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NĂšMERO

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30 de abril de 2019


editorial

Quando me pediram uma edição do Jornalsemnome para comemorar os 70 anos do atual edifício da escola, consultei duas obras já existentes sobre a história do “Liceu” , da autoria de um antigo professor da casa , Manuel Henrique Figueira. São elas O Liceu de Setúbal—Das origens à Escola Secundária de Bocage (1857-19999), publicado nos 50 anos de construção do edifício e Liceu de Bocage Setúbal—Histórias e Memórias (1857-1974), publicado na comemoração dos 150 anos da escola. Além disso, e como todos os que conhecem a casa recomendariam, consultei também o blogue Memória recente e antiga, do nosso estimado colega JJ Matos, de onde retirei informação pertinente e documentação fotográfica. Tinha material bastante , juntamente com os arquivos do Jornalsemnome e da equipa de fotografia da escola, para ilustrar a evolução da escola ao longo dos anos. No entanto, como fui aluna da escola, acredito que o espaço físico é uma referência importante, mas apenas enquanto enquadramento das vivências que nele ocorreram e ocorrem e que muito dificilmente os documentos oficiais traduzem. Consequentemente, a escola, para quem a frequentou enquanto aluno, tende a revestir-se, com o fluir dos dias, de significado, não apenas enquanto local de aprendizagem, de interação entre professores e alunos, mas num espaço privilegiado de tempos passados, memórias que recordamos com alegria e satisfação - o distanciamento temporal tem a virtude de transfigurar o que correu menos bem em episódio memorável. Como também eu frequentei esta casa enquanto aluna, recordo, com frequência, os tempos que por aqui passei , de 1970 a 1975, época recheada de acontecimentos particularmente significativos que foram transformando o quotidiano da escola e de todos quantos dela faziam parte. Nunca me esqueço de que que já pertenci ao “outro lado”, por isso frequentemente faço o exercício de me por na posição dos jovens que hoje são meus alunos, por mais difícil que lhes seja acreditar que também eu já fui jovem. Por outro lado, foi também nesta escola que fiz a profissionalização em exercício, e nessa altura se comemoraram os 35 anos da inauguração do edifício, facto de que me lembrava perfeitamente, mas de que, infelizmente, não guardei documentação. Foram também tempos felizes e intensos, passados em colaboração com os colegas Manuela Lima e Fernando Prazeres, de quem até hoje sou amiga, e com o nosso orientador, António Borregana, e de muitos outros colegas. Quase 30 anos depois, voltei a esta casa. Se não fosse o cuidado da nossa colega Raquel Soares, estagiária de Filosofia à época, que guardou cuidadosamente dos documentos relativos a estas comemorações, só nos restaria uma memória muito difusa. Posteriormente, festejaram-se ainda os 150 anos do “Liceu” e os 50 anos do edifício, tendo-se publicado as obras supracitadas no contexto de cerimónias comemorativas. Tendo chegado a hora de relembrar os 70 anos da construção desta nossa casa, foi-me, por isso, solicitada esta edição especial do Jornalsemnome. Assim, considerei que faria sentido procurar ajuda para levar a bom porto a preparação deste número, que, mais que lembrar o edifício, gostaria de erguer-se enquanto memória coletiva daquilo que nele foi acontecendo. Comecei por pedir ao atual diretor, Dr. Pedro Tildes Gomes, e a alguns dos que o antecederam no cargo, que foi mudando de designação, nomeadamente ao dr. Luís Capela e à arquiteta Maria José Miguel, contributos em que espelhassem as suas experiências enquanto dirigentes da escola. Pedi também a ajuda de alguns alunos, principalmente de finalistas, que têm já uma visão quase distanciada da escola. Desafiei, além disso, alguns alunos de 10º ano para que dessem conta daquilo que a escola é, bem como do que dela esperam. Por último, considerei essencial obter o testemunho de várias gerações que por cá foram passando. Para avivar memórias, foi criada uma página de Facebook à qual grande número de pessoas aderiu, entre alunos, professores e ex-alunos, o que nos tem vindo a permitir reviver o Liceu em diversas épocas, a entender como eram os tempos, os costumes, os reitores, os professores, os alunos, as batas, os recreios, as escadas... Enfim, se assim continuarmos, julgo que conseguiremos, coletivamente, construir uma história de mais de muitos anos. Temos a satisfação de aqui apresentar textos redigidos por vários ex-alunos sobre o seu quotidiano escolar e as experiências que testemunharam. Sem ter a pretensão de, em tão pouco tempo, conseguir aprofundar todo o manancial de informação que nos foi sendo fornecida e que complementa o que já era conhecido, é com muito prazer que divulgamos alguns documentos que obtivemos através da colaboração e interesse de tantos amigos, antigos e novos. A todos, o nosso agradecimento reconhecido. Entendemos esta edição do jornal como uma primeira mostra dos laços que esta comunidade tem vindo a criar. Até já, Alexandra Lemos Cabral

Colaboradores

Equipa responsável Alexandra Cabral Ana Paula Rosa Paula Barros

Coordenação Alexandra Cabral

Logotipos André e Joana

Abílio Guilherme Alfredo Mendes Aexandra Lemos Cabral Ana Cristina Custódio Ana Dominguez Ana Fortuna Ana Rita Gonçalves António Bento António José Alçada António Mateus Vilhena Beatriz Castelo Branco Beatriz Santos Camila Cardoso Ferreira Carlota Andrade Carolien Grebe Fátima Delgado Silva Fernando Fidalgo Fernando Lima Filipa Ponte Capela Francisco Borba Francisco Oleiro Lucas Giovanni Licciardello Inês Mendes JJ Matos

jornalsemnome@gmail.com 2

Jorge Lemos Cabral José Palheta Júlio Silva Lai Parreira da Gama Calado Lourdes Cunha Camilo Lina Karam Luís Capela Manuela Simões Maria Amélia Pedrosa Sousa Maria Eleontina Pinto Maria Fernanda Fitas Maria José Cabrita de Sousa Miguel Miguel Boullosa Pedro Alves da Silva Pedro Tildes Gomes Raquel Carmo Raquel Soares Raul Manuel Cristóvão Rita Lemos Cabral Rosa Duarte Rosa Freitas Rui Farinho Teresa Matta Raposo


Os primeiros edifícios

A escola secundária du Bocage — liceu de Setúbal

O Liceu Setubalense, primeira designação da nossa escola, data de 1857, tendo-se sediado provisoriamente, de início, no Convento de Nossa Senhora da Boa-Hora. Em 1863, passou a designar-se Liceu Municipal de Setúbal; em 1884, Escola Municipal Secundária de Setúbal. Em 1901, passou a funcionar num edifício de habitação com capela anexa. Em 1906, tomou o nome de Liceu Nacional de Bocage.

Em 1908, o Liceu Nacional de Bocage inaugurou as suas novas instalações em edifício construído para o efeito

na avenida Mariano Carvalho. Situava-se no espaço em que hoje se encontra a Escola Secundária Sebastião da Gama, antiga Escola Comercial e Industrial, e dava para os terrenos que hoje são o Parque do Bonfim. A sua construção iniciou-se a 25 de abril de 1906, por iniciativa do município, e foi inaugurado a 26 de março de 1908. Um incêndio na Câmara Municipal, ocorrido a 4 de outubro de 1910 perturbou o normal funcionamento do edifício, que foi parcialmente ocupado por serviços públicos vários. A situação durou 28 anos, até 1938. Quando a Câmara foi reconstruída, concluiu-se que o edifício estava em perigo, pois as suas fundações assentavam em terreno aluvial. Foi, por isso, necessário construir um novo edifício de raiz na avenida Rodrigues Manito, onde funciona até hoje. Entretanto, e até à inauguração do novo edifício, que se efetuou a 30 de abril de 1949, as aulas eram ministradas em instalações dos Serviços Municipalizados, situadas por detrás do antigo quartel dos Bombeiros Municipais. Entretanto, a designação da escola foi sofrendo alterações sucessivas: em 1921, Liceu Central de Bocage; em 1924, Liceu Nacional de Bocage; em 1925, Liceu Central de Bocage; em 1928, Liceu Nacional de Bocage; em 1936, Liceu Provincial de Bocage; em 1947, Liceu Nacional de Setúbal; em 1979, Escola Secundária de Bocage e muito recentemente; Escola Secundária du Bocage. Fontes: Figueira, M. H. (1999). Liceu de Bocage Setúbal—Histórias e Memórias (1857-1974); Figueira, M. H. (2007).O Liceu de Setúbal—Das origens à Escola Secundária de Bocage (1857-19999); https://memoriarecenteeantiga.blogspot.com/?fbclid=IwAR0rfIoWxl-r9DVglIkmoOJpBKiCHbvWV76niEpXLUCrtiEggB4w3D8GdA 3


O nosso edifício

O novo edifício ainda em construção—1948

Ainda em obras

Hoje 4


A inauguração

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A inauguração—sessão solene

A Inauguração do novo edifício Sessão solene

A usar da palavra o Governador Civil, dr. Correia Figueira. À direita do mesmo, o dr. Miguel Bastos, Presidente da Câmara e o Reitor, dr. António Gamito.

Alocução do dr. Miguel Rodrigues Bastos, Presidente da Câmara Municipal de Setúbal

Na sessão solene inaugural, na qual discursaram o Governador Civil e o Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, foi oficialmente inaugurado o Liceu Nacional de Setúbal. As festividades continuaram, com eventos de vária índole, entre os quais um jantar e um baile de gala, que culminou a comemoração. Mas não só: também os alunos da escola representaram e cantaram. Enfim, foram dois dias de festividades. Ana Maria Gamito Beija, neta do reitor António Manuel Gamito, com três anos a cortar a fita na inauguração do novo edifício do Liceu Nacional de Setúbal .

O estandarte do liceu foi bordado pela minha mãe, Maria Adelaide, durante muitos anos professora de lavores, com a colaboração de algumas alunas mais dedicadas às artes manuais. Há uma foto do estandarte no dia da inauguração do liceu. Este estandarte esteve na Reitoria até ao 25 de abril de onde desapareceu. Beatriz Castelo Branco

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A inauguração—festividades

Imagens do jantar que teve lugar no ginásio grande, na altura ginásio dos rapazes. Durante décadas, jantares, bailes e outras festas ocorriam frequentemente neste espaço.

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Reitores, presidentes, diretores

Todas as instituições têm dirigentes. Os liceus foram dirigidos por reitores, as escolas secundárias começaram por ter presidentes, do conselho diretivo, da comissão instaladora, do conselho executivo, agora têm diretores. Não vamos alargar-nos sobre as funções e o alcance do poder decisório ou consensual de cada um destes cargos. Devemos, no entanto, reconhecer a responsabilidade, a disponibilidade e a coragem de dirigir uma escola. Todos deram o seu melhor, merecem o reconhecimento da comunidade .

Reitores do liceu de Setúbal: António Maria de Campos Rodrigues (1857-1863; 1870-1884; 1886-1901) Manuel Neves Nunes de Almeida (1902-1919) Cipriano Mendes Dordio (1920-1926; 1950-1954) António Manuel Gamito (1929-1950); José de Mendonça e Costa (1954-1961); Estêvão Ferreira Moreira - (1961-1969). Armindo José da Cruz Gonçalves (1969 - 1974).

