Abismo Humano nº7

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Editorial

7 A Associação de Artes 'Abismo Humano’ dedica-se ao aproveitamento da tendência artística presente nas novas camadas jovens e a integrar, junto da arte, os valores locais, bem como ao entretenimento, educação e cultura de forma a ocupar os espaços livres na disposição dos seus associados. Para tal a associação compromete-se a contactar vários artistas, tanto na área da pintura, da literatura, escultura, fotografia, cinematográfica, ilustração, música e artesanato, de forma a expor as suas obras tanto num jornal de lançamento trimestral, consagrado aos sócios, como na organização de eventos, como tertúlias, exposições, festas temáticas, concertos e teatros. A associação de artes compromete-se igualmente a apoiar o artista seu colaborador, com a montagem de, por exemplo, bancas comerciais e com a divulgação do trabalho a ser falado, inclusive lançamentos, visando assim proteger a arte do antro de pobreza ingrata e esquecimento que tantas vezes espera as mentes criativas após o seu labor. Os eventos, que são abertos ao público, servem inclusive o propósito de angariar novos sócios, sendo que é privilégio do sócio, mediante o pagamento da sua quota, receber o jornal da associação, intitulado de “Abismo Humano”. Este jornal possui o objectivo de divulgar as noticias do meio artístico bem como promover os muitos tipos de arte, dando atenção à qualidade, mais do que à fama, de forma a casar a qualidade com a fama, ao contrario do que, muitas vezes, se pode encontrar na literatura de supermercado. Afiliada às várias zonas comerciais de cariz artístico, será autora de promoção às mesmas, deixando um espaço também para a história, segundo as suas nuances artísticas, unindo a vaga jovem ao conhecimento e à experiência passada.

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Equipa Editorial Equipa Editorial André Consciência - Albano Ruela André Consciência - Albano Ruela

Assinaturas Assinaturas: abismohumano@gmail.com Assinaturas: abismohumano@gmail.com Para assinar a Revista Abismo Humano contactar por email Para assinar a Revista Abismo Humano contactar por email


Sumário Editorial Assinaturas Sumário Manifesto Ruínas Circulares Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos Captações Imaginárias Banda Desenhada Ilustração Arte Digital Fotografia Pintura

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Ruínas Circulares Entrevista com Patrícia Guerra Página 14

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Captações Imaginárias Banda Desenhada

Angloume Página 34

Captações Imaginárias Ilustração

Patrícia Guerra Página 35

Captações Imaginárias Ilustração

Borus Aura Página 37

Captações Imaginárias

Captações Imaginárias Pintura

Relax Página 44

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Captações Imaginárias

Arte Digital

Pintura

To be or not to be Página 39

Winter Garden Página 42

Publicidade Ignis Fatuus Luna Página 47

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Manifesto Abismo Humano O Abismo Humano compromete-se a apresentar a sapiência, o senso artístico, e o cariz cultural e civilizacional presente no gótico contemporâneo tanto como nas suas raízes passadas. O Abismo Humano toma o compromisso de mostrar o que tem tendência a permanecer oculto por via da exclusão social, e a elevar o abominável ao estado de beleza, sempre na condição solene e contemplativa que caracteriza o trabalho da inteligência límpida e descomprometida. O Abismo Humano dedica-se a explorar as entranhas da humanidade, e é essencialmente humanista, ainda que esgravatando o divino, e divino é o nome do abismo no humano. O Abismo Humano é um espaço para os artistas dos vários campos se darem a conhecer, e entre estes, preferimos as almas incompreendidas nos meios sociais de maior celebridade. O Abismo Humano é um empreendimento e uma actividade da Associação de Artes, e por isso tomou o compromisso matrimonial para com as gémeas Ars e Sophia, duas amantes igualmente sôfregas (impávidas), insaciáveis (de tudo saciadas) e incondicionais (solo fértil à condição). O Abismo Humano compromete-se a estudar o intercâmbio da vida e da morte, da alegria e da tristeza, do amor partilhado e da desolação impossível, do qual o Abismo Humano é rebento. Como membro contra-cultura, o Abismo Humano dedica-se à destruição da ignorância que cresce escondida, no seio das subculturas, cobrindo-as à sombra do conformismo e da futilidade. Retratamos a tremura na mão do amor, a noite ardente, e a dança dos que já foram ao piano do foi para sempre.

