que a Europa acabou com Napoleão. Ele esava cero. Vitorio Emanuele II não me agrada e esou cero de que o Rei Humbero não rará progresso ao nosso país,” exclamava Giovanni, ando Mariano com ar de auoridade, enquano Luísa olhava com desconança. Havia cero inconormismo em suas palavras, embora a unicação ialiana osse um ao consumado há mais de duas décadas. - Pai, é verdade que na América exisem lâmpadas que se acendem sozinhas? – indagava Mariano. - Filho, dizem que exisem aé carroças que andam sem cavalos! “Ele precisa parar de beber”, pensou Luísa, regozijando-se porque não precisaria mais resgaar o marido, quase oda noie, na aberna escura e éda da Via Roma. - 57 -


A viagem aé a cidade de Chie, capial da província, era longa e penosa. Lá, omariam um rem e, após várias escalas e baldeações, desembarcariam, nalmene, em Gênova, onde lhes aguardava o vapor Aquiaine, vindo de Marselha. No rajeo rumo ao nore, enquano admirava as monanhas coberas de neve, na região dos Abruzos, Giovanni quesonava-se sobre o acero da decisão. Era imperioso deixar a Iália, mas várias inquieações dominavam a sua mene. Denre ouras incerezas, emia copiosamene não se adapar ao clima brasileiro. Lembrara de alguns primos do seu pai, moradores da cidade vizinha de Torricella Peligna. Sabia que eles haviam escolhido o nore dos Esados Unidos, região com clima mais parecido com o que esavam habiuados. Sem empo para divagações e remorsos, Giovanni lembrou-se da conversa que vera com Girolamo, dedicado uncionário da agência migraória de Guilmi: - Giovanni, o clima é a única semelhança. Os anglo-saxões são culuralmene muio dierenes. Ademais, posso lhe garanr que erá mais acilidade com o idioma poruguês do que com o inglês. Aproximando-se de Gênova, odos admiravam a paisagem que se desenhava nas janelas. Giovanni recordava-se vagamene das águas do mar. Acompanhara seu pai Camillo aé o Poro di Vaso, numa viagem de negócios, quando nha see anos de idade. Luísa, que já passava dos quarena, sequer concebia como ana água poderia repousar em um só ambiene. 7 de março de 1893: erça-eira, dia de Sana Perpéua e Sana Felicidade, márres do crisanismo. Em meio à muldão, uncionários apiavam e griavam: “Navio Aquiaine, com desno a São Paulo e Buenos Aires, úlma chamada!” Nesse insane, apenas um propósio: enconrar um lugar onde pudessem permanecer sem o risco de terem os pés esmagados por um baú ou pelos sapaos de ouras pessoas. A erceira classe parecia disane. O peso das malas começava a incomodar os ombros de Mariano e Nicola. Todos ansiavam por um banho e por uma noie de repouso. O colchão não era mais espesso do que o exemplar da Bíblia Sagrada que oda amília razia consigo. A emperaura da água, por sua vez, era suciene para não provocar hipoermia. Ainda assim, as condições precárias da erceira classe não escandalizavam. No Brasil, era cera a promessa de prosperidade e de vida melhor. Perpéua e Sana Felicidade! - 58 -


O uuro é a América das lâmpadas e das carroças sem cavalo. A Europa resumia-se às ruínas de um passado glorioso que ora sepulado com Napoleão. Poucos dias após o embarque, o navio se preparava para a úlma parada em solo europeu, na Espanha. Em seguida, cruzaria o Alânco rumo ao Novo Mundo. No dia seguine à derradeira parda, por vola das vine horas, após o janar, Giovanni convidou Luisa para dançar aranela no porão do seor B. Gaeano, um simpáco jovem de olhos claros, era músico em Nápoles e não abandonou seus dons. Virou uma celebridade na erceira classe. Embora enha se enredo no início da viagem, Luísa, por vola do décimo quino dia de ravessia pelo Alânco, deixou de acompanhar Giovanni. Era uma abnegada esposa, mas sua saúde inexplicavelmene rágil já não permia envolver-se com noiadas. Ademais, não demorou a perceber que o ineresse de Giovanni, na verdade, era no vinho de Gaeano. Havia cero remorso por beber e esejar em plena quaresma. Porém, ele nha cereza de que nas Américas não enconraria primivos e monepulcianos. Aliás, “será que eles omam vinho?”, indagava-se com cera requência. 2 de abril de 1893: Domingo de Páscoa. Falava apenas uma semana para o desembarque no Poro de Sanos, onde omariam um rem para a Hospedaria dos Imigranes, no bairro do Brás, em São Paulo. Absoluamene udo esaria pago pelo governo brasileiro. Era o que se sabia. Nada além disso. Girolamo, o uncionário de migração, não poupara oograas. Aliás, aquela oi uma experiência marcane para Giovanni, Luísa, Mariano e Nicola: “Como um momeno pode ser regisrado em um pedaço de papel?” Giovanni era demasiadamene curioso. Os seus quesonamenos, inndáveis. Não osse a simpaa inaa – inensicada pela boa remuneração advinda do acordo Brasil-Iália – ceramene Girolamo eria expulsado a amília ineira da reparção pública. Nos limies da sua enxua liberdade de escolha, Giovanni nha algumas cerezas: Repelia os ares cariocas - a mera cogiação de não er um inverno ou, pelo menos, não nos moldes ialianos, era assusadora. Também não lhe era convidava a ideia de migrar para o sul do país. Embora o clima lhe parecesse aprazível, ouvira alar sobre colônias de imigranes alemães e ausríacos naquela região. Se o assusava a convivência com anglo-saxões, lidar com povos germânicos esava compleamene ora de cogiação. - 59 -


Era a primeira Páscoa sem vigília pascal. Apesar disso, o padre Leonardo azia quesão de deixar seus aposenos para orar juno aos éis às erças, aos domingos e nas daas crisãs. Naquela manhã, após mediar sobre a more e a ressureição de Jesus Criso, odos se emocionaram com a declamação do capíulo erceiro do Livro de Eclesiases, iniciada com o versículo: “Para udo há um momeno, e um empo cero para cada coisa debaixo do céu.” Com a ansiedade apaziguada e as esperanças à for da pele, Giovanni e sua amília conversavam sobre as paisagens que viram nas oograas. Agradava-lhes, sobreudo, o relevo da Serra da Manqueira, enre os esados de São Paulo e Minas Gerais. O ar bucólico evocava a lembrança de sua erra naal. Receavam a euoria das grandes cidades e sabiam que o campo era o melhor lugar. Eram, anal, camponeses. 9 de abril de 1893: erça-eira, seis horas e rina e see minuos da manhã. O vapor Aquiaine lança suas âncoras no poro de Sanos. Minuos anes, convés loado. Todos queriam saudar o Novo Mundo. O verde famejane da Maa Alânca encanava os olhos e enchia os corações de esperança. O empo era aprazível, céu abero, vine e dois graus. Com a aberura das poras do navio, qualquer enava de desembarque organizado resularia indubiavelmene racassada. Aos grios e sorrisos, odos saiam em alvoroço rumo à erra rme. No imenso saguão poruário, ormavam-se as las para organização e encaminhameno dos imigranes para a Capial. Ouros anos permaneceram no Aquiaine, com desno a Buenos Aires. Após cura viagem pelos rilhos da Serra do Mar, odos desembarcaram no Brás. Começavam os rabalhos de riagem e direcionameno dos esrangeiros para as ouras regiões do país. É chegada a vez de Giovanni, Luísa, Mariano e Nicola. Vera, a uncionária pública, pronuncia vagarosamene o longo nome da cidade. Naquele momeno, Giovanni aprende a primeira palavra em poruguês: o seu próprio nome! Esava eliz porque o seu uuro repousava na boa visa das oograas. Além do mais, o úlmo Evangelho sempre ora o seu predileo.

