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Revista Xonguila Nº46

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Publicação mensal • Abril/April 2022 • Ed. 46 • Ano 05 • 300 MZN • xonguila.co.mz

JESSE JANE

Um talento a seguir A talent to watch

CAFÉ EM MANICA

Promovendo o empoderamento da mulher Promoting women´s empowerment

CHUDE MONDLANE Uma artista sem fronteiras An artist without borders

MARIANA TEMBE

A dança da resiliência The dance of resilience

TUFO DA MAFALALA

Mulheres preservam herança cultural Women preserving cultural heritage


Com canto e dança

O TUFO DA MAFALALA CRUZA GERAÇÕES

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Fotografia: Mariano Silva

O vasto reportório de danças tradicionais de Nampula do grupo Tufo da Mafalala inclui o tufo, o ndzope e o matsepwa, ritmos marcados por influência afro-árabe Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 5


Com canto e dança

O TUFO DA MAFALALA CRUZA GERAÇÕES Dança de origem árabe, o tufo entra em Moçambique e difunde-se pela zona norte do país, sobretudo nas províncias de Nampula e Cabo Delgado, assim reza a história. Seu nome deriva provavelmente da designação dos instrumentos musicais que os árabes utilizavam, “ad-duff”. Em português, essa palavra tornou-se “adufe” ou “adufo”, e, depois, passou a “tufo”.

S

e antes era uma dança típica de diversão para os árabes, hoje há um grupo moçambicano na nossa capital que apregoa esta manifestação cultural como um ritual educativo e para anunciar celebrações. Fundado há mais de 50 anos pelo senhor Matano Abdala, o Tufo da Mafalala, maioritariamente composto por mulheres, há anos que vem servindo de escola para as novas gerações. Com efeito, através de canto e dança, o grupo procura educar mulheres e jovens a adoptarem uma postura mais responsável no seu dia-a-dia. O grupo cultural Tufo da Mafalala é detentor de um extenso mosaico cultural e artístico, possui uma história de cruzamentos culturais do Oceano Índico. O seu vasto reportório de danças tradicionais de Nampula inclui o tufo, o ndzope e o matsepwa, ritmos marcados pela influência afro-árabe. Com trajes típicos de cores fortes, as “muthianas horeras” (mulheres bonitas) cobrem o rosto de mussiro – uma espécie de creme ou loção facial usado maioritariamente pelas mulheres macuas –, blusas e capulanas de cores vivas e um lenço à cabeça. Fazem movimentos leves com os braços, pernas e cintura e, com uma voz melodiosa, cantam e dançam. O grupo é composto por quinze membros, dos quais dez mulheres, duas raparigas, dois instrumentalistas e o presidente do agrupamento. São provenientes da província de Nampula, com excepção das duas raparigas, que são oriundas de Maputo. Saquia Rachid, de 49 anos de

idade, mãe de dois rapazes (de 27 e 30 anos), e natural da capital do Norte, é a rainha do Tufo da Mafalala, do qual faz parte há cerca de 35 anos. Após o desaparecimento físico do seu sogro, fundador do grupo, assumiu o comando, onde permanece até aos dias de hoje. Para esta revista alusiva ao Dia da Mulher Moçambicana, 7 de Abril, a revista Xonguila conversou com Saquia Rachid, que deu a conhecer a sua versão da história da dança que pratica. Contou que os árabes que levaram o tufo para a Ilha de Moçambique tinham por hábito, no intervalo da jornada laboral, tocar panelas e dançar. “Os nossos avós achavam aquilo estranho, mas, ao mesmo tempo, engraçado”, afirmou Saquia. Hoje em dia, olha-se para a dança tufo como herança cultural, e se antigamente, na opinião da nossa interlocutora, era uma dança exclusivamente praticada por homens, com o passar dos anos as mulheres reinventaram-na e tornaram-se as principais dançarinas. Ainda segundo Saquia, o tufo é uma dança que foi criada especialmente para gingar, e, quando os homens gingassem, as mulheres comentavam: “Olha, aquele homem que esta a gingar, nem parece homem”. Daí que os homens tenham achado por bem deixar a dança para as mulheres, para evitar conotações e atributos, explicou a rainha do Tufo da Mafalala, acrescentando que os homens agora apenas cantam e tocam os instrumentos.

O Tufo da Mafalala já esteve na África do Sul, por três vezes, assim como na Argélia, no Brasil e em Itália, para apresentar alguns números do seu trabalho 6 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022


Fotografia: Mariano Silva

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Semanalmente as mulheres juntam-se num dos bairros suburbanos da cidade de Maputo, o bairro da Mafalala, para dançar tufo. Segundo a rainha do grupo, esta dança é considerada uma dança terapêutica. “Jovens e mulheres juntam-se a nós para, de forma descontraída, esquecerem os seus problemas quotidianos e se aventurarem na dança. É uma excelente forma de purificação espiritual”, defendeu. Com a dança tufo, as mulheres procuram transmitir alegria. Em resultado disso, só dançam em ocasiões especiais, como aniversários, lobolo, casamentos, entre outros eventos comemorativos. O Tufo da Mafalala viaja frequentemente dentro e para fora do país para apresentar alguns números do seu trabalho. A título de exemplo, já estiveram três vezes na vizinha África do Sul, estiveram na Argélia, no Brasil, concretamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e Itália também foi um dos destinos escalados, sublinhou, visivelmente emocionada, a nossa fonte, que, na mesma ocasião informou também que geralmente são os organizadores que definem o número de pessoas que deve viajar. “Para sair uma boa dança, no mínimo precisamos de ser oito pessoas. Apesar de serem movimentos leves, são cansativos, portanto há que trocar os elementos do grupo durante a dança”, disse Saquia Rachid. “O valor monetário resultante das nossas actuações é repartido pelo grupo para garantir que cada um de nós consiga comprar os trajes necessários e as respectivas bijuterias. Ultimamente, devido ao cenário que o país e o mundo vivem, é normal por mês termos apenas um espectáculo, contrariamente ao que vinha acontecendo em outros tempos”, afirmou a representante do grupo, apontando um dos principais desafios que poderá vir a arruinar a continuidade do grupo. Segundo ela, é necessário que se injecte sangue novo, apesar de esta ser uma tarefa muito difícil, uma vez que as jovens do Sul não se mostram muito interessadas neste tipo de cultura, enquanto em Nampula as crianças crescem já dançando tufo. O grupo sonha aprender outras habilidades para além do canto e dança, visto que a maioria dos seus elementos tem baixa escolaridade e, com o custo de vida a elevar-se, precisa de outras fontes de rendimento. O bairro da Mafalala localiza-se na cidade de Maputo, no distrito Municipal de KaMaxaquene. Pela sua historicidade e simbolismo cultural, é um dos bairros mais conhecidos do país, estando associado à emergência da identidade moçambicana. Dele saíram grandes nomes da literatura, da música, do desporto e da vida política do país. Na Mafalala residem pessoas provenientes dos mais diversos pontos do país, com as suas variadas manifestações religiosas e culturais, sendo relevante a presença de pessoas da etnia macua, a que mais pratica a dança tufo.

