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Editorial 9 A Associação de Artes 'Abismo Humano’ dedica-se ao aproveitamento da tendência artística presente nas novas camadas jovens e a integrar, junto da arte, os valores locais, bem como ao entretenimento, educação e cultura de forma a ocupar os espaços livres na disposição dos seus associados. Para tal a associação compromete-se a contactar vários artistas, tanto na área da pintura, da literatura, escultura, fotografia, cinematográfica, ilustração, música e artesanato, de forma a expor as suas obras tanto num jornal de lançamento trimestral, consagrado aos sócios, como na organização de eventos, como tertúlias, exposições, festas temáticas, concertos e teatros. A associação das artes compromete-se igualmente a apoiar o artista seu colaborador, com a montagem de, por exemplo, bancas comerciais e com a divulgação do trabalho a ser falado, inclusive lançamentos, visando assim proteger a arte do antro de pobreza ingrata e esquecimento que tantas vezes espera as mentes criativas após o seu labor. Os eventos, que são abertos ao público, servem inclusive o propósito de angariar novos sócios, sendo que é privilégio do sócio, mediante o pagamento da sua quota, receber o jornal da associação, intitulado de “Abismo Humano”. Este jornal possui o objectivo de divulgar as noticias do meio artístico bem como promover os muitos tipos de arte, dando atenção à qualidade, mais do que à fama, de forma a casar a qualidade com a fama, ao contrario do que, muitas vezes, se pode encontrar na literatura de supermercado. Afiliada às várias zonas comerciais de cariz artístico, será autora de promoção às mesmas, deixando um espaço também para a história, segundo as suas nuances artísticas, unindo a vaga jovem ao conhecimento e à experiência passada.

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Sumário Editorial Sumário Manifesto Ruínas Circulares Hieróglifos Existênciais Flauta de Pã Labirintos Prosaicos Captações Imaginárias Desenho Pintura Arte Digital Fotografia

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Publicidade

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Alma Púrpura Aeternum X

página 7 8 19 Poesia Ariadne do Castelo

página 08

Poesia Tatiana Pereira

página 10

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Desenho

Desenho

Nuno Bastos

Jaime Neves

página 27

página 31

Arte Digital

Fotografia

Joana Dias

Ana de Macedo

página 39

página 43

Abismo Humano


Manifesto Abismo Humano O

Abismo Humano compromete-se a apresentar a sapiência, o senso artístico, e o cariz cultural e civilizacional presente no gótico contemporâneo tanto como nas suas raízes passadas. O Abismo Humano toma o compromisso de mostrar o que têm tendência a permanecer oculto por via da exclusão social, e a elevar o abominável ao estado de beleza, sempre na condição solene e contemplativa que caracteriza o trabalho da inteligência límpida e descomprometida. O Abismo Humano dedica-se a explorar as entranhas da humanidade, e é essencialmente humanista, ainda que esgravatando o divino, e divino é o nome do abismo no humano. O Abismo Humano é um espaço para os artistas dos vários campos se darem a conhecer, e entre estes, preferimos as almas incompreendidas nos meios sociais de maior celebridade. O Abismo Humano é um empreendimento e uma actividade da Associação de Artes, e por isso tomou o compromisso matrimonial para com as gémeas Ars e Sophia, duas amantes igualmente sôfregas (impávidas), insaciáveis (de tudo saciadas) e incondicionais (solo fértil à condição). O Abismo Humano compromete-se a estudar o intercâmbio da vida e da morte, da alegria e da tristeza, do amor partilhado e da desolação impossível, do qual o Abismo Humano é rebento. Como membro contra-cultura, o Abismo Humano dedica-se à destruição da ignorância que cresce escondida, no seio das subculturas, cobrindo-as à sombra do conformismo e da futilidade. Retratamos a tremura na mão do amor, a noite ardente, e a dança dos que já foram ao piano do foi para sempre.

