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Revista Xonguila Nº47

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Publicação mensal • Maio/May 2022 • Ed. 47 • Ano 05 • 300 MZN • xonguila.co.mz

STEWART

SUKUMA 40 anos de carreira A 40-year career

FÁBIO PORCHAT Uma entrevista exclusiva An exclusive interview

XICHANGANA

Promovendo digitalmente as nossas línguas Digitally promoting our local languages

SUKRÍ

Alegria e paladares atrevidos On joy and daring palates


Pedro Loforte, fundador, na primeira pessoa O Xichangana é uma plataforma de educação sobre as diferentes culturas e línguas moçambicanas que actua nas redes sociais

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Fotografia: Mariano Silva

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Pedro Loforte, fundador, na primeira pessoa “O Xichangana é uma plataforma de educação sobre as diferentes culturas e línguas moçambicanas que actua nas redes sociais. Apresenta conteúdos curtos e simples de perceber, vinculados à vida quotidiana dos moçambicanos, para cativar e facilitar o contacto entre os jovens, seu público-alvo principal. Em conversas com estrangeiros, eu era questionado sobre a cultura moçambicana (línguas, tribos, cerimónias, rituais, danças tradicionais, estilos de música, etc.) e não sabia bem responder. Tinha noções, mas não conhecimento. Percebi que muitos jovens com quem cresci tinham a mesma falta de conhecimento. Crescemos em Maputo, com alguma exposição à cultura, mas sem uma imersão no dia-a-dia ou educação em muitos aspectos. Aí surgiu a ideia: criar um meio educativo sobre a cultura moçambicana, com um estilo de comunicação moderno, para mover o interesse dos jovens por essa temática. Em 2018, começou a comunicação, dedicada ao sul – daí o nome "Xichangana" –, estando nós, agora, a criar conteúdos sobre a cultura nacional num âmbito mais alargado. Trata-se de uma plataforma de educação multicultural moçambicana, um ponto de encontro para as diversas culturas moçambicanas. Temos o objectivo de contribuir para a educação do jovem no que respeita à sua cultura-mãe e culturas vizinhas, para elevar a qualidade das relações entre a juventude moçambicana. Num mundo cada vez mais globalizado, é urgente promover o que nos define: a nossa identidade. Assim sendo, o Xichangana é a celebração da cultura moçambicana, principalmente tendo em consideração que as línguas locais tendem a extinguir-se. O formato de conteúdo digital serviu o nosso propósito no início, através das redes sociais. No entanto, a nossa visão é atingir grande parte dos jovens moçambicanos, principalmente adolescentes e crianças, nas escolas de todo o país, para ensinar sobre a diversidade cultural em Moçambique e criar empatia pelas comunidades vizinhas. Para atingir este público, o formato de conteúdo impresso será essencial. No kick-off da plataforma não previmos meios para angariar fundos. Hoje somos uma pequena equipe de voluntários a tempo parcial, e o nosso maior desafio tem sido rentabilizar a iniciativa para início de outras actividades. O digital desempenha um papel fundamental na difusão da nossa comunicação para todos os moçambicanos, não só em território nacional como também na diáspora, pelo que pretendemos expandir o conceito considerando esta nova realidade.”

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Fotografia: Mariano Silva

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Pedro Loforte, founder, in his own words “Xichangana is an education platform about diverse Mozambican cultures and languages, operating on social networks. It presents short, easy-to-understand content related to the daily life of Mozambicans, seeking to attract and facilitate contact between young people, its main target audience. In conversations with foreigners, I was often asked about Mozambican culture (languages, tribes, ceremonies, rituals, traditional dances, music styles, etc.) and I didn't really know how to answer those questions. I had some notions, but no real knowledge. I realized that many young people I grew up with had the same lack of knowledge. We grew up in Maputo [city], with some exposure to the [traditional] culture, but without a day-today immersion or education in many ways. That's where the idea came from: to create an educational medium about Mozambican culture, with a modern communication style, to spark young people's interest in this topic. We began to publish content in 2018, initially dedicated to the south – hence the name "Xichangana" – and are now creating content about the broader national culture. This is a Mozambican platform for multicultural education, a meeting point for different Mozambican cultures. Our objective is to contribute to the education of young people

regarding their original or traditional culture and neighbouring cultures, in order to raise the quality of relationships among Mozambican youth. In an increasingly globalized world, it is urgent to promote what defines us: our identity. Therefore, Xichangana is a celebration of Mozambican culture, especially considering that local languages tend to become extinct. The digital content format served our purpose in the beginning, for dissemination through social media. However, our vision is to reach a large part of young Mozambicans, mainly teenagers and children in schools across the country, to teach them about cultural diversity in Mozambique, and to promote empathy for neighbouring communities. To reach this audience, the print content format will be essential. In the platform’s kick-off stage, we didn´t establish means to raise funds. Today, we are a small team of part-time volunteers, and our biggest challenge has been to monetize the initiative so that we can start other activities. Digital plays a fundamental role in the dissemination of our communication to all Mozambicans, not only in the national territory but also in the diaspora, so we intend to expand the concept considering this new reality.” Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 11


44 STEWART SUKUMA

40 anos produzindo e dinamizando a música nacional 40 years of producing and dynamizing national music

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16 LUSOFONIA

Fábio Porchat e o sonho de vir a Moçambique Fábio Porchat and the dream of visiting Mozambique

30 MULHERES DE GARRA/ WOMEN OF GRIT O dia-a-dia de duas incansáveis trabalhadoras The daily life on two tireless workers

72 DIÁSPORA

Khensani Shonila, uma jovem moçambicana na Índia Khensani Shonila, a young Mozambican in India

92 SABIAS QUE / DID YOU KNOW Nhambarro: de curar a dor para trazer alegria Nhambarro: from curing pain to manifesting joy

4 XICHANGANA

Uma forma interessante de aprender um dos nossos idiomas An interesting way to learn one of our local languages

104 ALCANCE EDITORES Propostas de leitura para este mês This month´s reading suggestions

106 CINEMA 35MM

Solteira aos 40, uma série que homenageia a mulher africana moderna 40 & Single, a series that pays homage to the modern African woman

110 COZINHA

Aprenda a preparar um delicioso wrap de salmão Learn how to prepare a delicious salmon wrap

80 SUKRÍ

Sabores com toques distintos Flavours with a unique touch

FICHA TÉCNICA/BIOS Propriedade/Property: Veludo & Mentol, Sociedade Unipessoal Lda • Conselho de Administração/Administrative Council: Omar Diogo, Nuno Soares, Mariano Silva • Director: Nuno Soares • Gestão de Conteúdos Editoriais/Editorial Content Management: Nuno Soares, Mariano Silva • Copy-desk (português): Fátima Ribeiro • Colunistas/Writers: Eliana Silva, Mariano Silva, Nuno Soares, Jaime Álvaro, Precidónio Silvério, Aayat Irfan • Tradução (Português-Inglês)/Translation (Portuguese-English): M. Gabriela Carrilho Aragão • Fotografia/Photography: Mariano Silva • Design de Capa/Cover Design: Nuno Azevedo • Grafismo/Visuals: Omar Diogo • Infografia e Paginação/ Infographics and Pagination: Omar Diogo • Produtores Audiovisuais/Audiovisual Producers: Nuno Lopes, Ana Piedade, Mariano Silva • Gestão de Redes Sociais/ Social Media Management: Nuno Soares • Conteúdos de Marketing e Comunicação/ Marketing and Communication Contents: Omar Diogo, Nuno Azevedo • Gestão de Homepage e Edição Online/Homepage Management and Online Editing: Omar Diogo, Jorge Oliveira • Departamento Comercial/Commercial Department: Nuno Soares - comercial@xonguila.co.mz • Impressão/Printing: Minerva Print • Distribuição/ Distribution: Flotsam Moçambique, Lda • ISSN: ISSN-0261-661 • Registo/Register: 02/Gabinfo-dec/2018 • Registo de Propriedade Industrial/ Industrial Property Registration: 35065/2017 - 35066/2017 (15/01/2018) Os artigos com assinatura reflectem a opinião dos autores e não necessariamente da revista. Toda a transcrição ou reprodução, parcial ou total, requer a autorização expressa da empresa titular da revista. The articles reflect the authors opinion, and not necessarily the magazine opinion. All transcript or reproduction, partial or total, requires the authorization of the company that owns the magazine

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Editorial

Do Director From the Director Caro leitor,

Dear Reader

Convido-o a embarcar novamente numa viagem por Moçambique de mãos dadas com a nossa gente. Seja bem-vindo à edição nº 47 da Revista Xonguila, em que trazer-lhe boa disposição e algum conhecimento do que há e do que se faz em Moçambique são as nossas intenções.

Once again, I invite you to embark on a journey through Mozambique, hand in hand with our people. Welcome to issue nº 47 of Revista Xonguila, which seeks to lift your spirits and bring you some knowledge of what there is to see and do in Mozambique.

O mês de Maio começa celebrando-se o Dia Internacional do Trabalhador, pelo que aqui vamos, em particular, homenagear aqueles que diariamente batalham, com honra, muitas vezes em difíceis cenários, para assegurar o seu sustento e o do seu agregado familiar, simultaneamente contribuindo para o bem-estar social. Muito mais se comemora este mês, como, para dar alguns exemplos, o Dia da Mãe, na área familiar, e, noutros domínios, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, o Dia da Europa e o dia de África. Há, pois, imensas oportunidades para celebrar, participar em eventos, distrair-se e cultivar-se.

The month of May begins with the celebration of International Workers' Day, and we wish to specifically pay homage to those who struggle daily, honourably and often in difficult scenarios, to ensure their own and their households´ livelihoods, whilst simultaneously contributing to societal well-being. Much more is celebrated this month, such as, for example, Mother's Day – on the family front – and, in other areas, World Portuguese Language Day, Europe Day and Africa day. Therefore, there are plenty of opportunities to celebrate, participate in events, have fun and cultivate ourselves.

Para a presente publicação, conversámos com alguém por quem temos uma grande admiração, pelos muitos esforços que foi desenvolvendo, ao longo dos últimos 40 anos, para levar a nossa música e outros aspectos culturais a todo o Moçambique e além-fronteiras. Falamos do nosso talentoso e dinâmico Stewart Sukuma. Em entrevista exclusiva, temos também Fábio Porchat, aquele que é actualmente um dos nomes mais conceituados do humor brasileiro e do universo lusófono, que nos revelou detalhes importantes da sua carreira, assim como a sua vontade de vir visitar o nosso país. Apresentamos-lhe o nhambarro, que, de dança para curar dor, evoluiu para forma de expressão de alegria, bem como o Xichangana, uma interessante plataforma para, de forma simples, ir aprendendo online um dos nossos idiomas, e o Sukrí, onde poderá encontrar paladares atrevidos.

For the current edition, we spoke with someone whom we greatly admire, for the many efforts he has made over the past 40 years to spread our music and other cultural aspects throughout Mozambique and beyond. We're talking about our very own, the talented and dynamic Stewart Sukuma. In an exclusive interview, we also have Fábio Porchat, who is currently one of the most renowned names in Brazilian humour and in the Portuguese-speaking universe, who revealed important details about his career, as well as his desire to visit our country. We introduce you to nhambarro, which has evolved from a dance to heal pain into a performative expression of joy, as well as Xichangana, an interesting online platform that facilitates learning about our local languages in a simple, direct way, as well as the Café Sukrí, where you can find daring palates.

Se já acompanha o nosso trabalho, sabe com certeza que são diversos os outros conteúdos que aqui irá encontrar. Caso este seja o primeiro contacto que tem com a nossa revista, esperamos que descubra bons motivos para continuar a seguir-nos.

If you already follow our work, you will certainly know that there are several other contents that you will find here. If this is your first contact with our magazine, we hope you find good reasons to continue following us.

Uma vez mais, agradecemos-lhe por estar connosco. Votos de uma excelente leitura.

Once again, we thank you for being with us. Best wishes for an excellent read.

Nuno Soares Com o apoio de:

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Director


Africanicidade é transformar os desafios em oportunidades Somos inspirados pelos criadores do nosso país que transformam cada desafio numa oportunidade. No Absa, chamamos isso de Africanicidade. Para nós é muito mais do que uma nova palavra. É como fazemos as coisas e é o nosso compromisso em ajudar as pessoas a encontrar uma maneira de fazer as coisas acontecerem. #AdoramosAfricanicidade Saiba mais sobre Africanicidade em absa.co.mz/pt/africanicidade/

Absa Bank Moçambique, SA (registado sob o número 101220982) é regulado pelo Banco de Moçambique.