O grupo sonha aprender outras habilidades para além do canto e dança, visto que a maioria dos seus elementos precisa de outras fontes de rendimento

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Na Mafalala residem pessoas provenientes dos mais diversos pontos do país, com as suas variadas manifestações religiosas e culturais, sendo relevante a presença da etnia macua, a que mais pratica a dança tufo

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Fotografia: Mariano Silva

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Singing and dancing

THE TUFO DA MAFALALA CROSSES GENERATIONS The story goes that tufo, a dance of Arab origin, entered Mozambique and spread throughout the north of the country, especially in the provinces of Nampula and Cabo Delgado. Its name probably derives from the designation of the musical instruments that the Arabs used, “ad-duff”. In Portuguese, this word became “adufe” or “adufo”, and later “tufo”.

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nce a typical fun dance for the Arabs, today there is a Mozambican group in our capital city that promotes this cultural manifestation as an educational ritual and to announce celebrations. Founded more than 50 years ago by Mr. Matano Abdala, the Tufo da Mafalala, mostly composed of women, has since been serving as a school for the younger generations. Indeed, through singing and dancing, the group seeks to educate women and young people to adopt a more responsible attitude in their daily lives.

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The Tufo da Mafalala cultural group comprises an extensive cultural and artistic mosaic, and has a history of cultural exchange in the Indian Ocean. Its vast repertoire of traditional Nampula dances includes tufo, ndzope and matsepwa, rhythms marked by Afro-Arab influence. Wearing typical brightly coloured attire, the “muthianas horeras” (beautiful women) cover their faces with mussiro – a kind of cream or facial lotion used mostly by Macua women –, brightly coloured blouses and capulanas and a headscarf. They make light movements with their arms, legs and waist and, in


Fotografia: Mariano Silva

a melodious voice, sing and dance. The group is made up of fifteen members, including ten women, two girls, two instrumentalists and the group's president. They come from the province of Nampula, with the exception of the two girls, who are from Maputo. Saquia Rachid, 49 years old, mother of two boys (27 and 30 years old), and born in the northern capital, is the queen of Tufo da Mafalala, of which she has been a part of for about 35 years. After the physical disappearance of her father-inlaw, founder of the group, she assumed command, where she remains to this day.

years women have since reinvented it and became the main dancers.

For this magazine edition dedicated to the Mozambican Women's Day, celebrated on April 7th, Xonguila magazine spoke with Saquia Rachid, who shared her version of the history of the dance she practices. She said that the Arabs who took the tufo to Mozambique Island used to bang on pots and dance during breaks in their workday. “Our grandparents thought it was strange, but funny at the same time,” said Saquia. Nowadays, the tufo dance is seen as cultural heritage. In the opinion of our interlocutor, in the past it was a dance exclusively practiced by men, but over the

Every week, the women gather in Mafalala, one of the suburban neighbourhoods of the city of Maputo, to dance tufo. According to the queen of the group, this dance is considered a therapeutic dance. “Young people and women join us to, in a relaxed way, forget about their daily problems and venture into dance. It is an excellent form of spiritual purification”, she defended. With the tufo dance, women seek to convey joy. As a result, they only dance on special occasions, such as birthdays, lobolo and weddings, among other commemorative events.

Still according to Saquia, the tufo is a dance that was created specifically for showing off through a swaying motion, and when the men swayed, the women commented: “Look, that man who is swaying doesn't even look like a man [anymore]”. That's why the men thought it was good to leave the dance to the women, to avoid connotations and incorrect attribution, explained the queen of Tufo da Mafalala, adding that nowadays, men only sing and play the instruments.

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Tufo da Mafalala travels frequently inside and outside the country to present their work. As an example, they have already been to neighbouring South Africa three times; they have been to Algeria, Brazil – specifically, to Rio de Janeiro and São Paulo – as well as Italy, revealed our visibly moved source who, on the same occasion, also informed us that it is usually the organizers who define the number of people who must travel. “To have a good dance, we need at least eight people. Despite being light movements, they are tiring, and so you have to change the elements of the group during the dance”, said Saquia Rachid. “The monetary value resulting from our performances is shared by the group to ensure that each of us is able to buy the necessary costumes and jewellery. Lately, due to the [pandemic] scenario that the country and the world are experiencing, it is normal to have only one show per month, contrary to what had been happening in other times”, said the representative of the group, pointing out one of the main challenges that could threaten the group’s continuing existence.

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According to her, it is necessary to inject new blood, although this is a very difficult task, since young people in the South are not very interested in this type of cultural manifestation, while in Nampula children grow up already dancing tufo. The group dreams of learning skills other than singing and dancing, as most of its members have little schooling and, with the cost of living on the rise, they need other sources of income. The Mafalala neighbourhood is located in the city of Maputo, in the Municipal district of KaMaxaquene. Due to its historical and cultural symbolism, it is one of the better-known neighbourhoods in the country, being associated with the emergence of Mozambican identity. Great names in literature, music, sports and the country's political life emerged from it. People from the most diverse parts of the country live in Mafalala, with their varied religious and cultural manifestations, and the presence of the Macua people is relevant, as the ones that most practice the tufo dance.


“ It is necessary to inject new blood, although this is a very difficult task since young people in the South are not very interested in this type of cultural manifestation, while in Nampula children grow up already dancing tufo.”