André Luiz Porreca Ferreira Cunha São Paulo - SP - 60 -


2º Lugar Prosa de 19 a 39 anos

Aurora

A venania insisene sopra um ruído como uivo de lobo e az com que os vidros das janelas remeliquem. – Barulho insuporável! Aurora gira na cama, esá dicil pegar no sono, ela levana, oma um copo d’água, dá uma vola pela pequena sala do seu aparameno e vola a deiar-se. Revira uma, duas, rês vezes na cama e começa a irriarse. A mene não para. Ela ca criando lisas menais das areas que deverão ser execuadas durane a semana. Paulo, que esá deiado ao seu lado, percebe a agiação de Aurora e aninha seu corpo ao dela, enando ranquilizá-la. Há semanas em se sendo esranha, oca, sem ânimo. O corpo anda ão cansado que ela só consegue pensar em car deiada. À noie, udo ca pior; Aurora é omada por pensamenos sombrios e uma riseza inexplicável. Ela ena desesperadamene enconrar memórias iluminadas, mas udo que enconra é escuridão. Consegue lembrar-se de ragmenos de sua inância no lioral, brincando com os vizinhos e azendo caselos de areia na praia, mas logo em seguida depara-se com a imagem do pai segurando uma garraa de pinga e a arrasando para casa pelos cabelos. – Pense em um lugar que raga uma memória eliz e descreva-o em dealhes, oi o que pediu a proessora do curso de Ares Cênicas. Aurora senu o peio rasgar-se. Qual lugar descreveria? Que lugar no decorrer de sua breve exisência merecia al aenção? Pensou em invenar, era boa nisso. Quesonou a proessora, sim, nha que ser um lugar de boas lembranças e precisava ser descrio minuciosamene. Era dicil revelar, pois seu lugar mais eliz era o banheiro, onde ela se rancava por horas, senava no piso gelado e umava cigarros sem parar. O banhei- 61 -


ro de azulejos azuis claros era seu reúgio e não queria comparlhar esse segredo com ninguém. O que pensariam dela quando conasse udo que escondia ali? Todos os comprimidos de arja prea guardados no armário de espelho rincado, os cigarros, as maquiagens para ocular as cicarizes… Ela cogiou escrever sobre o bar de luz raca e avermelhada em que Paulo a pedira em casameno, porém ela não se recordava muio, só lembrava de “Wish you were here” ocando ao undo e do anel que Paulo segurava. A única coisa que brilhava naquele lugar eram os olhos dele. Não nha recordações elizes de sua casa, nem poderia acrescenar qualquer po de aeo aos espaços sicos em que viveu com a amília. Havia na sala de janar uma mesa grande de madeira onde sua mãe colocava a ceia de Naal, mas ninguém chegava a saborear, pois as brigas vinham anes de Jesus e a mesa posa era jogada ao chão. O quaro minúsculo, dividido com rês irmãs aé sair de casa, edia a moo e nha rachaduras nas paredes. Também oi nesse quaro que Aurora oi esuprada pelo o enquano o pai esava embriagado no soá e a mãe rezava na igreja pedindo a Deus que o mal nunca alcançasse sua amília. A luz apagada não permie que Aurora enxergue Paulo; ela sene apenas a respiração pesada dele em seu pescoço. Ela o admira, mas não sabe se o ama e pouco enende o porquê de ele ainda esar ao lado dela, depois de recusar seu pedido de casameno. Aurora nunca conseguiu explicar a ele a origem de suas cicarizes e queimaduras nos braços, nem pôde revelar o paradeiro da amília, e o ao de ser uma mulher soliária. Foi Paulo quem insisu, Aurora nha aleno para o earo. Em que momeno ele observou al habilidade ela não sabia. Talvez por ela esar sempre ngindo. Finge ser eliz, nge gosar de alguém, nge esar saseia, nge querer sair… Quando na verdade, udo o que ela mais quer é rancar-se no banheiro, chorar e acumular guimbas de cigarro. Quando eles ransam, Aurora evia ser ocada, preere esar no comando e esabelecendo os limies do conao. Quando esá sozinha em casa, ela se permie abrir uma garraa de vinho e car a observar pela janela. Do quino andar ela consegue ver as luzes das casas e prédios, os neons dos edicios empresariais, o céu acinzenado e as raras esrelas. Ao olhar para baixo, para o caneiro de - 62 -


grama queimada e o playground, ela sene que pode dar m a oda dor, ser breve assim como o alvorecer que lhe deu nome. – Ainda não, Aurora, diz a si mesma após beber oda a garraa. Depois vai ao banheiro e engole uma pílula para dormir. Quando acorda da noie urbulena, percebe que o veno se oi e as cornas esão aberas. Aurora conempla, ascinada, rajadas de luz e cores inensas invadirem o céu de ouono anes do nascer do sol. É o começo de um novo dia. Paulo se aproxima com uma xícara de chá umegane e um sorriso: – Não é linda a aurora?