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“Eu nunca imaginaria que Moçambique fosse saber quem eu sou, e fico muito feliz de estar podendo falar agora com vocês, estar podendo falar com o público de Moçambique e de já botar na minha perspectiva Moçambique para fazer um show.”

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DO BRASIL PARA MOÇAMBIQUE, FÁBIO PORCHAT Em entrevista exclusiva à Xonguila, o famoso comediante brasileiro Fábio Porchat fala de si, revelando ter já em perspectiva fazer um show em Moçambique.

Conte-nos como foi a sua juventude. O que o levou a optar por este percurso? Acredita que já se nasce humorista? Olha, curiosamente, eu nunca quis ser actor, nunca tive esse sonho de pequeno, apesar de desde criança eu sempre gostar muito de teatro, não só de ir ao teatro, mas de fazer teatro, cursos de teatro, me apresentar na frente das pessoas. Eu tinha um teatro de fantoches que o meu avô me deu, eu criava histórias, botava todos os primos para apresentarem. Então, olhando hoje, obviamente eu queria ser, né? Estava ali em mim, eu já era uma pessoa assim, eu era muito exibido, eu adorava aparecer, adorava ser o centro das atenções. Eu acho que não se nasce humorista, mas entendo que o entorno vai tornando o teu olhar mais virado para o humor. E eu percebia, quando era criança, que, quanto mais eu fazia piada, contava uma história que era engraçada, mais os adultos prestavam atenção em mim, mais as conversas nas rodas adolescentes. Sempre que a minha história, ou o meu causo [o meu conto] tinha algum tipo de comédia, as pessoas ficavam mais tempo me ouvindo, me observando, e queriam mais saber das coisas. Então acredito que eu usei o humor a meu favor por conta disso. Como eu era exibido e queria muito que as pessoas prestassem atenção em mim, eu percebi que com o humor eu conseguia fazer isso. E sempre gostei muito de assistir [a] coisas de humor, séries de humor, filmes de humor, lia coisas de humor. Eu adorava livros de piada do Casseta & Planeta, do Ary Toledo, eu sempre li muito tudo isso, desde pequenininho até adolescente. Eu li os livros do Obrigado Esparro, que é um grupo aqui do Brasil. Então eu sempre consumi humor, então o humor estava na minha vida, e eu acho que acabou

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que eu só fui perceber com 19 anos, mas antes tarde do nunca, né? O Fábio é um sucesso no Brasil, em Moçambique, em Portugal e nos restantes países lusófonos. Como olha para esta ligação que a língua portuguesa permite um pouco por todo mundo? A primeira vez que eu fui fazer show em Portugal, em 2013, eu fui apavorado, não sabia se eles iam gostar, se eles iam saber quem eu era, se eles iam entender o meu tipo de humor, e aí tomei um susto quando eu descobri que o Porta dos Fundos era muito assistido lá e eles adoravam. E cada vez mais eu vou tomando sustos e sabendo que, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, tem pessoas que gostam, que assistem, que ouvem, e cada vez mais. Ainda mais por conta dos programas de TV que passam em todos esses países, eu vou percebendo a força que é. Então, eu nunca imaginaria que Moçambique fosse saber quem eu sou, e fico muito feliz de estar podendo falar agora com vocês, estar podendo falar com o público de Moçambique e de já botar na minha perspectiva Moçambique para fazer um show. Porque, no fim das contas, é muita gente, somos muitos falantes de português, e como as novelas da Globo – e o conteúdo da Globo sempre chegou, e até os da Record, agora com a Record na África –, também chegaram muito fortes para esse público de fora... O Brasil não consome a cultura de Moçambique, de Angola e Portugal, mas esses países consomem a cultura brasileira. Eu acho que a gente, inclusive, precisava de ouvir mais, ler mais e ver mais. Claro que, tudo bem, Mia Couto a gente lê, e outros autores, mas não o humor, por exemplo. Não chega para a gente, né?

Nesta entrevista é mantida a variante linguística do Português do Brasil nas respostas de Fábio Porchat.

2 Porta dos Fundos é um colectivo criativo fundado em 2012 por Antonio Tabet, Fábio Porchat, Gregorio Duvivier, João Vicente de Castro e Ian SBF. O que começou despretensiosamente, com um grupo de amigos em busca de liberdade criativa, hoje é uma produtora consolidada, vencedora do Emmy Internacional de Comédia em 2019, pelo Especial de Natal feito para a Netflix. É um dos maiores canais do YouTube Brasil, ultrapassando 5 bilhões de visualizações e 16 milhões de inscritos. Em Abril de 2019, chegou também ao México com o canal "Backdoor - Humor por donde no lo esperas", já com mais de 3 milhões de inscritos. O Porta dos Fundos tornou-se uma referência em entretenimento multiplataforma, actuando em séries, filmes, branded content, entre outras produções, estabelecendo parcerias com empresas, canais de TV e plataformas de streaming. (https://www.youtube.com/c/PortadosFundos/about)

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Lusofonia

Como foi a sua experiência em África? Podemos contar com uma visita a Moçambique em breve? Eu já fui à África algumas vezes, não só para o Norte, na África muçulmana, na África árabe, mas também fui ali para Quénia, Tanzânia, Ruanda, fui muito fazer uns safaris, fui para África do Sul, e sempre tive um desejo de ir para Moçambique, ainda mais porque as pessoas falam que as praias são as coisas mais lindas que tem. Agora, sabendo que o povo de Moçambique, assiste, vê, consome e entende o meu tipo de humor, eu fico animadíssimo para fazer um show em Moçambique, e já estou me arquitectando planos para me apresentar em Moçambique e aproveitar e passar férias, né? Porque não? Inteligência é essencial para se fazer comédia de qualidade? Eu acho que para se fazer o humor de qualidade, mais do que inteligência – e claro que inteligência é bom para tudo, não só para o humor –, é bom estar conectado com o que está acontecendo ao seu redor. Eu acho que isso é o mais importante: ter o olhar muito atento para tudo o que está influenciando, informando e atravessando o seu quotidiano, a sua sociedade, e você, sabendo quais são as questões, os problemas, as dificuldades do seu público, você consegue atingi-los com muito mais força, então mais essencial é estar conectado. É possível fazer humor com todos os temas, até com os mais sensíveis? Considerando o poder que o humor tem, que responsabilidades acarreta para a sociedade? O humor tem muito poder, tanto é que, se você xinga uma pessoa, talvez essa pessoa vá embora, mas, se você ridiculariza ela, ela quer bater em você, porque o humor vai em lugares e chega de forma mais potente em lugares mais difíceis e, por isso, acho que sim, tem que se fazer humor com todos os temas, e, inclusive, com os mais sensíveis. É claro que eu estou falando isso aqui, mas nada que seja criminoso, nada que esteja proibido na Constituição. Tirando todo o tema sensível, difícil e complicado, tem que ser feita piada, porque nada se pode tornar sagrado, porque, se uma coisa se torna sagrada, ela vira lei, vira regra e vira um monstro, e esse monstro vai engolir a todos nós. Acho que uma das funções do humor, primeiro, é fazer rir, obviamente, mas, depois disso, é desconsertar todas as verdades, os tabus e aquilo que a gente acredita ser intocável, e eu acho que é o humor que tem que tocar em todos esses temas. Alguma vez pensou em criar um partido? Entrar na vida política? Deus me livre de entrar na política, Deus me livre de criar um partido. Eu acho que sou político sendo como sou, me manifestando, dando as minhas opiniões, tanto na internet como na minha comédia ou nos meus conteúdos. Eu acho que fazer política é se posicionar também, ainda mais hoje em dia no Brasil de hoje. Com esse troço que a gente tem na Presidência, a gente precisa de lutar contra pessoas que

não têm o menor respeito, empatia pelo outro, a menor tentativa de fazer com que todos se sintam bem. Ao contrário, é uma pessoa que se vinga dos outros, que tem ódio, raiva, e uma pessoa dessas não pode governar nenhum país, ainda mais um país com 220 milhões de pessoas tão diferentes, não é? Sabemos que o teatro e o cinema são partes importantes na sua carreira. Quais destas actividades gosta mais de fazer? E como ocupa os seus tempos livres? Olha, a verdade é que gosto muito do que eu faço, e faço muito do que gosto, então cinema, teatro, televisão e internet… Eu vou tendo ideias, eu sou uma pessoa em que a cabeça não pára de funcionar. Então, eu começo a ter muitas ideias, não necessariamente boas ideias, mas tenho muitas ideias e gosto de botá-las em prática. Do que eu mais gosto é do teatro, porque o teatro é ao vivo, o público está ali, é quente. Ele responde na hora, você tem o contacto com gente, e eu gosto de gente, mas, no fim das contas, cada ideia pode-se encaixar num formato diferente, pode significar uma coisa diferente. E, no fim das contas, eu acabo ocupando o meu tempo livre eu viajando, que, no fim das contas, é mais material para as minhas histórias, minhas peças e afins. E tudo aquilo que é assistir filmes, séries, ler livros, para mim isso, no fim, é meio trabalho, porque eu trabalho com isso, eu não consigo me desconectar. Quando eu estou vendo um filme, eu estou analisando roteiro, estou vendo a direcção, eu estou vendo aqueles actores actuando, eu estou vendo a construção de uma série, como é que funciona… Então, o que é diversão para todo o mundo, para mim também é diversão, mas também é trabalho. Considera que rir ainda é o melhor remédio? Precisamos rir sempre, rir é o que nos sobra, no fim das contas rir a gente consegue fazer sozinho, a gente consegue fazer em grupo, é de graça, nos salva de toda a desgraça que é a vida, de todas as tristezas e injustiças que 99% da população do mundo enfrenta. Então, no fim das contas, rir é uma coisa que lava a alma, que é como a gente diz no Brasil. É uma coisa que vem de dentro, que faz, naquele segundo, esquecer de tudo o que está em volta, de todos os problemas que estão fazendo a nossa vida ser tão difícil. Então, rir, com certeza, é uma grande meta e uma grande força que todos nós temos aqui dentro. Quer deixar alguma mensagem ao povo moçambicano? A mensagem que eu deixo para o público é: “Tô chegando hein! Alô Moçambique! E já-já estou chegando aí, com o meu show novo de stand-up, e espero que vocês sejam tão calorosos quanto eu já estou imaginando. E espero que vocês me recebam de braços abertos, como me recebem pela internet, nos comentários, nas mensagens. E eu já quero conhecer Moçambique todo, vocês vão me ajudar? Vão me levar para conhecer tudo? Para comer as comidas boas, para ir para a praia, para conhecer cada cantinho daí? Já-já estou aí, minha gente.

“Rir, com certeza, é uma grande meta e uma grande força que todos nós temos aqui dentro.” - Fábio Porchat 20 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022


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“Brazil doesn’t consume culture from Mozambique, Angola and Portugal, but these countries consume Brazilian culture. I think we need to hear more, read more and see more.” 22 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022


FROM BRAZIL TO MOZAMBIQUE, FÁBIO PORCHAT In an exclusive interview to Xonguila, the famous Brazilian comedian Fábio Porchat spoke of himself, revealing that a show in Mozambique is already on the cards. Tell us about your youth. What led you to choose this path? Do you believe you are born a comedian? As it happens, I never wanted to be an actor. I never had this dream as a child, although I liked theatre a lot since childhood – not only going to the theatre, but also doing theatre, theatre courses, performing in front of people. I had a puppet theatre that my grandfather gave me, I created stories, I had all my cousins perform. So, looking back today, I obviously wanted to be one, right? It was there in me, I was already that person, I was very performative. I loved showing-off; I loved being the centre of attention. I don't think you can be born a comedian, but rather that your surroundings shape you, make you turn towards humour. And as a kid, I realized that the more I joked, the more I told a story that was funny, the more the adults paid attention to me, and the more conversations I had in teenage circles. Whenever my story, or made-up story, had some kind of comedy in it, people would spend more time listening to me, watching me, and wanting to know more about things. So, I believe I used humour to my advantage because of that. Since I was showy and really wanted people to pay attention to me, I realized that I could do that with humour. And I've always really enjoyed watching humorous things, comedy series, comedy films, reading funny things. I loved joke books by Casseta & Planeta, by Ary Toledo; I've always read a lot of all this material, from the time I was a little kid until I was a teenager. I read the books by Thanks Esparro, which is a group here in Brazil. So, I always consumed humour; humour was a part of my life but, as it turns out, I only realized this when I was 19, but better late than never, right?