Presidentes do órgão diretivo e diretores: 1974/75, 1975/75: Maria Zita Vieira Marques 1976/77, 1977/78: Maria Madalena Simões Patrício 1978/79, 1979/80: Ernesto Joaquim Soares Vitorino 1980/81, 1981/82: Maria Manuela Sequeira 1982/83, 1983/84: Rosa Maria Carreira 1984/85 a 1989/1990: Armindo José da Cruz Gonçalves 1990/91 António Campos 1991/1992 José Manuel Fraga Moreira 1992/1993 Ana Lucinda do Vale Queiroz 1993/1994 a 1995/96 Raquel Conceição Calixto Cardoso 1996/1997 a 1999/2000: Luís Alberto Santos Nunes Capela 2000/2001 a 2012/2013 Maria José Cabrita Miguel 2013/2014 a 2018/2019 Pedro Alexandre Matos Tildes Gomes 8


Os reitores

Reitor António Manuel Gamito (1929-1950)

Quando andei no liceu, que então funcionava numas instalações cedidas pela Câmara Municipal, se bem me lembro, era reitor o dr. Gamito. Foi durante o seu mandato que.se deu a inauguração do liceu novo. Era casado com a sra dra Josefina Laura Lopes de Noronha Gamito, filha do escritor Eduardo de Noronha. Uma excelente professora de francês e uma pessoa extraordinária. Tinham nove filhos, cinco rapazes e quatro raparigas. Rita Lemos Cabral

Reitor José de Mendonça e Costa (1954-1961)

Dr. Mendonça e Costa, um ótimo professor e melhor reitor. Grande educador dos jovens alunos daqueles tempos. Antes dele, ainda tive durante os meus 2 primeiros anos de frequência do Liceu como Reitor o Dr. Dordio, o eterno mastigador de pastilha elástica. José Miranda Andrade

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O reitor Mendonça

O Mendonça Entrei para o Liceu em 1953. Mais precisamente, no dia 2 de outubro, uma vez que no dia 1 era realizada pontual e religiosamente, a sessão solene de abertura do ano letivo. Em 1962, numa tarde muito quente de verão, a pedir praia, fiz a oral de matemática com sucesso - o dr. Calado devia estar farto de me ver andar por ali, acabando o 3º ciclo do liceu. Pela última vez pisava aqueles corredores na qualidade de aluno, e soube logo ali que a memória desses meus anos de brasa não desapareceriam nunca. Com quantos colegas me cruzei, nas salas de aula e nos pátios, nos campos de andebol, de basquete ou de vólei, na sala de jogos ou na cantina. Com alguns convivi apenas um ano, muitos outros acompanhei durante uma década. E os empregados , figuras por vezes anónimas mas sempre presentes, imprescindíveis para o bom funcionamento da escola. Lembram-se dos seus nomes ? Os professores, porque figuras centrais, são normalmente os que mais perduram na nossa lembrança, e os episódios com eles vividos são facilmente relembrados. E no topo da hierarquia docente, existia a figura do Reitor. Ele era o responsável por tudo o que ocorria na escola, punha em tudo a sua marca e a sua personalidade, e a escola era em consequência o reflexo dessa forma de pensar e agir. O Reitor era respeitado por todos. Ao longo da minha vida académica no Liceu Nacional de Setúbal, tive três reitores. O primeiro, no meu 1º ano, em 1953 , foi o Dr. Cipriano Mendes Dordio , reconhecido médico e diretor do Hospital Ortopédico do Outão. Pouco me lembro da sua ação, mas recordo um senhor bonacheirão e carinhoso, pelo menos para os meninos de dez anos, como eu era. No meu último ano de liceu, foi Reitor o Dr. Estêvão Ferreira Moreira, e dado que a minha presença se devia apenas a três cadeiras (as últimas) do 7ºano, a minha apreciação do Reitor foi muito fugaz. O Dr. Estêvão Moreira foi, sim , meu professor durante seis anos, quatro de História e dois de Filosofia. Deixou em mim a convicção de que há pessoas que nascem já com a carreira marcada. Que não é Mestre quem muito sabe, mas quem se compraz difundindo o saber. Estêvão Moreira deu uma aula de História à minha turma, versando as invasões francesas, e mais concretamente a campanha da Rússia e a grande derrota da Napoleão, mesmo após ter entrado em Moscovo, vítima do general Inverno. A aula não decorreu na sala tradicional, mas sim numa sala anexa da biblioteca. O Mestre iniciou oralmente a aula e simultaneamente ligou o gravador e todos foram escutando a dissertação, tendo em fundo Tchaikovsky na sua Abertura Solene para o Ano de 1812. Foi uma hora de apoteose. A turma de adolescentes estava de boca aberta, como aberto se tinha tornado o seu espírito. Pessoalmente, passei a ver a História de uma outra forma, e a considerar a música mais erudita como um alimento de primeira necessidade. O Dr. José de Mendonça e Costa foi Reitor do LNS de 1954 a 1962. A meu ver, e pela opinião geral de quem o conheceu , foi um verdadeiro líder, um exemplar gestor público, um conselheiro, um amigo que

defende o amigo, mas que corrige o que não está certo, tudo sempre assumindo a qualidade do cidadão simples, - segundo as suas próprias palavras, o filho do José Costa e da Maria Costa, que um dia saiu da aldeia com uma maleta e foi estudar para a cidade. No pequeno episódio que a seguir relato, está contido todo o sentido de honra e justiça que Mendonça e Costa praticou e transmitiu. Estava determinado que sob pretexto algum se podia saltar o muro (nascente) para sair do liceu. Tal prática era usada pelos alunos "do comboio", de forma a chegar mais rapidamente à estação da CP. E os "contínuos" estavam instruídos para participarem superiormente qualquer infração. Ora um dia, um desses alunos, já com poucos minutos para apanhar o comboio, saiu da sala de jogos em correria, abriu a porta de acesso ao pátio (dos rapazes), e , azar dos azares, ao fechá-la, partiu um vidro . Ninguém viu nem soube. Mas o tempo tornava -se mais curto e não podia perder o comboio. Solução à vista : salta-se o muro e a estação fica a 200 metros. Foi um pânico entre os empregados. Partira-se um vidro no liceu e não se sabia quem fora. Na manhã seguinte, o Chefe do então chamado "Pessoal Menor", o sr. Agostinho, mal o Reitor chegou, às 8 horas, relatou a ocorrência. Oralmente e por escrito. Mas a hora do primeira aula -08.30- estava a chegar, e os alunos entravam pelo grande portão. Então, um deles vai ao gabinete do sr. Agostinho e relatalhe a ocorrência, pretendendo pagar o vidro e denunciando igualmente o seu delito de saltar o muro. Foi logo dado conhecimento ao Reitor, que elaborou de imediato um comunicado (Ordem de Serviço), que no dia seguinte seria lido -como sempre- por ele próprio, em todas as salas de aula. Qual o texto da Ordem de Serviço ? Após considerações de censura pela desobediência relativa ao muro, aplicava o reitor ao aluno infrator o castigo de UM DIA DE SUSPENSÃO da frequência das aulas. A seguir, referindo que só os homens de carácter e princípios de honra e verticalidade são capazes de , sem hesitar , reconhecer e denunciar os seus próprios atos menos positivos, atribuiu ao mesmo aluno, na mesma hora, UM LOUVOR PÚBLICO que ficaria registado na própria história da escola. Assim, o Cotrim, figura icónica na década de 50 pelo seu ecletismo na área do desporto no LNS, passou também a constar, talvez a nível nacional, como o único aluno que pela mesma Ordem de Serviço, foi punido e foi louvado. Fernando Ribeiro Batista Cotrim : um exemplo. Assim , o dr. José de Mendonça e Costa, num pequeno episódio de plena e exemplar vida docente, deixa a sua marca para os que tiveram o privilégio de viver o seu tempo e compreender os seus propósitos. O MENDONÇA : Setúbal 20 de Abril de 2019 Rui Farinho

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Os reitores

Reitor Cipriano Mendes Dordio (1920-1926; 1950-1954)

Recordo com muitas saudades todas estas figuras da minha infância Dr Gamito, meu professor de Francês e Reitor à data da Inauguração, Dr. Mendes Dordio meu professor de Física cujo filho o André falecido recentemente era da minha idade . Maria Eleontina Pinto

Reitor Estêvão Ferreira Moreira - (1961-1969)

Foi meu professor de história. Um ótimo professor e uma pessoa encantadora. Fazia sempre uma pausa a meio da aula e contava uma anedota pois entendia que os alunos não tinham atenção durante muito tempo a seguir. Assim todos nós aproveitamos muito mais. Obrigada, dr Estêvão Moreira.

Rita Lemos Cabral

E quando o Vitória estava nas competições europeias tínhamos direito a televisão no ginásio!

Maria Helena Bastos

Estêvão Ferreira Moreira, só foi meu reitor no meu último ano, mas foi meu professor de História no 2º ciclo e de Filosofia no 3º ciclo. Benfiquista ferrenho, vi, por acaso , a final da Taça dos Campeões Europeus contra o Real Madrid, a seu lado, no Clube Setubalense.

Rui Farinho

Inovações: Neste ano letivo de 67/68, as turmas ainda estavam divididas em masculinas e femininas no ensino Básico e no Ensino Secundário existiam poucas exceções criadas por circunstâncias especiais, no caso desta turma foi a vontade de criar uma turma da alínea f) com um programa especial de Matemática Moderna .

Fátima Delgado Silva

A professora de F.Q. Maria de Lurdes Gens, as meninas à frente e os rapazes atrás 11


Os reitores

Reitor Armindo José da Cruz Gonçalves (1969 - 1974)

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Figuras Marcantes

A dra Ausenda Paulino Pereira tinha a grande virtude de aliar o conhecimento e a facilidade em transmiti-lo com uma afabilidade que, nos idos de 70, não era comum. Sabia fazer-se ouvir, entender, apreciar e obedecer com suavidade. Fez-me gostar de saborear a poesia, mandava-nos ler e "decorar", imagine-se, poemas para depois os recitarmos. Fiquei a gostar de Camões.

Alexandra Lemos Cabral

Foi minha professora em 73—74. Uma das melhores professoras que tive. Recordo o seu profissionalismo e a sua simpatia.

Ana Dominguez

Minha professora de francês nos sexto e sétimo anos! Paciente, muito culta, dedicada e sempre, sempre bem-disposta! Saudades enormes.

Maria da Gama Calado

Uma verdadeira Senhora Professora quem podia não gostar das suas aulas e do respeito que tinha por nós.