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Fotografia: Mariano Silva

– Saquia Rachide, rainha do Tufo da Mafalala


56 CHUDE MONDLANE

Uma mistura de artes e mundos A mix of arts and worlds

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20 CAFÉ EM MANICA/ COFFEE IN MANICA

Uma nova esperança para as comunidades em Manica A new hope for communities in Manica

68 TURISMO/ TOURISM A globalização e o turismo, por Neyde Cuna Tourism and globalization, by Neyde Cuna

82 ANA BORGES

Quando a paixão pelo desporto faz esquecer a idade When a passion for sport makes you forget about age

42 MARIANA TEMBE

A incrível história de uma bailarina improvável The incredible story on an unlikely dancer

100 DIÁSPORA

Yara Polana, uma senior developer em Reiquiavique, Islândia Yara Polana, a senior developer in Reykjavík, Iceland

110 ALCANCE EDITORES

Sugestões de leitura mensais da Alcance Monthly reading suggestions by Alcance Editores

112 KARINGANA

Mulher Moçambicana, de Yaniza Nizomodine

74 JESSE JANE

Boas energias para a arte moçambicana Good energy for Mozambican art

4 TUFO DA MAFALALA

Cruza gerações através de canto e dança Crosses generations through song and dance

FICHA TÉCNICA/BIOS Propriedade/Property: Veludo & Mentol, Sociedade Unipessoal Lda • Conselho de Administração/Administrative Council: Omar Diogo, Nuno Soares, Mariano Silva • Director: Nuno Soares • Gestão de Conteúdos Editoriais/Editorial Content Management: Nuno Soares, Mariano Silva • Copy-desk (português): Fátima Ribeiro • Colunistas/Writers: Eliana Silva, Mariano Silva, Nuno Soares, Jaime Álvaro, Precidónio Silvério, Aayat Irfan • Tradução (Português-Inglês)/Translation (Portuguese-English): M. Gabriela Carrilho Aragão • Fotografia/Photography: Mariano Silva • Design de Capa/Cover Design: Nuno Azevedo • Grafismo/Visuals: Omar Diogo • Infografia e Paginação/ Infographics and Pagination: Omar Diogo • Produtores Audiovisuais/Audiovisual Producers: Nuno Lopes, Ana Piedade, Mariano Silva • Gestão de Redes Sociais/ Social Media Management: Nuno Soares • Conteúdos de Marketing e Comunicação/ Marketing and Communication Contents: Omar Diogo, Nuno Azevedo • Gestão de Homepage e Edição Online/Homepage Management and Online Editing: Omar Diogo, Jorge Oliveira • Departamento Comercial/Commercial Department: Nuno Soares - comercial@xonguila.co.mz • Impressão/Printing: Minerva Print • Distribuição/ Distribution: Flotsam Moçambique, Lda • ISSN: ISSN-0261-661 • Registo/Register: 02/Gabinfo-dec/2018 • Registo de Propriedade Industrial/ Industrial Property Registration: 35065/2017 - 35066/2017 (15/01/2018) Os artigos com assinatura reflectem a opinião dos autores e não necessariamente da revista. Toda a transcrição ou reprodução, parcial ou total, requer a autorização expressa da empresa titular da revista. The articles reflect the authors opinion, and not necessarily the magazine opinion. All transcript or reproduction, partial or total, requires the authorization of the company that owns the magazine

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Editorial

Do Director From the Director Caro leitor,

Dear Reader,

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stamos em Abril, um mês em que por todo o Moçambique, sobretudo no dia 7, data da morte de Josina Machel, se homenageia a mulher moçambicana. Sendo a mulher um importantíssimo pilar da sociedade moçambicana, e assumindo a Xonguila como princípio fundamental a defesa da igualdade de género, de um mundo em que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades, esta ocasião não pode aqui passar despercebida. Assim, como é nossa tradição, vimos brindar o nosso público com uma edição especial em que se destaca a presença de mulheres moçambicanas, seja em artigos por elas escritos, seja em textos que delas falam ou em que elas surgem na primeira pessoa. O nosso objectivo é mostrar a sua participação e relevância em diversas áreas, por vezes resultado de grandes esforços para derrubar barreiras económicas e sociais.

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e are now in April, a month in which we honour Mozambican women throughout the country, especially on April 7th, the date of Josina Machel's death. Since women are a very important pillar of Mozambican society, and since Xonguila stands by gender equality as a fundamental principle – a world in which men and women have the same opportunities – this occasion could not go unnoticed. Thus, as is our tradition, we bring to our audience a special edition in which we spotlight Mozambican women, in the form of articles written by them, texts that speak about them or in which they appear in the first person. Our objective is to show their participation and relevance in different areas, sometimes the result of great efforts to break down economic and social barriers.

Nesta publicação no feminino contamos-lhe a incrível história de Mariana Tembe, uma bailarina a que uma grande deficiência física não impediu de realizar seus sonhos, bem como a de Ana Bela dos Reis Borges, que, com determinação, vem vencendo limites vulgarmente impostos pela idade. Connosco estão também Chude Mondlane, a artista que hoje se esforça por abrir espaços a outras artistas, Jesse Jane, pintora, e Saquia Rachid, a rainha do grupo cultural Tufo da Mafalala, de que faz parte há cerca de 35 anos. De outros domínios trazemos Yara Polana, que, na Islândia, trabalha no domínio das novas tecnologias, e Neyde Cuna, a nossa colunista responsável pela rubrica de turismo, que nos fala do impacto da globalização no turismo e no nosso modo de ser. Como sempre, teremos outras matérias preparadas especialmente para si, entre as quais um projecto de produção de café que, ao fomentar o desenvolvimento das comunidades em Manica, procura, em particular, promover o empoderamento da mulher.

In this women-focused edition, we tell you the incredible story of Mariana Tembe, a dancer whose great physical disability did not prevent her from realizing her dreams, as did Ana Bela dos Reis Borges who, with determination, has been overcoming limits commonly imposed by age. Joining them are also Chude Mondlane, the artist who strives to create new spaces for other artists today; Jesse Jane, a painter, and Saquia Rachid, the queen of the Tufo da Mafalala cultural group, of which she has been a part of for about 35 years. From other areas, we bring you Yara Polana who, in Iceland, works in the field of new technologies, and Neyde Cuna, who pens our Tourism column, tells us about the impact of globalization on tourism and on our way of being. As always, we have other stories prepared especially for you, including a coffee production project that specifically seeks to promote the empowerment of women through the development of communities in Manica.