You are a success in Brazil, Mozambique, Portugal and other lusophone countries. How do you look at this connective tissue that is the Portuguese language across the world? The first time I went to do a show in Portugal, in 2013, I was terrified; I didn't know if they would like it, if they would know who I was, if they would understand my type of humour, and then I got scared when I found out that Porta dos Fundos was very popular there and they loved it. More and more, I catch myself being shocked with the knowledge that in Angola, Mozambique, Cape Verde, there are people who like it, who watch it, who listen to it, in ever growing number. More so because of the TV programs that air in all these countries, I'm realizing how strong it is. So, I would never have imagined that Mozambique would know who I am, and I am very happy to be able to talk to you now, to be able to talk to the public in Mozambique and to put Mozambique in my sights for a show [there]. Because, at the end of the day, we are a lot of people, many Portuguese speakers. And just like Globo’s telenovelas have always reached audiences across borders – Globo’s content has a long and wide reach, and even Record´s, now with Record in Africa –, [our content] has also reached that cross-borders audience very strongly... Brazil doesn’t consume culture from Mozambique, Angola and Portugal, but these countries consume Brazilian culture. I think we need to hear more, read more and see more. Of course, ok – we read Mia Couto, and other authors, but not humour, for example. It´s not enough for us, right?

Porta dos Fundos (“Backdoor”) is a creative collective founded in 2012 by António Tabet, Fábio Porchat, Gregorio Duvivier, João Vicente de Castro and Ian SBF. What started out unpretentiously, with a group of friends in search of creative freedom, is now a consolidated producing company, winner of the International Comedy Emmy in 2019, for the Christmas Special made for Netflix. It is one of the biggest channels on YouTube Brazil, surpassing 5 billion views and 16 million subscribers. In April 2019, it also arrived in Mexico with the channel "Backdoor - Humour por donde no lo esperas", with more than 3 million subscribers. Porta dos Fundos has become a reference in multiplatform entertainment, acting in series, films, branded content, among other productions, establishing partnerships with companies, TV channels and streaming platforms (https://www.youtube.com/c/PortadosFundos/about) Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 23


How was your experience in Africa? Can we count on a visit to Mozambique soon? I've been to Africa a few times, not only to the North, to Muslim Africa, to Arab Africa, but I've also been to Kenya, Tanzania, Rwanda; I've been on safaris a lot, I've been to South Africa, and I've always had a desire to go to Mozambique, even more so because people say that the beaches are the most beautiful things [sic] there is. Now knowing that the people of Mozambique watch, see, consume and understand my type of humour, I am very excited to do a show in Mozambique, and I am already making plans to perform in Mozambique and enjoy myself and have a vacation, right? Why not? Is intelligence essential to making quality comedy? I think that in order to make quality humour, more than intelligence – and of course intelligence is good for everything, not just for humour – it's good to be in touch with what's happening around you. I think this is the most important thing: to pay careful attention at everything that is influencing, informing and passing through your daily life, your society, and you. If you know what issues, problems, difficulties your audience is facing, you can hit them much harder, so being connected is more essential. Is it possible to make humour with any and all topics, even the most sensitive ones? Considering the power that humour has, what responsibilities does it carry for society? Humour has a lot of power, so much so that if you curse someone, maybe that person will leave, but if you ridicule them, they want to hit you, because humour reaches places and lands more potently in more difficult places. Therefore, I do think so – you have to make humour with all topics, even with the most sensitive ones. Of course, I am saying this here, but it mustn’t be anything that is criminal, anything that is prohibited in the Constitution. Aside from that, all the sensitive, difficult and complicated subjects have to be made into a joke, because nothing can be sacred – if something becomes sacred, it becomes law, it becomes a rule and it becomes a monster, and that monster will swallow everyone. Obviously, I think that one of the functions of humour is to, firstly, make people laugh; but after that, it's to discompose all the truths, the taboos and what we believe to be untouchable, and I think it's humour that must touch all these subjects.

“Now knowing that the people of Mozambique watch, see, consume and understand my type of humour, I am very excited to do a show in Mozambique.”

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Lusofonia

Have you ever thought about creating a political party? Entering political life? God forbid I enter into politics, God forbid I create a party. I think I'm political as I am: expressing myself, giving my opinions, both on the internet and in my comedy or in my content. I think that doing politics is also positioning yourself, even more so in today's Brazil. With this thing we have in the Presidency, we need to fight against people who don't have the slightest respect or empathy for the other, the slightest attempt to make everyone feel good. On the contrary, we have a person who takes revenge on others, who has hatred, anger, and such a person cannot govern any country, let alone a country with 220 million people so diverse, right?

watching movies, series, reading books, end up being a little bit like work for me, because I work with it [those mediums], I can't disconnect. When watching a movie, I'm analysing the script, I'm seeing the direction, I'm seeing those actors act, I'm seeing the construction of a series, how it works... So, what is fun for everyone, for me is also fun, but it's also work.

We always need to laugh; laughter is what we have left. After all, we can do it alone, we can do it in a group, it's free, it saves us from all the misfortune that is life, from all the sadness and injustices that 99% of the world's population face.

We know that theatre and cinema are important parts of your career. Which of these activities do you like to do the most? And how do you spend your free time? Look, the truth is that I really like what I do, and I do a lot of what I like – so cinema, theatre, television and the internet… I keep coming up with ideas, I'm a person whose head doesn't stop working. So, I start to have a lot of ideas, not necessarily good ideas, but I have a lot of ideas and I like to put them into practice. What I like most is the theatre, because the theatre is live, the audience is there, it's hot. It responds right away, you have contact with people, and I like people. But, at the end of the day, each idea can fit into a different format, it can mean a different thing. And, in the end, I end up taking up my free time traveling, which, in turn, generates more material for my stories, my plays and the like. Activities like

Do you think that laughter is still the best medicine? We always need to laugh; laughter is what we have left. After all, we can do it alone, we can do it in a group, it's free, it saves us from all the misfortune that is life, from all the sadness and injustices that 99% of the world's population face. So, at the end of the day, laughter is something that washes the soul, which is how we say it in Brazil. It's something that comes from within, that makes us, in that second, forget everything around us, all the problems that are making our lives so difficult. So, to laugh, for sure, is a great goal and a great strength that we all have inside of us.

Do you wish to leave a message for the Mozambican people? The message I leave for the public is: “I'm coming, you hear! Hello Mozambique! And I´ll be there soon, with my new stand-up show, and I hope you guys are as warm as I'm already imagining. And I hope you welcome me with open arms, as you do on the internet, in the comments, in the messages. And I already want to know all of Mozambique, will you help me? Will you take me to see everything? To eat good food, to go to the beach, to know every corner of it? Soon-soon I´ll be there, folks.

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Mulheres

de garra Força, coragem e determinação cada dia Escrito por: Hélder Massinga

Neste mês em que se celebra o Dia Internacional do Trabalhador, a revista Xonguila conversou com duas mulheres de fibra, força interior, entrega e abnegação, mulheres que todos os dias se levantam cedo e vão à luta, duas senhoras que vencem preconceitos, em busca de sustento para si e para as suas famílias. Uma é motorista de chapa, enquanto a outra se dedica à compra e venda de sucata, a meio de adversidades de vária ordem. Só o facto de serem mulheres a desempenhar actividades geralmente desempenhadas por homens já constitui um grande desafio, e cruzar as estradas da capital moçambicana, Maputo, como

seu ganha-pão, faça chuva, frio ou calor, em busca do seu ganha pão, é sempre uma batalha. No final de cada dia de trabalho, é com ar de alívio e a sensação de dever cumprido que olham para trás. Com ou sem sucessos, o importante foi terem participado na luta e terem “feito” o dia. Afinal a vida é assim, repleta de momentos amargos e doces. Suzete Nguenha e Célia Matosse são as nossas duas guerreiras, que orgulham quem as conhece. Nunca perderam a fé nem a esperança, e é essa determinação e garra que faz delas mulheres especiais.

“Quando comecei, éramos poucos, nem vendíamos a sucata como tal; comprávamos baterias, bacias, cadeiras estragadas e revendíamos, mas, nos tempos que correm, explode o número de pessoas que fazem este tipo de trabalho.”

– Célia Matosse, a “Rainha da Sucata”.

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Com um olhar sereno e um largo sorriso, Suzete Nguenha senta-se atrás do volante para iniciar a sua jornada laboral. É condutora de um semi-colectivo de passageiros, vulgo “chapa-100”. Opera na rota Praça dos Combatente, famoso terminal de Xiquelene e Costa do Sol. Com 49 anos de idade e mãe de um rapaz de 17 anos, está na profissão, a de chapeira, desde o ano 2000. Quando iniciou a actividade, operava na rota Praça dos Combatentes - Manhiça. Segundo nos conta, trabalhou por um período de dois a três anos nessa rota, mas imprevistos vieram que a obrigaram a mudanças. “Tive que me reinventar quando o chapa em que trabalhava teve problemas mecânicos, ou seja, uma avaria grave, e fui forçada a ficar em casa, sem qualquer meio de sobrevivência. Depois de dois anos sem fazer absolutamente nada, pensei em procurar novas formas de juntar dinheiro e comprar o meu próprio minibus. No ano seguinte, consegui amealhar dinheiro e comprei a minha própria viatura”, avançou. 32 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022

Devido à distância entre a Cidade de Maputo e o Distrito da Manhiça, Suzete optou por mudar de rota. “Andava sempre cansada e sem tempo para nada. Actualmente trabalho na rota Praça dos Combatentes - Costa do Sol. Aos finais de semana não costumo trabalhar, pois levo o carro para supervisão”. E desabafa: “Fazer chapa não é fácil aqui na cidade de Maputo. Para além dos problemas de congestionamento de tráfego, causados principalmente pelo alto e crescente número de automóveis e chapas, a manutenção dos veículos é inadequada, e os condutores fazem manobras perigosas perante o olhar impávido das autoridades reguladoras”. Segundo a nossa motorista, este é um dos principais problemas de trabalhar no seio da cidade. Suzete têm um coração que bate por várias vidas quando pega o volante, e a ansiedade de chegar ao destino é enorme, mas opta sempre por uma condução prudente e defensiva.


Fotografia: Mariano Silva

Com 49 anos de idade e mãe de um rapaz de 17 anos, Suzete Nguenha está na profissão de chapeira desde o ano 2000 Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 33


Célia Matosse, a outra mulher batalhadora, tem 38 de idade e é mãe de 5 rapazes. O filho mais velho, de 19 anos, teve que abandonar a escola e emigrar para a África do Sul em busca de melhores condições de vida, procurando auxiliar os pais, ambos a trabalhar por conta própria, nas despesas quotidianas. Enquanto a mãe se dedica à compra e venda de sucata, o pai é pintor e bate-chapas de automóveis. Os irmãos continuam a frequentar a escola graças às poucas moedas que os pais conseguem juntar para lhes dar uma educação aceitável. Célia Matosse tem o seu negócio desde 2008. Com o que ganha, ajuda o marido a sustentar a família. “Não ganho muito, mas o que consigo obter dá para nos virarmos”, afirma esta Rainha da Sucata, como é carinhosamente conhecida. Apesar de conhecer muito bem o risco que corre ao pegar na máquina rebarbadora, não encontra saída para escapar do seu árduo trabalho. Considera que o custo de vida tende a elevar-se cada dia que passa, mas, não obstante esse facto, já houve momentos em que facturava relativamente bem e o negócio rendia. “Manusear este produto já teve momentos de pico”, sublinha, ao prosseguir, desabafan-

do nostálgica: “Quando comecei, éramos poucos, nem vendíamos a sucata como tal; comprávamos baterias, bacias, cadeiras estragadas e revendíamos, mas, nos tempos que correm, explode o número de pessoas que fazem este tipo de trabalho.” Matosse revela que um dos seus maiores sonhos é conseguir uma máquina de soldar, para dar outro desenvolvimento à sua actividade, visto que hoje em dia o negócio da sucata já não é rentável: “Se eu tivesse uma máquina de soldar, a realidade seria outra. Com a máquina, eu poderia fazer fogões e vendê-los para aumentar o rendimento de casa”. Ultimamente Célia tem comprado carros muito danificados, em estado obsoleto. O equipamento que usa para cortar o ferro é obtido a título de aluguer, e, com ajuda desse equipamento, despedaça o carro e aproveita uma e outra peça. O resto vai revender no mercado Vulcano, onde está sediado um dos maiores compradores de sucata a nível da capital moçambicana. Suzete Nguenha e Célia Matosse, duas mulheres verdadeiramente inspiradoras por não baixarem os braços na sua luta constante para vencer os desafios e adversidades da vida.