Raul Manuel Cristovão

Na manhã do dia 25 de Abril de 1974 a minha primeira aula foi com a dra. Ausenda […] lembro que nos disse: tenham calma, isto não vai ser nada…

Nascimento

Quando em 2006 nos juntámos num almoço, para comemorar os 50 anos de entrada no Liceu, tirámos esta fotografia com a drª Auzenda. António Bento Também nós, os de 1953, quando em 2003 celebrámos os 50 anos, tivemos uma aula e uma oração de sapiência da Srª Drª Auzenda de Carvalho Caetano Paulino Pereira. Todas as qualidades que lhe possamos referir, pecam por banais e insuficientes. Foi minha professora durante 6 anos. A minha única professora de francês .É minha amiga desde sempre . Rui Farinho

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imagens Marcantes

A senhora e o sr. de casaco claro, não conheço. Os outros conheci-os como se fossem de minha família. O sr. Agostinho Fava, já lá estava quando entrei para o Liceu (1953), o sr. Augusto Pestana, que felizmente ainda vive, entrou no Liceu no mesmo ano que eu, e por último o Eduardo Domingues, chegou com a função de jardineiro e tratador dos campos desportivos, em 1954 ou 55, e mais tarde foi contínuo.

Rui Farinho

E a senhora do meio, atualmente mto mais forte, é a esposa do Sr Pestana, e chama-se LEOPOLDINA. Transitou para a Escola Secundária Nº !, nos Quatro Caminhos, à altura extensão do liceu exclusiva para o 12ºANO,diurno. [o da direita] é o Zé Maria da secretaria . Fernando Lima

Além do reitor Mendonça e Costa e do vice-reitor Aristides Gonçalves, está o João José Matos, Ausenda Paulino Pereira.... já deve ser da década de sessenta, embora em 62 Mendonça e Costa já não fosse o reitor (Estevão Moreira) e Aristides Gonçalves foi meu professor de Inglês no terceiro ano

Júlio Silva

1959. Tinha chegado a nova vaga de profs. : Matos, Maurício, Mateus e Rebelo. Eu já era dos crescidos, não tirava retratos com os putos. Identifico na foto os prof. Mendonça e Costa , reitor, Auzenda Paulino Pereira, Virgínia Fialho, Joaquim Arco, Aristides Gonçalves e João José Mendes de Matos.

Rui Farinho

Parece que é de 1959 14


Anos 70

Concurso taco a taco

Eu lembro me de ver com os meus pais e irmãos. Era Top. O pessoal do Liceu era o máximo, muito bons Eu nao me lembro dos participantes mas disseram me que seria o Jorge Gois, o Viriato Sroromenho Marques

Ana Fortuna

A 1a sessão do "Taco a Taco" com a participação do LNS teve lugar a 14 de Abril de 1973, e a 2a e última, a 12 de Maio de 1973. Os paricipantes foram Fernando Carvalho, Jorge Góis, Teresa Raminhos, Labareda, Luisa (?), Jorge Calheiros, Inácio e Valido.

Manuela Simões

O Jorge era efetivo de Português salvo erro e o Viriato era suplente de Historia. A Teresa Raminhos era a efetiva de Matemática e o Labareda (?) era o efetivo de História. Não tenho a certeza do nome dele. Era um colega da mesma turma do Jorge (e da minha irmã), turma da alinea D (direito).

Lina Karam

Tempos de revolução

Encontrei esta foto tirada numa das muitas RGAs do pós 25 de Abril.

Ana Cristina Custódio

Também lá estive. Tempos conturbados do PREC. Sentimentos e emoções à flor da pele.

Giovanni Licciardello

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35 anos—comemoração

Comemorações dos 35 anos do edifício da Escola Secundária de Bocage

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50 anos—comemoração

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Testemunhos

Perante a hercúlea tarefa de escrever algumas palavras para celebrar os 70 anos do edifício da Escola Secundária de Bocage, que me acolheu durante uns meros 5, dei por mim a pensar e a (tentar) conceber ideias que fizessem jus àquele edifício. Àquela escola. Àquela fase. A páginas tantas, precedidas de tantas outras jogadas fora, finalmente entendi que a particularidade da Escola Secundária de Bocage é a de que nunca ninguém lhe chamou “Escola Secundária de Bocage”. Tratamo-la, ousada e carinhosamente, por “Liceu”. Notemos que não é “um” liceu – é “o Liceu”. Existem, certamente, outras escolas secundárias por essa cidade fora – todavia, apenas um “Liceu”. Algumas lecionam do 7.º ao 12.º ano – porém, apenas uma delas é “o Liceu”. Esta peculiar circunstância carrega com ela outra, por vezes aparentemente traiçoeira no plano gramatical – hoje, com 26 anos, apercebi-me de que não tenho amigos de liceu. Poderia ser o desabafo de alguém com uma crise de um quarto de idade, mas não (ou, pelo menos, não aqui e agora); é que eu, ao contrário da maior parte dos estudantes do ensino secundário deste país, andei n’O Liceu. Isto faz com que eu não tenha amigos de liceu, mas sim “do Liceu”. A pequena diferença entre “de” e “do” nunca foi tão abismal – desde logo porque, em conversa com pessoas de fora, pareço sempre estar a cometer uma gafe ou, no mínimo, uma indelicadeza gramatical. Em segundo plano, porque esses amigos e o Liceu são, desde então, indissociáveis – estas amizades ultrapassaram os planos físicos desse edifício que, agora, celebra 70 anos. Hoje, transformaram-se e acontecem noutras cidades, noutros pátios, debaixo de outras árvores, à volta de outras mesas. Porém, foi lá que nasceram. Inevitavelmente, foi à volta dessas mesas, debaixo dessas árvores, nesses pátios, nessa cidade e nesse edifício que se foram formando e fortalecendo, por entre conversas de quem pensava já saber tudo. Pensar no Liceu é reconhecer a imponência de um edifício que, resistindo a milhares de préadolescentes revoltados cujos pais certamente não os entendem, embala os intervalos de 15 minutos até a uns arriscados 20; ou que permite a corrida ilegal nos corredores quando esses intervalos se estendem, sem querer, a uns fatais 25. É também saber de cor o fatídico toque de entrada e o delicioso toque de saída, como se fossem, efetivamente, diferentes (na altura, eu juraria que eram). Ao contrário do que o Liceu me permitia fazer quando nada mais havia a fazer, não cabe, nesta humilde homenagem, espaço para grandes divagações. Facto é que o Liceu está de parabéns e, por decorrência, todos nós também estamos – resistimos e relembramos esta escola que, por 70 anos, nos acolheu. A nós e aos nossos amigos do Liceu. Carlota Andrade

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testemunhos

Os 70 anos do edifício da Escola Secundária du Bocage (Liceu)

O edifício do Liceu comemora, este ano de 2019, 70 anos da sua construção. É um edifício com carisma, personalidade e impacto na comunidade: o Liceu foi a única escola da cidade que deu nome a um bairro de Setúbal. Este facto, por si só, demonstra bem a importância desta escola no contexto da cidade. Quando da sua construção, o Liceu foi implantado fora da cidade, mas cedo se percebeu que iria ser um importante polo de atração e estar na origem de um dos mais importantes eixos do crescimento urbano da cidade de Setúbal. É um dos Liceus mais antigos do país. Terá sido o 3º Liceu a nível nacional a ser construído com edifício propositadamente para esse fim, após o Liceu José Estêvão (Aveiro) e o Liceu de Leiria. É, por isso, anterior a todos os mais conhecidos, nomeadamente os de Lisboa e do Porto (in “Liceus de Portugal: Histórias, arquivos, memórias”). O edifício debate-se hoje com enormes problemas decorrentes da sua idade: está algo desadequado às novas exigências que se colocam às escolas, tem problemas estruturais, de manutenção e tem um reduzido conforto térmico. Foi a única escola secundária da cidade que não teve intervenção recente por parte da tutela, facto que é incompreensível. As obras feitas nos últimos anos têm sido obras avulsas e para resolver verdadeiras situações de emergência. Mas, apesar da importância do edifício, a Escola são as pessoas. As pessoas que nela estudam ou estudaram; as pessoas que nela trabalham ou trabalharam. Várias gerações passaram pelo Liceu que mantiveram sempre uma forte ligação à escola. É com particular satisfação que vejo pais e avós com desejo de visitar a sua antiga escola, sobretudo nos dias em que trazem, pela primeira vez, os seus filhos ou os seus netos. Frequentemente sou confrontado com pais de alunos que me solicitam uma visita à escola. Faço-o sempre com todo o gosto porque demonstra esta forte ligação da comunidade à sua escola. Também no atual corpo docente conseguimos encontrar um número muito apreciável de antigos alunos. O testemunho que retiro deles é sempre de grande satisfação por estarem a lecionar na escola onde iniciaram a sua formação. Tudo o que atrás foi dito contribui para a construção de uma cultura de escola muito enraizada, fator importante na definição da sua identidade. Ao longo de décadas o Liceu formou várias gerações de alunos, alguns dos quais vieram a desempenhar papeis de relevo na vida nacional e internacional. O grande desafio nos dias de hoje é preservar este legado, mantendo o Liceu como escola de referência na cidade e, claro, no país também. Bem hajam a todos os que contribuíram, ao longo de décadas, na edificação desta instituição e a todos aqueles que ainda hoje colaboram na construção de uma escola melhor, voltada para os novos desafios de um mundo sempre em mudança. Aos pais, aos alunos, aos professores, funcionários e restantes parceiros o nosso muito obrigado. Pedro Tildes Gomes

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testemunhos

Os edifícios só cumprem verdadeiramente o seu desígnio quando as pessoas os utilizam, sentindo-se neles acolhidos e adquirindo experiências de vida. Os edifícios escolares, por excelência, têm a capacidade de o fazer a milhares de pessoas de várias idades, e no caso dos alunos, imprimindo uma marca que perdura para sempre. O edifício da Escola Secundária de Bocage, antigo Liceu Bocage/Nacional de Setúbal, é um daqueles espaços marcantes da vida de milhares de setubalenses ou de outras origens que, desde 1949, tiveram o privilégio de aprender, crescer, ensinar, trabalhar e sonhar em salas de aula, laboratórios, ginásios ou pátios que jamais esquecerão. Para muitos terá sido uma segunda casa, se não até a primeira. No momento em que a casa desta escola de referência comemora o seu 70. aniversário, agradeço a oportunidade de poder dar os parabéns a todos os atuais e antigos alunos, corpo docente e não docente, sem deixar de recordar, com emoção e saudade, muitos dos meus melhores momentos profissionais, vividos efetivamente na Escola Secundária de Bocage. Luís Capela