André Consciência Imagem - Tatiana Pereira

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Ruínas Circulares

Gothic Bellydance Antes de se definir o que é Gothic Bellydance é bom que entendamos primeiro do que se trata a Dança Oriental e um pouco da sua história. Há registos históricos que provam a existência de movimentos semelhantes aos da Dança Oriental já no Paleolítico, passando pelo Antigo Egipto, Babilónia, Grécia e Pérsia. Não se sabe exactamente onde e quando surgiu a Dança Oriental porque era uma arte ensinada via oral. Há poucos registos escritos sobre esta arte. Diz-se que os povos antigos evitavam escrever sobre as suas práticas mais ocultas para que não caissem em mãos erradas. Era via oral que os sábios desvendavam os ensinamentos mais importantes. Ao longo dos tempos, a Dança Oriental foi extremamente desenvolvida e complexificada pelas mulheres que a praticavam. Desde dança Sagrada a dança culto, a dança como celebração e preparação de parto, a dança ritualista, a dança de comunhão orgânica com a Natureza; a Dança Oriental atravessou imensas culturas, passou de mulher para mulher até aos dias de hoje, onde é dançada um pouco por todo o mundo. A acompanhar as transformações e os desenvolvimentos desta arte, houve também a sua passagem para os palcos. Com isso, muito do que era tradicional e com algum objectivo espiritual mais

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Gothic Bellydance profundo, passou a fazer parte das artes de espectáculo. As roupas tradicionais desta dança deixaram de ser de linho ou algodão para dar lugar ao cetim, lantejoulas e moedas de latão. Os vestidos longos ou a nudez trabalhada de um modo subtil e erótico, deram lugar a saias compridas e tops. Os bastões que eram canas apanhadas no campo, passaram a ser decoradas com imensas lantejoulas de várias cores. A dança que era usada como um meio para entrar em transe, ou para melhorar todo o processo de gravidez e parto das mulheres, ou até mesmo em louvor aos Deuses, passou a ser coreografada de modo a ser mais aprazível aos olhos deixando para trás todo um efeito pessoal profundo. Manteve-se a natureza isolada, muscular e energética dos movimentos. Permaneceu todo um trabalho fluido entre corpo, mente e respiração. Daí a Dança Oriental ser constantemente recomendada por médicos a grávidas ou pessoas com depressões, porque já de si, mesmo com tantas transformações, continua a ser uma dança terapêutica e curativa. Numa fase inicial procura-se que as pessoas conheçam mais o seu corpo, onde se encontram as suas tensões e bloqueios, tomando mais consciência do mesmo através de movimentos simples da

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Gothic Bellydance linguagem base da Dança Oriental e de técnicas de respiração. Quando adquirem uma linguagem mais vasta desta dança e a encaram já como fazendo parte da sua linguagem corporal, há todo um processo de descoberta pelos imensos estilos existentes. O Gothic Bellydance é um desses estilos, bastante recente no mundo da Dança Oriental. Várias bailarinas do passado começaram a introduzir um pouco do estilo gótico nas suas danças, mas poucas tiveram sucesso. Devido à tão vasta história, já depois da passagem desta dança para os palcos, criaram-se conceitos dogmáticos do que seria a Dança Oriental. Tudo o que se afastava desses conceitos era rejeitado. O mesmo aconteceu com o Gothic Bellydance. A primeira grande pioneira e impulsionadora do Gothic Bellydance e do Dark-Fusion, foi a bailarina californiana Ariella Aflalo, que ficou envolvida na subcultura gótica durante a sua adolescência. Tudo começou num bar gótico em São Francisco. Rapidamente se inspirou no ambiente que a envolvia e transpôs tudo isso para a sua dança. A técnica base para o Gothic Bellydance é a mesma usada na Dança Oriental mais tradicional. O que muda é a postura da bailarina perante a linguagem desta arte.

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Gothic Bellydance Há todo um trabalho emocional muito forte no desenvolvimento do Gothic Bellydance. Explora-se nas entranhas tudo aquilo que ficou camuflado pela educação, história e crescimento das mulheres. É uma viagem ao mais profundo lado negro da mulher. Não exactamente ao lado “mau”, mas ao lado negro e escondido. É um retomar do poder feminino na sua plenitude, da sua natureza maternal e serena, mas também da sua natureza dramática, misteriosa e imprevisível. Os trajes usados são geralmente de cor negra ou cores escuras e carregadas, de modo a ajudar a expressar todo o ambiente que possui a bailarina. As apresentações de Gothic Bellydance são bastante intimistas e de forte carga emocional. O público é imediatamente absorvido numa névoa de suspense e sentimentos desconhecidos. Pessoalmente inspiro-me imenso em Deusas que têm conotação de demónio, como o caso de Lilith, o mais conhecido, ou em actividades ocultistas, como é o caso da Alquimia. Existe também uma grande transformação interior quando crio algo dentro do Gothic Bellydance. É como deixar que as águas profundas dos oceanos se desvendem à superfície e com ele todos os seres

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Gothic Bellydance desconhecidos; é a consciência da morte constante que se avizinha silenciosa, pacífica e aterradora. O Gothic Bellydance é uma dança extremamente expressiva, dramática e exploradora dos mais íntimos medos e angústias, que dá agora os seus primeiros e tímidos passos no mundo da dança e ganha aderência de dia para dia. Há uma infinidade de coisas que poderia escrever sobre Gothic Bellydance, as suas inspirações, técnicas de expressão e libertação, mas deixarei isso para um dia em que pensar escrever um livro. Kahina Spirit

As apresentações de Gothic Bellydance são bastante intimistas e de forte carga emocional. O público é imediatamente absorvido numa névoa de suspense e sentimentos desconhecidos.