André Consciência Imagem - Tatiana Pereira

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Ruínas Circulares

Www.AlmaPurpura.Com

Alma Púrpura

Alma Púrpura é um projecto de som que nasceu em Setembro de 1999 no coração de Lisboa e que começou por uma simples gravação registada em cassete, na altura com uma sonoridade muito básica e experimental, baseada em música Noise. Durante os 3 primeiros meses, Aeternum X (mentor do projecto), experimentou criar ambiências sonoras continuas através de um teclado Casio CT-670 ligado a um pedal Zoom 505 para guitarra eléctrica, mas foi em Dezembro desse mesmo ano que saiu a 1ª demo-tape oficial do projecto, denominada “Spiritus Provocator”, gravada num Tascam de 4 pistas ana-

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Ruínas Circulares

Www.AlmaPurpura.Com

Alma Púrpura

alógico e que viria a ser o pilar fundamental da sonoridade posterior. O “Spiritus Provocator” saiu em cassete e foi uma exclusividade (limitado a 10 cópias apenas). A sonoridade típica desta demo, caracterizou-se por ambiências obscuras e hipnóticas de suspense e medo.

Após alguns meses, concretamente em Março do ano 2000, eis que surge uma 2ª demo-tape intitulada “Aeternum/

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Ruínas Circulares

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Alma Púrpura

Holocaustum”, que viria a seguir os passos da 1ª, mas com um som mais agressivo e ruidoso. Desta feita, não saíram cópias para o exterior, ficando a demo arquivada em homestudio e lançada uns anos mais tarde pela Internet. O projecto esteve em hiato durante 7 anos e foi em início de 2008 que foi lançada uma nova demo: “Illum Dii Male Perdant”. Esta demo marcou o retorno de Alma Púrpura num novo formato, o digital e sob uma sonoridade mais Dark Ambient, mas com traços visíveis de experimentalismo e um famoso Intro com arranjos orquestrais. A partir daqui, o som do projecto foi caminhando dentro de uma linha própria, dando origem a várias demos e a outras sonoridades, como a música Neoclássica e a influência do Sci -Fi em temas como “Bermuda Triangle” e “Planets”. Está também patente no projecto, ao longo do percurso de vida deste, uma sonoridade ao estilo cinematográfico, característica dos filmes de drama e horror norte-americanos, mas a essência do som em Alma Púrpura, será sempre misteriosa, cativante e enigmática, podendo até entrar no conceito de música progressiva. 7

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

RELEVO

Se a minha paisagem são altos relevos na busca incessante, então abrem-se clareiras na fugaz evidência. Pelas abertas rompe a luz, os cheiros intocados na impermanência, as imaginárias ervas, orvalhadas, afagando cada passo, o rasgar da rota formando ondas, o canto dos pássaros sustentando a cadência. Se a minha paisagem são altos relevos de nuas escarpas, de espinhosas folhagens, de ventos sibilinos, então, nos vislumbres do protagonista, são vales de calmaria, são planícies deitadas ao sol, adormecidas.

Ariadne do Castelo

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

A Míngua É assim a míngua: toda uma perspectiva em desconstrução. É diferente de não ter nada - nada à partida - a míngua é um nada em exposição sobre uma fatia de esperança, duas fatias de imaginação, perfídia do desejo, vou trabalhando as várias camadas da obra... É assim a míngua: pontos de bolor carcomendo a tela de luz. É diferente da noite escura, da mais absoluta treva, é ter sonhado um dia, uma alvorada, ainda que baça mas quase observável, tão perfeitamente adiada. É a voz cristalina e pura, sempre calada. Ariadne do Castelo

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

HARMONIA

Cemetery Tree - Mark Bauschke

Ouço sinos tocados p'los anjos e as flautas dos faunos Vejo ilusionistas refulgentes em telas negras de carvão E unicórnios entrelaçados em serpentes Sinto na face a brisa perfumada das fadas E respiro o pó das estrelas A terra húmida entre as ervas; Fendida Sob a carícia de trovões; Derramando O incenso da Lua sobre os mares de prata E a matéria incandescente sobre os rochedos Carrego no peito o fardo de harpas e tambores Que de melodias celestes pulverizam o ar E que de véus cobrem A atmosfera etérea dos sepulcros Tatiana Pereira