Rebeca Nahalia Barbosa Maia Belo Horizone - MG

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3º Lugar Prosa de 19 a 39 anos

Vingança

Não queria que vesse sido assim. Senado no escuro, escondido, penso no que z. Nem em sonhos eu maaria alguém! Era só enrar e sair. Enrar e sair. Mas não, ele eve que abrir sua grande boca e sair do combinado! Logo cedo escuei meu pai griando: “anda, Marco, levana! Vem gene aí!”. Traei de levanar para não er que ouvir o segundo pedido, geralmene seguido de um saanão. Ainda passava as mãos pelos cabelos, numa enava inúl de endireiá-los, quando ouvi a pora da rene se abrir. Era Dom Peroni em pessoa. Nunca o nha viso de ão pero. Muio bem vesdo em um erno caro, desoando do ambiene em que acabou de enrar. Meu pai o convidou para se senar e oereceu uma bebida. – Tenho pressa, Nicolau. Só preciso saber se ainda posso conar com você. – Sempre, Dom Peroni, para o que precisar. – Enão logo você vai receber nocias. Sei que é dicil, mas será bem recompensado. Não deixo um amigo em diculdades. Espero o mesmo. Nossa amília em dívida com Dom Peroni desde que minha irmã eve aquela osse errível quando bebê. Meu pai oi pedir ajuda a ele, para poder levá-la a um bom médico. Ele não só providenciou o melhor médico da cidade, como nos deu odo o dinheiro para comprar os remédios. Assim minha irmã não morreu, e uma dívida com Dom Peroni oi criada. “Em um momeno de necessidade, posso conar com você, Nicolau?”. Por causa dessa rase, meu desno mudou. Chegado o adico dia, meu pai, muio velho para arar, me passou a arma assim que a recebeu em suas mãos rêmulas. Ele daria o recado e eu esaria com a arma. “Para algum problema”, adver a ele. Era só - 64 -


dar o recado e sair. Ainda repassava menalmene as insruções enquano enrávamos, quando ouvi meu pai resmungar “ele me paga”, enre denes. Nesse momeno percebi que havia alguma coisa errada. Foi exaamene nesse momeno. Era muio arde para volar; connuei andando. Enramos na lavanderia já de enconro com o dono, para quem o recado se desnava. Meu pai segurou as mãos para rás, enando conrolar o ore remor. Endireiou o corpo e olhou o homem nos olhos, emanando pura ira. – Eu lhe disse que o seu dia ia chegar, disse num volume muio baixo. Agora rabalho para Dom Peroni, e qualquer problema com ele é um problema comigo; conrole seu lho, em nome de Deus! O homem deu uma gargalhada: – Um merda como você, vai azer o quê, me baer? Você é um corno que cria um basardo. Um velho alcoólara. Cai ora daqui, seu bosa! Meu pai abaixou a cabeça, limpando o suor da esa arapalhadamene. Recolheu as mãos com rapidez. Nada daquilo azia pare do combinado. O que o homem disse sobre nós inelizmene é verdade. Minha mãe eve um caso exraconjugal cujo resulado oi a minha exisência. Meu pai me criou como seu. Dizem que seu alcoolismo começou desde enão; nunca perdoou realmene minha mãe. Deus a levou há dois anos, de ebre, e desde enão éramos só eu e meu pai – minha irmã se casou e se mudou para longe. – Você não enendeu. Vamos acabar com você e oda a sua amília, se o seu lho não enrar na linha. Dom Peroni esá bravo, enão eu ambém esou, disse meu pai, com rmeza. – Vá cuidar da sua vida! Meu lho vai namorar quem ele quiser, da amília que or. Tenho só uma lavanderia, mas somos honrados. E você que mal em um pedaço de lixo onde ena planar alguma coisa, só pra não morrer de ome? Acha que pode vir aé aqui alar alguma coisa?, griou o homem. – Nada me daria mais goso na vida que e maar, meu pai declarou em pleno ódio. Agora que rabalho para Dom Peroni, posso azer agora mesmo! connuou, orcendo as mãos arás do corpo. – Você é um merda que não presa pra isso. Seu lho – apona para a minha cara num geso curo – é só um roceiro. Tiro vocês daqui num minuo!, disse o homem, pegando um porree. - 65 -


Um conrono seria udo o que eu não queria para esse momeno. Ele em razão, meu pai é só um velho e eu um caipira. Dom Peroni nos escolheu na cera por saber desse ango ario enre meu pai e o homem da lavanderia. O que vou azer? Pegar a arma? Meu pai me olhou no undo dos olhos, por um breve insane. Enão eu percebi que esse era o plano dele o empo odo. Peguei a arma. O que aconteceu a seguir se repete a todo momento na minha cabeça. O ro, o sangue, os grios, a uga. Fugindo o mais rápido que podia, enconrei esconderijo no meio da maa. Minha preocupação agora é com a minha irmã. Ela compreenderá o que z, enho cereza. Quanas vezes choramos junos, abraçados, enquano ele, bêbado, agredia nossa mãe! Agora ela esá vingada, depois de uma vida de sorimenos ao lado de um monsro. Maei meu pai, e não me sino culpado. Fiz o que precisava ser eio, anes que o mal dele angisse oura pessoa. Preciso dar um jeio de ver minha irmã, mas anes me explicarei a Dom Peroni e devolverei a arma. Era só dar um recado e, bem ou mal, ele oi dado. Ele haverá de enender. A dívida oi paga.

Ana Cristna Melancieri Simão Bauru - SP

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1º Lugar Prosa de 40 a 59 anos

Tudo muda

Ah, essa mene insaciável que não se cansa, parece um mar de águas bravias em ebulição, noie e dia não se dierenciam nessa mene em eervescência quase renéca! Os raios de sol a aquecem e ela replica em imagens que as mãos raam logo de maerializar. Ao clarão do luar ela connua pulverizando imagens, gemendo sons urvos que logo se ransormam em canções. As imagens...ah! as imagens.... Vejo coisas que só exisem nessa mene insana! Coisas que crio e recrio em versos e rovas... E udo isso vai se modicando a cada respirar, a cada pensar, a cada senr, a cada pulsar da vida denro de mim. Depois que se dá vida às palavras ao escrever uma poesia, a vida nunca mais é a mesma. As palavras navegam em seu pensameno e a cada respirar elas criam vida própria. Depois da primeira poesia nunca mais se volará ao esado de anes. Nunca mais! O olhar se modica; os ouvidos cam mais aenos; o olao, um animalesco mais apurado; o ao, exremamene sensível; o paladar, como de um sommelier das mais requinadas palavras... Tudo, exaamene udo se modica! O mundo que o rodeia muda de orma e amanho a cada respirar. As fores alam com você, como em As quaro esações de Vivaldi; o arco-íris lhe sorri com a suleza melodiosa de Paganini; os pássaros levam recados como peças de Mozar aos seus ouvidos; os rovões passam de enômeno da naureza a insrumenos de sopro nas obras de Bach. Os relâmpagos se ransormam em nais de compassos musicais de Beehoven com uma bela pausa de semibreve e início de compassos - 67 -