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Entrevista com Patrícia Guerra

O meu nome é Patrícia Guerra, sou licenciada em artes bd/ilustração na Escola Superior Artística do Porto - Guimarães. Tenho vinte e um anos e desde sempre gostei de desenhar, sempre gostei de um universo menos formal, mais criativo que a bd e a ilustração possibilitam. Sou de Aveiro, uma pequena cidade no litoral onde já existe algum movimento artístico e do qual eu pretendo fazer parte. É sempre importante quando és estudante e te formas em alguma coisa, fazer isso útil para além de toda a tua personalidade que possas transmitir de alguma forma. Contribuir para uma mensagem, para uma formação, uma maneira estar. No fundo estar em comunicação com as pessoas que te rodeiam, seja uma cidade ou uma aldeia.

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Há quantos anos és ilustradora? Como é que começou? Bem, começou há pouco tempo com o formato de “ilustradora”, acabei a minha licenciatura em Junho de 2010. Mas, mesmo dentro do curso procurava formas de publicar, inserir-me em feiras de banda desenhada, exposições. É importante que sejas sempre um estudante activo para além do trabalho de escola. Posso considerar que há cerca de dois anos, já queria começar a inserir-me no meio. É um bicho, começa a crescer dentro de ti, quanto te dás conta das possibilidades de combinações entre o texto em imagem dentro da bd e da ilustração, não queres parar.

Aceitar-me, acreditar que o facto de estar todo o dia fechada num sítio a desenhar não é tabu, tempo perdido, que é realmente o meu trabalho.

O que se passava, nessa altura, na tua vida? Confusão, questões, incertezas. Um óptimo momento para começares a procurar quem és, não sabia bem o que queria, o que queria do meu trabalho, acreditava pouco nele, até que… Gosta do que fazes? Porquê? Adoro. É o que quero fazer. Não só apenas o trabalho artístico que tenho desenvolvido, criar histórias, ilustra-las mas como partilhar o meu conhecimento com mais gente. A formação dentro da área artística também me motiva bastante, públicos mais novos, mais velhos. Tenho feito alguns Workshops e mostrou-me como gosto de comunicar com as pessoas, com desenho e sem desenho. Já agora aproveito para dizer que a ACAV, a associação arte e cultura de Aveiro está a promover um curso de Ilustração que eu vou

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orientar, não é necessário uma formação prévia para frequentar este curso, vai funcionar como um ateliê. Ou seja, basta-te seres curioso e teres algo para dizer, o resto é lá dentro que se trata!

Qual a metodologia que utilizas? A metodologia…é complicado. Claro que existe um sistema padrão que tu usas quando estás a ilustrar ou a fazer bd. Pensar com o papel é basilar, desenhar, planificar, apontar, voltar a desenhar e voltar a planificar. Até que o que está no papel faça sentido com o que queres dizer. Tem de ser legível, tem de ter um carácter comunicativo, deves-te fazer entender. Se bem que por vezes o caos é demasiado grande para ser legível mas então tens que fazer com que esse caos valha por si próprio, que se consiga ler o Caos. O que significa para ti a arte? Essa perguntar é sempre muito complicado, uma insatisfação tremenda. Mas tentando responder, a arte está naquilo que fazes, como fazes, tem um carácter pessoal como universal. Tem um factor de comunicação como estou farta de referir mas como te digo, é uma pergunta insaciável. Nunca é só o que eu digo ou o que eu acho. Consegues definir esta palavra e concebe-la na tua mente, talvez, mas por exemplo, foi como na altura da pop arte surge uma tentativa da ilustração da palavra “arte” e tens a própria palavra a valer por ela própria, é arte. Como é o comportamento de Portugal face ao ilustrador? O comportamento, é semelhante como a postura de Portugal em relação a um milhar de coisas. Indiferença, não há preocupação. Tens essa palavra em montes de mãos a fazer malabarismos no mercado, tens as palavras como designer gráfico e designer e a palavra ilustrador, autor, surge pouco. O trabalho de um autor, de um pintor, de escultor, escritor deve ser valorizado, é pessoal, é uma comunicação. É o que contribui para a tua cultura, no fundo. E o que se passa, é que este nível pessoal, diferente, criativo passa para um canto, porque 13

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simplesmente, não vende. É negócio. Sentes que o que fazes te ajuda a trabalhar-te enquanto pessoa e enquanto pessoa pensante e sensível? De que forma? Sem dúvida. Deves ter sempre uma postura crítica em relação ao teu trabalho para te fazer crescer. Limares até não poderes mais, encontrares novas formas, novas técnicas. Para conseguires sempre ultrapassar a barreira anterior e não estares sempre a passar a mesma. Qual a obra que mais te deu prazer? A que ainda hoje não consigo olhar para ela. São uma serie de ilustrações de um poema da Sylvia Plath, “Three voices”. É super intenso, depressivo, mergulhas mesmo para um sítio desconhecido. Estás a vestir uma pele, e eu vesti-a, mas se calhar ainda não a despi, então não consigo ver aquele trabalho numa posição de observador. Mas foi o que me deu mais luta por ser poesia, és obrigado a ser metafórico e incisivo.