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

Despertar A água das manhãs e a frescura vegetal De seiva volátil preenchendo os dias Soprando em vozes de cisnes alados Com paisagens ululando ao sabor do vento As manhãs, afagando plumas de serafins Germinando em solos mortos E á beira dos rios Com diamantes caindo em gota Espectros pairando para lá das nuvens E rosas brotando do céu Vórtices de cores na transparência dos dias E cristais nos pontos de luz do sol O leito de pétalas escarlates E do azul infinito do horizonte Os grãos de areia da montanha Crepitando na fogueira da nascente Onde a dormência da neblina Repousando na folhagem verde de jardins Cobertos de geada prateada e luminescente Se mistura com o sussurro silencioso dos narcisos Tatiana Pereira

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

A Tua Boca Escrevo para o vento contra o odioso silêncio os seus bichos milenares e o vazio que ganha contornos de branca loucura uma sanguessuga obscura e profunda dentro das imagens incendiadas onde recordo o rosto que nunca conheci as pessoas solares afastaram-se de mim as minhas feridas brilham como vibrantes libélulas por cima das águas estremecidas pela insónia deixei de as lamber porque sou um soldado com uma só dor original erguida da fundura do meu nome algo que não podes curar com o teu sexo e o teu cheiro de laranjeira marinha que se passa aqui? devo carregar a noite nos ombros e nos olhos devo ser fiel aos meus sentidos e sentir abandonar e abandonar-me ressuscitar morrendo por dentro da Casa da beleza INUTIL N U T I L

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

A Tua Boca Esta cabeça fonética com caixas de música luzes precariamente equilibradas na linha do horizonte venenos acessíveis a poucos este mundo ligado ás artérias das madrugadas aos compassos do poema que abre e fecha a paixão as flores internas acendem esta boca repentina de astros estas mãos torrenciais de azul esta pele levantada para que vejas a carne combustível sobre o amplexo perfeito do sonho um trompete arrancada à raiz da lua transbordantes desastres pressentidos na fluidez fotográfica dos corpos este quarto cheio de ignorância de mim próprio este coração que bate para trás devora a memória que diz o gelo de todas as noites em que não te encontrei de todos os dias em que passas e me deixas à chuva ardendo por uma palavra não quero saber de mim já não me importo não tenho medo do eclipse que alastra pelos dedos alucinados sobe à cabeça esgotada pelo silencio o nervo da solidão agreste pensa essa mulher de pedra esmagada contra a eternidade sinto a voz que minha Mãe me deu

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

A Tua Boca ténue vaga aparição longínqua espuma movimentando-se na pálpebra que fecha a luz que me habitava antes de me precipitar que se passa? não estou triste não tenho ambições guardo as coisas que importam debaixo da língua um lugar para a tua boca devorar quando quiser. Carlos Ramos

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

Treva O poema move-se na obscuridade Do seu escuro pensar no jardim de negras flores onde o poeta sangra Perde-se o nome na boca errada o cansaço e a insónia crescem dos olhos metafóricos cães fantasmas devoram a paixão onde a vida ganha violentas formas uma estranha águia rasga com o seu bico a têmpora febril do homem que escreve o seu abismo a sua árvore a sua melancolia cravada na limpidez dos dedos da terra devastada pelas avenidas desarrumadas onde deambulo escurecido de beleza rudimentar fixo a corda ao cais maternal onde recordo a ternura completa das roseiras de seda a infância arrasada pelo crescimento do corpo alimento o peixe estelar trabalho para ti desde sempre mesmo que não o entendas mesmo que não o vejas mesmo que não o sintas espero em silencio como o monge de Friedrich esqueço as cores que me habitavam entrego-me ao minucioso trabalho

