entrevistadomês leira ficou explicitado de maneira muito eloquente nas manifestações de junho. Há um desencanto com política no Brasil, o que é uma coisa muito grave. A juventude, principalmente, está muito desapontada com a falta de representatividade dos quadros de governantes do Brasil.
condições iniciais, na partida, nas dotações iniciais. O Brasil tem que corrigir muitas distorções herdadas de séculos de deformação que condenam o indivíduo a um padrão de vida pelo simples fato de ter nascido em uma determinada condição social, e isso é o que acho absolutamente intolerável.
RF – Em caso de uma reeleição, o senhor acredita em mudança
RF – O que seria um novo modelo ideal? Giannetti – A economia de mercado é compatível com qualquer
de plano econômico pela presidente Dilma Rousseff? Giannetti – Tenho dois cenários claros na minha cabeça sobre uma eventual vitória do status quo. Um cenário eu chamo de curva de aprendizado, um reconhecimento de que equívocos foram cometidos no primeiro mandato, mas já há um esboço de correção de rotas em algumas áreas da política econômica dos últimos meses. O segundo cenário que vislumbro é de aposta redobrada, ou seja, se essas medidas envergonhadamente corretivas tomadas agora foram apenas para evitar maior turbulência no período pré-eleitoral. Uma vez reeleita, ela pode dobrar o tamanho da aposta que fez no primeiro mandato. Esse segundo cenário nos encaminha rapidamente para uma crise financeira, com fuga de capital, o que vai impor outra solução e outra mudança de rota.
RF – O senhor acha que teremos mesmo uma crise econômica? E de que dimensão?
Giannetti – Depende do cenário. Se vier
RF – Essa não é bandeira empunhada pelo atual governo, que se sobressai pela distribuição de renda?
Giannetti – Esse movimento é muito bom para o Brasil, a redu-
“O momento mais belo que eu considero da democracia recente foi a transição do segundo FHC para o primeiro Lula“
a aposta redobrada – e muito do discurso da candidata Dilma e do Lula está indicando pelo menos na campanha que é esse o cenário mais provável –, acredito que vamos caminhar para uma crise financeira. É uma argentinização seguida de uma crise financeira. Teríamos uma forte desvalorização da moeda, uma saída de capitais – o Brasil tem déficit em conta-corrente e está vulnerável –, então o ajuste vai se impor.
RF – Há sobre a sua mesa o livro “O Capital no Século 21”, do economista francês Thomas Piketty, em que se retrata que a desigualdade põe a democracia em cheque. O senhor concorda com essa análise? Giannetti – Eu defendo a igualdade de oportunidades. Eu acho que a dimensão relevante da igualdade são condições minimamente igualitárias para que os indivíduos possam desenvolver seu potencial plenamente. Não acho que a igualdade de resultados seja sequer desejável, porque as pessoas são diferentes, têm valores diferentes, e nem todas elas estão interessadas em medir sua vida com base em uma métrica econômico-financeira, ainda bem. O que é injustificável e intolerável são as desigualdades nas 12 financeiro julho 2014
distribuição de renda, desde que você altere as dotações iniciais.
ção da desigualdade social. Nós estamos apenas começando e ainda somos um dos países mais desiguais do mundo. E a dimensão que mais me preocupa na desigualdade é que as pessoas nascem com oportunidades muito desequilibradas no Brasil, e é aí que tem que avançar. É falta de saneamento básico, de saúde, de educação, de condições de transporte. Tem uma questão muita séria também que é a falta de estrutura familiar para quem vem ao mundo e não encontra suporte da família. Isso perpetua a desigualdade.
RF – O senhor acredita que o Brasil melhorou nos últimos 12 anos?
Giannetti – Eu acho que o Brasil teve um
momento de extraordinária maturidade. O momento mais belo que eu considero da democracia recente foi a transição do segundo Fernando Henrique para o primeiro Lula. Nós conseguimos fazer isso como ninguém jamais imaginaria.
RF – Ou seja, o primeiro mandato de Lula foi bom? Giannetti – A primeira gestão do Lula e o ministério que ele montou foram de excelente qualidade. Infelizmente, a partir do mensalão, isso começou a se perder. A queda do ministro Antônio Palocci e sua equipe também foi um episódio que deteriorou a qualidade técnica da gestão econômica no Brasil. E o governo Dilma, lamentavelmente, foi um aprofundamento do pior da gestão Lula. Nós vamos ter que voltar ao bom momento que estava sendo construído no segundo mandato Fernando Henrique e no primeiro período do Lula, não com medidas iguais, mas com espírito daquilo que vinha sendo construído e era bom para o Brasil.
RF – A ruptura de diálogo com o empresariado da presidente Dilma também prejudica, não é?