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Quais as principais dificuldades do teu processo criativo? Aceitar-me, acreditar que o facto de estar todo o dia fechada num sítio a desenhar não é tabu, tempo perdido, que é realmente o meu trabalho. O que mais gostas de exprimir? A mim, os outros, o que nos rodeia. Dentro de outras artes, quais as tuas principais fontes de inspiração? A inspiração, tu encontra-la, ela encontrar-te a ti. Anda sempre contigo, se gostares de observar onde andas, as pessoas que te rodeiam, tem-la sempre ao pé de ti. Procuras passar alguma mensagem? Sim. Mudança, arranque, evolução, educação.

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

Extracção

Há uma cadeira onde estou sentado ou uma cama onde estou deitado. Não sei que objecto é este porque não me disseram quando para aqui fui trazido. Às vezes saio daqui, vêm buscar-me para me levarem para o jardim. Sei que é para o jardim porque é isso que me dizem. Costumam acompanhar-me até lá, mas às vezes vou sozinho. Abrem a porta e dizem-me para ir. Ou vou sempre sozinho porque aquele que me acompanha também sou eu. Devo quase de certeza ir sempre sozinho. O do outro lado vai sempre acompanhado. Tenho a certeza que vai sempre acompanhado porque os vejo lado a lado. Quando chegam ao jardim, o que o acompanha ajuda-o a sentar e depois ficam a conversar. Às vezes o do outro lado grita bastante e quando grita o que o acompanha faz-lhe qualquer coisa e ele cala-se. Depois levantam-se e passeiam pelo jardim. Nunca contei quantas vezes vão passear antes da hora de almoço, já me disseram que vão uma mas nunca contei. Eles vão para ali, de onde veio o que trazia a espada. Ele tinha óculos e uma espada na mão. Não, não tinha óculos, só a espada. Refaço a frase: o que veio dali não tinha óculos mas tinha uma espada na mão. Ele vinha a andar, colocava um pé diante do outro e é por isso que

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

Extracção

sei que vinha a andar. A espada era pontiaguda e afiada e ele dizia pelo caminho que a espada estava bem afiada e é por isso que o sei. Eu vi-o pela janela do meu quarto. O do outro lado não viu o homem da espada porque não estava no jardim. A janela está a três passos da cama ou da cadeira. Já os contei, foi a segunda coisa que fiz quando aqui cheguei. Disseram-me “Agora ficas aqui e a partir de hoje este é o teu quarto”. Contei três passos para lá e outros tantos para cá. Também medi quantos palmos são para lá e para cá mas já não me lembro. Creio que será melhor apontar estas informações para não me esquecer: 1. Isto é o meu quarto 2. São três passos entre a cama ou cadeira e a janela 3. São três passos entre a janela e a cama ou cadeira 4. Ali é o jardim Também me disseram que posso ver o jardim pela janela e indicaram-me a janela. Depois levantei-me e desci as escadas para saber a data. Ali fora há escadas. Para as descer coloco um pé diante do

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

Extracção

outro e sempre num nível abaixo. Foram dois homens que me trouxeram para aqui quando descobriram que eu tinha saído do quarto sem autorização, os mesmos que me disseram “Agora ficas aqui e a partir de hoje este é o teu quarto”. Deixaram-me e fecharam a porta. Disseram também que há a hora de almoço e explicaram-me que é lá que nos dão comida. Não me parece haver nenhuma razão plausível para estar sentado. Será melhor levantar-me agora. Creio que a partir deste momento os meus gestos e os meus movimentos são inaptos. Concluo que ficarei imóvel, de pé e tão quieto quanto possível. Deixarei os braços caídos ao longo do corpo e pestanejarei quando apenas for estritamente necessário pois pretendo manter os olhos abertos e assim ficarão até ao limite das forças de cada pálpebra. Essa será a altura em que pestanejarei mas fá-lo-ei tão rápido quanto possível de modo a minimizar o tempo dedicado ao movimento. Quanto aos outros movimentos, como a circulação de sangue e de ar, terei de descobrir a maneira de os cancelar, mas deixarei esse assunto para outra ocasião. Para já limitar-me-ei a permanecer de pé e

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

Extracção

imóvel. Nesta posição não poderei ver o jardim porque não fiquei virado para a janela. Também não poderei ir para a hora de almoço. Abrirão a porta mas ela ficará escancarada até alguém a encerrar. Eu não sairei e, por isso, não poderei entrar, mas mesmo assim fecharão a porta depois de eu não ter regressado para aqui. … Sinto pressão nas pálpebras. Querem fechar-se mas não as deixo. Ainda não. Daqui a pouco. Para já deixarei os olhos abertos. … Não sei quantos meses se passaram desde que estou assim, talvez nenhum. Os meus braços continuam caídos ao longo do corpo. Os olhos deixaram de se conseguir fechar. Agora estão sempre abertos porque as pálpebras já não se fecham. …

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

Extracção

Às vezes vejo a mão e um pouco do braço do que abre a porta. … Dia seguinte: inexistente. … Dia depois do dia inexistente: abriram a porta e um deles disse “Olha, este ainda está de pé!”. Passado um bocado fecharam a porta. … Deixei de sentir o meu corpo por estar de pé há tanto tempo. Não sinto os braços portanto não sei se estão em movimento ou se estão parados. Terei de aprender a interromper o crescimento do cabelo e da barba.