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

Treva das mãos por dentro do corpo à colheita da luz que escorre das madrugadas dos campos ferozes onde habitamos a Casa de solar arquitectura eu imagino com delicadeza essa claridade as sementes preciosas do amor por germinar veneno espalhado pelo sonho por sonhar um alicerce suspenso na noite que me toca o rosto iluminando-o de exuberante treva. Carlos Ramos

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

Palavra Pudemos colocar a fé onde nos é permitido ou seja a meio do caminho onde só passam as crianças e os trespassados e os desalojados e os desprezados e os que por abrigo escolheram o céu nocturno para abrir os olhos da tempestade que é estar nu e se transformaram em gente imensamente rica porque puderam fechar os buracos negros da memória transformar os erros em clarividentes metáforas a sujidade em branco amanhecer e esquecer… a minha direcção é entre esse vento norte e a verdade que tudo magnetiza medusas estelares cidades costeiras precipitas pelo grito oceânico constelações iluminadas na intensidade dos teus olhos boreais os passos em volta do meu nome levantado entre império nenhum e as mãos abertas sobre as nossas frágeis vidas atiro-me contra as paredes futuras de nossa Casa sonho um coração felpudo feito de espuma estrutural e asas de borboletas azuis escrevo o canto do pássaro matinal cheio de folhas e a ternura desmedida do meu cão e sobretudo

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Flauta de Pã

Hieróglifos Existênciais

Palavra o meu sangue sentido no afecto das tuas mãos de vidro crepuscular e não preciso de metáforas para escrever o que é centro no poema onde suavemente irrompe o que sempre será a boca encontrada no silencio da busca um lugar onde se podem queimar os erros do passado um ballet de intangíveis luzes para pernoitar no abandono do corpo dias e noites demasiadas numa única palavra que não precisa de ser dita de tão evidente. Carlos Ramos

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE Cara Doutora Vane, as ossadas que retirámos do pântano correspondem às suas suspeitas e, como nos advertiu, mantemos o nosso achado longe dos olhares e perguntas de quem quer que seja; e Deus permita que assim permaneçam. Descobri também certos pormenores do folclore local que podem estar ligados à investigação, e tenho a certeza que ficará tão espantada e interessada quanto eu. Regressaremos dentro de uma semana, se nada nos impedir, pois aqui, nesta terra de ninguém, tudo parece estar envolvido por uma neblina de ocultismo e as ocorrências bizarras começam a intimidar alguns membros mais susceptíveis da equipa. Foi um momento extremamente assustador quando pela primeira vez, após os séculos de encobrimento, aqueles esqueletos, alguns ainda com vestígios de carne seca, extremamente bem preservados, de crânio disforme, dentes afiados e coluna curvada, de tamanho superior a qualquer um dos homens aqui presentes, entre outros pormenores não humanos que poderá depois constatar, surgiram daquele lodo putrefacto para nos pasmar. Um dos rapazes que nos carregam o material, após se benzer inúmeras vezes, abandonou o local numa corrida desenfreada soltando gritos de pavor. Passaram já dois dias sem que dele tenhamos informações, o que deduzo possa vir a ser mau para o segredo, caso ele espalhe a notícia do achado. No entanto, julgo que as pessoas que aqui habitam não irão ficar muito abalados com aquilo que ele lhes possa contar, aliás, devo salientar que algumas figuras que aqui conheci conseguem ser tão, ou mais, intimidadores do que as criaturas mortas, ou pessoas, - não sei o que são nem como 19