“Se eu tivesse uma máquina de soldar, a realidade seria outra. Com a máquina, eu poderia fazer fogões e vendê-los para aumentar o rendimento de casa.” – Célia Matosse

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“Tive que me reinventar quando o chapa em que trabalhava teve uma avaria grave e fui forçada a ficar em casa, sem qualquer meio de sobrevivência. Depois de dois anos sem fazer absolutamente nada, pensei em procurar novas formas de juntar dinheiro e comprar o meu próprio minibus.” – Suzete Nguenha Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 37


Resilience, courage and daily determination Written by: Hélder Massinga

This month, in which we celebrate International Workers' Day, Xonguila magazine spoke with two strong women of remarkable inner fortitude, dedication and abnegation; women who get up early every day and go out and fight; two ladies who regularly overcome prejudices in search of a livelihood for themselves and their families. One is a “chapa-100” (mini-bus taxi) driver, while the other is dedicated to the purchase and sale of scrap metal, amidst all sorts of adversities. The fact that the women are carrying out activities usually performed by men is, in itself, already a great challenge, and it is always a battle crossing the roads of the Mozambican capital, Maputo, come rain or shine, to earn their livelihoods. At the end of each working day, it is with an air of relief and a sense of accomplishment that they look back on the day´s activities. Whether or not they had any tangible success, the important thing was that they participated in the fight and “made” the day. After all, such is life – full of bittersweet moments. Suzete Nguenha and Célia Matosse are our two warriors, who make those who know them proud. They never lost faith

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nor hope, and it's that determination and drive – their grit – that makes them special women. With a serene look and a broad smile, Suzete Nguenha sits behind the wheel to start her workday. She is the driver of a mini-bus taxi, commonly referred to as “chapa-100”. She operates on the Praça dos Combatentes route, with stops in the famous terminals of Xiquelene and Costa do Sol. At 49 years old, and mother of a 17-year-old boy, she has had the profession of “chapeira” since the year 2000. When she started her activity, she operated on the Praça dos Combatentes – Manhiça route. As she tells us, she worked for a period of two to three years on that route, until unforeseen events forced her to change. “I had to reinvent myself when the “chapa” I worked with had mechanical problems, that is, a serious breakdown, and I was forced to stay at home, without any means of survival. After two years of doing absolutely nothing, I thought I'd look for new ways to raise money and buy my own mini-bus taxi. The following year, I managed to save money and bought my own vehicle”, she said.


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Due to the geographical distance between Maputo City and Manhiça District, Suzete chose to change routes. “I was always tired and had no time for anything. I am currently working on the Praça dos Combatentes – Costa do Sol route. I don't normally work on weekends, because I take the car in for servicing”. And she vents: “Operating a “chapa” is not easy here in the city of Maputo. In addition to traffic congestion problems – mainly caused by the already high and growing number of cars and “chapas” – vehicle maintenance is inadequate, and drivers make dangerous manoeuvres under the passive gaze of the regulatory authorities”. According to our driver, this is one of the main problems of working in the heart of the city. Suzete has a heart that beats for several lives when she takes the wheel, and the anxiety of safe40 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022

ly reaching her destination is enormous, but she always chooses prudence and defensive driving. Célia Matosse, our other warrior woman, is 38 years old and the mother of five boys. The eldest son, aged 19, had to drop out of school and emigrate to South Africa in search of better living conditions, trying to help his parents, both of whom are self-employed, with daily expenses. While the mother is dedicated to buying and selling scrap metal, the father is a painter and auto body repairman. The brothers continue to attend school thanks to the few coins their parents manage to save to give them an acceptable education. Célia Matosse has been running her business since 2008. With what she earns, she helps


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her husband support the family. “I don't earn much, but what I do get is enough to get by”, says this “Rainha da Sucata” (Queen of Scrap Metal), as she is affectionately known. Despite knowing very well the inherent risks of working with an angle grinder, she can't find a way out of the hard work. She considers that the cost of living is on the rise with each passing day and yet, despite this fact, there were times when she had a relatively good income, and the business was profitable. “Handling this product had peak moments in the past”, she stresses as she continues, nostalgic: “When I started, there were few of us, and we didn't even sell scrap as such; we used to buy damaged batteries, bowls, broken chairs and resell them. But these days, the number of people doing this type of work has exploded.” Matosse reveals that one of her biggest

dreams is to acquire a welding machine, to increase her offerings, since nowadays the scrap business is no longer profitable: “If I had a welding machine, the reality would be different. With the machine, I could make stoves and sell them to raise the household income”. Lately, Célia has been buying very damaged, obsolete cars. The equipment she uses to cut the metal is obtained on a rental basis, and with the help of this equipment, she breaks up the car and uses some pieces. The rest will be resold on the Vulcano market, where one of the largest scrap buyers in the Mozambican capital is based. Suzete Nguenha and Célia Matosse are two truly inspiring women, for not giving up in their constant struggle to overcome life's challenges and adversities. Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 41


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Ainda tenho a minha cabeça cheia de ideias e em constante criação. Ainda tenho sonhos por realizar. Quero continuar activo nos vários palcos que as artes me oferecem: música, escrita e representação.


40 anos de careira é sem dúvida um marco emblemático na tua vida. O que consideras ter aprendido ao longo de todo este tempo? A ser resiliente, a ter paciência e esperar o momento certo para aparecer. Alguém que se prepara no silêncio e que consegue ultrapassar as expectativas quando as oportunidades acontecem. As viagens que tive oportunidade de fazer e as pessoas que fui conhecendo nesse percurso foram a minha escola. Só nos conhecemos definitivamente por via de outras pessoas, quando nos confrontamos com outras culturas e realidades. Aprendi que a minha liberdade termina onde começa a liberdade de outrem. Aprendi que ser único e original é melhor do que a maior e melhor imitação. Naturalmente, viste muitas coisas mudarem dos anos 80 para cá. O que alterou no cenário artístico moçambicano? Estamos num bom caminho? Mudou tudo (risos). Algumas coisas para melhor e outras para pior. Bem, comecemos pela evolução tecnológica, que certamente é a mais impactante. O acesso a tecnologia digital permitiu estar mais perto de um mercado mais abrangente, mas, ao mesmo tempo, criou a ilusão do sucesso imediato. O sucesso imediato é quase efémero, principalmente quando o construímos sobre uma base frágil de falso conhecimento e falta de cultura geral. Melhorou muito a oferta de intérpretes, sejam eles instrumentistas ou vocalistas, mas fracassou no conteúdo. Eu penso que as referências actuais são completamente vazias de conteúdo, na sua maioria. Existe potencial, e esse potencial tem de ser fortemente apadrinhado/ acarinhado para que não se perca a essência na apresentação de conteúdos, não só para o entretenimento, mas também para a cultura. Hoje há sempre o perigo da banalização e normalização da mediocridade, do mau, com um suporte incrível das massas, muitas vezes carentes de uma preparação adequada em cultura geral. 46 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022

O que tens ouvido ultimamente? O teu gosto musical é o mesmo, ou tem mudado ao longo do tempo? Definitivamente, do que ouço hoje, fruto de uma filtragem consciente, fazem parte todos os géneros e estilos musicais. Acho que me fui adaptando ao longo dos anos, mas, para isso acontecer, foi preciso estar disponível para ouvir de tudo, até aquilo que considero mau. Acho uma estupidez estar a falar ou a fazer juízos de valor sem conhecimento de causa. De que forma a pandemia impactou o teu dia-a-dia? Dia-a-dia? A pandemia, de uma forma colectiva, afectou-nos a todos, directa e indirectamente. Adiou os nossos sonhos e planos. Privou-nos do bem mais precioso: a nossa liberdade! O resto sabemos todos. Sobrevivi graças aos investimentos que fiz no passado por via das minhas relações com parceiros comerciais. Por outro lado, a pandemia fortaleceu o meu sentido de protecção e activou outras ferramentas dentro de mim que estavam adormecidas. Valorizo muito mais a solidariedade. O Moza Banco e a Renault Moçambique foram parceiros sempre presentes nesses momentos aflitivos e que permitiram que eu pudesse encorajar outros colegas a não desistir. Aproveitei, durante esse período, para reflectir e recriar-me. Tens uma relação especial com a Zambézia, existe algum tipo de acção que estejas a preparar no momento na província em que nasceste? Há uma diferença muito grande entre o que gostaria de fazer e o que vai acontecer. Gostaria de fazer muito pela minha terra, que foi onde tudo começou. Rectificar tudo o que não deu certo na minha relação com as minhas origens, e isso tudo por via do que mais gosto de fazer: cantar a minha tradição.


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“Só nos conhecemos definitivamente por via de outras pessoas, quando nos confrontamos com outras culturas e realidades.” Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 47


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Ao longo desses anos sempre foste fiel à tua arte. Tens algum segredo para cativar o interesse das gerações mais novas? Acho que o segredo está na genuinidade. Ser verdadeiro é a arma mais potente que tenho. Como disse antes, o original vai ser sempre o maior diferencial em tempos de globalização. Saber escutar os mais novos, conhecer as suas preocupações e responder-lhes sempre que possível. Valorizar e dar a oportunidade que, quando jovem, me foi negada por alguns. Existe algum artista com o qual ainda gostarias de fazer alguma parceria ou gravar um álbum? Muitos! A partilha sempre foi para mim um trunfo. Não descarto essa possibilidade, e gravar com músicos que foram referência no início da minha carreira vai ser sempre uma certeza. Hoje posso dizer, com toda a minha convicção, que uma grande parte deles se tornaram meus amigos e colaboradores. De que forma acreditas que a expansão do mundo digital e das redes sociais impactou a indústria musical? Eu acho que a grande mudança nas indústrias culturais, musical, em particular, foi exactamente nessa área. Hoje as redes sociais são uma ferramenta indispensável na comunicação e divulgação das nossas criações. As redes sociais, quando usadas adequadamente e de forma racional, podem ser a salvação de muitos músicos independentes. Hoje o sucesso de cada projecto musical não é mais propriedade das grandes companhias discográficas. Ao longo de todo este período, existirá algo que te arrependas de ainda não ter feito? Aprender, quando ainda jovem, as línguas e instrumentos tradicionais de Moçambique. Não ter estudado mais. Felizmente, tudo que ainda vou a tempo de fazer. Sabemos que és muito ligado à tua família. De que forma os teus entes queridos contribuem para o teu sucesso? A minha família sempre me deu um suporte, muitas vezes de uma forma silenciosa. Só o facto de me aceitarem como sou e terem permitido que eu escolhesse o meu próprio caminho foi, definitivamente, fundamental. Qual o momento que mais te marcou ao longo do teu percurso? A gravação da minha primeira música.

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O que podemos esperar de Stewart Sukuma nos próximos anos? Renovação e reinvenção. Ainda tenho a minha cabeça cheia de ideias e em constante criação. Ainda tenho sonhos por realizar. Quero continuar activo nos vários palcos que as artes me oferecem: música, escrita e representação. Aumentar e fortalecer as minhas actividades filantrópicas e contribuir para que haja mais justiça social. Acho importante o equilíbrio entre diferentes forças.


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“Acho que me fui adaptando ao longo dos anos, mas, para isso acontecer, foi preciso estar disponível para ouvir de tudo, até aquilo que considero mau. Acho uma estupidez estar a falar ou a fazer juízos de valor sem conhecimento de causa.”

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A 40-year career is undoubtedly an emblematic milestone in your life. What do you consider to be lessons learnt over all these years? To be resilient, to be patient and wait for the right moment to appear. Someone who prepares in silence and who manages to exceed expectations when opportunities arise. The trips I had the opportunity to take and the people I met along the way were my school. We only know ourselves accurately through other people, when we are confronted with other cultures and realities. I learnt that my freedom ends where someone else's freedom begins. I learnt that being unique and original is better than the biggest and best imitation. Naturally, you've seen a lot of things change from the 80's until now. What has changed in the Mozambican art scene? Are we on a good path? Everything changed (laughter). Some

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things for the better, and some for the worse. Well, let's start with the technological evolution, which is certainly the most impactful. Access to digital technology allowed us to be closer to a broader market, but at the same time created the illusion of immediate success. Immediate success is almost ephemeral, especially when we build it on a fragile foundation of false knowledge and lack of general world knowledge. The offerings of performers, be they instrumentalists or vocalists, has greatly improved, but it has failed in terms of content. I think that the current references are completely devoid of content, for the most part. There is potential, and this potential must be strongly sponsored/cherished so that the essence of content presentation is not lost, not only for entertainment, but also for culture. Nowadays, there is always the danger of trivialization and normalization of mediocrity, of evil, with incredible support from the masses, often lacking


adequate preparation in general world knowledge. What have you been listening to lately? Is your taste in music the same, or has it changed over time? What I listen to today is, without question, the result of a conscious filtering process, and all musical genres and styles are part of what I listen to. I think I've adapted over the years, but for that to happen, I had to be available to hear everything, even what I consider bad. I think it's stupid to be talking about or making value judgments about something one knows nothing about.