A Propósito dos 70 anos da ESCOLA ESCUNDÁRIA DE BOCAGE A Escola Secundária de Bocage é herdeira do antigo Liceu Municipal de Setúbal (1857), que mais tarde subiu ao estatuto de “Liceu Nacional” em 30 de Abril de 1949, aquando da inauguração do novo edifício, na atual Avenida Rodrigues Manito, onde continuou até 1978. Nesta data extinguiram-se formalmente os Liceus, na sequência da unificação do ensino, operada pelo Ministério da Educação, tendo sido instituída a Escola Secundária de Bocage. Em 30 de Abril de 2019 a Escola celebra setenta anos, uma longa vida ao serviço de uma atividade nobre. Desde sempre prestigiada e escola de referência, herdou valores que têm sido perpetuados. Foi com muita honra e privilégio que, tendo exercido outros cargos na direção da escola desde 1994, presidi à mesma de 2000 a 2013. Cargo de muita responsabilidade e envolvimento pessoal, do qual tenho memórias felizes, podendo dar uma brevíssima perspetiva do meu sentir. Das minha memórias mais gratificantes posso referir, como exemplo, os resultados escolares que, ano após ano, a grande maioria dos alunos alcançava em provas nacionais. Por outro lado, os projetos integradores da comunidade educativa abertos à comunidade em geral, nos quais alunos, professores, encarregados de educação, auxiliares de ação educativa e outro público da cidade, assistiam e interagiam em conjunto em festas de final de ano letivo, com o anfiteatro do pátio Norte cheio de público, são outra memória gratificante. As atividades escolares e outras de convívio dialogavam entre si: teatro, dança, exposições de arte, atuações de educação física, projeções, atuações do coral da escola, atuações de outros convidados, etc. Estes projetos congregavam todos aqueles intervenientes numa escola dinâmica, viva e atuante, onde os alunos expressavam outras competências e assim completavam a sua formação integral com outras experiências. Estas festas foram possíveis depois das obras de requalificação (ano 2000), principalmente do espaço exterior e da sala de alunos, e que foram para mim mais um ponto alto na caminhada desta Instituição. Outras realizações gratificantes foram as publicações sobre a Instituição que tiveram como objetivo perpetuar as suas memórias, assim como os vários projetos que a Escola desenvolveu em várias áreas, meios transversais e complementares, que contribuíram também para as aprendizagens dos nossos alunos. Durante cerca de vinte anos a Escola Secundária de Bocage foi uma Instituição multifacetada com ensino regular, ensino noturno e ensino profissional, que, nas suas várias valências e objetivos a tornaram diversificada e enriquecedora para todos os intervenientes. A escola, pelos seus resultados e prestígio, teve a visita de vários ministros da educação, escritores e muitas outras figuras de renome que contribuíram para a valorização da mesma. Ficou como lembrança menos aprazível a chegada amiúde de legislação, de aplicação imediata, com alterações nem sempre necessárias, sem que se tivessem feito avaliações e o contexto o exigisse. Fico grata por testemunhar algum desde caminho percorrido e ainda estar ao serviço desta casa que muito estimo. Agradeço a todos os que comigo trabalharam, e a todos os que, nos dias de hoje e ao longo desta longa vida da Instituição, contribuíram para que continue a ser a escola, ”o liceu” de muitos alunos desta cidade, cujo ditoso poeta lhe deu o nome. Os alunos são o objetivo maior do nosso trabalho. Como professora, desejo que, a agora Escola Secundária du Bocage continue com a sua missão e que todos os profissionais que nela trabalham se sintam motivados e empenhados em proporcionar aos nossos alunos as aprendizagens ,as competências e os valores necessários, para que, ingressem no ensino superior e sejam futuros profissionais, nos tempos vindouros, realizados e felizes. Maria José Cabrita de Sousa Miguel

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O quotidiano

As batas

Em 1966/67 no meu 7° ano a bata ainda tinha só um modelo abotoada à frente, com cinto e as iniciais LNS bordadas. Claro que, nos últimos anos, já tirávamos o cinto, mas nas aulas de matemática do professor Calado, o cinto era obrigatório. Lembro-me de ter o cinto no bolso e o professor com o ponteiro tentar retirá-lo do bolso... Coisas que nunca esqueci...

Lourdes Cunha Camilo

No meu tempo havia um modelo único de bata obrigatório, devo dizer que terminei o liceu no ano letivo 67/68, para as meninas, aqui já vejo 2 modelos, Viva a diversidade .

Fátima Delgado Silva

As batas eram todas abotoadas à frente, inicialmente. A certa altura, surgiu um outro modelo, abotoado ao lado . De acordo com os anos que as meninas frequentavam, as batas eram brancas, azuis claras, salmão ou amarelas. Com o 25 de abril, acabaram-se as batas.

Alexandra Lemos Cabral

O desporto

Essas estrelas do ténis de mesa (na época dizia-se mais "ping-pong") ainda ganharam uns títulos e medalhas para o LICEU. Dávamos uns toques bem bons, nada semelhante aos campeões que Portugal tem agora, mas para as possibilidades de treino e equipamento de então, só o nosso vício era suficiente. E havia também a nossa amizade e espírito de grupo. Esta foto, tirada após um jogo, no Liceu, na sala de jogos, seria em que ano ? 1956, 57 ? O Jorge deve saber ao certo.----Os craques são o José António Gonçalves de Sousa Fialho, o Jorge Afonso Lemos Cabral e o Rui Manuel Gomes Torres Farinho. Para a história !!

Rui Farinho

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Testemunhos

Álbum de recordações Recordo-me do poço, da nora e da escola primária do outro lado da avenida que funcionava como anexo do Liceu. Recordo-me da horta e do pomar, que respeitávamos, do sr. Calhau e da entrada pelo portão lateral (a sul), de algumas obras de melhoria e dos bancos pintados de várias cores, da sala das alunas e dos ginásios separados, o das meninas, lá em baixo e o grande, dos rapazes; das escadas separadas e do respetivo letreiro em cada patamar onde se podia ler "Raparigas" (escadas do lado sul) e "Rapazes" (escadas do lado norte); da palavra LIBERDADE, escrita a tinta preta nos estores de uma janela da sala 18 e que por muito que tivesse sido esfregada nunca desapareceu completamente; da Biblioteca de armários fechados à chave e onde li alguns livros de Eça, durante os feriados ou os furos; do símbolo do Liceu bordado no bolso das nossas batas LNS e que os "rivais" da Escola Comercial "traduziam" como "Leões na selva"... do Reitor, o dr. Armindo Gonçalves e da sua esposa, Maria José a quem "amigavelmente" chamávamos "reitora"... enfim, são memórias, gratas memórias que guardarei para sempre. Recordo os meus professores que me deixaram gratas recordações de juventude: drs Branca Palma, José Manuel Moreira, Helena Cabeçadas, Fernanda Machado Pinto, Teresa Lima, Coimbra, Fernanda Macedo, Rosa Carreira, Manuela David Gomes, Fernando Lima, Ana Lucinda Queiroz, Praxedes, Emília Ricardo, Rosa Capela/Dionísio, Valdemar Oliveira e outros mais de quem já não recordo o nome, mas que me ajudaram a crescer e a ser a pessoa que hoje sou. Obrigada a todos. Recordando alguns funcionários: sr. Ribeiro, sr. Pestana, sr. Eduardo, D. Raquel, D. Alice, D. Adelaide, entre muitos outros. Maria de Fátima Patranito

1973

-

ano

-

Turma

I

Dr. Coimbra e sr. Ribeiro e todos os colegas da turma já referidos. Recordo o dr. Coimbra com um carinho especial porque me devolveu o gosto pela Biologia e Mineralogia. Segundo ele, se a Igreja tivesse razão sobre a origem do Homem, "hoje não cuspiríamos ptialina, mas cromossomas", ou o calcário fétido que eu não conseguia identificar e que, depois de lhe dar valente pancada me mandou cheirar, perguntando-me "Cheira a m----, não cheira? Então o que é que há de ser?", para além das anedotas proibidas sobre S. José e Nossa Senhora (perdoem-lhe os crentes) que nos contava em surdina. O sr. Ribeiro era um doce de pessoa, funcionário do laboratório de Ciências, sempre paciente connosco, sempre disposto a ajudar e a encobrir as nossas diabruras. Maria de Fátima Patranito

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Os bailes

Os bailes

1957

1961/62

1970

1973/74

2012/2013

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A música

Orfeão do Liceu Nacional de Setúbal, ano de 1962/63

Orfeão do Liceu Nacional de Setúbal, ano de 1966

E quem quer vir cantar no coral da Escola Secundária du Bocage?

Alunos do ensino articulado—2015

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Os encontros

Fotografia de um jantar de confraternização de ex-alunos da década de 60.

Encontro de caloiros de 1972/73

Finalistas de 74 25


Os professores

1965 Ăšltimos encontros

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Testemunhos

BREVES RECORDAÇÕES E INESPERADAS CONSEQUÊNCIAS DO MEU EXAME DE ADMISSÃO NO LICEU NACIONAL DE SETÚBAL A maior parte dos Portugueses nascidos depois dos anos 60 do século passado desconhece que, no período final dessa década e nos primeiros anos da seguinte, se verificaram alterações significativas no nosso sistema de ensino, graças a diversas reformas empreendidas pelos ministros da Educação José Hermano Saraiva (1968-1970) e Veiga Simão (1970-1974), algumas delas já muito timidamente ensaiadas pelo anterior titular da mesma pasta, Inocêncio Galvão Teles, que, em 1967, abolira o tradicional exame de admissão. Até esta data, após ser aprovado no exame da 4ª classe, etapa derradeira do ensino primário (correspondente ao 4º ano dos nossos dias), qualquer aluno que desejasse prosseguir estudos no ensino liceal ou técnico tinha de se submeter ao referido exame de admissão, que constava de provas escritas e orais privilegiando as matérias lecionadas, ao longo dos quatro anos da escolaridade obrigatória, nas disciplinas de Língua Portuguesa, História e Geografia de Portugal, Aritmética e Geometria. Estipulava, igualmente, a legislação em vigor que o dito exame tinha de se realizar na capital do distrito de residência. Em conformidade com esta disposição legal, eu – a quem meus pais, tinham proposto, com muita alegria e entusiasmo da minha parte, continuar a atividade estudantil –, vim, acompanhado de minha mãe, prestar as tais provas obrigatórias em Setúbal, deixando, por alguns dias, um monte e uma aldeia do concelho de Santiago do Cacém, perdidos entre estevas, oliveiras e sobreiros. Foi a primeira vez que visitei uma cidade, que, como é natural, se me afigurou gigantesca no seu conjunto e, em certos aspetos, quase deslumbrante, para não dizer feérica. Na verdade, estava-se na época da feira de Santiago e eu nunca vira nada que tanto me fascinasse como aquela iluminação noturna da Avenida Luísa Todi. Uma vez que a lei vigente facultava aos alunos a possibilidade de realizarem as ditas provas, cumulativamente, nos ensinos técnico e liceal, marcando-as, como é óbvio, para datas diferentes, ainda que muito próximas, mandava o bom senso – porquanto dois percursos para atingir uma meta são preferíveis a um só – que eu (sucedendo, aliás, o mesmo com uma percentagem substancial de candidatos) me apresentasse a exame na Escola Industrial e Comercial de Setúbal (hoje Escola Secundária de Sebastião da Gama) e também no Liceu Nacional da mesma cidade (atualmente Escola Secundária de Bocage). No longínquo Verão de 1965, eis-me, pois, a trilhar estes caminhos, que marcariam definitiva e indelevelmente a minha existência. Confesso não ter guardado das provas escritas efetuadas em ambos os estabelecimentos de ensino nenhuma recordação especial (a inexorável passagem do tempo quase tudo já esbateu), a não ser a de um intrincado exercício de aritmética e geometria (do exame do liceu) relacionado com o enchimento de um tanque de água e cuja resolução implicava, no mínimo, uma meia dúzia de operações, verdadeiro trabalho de Hércules para qualquer criança de dez ou onze anos, não obstante o facto de quase ninguém se sujeitar a estas provas sem antes ter solucionado todos os terríveis e, em regra, temidos exercícios (chamava-se-lhes «problemas») de um famoso e famigerado Caderno 1111. Ao apagamento praticamente total de lembranças concernentes às provas escritas contrapõem-se imagens fortemente vincadas dos exames orais realizados, num só dia, no Liceu de Setúbal. Recordo-me de que, pela manhã, por volta das nove horas, mal tinha entrado no átrio desta escola, na companhia de outros meninos e das nossas mães, fiquei a saber não apenas que o júri que me calhara em sorte iria examinar os alunos no 1º andar, mais precisamente no Anfiteatro de Física (agora Auditório José Saramago), mas também que era grande a exigência dos três examinadores. Uma auxiliar de ação educativa nomeou-os, com grande respeito e alguma solenidade; no entanto, escusado será dizer que tais nomes nada me diziam e, por isso mesmo, nesse contexto, os não fixei. Subi a escadaria envolto na ansiedade própria da ocasião e na timidez natural de quem se sente esmagado pelas dimensões do edifício, mas tais sensações avolumaram-se, quando entrei numa sala tão ampla e formal, de configuração estranha a meus olhos, para crescerem ainda mais na hora de ser chamado a provar os meus conhecimentos. Embora, no mais íntimo de mim, tremesse “ como varas verdes”, consegui, com relativa eficiência, disfarçar a ansiedade sentida, e o exame decorreu quase em absoluta normalidade. E digo «quase», porquanto a ríspida exigência do examinador de Aritmética e Geometria se me afigurou excessiva e, logo, perfeitamente dispensável. Terá esta impressão resultado de eu não ter ainda tido um homem como professor? Obtive a almejada aprovação e voltei ao Alentejo, para, dois anos volvidos, regressar à cidade sadina como aluno do Liceu. Foi então que, vendo todos os dias, no átrio e/ou nos corredores, os mencionados 27