Às nossas mães, filhas, irmãs, companheiras, esposas, amigas, a cada mulher batalhadora, a nossa homenagem.

To our mothers, daughters, sisters, companions, wives, friends, to every woman who is a fighter, here is our tribute.

Votos de uma excelente leitura.

Best wishes for an excellent read. Nuno Soares Director

Com o apoio de:

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Fotografia: Mariano Silva

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O novo ouro de Manica

Manica é a província de Moçambique que mais é conotada com a exploração do ouro, esse metal precioso e brilhante que consegue hipnotizar quem lhe toca, frequentemente personificando a ganância humana e o individualismo. Em contrapartida, começam a surgir na mesma província projectos que pretendem fomentar o empoderamento da mulher e o desenvolvimento das comunidades. Estamos a falar de plantações de café que estão a florescer ao redor de Manica e Sussundenga, de um novo “ouro” que pretende alterar o paradigma actual da agricultura de subsistência da maior parte da população da região.

Aqui em Moçambique, no topo das montanhas da cordilheira de Chimanimani, a vista alcança muito para lá da fronteira do país vizinho, o Zimbabwe, onde a população está intimamente ligada ao cultivo do café. Ali proliferam inúmeras plantações de cafeeiros, o que levou muitas famílias da zona raiana de Moçambique a procurar trabalho naquelas fazendas. Há, inclusive, quem produza o café em solo moçambicano, levando-o depois para processamento no país vizinho. Os projectos Café de Manica e Café Vumba criaram uma oportunidade que estava à vista de todos: Moçambique tem disponíveis terras para cultivo e exploração, assim como mão-de-obra. O Café de

Manica é liderado pelos sócios Jenaro Lopez e Mandela Manuel, e o Café Vumba pela empreendedora Riana Ribeiro. Apesar de empresas distintas, partilham a mesma filosofia e o mesmo modelo de negócio. A Xonguila foi convidada a conhecer as acções empreendidas nesta região que pretendem dinamizar a economia agrícola em torno do café, assim como melhorar as condições de vida das famílias envolvidas. Sediadas no sopé da famosa formação geológica com o mesmo nome, o Monte Vumba, as instalações do projecto Café Vumba beneficiam de uma paisagem magnífica que faz inveja ao mais belo empreendimento turístico. Ali cruzámo-nos com os primeiros pés de cafeeiro, dispostos em canteiros bem alinhados à mercê da rega de aspersão. As mudas estão a ser entregues duas vezes ao ano, entre Fevereiro e Abril e entre Outubro e Dezembro, e a equipa preparava-se para fazer uma entrega em mais uma comunidade nos arredores da cidade de Manica. Em Nhaconza fomos recebidos com canções de regozijo e de boas-vindas por um grupo generoso de mulheres. Os cânticos aumentaram de intensidade assim que o tractor, carregado de caixas repletas de pequenas plantas, foi alcançado no campo de visão do grupo. Solomon, um jovem técnico especializado no cultivo do café, explicou detalhadamente às beneficiárias como plantar aquela delicada planta e os cuidados a ter com ela neste estágio inicial de vida. Era visível a emoção, alguma curiosidade e, em especial, muita atenção, enquanto Solomon manuseava cuidadosamente um pequeno cafeeiro. Em conversa com uma das bene-

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ficiárias, ficámos a saber que as famílias têm grandes expectativas na produção de café. Someia Manuel, de 22 anos, residente na comunidade de Nhaconza, espera que as suas condições de vida melhorem significativamente, sonhando conseguir melhorar a sua casa e poder enviar os filhos para a cidade, para estudar. Por seu turno, o líder da comunidade, o Sr. Moisés, de 55 anos, confidenciou-nos esperar que este projecto (Café Vumba) permita que os jovens não tenham que abandonar a comunidade à procura de melhores oportunidades na cidade. O café apresenta-se, para estas populações, como um veículo para fixar os jovens na região. O lema de ambos os projectos é inspirador: “Uma mulher, um hectare!”. Segundo Jenaro Lopez, pretende-se fomentar o empoderamento da mulher no campo, pois, para além de serem as mulheres quem mais se dedica às actividades da machamba, elas canalizam o rendimento que dali provém para o próprio desenvolvimento da família. Como forma de garantir que esse rendimento vá efectivamente para as beneficiárias, os contratos de compra e fornecimento são, salvo raras excepções devidamente justificadas, celebrados exclusivamente com mulheres. A palavra corre ao sabor do vento e chega rapidamente a outras comunidades. Dia após dia o número de pedidos de mudas de café aumenta. As populações esperam com estes dois projectos ter a mesma prosperidade que se inveja do outro lado da fronteira. O interesse é visível e muito elevado, podemos dizer até que há uma verdadeira corrida ao “ouro” na região de Manica. No total, estes dois projectos têm a meta conjunta de entregar mudas de café a cerca de 4.100 famílias.

Fotografia: Mariano Silva

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as comecemos por contar um pouco da origem da bebida, incontornável para muitos para iniciar bem cada dia. Reza a lenda que Khali, um pastor nas montanhas da Etópia, reparou em como as suas cabras ficavam revigoradas quando comiam as folhas e os frutos do cafeeiro. A notícia espalhou-se e, logo depois, um monge começou a utilizar uma infusão com os frutos, para combater o sono durante as suas orações. A península arábica rapidamente ficou rendida a esta bebida, tendo surgido importantes plantações no território que hoje conhecemos por Iémen. O consumo da infusão, o “chá” de café, chegou com naturalidade a todo o mundo árabe como forma de despertar o espírito, assim como de melhorar a digestão. A torra do fruto surgiu pela primeira vez na Pérsia, no século XVI, levando a uma revolução do paradigma de como a bebida era preparada e consumida. Daí até conquistar todo o mundo foi um salto, impulsionado pela expansão do Islamismo e dos Descobrimentos