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

Extracção

… A minha estrutura óssea deve ter perdido a capacidade de se movimentar. O esqueleto passou a estar ajustado à posição de pé. Para me movimentar terão de me dar um encontrão de modo a que o meu corpo oscile um pouco. Caso seja necessário, será assim que me transportarão. …

Passei grande parte do dia de ontem. Disseram-me que era o dia de ontem. Foi um homem que entrou e pôs-se à minha frente. Baixou e levantou o maxilar enquanto disse. Vi-lhe a boca, a língua e a saliva. Depois foi-se embora a saliva, a língua, o maxilar e o homem, por esta ordem. Também havia suor mas esse ficou. O homem regressou pouco depois porque se deve ter esquecido do suor mas saiu sem o levar porque não o deve ter encontrado. …

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

Extracção

Dia em que ele veio: não sei o nome dele. É um homem grande, anafado e balofo. Ele disse que queria curar o meu problema. Não lhe pude dizer nada porque perdi a capacidade de falar. …

Consegui finalmente parar a circulação de sangue e de ar dentro de mim. Neste momento deixei de precisar do sistema circulatório e do sistema respiratório. Já tinha feito suspender tudo o resto, só me faltavam esses dois. Deste momento em diante, o meu corpo começará a secar e a desidratar.

Nuno Bastos http://oblogdoantihomem.blogspot.com

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O Céu O céu ao Olímpio Ferreira em memória e agradecimento

A noção de espaço no tempo e a de tempo no espaço, eis a ideia a adquirir, disse o Homem-Rio. Óptimo, respondi enchendo a chávena de chá, Vou-me embora, ao mesmo tempo que ele corre as ruas e está frio e os transeuntes lhe parecem distantes. E no mesmo espaço o Homem-Rio acendia o narguilé e fechava os olhos pronto a vogar nos limbos da sua matriz. Uma folha na água, gotejando o silêncio. António sobe as escadas com o seu corpo de cinzas, carregando atrás de si a escuridão dum monótono vazio. - Sr. Marques! ouve dentro do som duma porta abrindo, a porteira surgindo como bolor num queijo, o som do interruptor e a luz bafienta acendendo-se para a madeira velha das paredes. António carrega no botão do elevador como se suspirasse. - A reunião de inquilinos de hoje ficou marcada para amanhã, sr. Marques. Olhei para cima, a janela acendeu-se e soprei, uma chama branca e tremeluzente, com inaudíveis explosões nervosas que despoletam danças. Parecia-me que este oceano era o mar dos afogamentos. A janela abriu-se, eles sorriam numa vazia partitura, no fumo azulado que invadia o ar da sala. Uma folha na água, gotejando o silêncio. Ele bebe o gin-tónico e

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O Céu

saboreia o cigarro. Todo o movimento que o rodeia é inacção, toda a cor mero tom; acabou de cortar os cordões umbilicais que o ligavam à mãe-terra e agora só existe o surdo eco do vazio ressoando no ventre do seu cérebro; é água, pedra morta inacabada. O Homem-Rio acendeu o narguilé que se apagara e desatou a rir. Contemplei o brilho dos meus próprios olhos e bebi um gole de chá. As cores brilhavam como sonhos por vir, um violento contraste de dinâmica serenidade. Uma folha na água, gotejando o silêncio. Ela está deitada no sofá, respirando como se o ar lhe pertencesse ou fosse uma extensão do seu corpo felino. Descansa da sedução, vermelha, enquanto o momentâneo silêncio da hora do almoço lho permite. Logo, chegarão os outros e o escritório encher-se-á de corpos, solidões e jogos de equilíbrio. Respira, como um jogador de boxe preparando-se para o combate, a fera descansando após a caça. A superfície lisa do lago espelha-se até ao horizonte explodindo laranjas e encarnados sombrios. Estava entupido de chá e fumo. Vim para a varanda, olhar para o deserto branco como a noite, e enchi a chávena com tequilla que me ardeu o pensamento. O sol no céu nocturno está hoje silenciosamente histérico, como um corpo imóvel de tensão acumulada. - Grande é o deserto, disse o Homem-Rio, mas maior que o deserto é o pequeno oásis com a sua água e frescura. Solange sentou-se, ajeitou a saia e passou a mão pelo cabelo, e como que silenciou a respiração numa adaptação à situação que mudara com o som da porta de entrada abrindo, e fechando. Solange sorri aos passos que avançam corredor fora, aproximando-se, leves na alcatifa, os