Testemunhos

elementos do júri, dos quais, aliás, nunca cheguei a ser discípulo, vim, num ápice, a reter-lhes os nomes, que ouvira nervosa e fugazmente dois anos antes. Chamavam-se eles Joaquim Calado, Maria de Lourdes do Rosário e Irene Rito. Não me passava, porém, pela cabeça que algum dia viesse a ser colega de profissão de algum deles! A determinada altura, não sei já precisar em que ano letivo, a Drª Irene Rito saiu da Escola para ir exercer funções de leitora numa universidade estrangeira (alemã, se a memória não me atraiçoa) e não voltei a vê-la. Os outros dois professores permaneceram no seu posto, um dos quais até ao limite de idade, e a eles me referirei daqui a pouco. Terminado o curso dos liceus no ano letivo de 1971-72, entrei na Faculdade de Letras de Lisboa, onde me licenciei em Filologia Clássica (Grego, Latim e Português), tendo, entretanto, enveredado pela carreira docente. A minha licenciatura era a mesma da Drª Maria de Lourdes do Rosário, de quem, no início do meu percurso profissional, viria, em boa hora, a ser colega na Escola Secundária de Sebastião da Gama, o que nos permitiu – com grande benefício científico-pedagógico para mim, inexperiente como todos os aprendizes – trabalhar em conjunto na área do Português e travar uma sólida amizade. Prestando minuciosa atenção ao seu labor, percebi, ao aprender paulatinamente a “meter as mãos na massa”, que estava perante uma excelsa professora de Português (era essa, aliás, a sua reputação em toda a cidade), munida de cultura diversificada, indiscutível sensibilidade, espírito crítico e ética inabalável, a par de um acurado sentido de inovação pedagógica; todavia, mais importante do que isso, foi ter encontrado nela, para sempre, uma amiga generosa e indefetível. Dela conservo uma saudade profunda e inapagável, pois a sua compreensão e humanidade, ancoradas numa inteligência muito aguda, num notável sentido de justiça e numa atitude estoica face às adversidades, constituíram para mim, durante décadas, uma lição de vida, à qual, em muitas circunstâncias, ainda agora recorro, pela via da memória, com grande proveito e emoção. Também o Dr. Calado se cruzaria comigo, de muito perto, por motivos de natureza profissional (não diretamente relacionados com ele), largos anos depois de eu ter elegido o liceu como lugar predileto de docência, no qual fui sucessivamente professor provisório (1976-1977), agregado (19781979) e efetivo (1979/80- 2010/2011). Passo a explicar como ocorreu a nossa estreita relação pessoal. A sua esposa, Drª Fernanda Calado, licenciada em Filologia Românica e, tal como eu, professora de Português, teve, a dado passo do meu percurso docente, a gentileza de, em nome da nossa amizade, nascida e cimentada no Liceu de Setúbal, aceitar o alvitre, feito por elementos do Ministério da Educação, para eu com ela colaborar na elaboração de provas de exame, encargo de absoluto sigilo e de grande responsabilidade. Distribuíamos tarefas e reuníamo-nos

periodicamente em sua casa, quer para trocarmos impressões acerca do andamento da nossa actividade, quer para nos irmos avizinhando, com segurança, do produto final do trabalho que tínhamos de levar a bom termo. Às vezes, os nossos encontros prolongavam-se por várias horas, e, quando ao Dr. Calado se afigurava que, embora absortos na nossa faina, já devíamos estar cansados, batia devagarinho à porta do escritório e, sorridente, pedia licença para entrar, acrescentando: “Não seria bom pararem um pouco e meterem um bocadinho de gasóleo? Trago-vos aqui uns rebuçadinhos para retemperarem forças!” E era após a entrega dos rebuçados a cada um que, durante alguns minutos, púnhamos um travão na nossa labuta, para a retomarmos logo em seguida. O Dr. Calado deixou-nos há largos anos e dele guardo sobretudo esta última imagem, que havia muito sobrepujara a do homem severo de 1965; à minha amiga Drª Fernanda Calado, depois que a falta de saúde a atingiu de forma devastadora há alguns anos, cada vez mais a vejo – o que não deixa de ser algo paradoxal –, como um modelo de delicadeza, bom senso, profissionalismo e generosidade, certo de que este meu modo de assim a ver representa um incontido sentimento de incomensurável gratidão para com ela. Quando, hoje, olho para trás e trago à tona da memória o meu distante exame de admissão ao liceu, associando-o a alguns acontecimentos posteriores da minha vida, tendo a concluir que a existência humana constitui, em muitos casos, um feixe de improbabilidades e / ou de acasos e que as recordações, conquanto possam despertar em nós alguma nostálgica melancolia, «às vezes, – escreveu Agustina Bessa-Luís – desenvolvem, de maneira aparentemente negligente, uma relação profunda com as coisas deste mundo». Por obra do acaso (alguns negá-lo-ão, decerto), aos meus primeiros passos no Liceu Nacional de Setúbal não os atingiu a precariedade daqueles que se dão no areal da beira-mar; deles posso afirmar que funcionaram como uma espécie de bússola, ainda então envolta numa espécie de neblina da manhã, mas que, mesmo à distância, apontava, firme, na direção do meu futuro profissional; além disso, tais passos proporcionaramme, mais tarde, longo convívio e amizade – o sentimento que, a meu ver, mais sentido confere à vida humana – com componentes do “tridente” examinador (e seus familiares) que, por assim dizer, “apadrinhou” a minha entrada na Escola onde aprendi tantas coisas decisivas no moldar do meu mundo interior e à qual devotei, sem olhar a canseiras e, por vezes, a incompreensões, o que sentia e sabia constituir a parcela mais estimável do meu ser. António Mateus Vilhena

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Testemunhos

Da varanda de minha casa tenho o privilégio de ver e recordar: Vejo a sala da minha estreia nesta casa, o 1ºB. Vejo colegas como O Viegas, o Pestana, O Laurêncio Sim Sim, O Carlos Silva, O Caldeira,, o Noel, o Matos, O Miranda e, muitos outros. Vejo também o prof. Mateus e a Profª Auzenda Paulino. e Serra Pinto. Da varanda de minha casa vejo: Vejo a sala do meu 2ºB. Vejo os mesmos colegas do 1º e mais uns quantos. Vejo também a profª. de desenho Vitorino, (mais tarde Alpendre) por quem eu ficava de beicinho caído. Lembro de outros como o auto-crítica (de trabalhos manuais) Da prof de matemática, com quem eu apanhei a minha 1ª falta de mau comportamento ( a arma, de soprar bolinhas de papel, entupiu). Da Prof. Mª José Condenso a velhinha de história com as suas estrelinhas. E do Prof. Câmara Pestana. Da varanda de minha casa vejo: Vejo a sala do meu 3ºA (promoção) com novos colegas. o Flórido, Zé Pedro Bastos, Tomé, Moniz, Ataz, O António Lopes Ferreira e, outros. Vejo o terrível Prof. Afonso (o sebento) de história com os seus teste de 100 perguntas em 2 dias e o terrível envelope para as chamadas, 5 alunos aos sábados, O Calado, O Maurício, o Milú, O Vôvo Molécula, La Vache qui ri e, a Profª de português Alice (?) Teixeira (a única prof que me deu notas a português sempre a subir, 9,10,11). Da varanda de minha casa vejo: Vejo a sala do meu 4º A (o ano de todas as desgraças: CHUMBEI!). Obrigado Prof. Auzenda (francês) e Prof. Elda( Português) Mas que ninguém diga que não fui um aluno muito regular a português (8,8,8). Tínhamos na altura o prof. Huertas Lobo (o Ajax) como director de ciclo. Da varanda de minha casa vejo: Vejo a sala do meu 4ºD (despromoção agravada). O Ano que quase chumbei outra vez. O ano do Despertar! Nesta Sala de 16 alunos correços onde se incluía o Mané Mocho, Gougas o índio, Mané Bexiga, o China, O Mira, O Zé da Burra, o Hermenegildo, o Miguel Bastos, o Castaneira,o Manuel Oliveira e, outros. A sala onde a Velha Elda se encostava à minha carteira e eu passava o tempo a puxar pelos do casaco dela e a tentar, torcendo, arrancar-lhe um botão. A sala onde a novidade foi o Don Telo, Prof de Geografia, e os rios da china o ão, aõ, aõ, falta um. ão. ok está certo. A sala onde reinavam o prof.Martins (o Teórico) e a sua excelsa esposa Benedita. que me queriam chumbar. Motivo pelo qual, tive de sair para O Colégio Manuel Bernardes em Lisboa. Da varanda de minha casa vejo: Vejo a sala do meu 6ºC

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Testemunhos

Vejo todos os meus colegas novinhos AHHHH e, colegas do sexo oposto: A Isabel, Graça, Clotilde, Eduarda, Manuela, Conceição, Carmo, Arlete e, as 2 Helenas. Os prof. Matos, Dadinha (a minha desgraça), Mª Lourdes Gens, Manuela David Gomes, e ... ...(OPAN E GEOM. Descritiva) O Ano do "foisse a martelo". (esta é para o Paulo Bordeira, Carlos Setra, e Manuel Kanguru). Da varanda de minha casa vejo: A sala do meu 7ºC Da varanda de minha casa vejo também: As Salas de desenho, A sala Trabalhos manuais, Um dos anfiteatros e, O laboratório de Ciências Naturais. Ah e o Bar das sandes com sala de ping-pong. Da varanda de minha casa vejo: A horta do Maurício e, O Velho Chico a puxar a sua carroça. A Dona Alice com o seu aparelho para a surdez. Os avanços dos "machos" em direcção ao pátio das raparigas. Vejo o campo do bugalho , do lá-vai-alho e, do jogo da rolha. Vejo as formaturas ao sábado da Mocidade Portuguesa. Vejo a salinha do aero-modelismo. e, o Campo do Ramon. Da varanda de minha casa relembro: colegas que já Partiram, António Costa Pinto, Graça Teixeira, Ataz, Alfaiate, Manuela Wengorovius, Paulo Nascimento, João Miranda, Mercês Teixeira, Zé Custódio,João Monteiro, Zé Escarduça, Manuel Vaz Pereira, Jorge Leitão, João Vasco Fernandes, José Borrego ... Da varanda de minha casa vejo memórias. Memórias de amizades bonitas. Memórias de paixões e paixonetas, amores intensos e ligeiros. (das minhas não falo, mas também tive a minha conta). Memórias de um tempo Lindo. Memórias de um tempo que me faz sorrir e ter saudade.