Plantações de café: projectos que pretendem fomentar o empoderamento da mulher e o desenvolvimento das comunidades Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 23


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No momento estão a ser distribuídas pelas populações diferentes variedades de café. Não haverá a utilização de fertilizantes químicos porque se pretende que o café produzido pela população residente seja exclusivamente orgânico. Para o efeito, em cada localidade será criado um centro de compostagem comunitário, cuja vermi-compostagem será feita com recurso a minhocas, para a criação de fertilizantes orgânicos, sendo estes um dos importantes factores que contribuem para o aroma e a fragância do café. O aroma (aquilo que se pode cheirar) e a fragrância (aquilo que podemos sentir no nosso palato) divergem muito entre as diferentes zonas de produção, bastando haver condições climatéricas e geológicas ligeiramente diferentes para se obter um sabor bastante distinto entre grãos da mesma espécie. Por esse motivo, no futuro serão criados microlotes com edições especiais e limitadas, cada um identificado de acordo com a respectiva comunidade que lhe deu origem. As populações também terão ao seu dispor a assistência de um técnico que acompanhará de perto os produtores, indicando-lhes os tratamentos e cuidados específicos que as plantas deverão receber em cada altura do ano. A cultura do café não pretende substituir a agricultura existente, mas sim, complementá-la. Cada hectare de terra receberá cerca 2.500 plantas, dispostas por linhas afastadas 4 metros entre si, de modo a permitir que a população continue a produzir as culturas que habitualmente produz, tais como o milho, o feijão, o gergelim e a mandioca, entre outras. A matéria seca resultante destas culturas servirá de fertilizante para o próprio cafeeiro ao longo dos seus 20 anos de vida. Espera-se que a maturidade de produção seja atingida entre os 4 e 5 anos, podendo-se produzir entre 5 e 6 quilogramas de cereja de café (assim são denominadas as bagas maduras da planta). Isto representa uma renda familiar de cerca de 250.000 meticais, com base nos preços actuais de mercado. Uma das vantagens do cafeeiro é que a maturação das cerejas de café ocorre na época seca, trazendo um retorno financeiro importante para as famílias fora da época comum das colheitas. As comunidades que produzirem café de excelência serão beneficiadas com incentivos consoante a qualidade de café produzido, motivando-se assim ainda mais a dedicação a esta cultura. No caso específico do projecto Café de Manica, a

sede localiza-se na localidade de Munhinga (distrito de Sussundenga), na estrada de acesso ao Parque Nacional de Chimanimani. Este último reconheceu a importância fundamental do projecto para região, pois está a desenvolver-se na zona tampão do parque e expande-se até à região de Espungabera, no Distrito de Mossurize. Para o efeito, o projecto beneficiou do apoio do FNDS (Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável), com fundos do Banco Mundial para a compra de mudas e plantas nativas para a população circundante do parque de Chimanimani. Em contrapartida, parte dos lucros do café torrado pela Café de Manica reverterão para o Parque Nacional e sua parceira Biofund, para apoiar a preservação da biodiversidade no parque. Este acordo foi celebrado no passado mês de Fevereiro, em Maputo. Com o plantio de árvores nativas, como a panga-panga e outras espécies, pretende-se reflorestar a zona tampão do parque, que tem sido assolada por uma forte onda de abate ilegal de árvores. Futuramente, as novas panga-pangas e outras permitirão uma produção à sombra, que resultará numa baga de melhor qualidade, por esta se encontrar mais protegida do sol. A produção de café na região tampão de Chimanimani servirá de agente dissuasor do abate ilegal de espécies de árvores nativas. É expectável que, em meados do próximo ano, as comunidades beneficiadas pelo projecto Café de Manica já se possam beneficiar dos primeiros rendimentos provenientes do café. Em 2024 será a vez das comunidades ao redor do Café Vumba terem o primeiro retorno do seu esforço no campo. Ao todo, os dois projectos têm previsto plantar 16 milhões de mudas nos próximos 6 anos, esperando-se atingir uma área de cultivo correspondente a perto de 5.500 hectares, de que apenas 20% estarão sob sua alçada directa. Nós, como Xonguila, temos o objectivo de divulgar aquilo que o país tem de melhor para dar e mostrar. Ao longo de uma semana de campo e de muitos quilómetros percorridos, ficámos convencidos de que o cultivo do café tem muito para dar a Moçambique. Se continuarmos a implementar projectos desta natureza, em que a população é entendida como parte primordial do negócio (note-se que, conforme o que aqui relatámos, as comunidades serão responsáveis por 80% da produção!) estaremos a criar riqueza em larga escala, estaremos a desenvolver o nosso Moçambique.

Sediadas no sopé do Monte Vumba, as instalações do projecto Café Vumba beneficiam de uma paisagem magnífica que faz inveja ao mais belo empreendimento turístico Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 25


O lema de ambos os projectos é inspirador:

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Manica's new gold

Manica is the Mozambican province most associated with gold prospecting, that precious and shiny metal that manages to hypnotize anyone who touches it, often personifying human greed and individualism. On the other hand, projects that aim to promote women's empowerment and community development are beginning to emerge in the same province. We are talking about coffee plantations that are flourishing around Manica and Sussundenga, a new “gold” that aims to change the current paradigm of subsistence agriculture for most of the region's population.