musicais de Tchaikovsky, acompanhado de uma sunuosa ermaa. O barulho das águas, uma orquesra com xiloone e gaias escocesas e o érmino de empesades como os renovos de Chopin. Depois da primeira poesia udo muda... O paladar, o apee, a sede e os desejos mudam consideravelmene; aliás, os poeas já nascem dierenes. Mesmo que ainda não saibam da sua real vocação com as palavras, eles são dierenes... Geralmene midos, insaseios, desejam algo que não sabem denir, escuam sons que não sabem de onde vêm, senem os aromas razidos pelo veno, pela chuva, pela brisa e aé mesmo pela umaça, quiçá aé do além! Quando crianças, querem abraçar o mundo; quando adulos, querem esconder-se do mundo; e, quando velhos, querem se dissipar por enre os venos, as empesades, as brisas, o rescor do suave veno de ouono, os lampejos de chuvas de verão, o veno de inverno uivando na janela do quaro ao anoiecer, os arroubos do calor da primavera... Quando velhos, queremos udo o que or possível. E ainda reinvenamos o impossível. Quando velhos queremos unir-nos à naureza e quando a more se aproxima somos preensiosos! Queremos reencarnar em orma de for, em orma de pássaro em um jardim de margaridas, em orma de joaninha em um campo de girassóis, em orma de colibri em um roseiral, em orma de dunas de areia, em oásis no desero, em corais dos oceanos, em correneza das cachoeiras... Enm, somos de ao preensiosos! Poeas nascem dierenes, vivem dierene, sorem dierene, choram dierene, morrem dierene e renascem dierene! O poea ri em orma de crônicas, se apaixona em acordes e dedilhados de uma viola clássica, ca apreensivo em orma de conos, chora em orma de música e se despe em orma de poesias... Quando ca bravo ransorma-se num belo ado ao piano, quando esá com a mene ociosa oca uma faua doce ou faua de Pan e udo se renova. Aliás, ele se renova em cada palavra que escreve, renasce em cada poesia que cria, se eleranspora em cada música que compõe, se limpa em cada lágrima que derruba ao emocionar-se com as palavras vivas no papel. - 68 -


O empo sorri para o poea, a vida lhe encana com suas belezas naurais, udo se orna belo aos olhos do poea! Mas algo sempre irá lhe assombrar. O poea eme o próprio homem, sua mene insana, seus desejos unesos e sombrios, sua maldade ocula no olhar sorridene... Os medos do poea? Seus dilemas? Ei-los: Seu medo, maldade humana; sua dor, a miséria alheia; seu sonho, ransormar o mundo; sua ilusão, espalhar o amor em orma de poesia; seu desejo, ser imoral; seu pesadelo, deixar de sonhar; sua ara, escrever o mais lindo cono; sua ganância, guardar udo o que escreve; sua arrogância, querer ser único; sua vaidade, admirar suas obras; sua simplicidade, viver enre as palavras; sua sina: senr-se sempre só... Depois da primeira poesia nada mais é igual a anes, você acaba enconrando o que procurava quando criança, mas não sabia descrever ou denir. Você enconra a magia das palavras e imerge do enigmáco mundo dos sonhos, das verdades, das ilusões dos senmenos, das dores, das desilusões. Os mundos se misuram de al orma que o real invade o ilusório e o ilusório se emaranha no real. Depois da primeira poesia udo muda, udo se poencializa, a dor, a alegria, a riseza a euoria, o choro, a melancolia. Depois da primeira poesia udo muda, você passa a ser um gluão de sensações, um exravagane das palavras, um osenador de premiações lierárias, um caçador de concursos. Almeja azer do dicionário o seu sobreudo; da rima e mérica pereias, seu anel de brilhanes; sua comenda, uma esmeralda ao peio; sua pelerine, a mais robusa armadura; sua mão, a canea neiro; seus livros: o seu exércio! Suas poesias: as suas armas; seu cérebro: um bem precioso. Sua maéria: o alimeno da erra; seu espírio: o sopro de inspiração a quem um dia de bom grado quiser acolhê-lo quando se or. Sua alma: reornará ao Criador... Depois da primeira poesia, jamais enxergará o mundo como um simples moral, porque, depois da primeira poesia, udo muda! Silvana Lemes de Souza Sarapuí - SP - 69 -


2º Lugar Prosa de 40 a 59 anos

A cor da liberdade não é cinza

Caminho de chinelos. Roupa qualquer. Maquiagem zero. Ligo a elevisão: dor, esascas, mores, médicos e enermeiros que choram ou aplaudem um paciene que se recuperou. Dor e emoção. Olhos marejados. Vou à pequena varanda, molho planas, penso em canar para alegrar a vizinhança, mas lembro que não enho vonade, nem voz. Tudo o que consigo é azer um caé e dar comida e carinho para minha gaa Salomé que de nada sabe, do alo dos seus 16 anos. Sua vida é acordar, espreguiçar, espichar, comer, esconder a caca e dormir mais. Não sabe que o mundo esá sorendo, não sabe que esamos presas em casa pois, anal, ela sempre eseve presa mesmo: assim como Benedic, meu coleirinho, que só cana para mim. Meus companheiros de vida. Pego uma xícara de caé. Falo pelo zap com minha mãe e enho a sensação de que acabou o dia. Ela chora, em saudade. Olho para a elevisão, mas enho medo de ligar. Pego um livro, mas sem paciência de ler. Quero sair de carro, mas não enho para onde ir. Ligo para um amigo, ele reclama. Ligo para uma amiga, ela reclama e chora. O vizinho de cima ensaia canar uma canção Napoliana, mais desanado que apio molhado. Mas valeu a boa inenção. Esamos odos rancados. Ele enou alegrar a riseza. Não enho biciclea ergomérica, mas enho uma bike enerrujada, na qual não passeio há anos. Assolada pelo édio com piadas grossas de depressão ameaçando mosrar a sua cara, insiso na ideia. Coloco ênis de corrida –velho por cona de meu ócio – óculos, capacee, luvas, máscara. Juno à garraa d’água, um rasco de álcool em gel. E lá vou eu. Compleamene só. Sirvo Benedic com seu alpise imporado, aago Salomé com um poe de leie resquinho, e me mando. A vida workaholic de ala de empo e o sedenarismo me presenearam com um joelho deonado e uma leve pança: um pouco parecido ao que aconeceu com a gaa. E eu, era gaa ambém. Benedic permaneceu magro, porque acho que alpise não em caloria alguma. - 70 -