Pedro Alves da Silva

O Liceu Para mim, falar do Liceu é emoção. O meu Pai «estreou» o atual edifício como aluno. A minha Mãe lecionou vários anos nessa escola. Nunca foi «escola», foi sempre o «liceu». Os meus Irmãos também lá andaram e eu própria. E não estou a falar de Tios e Primos. O Liceu, de certa forma, sempre foi um pouco nosso, a segunda casa da família. Foi o único sítio em que estive sendo eu aluna e a minha Mãe professora. Foi fácil. Ambas cumprimos os nossos papéis e não misturámos o aspeto profissional com o pessoal. Muito muito raramente, só em desespero de fome, por causa das grandes filas no bar dos alunos (ainda não havia máquinas), lá ia timidamente bater à porta da sala dos professores, mas não entrava, apesar de ser convidada a fazê-lo. A porta de mola, fechava-se e, de repente, voltava a abrir-se com uma deliciosa sanduiche que viajava nas suaves mãos da minha Mãe. Ouro sobre azul. Chegou a altura de sair do Liceu, no final do 12º ano que frequentei à noite e adorei. Tinha desgosto de deixar aquela casa. Mas pensava sempre: saio como aluna e volto como professora. Aqui ficarei. Tudo me parecia bonito no Liceu, mesmo o que não era. Os nossos olhos veem o que querem e encontrava sempre alguma beleza em tudo. Cresci lá, saí e, de facto, voltei como estagiária. Feliz! Voltava a casa! E fiquei algum tempo, tudo a correr bem. Demasiado bem… conheci lá o meu Marido! Como tudo começou fica em segredo, mas foi bonito. Estamos juntos até hoje, há 25 anos. Deixei o Liceu quando o meu Marido se tornou Presidente do Conselho Executivo, porque não gosto de misturar família e trabalho, mas a melhor parte de mim ficou lá. As minhas Filhas por lá passaram pequeninas e também como alunas! Será possível mais emoção? Só posso desejar que o Liceu continue a ser uma escola amada (agora é uma «escola» e o Liceu), querida e que todos a saibam estimar, porque, ao fazê-lo, estarão a homenagear e a respeitar todos os que por lá passaram. «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce»: obrigada, Liceu!

Filipa Ponte Capela

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Testemunhos

EU no LICEU NACIONAL DE SETÚBAL Pediram-me para escrever uma pequena memória sobre a estadia no Liceu Nacional de Setúbal. Não é fácil, mas vamos a isso. O Exame da 4ª Classe foi um bocado complicado. No Montijo, depois de uma préprimária que só me prejudicou, frequentei uma Escola Primária do Plano dos Centenários, para onde davam as traseiras da casa dos meus pais. Tive uma professora na 1ª Classe, outra na 2ª e na 3ª e, ginja no topo do bolo, uma senhora estranhíssima na 4ª Classe e preparação para os Exames de Admissão. Os alunos, para o exame da 4ª eram colocados nas várias escolas, da então vila do Montijo, por ordem alfabética. Eu fiz exame na Escola mais longe da minha casa, com professores que nunca tinha visto. A parte escrita correu bem. Na véspera da parte oral/prática adoeci com febre. O médico diagnosticou Rubéola. Entrei em pânico! Tanto discuti que o meu falecido pai foi falar com o Delegado Escolar. Ele foi lá a casa e, juntamente com o médico, autorizaram-me a fazer o exame, numa carteira ao fundo da sala, seria o último a entrar e o primeiro a sair. Fiquei contente. Tudo correu melhor que o previsto. Nenhum professor se chegou perto de mim. Pediram-me para acabar uma coisa dos trabalhos manuais e que fizesse um desenho. Chamaram o meu pai que me levou para casa. Fiz Exame de Admissão à Escola Industrial e Comercial do Montijo. Correu bem, mas na oral um professor, depois de eu ter lido um texto, pediu para eu dizer o nome completo do meu pai. Eu respondi e ele pergunta se eu tinha a certeza que era “de Bastos”, respondi que sim, ele continuou, eu olhei para o meu pai, na assistência, e ele sorriu. O professor disse que podia sair. Cá fora disse ao meu pai que nunca mais queria ali entrar (fui lá professor 35 anos e 7 meses) e que queria ir para o Liceu de Setúbal. O meu pai disse que ali estava perto de casa, que a despesa ia ser menor, mas nada me demoveu. No Montijo havia um Externato onde lecionavam o Curso Liceal até ao 5º ano. A diretora era nossa vizinha e amiga, mas era de opinião que eu deveria ir para o Curso Comercial e empregar-me num Banco. Felizmente a Admissão ao Liceu (dia 5 de Agosto de 1965) correu bem e fui matriculado. Era o aluno nº 23 do 1º ano, turma A. Concluí o ano com média de doze valores. Para quem vinha de fora não foi mau. Bem avisado pela minha mãe que eu tinha de vir todos os dias, com qualquer tipo de tempo, arranjei companhia com outro rapaz, vizinho do mesmo prédio, que vinha também para o 1º ano e que ficara na mesma turma e éramos acompanhados por uma vizinha que frequentava o Liceu, uns dois anos mais à frente. O Comboio fez as minhas delícias. O despertador tocava às 6 horas. Despachava-me e lá ia, em grupo até à Estação. O Comboio partia às 7:05 e no Pinhal Novo aguardávamos pelo que vinha do Barreiro e chegávamos á Estação de Setúbal, por volta das 8 horas. Com aulas de manhã e de tarde, chegávamos estafados a casa. Ainda havia os TPC e o estudo e fazer os recados aos pais. Estive numa explicação de Matemática aí uns três meses, mas não quis mais. Resultado nem sempre fazia tudo o que os professores mandavam e fui “apanhado” algumas vezes. Relativamente ao comboio tudo piorava quando havia nevoeiro. O Barco que vinha do Terreiro do Paço para o Barreiro chegava mais tarde, o comboio atrasava no Barreiro e nós esperávamos no Pinhal Novo. Mas era divertidíssimo andar no comboio. Cheguei a vir na Camioneta, mas não era a mesma coisa. Deste primeiro ano lembro a Professora de Português e Francês, Doutora Elizabete Botelho da Costa, mãe do Guilherme que estava no 1º B. Era adorável. Também gostava do Professor de Ciências Geográfico-Naturais, Doutor Augusto da Cunha Martins, era severo, mas bem disposto, desde que a Académica não perdesse, quando isso acontecia estava o “caldo entornado”. Levou-nos ao Mosteiro de Jesus e falou-nos dele, à Estação de Fruticultura e à Fábrica Conserveira da Rua Almeida Garrett, creio que de uns espanhóis. Gostava do Senhor Padre António Marques Crispim que tinha muita paciência, mas quando se irritava era de fugir. A professora de Matemática era muito simpática, mas nós erámos implacáveis. A senhora era de Ílhavo, mas dizia Ílhabo. Tudo bem. Quando chegámos ao estudo da balança de Roberval é que foi pior, porque a professora dizia Roberbal e no livro não estava assim … No 1º ano parti um braço. Fui pela escada do Ginásio ver se o Professor Américo Vieira estava no Canto Coral. Abre-se a porta do Ginásio e sai uma turma do 7º ano em correria, caí mal e a dor era insuportável. O professor Américo Vieira levou-me à Visitadora e ela deu-me uma massagem … fui para o Montijo, um colega acompanhou-me carregado com as coisas, dele e minhas. Andei meses a fazer tratamentos em Lisboa… O 2º ano correu na mesma (era o nº 17 do 2º A). A meio do ano a professora de Língua e História Pátria foi embora para o Funchal. Ficámos com pena. Foi substituída por uma Senhora muito querida, a Doutora Emília Pereira, mãe do nosso colega José Miguel Pereira dos Santos, que teve de mudar para a turma B. Neste ano tive uma falta em cada período às Formaturas da Mocidade Portuguesa, aos sábados de tarde. Detestava essas “militarices”. Fui a exame com 12 e fui aprovado com a mesma média. 31