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE lhes chamar -, que libertámos do fundo do pântano. A velha senhora viúva que nos arrendou os quartos demonstrou uma peculiar curiosidade para com as nossas intenções em investigar a área do pântano e da floresta em redor. Devo confessar que não nutri uma grande afinidade por ela mas, tendo sido a Doutora a aconselhar esta estalagem, confiei plenamente na anfitriã e na sua aparente desconfiança e petulância. Outro aspecto que considerei bastante bizarro foi o facto de, tanto no rés-do-chão como no primeiro andar, existirem inúmeras fotografias, pinturas e objectos que evidenciavam a presença de crianças, quando ela, a dona, havia confidenciado à nossa colega Sónia que nunca tivera filhos e nem sequer gostava de crianças. Muito estranho. A sua única companhia é um grande cão, fruto de uma mistura de raças, que exibe com o triste olhar toda a falta de afectos por parte da sua dona. Velha bruxa! – pensei eu. Mas, com o passar dos dias, esta figura, que antes tão antipática se me demonstrara, começou a relacionar-se com a equipa, cumprimentando-nos pela manhã com um rasgado sorriso e dizendo-nos várias vezes o quanto apreciava a nossa presença na sua estalagem. Era-me complicado aceitar a sua súbita mudança de atitude, mas o trabalho também não permitia que me inquietasse com tal. Quando, discretamente, a inquiri quanto às lendas ou histórias que conhecia, ela, apesar de se mostrar reticente no início, demonstrou uma sinistra vontade e prazer em me relatar o fantástico segredo que cobre a região. Percebi que as suas 20

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE palavras saíam carregadas de um constante medo, como se alguém pudesse estar secretamente a nos escutar e a pudesse vir a punir pelo seu desabafo. Quando ganhou confiança suficiente, serviu-me uma garrafa de vinho e passamos essa noite a conversar. Fiquei então a conhecer a lenda que agora lhe irei narrar. Há vários séculos, não se conhece ao certo quantos, quando os territórios eram ainda governados por reis e a lei da espada era quem definia as fronteiras, nesta região, habitada já naquele tempo por pessoas simples e ligadas ao campo, havia um Conde, que aqui representava a autoridade do rei. Ora, esse Conde, austero senhor de fama sangrenta, engravidou uma das suas amantes, mulher de uma exótica beleza, da qual ele obtivera favores sexuais através de ameaças e cobrança de impostos. Essa mulher, da qual nem todos sabiam da existência, visto ela viver sozinha nas profundezas do bosque e não ser muito sociável, estava então grávida desse tal Conde, o qual, ao saber da existência deste seu filho que gestava no ventre daquela mulher, sentiu uma enorme repugnância, pois, apesar da volúpia existente, ele não possuía qualquer respeito por ela, e seria terrível para a sua reputação o nascimento daquela criança. No entanto, esta novidade só lhe foi dada a conhecer quando ela levava já sete meses de gravidez, e claro que, de imediato, ele decidiu que a progenitora devia morrer, ordenando aos seus assassinos que tratassem do caso. Os seus homens regressaram ao palácio com a notícia de que a vítima havia desaparecido, deixando a sua velha casa abandonada, e que não havia quaisquer pistas quanto ao seu paradeiro. O ira21

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE do Conde, após semanas de busca, consultou o seu feiticeiro, para que este lhe pudesse oferecer uma solução, mas a resposta iria ser ainda mais constrangedora. O feiticeiro, que só agora tomava conhecimento do feito do seu amo, atemorizou-se com aquilo que lhe estava a ser narrado, pois, como era há bastante tempo habitante daquela região e conhecedor das suas místicas histórias e segredos, sabia que aquela não era uma vulgar mulher, havendo mesmo quem a associasse a espíritos malévolos e acreditasse que ela não pertencia a este Mundo. O Conde nem conseguia acreditar que fora vítima da sua própria malvadez. Completados os meses necessários para o nascimento do bebé, a escondida mulher voltou à sua antiga casa, mas sem qualquer sinal do seu malogrado filho. Ao descobrir que ela reaparecera, o vingativo Conde levou o seu séquito de carnificina a executar o trabalho anteriormente frustrado, comandando, desta vez, ele próprio a operação. Ela voltara, de facto, à sua velha casa, mas preparava-se para novamente a deixar quando o Conde e os seus homens chegaram. A mulher implorou por piedade, mas sempre sem revelar o que fizera com a criança. Foram infrutíferos os seus apelos e foi trespassada pela própria espada do seu amante de outrora. O Conde soltou uma áspera gargalhada sob o sibilante estertor da mulher. Não tinha mais com que se preocupar e, quanto ao bebé, se não tivesse já morrido, por certo que nunca o veria. O corpo da defunta foi lançado ao esquecimento do pântano, o mesmo onde agora centramos as nossas pesquisas.