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ut let's begin by telling a bit about the origins of the beverage, indispensable for many to start the day well. Legend has it that Khali, a shepherd in the mountains of Ethiopia, noticed how his goats appeared invigorated when they ate the leaves and fruit of the coffee tree. The news spread and, soon after, a monk started using an infusion made with coffee fruit to fight sleep during his prayers. The Arabian peninsula quickly surrendered to this beverage, and important plantations emerged in the territory we know today as Yemen. The consumption of the infusion, the coffee “tea”, spread naturally to the entire Arab world as a way of awakening the spirit and improving digestion. Roasting the fruit first appeared in Persia, in the 16th century, leading to a paradigmatic revolution in the ways in which the drink was prepared and consumed. From there to conquering the whole world was a leap, driven by the expansion of Islam and the Portuguese Discoveries (“Descobrimentos”). Here in Mozambique, at the top of the Chimanimani mountain range, the view reaches far beyond the border into the neighbouring country, Zimbabwe, where the population is closely linked to the cultivation of coffee. There are numerous coffee plantations over there, which led many Mozambican families of that bordering region to look for work on those farms. There are even those who produce coffee on Mozambican soil, then take it to the neighbouring country for processing. The Café de Manica and Café Vumba projects created an opportunity with was right in front of them: Mozambique has available land for cultivation and exploration, as well as labour. Café de Manica is led by partners Jenaro Lopez and Mandela Manuel, and Café Vumba by entrepreneur Riana Ribeiro. Despite being different companies, they share the same philosophy and the same business model. Xonguila was invited to learn about the actions underway in this region that aim to boost the agricul-

tural economy around coffee, as well as improve the living conditions of the families involved. Located at the foot of the famous namesake geological formation, Mount Vumba, the facilities of the Café Vumba project benefit from a magnificent landscape that would be the envy of even the most beautiful of tourist resorts. Once there, we came across the first coffee trees, arrayed in well-ordered beds serviced by sprinkler irrigation. The seedlings are currently being delivered twice a year, between February and April and between October and December, and the team was preparing a delivery to a community on the outskirts of Manica city. In Nhaconza, we were greeted with songs of joy and welcome by a generous group of women. The chants increased in intensity as the tractor, loaded with boxes full of saplings, was brought into the group's field of vision. Solomon, a young technician specialized in coffee cultivation, explained in detail to the beneficiaries how to plant that delicate plant and the care to be taken with it at this early stage of life. Emotion, curiosity and, in particular, a lot of attention, were palpable as Solomon carefully handled a small coffee tree. In conversation with one of the beneficiaries, we learnt that the families have high expectations for coffee production. Someia Manuel, 22, who lives in the community of Nhaconza, hopes that her living conditions will improve significantly, dreaming of making home improvements and being able to send her children to the city to study. For his part, the community leader, Mr. Moisés, 55, confided in us that he hopes that this project (Café Vumba) will allow young people not to have to leave the community in search of better opportunities in the city. For these populations, coffee represents a vehicle for keeping young people in the region.

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The motto of both projects is inspiring: “One woman, one hectare!”. According to Jenaro Lopez, the aim is to encourage the empowerment of women in the countryside since, in addition to being the women who mostly tend to the machambas, they also channel the income they generate for the betterment of the entire family. As a way of guaranteeing that this income does go to the intended beneficiaries, the purchase and supply contracts are concluded exclusively with women, save for very few duly justified exceptions. Word travels with the wind and quickly reaches other communities. Day after day the number of requests for coffee seedlings increases. The populations hope to have, with these two projects, the same prosperity they observe on the other side of the border. The interest is palpable and very high; we can even say that there is a real “gold rush” in the Manica region. In total, these two projects have the joint goal of delivering coffee seedlings to around 4,100 families. At the moment, different varieties of coffee are being distributed among the populations. There will be no use of chemical fertilizers because the coffee produced by the resident population is intended to be exclusively organic. For this purpose, a community composting centre will be created in each locality, whose vermin-composting will be done using earthworms for the creation of organic fertilizers, one of the important factors that contribute to the aroma and fragrance of the coffee. The

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aroma (what you can smell) and the fragrance (what you can taste on your palate) vary greatly between the different production areas, since slightly different climatic and geological conditions are sufficient to obtain a very different flavour between beans of the same species. For this reason, in the future, micro-lots will be created with special and limited editions, each one identified according to the respective community that cultivated it. The populations will also have at their disposal the assistance of a technician who will closely monitor the producers, indicating the specific treatments and care that the plants should receive at each time of the year. The production of coffee is not intended to replace existing agriculture, but rather complement it. Each hectare of land will receive around 2,500 plants, arranged in rows 4 meters apart, in order to allow the population to continue to cultivate their usual crops, such as maize, beans, sesame and cassava, among others. The dry matter resulting from these crops will serve as fertilizer for the coffee trees themselves, throughout their 20-year lifespan. Production maturity is expected to be reached between 4 and 5 years, and between 5 and 6 kilograms of coffee cherries (the name given to the mature berries of the plant) can be produced. This represents a household income of around 250,000 meticais, based on current market prices. One of the advantages of the coffee tree is that the maturation of coffee cherries occurs in the dry season, bringing an important financial return for families outside of the common harvest season. Com-


Fotografia: Mariano Silva

munities that produce excellent coffee will benefit from incentives depending on the quality of the coffee produced, thus further motivating dedication to this culture. In the specific case of the Café de Manica project, the headquarters are located in the town of Munhinga (District of Sussundenga), on the access road to the Chimanimani National Park. The latter recognized the fundamental importance of the project for the region, as it is being developed in the buffer zone of the park and is expanding to the Espungabera region, in the Mossurize District. To this end, the project benefited from the support of the FNDS (National Fund for Sustainable Development), with funds from the World Bank for the purchase of seedlings and native plants for the population surrounding the Chimanimani park. In return, part of the profits from the sale of the coffee roasted by Café de Manica will revert to the National Park and its partner Biofund, to support the conservation of biodiversity in the park. This agreement was signed last February, in Maputo. With the planting of native trees, such as the panga-panga and other species, the aim is to reforest the buffer zone of the park, which has been plagued by a strong wave of illegal logging. In the future, the new panga-panga trees and others will enable coffee production in the shade, which will result

in a better quality berry, as it is more protected from the sun. Coffee production in the Chimanimani buffer region will thus serve as a deterrent against illegal logging of native tree species. It is expected that, by the middle of next year, the communities covered by the Café de Manica project will already be able to earn their first income from coffee. In 2024, it will be the turn of the communities around Café Vumba to have the first return of their efforts in the fields. Altogether, the two projects aim to plant 16 million seedlings over the next 6 years, expecting to reach a cultivation area corresponding to close to 5,500 hectares, of which only 20% will be under their direct control. At Xonguila, we seek to promote the best that the country has to offer and show. During a week in the field and after covering many kilometres, we were convinced that coffee cultivation has a lot to offer in Mozambique. If we continue to implement projects of this nature, in which the population is seen as an essential part of the business (note that, according to what we have reported here, communities will be responsible for 80% of production!), we will be creating wealth on a large scale, and thus developing our Mozambique.