Ao sair pelo corredor, enconro a vizinha com uma máscara azul, exraordinariamene espessa e prossional. Penso logo que queria uma igual. Mas, ela mal me viu e saiu correndo, com medo de eu conaminá-la. Na verdade, a anpaa anecedia a pandemia. Ela, uma dondoca esnobe; eu, uma rabalhadora ull-me. Mas, por um milagre, ela sorriu para mim. E eu, reribuí. Cumplicidade na dor, amém. Peguei a bike na garagem. Ela rangeu, como quem não vê óleo há décadas; mas, esranhamene, os pneus esavam aé cheios, dava para andar. Enão, pus-me a meu desno sem desno. Pedalei pelo quareirão. Cidade po “Ensaio sobre a cegueira”, ou “Blade Runner”. Ficção cienca. Poucas pessoas passando, de máscara ou aé capuz. Olhei os prédios do lugar onde moro há dez anos, e não os reconheci. Alguns nham cores lindas, eslos ar decó, ar nouveau, que nunca reparei. Tudo dierene. Avisei o mar, decidi parar a bike e senar sozinha em um banco de cimeno. Olhei para o céu e vi um azul urquesa, om de aquarela... a areia, branquinha como neve, sem uma lanha ou plásco sequer. A água, ransparene, como se ora o mar do Caribe ou de Fernando de Noronha. Levei um suso! Se me dissessem que eu esava no paraíso, acrediava. Mas, maior suso levei, ao ver duas ararugas (mãe e lhoe) nadando alegremene sob a água ranslúcida, acompanhadas de peixes gorduchos. Olhei em vola a me cercar se eu não havia morrido, e renascido no Jardim do Éden. Respirei undo e o ar esava mais resco, puro. Eu caria ali por horas. Tudo parecia um novo planea, compleamene desconhecido de meu codiano. Não parecia meu bairro, não parecia meu mundo, não parecia meu mar. Monei na bike e rodei mais quareirões, sendo seguida por pássaros. As calçadas pareciam chão de um cenro cirúrgico: nem um único papel de bala sequer. Pedalei, pedalei, por horas! Olhei cada arquieura que nunca havia noado, cada caneiro que eu nem sabia exisr! Cada árvore que eu nunca havia percebido, mesmo cando diane delas no engarraameno de odos os dias – rumo ao rabalho. O veno ocava meu roso. Minhas pernas não queriam volar. E eu chorava, pela dor do mundo. Mas me sena graa, por ainda er vida. Chegando em casa, rei o ênis na enrada, coloquei a roupa de molho, lavei as mãos e senei na varandinha. Salomé veio se esregando pedindo aeo, e noei o quano ela esava uma bola. Benedic canou, - 71 -


como sempre az quando eu chego. E eu pensei o quano o mundo pode ser lindo, e o ano que o ser humano o desrói, dia após dia. Há beleza em oda pare! Camufada por sujeira, por desrespeio, por superpopulação, por desigualdades, por ala de planejameno urbano! Por asxia! A vida pode ser oura. Há muia vida por rás da vida. Peguei Salomé no colo e prome a ela que, quando o mundo vencesse o vírus e udo volasse ao normal, compraria uma coleira e a levaria para passear odos os dias – a subir em árvores e se esbaldar nos caneiros. Imaginei aé rocar meu aparameno por uma casa com quinal. Em seguida, abri a gaiola de Benedic e, com o coração dilacerado, o deixei parr... para que ele pudesse er uma única chance de voar. E de ser livre. Dias depois, acordei com Salomé se espreguiçando aos meus pés, e um cano mais lindo que exise, melodiava em minha janela. Meu coleirinho havia volado para me visiar. Ele agora era um pássaro sem prisão, com um cano muio mais ore e valene. Também descobriu que ser livre é o bem maior que há. O empo passou, a pandemia curou, vida nova raiou, e eu roquei meu aparameno por uma casa com quinal. A dor me rouxe novos valores. E, lembrando do lme ‘’A Liberdade é azul’’... é mesmo. Salomé, mesmo anciã, aprendeu a subir em árvores, al qual uma alea. Benedic se cansou do céu: achou grande demais para quem cresceu em gaiola, preerindo azer morada no abacaeiro da casa nova, pero dos que amava. E ele não volou sozinho: rouxe sua companheira, uma papagaia que enconrou pelo caminho. Ela canava o dia ineiro, melodiava aé o hino nacional! Eu a bazei com o nome Liberdade. Gisela Lopes Peçanha Nierói- RJ

(Ese cono é dedicado às cenenas de milhares de brasileiros que perderam a lua conra a Covid.) - 72 -


3º Lugar Prosa de 40 a 59 anos

Água limpa

Nasceu em noie de lua cheia, redonda al qual queijo branco e brilhane; mas queijo por aqui só se conhece de ouvir alar pois nem as cabras dão mais leie pra azê-los, al a secura do paso nesse eso que eima em não cessar. O céu, esrelado anes parecia revoada de ano vaga-lume que nunca se vira um anão assim por essas bandas; de empos pra cá o calor anda ano que nem vaga-lume em dado as caras, só se vê voo de mariposa asa de bruxa e de ormiga arará. O cenário que emoldurava a chegada do rebeno, mais um na prole numerosa, nha udo pra ser poéco, mas o calor exremo, a secura do chão, a chuva que eimava em não cair ornavam qualquer ernura em ormeno, poesia em agonia, aleno em sorimeno. Nasceu. E como odo recém-nascido, sujo de sangue, sebeno. Limparam-no com um pano quase branco – já nha sido branco há empos, quando aqui chovia e nha água pra lavar... Não pode ser banhado pela pareira, água não havia quase, não se carecia desperdiçar, ia alar pra beber. Quando nha água pra beber... A vida é dura por aqui, o chão é duro por aqui – não chove água pra molhar a erra, pra aoar o chão daqui. Nunca se vê lama por aqui – nem se sabe o que isso é nas bandas daqui... A mãe do recém-nascido quase parece vó de ão enrugada, roso envelhecido muio anes do empo cero, a pele da cara é o espelho do solo do lugar: rachado, quebradiço, poeireno. Sem expressão. Sem aleno. O suor que escorre marca a poeira grudada no roso. - 73 -


Não chora lágrimas da dor do paro, nem da alegria da maernidade; as lágrimas secaram, seja pela dor que já se acosumou – “nasceu rápido, em boa passagem”, disse a pareira; seja pelo amanho da prole já numerosa, “é o nono lho! Seis vivos”, disse o marido acendendo um cigarro de palha. As lágrimas devem er evaporado al qual o açude da Vila, que nem o riacho que descia do morro marrom do qual sobrou só o leio, al é o calor que az aqui. Se vesse lágrimas chorava muio só pra ver se junava água, ainda que salgada. O úlmo rebeno cresceu, “como o empo passa rápido igual carreira de bode”, assim se diz por aqui. Já em sombra de bigode e ana espinha na cara que parece mandacaru de janeiro, que não ulora na seca. Quase nunca viu chuva, nem se lembra quanas vezes. Não conhece enchene, emporal nem sabe o que é. Água limpa nunca viu. Nem bebeu, não sabe do sem-goso da água limpa: “água em goso de erra”. A pouca água que por vezes cai do céu – de quando em vez São José abençoa, cai na erra e evapora. A que sobra vai pro raso açude barreno, pisado de gado magro, remexido de laa d’água e cuia de cabaça. É raso, mas não se vê o undo, em pouca água, quase nada, rasa e urva que nem visa cansada. “Ouvi dizer que água era limpa, clara e crisalina que nem vidro de janela.” Nunca viu assim não, quando cai do céu é ão pouca que não juna, quando á na erra misura e ganha cor. Pra beber não presa não, mas se não beber não sobrevive. Dizem que na cidade grande em de udo: rabalho, mar, moça pra casar – e água limpa. “Vou pra lá, minha mãezinha”. Junou as ralhas, bem pouquinhas, ez sinal pedindo carona ao caminhão que ia para a cidade, lá bem longe. “Diz que lá em muia água, em aé uma al de inundação de ana água que chove. Sei dizer o que é não, ninguém volou de lá pra conar. Deve ser bom”. Salou da carona na cidade, pero da esação cenral de rem. Falaório, correria, conusão. Nunca vira ana gene juna, “parece aé enxame de ormiga carregadeira, meu Deus!” Largou no chão o bornal com as poucas ralhas que carregava, de ono que cou. “Perdeu, mané!” Ouviu o grio e lá se oi a pouca bagagem que nha, sumida denre a muldão. - 74 -