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O Céu

passos seguros do corpo que conhece o espaço onde se move por dentro, as paredes, portas e móveis. Solange levanta-se e acende um cigarro, os corpos quando seguros na psicologia do espaço podem eclodir à luz dos sentidos e atraírem-se numa força ilusória de vitalidade, sentimento, Então, Álvaro, foi bom o almoço? O corpo inseguro de Álvaro senta-se no sofá. É um engano, a luz esvai-se com a morte? Solange fixa os seus olhos em Álvaro e age-os brilhantes como punhais, sorrindo cruéis, sentindo no enrijecer dos seios o desejo surgir etéreo, imbuído duma vontade de subjugar aquele homem que parece esquecido no sofá, com o seu melífluo sorriso de falso sedutor, o onanista disfarçado, De te ter em mim pelos nervos, pelo sangue, pela mente. A tequilla escorria das veias para os sentidos com uma ferina alegria. O deserto olhava para mim num agarro de pânico, como um corredor branco a estilhaçar. Algo me pressionava a fronte e os meus olhos engoliam o céu encarnado que me feria como uma chama entrando líquida. Eu girava. Dum modo estranho, pois girava sem referência, sem centro de gravidade ou eixo de rotação, como se planasse num espaço de que os meus sentidos não recebessem sinal que eu reconhecesse e pudesse descodificar, espaço esse que se fundia com uma expansão explosiva no que me rodeava. Deixei cair a chávena para a rua e abri a boca num esgar de riso. Voltei-me, o Homem-Rio sorria-me como uma imagem fixa, envolto em fumo, distante. Estou-me a esvair, disse-lhe eu, Estás-te a transformar naquilo que vês, pareceu-me ouvi-lo dizer antes de tudo escurecer. Solange senta-se no beiral da janela e aninha-se no sol que refulge contrastando com a sombria luz fluorescente em que Álvaro se encontra, O parvo do Simões, vê lá tu, é mesmo velha rés, até as borrachas de apagar lápis conta, o sacana do velho. Os outros vão

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O Céu

chegando, a quente imobilidade da sedução dissolve-se lentamente no movimento sincopado do inútil trabalho. Solange fecha as cortinas abafando o sol, senta-se à secretária, A guia de marcha afinal é para onde? Álvaro ri, Para Sueste! Solange estremece, Não percebi, pareceu-me ter ouvido… Como se tirassem as flores do sonho duma criança, Álvaro, passa-me aí o corrector, O sol, Álvaro, o sol, Uma folha na água, gotejando o silêncio. Vítor Mácula

Olhei para cima, a janela acendeu-se e soprei, uma chama branca e tremeluzente, com inaudíveis explosões nervosas que despoletam danças. Parecia-me que este oceano era o mar dos afogamentos. A janela abriu-se, eles sorriam numa vazia partitura, no fumo azulado que invadia o ar da sala.

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O Homem do Casaco Negro

Como já passavam quarenta e cinco minutos da hora combinada, o homem do casaco negro e aspecto soturno pagou o seu whisky velho, ofertando ao nervoso empregado de mesa, que esboçava alguns tímidos sorrisos na tentativa de cativar o impávido cliente, uma nota de cinco euros. Levantou-se e saiu em seguida, ao mesmo tempo que lançava olhares desconfiados em todas as direcções. Imediatamente após ultrapassar a porta de saída, um outro homem, com uma postura bastante mais expressiva e um olhar de alegre expectativa, entrou e sentou-se no lugar recentemente abandonado. Pediu afavelmente uma água com gás ao disposto empregado e fez questão de pagar nesse momento. Esfregava as mãos com impaciência e recusava mesmo acender o cigarro que tanto estava a ansiar. Esperava uma bela musa, a ninfa da criatividade que o levara a escrever aquela peça ainda antes de ter sequer dialogado alguma vez com ela. Ainda antes de lhe poder encontrar defeitos – quando em tudo se assemelhava a uma deusa. Agora, a jovem actriz Julieta iria poder ler a peça que para ela fora escrita, onde ela assumiria a personagem principal com todo o seu efervescente esplendor. A obra que faria brilhar tanto o autor como a actriz. Passou, disfarçadamente, um esguio guardanapo de papel pela testa, de forma a eliminar algum suor derivado da expectativa. Ela devia estar prestes a chegar e iria ser um momento de êxtase, aquele em que os seus olhos pousassem naquela alta figura de olhos brilhantes e longos cabelos loiros. O seu olhar desviou-se para o relógio. Faltavam ainda alguns minutos. Batimentos cardíacos. Entretanto, o empregado havia já pousado a pequena garrafa