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Absa Bank Moçambique Hanifa Hassangy - Directora de Recursos Humanos 32 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022


Fotografia: Mariano Silva

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Absa Bank Moçambique Hanifa Hassangy - Directora de Recursos Humanos Diz-se que o capital humano é o bem mais precioso de uma instituição. Estão alinhados com essa ideia? Totalmente. Na nossa organização as nossas pessoas são a nossa força, são o património imaterial que vai garantir a sustentabilidade dos nossos serviços por um longo período. Acreditamos que cada um dos nossos colaboradores faz de nós o Absa Bank Moçambique, e por isso integramos perspectivas diversas ao criarmos o futuro. Confiamos, valorizamos e investimos nas pessoas para que atinjam o seu potencial máximo. Acreditamos que as valências que agregamos em termos de formações profissionais, competências, habilidades, experiência e postura humana representam os factores diferenciadores e que impulsionam a inovação e adaptação da nossa instituição aos cenários emergentes, contribuindo significativamente para a nossa actuação no mercado e para que sejamos reconhecidos como um empregador de eleição. Valorizamos a diversidade cultural na nossa organização pois é um factor que agrega valor quando temos que tomar decisões e, embora cada um dos nossos colaboradores tenha as suas particularidades, é na colaboração, coragem, honestidade e energia que vivemos a nossa cultura e damos vida às possibilidades. O mundo está em constante mudança, evolução, novas tendências, e é essencial que as pessoas rapidamente se adaptem a estas mudanças, ganhem competências e habilidades para responder positivamente aos desafios impostos e acompanhar esta evolução. Sem dúvida, todo o colaborador capacitado está mais apto para responder às exigências do mercado e expectativas do empregador, pelo que consideramos a formação e o investimento nas capacidades das nossas pessoas a chave para o seu desenvolvimento pessoal e, sobretudo, para o alcance dos objectivos colectivos como instituição. Vale referir que, no Absa, para além de apostarmos na formação profissional dos nossos colaboradores, damos enfoque a outras competências que permitem capacitar os nossos recursos para sermos o banco do futuro. As opções de

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formação e capacitação que o banco coloca à disposição dos seus colaboradores estão ajustadas às novas necessidades do sector financeiro e a conteúdos leccionados por instituições de ensino internacionais, através da nossa plataforma digital de formação. De que forma o Absa motiva os seus colaboradores e garante o seu bem-estar? Para além de termos uma cultura organizacional forte e sabermos que a nossa força são as nossas pessoas, os nossos pilares assentam na colaboração e na co-criação, temos uma política de benefícios clara, bem como a capacidade de criar uma experiência exclusiva ao colaborador ao longo de toda a sua jornada. Reconhecemos o potencial das nossas pessoas e investimos num programa de liderança de opiniões que nos permite potenciar o melhor de cada um dos nossos especialistas. Somos motivados e incentivados a ser uma equipa vencedora, jogamos sempre para ganhar, contudo, somos corajosos e sabemos que, ao longo do processo de crescimento, as falhas são inevitáveis e é com elas que aprendemos a ser melhores diariamente. Para nós, o bem-estar das nossas pessoas é uma prioridade, pois é o que se vai reflectir proporcionalmente no desempenho profissional. Temos uma cultura de feedback, o que nos permite responder às necessidades das nossas pessoas no quesito em referência, para além de proporcionarmos informação e dicas de bem-estar e saúde mental através de palestras ministradas por especialistas. Procuramos melhorar a produtividade dos nossos colaboradores, imprimindo uma rotina de trabalho flexível e permitindo que façam a gestão e cumpram com as suas responsabilidades da forma que julgarem mais efectiva, e o que procuramos é potencializar a produtividade de cada individuo. Implementámos recentemente novas formas de trabalhar de modo a trazer ainda maior flexibilidade e conforto às nossas pessoas, podendo elas trabalhar a partir do escritório, de casa ou num modelo híbrido em que uns dias de trabalho são a partir do escritório e outros a partir de casa.


“Na nossa organização as nossas pessoas são a nossa força, são o património imaterial que vai garantir a sustentabilidade dos nossos serviços por um longo período” – Hanifa Hassangy – Directora de Recursos Humanos do Absa

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Fotografia: Mariano Silva

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Promovemos um espírito de colaboração, procurando estabelecer um ambiente de trabalho mais unido e coordenado. Damos especial atenção ao clima interno da nossa organização, queremos que todos estejam satisfeitos e se sintam parte integrante da nossa estrutura, pelo que promovemos um diálogo constante e fazemos anualmente um inquérito de satisfação do colaborador.

racção, colaboração, partilha de informação e experiências que íamos vivendo nestes tempos novos. Criamos plataformas de apoio psicológico disponíveis a todo o momento por forma a garantir apoio às nossas pessoas e às suas famílias.

Cultivamos substancialmente o desenvolvimento da inteligência emocional no ambiente de trabalho para que cada um dos nossos colaboradores saiba lidar, da melhor forma, com os mais diversos desafios característicos da carreira profissional. E prova disso foi termos sido premiados e certificados como “Top Emproyer Africa 2022” pela Top Employers Institute.

Interrompemos o nosso programa de graduados temporariamente. Foi difícil, uma vez que sabemos a importância que este programa tem para os recém-graduados, e para nós igualmente, uma vez que parte dos nossos talentos advêm desse programa, e não só, queremos apoiar os jovens a enriquecer as suas capacidades para outras oportunidades. E neste momento tenho orgulho em dizer que o retomámos, aplicando a experiência de trabalho remoto e híbrido.

Com a pandemia, quais foram os principais desafios do banco no que toca aos seus recursos humanos? A Covid-19 veio ditar as novas formas de ser e estar em todas as vertentes da vida social, e no Absa não ficámos alheios a esta institucionalização de novos padrões. Um dos pontos a destacar na sequência da eclosão da pandemia foi a massificação do "trabalho remoto" e a aplicação do distanciamento social.