Sem a pouca bagagem, sem paradeiro para onde ir, se deu cona do amanho do problema que nha naquele lugar desconhecido. Vagou sem saber pra onde ir, adormeceu na marquise acompanhado d’ouros anos como ele, sem pouso cero pra car. Puxou conversa, “onde em água limpa por aqui? Rio que se vê peixe nadar, que se vê pedra no undo?” “Água aé em, logo depois no viaduo pra lá do sinal; já água limpa é ruim, hein. O rio daqui é o canal do mangue, quase dá pra andar por cima d’água; e nem precisa ser homem sano. Peixe? Tá de sacanagem, né?!” Foi lá pra conerir: corre uma vala de água cinza, edorena, grossa que gruda nas pedras. As pedras cam ensebadas e nem se vesse mil panos quase brancos, daqueles com que a pareira o limpou conseguiria descobrir a cor das pedras. Ouvira dizer que água era crisaliza, sem cheiro, sem cor. Sem goso de nada, o que não enendia muio bem: “como pode ser boa se nem goso em.” Escreveu cara para a mãe: “Não creia, que nem eu, que água é coisa limpa que nem céu sem nuvem, clara como vidro de janela – isso não exise! Deve ser ruo de conação de hisória de cigana. Água é cinza, sebena, em cheiro ruim, enei aé beber – vomiei. É ruim por demais. Acho que água boa só em aquela que cai por aí de quando em vez, cada vez menos. Pelos menos se bebe.” A cara, guardou no bolso de rás da calça desboada, não nha dinheiro pra mandar. E se vesse, ainda assim ele chegaria anes em casa. “Vou volar pra casa na primeira carona de vola”, alou com seu pensameno – “daqui já vou rezando pra São José pra chuva de quando em vez cair no serão. Água boa por aqui, cidade grande, não exise não.” Uma noie, oura depois, mais uma ambém depois de cada dia de sol. No quaro dia o empo echou em nuvens cinzenas, clarão de raio e barulho de rovão lhe chamaram a aenção. “Hoje a chuva vem, vamos ver se é boa mesmo, se dá inundação. Vou omar banho de água limpa, vou beber água limpa ambém.” A chuva caiu ore, nunca vira ana assim. De repene correria, umulo, griaria. Tinha mais barulho além do som de rovão: “corre!”, “pega!”, “para!” A correria oi seguida de barulho de ros. A chuva caiu - 75 -


ore, as rovoadas aumenaram o volume, os clarões dos relâmpagos conundiam-se com os clarões das rajadas de balas do roeio. “Tá chovendo, meu Deus!” griou sem ser ouvido em meio ao umulo na muldão. “Água limpa!” Nunca vira ana, em amanha quandade. Esava ão exasiado com a prousão de pingos grossos na ace lavada que nem deu imporância para o baque ore no venre – porrada ardida que doeu qual erro em brasa. Hipnozado pela água ara que nunca nha viso, olhou em vola – de cima caía limpa, no chão, aos seus pés a água esava ngida de carmim – vermelho que nem pena de passarinho ê. Alvejado pela bala perdida morreu na poça d’água limpa com que sempre sonhara. Água ainda quase limpa, manchada com seu sangue...

Anderson Almeida Nogueira Cachoeiras de Macacu - RJ

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1º Lugar Prosa 60+

Escritas de Tila

O nome que recebera em seu regisro civil não lhe soava bem aos ouvidos. Aceiava-o pela escolha er homenageado uma proessora da cidade onde nascera pelos idos dos anos rina. No meio amiliar chamavam-na Tila. Parecia sempre eliz com aquele chamameno carinhoso. Tila viveu sua vida enrelaçada às palavras, às leras e às escrias. Ao ver qualquer regisro impresso ornava mais brilhosos seus verdes olhos. E olhava e se encanava e se deixava perplexa com o emaranhado das escrias e das represenações regisradas, capadas por suas renas. Era com alegria a sua ala rememorava ao seu empo de escola, longínquos quaro primeiros e possíveis anos do ango grupo escolar, duro período de sua escolarização popular, cimenado em duros passos aé a chegada ao velho educandário. O respeio do e havido por suas quaro proessoras era discurso evidene em sua ala sobre os saberes e sabores da leiura e da escria. Desacava a maesria de D. Luzia, coincidenemene sua mesra no primeiro e no quaro anos do ensino primário. A ela ribuava o som desperador da imporância do esudo na vida humana. Ouvi-la alar sobre as palavras era um ao de é e de esperança para desvelar um mundo de conhecimeno. Era como se Tila e Belisa Crepusculário, personagem do cono “Duas palavras”, da escriora chilena Isabel Allende, marcassem um enconro enre a realidade e a represenação eséca, em espaços disnos. O cero é que ambas êm na orça das palavras suas quesões idenárias. Assim era com Tila. Quando o ema era saberes colocava-se em posição de esranhameno e dizia: “eu não sei udo, mas de udo procuro - 77 -


saber um pouco”. No escavar dos segredos dos vocábulos esava ela a desvelar palavras nada inocenes, nem ao menos lançadas ao veno. Dona de um humor de excelência, cuidando de ocar a sua vida na singeleza de mulher do lar, rodeava-se de uma, de várias e de diversas olhas de papéis, sobre as quais regisrava suas escrias à na ou a lápis, os resulados de seu esranhameno, ruos de sua aenção, sua percepção e movação ao lido, ao pensado, em seu connuo empo debruçado sobre o curso de viver. E oram anas as bulas de remédio marcadas, assim como as olhas de jornal em desuso, pequenos olheos de anúncios diversos, olhas não mais esparsas sobre as quais um ou ouro aponameno revelador da escria de Tila: regisros silenciosos de seu prazer, mesmo um nome lido no papel, ão somene. E a caminhada erreal da vida de Tila chegou ao seu nal no início de 2015. Trises, as palavras embaucaram. Desvalidos ornaram-se os papéis em bloco ou avulsos, companheiros da escriba e recolheram-se ao silêncio, ouvindo-se apenas, longinquamene, o dobrar dos sinos. E os anos se passaram, as lembranças marcanes de Tila, guardaram-nas os corações de seus enes queridos, seus amigos e seus conhecidos. A parlha da saudade az a gene guardar lembranças peculiares. De ano ver e de admirar a discrição dos seus papéis, cuidei da caixa armazenadora de sua memória escria. Recolhi-a como preciosidade com que era raada, e guardei comigo os perences do pequeno baú das escrias: blocos, olhas avulsas, olheos, recores de jornal, caderneas de anoações, enm, o conjuno vivo das palavras de Tila. Passados alguns anos, no revirar de lembranças e dos guardados, revi a caixa. Nela hibernavam as palavras e as leras com escrias genuinamene enreecidas pelo conao empo/objeo/regisro. Era um volume grande de escrios. Enre eles havia uma velha agenda – nem ão anga assim, considerando o empo nela impresso – o ano de 2009 – que me chamou a aenção. Oereci aquela agenda à mãe Tila bem no início daquele ano, um mimo a enriquecer o prazer de seus regisros em sua lida apaixonada na consrução calígraa de seu emenário. Tinha comigo que a escriuração de minha mãe osse possivelmene a sua orma de bordar e a de cosurar, habilidades não aprendidas - 78 -