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Fotografia: Mariano Silva

How has the pandemic impacted your daily life? On a day-to-day basis? The pandemic, in a collective way, affected us all, directly and indirectly. It postponed our dreams and plans. It deprived us of the most precious asset: our freedom! We all know about the rest. I survived thanks to the investments I made in the past, through my relationships with business partners. On the other hand, the pandemic strengthened my sense of protection and activated other tools within me that were dormant. I value solidarity much more. Moza Banco and Renault Moçambique were partners that were always present in these distressing moments, and that allowed me to encourage other colleagues not to give up. I took the opportunity, during this period, to reflect and recreate myself.


You have a special relationship with Zambézia; are you currently preparing any kind of action in this province, your birthplace? There is a very big difference between what I would like to do and what will happen. I would like to do a lot for my land, which is where it all started. To rectify everything that didn't work out in my relationship with my origins, and all this because of what I love to do most: to sing my tradition. Throughout these years, you have always been faithful to your art. Do you have any secrets to captivating the interest of the younger generations? I think the secret is in the authenticity. Being true is the most potent weapon I have. As I said before, the original will always be the biggest differentiator in times of globalization. Knowing how to listen to the youngest, knowing their concerns and responding to them whenever possible. To value and give the opportunity that, as a young man, I was denied by some. Is there an artist you'd still like to collaborate with or record an album together? There are many! Sharing has always been an asset to me. I don't rule out that possibility, and recording with musicians who were a reference at the beginning of my career will always be a certainty. Today, I can say with all my conviction, that a large part of them have become my friends and collaborators. Do you believe that the expansion of the digital world and social networks has impacted

the music industry? In what way? I think the big change in the cultural industries, music in particular, was exactly in that area. Nowadays, social networks are an indispensable tool in the communication and dissemination of our creations. Social media, when used properly and rationally, can be a lifeline for many independent musicians. These days, the success of a musical project is no longer the property of the major record companies.

Throughout all these years, is there anything you regret not having done yet? Learning, while still young, the languages and traditional instruments of Mozambique. Not having studied more. Fortunately, all I still have time to do it. We know you are very attached to your family. How do your loved ones contribute to your success? My family has always supported me, often quietly. Just the fact that they accepted me as I am, and allowed me to choose my own path, was definitely fundamental. What was the most memorable moment for you along your journey? Recording my first song. What can we expect from Stewart Szukuma in the next few years? Renewal and reinvention. I still have my head full of ideas and am constantly creating. I still have dreams to fulfil. I want to remain active on the various stages that the arts offer me: music, writing and acting. Increase and strengthen my philanthropic activities and contribute to greater social justice. I think the balance between different forces is important.

“Social media, when used properly and rationally, can be a lifeline for many independent musicians. These days, the success of a musical project is no longer the property of the major record companies.”

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Fotografia: Mariano Silva

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I learnt that being unique and original is better than the biggest and best imitation.

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Fotografia: Cortesia de Absa Bank

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O Absa Bank Moçambique e a sustentabilidade:

A

sustentabilidade nos negócios é um aspecto intrínseco à nossa actividade. Defendemos a minimização da acção humana no ambiente, pelo que temos um programa de monitorização do próprio consumo energético e de papel que inclui medidas preventivas e correctivas, bem como treinamento e consciencialização dos colaboradores. Temos uma ideologia de trabalho e de actuação no mercado, que naturalmente se estende a todos os níveis, que faz parte da nossa cultura. Somos uma família com princípios orientadores, e procuramos, antes de nos posicionarmos com acções em prol da sustentabilidade, ser categoricamente um banco alinhado nesta vertente. Desenvolvemos um programa, a nível dos colaboradores, que envolve uma série de aspectos ligados aos princípios de sustentabilidade e que é suportado por um plano de comunicação interno. Temos já grandes marcos nesta temática, como é o caso da nossa nova sede, cujo funcionamento tem em conta uma série de considerações ambientais, como, por exemplo, a minimização do consumo de electricidade, que inclui um programa de monitorização do próprio consumo, com medidas preventivas e correctivas, e outro de treinamento e conscientização dos funcionários. Adicionalmente implementamos assinaturas e arquivos digitais e, de modo generalizado, criamos e disponibilizamos canais digitais.

socioeconómico. Em 2021 assumimos um compromisso público ao sermos signatários do Pacto Global das Nações Unidas, ou seja, orientámos o nosso modelo de gestão com base nos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, por forma a tornarmo-nos, nos próximos anos, no “banco mais verde” a operar em Moçambique.

Privilegiamos o financiamento de negócios que observam princípios ecológicos e constituídos com base na ideologia de finanças verdes, onde observamos o princípio de gestão de risco, avaliando o impacto ambiental de cada negócio na pauta de financiamento. Para nós é crucial haver um plano de transição, para que, ao converter os negócios e a sua actuação em algo cada vez mais sustentável, se garanta a preservação e a estabilidade necessária para o crescimento

Existem outros projectos focados nesta temática que estão no centro da nossa agenda. Renovámos a nossa parceria com o Parque Nacional da Gorongosa para preservação da fauna e da flora; participámos no lançamento da SPROWT, que está muito ligada a esta temática, e continuaremos a implementar as acções definidas no nosso plano estratégico e, onde houver espaço e capacidade para fazer mais, obviamente que o faremos.

As estratégias e as operações do Banco encontram-se alinhadas com os princípios universais em prol da conservação do meio ambiente. Tal facto dita o nosso engajamento e apoio aos movimentos ecológicos, com uma forte veia de consciencialização para o uso racional dos resíduos sólidos através do seu reaproveitamento. Ao apoiarmos Sebastião Coana, elevámos a cultura e a arte moçambicana aliada a uma sólida componente de sustentabilidade que se alinha com a visão do banco na promoção artístico-cultural, desenvolvimento de competências e educação cívica. O Absa Bank Moçambique tem-se demonstrado empenhado em contribuir para o desenvolvimento de Moçambique, particularmente no que respeita a figuras que merecem destaque pelo seu contributo para o crescimento socioeconómico, e Sebastião Coana é um jovem que se tem destacado actualmente pela relação que criou entre as artes e o ambiente.

“Adoptámos, em 2019, medidas a nível da nossa infra-estrutura com vista a reduzir os custos de electricidade e o consumo de papel.”

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Fotografia: Cortesia de Absa Bank

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A Xonguila conversou com o artista Sebastião Coana, que, em parceira com o Absa Bank Moçambique, realizou recentemente a exposição Reciclarte, procurando perceber a sua própria visão sobre este asssunto. O meu objectivo nesta exposição foi desafiar a percepção das pessoas sobre o lixo e consciencializar para a reutilização e reciclagem através das minhas obras de arte. Pegar no lixo e transformá-lo em arte, para mim é um meio de consciencialização da sociedade sobre a importância de combater a poluição. Eu escolhi utilizar o lixo para fazer arte, o que, por sua vez, vai despertar a mentalidade de qualquer outra pessoa, permitindo-lhe aprender a reaproveitar o lixo. Nesta exposição quis oferecer uma abordagem diferente de educação sobre poluição. Vejo a arte como instrumento prático de mudança, uma ferramenta educacional fundamental para o processo de consciencialização da nossa sociedade. No concreto, as minhas obras de murais são pintadas envolvendo jovens que capacito em técnicas de pintura que podem voltar a usar nos seus bairros, treinar outros jovens e pintar casas e obras de arte para seu sustento. Os jovens que fizeram parte da pintura de murais comigo e o município durante o passado ano de 2021 conseguiram ter apoio financeiro após participarem no programa. Este ano pretendo abranger cerca de 5.000 raparigas e jovens em Maputo e outros distritos no país. No que toca à educação das comunidades, a pintura de murais leva temas como, por exemplo, “Educar a mulher e rapariga é educar a sociedade”, que se encontra na baixa da cidade e promove a educação das raparigas e a emancipação da mulher. E pintei, em vários distritos, temas contra a violência baseada no género, etc. Os murais incentivam também a promoção do turismo urbano e a revitalização da estética pública das ruas, e atraem mais turismo.

A nível de poluição e mudanças climáticas, deveríamos aumentar a consciencialização das populações de forma a perceberem o seu impacto. E também, individualmente, criar mecanismos de multiplicação do talento de cada um ensinando outros. Todos nós temos um papel importante para a realização dos objectivos de desenvolvimento sustentável. É mais rápido combater a pobreza quando nós mesmos nos tornarmos menos egoístas.

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Fotografia: Cortesia de Absa Bank

Os artistas precisam de apoio corporativo. Quando tivermos mais empresas a apoiar exposições anuais e mais curadores e académicos a apoiar a gestão de talentos, teremos melhores resultados e causaremos mais impacto.


“Ao apoiarmos Sebastião Coana, elevámos a cultura e a arte moçambicana aliada a uma sólida componente de sustentabilidade que se alinha com a visão do Banco na promoção artístico-cultural, desenvolvimento de competências e educação cívica.”


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Fotografia: Cortesia de Absa Bank

“Privilegiamos o financiamento de negócios que observam princípios ecológicos e constituídos com base na ideologia de finanças verdes.”

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Absa Bank Moçambique and sustainability:

B

usiness sustainability is an intrinsic aspect of our activity. We stand by the reduction of the human footprint on the environment, and thus have a program for monitoring our own energy and paper consumption, which includes preventive and corrective measures and training and raising awareness of employees. We have an ideology of working and acting in the market, which naturally extends to all levels, and is part of our culture. We are a family with guiding principles and, before positioning ourselves with actions in favor of sustainability, we categorically seek to be a bank aligned in this respect. We have developed a program for

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employees involving a series of aspects linked to the principles of sustainability, which is supported by an internal communications plan. We already have major milestones in this area, as is the case of our new headquarters, whose operation takes into account a series of environmental considerations, such as, for example, the minimization of electricity consumption, which includes a program to monitor consumption itself, with preventive and corrective measures, and another for employee training and awareness. This is in addition to the implementation of digital signatures and files and, broadly speaking, the creation and availability of digital channels.


We are focusing our attention on the current climate changes and natural phenomena that have impacted our society and, in view of these events, we adopted, in 2019, measures at the level of our infrastructure with a view to reducing electricity costs and paper consumption. We privilege the financing of businesses that observe ecological principles and were established on the basis of green finance ideology and that present discernible risk management strategies, and we evaluate the environmental impact of each business in the financing schedule. For us, it is crucial to have a transition plan, so that, by converting the business and its performance into something increasingly sustainable, the preservation and stability necessary for socio-economic growth are guaranteed. In 2021, we made a public commitment by being signatories of the United Nations Global Compact, that is, we guided our management model based on the 17 United Nations Sustainable Development Goals, in order to become, in the coming years, the “greener bank” operating in Mozambique.

