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Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA - 234

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4 de outubro de 2011 | terça-feira | a

cabra | 21

SoltaS dou-lhe amor

miCro-Conto

Por urbano tavares rodrigues

E

ra então membro do júri do Prémio Casa de Las Americas, onde me tornei amigo de Mário Benedetti e de Lincoln Silva, poeta paraguaio, que mais tarde traduzi para português. Mas sentava-se ao meu lado, manifestando uma grande simpatia, uma rapariga de meia estatura, sempre pólo e jeans, que parecia cigana. Só os olhos, muito rasgados, diziam que ela era índia. Chamava-se Marília Hurtado. Houve uma manhã em que, acometido de uma enxaqueca, com vómitos e horríveis dores de cabeça, sem que os meus medicamentos me minorassem a dor, fui nadar para a piscina de água gelada, confiando no efeito da vasoconstrição. Marília seguiu-me sem eu dar por isso. Nadou também, secou-se e quis acompanhar-me ao meu quarto. Curei-me nos braços dela, amando-a, primeiro, com muito esforço, depois em triunfo, banhado de luz e felicidade. Enquanto permaneci em La Havana nunca mais nos largámos de mão na mão, de olhos nos olhos. Até à dor da separação. *Por escolha do autor este texto não segue as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

UrBANO TAVArES rOdrIGUES • 87 ANOS Foi em Lisboa que nasceu, em 1923, mas foi o Alentejo que reteve o seu olhar. Urbano Tavares rodrigues recorda “anos de encantamento” com uma voz que se lembra e que se arrasta pelos chaparros, pelas amendoeiras e pelas estrelas. Alentejo, a sua terra do nunca, com Urbano a fazer parte de tudo, com olhos mirabolantes que se exaltam em memórias. Foi lá, à volta dos campos, que compreendeu a miséria dos levantados do chão, levando-o, depois do 25 de Abril, a entregar as terras que tinha aos camponeses. Já antes, Urbano chegara ao partido comunista, pelo coração e não pela cabeça, como lhe chegou a dizer Cunhal. Um herói sem causa que coleccionou algumas lutas. A sua posição contra o Estado Novo levou-o até França, onde se cruzou com Camus e Malraux, do qual encontra a linha condutora para a sua obra: “dei-me pouco com Malraux mas foi como se me tivesse dado sempre”. Tem na mulher o motor, no envelhecimento a sua grande dor e na resistência palavra de ordem. Urbano Tavares rodrigues não é uma estante de prémios e obras. Urbano é um humanista, um eterno brigante.

A partir desta edição e até ao fim do ano de 2011/2012, os leitores do Jornal Universitário de Coimbra A CABrA poderão contar com colaborações inéditas de autores portugueses ou de expressão portuguesa. Escritores (reconhecidos ou que busquem o reconhecimento), jornalistas e outras personalidades marcarão presença neste espaço.

monumentaiS PanadoS SoCiaiS Por doutorando Paulo fernando • facebook.com/paulofernandophd

S

e já conhece esta crónica passe imediatamente para o Opção 2. Se é a primeira vez que pega no Jornal Universitário de Coimbra por favor leia a Opção 1.

Opção 1 Sejam então muito bem-vindos os que vêm por bem e os que de Coimbra apenas conhecem ainda o espaço compreendido entre a torre e aquelas escadas com as bolas ao topo. Bem-aventurados também os que vêm alimentar a especulação do mercado imobiliário, e os pais que confiam a guarda dos petizes a velhinhas que os põem a viver em sótãos e vãos de escada na primeira oportunidade! Eu sou Paulo Fernando e por vezes falo na terceira pessoa como os jogadores de futebol. Estou aqui para vos apresentar o lado negro da força. Ante vós, todo um mundo de possibilidades! Uma miríade de carreiras de autocarro, faculdades e departamentos, nomes impronunciáveis de estabelecimentos de diver-

João Gaspar

iiluStração por ana Beatriz marqueS

são nocturna, tascas e restaurantes com vinho que varia entre o mau e o pior, desafios intelectuais apenas ao alcance de mentes iluminadas, inteligências superiores que se apressam a partilhar o conhecimento numa lógica vertida sobre os pobres de espírito - na cadeira da vida universitária não há sebenta, não há consulta, não há cábula e não se pode levar o exame feito de casa – há educação pelos pares! Estimem os que convosco partilham tal sapiência, estimem os doutores que de forma tão desapegada se acercam da fila das matrículas gritando pelos caloiros de Direito como os instrutores da recruta no antigamente. Ante vós a praxe! Os pega-montros nas janelas das cantinas, o inquérito sobre a vossa proveniência, que revela as parafilias bestiais das psiques doutorais, os subtis ‘innuendos’ de natureza sexual, só possíveis dado o profundo romantismo que, do Choupal até à Lapa, desperta Coimbra nos

no CafÉ Com… Paulo fernando inÊS amado da Silva

seus amores. Festas do pijama na principal praça da cidade, ‘pillowfights’, criativas feveradas e festas da “porca e do parafuso”, cantorias e marchas de mão dada como nos escuteiros. Tudo mediante uma pequena contribuição. No próximo mês de No-

vembro vão ter a oportunidade de retribuir com amor todo o carinho que os vossos padrinhos e madrinhas vos dedicam – mediante o depósito de um papelinho numa urna, com duas linhas rectas a intersectarem-se no centro de um quadrado pré-determinado à entrada da faculdade.

Opção 2 Gosto em revê-los. Já sabem quem está com quem, quem traiu quem e quem se vendeu por não sei quanto? E votar? Este ano quem vai ter o cartaz com mais caras? Quem vai dar as esferográficas mais catitas? Ou será que nos vamos deparar com uma inovação no marketing caciqueiro, pago a troco de obséquios futuros? E dos blogues – qual é o que preferem? Com as eleições à vista, os departamentos de ‘scouting’ andam na estrada. Há muito jovem promovido à categoria sénior do moscambilheiro. Anda por aí muito voto sem senhorio, muito café para ser tomado, muito diamante em bruto para ser lapidado – ovelhas que correm o risco de se tresmalhar - e tu, jovem caciqueiro, podes ser o seu pastor! Para tal, quantos cafés já tomaste hoje? E comigo? Quem quer tomar café? *Por escolha do autor este texto não segue as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.


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