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O Homem do Casaco Negro

e o copo sem que ele desse conta. A água começou a fervilhar para dentro do copo, assim como os seus dedos fervilhavam em suaves tremores. Nunca tinha visto Julieta a uma tão próxima distância. Já várias fotografias lhe haviam passado pelas mãos e, certa vez, fascinou-se com uma peça, na qual actuava uma deslumbrante rapariga – a sedutora Julieta. Também por uma vez ouvira a sua voz ao telefone, visto existirem amigos em comum e ela ter, casualmente, atendido o telefone de uma amiga para quem ele ligara. O primeiro contacto iria ser uma surpresa, pois ela tanto poderia ser a cândida criatura que ele engrandecera na peça como se poderia revelar uma daquelas figuras artísticas mesquinhas, consumidas pelo ócio mental da superficialidade. O ideal seria algo entre estes dois extremos. Fosse como fosse, ele sonhava com uma Afrodite encantada e, de qualquer modo, iria precisar dela como actriz. De súbito, ao olhar pela janela do café, percebeu que uma bizarra situação estava a acontecer na zona do jardim que ficava quase em frente. Um homem de casaco negro batia ininterruptamente numa frágil rapariga que, com os finos braços tentava proteger, em vão, o rosto. Cada vez mais a violenta cena aumentava de intensidade e, quando ele ia avisar os restantes ocupantes do café, o seu rosto empalideceu e não conseguiu dizer nada – a vítima era uma alta rapariga loura, a dourada Julieta. Nada disse. Saiu a correr desenfreadamente deixando para trás, sobre a mesa do café, os textos da sua obra. Todos olharam com espanto para a sua estranha atitude, acompanhando numa panorâmica visual o seu percurso, mas como o jardim só era visível do ângulo em que ele estava sentado,

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Hieróglifos Existenciais Labirintos Prosaicos

O Homem do Casaco Negro

rapidamente o perderam de vista, ignorando a situação com os típicos comentários de café. Entretanto, ele corria e pensava em que atitude iria tomar, qual seria a sua abordagem, o que teria conduzido a nobre Julieta àquele desígnio, e, à medida que se aproximava, percebia e certificava-se que era mesmo ela quem ali estava a ser submetida àquele triste espectáculo de violência. Deixava agora de pensar. Uma amálgama de pensar e não pensar, tudo com o contorno da excitação e do receio. Todas estas reflexões ocorreram em menos de um minuto. O agressor reparou que alguém se aproximava a correr mas decidiu ignorá-lo ou, simplesmente, estava demasiado seguro da sua condição. Eis que, enquanto o homem do casaco negro empurrava Julieta contra uma árvore, ele se lançou sobre o dito homem com uma breve e imperceptível troca de palavras a que o oponente tentou responder. Começaram a rolar pelo chão numa dança de movimentos que apelavam à destruição. A rapariga chorava mas eles estavam cegos de raiva, sedentos de sangue. Estava tudo a acontecer demasiado depressa sem deixar tempo para qualquer tipo de raciocínio que pudesse acalmar o estado eufórico que se fazia sentir. De súbito, quase sem ter consciência disso, ele conseguiu agarrar uma aguçada pedra que num ápice, sob o encantamento da voz feminina que lhe ditou – “Dá-lhe na cabeça” – desferiu três vezes seguidas na cabeça do seu adversário. O homem perdera os sentidos. O sangue jorrava. Ele, de joelhos, olhava placidamente para Julieta que, qual trágico fantasma de uma premonição, não era Julieta, mas sim uma também jovem

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e bonita rapariga com algumas semelhanças a Julieta. Desespero. A rapariga começou a fugir para os meandros do obscuro jardim sem soltar palavra alguma. Ele estava ali, sozinho com o possível cadáver de um desconhecido e não tardaria até que alguém passasse e notasse o sucedido. Levantou-se confuso e sem saber o que fazer. Incoerência mental. Abandonou o local em passos rápidos tentando assim afastar a sua presença do local do acidente… ou crime. Tentava ilibar a sua consciência mas os vestígios de sangue que ornamentavam a manga direita da sua camisa não o deixavam fugir ao medo. Por entre toda a mescla de pensamentos e fantasmas que o assolavam, ocorreu-lhe que esquecera o seu tão precioso trabalho sobre a mesa do café. Apressou-se a ir reavê-lo, apesar de não saber ainda como iria encarar aquelas pessoas. Não que estas pudessem suspeitar de alguma coisa, mas ele teria a sua cabeça, o seu medo e nervosismo a comandarem-lhe a voz e os gestos. Uma atitude comprometedora. Aproximou-se da vitrine e viu então, numa outra mesa, Julieta, que parecia procurá-lo com o olhar entre todos os anónimos presentes. Na mesa onde ele estivera já não estava o maço de folhas mas sim um inchado croissant que uma obesa mulher de meiaidade devorava. Não poderia entrar! Teria de apelar ao empregado pelas folhas e, estando uma vez lá dentro, Julieta iria vê-lo e seria terrível comunicar com ela naquele estado. Além disso, ele poderia ser um homicida – a triste vítima de um equívoco. Quem seriam o homem do casaco negro e a rapariga que ele espancava? A sua Julieta estava ali, a poucos metros, esplendorosa e de saúde. Ó trágico destino! Quanto tempo levaria até que a polícia desvendasse o mistério? Será que chegariam até ele? Como