Fotografia: Cortesia de Absa Bank

The Bank's strategies and operations are aligned with universal principles in favor of environmental conservation. This fact dictates our engagement and support for ecological movements, with a strong awareness for the rational use of solid waste through its reuse. By supporting artist Sebastião Coana, we have elevated Mozambican culture and art allied to a solid sustainability component that is in line with the Bank's vision of promoting arts and culture, skills development and civic education. Absa Bank Moçambique has demonstrated its commitment to contributing to the development of Mozambique, particularly with regard to individuals that deserve the spotlight for their contribution to socio-economic growth, and Sebastião Coana is a young man who consistently stands out for the relationship he has created between the arts and the environment. There are other projects focused on this subject that are at the center of our agenda. We renewed our partnership with Gorongosa National Park for the preservation of fauna and flora; we participated in the launch of Sprowt, which is closely linked to this theme, and we will continue to implement the actions defined in the strategic plan, as predicted. However, we will continue to keep an eye on trends and, where there is space and capacity to do more, we obviously will. Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 69


Fotografia: Cortesia de Absa Bank

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Xonguila spoke with artist Sebastião Coana, who, in partnership with Absa Bank Moçambique, recently held the exhibition Reciclarte (a title joining “recycling” and “art”), seeking to explore his own vision of this subject. My aim with this exhibition was to challenge people's perception of waste and raise awareness of reuse and recycling through my artworks. Taking waste and turning it into art is, for me, a means of raising society's awareness of the importance of fighting pollution. I chose to use trash for art, which in turn will awaken everyone else's consciousness, allowing them to learn how to reuse trash and replace plastic with paper. In this exhibition, I wanted to offer a different approach to education about pollution. I see art as a practical instrument of change, a fundamental educational tool for the process of [raising] awareness in our society. In practical terms, my mural works are painted with the help of young people that I train in painting techniques, which they can then use again in their own neighborhoods, train other young people and paint houses and works of art for their livelihood. The young people who were part of the mural painting with me and the municipality during last year (2021) managed to have financial support after taking part in the program. This year, I intend to reach around 5,000 girls and young people in Maputo and other districts in the country. As for the education of communities, painted murals broach topics such as, for example, “Educating women and girls is educating society” – located in downtown Maputo – and promote the education and emancipation of girls and women. And I also painted, in several districts, slogans against gender-based violence, etc. The murals also encourage the promotion of urban tourism and the revitalization of the public aesthetics of the streets, and attract more tourism. Artists need corporate support. Once we have more companies supporting annual exhibitions and more curators and academics supporting talent management, we will have better results and make more impact. In terms of pollution and climate change, we should raise public awareness in order to understand its impact. And also, individually, create mechanisms for multiplying each one's talent by teaching others. We all have an important role to play in achieving the goals of sustainable development. It´s faster to fight poverty when we ourselves become less selfish.

“My aim with this exhibition was to challenge people's perception of waste and raise awareness of reuse and recycling through my artworks. Taking waste and turning it into art is, for me, a means of raising society's awareness of the importance of fighting pollution.” - Sebastião Coana, artist Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 71


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Fotografia: Sonika Agarwal

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KHENSANI SHONILA, GUJARAT, ÍNDIA Escrito por:

Eliana Silva O ponto de partida de Khensani foi o mesmo de muitas jovens: sair da sua zona de conforto para se tornar melhor pessoa. Com toda a transparência, a jovem partilha que a ida para a Índia não foi uma escolha sua, mas sim uma solução. Quantos de nós não saímos do conforto do nosso lar porque procuramos uma educação melhor? Foi o caso de Khensani Shonila. Quando partiu da capital moçambicana, foi para procurar uma melhor educação e um sítio onde ela própria se pudesse encontrar No que toca à escolha da área de estudo, Khensani optou por seguir as pegadas da família: o pai fez o curso médio de engenharia informática, e a irmã mais velha apostou igualmente na área da tecnologia, no seu curso superior. Ao seguir o mesmo caminho há quatro anos, a jovem acreditou que seria uma escolha segura, por ter apoio, caso dele necessitasse. “Quando comecei a perceber o que é a engenharia informática, arrependi-me um pouco. À medida que fui ficando mais madura, percebi que o motivo pelo qual tinha escolhido a área não tinha sido o melhor. Mas também não me culpo por isso, porque não tinha experiência suficiente. Se pudesse voltar atrás, provavelmente faria o curso de Gestão e Administração”, partilha Khensani, num momento em que já está a terminar o curso e a estagiar na área de web development. A acrescer às decisões que tomou re-

lacionadas com os estudos, Khensani encontrou vários desafios culturais na sua jornada. O primeiro? A comida. “A comida deles é muito picante. O piripíri deles fez-me mal porque era em quantidade a que eu não estava habituada. Depois, até pequenas coisas, como a língua. Embora muitas pessoas saibam falar inglês, grande parte fala a língua local. Isso acabou por criar um gap e, por causa dessa barreira linguística, no primeiro ano de Faculdade eu acabei por não fazer amizades”, conta a jovem. Outro desafio para Khensani foi sentir que em Anand, a cidade do estado de Gujarat onde vive, a familiaridade com negros não é muito grande. Sentiu-se, assim diz, “quase como uma estátua”. Na realidade, sair de Moçambique ajudou a jovem a conhecer-se melhor. A maturidade, a superação dos problemas e o conhecimento emocional foram coisas que Khensani acabou por ganhar na Índia. “Hoje penso que não existem muitos problemas que eu sinta que não consigo resolver sozinha. Estar aqui sozinha levou a que superasse muita coisa e deu-me flexibilidade para enfrentar qualquer problema”, confessa. Deste lado, fica a lição de uma jovem que, com as ferramentas certas, tem um mundo por descobrir.

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Na realidade, sair de Moçambique ajudou a jovem a conhecer-se melhor. A maturidade, a superação dos problemas e o conhecimento emocional foram coisas que Khensani acabou por ganhar na Índia

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Fotografia: Setu Chhaya

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KHENSANI SHONILA, GUJARAT, ÍNDIA Written by:

Eliana Silva Khensani's starting point was the same as that of many young women: stepping out of their comfort zone to become a better person. With full transparency, the young woman shares that going to India was not her choice, but a solution. How many of us leave the comfort of our home because we're looking for a better education? This was the case with Khensani Shonila. When she left the Mozambican capital, it was to seek a better education and a place where she could find herself. As for selecting the field of study, Khensani opted to follow in her family´s footsteps: her father has a technical degree in computer engineering, and her older sister also opted for technology for her higher education. Following the same path four years ago, the young woman believed that it would be a safe choice, as she would have support if she needed it. “When I started to understand what computer engineering [really] is, I regretted it a little. As I got more mature, I realized that the reason for choosing that field had not been the best. But I don't blame myself for that either, because I didn't have enough experience. If I could go back, I would probably take the Management and Administration course”, shares Khensani, at a time when she is already finishing the course and doing an internship in the web development field. In addition to the decisions she made

regarding her studies, Khensani encountered several cultural challenges on her journey. The first? The food. “Their food is very spicy. Their peri-peri made me sick because it was in quantities I was not used to. Then, there were small things, like the language. Although many people can speak English, most speak the local language. This ended up creating a gap and, because of this language barrier, in the first year of college I ended up not making any friends”, says the young woman. Another challenge for Khensani was to feel that in Anand, the city where she lives in the state of Gujarat, the familiarity with black people is not great. She felt, as she puts it, "almost like a statue." In reality, leaving Mozambique helped the young woman to get to know herself better. Maturity, overcoming problems and emotional knowledge were things that Khensani eventually gained in India. “Today, I think there aren't many problems I feel I can't solve on my own. Being here alone led me to overcome a lot, and gave me the flexibility to face any problem”, she confesses. Over here on our end, we share the lesson of a young woman who, now equipped with the right tools, has a world to discover.

“Being here alone led me to overcome a lot, and gave me the flexibility to face any problem.” 78 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022


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Fotografia: Mariano Silva

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O que mais nos preenche é ver os nossos clientes encherem a casa com risos e brindes. Os nossos happy hours semanais são prova disso, especialmente os temáticos . – Lígia Pereira, gerente do Sukrí Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 81


Fotografia: Mariano Silva

O

Sukrí

Lígia Pereira, gerente, na primeira pessoa

Sukrí nasceu na cozinha de casa, nos momentos com a família e com os amigos. Antes de ir para o Brasil, quase nunca cozinhava. Quando lá cheguei, não consegui viver de congelados, e comecei a pensar em comida sob o ponto de vista de quem a faz e não apenas de quem a come. Em 2014 fiz o meu primeiro bolo red velvet, para o meu pai, e nunca mais parei. Passei a bolos para amigos, depois para clientes e, de repente, bolos de casamento. Adorava cozinhar para os outros, em ambientes sociais, em viagens, em ocasiões de família. E sempre comentava que gostava de ter um cafezinho, para ter liberdade, para explorar esse lado, um lugar pequeno e verde. Em 2016 ganhei de presente, dos meus amigos, a minha 82 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022

primeira batedeira profissional. Acho que aí soube que nunca mais deixaria esse trilho e resolvi deixar-me ir para onde ele me levasse. Em 2018 surgiu a oportunidade de abrir o Sukrí e, embora tenha hesitado em alguns momentos, o instinto falou mais alto e decidi arriscar, na cara e na coragem. E foi justamente graças ao incentivo das pessoas que mais directamente alinharam comigo nesta aventura, que são o David Pereira e o Eddy Comiche, e da minha família, que também faz parte do Sukrí. E porque muita gente pergunta, permitam-me dizer-vos que Sukrí significa açúcar, em crioulo cabo-verdiano, nome que se explica justamente por causa do início relacionado com bolos e doces. A alma do Sukrí está em ser um lugar de alegria,


de positividade e boa vibe, onde as pessoas se sintam felizes, leves, e onde, acima de tudo, se sintam em casa! O que mais nos preenche é ver os nossos clientes encherem a casa com risos e brindes. Os nossos happy hours semanais são prova disso, especialmente os temáticos. Além disso, dedicamo-nos totalmente, dentro das nossas possibilidades, a tornar o Sukrí uma casa amiga do ambiente, desde o início, usando palhinhas metálicas, talheres de madeira para o take away e, agora, trabalhando em embala-

gens na mesma linha. O nosso estabelecimento já mudou muito, desde que começou, tanto no menu, como na aparência. No início, não tínhamos metade do que temos hoje em equipamento e infra-estrutura, mas tínhamos a nossa essência: comida fora do lugar-comum, reconfortante, e ambiente descontraído, mas acolhedor. Tenho a certeza que foi o que fez com que as pessoas, cada vez que cá viessem, voltassem.

“Dedicamo-nos totalmente, dentro das nossas possibilidades, a tornar o Sukrí uma casa amiga do ambiente, desde o início.” Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 83


O nosso menu é bem contemporâneo, tem pouca veia tradicional. O que é de origem típica, a gente arranja sempre uma forma de tornar diferente do habitual, dar-lhe um toque próprio. Os nossos ovos benedict são um bom exemplo, um clássico que transformamos apresentando uma versão com caranguejo e outra com camarão, dois alimentos nossos com proteínas bem característicos. Viajamos por pratos que nos levem a produzir outros que as pessoas comam com todos os sentidos: com os olhos, com o olfacto e, claro, com o paladar. Inspiramo-nos em comida do tipo bistrô para refeições leves, brunches e burgers; a nossa selecção de pratos principais é relativamente pequena, até porque não é realmente o nosso foco. Fazemos também serviço de catering para eventos privados de pequena dimensão. Temos a preocupação de utilizar os produtos da região, sempre que possível firmamos parcerias com 84 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022

fornecedores e produtores locais. Hoje já há, felizmente, muitos produtores locais a oferecer ingredientes que antes tinham que ser importados, fosse pela qualidade fosse pela disponibilidade durante o ano, especialmente em termos de vegetais e fruta. Não consideramos a comida, exclusivamente, o factor mais importante num restaurante. Na verdade, não há uma coisa mais importante que outra, existe uma série de componentes que se complementam de forma quase equilibrada. Ter uma comida maravilhosa não garante sucesso a nenhum restaurante se, por exemplo, o atendimento for péssimo; da mesma forma que um atendimento cinco estrelas vale pouco se o ambiente for desagradável; ou podemos ter o restaurante mais luxuoso e “instagramável” que vai perder o hype passado algum tempo se a comida for insossa. E por aí adiante. A comida é um ele-


Os últimos dois anos foram muito complicados para a restauração, mas conseguimos manter-nos vivos, com algumas medidas: reduzir o desperdício – tanto em termos de compra como de rentabilizar o uso dos ingredientes, fazendo com que os pratos usem o máximo de ingredientes comuns possível; indo em direcção ao cliente – com todas as medidas restritivas da covid-19 que compreensivelmente tinham que ser respeitadas. Tivemos que nos dispor a levar o Sukrí até eles e tornarmo-nos parte do seu dia-a-dia. Criámos por exemplo, caixas de brunch para datas comemorativas, e incrementámos as possibilidades de entrega à porta. Além disso, adaptámos o espaço, implementando todas as medidas de saúde e segurança pública possíveis, para que

os clientes se sentissem seguros e confortáveis, continuando a frequentar o café. Um dos nossos maiores aliados desde o início da nossa operação foram os meios digitais, tanto para divulgação quanto para comunicarmos com os clientes. E é uma rede que continuará a merecer a nossa dedicação para evoluir e se tornar uma ferramenta ainda mais funcional e útil para nós e para os nossos clientes. Estamos muito felizes e orgulhosos com o muito que já conquistámos, crescemos e evoluímos. Mas também temos consciência de que ainda há muito por melhorar, tanto em termos de operação quanto de infra-estrutura. Queremos expandir as possibilidades de lazer e entretenimento que oferecemos, e quem sabe se não nos vamos encontrar nalgum outro canto do mundo num futuro próximo? Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 85

Fotografia: Mariano Silva

mento-chave, com certeza, mas tanto quanto alguns dos factores que mencionei.