por ela ao o da linha e com a agulha de coser. Tão parcularmene em seu eslo Tila bordeava escrias, alinhavava palavras no cerzir de seu entretenimento! Com o coração acelerado olheei, volvendo olha a olha da agenda. Lá esavam as palavras e as leras de Tila. Foi um momeno de signicavo senmeno: - era como se eu ouvisse o virar ou o desvirar das olhas por ela a buscar algum po de anoação rmada um dia. Esabeleci ali conexões de saudosa elicidade, aquele momeno de renameno de lembranças e emoções vividas. E percorri a agenda – o emplo escriural de Tila – deixando-me levar pelo passar das páginas, aé opar um regisro no cenro de uma das olhas. Marcane regisro. Sempre ao cenro, a mesma mensagem se repea por algumas páginas adiane. Em êxase, reomando o ôlego, eu vi com maior inensidade do senr, os raços do bordado das escrias maernas naquela agenda relicário. A mesma caligraa enão acrescida de raços rêmulos no riscado do rocamo, causados por uma enermidade que alerara ligeiramene o raçado original da escria – ão clara aneriormene – nunca abandonada, e enão se assemelhava ao avesso do bordado. O avesso ambém alinhavava a paixão, a beleza e a marca esemunhal de Tila no ecimeno de sua hisória, desenhos dos seus sendos de vida. Aquele regisro lido produziu eeios em mim. Busquei maerializar o ido empo da lembrança impacane razida por eles aos meus olhos, anos depois. A lembrança resgaou aquele início de janeiro, em 2009, quando a brindei com a agenda e lhe disse: “querida mamãe, para passar um bom empo, um bom ano escrevendo” – rase esa esampada por mais de cinco páginas, no remido de leras, presene que me obsequiou com alegria pela singeleza da mensagem revisiada, ransormada enão num suspiro de doce saudade, senmeno bom, para mim, a radução de amor bordado pelos os e linhas do amor de mãe nas doces escrias de Tila. Elísio Vieira de Faria São José do Rio Preo - SP

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2º Lugar Prosa 60+

Moeda de troca

A vida é um grande quebra-cabeças! Imaginem aquele jogo didáco e diverdo de consrução de imagens, ulizando pequenas peças que se encaixam. É um ómo exercício que ajuda no desenvolvimeno da capacidade de resolução de problemas. Insga-nos a analisar o odo e desenvolver esraégias para a sua monagem. São vários os caminhos, várias opções que escolhemos para denir por onde começar. Tudo em seu começo, meio e m e, na rea nal, a úlma peça ará oda a dierença para a conclusão do rabalho. E aí nos deparamos com um obsáculo: sabe aquela única peça que ala no jogo? Aquela que, por vezes, esá ao nosso alcance, na nossa rene, e não a enxergamos? Ou não queremos enxergá-la? Inconscienemene, sabemos que ela é a chave da quesão. Mas, esamos ão acosumados ao conormismo que deixamos aquele espaço vazio para amanhã, sem nos preocuparmos se haverá realmene um amanhã. Às vezes, aquela peça esá escondida debaixo do apee. Sim, daquele apee onde empurramos oda a sujeirinha sem imporância naquele momeno e que vai se acumulando, qual senmeno decanado. Basa uma chacoalhada, um movimeno sequer para se espalhar por odo lugar, como uma avalanche inconrolável. Enão, a deixamos lá por preguiça de procurá-la ou para eviarmos algum desconoro. Pelo simples ao de não esar no nosso campo de visão, proelamos a resolução dos problemas. Assim azemos com a nossa vida, proposiadamene. Fingimos que esá udo bem e que aquela siuação não irá nos aear. - 80 -


O mesmo aconece quando ligamos a TV. O que vemos? Vemos somene nocias rises e senmenos negavos. Poucos programas são de enreenimeno, educavos, de esperança ou razem mensagens posivas. Inelizmene, o que dá audiência são os aconecimenos rágicos, as oocas, a dispua pelo poder, a guerra no sendo real da palavra. O negavismo impera nas redes sociais e é isso que arai o povo. Mas, a grande ilusão é acharmos que udo de ruim aconece somene com os ouros, ouras amílias, ouros países. Mesmo que inconscienemene esejamos incomodados com as desigualdades sociais, com os poderosos que azem a guerra, mas não enram nelas, com as injusças de odas as ordens, com a ome e ala de esperança da humanidade, nos deixamos aprisionar pelas correnes do egoísmo e em nossa pequenez cruzamos os braços, calamos a voz e echamos os nossos olhos. Paro, enão, para pensar: Onde poderia esar essa peça vial da vida que ala para monar o quebra-cabeças? Esaria escondida no abismo escuro da nossa inconsciência e na desesperança? Deus ez as coisas ão simples e nós complicamos udo! Nossas rusrações, decepções, sorimenos e confios são resulados das nossas próprias escolhas, dos caminhos que escolhemos, da esrada que resolvemos rilhar. A peça-chave é o Amor! A causa de odo o nosso sorimeno é o egoísmo, a ala de amor. Amor por nós mesmos, pelos nossos irmãos, pelas pessoas em siuação de ome, miséria, desajuses e desigualdade sociais. Amor às nossas raízes, nosso meio ambiene em degradação e aos animais em siuação de abandono e maus raos. Amor às dierenes raças, opções sexuais, crianças, jovens e adulos especiais, idosos e os que se enconram à margem da sociedade. Tanas desvenuras vivem os menos aorunados e a indierença é o pior senmeno que pode exisr em uma sociedade de pessoas individualisas, rias e vazias de amor e solidariedade Amor: É a peça que ala para o equilíbrio da humanidade, para a salvação das nossas almas e nossa evolução. Amor à vida e a ela sermos graos. - 81 -


