No ano de 2006, é sancionada a Lei Maria da Penha. Dentre as várias mudanças, a lei aumenta o rigor nas punições das agressões contra a mulher. Neste mês de fevereiro, galgamos mais conquistas relacionadas ao rigor desta lei que, se não elimina de vez esta mazela social, pelo menos dá maior visibilidade e consequente mobilização da sociedade. Hoje, embora insuficiente, temos muitas mulheres ocupando lugares de destaque no Judiciário, no Legislativo e no Executivo sendo neste, nossa maior referência Dilma Rousseff eleita presidente da República Federativa do Brasil, em 31 de outubro de 2010. A luta feminista ampliou-se, volta-se também para a emancipação da mulher na sociedade urbana, o que significa dizer que temas relacionados à opressão da cidade sobre o gênero humano ganharam espaço na agenda feminista. Na prática, as grandes obras assumiram o lugar de políticas de assentamento tão de urgência para a população das cidades. No Rio de Janeiro, comunidades são demolidas, o trânsito bloqueado em nome de eventos efêmeros como as Olimpíadas e a Copa do Mundo.
O papel das mulheres na cidade O século XXI marcou a cidade como espaço de maior concentração populacional no Brasil. Mais de 80% da população brasileira habita o espaço urbano e as cidades tornaram-se verdadeiras armadilhas para sua população pobre. Enquanto o país chama atenção pelo seu desenvolvimento econômico, ao contrário, seus índices de concentração de renda (5º lugar) e Mundial de Desenvolvimento Humano (IDH) são reveladores. Imaginem que estamos em 84º lugar entre as demais nações. Ao ufanismo crescente pela importância econômica do país anunciam-se sucessivas catástrofes que ocorrem como as enchentes, os desmoronamentos que recrudescem questões já conhecidas como as da precariedade dos assentamentos nos quais habita a população mais pobre das cidades. A defesa civil não pode dar conta de problemas que são de ordem estrutural. As manchetes dos jornais anunciam, dia a dia, a mazela das mulheres, enquanto a Constituição de 1988 faz crer que somos iguais perante a lei. Uma ironia, não!? Sobre nós mulheres e respectivas famílias recaem os riscos socioambientais de nossas cidades, sobretudo quando o recorte refere-se às camadas baixas e médias da população: as enchentes, os esgotos a céu aberto, a falta de água potável, os frequentes desmoronamentos dos morros, os incêndios nos guetos de pobreza dizem da vulnerabilidade de uma parcela considerável da população que se situa nos piores territórios das cidades. Afora tudo isto, a contiguidade das residências nessas áreas onde a ventilação e a iluminação natural são precárias favorece a propagação da tuberculose e outras doenças respiratórias e afins à degradação do território. O processo de urbanização, estimulado pela globalização, não fixou um padrão urbano de qualidade de vida que favorecesse o conjunto das famílias em que as mulheres são chefes de domicílios. Verdade é que os premiados foram os investimentos imobiliários. E como fica a mulher com sua tripla jornada ganhando menos do que os homens e carregando a família nas costas? E o que se pode falar do transporte público e das condições que o mercado de trabalho oferece? Como conciliar a condição feminina e o mercado de trabalho? 18