Fotografia: Mariano Silva

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“Estamos muito felizes e orgulhosos com o muito que já conquistamos, crescemos e evoluímos. Mas também temos consciência de que ainda há muito por melhorar, tanto em termos de operação quanto de infra-estrutura.” Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 87


Palates on the loose

Sukrí Lígia Pereira, manager, in her own words

S

ukrí was born in the kitchen at home, in moments with family and friends. Before going to Brazil, I almost never cooked. When I got there, I couldn't live on frozen foods, and so I started to think about food from the perspective of one who makes it, rather than simply eating it. In 2014, I made my first red velvet cake – for my father – and from there on, I never stopped. I moved on to baking cakes for friends, then for clients, and then, suddenly, wedding cakes. I loved cooking for others, in social occasions, on trips, on family gatherings. And I always mentioned that I would like to have a small coffee shop, to have freedom, to explore this [cooking] side, a small place in a green setting. In 2016, I got my first professional cake mixer as a gift from my friends. I think I knew then that I would never leave that path, and I decided to let myself go wherever it took me. In 2018, the opportunity arose to open Sukrí and, although I hesitated at times, instinct spoke louder and I decided to take the risk, face it with courage. And it was precisely thanks to the encouragement of the people who directly joined me in this adventure, which are David Pereira and Eddy Comiche, and my family, which is also part of Sukrí, that this was possible. And because many people ask, let me go ahead and tell you that Sukrí means sugar in Cape Verdean Creole, a name justified precisely by our early beginnings in baking cakes and sweets. The soul of Sukrí is in being a place of joy, positivity and good vibes, where people feel happy and light, and where, above all, they feel at home! What fulfils us the most is seeing our customers fill the house with laughter and gifts. Our weekly happy hours are proof of

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that, especially the themed ones. In addition, we are fully dedicated, within our possibilities, to making Sukrí an environmentally friendly establishment from the outset, using metal straws, wooden cutlery for take-away and, now, working on packaging in the same line of though. Our establishment has changed a lot since it started, both in terms of menu and appearance. In the beginning, we didn't have half of what we have today in terms of equipment and infrastructure, but we had our essence: unusual, comforting food and a relaxed, but welcoming atmosphere. I'm sure that's what makes people return every time, after being here once. Our menu is very contemporary, with little in the way of tradition. Of what is typical and local, we always find a way to make it different from the usual standard, to give it a unique touch. Our eggs benedict are a good example, a classic that we transformed by presenting a version with crab and another with shrimp, two of our characteristically protein-rich offerings. We travel through dishes that lead us to create others, that people eat with all their senses: with their eyes, with their sense of smell and, of course, with their taste. We are inspired by bistro-style food for light meals, brunches and burgers. Our main course selection is relatively small, not least because it's not really our focus. We also provide catering for small private events. We take care in using local produce, and enter into partnerships with local suppliers and producers whenever possible. Fortunately, there are now many local producers offering ingredients that previously had to be imported, either because of their quality or availability throughout the year, especially with regard to vegetables and fruit.

“In the beginnin have today in term but we had our e and a relaxed


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Palates on the loose

Fotografia: Mariano Silva

We do not consider food to be the single most important factor in a restaurant. In fact, there is nothing more important than the other; rather, there are a number of components that complement each other in an almost even way. Having wonderful food does not guarantee the success of a restaurant if, for example, the service is terrible; just as a five-star service is worth little if the environment is unpleasant. We can have the most luxurious and “Instagrammable” restaurant, and yet lose the hype after a while if the food is bland. And so on. Food is a key element, for sure, but so are some of the factors I mentioned here. These past two years were very difficult for the restaurant, but we managed to stay alive, with some measures: reduce waste – both in terms of purchase and in terms of making the most use of our ingredients, making the dishes use as many common ingredients as possible; going towards the customer – with all the restrictive measures of Covid-19 that understandably had to be respected. We had to be willing to take Sukrí to them and become part of their daily life. We created, for example, brunch boxes for commemorative dates, and implemented doorto-door delivery. In addition, we adapted the space, implementing all the requisite public health and safety measures, so that customers felt safe and comfortable, continuing to frequent the café. One of our greatest allies since the beginning of our operation has been digital media, both for disseminating content and communicating with customers. It is a channel that will continue to receive our dedication to evolve and become an even more functional and useful tool for us and for our customers. We are very happy and proud of how much we have already achieved, grown and evolved. But we are also aware that there is still a lot to improve, both in terms of operation and infrastructure. We want to expand the possibilities of leisure and entertainment that we offer, and who knows if we will meet again in some other corner of the world, in the near future?

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Fotografia: Mariano Silva

Turismo

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Turismo

“Having wonderful food does not guarantee the success of a restaurant if, for example, the service is terrible; just as a five-star service is worth little if the environment is unpleasant.” Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 91


Diáspora

NHAMBARRO: DANÇAR A DOR PARA TRAZER ALEGRIA Escrito por:

Yana de Almeida

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som do batuque que outrora anunciava dor hoje é um tradutor de alegrias que, através de movimentos acompanhados de cânticos, descodificam o falar das almas por meio da dança. Capulanas coloridas em corpos prontos para vibrar introduzem o grupo de homens e mulheres que, organizados em círculo, entram neste aos pares, em movimentos de vaivém, e, como se de uma competição se tratasse, mostram, cada um à sua maneira, os seus passos, ao ritmo de batuques e som de palmas. Assim se vai concretizando o nhambarro, uma dança característica da província da Zambézia originalmente integrada nas cerimónias dedicadas à iniciação da rapariga. Suas origens remetem para a história e tradição locais na tentativa de resposta a problemas de saúde feminina. De acordo com algumas fontes orais e escritas, nhambarro é o nome tradicional de uma doença

feminina caracterizada por corrimento vaginal. “Na altura, quando a mulher tivesse problemas de corrimento que lhe causassem dor, chamava-se uma curandeira. No processo de tratamento, fazia-se uma dança só executada por mulheres que já tivessem passado pelos ritos de iniciação. A curandeira trazia os seus batuques e, na tentativa de curar aquela doença, elas dançavam”, afirmou Júlia Asdrúbal Sede, bailarina da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD). As gingas aliadas aos diversos movimentos na zona pélvica denunciavam a zona da dor e a finalidade que ditara o surgimento da dança. “Quando se executa a dança, movimenta-se muito a cintura pélvica. Pode-se até movimentar os braços, mas usa-se muito a cintura pélvica, talvez por ser nesse local onde as mulheres sentiam mais dor”, prosseguiu a bailarina.

O som do batuque que outrora anunciava dor hoje é um tradutor de alegrias que, através de movimentos acompanhados de cânticos, descodificam o falar das almas por meio da dança

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Fotografia: Mariano Silva

Diáspora

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Uma dança antiga e sempre nova Com o passar dos tempos, o nhambarro foi-se desenvolvendo, cobrindo mais aspectos da vida social, não se limitando somente à dor feminina. Actualmente, homens e mulheres executam esta dança que, pela alegria e vivacidade que a caracteriza, acompanha a população em diversos momentos da vida. O nhambarro tem sido frequentemente usado como símbolo de alegria em momentos como a celebração de colheitas, graduações, casamentos, ou até mesmo como forma calorosa de recepção de algum dirigente ou figura importante, em jeito de boas-vindas. “As músicas que acompanham o nhambarro têm muito sentido social. Elas são criadas em resposta a várias situações da vida das comunidades, para chamar a atenção, repudiar, elogiar algum comportamento, ou, simplesmente, para celebrar a alegria”, afirmou a bailarina da CNCD. Esta dança, de conteúdos e significados profundos, é praticada numa vasta zona da província da Zambézia que compreende os distritos de Quelimane, Namacurra, Inhassunge, Mopeia, Morrumbala, Chinde e uma parte do distrito de Mocuba. Trajados de capulanas coloridas e camisetes, os dançarinos são acompanhados normalmente por três 94 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022

instrumentistas, cada um com um batuque diferente (gogo, mussosso e namirrebele, sendo este alto, de formato cilíndrico e oco.) Em cada uma das mãos é possível notar-se uma tábua, tradicionalmente conhecida como madha, palavra da língua chuabo (echuwabo), que significa mão. As tábuas são usadas para ampliar o som das mãos. Elas transformam o toque das mãos em algo mais audível. Um apito sinaliza a entrada e saída dos bailarinos e ajuda a motivá-los, dando-lhes mais força para a dança. “Quando dançamos nhambarro, a intenção é mesmo a de ir para frente. Em certos momentos, esta dança pode ser confundida com a dança utsi, da província de Sofala, mas há algo que as distingue: no nhambarro a intenção dos passos é conduzir quem executa para frente, enquanto no utsi os passos levam o dançarino para trás”, explica a nossa interlocutora. Aos olhos de Júlia Sede, o nhambarro é uma das mais belas manifestações culturais do povo moçambicano e, apesar das transformações que foi sofrendo ao longo dos tempos, nunca deixou de simbolizar a alegria zambeziana. “Convido sempre as pessoas a conhecerem esta dança, particularmente os zambezianos, de forma a conhecerem melhor a sua cultura. O nhambarro faz parte de nós e deve fazer parte da nossa vida”, concluiu a bailarina.


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Fotografia: Mariano Silva

O nhambarro é uma dança característica da província da Zambézia originalmente integrada nas cerimónias dedicadas à iniciação da rapariga. Suas origens remetem para a história e tradição locais na tentativa de resposta a problemas de saúde feminina


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NHAMBARRO: DANCING THE PAIN AWAY TO BRING IN JOY Written by:

Yana de Almeida

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he sound of the drumming that once signalled pain is, nowadays, a harbinger of joy that, through movements accompanied by chanting, decode the speech of souls through dance. Coloured capulanas (patterned cloth), wrapped around bodies ready to vibrate, introduce the group of men and women who, organized in a circle, enter it in pairs, with back-and-forth movements. And then, as if it were a competition, they each perform their own steps, in their own unique ways, to the rhythm of drumming and the sound of clapping. This is how the nhambarro is performed – a dance characteristic of the province of Zambézia, originally a part of the initiation rites for girls. Its origins are found in local lore and tradition, as an attempt to respond to women's health problems. According to some oral and written sources, nhambarro is the traditional name for a female disease characterized by vaginal discharge. “At the time, when a woman had problems with vaginal discharge that would cause her pain, a curandeira (traditional healer) was called in. As part of the treatment process, a dance was performed exclusively by women who had already gone through the initiation rites. The curandeira would bring her drums and, in an attempt to cure that disease, they would dance,” said Júlia Asdrúbal Sede, a dancer with the

Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD – “National Song and Dance Company”). The swaying, allied to various movements in the pelvic area, are a tell-tale sign of which pain region was targeted with the dance, as well as the dance´s primary raison d'etre. “When the dance is performed, the pelvic floor moves a lot. You can also move your arms, but the pelvic floor is used a lot, perhaps because that's where women felt the most pain”, the dancer proceeded to explain. An old and ever new dance Over time, nhambarro evolved to cover more aspects of social life, no longer limited to female pain alone. Currently, both men and women perform this dance which, due to the joy and vivaciousness that characterizes it, accompanies the population at different moments of their lives. The nhambarro has often been used as a symbol of joy, at times such as the celebration of harvests, graduations, weddings, or even as a warm welcome for a leader or important figure. “The songs that accompany nhambarro are filled with social meaning. They are created in response to various situations in the life of the communities, to draw attention to, repudiate, or praise some behaviour, or simply to celebrate joy”, stated the CNCD dancer.