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE Esquecido estava já o episódio e os anos contavam já dezasseis desde o sangrento crime. No entanto, havia algo que todos desconheciam e que iria mudar por completo o futuro daquela sumptuosa família. Uma das criadas havia recolhido há vários anos uma criança que encontrara perdida na floresta. A complacente senhora, apesar de perceber as deformações físicas que a criança apresentava e antevendo que ela não sobreviveria sozinha, não resistiu ao triste e penetrante olhar do menino e adoptou-o como seu. Era do conhecimento comum que aquela criada tinha um filho, mas poucos eram os que alguma vez o haviam visto ou prestado atenção ao filho de uma mera empregada. Além disso, ela própria tratava de ocultar ou disfarçar a aparência do menino, pois sabia que algumas pessoas poderiam condenar o seu aspecto associando-o a crenças maléficas, e a criança foi crescendo sob o alheamento de todos. Certa noite, em que todos os residentes e convidados do palácio festejavam o noivado do filho varão do Conde, com uma bela rapariga de uma cidade vizinha, estando o ambiente coberto pelo manto ébrio que a festividade oferecia, o filho da criada, que, na verdade, era o nascido da relação adúltera do Conde, foi afectado por incontroláveis espasmos que o fizeram abandonar o seu escondido leito e aparecer à celebração. O seu corpo era impulsionado por estranhos instintos que pareciam controlar todos os seus movimentos. Uma inexplicável possessão de raiva fê-lo perceber que havia chegado o momento da vingança e na sua mente inúmeras imagens clarividentes fizeram-no retornar ao episódio da sua mãe. A sua 23

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE faceta inumana aterrorizou todos os convivas que se encontravam no salão do banquete e o modo como saltava violentamente sobre as mesas fez as mulheres gritarem e os homens tentaram agarrar as suas espadas e adagas. Tentaram, mas não foram suficientemente ágeis, pois a rapidez com que aquele predador executou indiscriminadamente todos os presentes não permitiu que alguém conseguisse ripostar. O Conde, deixado para último, pode contemplar o banho de sangue que inundava o salão e ouviu as últimas palavras da sua vida: Pai! – e o jovem soltou uma estrondosa gargalhada – Obrigado pela vida! Desde esse dia nunca mais alguém soube do que aconteceu ao animalesco homicida, que desapareceu sem deixar rasto, mas nunca aquela carnificina iria ser esquecida, nem o corpo completamente desfeito do Conde desaparecia das palavras destas pessoas. Reza então a lenda que, desde o aparecimento dessa macabra criatura, nunca os homens e mulheres da região se deixaram seduzir por outros que não fossem seus conhecidos, pois o receio de procriar acidentalmente com aqueles seres era constante. Por vezes, segundo testemunhos populares, ainda eram avistados, de vários em vários anos, seres semelhantes passearem-se pela escuridão da zona pantanal. Consta também que são raros os exemplares femininos dessa espécie se pode reproduzir, pelo que não existem em grande número, mas, quando esse escolhido decide procriar tem preferência por alguém completamente humano. Depois, nascido o fruto 24