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conseguiria ele explicar aquele estranho enredo? Estas eram algumas das questões que lhe fulminavam a cabeça. A sua carreira que ainda há pouco começara iria terminar. Afastou-se rapidamente do café e caminhou sem rumo demonstrando uma hipersensibilidade a todos os ruídos que ouvia. Meneou a mão num espasmo repentino deixando visível o relógio que marcava vinte e três e dez. Já não caminhava. O seu corpo parecia arrastar-se sob o desassossegado tormento da sua sina. Sentou-se junto a um mendigo e narrou-lhe todo este ambíguo episódio da sua existência. De início, o mendigo julgou ser um louco, alguém com distúrbios psicológicos que se sentara a seu lado apenas para fumar um cigarro e contar uma história da sua fantasiosa imaginação. Mas, aos poucos, o discurso do homem foi ganhando credibilidade deixando até o mendigo em estado de exaltação. Era alguém que descarregava o seu fardo psicológico num vagueante mendigo, por este não pertencer aos alicerces que constroem a sociedade. Após ter partilhado todo o seu desespero o homem levantouse e continuou silenciosamente o seu caminho. Quinze anos mais tarde, o mendigo, a quem ele confidenciara o seu episódio, continua a falar às pessoas no seu amigo escritor que conheceu de modo tão estranho e acrescenta: - Ainda hoje me pergunto o que terá acontecido àquele estranho e como terá resolvido o seu problema. Confirmei que foi assassinado um homem de casaco negro naquela noite, mas não soube como. Será que o jovem me contou a verdade?

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Por vezes, quando passo junto do teatro e vejo alguma actriz alta e loura, penso se aquela não será a Julieta do homem com quem falei naquela noite. Vasculho nos nomes dos actores mas ainda não encontrei Julieta. Será que realmente existiu? Emanuel R. Marques

A rapariga começou a fugir para os meandros do obscuro jardim sem soltar palavra alguma. Ele estava ali, sozinho com o possível cadáver de um desconhecido e não tardaria até que alguém passasse e notasse o sucedido. Levantou-se confuso e sem saber o que fazer. Incoerência mental. Abandonou o local em passos rápidos tentando assim afastar a sua presença do local do acidente… ou crime.

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Espelho

Só a cidade entende a minha solidão. Sento-me num banco em Santa Catarina e observo as ciganas a conversar. Cheira a castanhas e a fumo, mas o ar demasiado húmido é morno, como se ainda fosse outono. Elas riem-se e bamboleiam as ancas enquanto se movem pela rua, falando alto. Têm uma forma especial de andar, as ciganas, uma forma rude mas sensual de se moverem, como se o mundo fosse um palco e elas as bizzarras e sedutoras bailarinas do mais antigo cabaret. A húmidade condensa-se no meu cabelo, cobre-me por dentro e por fora. Ao meu lado senta-se uma mulher morena e enrugada, de cabelo branco. Senta-se demasiado perto, e imita o meu olhar. Desconfio de quem seja - nestes dias tenho esperado a loucura - e a húmidade condensa-se também sob as minhas pestanas, deslizando lenta e fria pelas curvas do meu rosto. Subitamente, a mão dela está sobre a minha. Inalo o ar pesado quando os seus dedos se fecham como garras de pássaro nas minhas mãos, duras e quebradiças como galhos secos de uma árvore. Ela cheira a mim. Olhamo-nos, longamente, turvamente, alheias ao som e ao tempo e embaladas pelo mover da cidade. Como num abraço, existimos ambas e somos sós, unidas e separadas pelo tempo de uma vida. Ela inclina-se para mim, como se me fosse confidenciar um pensamento, e sorri um sorriso triste. Aperta a minha mão uma vez mais - um sinal secreto que só a idade e a dor conhecem - e parte, desaparecendo na multidão. Aynn

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Captações Imaginárias Banda Desenhada

Angloume, Patrícia Guerra

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Captações Imaginárias Ilustração

Patrícia Guerra 35

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Captações Imaginárias Ilustração

Patrícia Guerra 36

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Captações Imaginárias Ilustração

Borus Aura

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Captações Imaginárias Ilustração

Borus Aura

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Captações Imaginárias Arte Digital

To be or not to be, Ruela http://neoartes.blogspot.com/

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Captações Imaginárias Fotografia

Vânia Santos www.vaniasantos.pt.vu | vania.mcsantos@gmail.com

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Captações Imaginárias Pintura

The Presistence of Loss [2011], Marco de Oliveira http://www.facebook.com/MarcoandtheBanshees

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Captações Imaginárias Pintura

Winter Garden [2010], Marco de Oliveira http://www.facebook.com/MarcoandtheBanshees

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Captações Imaginárias Pintura

Bichos, Rui Sousa www.ruisousaartworks.com

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Captações Imaginárias Pintura

Relax, Rui Sousa www.ruisousaartworks.com

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Captações Imaginárias Pintura

EX5, Rui Sousa www.ruisousaartworks.com

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Escreva-nos para abismohumano@gmail.com A revista Abismo Humano reserva-se o direito de publicar os melhores poemas e artigos de opinião na secção Coliseu dos Assinantes.

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