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This dance, with its deep and meaningful content, is practiced in a vast region of the province of Zambézia that includes the districts of Quelimane, Namacurra, Inhassunge, Mopeia, Morrumbala, Chinde and a part of the district of Mocuba. Dressed in colorful capulanas and t-shirts, the dancers are usually accompanied by three instrumentalists, each with a different drum type (gogo, mussosso and namirrebele, the latter being tall, cylindrical and hollow). In each of their hands, one can spot a board, traditionally known as madha, a word from the Chuabo language (eChuwabo) which means “hand”. Boards are used to amplify the sound made by hands. They amplify the touch of hands into something more audible. A whistle signals the entry and exit of dancers and helps to motivate them, giving them more strength to dance. “When we dance nhambarro, the intention really is to move forward. At certain times, this dance can be confused with the utsi dance, from Sofala province, but there is something that distinguishes them: in nhambarro, the intention of the steps is to lead the performer forward, while in utsi the steps take the dancer backwards”, explains our interlocutor.

In the eyes of Júlia Sede, the nhambarro is one of the most beautiful cultural manifestations of the Mozambican people and, despite the changes undergone over time, it has never ceased to symbolize the Zambezian joy. “I always invite people to get to know this dance, particularly Zambezians, in order to get to know their culture better. The nhambarro is part of us, and should also be part of our lives”, concluded the dancer.

“I always invite people to get to know this dance, particularly Zambezians, in order to get to know their culture better. The nhambarro is part of us, and should also be part of our lives.” - Júlia Sede, CNCD dancer 98 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022


Fotografia: Mariano Silva

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Fotografia: Mariano Silva

Diáspora

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Diáspora

Chico António & The Next Centro Cultural Franco-Mocambicano Maio/May 2022 • Ed. 47 © Revista Xonguila | 101


CELEBRAÇÕES DO DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

Fotografia: Fátima Ribeiro

No âmbito das Comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, que anualmente se celebra a 5 de Maio, a Cátedra de Português Língua Segunda e Estrangeira da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane procedeu ao lançamento oficial do Projecto do Dicionário do Português de Moçambique (DiPoMo), através de um Colóquio sobre “A Codificação do Português de Moçambique”. O colóquio, que contou com palestrantes nacionais e estrangeiros, foi precedido de workshops dedicados à adaptação ao português de formas provenientes de outras línguas, em particular das línguas bantu, e a questões relacionadas com a integração/adaptação ou não da toponímia. Diferentemente dos recursos já existentes de descrição e codificação da língua disponíveis, que destacam as especificidades do português de Moçam-

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bique em relação ao português europeu e do Brasil, o DiPoMo visa a sua descrição como um todo. Diversos outros eventos e actividades assinalaram em Moçambique o Dia Mundial da Língua Portuguesa, entre as quais simpósios, lançamentos de livros, workshops e concursos entre estudantes, organizados por universidades, escolas secundárias e outras instituições. Na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo, o conhecido grupo TP 50 apresentou um espectáculo totalmente dedicado à música cantada em português em vários países da CPLP. Por casualidade, o músico português Rui Veloso assistiu a parte do espectáculo - que integrava uma composição sua -, tendo, no final, a pedido do público, também tocado e cantado.


Fotografia: Cortesia de Baia Mall

O BAÍA MALL TEVE UMA PÁSCOA DOCE E SOLIDÁRIA! Para além da já habitual decoração com motivos de Páscoa, que ano após ano se esforça por fazer cada vez mais bela, o Baía Mall realizou diversas actividades para acompanhar a festividade. Foram criadas acções solidárias que incentivaram os pais a ensinarem às crianças a importância de ajudar o próximo e os mais necessitados. Como resultado, as crianças doaram 200 kg de alimentos, onde não faltaram doces da Páscoa, que foram oferecidos ao orfanato Casa Madre Maria Clara. Cada criança que doou 1 kg de comida recebeu um prémio. O orfanato Casa Madre Maria Clara cuida de 78 crianças, que tiveram este ano, pela primeira vez, uma oferta de ovos da Páscoa e outros doces. A equipa do Baía Mall considera a acção um sucesso, e maravilhosa a sensação de poder ter contribuído para este momento de felicidade das crianças.

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CADA PESSOA É UMA COR O livro Cada Pessoa é uma Cor, da colecção As aventuras de Zua & Mwedzi, do autor Mauro Manhiça, aborda temáticas sensíveis com o objectivo de alertar e educar visando uma consciência perfeitamente informada e orientada para a igualdade na desmistificação de conceitos, crenças e/ou estereótipos. The book Cada pessoa é uma cor (“Each person is a colour”), from the collection As aventuras de Zua & Mwedzi (“The Adventures of Zua & Mwedzi”) by author Mauro Manhiça, broaches sensible topics with the objective of alerting and educating, aiming at a perfectly informed conscience oriented towards equality through the demystification of concepts, beliefs and/or stereotypes.

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O PLEBISCITO O Plebiscito é uma obra póstuma de José Craveirinha. Ao longo de quase centena e meia de poemas, Craveirinha, o poeta dos vaticínios infalíveis e também o vate da rebeldia, faz um percurso lírico que nos traz de novo a sua verve crítica, mordaz e insubmissa, mas igualmente nos mostra o nacionalista, o defensor da cultura moçambicana multiétnica e multirracial, intransigente para com todos os nepotistas, burocratas, bajuladores, hipócritas e traidores. Os poemas acabam por constituir uma obra ética, um pouco em contraponto com a obra criada no período colonial e que tem em Xigubo e Karingana wa Karingana um testemunho lírico de epicidade. No fundo, a obra pretende fazer um plebiscito sobre atitudes e leis que contrariam a revolução e a necessária ética humana e sociopolítica, como foram, por exemplo, o caso da contestada lei da chicotada e a pena de morte. Termina com um poema sobre a paz. O Plebiscito (“The Plebiscite”) is a posthumous work by José Craveirinha. Across nearly one hundred and fifty poems, Craveirinha, the rebel poet of infallible predictions, traces a lyrical path that takes us back to his critical verve, biting and untamed, as well as to his nationalism, his defence of a multi-ethnic and multiracial Mozambican culture, intransigent towards all nepotists, bureaucrats, sycophants, hypocrites and traitors. To a certain extent, the poems constitute an ethical oeuvre, somewhat as a counterpoint to the works created in the colonial era, which had in Xigubo and Karingana wa Karingana a lyrical testimony to the epic. In essence, this work intends to hold a plebiscite on the attitudes and laws that contradict the revolution and the necessary human and socio-political ethics, as was the case, for example, of the contested laws of whipping and the death penalty. It closes with a poem about peace.

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40 & SINGLE 40 & Single (Solteira aos 40) é um convite a acompanhar a vida tempestuosa de Ebaner Temple, uma mulher negra solteira de meia-idade, bissexual e designer de moda, cuja especialidade é desenhar e produzir vestidos de cerimónia e casamento. Num mundo dominado por homens, ela e todas as mulheres em seu redor procuram encontrar respostas para questões importantes da vida, ao mesmo tempo que digladiam com o sexo oposto em busca de oportunidades iguais na sociedade em que estão inseridas, o que causa uma série de acontecimentos inesperados e encontros apaixonados. Através desta série romântica ficamos a

conhecer um pouco do dia-a-dia de Acra, a capital do Gana, assim como os costumes e tradições desse povo africano. Muito rica em termos de imagem, a série apresenta, em inúmeros momentos, as cores garridas dos tecidos com os quais Ebaner trabalha para produzir os seus belos vestidos, e lindas paisagens daquele país. Solteira aos 40 conta com a direcção de Leila Djansi, e com Marie Humbert, Miranda Bailey e Deon Matthew nos papéis principais. A primeira temporada da série está inteiramente disponível na conhecida plataforma de streaming Netflix, que recentemente confirmou que disponibilizará brevemente a segunda temporada.

Num mundo dominado por homens, a protagonista da história e todas as mulheres em seu redor procuram encontrar respostas para questões importantes da vida


40 & SINGLE 40 & Single is an invitation to follow the tempestuous life of Ebaner Temple, a single, middle-aged, bisexual black woman and fashion designer whose specialty is designing and making evening gowns and wedding dresses. In a world dominated by men, she and all the women around her seek answers to important life questions, while also fighting with the opposite sex for equal opportunities in the society they live in, which in turn gives rise to a series of unexpected events and passionate encounters. Through this romantic series, we get to know a little about daily life in Accra,

Ghana´s capital city, as well as the customs and traditions of that African people. The series is very visually rich and shows, in countless moments, the bright colours of the fabrics Ebaner works with to produce her beautiful dresses, as well as presenting the viewer with beautiful landscapes of that country. 40 & Single is directed by Leila Djansi, and has Marie Humbert, Miranda Bailey and Deon Matthew in the main roles. The first season of the series is entirely available on Netflix – the well-known streaming platform – which recently confirmed that it will soon release the second season.

40 and Single is an invitation into the tumultuous life of Ebaner Temple - a biracial, gynandrous, single, bridal fashion designer


A COZINHA

WRAP DE SALMÃO (COM APA DE TRIGO), BY SUKRÍ

A apa pode ser comprada semi-pronta (geralmente basta aquecê-la e tostá-la por 2 minutos, numa chapa ou frigideira) ou pode ser feita em casa, o que também é um processo simples e rápido. Para quem seja intolerante ao glúten, pode-se, alternativamente, usar uma apa de arroz, que o resultado também é fantástico! Para a apa de trigo: • 40 g de trigo • 100 ml de leite • 1 colher de sopa de azeite • Uma pitada de sal & pimenta Misture os ingredientes até que se forme uma massa homogénea. Depois é só esticar a massa com um rolo de cozinha até que atinja a espessura desejada e, por fim, assá-la, 3 minutos de cada lado. Para a montagem do wrap: • 2 colheres de sopa de cream cheese • 15 g de pepino em tiras • 15 g de cenoura em tiras • 20 g de abacate fatiado • 80 g de salmão fumado • cebolinha a gosto • uma pitada de sal e pimenta • molho doce e picante a gosto Comece por barrar o wrap com o cream cheese. Em seguida, disponha, de uma extremidade à outra, no centro da apa, o pepino, a cenoura e o abacate. Tempere com sal e pimenta a gosto. Por cima, ponha o salmão, sempre fazendo por preencher todo o espaço da apa, afinal queremos que cada garfada seja especial. Por fim, mas não menos importante, regue com o molho doce e picante a seu gosto, enrole a apa e corte-a ao meio. Pode prender as metades com uns espetinhos, e está pronto. Delicie-se com esta receita, que é simples, rápida, leve e deliciosa.

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Fotografia: Mariano Silva

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A COZINHA

SALMON WRAP (WITH A WHEAT WRAP), BY SUKRÍ The wrap can be purchased partially cooked (generally, you just need to place it on a heated griddle or frying pan, and toast it for 2 minutes), or it can be made at home from scratch, which is also a simple and quick process. Alternatively, for those who are gluten intolerant, you can use a rice wrap, which delivers an equally fantastic result! To prepare the wheat wrap: • 40 g of Wheat flour • 100 ml of Milk • 1 tablespoon of Olive oil • A pinch of salt & pepper Mix the ingredients and knead until you get a homogenous dough. Then, simply flatten and stretch the dough with a rolling pin until it reaches the desired size and thickness and, finally, bake it for 3 minutes on each side.

Begin by spreading the cream cheese on the wrap. Next, arrange at the centre of the wrap, from one end to the other, the cucumber, carrot and avocado. Season with salt and pepper to taste. Place the salmon on top, always making sure to fill the entire surface of the wrap – after all, we want each bite to be special. Last but not least, drizzle over the sweet chilli sauce to taste, roll up the wrap and cut it in half. You can secure the halves with skewers, and you're done. Indulge in this recipe, which is simple, quick, light and delicious.

Fotografia: Mariano Silva

To assemble the salmon wrap: • 2 tablespoons of Cream cheese • 15 g of Cucumber, thinly sliced • 15 g of Carrots, thinly sliced • 20 g of Avocado, sliced • 80 g of Smoked salmon

• Spring onion, to taste • A pincho of salt & pepper • Sweet chilli sauce, to taste

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Editorial

8ª conferência e exposição de mineração, Petróleo, gás e energia de moçambique

8a Edição

2 - 3 Junho 2022 | Maputo, MoçaMbique Centro InternaCIonal de ConferênCIas JoaquIm ChIssano

2022 parCeIro de medIa loCal

www.mozambiqueoilmining.com

Desenvolvimento sustentável em toDa a CaDeia De valor mineral e energétiCo, rumo a um futuro Com baixas emissões De Carbono ofICIalmente apoIado por

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Moçambique, sa. 116 | Revista Xonguila © Ed. 47 • Maio/May 2022 informações Comerciais: laura@ametrade.org & mmec@ametrade.org | informações sobre Marketing & Parcerias: fulden@ametrade.org & natercia@ametrade.org


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