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE dessa relação, a criança é deixada na casa de alguém que ainda não tenha filhos, para que a atenção seja completamente dedicada à criança, e, uma vez escolhido esse inocente tutor, a sua missão é irreversível; por isso, ainda hoje existe o ritual, entre as pessoas daqui que não têm filhos, de ornamentar as casas com objectos que indiquem a existência de crianças. Quando a criança atinge os dezasseis anos de idade a transformação está completa e ocorre então um chamamento interior que a faz abandonar a sua casa de criação e desaparecer para junto dos seus, em lugar incerto. Há quem acredite que estes demónios habitam uma outra dimensão, num inferno próximo de nós ou num secreto lugar da floresta. Sempre que algum habitante desaparece, o que acontece raramente, mas todos sabem que acaba por acontecer, significa que uma dessas criaturas está prestes a completar o estado de metamorfose e necessita de se alimentar de um corpo para afirmar a sua natureza. Todavia, não existem relatos de quem algum destes seres tenha atacado alguma vez os seus pais adoptivos. As pessoas amaldiçoadas com a função de os criar mantêm também segredo, conscientes de que nunca mais seriam aceites na comunidade. Houve quem preferisse o suicídio, mas as criaturas impediram que tal sucedesse e poucos foram os que escaparam por esta via. Claro que tudo isto que lhe narro faz parte de um folclore repleto de fantasia e imaginação popular, e inúmeros outros pormenores e variações devem existir nas palavras de um qualquer outro habitante, mas, agora, que encontrámos estes cadáveres, sinto que existe um qualquer fundamento para esta 25

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Labirintos Prosaicos

Hieróglifos Existenciais

CARTA À DOUTORA VANE história. Talvez o pântano seja um cemitério para estas criaturas, desde que a amante do Conde lá foi lançada. Apesar de se tratar de uma lenda local, a senhoria afirmou que alguns destes seres, com a evolução dos tempos, começaram por se aventurar às grandes cidades, sobrevivendo em sociedades secretas. Arrepia-me pensar que possam realmente existir, secretamente, criaturas tão hediondas a conviver connosco. Quando lhe perguntei se ela se lembrava de si ela respondeu que não conhecia pessoa alguma com o seu nome, que houvesse nascido nesta terra, e subiu as escadas em direcção ao quarto onde, dias antes, eu vira várias fotografias de uma menina. Doutora Vane, vivemos num Mundo cheio de mistérios. Anseio agora, mais do que nunca, discutir consigo esta situação e conhecê-la pessoalmente, apesar de saber que sempre preferiu manter o anonimato. Estou certo de que saberá algo mais acerca destes seres. P.S.- Não consegui encontrar a sua certidão de nascimento…

Emanuel R. Marques

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Desenho

Captações Imaginárias

«Blá vezes blá: bla bla bla bla» Nuno Bastos

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Captações Imaginárias

Desenho

Jaime Neves

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Captações Imaginárias

Desenho

Jaime Neves

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Captações Imaginárias

Desenho

Jaime Neves

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Captações Imaginárias

Desenho

Jaime Neves 31

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Pintura

Captações Imaginárias

Série 2005: Nº9 Paisagem Nuno Bastos

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Pintura

Captações Imaginárias

Nature 05 Laurent Fievre

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Pintura

Captações Imaginárias

Le Genre Humain 06 Laurent Fievre

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Pintura

Captações Imaginárias

Le Genre Humain 06 (detalhe) Laurent Fievre

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Pintura

Captações Imaginárias

Le Genre Humain 08 Laurent Fievre

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Arte Digital

Captações Imaginárias

Can’t Break a Dead Girls Heart, Shinobinaku Art www.shinobinaku.com

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Arte Digital

Captações Imaginárias

The Most Frail and Precious Gift, Shinobinaku Art www.shinobinaku.com

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Arte Digital

Captações Imaginárias

Les Fleurs du Mal, Shinobinaku Art www.shinobinaku.com

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Arte Digital

Captações Imaginárias

A Deadly Cocktail, Shinobinaku Art www.shinobinaku.com

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Arte Digital

Captações Imaginárias

Five Lives Left, Shinobinaku Art www.shinobinaku.com 41

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Arte Digital

Captações Imaginárias

Sunset, Shinobinaku Art www.shinobinaku.com 42

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Fotografia

Captações Imaginárias

“Alquimia” Museu do Design e da Moda, Ana de Macedo http://facebook.com/anademacedo

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Fotografia

Captações Imaginárias

Sem Título, Nuno Bastos

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Fotografia

Captações Imaginárias

Sem Título, Nuno Bastos

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"Is it all we see or seem just a dream within a dream?"