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O 3ºano (1967/68) iniciava um novo ciclo. Era o nº 17 do 3º A. Lembro os Professores: Doutora Maria Amélia Fuzeta da Ponte que ensinava conversando connosco, excelente senhora e o Doutor Idalino Ramos com a sua cultura e idiossincrasias levounos a adorar o Paleolítico, a Mesopotâmia, os Egípcios, os Gregos e os Romanos. Alguns colegas eram novos e as aulas muito divertidas. Uma sala de Desenho que ficava ao fundo de um corredor, no piso superior, junto à Capela. Acabei com média de doze valores, convencido que não merecia mais. No 4º Ano, fiquei na turma A com o nº 21. Fomos uma das pioneiras a ter raparigas na turma, sentavam-se à frente e, nos corredores nós íamos encostados a uma parede e elas a outra. No pátio era tudo separado, como era hábito. Gostei da Doutora Maria Amélia Neves, da Doutora Regina Moreirinhas, do Dr. António Maurício Pinto da Costa, da Doutora Maria Helena Marcelino e do Dr. Ernesto Vitorino. O Dr. Maurício fazia testes de surpresa. Soubemos que não podíamos ter dois exercícios escritos no mesmo dia. Tivemos um teste de Desenho. O Dr. Maurício chega, dita o sumário, diz que isso ficava para a aula seguinte e pede para tirarmos a folha de teste. Distribuiu os enunciados e nós recusámos fazer o teste. Tudo se resolveu. A Biblioteca de Turma, iniciativa louvável do professor, encerrou! Também gostei da Doutora Maria José Condeço, às vezes injustamente tratada, mas espertíssima! Acabei o ano com média de 12 valores. No 5º ano (o exame era um papão). Era o nº 8 do 5º A, no Anfiteatro Velho. Mudámos de professor de Matemática, de CFQ, de Geografia … Mas tudo ia correndo calmamente. A Doutora Amélia Neves deu-nos a notícia que a média de dispensa tinha passado de 14 para 12. E assim dispensei de exame às duas secções. No 6º ano era o nº 19 da turma D – f). Não me dei mal, mas foi uma asneira não ter ido para História. Eu e um colega de turma (o José Miguel Carrilho do Rosário) inscrevemo-nos para fazer uns testes psicotécnicos em Lisboa. O resultado indicou que eu poderia seguir qualquer curso, mas o Direito, era o mais indicado. Fui para f) por influência indevida materna e paterna, e eu rendi-me. Fiz mal. Tivemos óptimos docentes: Dr.ª Manuela David Gomes, Dr.ª Ausenda Costa (ensinou-nos citologia ao microscópio electrónico com fotocópias em Inglês, pois havia organitos que ainda não estavam

traduzidos, foi muito bom para a Faculdade), e adorámos voltar ao Dr. Ernesto Vitorino. Na Matemática é que está a novidade. O plano que nos foi apresentado: a disciplina era diária, assim o Desenho ficava com menos 1 hora. Durante o 6º e o7º anos só daríamos o programa de 6º ano de Desenho (coitados dos futuros engenheiros). Se reprovássemos a Matemática, tínhamos de fazer, também exame de Desenho, com o programa de 6º e de 7º! O programa de Matemática era experimental, chamado Matemática Moderna ou Método Sebastião e Silva. Avisaram para não comprarmos livros, ainda, porque nos seriam fornecidas fotocópias, estilo sebenta. Os aprovados a Matemática que fossem para o Instituto Superior Técnico estavam dispensados das Matemáticas Gerais. E assim foi, recebemos as sebentas, as erratas e as erratas das erratas. Um não aceitou. Os outros aceitaram. Foi aqui que eu comecei a gostar um bocadinho mais de Matemática. Foi a única disciplina que não dispensei de exame. Fui à escrita com 11, tive 10 e fui o único a ir à oral na primeira época, os outros reprovaram. Vim da oral com 13 (nota final). No 6º e no7º anos estive sempre no Quadro de Honra. No 7º ano fui o nº 20 da turma C. Nesse ano também houve novidades a Ciências Naturais e a Filosofia (o Professor era o Dr. Estêvão Moreira), eram turmas de estágio. Não gostei mesmo nada. O que gostávamos era das “palestras” do Dr. Estêvão Moreira, aos Sábados, que eram as prometidas chamadas orais. Falávamos, de Teatro, de Cinema, de História, etc. Da Sarah Bernard à Rainha Vitória. O Dr. Teles de Organização Política e Administrativa da Nação levou-nos ao Palácio de São Bento. Fomos recebidos pelo Senhor Presidente do Conselho, que nos falou da importância do Plano de Sines para o desenvolvimento do Distrito de Setúbal. Adorámos a ida aos Açores e à Madeira. Nestes dois anos também gostei de frequentar o Curso Distrital de Formação Juvenil, no Forte de Catalazete, Santo Amaro de Oeiras, e o Curso Nacional, em Viseu. Foi organizado pela Assistência Religiosa na Mocidade Portuguesa. Só mesmo um livro, escrito por cada um daria uma Memória completa dos 7 anos passados. Falta outro aspeto. Entrámos com 10 anos e saímos com 17. A nível pessoal muito se passou, mas isso … No fim, o melhor eram os piqueniques, nos campos para lá do Caravela, a comer Bolo Chinês e a ouvir música! Dia 14 de Junho de 1971: Eu, a Manuela Pina, a Odete Pereira, a Isabel Mendes (Oleiro Lucas) e o António Vilhena. Fotógrafa: a Amélia Russo. Parabéns a todos que frequentaram, ensinaram, arranjaram, vigiaram o Liceu Nacional de Setúbal nestes 70 anos.

Francisco Oleiro Lucas

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Memórias da minha Memória Recordo-me de factos, de lugares e de pessoas que me são específicas. Revejo com ternura as situações não ensaiadas, não programadas e pessoalmente significativas que tive no Liceu. Estas memórias podem nada significar para os outros, mas não deixam de ser os tempos, os lugares e as pessoas que realmente me tornaram no que sou hoje. O Liceu só me traz muito boas recordações e as vivências que mais me marcaram ou que se tornaram mais importantes surgiram inesperadamente e não são fruto de acontecimentos que pretendam produzir memórias duradouras. As fotografias revivescem as memórias como se tivessem acontecido há poucos dias. Vão sempre fazer-me rir do quão ridícula eu era e das alhadas em que me metia. Lembro-me de primeiros amores e de telefonemas tarde na noite, de partidas inimagináveis, de mergulhar em projetos académicos e extra-curriculares, de fazer coisas sem nexo com as amigas, de ter conversas longas e improvisadas, de virar à direita onde normalmente viraria à esquerda só para ver onde ia dar. Embora pareça paradoxal, a melhor maneira de construir grandes memórias é parar de nos preocuparmos tanto em fazer o que é certo e apreciar mais o que nos aparecer pela frente, o inesperado. Podemos planear e agendar tudo o que quisermos, que não conseguiremos evitar que parte das nossas melhores recordações irá nascer de coincidências e de encontros casuais. E o inesperado aconteceu....

pertado, uma camisola larga de malha e uma gabardine na mão que atirou para cima da secretária. Alto, descontraído, é completamente diferente de todos os outros professores, sempre austeros e formais. Olhávamos umas para as outras estupefactas. Ouviu-se um “é aquele que canta fado de Coimbra na televisão!” Sentou-se, abriu o livro de ponto que rabiscou, recostou-se na cadeira, pôs os pés em cima da secretária e ficou em silêncio, de olhar ausente, esquecido. Começámos todas a falar baixinho e daí à algazarra foi um instante. - Como se chama? A pergunta acordou-o. - José Afonso, ouvimos em resposta José Afonso lecionou apenas durante o primeiro período. Foi expulso por pressão de alguns pais, ao que constou na altura, receosos da influência que poderia exercer nos filhos. Foi no Liceu Nacional de Setúbal, na sala do 1º andar que ouvi pela primeira vez Os Vampiros. O facto de termos a professora de Francês, Maria Amélia Fuzeta da Ponte, de licença de maternidade, proporcionou-nos uns “furos” que ocupávamos a ouvir uma e outra e outra e outra e outra vez o 45 rotações, num gira-discos portátil que se trazia para esse único propósito. Cinquenta anos passados, olhando para o Portugal de hoje, infelizmente constatamos que Os vampiros se mantêm bem atuais: No céu cinzento Sob o astro mudo Batendo as asas Pela noite calada Vem em bandos Com pés veludo Chupar o sangue,, Fresco da manada Se alguém se engana Com seu ar sisudo E lhes franqueia As portas à chegada

Decorria a rentrée do ano letivo de 1967/68 no Liceu Nacional de Setúbal. Numa sala do primeiro andar, o 5ºD efervescia com toda a gente a falar ao mesmo tempo. Tanta coisa para contar e tão pouco tempo para o fazer. A curiosidade em relação aos professores era grande. Seriam os mesmos do ano anterior? Havia zunzuns sobre um professor novo, recémchegado a Setúbal, supostamente corrido de Coimbra ou de Moçambique por motivos políticos. Foi a primeira vez que tal ouvi, motivos políticos?! A expectativa era enorme. Corria que ele era um revolucionário, que arranja sarilhos por todo o lado onde passava, que já tinha estado preso pelos tais motivos políticos e que talvez fosse comunista. A bomba explodiu na aula de apresentação de História. Em vez da professora Teresa Uva apareceu, com algum atraso, um professor de trinta e poucos anos, de ar simpático, despenteado e de barba por fazer, de aspeto amarrotado, com as calças sem vinco, a camisa com o colarinho desa-

Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada A toda a parte Chegam os vampiros Poisam nos prédios Poisam nas calçadas Trazem no ventre Despojos antigos Mas nada os prende Às vidas acabadas

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São os mordomos Do universo todo Senhores à força Mandadores sem lei Enchem as tulhas Bebem vinho novo Dançam a ronda No pinhal do rei

Vítimas dum credo E não se esgota O sangue da manada Se alguém se engana Com seu ar sisudo E lhes franqueia As portas à chegada

Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada No chão do medo

Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada Camila Cardoso Ferreira

Tombam os vencidos Ouvem-se os gritos Na noite abafada Jazem nos fossos

O meu percurso na Escola Secundária du Bocage, que celebra no próximo dia 30 de abril 70 anos, iniciou-se em setembro de 2011. Era uma pequena menina de 11 anos, vinda da Academia de Música e Belas Artes Luísa Todi (AMBALT), e como estava inscrita no ensino articulado de música, teria obrigatoriamente de seguir o meu ensino básico no Liceu de Setúbal. Além disso, o meu irmão mais velho também frequentava este estabelecimento de ensino, pelo que a ideia de eu ir para outra escola nunca foi posta em cima da mesa. Eu tinha grandes expectativas para o meu tempo no Liceu, uma vez que seria a primeira vez que iria frequentar uma escola que oferecia mais do que uma turma por ano, e tinha noção de que a dimensão do edifício, bem como a relação com os professores e os restantes alunos iria ser totalmente distinta daquilo a que eu estava habituada. Volvidos agora 8 anos sobre o dia da apresentação, o primeiro dia em que entrei no Liceu, ainda me lembro do sentimento misto de entusiasmo e nervosismo que de mim se apoderou. Já conhecia metade da turma, dado que se tratava de colegas que estavam na mesma situação que eu, e que me acompanhavam desde o início da primária na AMBALT, mas isso não fez com que o entusiasmo de ter colegas novos e diferentes, num novo sítio, diminuísse. Para ser honesta, não me lembro de alguma vez ter estado tão ansiosa (no bom e mau sentido) para começar um novo ano letivo, nem mesmo quando ingressei na faculdade. Não posso dizer que o Liceu correspondeu a tudo o que eu estava à espera, ou simplesmente que ficou além ou aquém das minhas expectativas: tal seria falacioso. Sendo verdade que não foi nada do que eu esperava, em grande parte porque na minha inocência eu acreditava que se iria assemelhar aos filmes americanos sobre adolescentes, os anos que passei naquela que foi definitivamente uma das minhas “segundas casas” (além da AMBALT e, agora, a faculdade) foram anos de experiência e crescimento. Experiência de alegria, dor, nervosismo, raiva, paixão, felicidade, etc. No fundo, todo o tipo de sentimentos que já vivi até hoje. Crescimento enquanto aluna, mas especialmente enquanto pessoa. Esta escola, bem como os amigos que lá fiz, e os professores com que me encontrei, acompanharam-me desde os 11 aos 17 anos – 6 anos absolutamente significativos na construção da pessoa que sou hoje, e que virei a ser no futuro. Sem prejuízo de tudo o que vivi naquela escola, sinto que foi efetivamente a partir do 10º ano, ao mudar de turma, começar a estudar disciplinas mais específicas, e a ter outros contactos, que comecei a perceber que tudo o que aprenderia lá, levaria comigo para o mundo exterior, para o resto da minha vida. Consigo dizer que, sem dúvida nenhuma, as armas e lições que os meus professores do ensino secundário (mais uns que outros) me deram, e as aprendizagens que tive, ainda hoje me acompanham no meu percurso académico atual. Ao escrever este texto, apercebo-me de que só agora, que já não frequento o Liceu, é que consigo efetivamente reconhecer tudo aquilo que a minha experiência lá me proporcionou, e é com muita nostalgia que aconselho os alunos atuais a aproveitarem o tempo que lá passam, porque a verdade é mesmo que os anos que passam já não voltam. Não consigo dizer que gostaria imenso de voltar aos meus anos do ensino secundário, porque não tenho interesse em andar para trás no tempo, mas sem sombra de dúvida que os anos que passei na Escola Secundária du Bocage, não os trocava por nada. Teresa Matta Raposo