Nem udo são fores e poesia, mas, nesse cenário de conradições ouso ser poea. Ouso alar de amor porque ele ranscende a vida e perpeua os sonhos. Ouso plainar qual borboleas nas asas da anasia porque a poesia eerniza os momenos de alegria, prazer, deleie, delírios e sonhos. E nós precisamos sonhar porque os sonhos são alimeno para a nossa alma ão sorida pelos reveses da vida. Mesmo sabendo que minhas palavras perdem seu sendo quando o eco da minha voz bae no vazio dos corações surdos, quero expressar o que vai na minh’alma: Ah! Se o mundo osse avesso às dierenças e enre as pessoas não houvesse indierença. Se odos assumissem a sua essência e não vivessem apenas de simples aparência... Ah! Se as pessoas vessem Deus no coração e respeiassem a individualidade do seu irmão. O sonho da igualdade seria nossa realidade e o mundo não eria perdido a sua idendade. Enquano o Amor não or a moeda de roca, eevamene, o mundo sorerá as consequências de suas escolhas erradas. E sempre alará uma peça na consrução da vida que escolhemos er.

Maria Lúcia de Moraes Jacareí - SP

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3º Lugar Prosa 60+

O passo

Nunca vou esquecer o dia em que ela não conseguiu mais caminhar. Aé enão, vinha caminhando com o auxílio de um andador que eu havia comprado para ela se senr mais segura e independene ― pelo menos em casa. A doença avançava rapidamene a cada dia, a cada hora, a cada minuo. Um dia era oalmene dierene do ouro. As diculdades de hoje seriam maiores amanhã. O geso independene de hoje, por mais rivial que osse, amanhã já não seria possível com a mesma acilidade. Saiu do quaro azendo muio esorço para caminhar e no meio do corredor que ligava os quaros à sala parou, eu esava logo arás e via suas pernas parecerem de chumbo ao enar dar um novo passo. Virou a cabeça para mim e disse: “Não posso mais. É o meu limie.... Vou cair...” Eu a abracei por rás e omos junos devagar buscando o chão. Seu corpo pesava muio mais do que parecia. Senamos no chão. Ela na minha rene, meio de lado, repousou a cabeça no meu peio e me olhou com carinho virando-se em minha direção. Eu a acomodei melhor e camos por um período em silêncio. Um silêncio de cumplicidades. Dormimos um pouco. Quando acordei ela esava com aqueles olhos verdes a cuidar de mim. Eu dei um pequeno sorriso e ela me disse: “A gene deveria lembrar do dia que demos o primeiro passo, isso nos encorajaria por oda a vida”. Nesse momeno ve a cereza de que ela sabia que não andaria nunca mais. Aperei-a em meus braços como eu osse um úero e cheirei seus cabelos. - 83 -


Ficamos ali rocando lembranças e ela me alou que ainda lembrava do dia que cada um dos lhos nha andado pela primeira vez. Disse-me que eu andei o primeiro passo agarrado às pernas dela. Rimos um pouco. Brinquei que eu sempre ui muio apegada a ela. Respondeume com um sorriso. Agora, eu esava ali para proegê-la em seu úlmo passo. Em silêncio. Só nós dois. Tive vonade de chorar, mas pensei na grandeza daquele momeno em minha vida, em nossas vidas. Não poderia chorar, pois isso ornaria udo mais dicil para ela. Enre os lhos, eu esava sendo agraciado com aquele momeno. Não poderia perder empo chorando. Ainda não era a hora. Pela primeira vez alamos sobre a doença. Eu disse que nha medo por desconhecer udo o que poderia vir dali para a rene. Ela me conessou que se sena como esvesse cando presa em uma parede. Aquela rase me deu a cereza de que eu seria a exensão dela a parr daquele momeno ― como, de ao, aconeceu. Só saímos dali no começo da noie. Aos poucos a acomodei e consegui car em pé. Meu corpo parecia energizado. Energizado para suporar os dois meses que ainda viveu. Minha úlma grande area oi levá-la com vida de vola para casa para que vivesse seus úlmos dias em amília. Às vezes me perguno por que eu ui o lho escolhido para passar esses momenos com ela. Ainda hoje não enho a resposa, mas oda vez que aço esa perguna lembro dos olhos verdes dela a me olhar.

Waler Karwazki Chagas Poro Alegre - RS

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Acadêmicos na atualidade

Anonio Carlos Rodrigues Lorete

Luiz Antonio Spada

Beariz V. Camarinha Caslho Pino

Luiz Fernando Dezena da Silva

Carmen Lia Basa Boelho Romano

Luiza Nagib Elu

Celina Maria Basos Varzim

Maria Cândida de Oliveira Cosa

Pe. Claudemir Aparecido Canela

Maria Cecilia Azevedo Malheiro

Clineida Andrade Junqueira Jacomini

Maria Célia de Campos Marcondes

Cyro Gilbero Nogueira Sanseverino

Maria de Lourdes Oliveira Juvêncio

Donisee Tavares Moraes Oliveira

Maria Ignez dos Sanos D’Ávila Ribeiro

Fausto Luciano Panicacci

Maria José Garganni Moreira da Silva

Francisco de Assis Carvalho Aren

Marly T. Esevam de Camargo Fadiga

Hélio Correa da Fonseca Filho

Neusa Maria Soares de Menezes

João Bapsa Scannapieco

Nívea Poli Barbosa

João Basa Gregório

Raul de Oliveira Andrade Filho

João Basa Rozon

Ronaldo Frigini

João Oávio Basos Junqueira

Sérgio Ayron Meirelles de Oliveira

Jorge Guemberg Spletsoser

Silvia Tereza Ferrane Marcos de Lima

Pe. José Benedio Almeida David

Sonia Maria Silva Quinaneiro

José Ricardo Bitencour Noronha

Susana de Vasconcelos Dias

José Rosa Costa

Vania Gonçalves Noronha

Lauro Auguso Bitencour Borges

Vedionil do Império

Lincoln Amaral

Wildes Anônio Bruscao

Lucelena Maia

Wilges Ariana Bruscao - 85 -


Diretoria Atual Diretoria Biênio 2021-22 Presidene: Beariz Virgínia Camarinha Caslho Pino Vice-Presidene: Lucelena Maia 1ª Secreária: Nívea Poli Barbosa 2ª Secreária: Maria José Garganni Moreira da Silva 1° Tesoureiro: Lauro Bitencour Borges 2ª Tesoureira: Vania Gonçalves Noronha Conselho Fiscal: Donisee Tavares Moraes Oliveira João Oávio Basos Junqueira Wilges Ariana Bruscao

ACADEMIA DE LETRAS DE SJBV NA INTERNET: www.alsjbv.ar.br secrearia@alsjbv.ar.br acebook.com/alsjbv insagram: @alsjbv www.youube.com/c/academiadelerasdesaojoaodaboavisa

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