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É difícil pensar numa única história que passei no Liceu, foram 6 anos de histórias. Quando terminei o secundário era uma pessoa completamente diferente de quando cheguei no 7º ano. Mas é isso mesmo que penso quando me lembro do Liceu, um lugar repleto de histórias de todos os que lá passaram e ainda assim com a energia permanente das novas gerações. Durante os meus anos na Escola Secundária du Bocage fiz imensos amigos, tive boas notas e outras menos boas, tornei-me profissional de matraquilhos, almocei muitas, muitas vezes no refeitório, ganhei vários corta-matos, participei em inter-escolas de basquetbol, tive duas saídas de campo, uma visita de estudo a Madrid, tomei decisões importantes, incluindo a área de estudos para o "meu futuro", fizemos exposições e criei a lista K para a comissão de finalista com a minha turma (que foi sem dúvida das coisas mais divertidas, embora tenhamos perdido). São memórias de uma altura que parecia interminável e em que havia tempo para tudo, sem grandes responsabilidades, mas sempre com muito em que pensar. Memórias que guardo com todo o carinho. Carolien Grebe 2008/2014 Curso de Artes Visuais Foi aos doze anos que, em setembro de 2013, entrei pela primeira vez naquela quer viria a ser a escola pela qual nutro tanto carinho. Foi nela que passei momentos bons e outros menos bons, conheci pessoas diferentes e fiz, sem dúvida, amigos para a vida. A Escola Secundária du Bocage foi a minha casa nos últimos seis anos. Aqui ri e sorrio muito, mas também chorei. Nas paredes deste edifício vão ficar para sempre escritas as minhas confissões, os meus dramas da adolescência e sobretudo, diversas memórias que guardarei com muito carinho no meu coração. Foi esta instituição, os professores que nela lecionam, e até os próprios empregados que cá trabalham diariamente que fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Relativamente aos professores, gostaria de agradecer todas as oportunidades que me deram para sair da minha zona de conforto e experimentar coisas novas, tais como fazer parte da equipa do JornalSemNome, o qual me fez despertar o gosto pelo Jornalismo. Assim, concluo dizendo apenas que estarei eternamente grata pelos momentos que cá vivi e que nunca esquecerei todas as aventuras e desventuras que por cá passei enquanto fui aluna desta casa. Inês Mendes

Foi-me pedido que escrevesse algo sobre a escola, relativamente às comemorações do aniversário do edifício. Pensei durante algum tempo sobre o que deveria dizer. Não vou mentir, foi uma tarefa árdua. Afinal, quais foram os momentos mais significativos e marcantes que vivi neste local? Foram tantos que é difícil explicar. Tenho 18 anos e cheguei aqui com 12, era literalmente uma criança, que não fazia ideia do que queria fazer da vida. Não que tudo tenha mudado, mas muita coisa foi alterada… Lembro-me perfeitamente que no meu 7o ano, o primeiro no liceu, parti um pé num intervalo. Foi uma das situações mais incómodas e caricatas da minha vida, porque aconteceu de uma forma totalmente imprevisível, como tudo, aliás. Conheci pessoas incríveis e fiz das amizades mais importantes que tenho nesta escola. Aprendi com os meus erros e fui melhorando, descobrindo, igualmente, aquilo que mais gosto de fazer e qual a área que tem tudo a ver comigo. Resumindo, cresci imenso neste local, não me imagino a ter estudado noutra escola durante todos estes anos. Isto, porque, para além de tudo o que já mencionei anteriormente, este lugar permitiu-me fazer parte de projetos de extrema importância, criados por alunos, como é o caso do Querer+ e do Clube de Leitura. O primeiro é um grupo de estudantes que pretende mudar alguma coisa na sociedade, ajuda os outros das mais variadas formas; enquanto que o segundo tem o objetivo de estimular a leitura e a partilha de ideias sobre este tema entre alunos de vários anos de escolaridade, o que me permitiu explorar ainda mais o meu gosto pela comunicação. Não descurando ainda a possibilidade que tive de participar na escrita e realização de algumas edições do jornal da escola, que me ajudou a aperfeiçoar a minha forma de escrever, ganhando consciência de algo que realmente gosto de fazer. Assim, é fácil concluir que, apesar de ter experienciado, certamente, momentos menos bons, tenho plena consciência de que os mais positivos os superam. De facto, tenho, portanto, de agradecer por todas as coisas boas que esta escola me proporcionou e me ajudou a alcançar, que farão a diferença no meu futuro, não só académico, como também enquanto indivíduo. Raquel Carmo

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A minha escola Entrei na Escola Secundária du Bocage no meu 7 ano, com 12 anos de idade. Hoje, já com quase 18 anos, frequento o último ano da escola, da qual sairei com boas memórias e saudade. Dentro das aulas, mas também fora delas, aprendi como uma participação ativa no meio onde nos enquadramos nos torna melhores cidadãos Desde cedo que os professores nos incentivaram a participar em vários projetos, concursos ou exposições. O trabalho em equipa foi-nos incutido desde logo, preparando-nos para um mundo de alta competitividade. As grandes ferramentas do mundo do trabalho, sejam elas métodos de trabalho, codificação e seleção de informação ou espírito de equipa, aprendemos, e interiorizámos, através do trabalho desenvolvido ao longo do tempo. Neste ano letivo, frequento várias atividades dentro da escola. Faço parte do Clube de Debate da escola, um projeto pioneiro de alunos que proporcionou momentos de pura reflexão e discussão entre toda comu-

nidade escolar, tendo-se expandido inclusivamente para fora dos portões da escola; faço parte de um recente Grupo de Leitura, criado em parceria com a Biblioteca da escola, que sempre tão bem nos acolheu, tendo o objetivo de promover a leitura e criar um ambiente de proximidade entre alunos de todos os anos; e participo no Grupo de Voluntariado, um projeto também de alunos e que promove um grande espírito de solidariedade entre todos. A escola foi sempre muito recetiva a este tipo de iniciativas, apoiando-o os alunos de forma incondicional e muito aberta. A exigência pela qual a escola é conhecida, e que os próprios alunos reconhecem, acaba sempre por dar frutos, tal como os resultados dos exames e o elevado número de alunos que entram logo na primeira opção confirmam. Num balanço global, posso dizer que os anos que aqui estudei foram muito enriquecedores, quer intelectualmente como pessoalmente, uma equilibrada combinação.

Beatriz Santos

nais, como quando foi a greve pelo clima. De facto, vários professores apoiaram e até relembraram os pormenores de quando seria e onde. Outro exemplo é o trabalho que algumas turmas estão a realizar com alunos do instituto de história contemporânea. É algo a um nível mais elevado que nos ajuda a sermos mais atentos e compenetrados no trabalho. Foi de facto uma experiência muito relevante para o nosso futuro. Concluindo, apesar de, naturalmente, existirem aspetos a melhorar, penso que é de extrema importância realçar o apoio dado aos alunos para se adaptarem, aprenderem e alargarem o espectro de aprendizagens, que não se resume só às matérias dadas.

Após seis anos nesta escola, é claro que as memórias são muitas, e é difícil escolher o que dizer sobre esta instituição. Umas das características que mais prezo é o apoio dado aos alunos para a criação ou participação nas mais diversas atividades. A existência do Clube de Debate, do Querer + e, mais recentemente, do Clube de Leitura, atestam a ajuda dada pela escola para melhorar o nosso espírito crítico, treinar a entreajuda a um nível muito mais abrangente, ou simplesmente aproveitar e partilhar com outros os nossos interesses e gostos, conhecendo novas pessoas. Naturalmente, este novo contacto ajuda-nos imenso a crescer. Paralelamente, recebemos também apoio dos nossos professores em relação a acontecimentos excecio-

Ana Rita Gonçalves

Já lá vão 45 anos… E não importa por onde a vida me levou, quem conheci, o que fiz, o que não fiz - o liceu ocupa merecido destaque nas minhas raízes setubalenses. Bem presente o edifício de traçado espaçoso, iluminado por grandes janelas. E também o hall quadrado, corredor principal e as duas escadarias simétricas, uma na ala das meninas, a outra na dos rapazes. Sentávamo-nos nos degraus - já se usavam calcas compridas nessa altura - onde nalgum tempo livre estudávamos e fazíamos trabalho de casa, que é como dizer conversinhas, cochichos sobre tudo e todos, risota e atenta pesquisa a revistas de moda. Não se aprendia só nas aulas, não senhora! Incomparável era o ritual que eu a brincar chamo "muro da vergonha" : aquela berma do asfalto que rodeava a fachada arredondada e envidraçada do refeitório - apenas rapazes faziam parte desse muro humano; em pé, lado a lado, de costas voltadas para o campo de futebol mais abaixo e em posição para não perder a passagem de nenhuma menina das muitas que com mais ou menos gosto faziam trajeto por ali... Qual (desatualizado?) costume ibérico em locais públicos de quem gosta de ver e de quem gosta de ser visto - impagável! Com nostalgia recordo o bem-bom: o recreio, aulas lá fora nos dias bonitos, excursões e passeios, os bailes no refeitório, O Baile de Finalistas!, a Viagem de Finalistas! idas à biblioteca... Mmm, idas a biblioteca??? Com pena parece-me que talvez não fosse assim tão concorrida (por mim e outros) - apesar do seu ambiente de venerável conhecimento... E se não existisse, talvez nunca chegássemos a saber a falta que nos podia um dia fazer... Gratidão eterna aos docentes e pessoal de apoio que desse o que viesse durante esses anos impulsionaram as qualificações académicas que tanto continuam a marcar a minha vida, onde quer que me encontre. Bem hajam. E aos queridos colegas, um brinde aos bons (e menos bons) velhos tempos!! Já lá vão 45 anos. Lai Parreira da Gama Calado 36

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Jornalsemnome 52  

Comemoração dos 70 anos da inauguração do edifício da Escola Secundária du Bocage

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Comemoração dos 70 anos da inauguração do edifício da Escola Secundária du Bocage

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