Temos constatado, nos últimos tempos, a imersão do digital. O departamento de RH do Absa está a acompanhar de alguma forma esta nova realidade? O mundo está em mudança, a pandemia veio acelerar a transformação digital, que evolui a cada momento. E claramente, se nos queremos manter actuais, temos que evoluir à mesma velocidade. A banca teve que se ajustar rapidamente.

A pandemia veio igualmente acelerar uma série de acções. As novas formas de trabalhar, uma tendência mundial, foi uma delas. Movidos pelo espírito de inovar, decidir e agir rapidamente que caracteriza a nossa Africanicidade, criámos condições para que as nossas pessoas pudessem trabalhar no escritório, em casa ou em modelo híbrido, dando-lhes todas as ferramentas necessárias.

Melhorámos a qualidade e aumentámos o conteúdo das nossas plataformas de capacitação digital, a que qualquer colaborador pode aceder por um dispositivo móvel e estar em constante crescimento. Outro aspecto a destacar da imersão digital no RH é a automatização de parte dos processos que antes eram feitos manualmente, que actualmente estão a cargo dos nossos sistemas digitais, dando maior flexibilidade e produtividade aos nossos colaboradores.

Ademais, tivemos que actualizar as nossas políticas internas de gestão de recursos humanos, adoptando novos instrumentos técnicos de trabalho remoto, o que, naturalmente, foi um desafio, por ser algo atípico associado ao clima de incertezas em que o País vivia. É importante que as nossas pessoas sintam que continuamos próximos, mesmo forçados a estar distantes, e para isso desenvolvemos várias iniciativas, em formato virtual, de inte-

Para nós, operar em um ambiente digital auxiliado por plataformas modernas e metodologias inovadoras altera significativamente o nível de entrega. A imersão digital no nosso departamento de RH veio viabilizar estratégias de recrutamento, por meio de buscas que quantificam, analisam e cruzam as informações, o que nos permite gerir o tempo de forma eficiente seleccionando a essência dos candidatos.

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“We consider that training and investing in our people's skills is the key to their personal development and, above all, to achieving the colective goals of this Institution.”

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Absa Bank Moçambique Hanifa Hassangy - Human Resources Director It is said that human capital is an institution´s most precious asset. Do you subscribe to this idea? Totally. In our organization, our people are our strength. They are the intangible assets that will guarantee the sustainability of our services for a long period of time. We believe that each of our employees is what makes us Absa Bank Moçambique, which is why we integrate diverse perspectives when creating the future. We trust, value and invest in people so that they reach their full potential. We believe that the capability we aggregate in terms of professional training, skills, abilities, experience and humane stance represent the differentiating factors that drive our institution's innovation and adaptation to emerging scenarios, significantly contributing to our performance in the market and to us being recognized as an employer of choice. We value cultural diversity in our organization, as it´s a factor that adds value when we have to make decisions and, although each of our employees has their peculiarities, it is through collaboration, courage, honesty and energy that we live our culture and give life to possibilities. The world is constantly changing, evolving, new trends arising, and it´s essential that people quickly

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adapt to these changes, gain skills and competencies to respond positively to the challenges imposed and to accompany this evolution. Undoubtedly, a capable employee is better able to respond to market demands and employer expectations, so we consider that training and investing in our people's skills is the key to their personal development and, above all, to collectively achieving the goals of this institution. It is worth mentioning that, at Absa, in addition to investing in the professional training of our employees, we focus on other skills that enable our resources to be trained to be the Bank of the future. The training and capacity building options that the Bank makes available to its employees are adjusted to the new needs of the financial sector and to content taught by international educational institutions, through our digital training platform. How does Absa motivate its employees and ensure their well-being? In addition to having a strong organizational culture and knowing that our strength is our people, our pillars rest on collaboration and co-creation. We have a clear benefits policy, as well as the ability to create an exclusive employee experience throughout their entire journey with us.


We recognize the potential of our people and support an opinion leadership program that allows us to bring out the best in each of our specialists. We are motivated and encouraged to be a winning team, we always play to win. However, we are courageous and know that, throughout the growth process, failures are inevitable and it´s through them that we learn to be better every day. For us, the well-being of our people is a priority, as it will be directly reflected in their professional performance. We have a feedback culture, which allows us to respond to the needs of our people regarding a specific issue at hand, in addition to providing information and tips on well-being and mental health through lectures given by experts. We seek to improve the productivity of our employees, creating a flexible work routine and allowing them to manage and fulfil their responsibilities in the way they deem most effective, and what we seek is to enhance the productivity of each individual. We have recently implemented new ways of working in order to bring even greater flexibility and comfort to our people, who can now work from the office, from home or using a hybrid model in which some working days are from the office and others from home. We promote a spirit of collaboration, seeking to establish a more united and coordinated work environment. We pay special attention to the internal climate of our organization, and want everyone to be satisfied and feel that they are an integral part of our structure, so we promote constant dialogue and carry out an annual employee satisfaction survey. We substantially cultivate the development of emotional intelligence in the work environment, so that each of our employees knows how to handle, in the best possible way, the most diverse challenges inherent to a professional career. As proof of this commitment, we were awarded and certified as “Top Employer Africa 2022” by the Top Employers Institute. With the pandemic, what were the Bank's main challenges in terms of its human resources? Covid-19 came to dictate new ways of being and interacting in all aspects of social life, and at Absa we were not oblivious to this institutionalization of new standards. One of the points to highlight following the outbreak of the pandemic was the widespread use of "remote work" and the implementation of social distancing measures.

Fotografia: Mariano Silva

The pandemic equally accelerated a series of actions.

The new ways of working – a worldwide trend – was one of them. Driven by the spirit of innovation, quick decision making and swift action that characterizes our Africanacity, we created conditions for our people to be able to work in the office, at home or in a hybrid model, equipping them with all the necessary tools. It is important that our people feel that we are still close to each other, even when forced to be physically distant. To achieve that, we developed several initiatives, using virtual means to foster interaction, collaboration, sharing of information and experiences that we were living in these new times. We created psychological support platforms available at all times, to guarantee support for our people and their families. We temporarily discontinued our graduate program. It was difficult, since we know the importance that this program has for recent graduates, and for us as well, since part of our talents come from this program. Not only that, but also, we want to support young people in developing their skills for other opportunities. And right now, I'm proud to say that we've resumed the program, using remote and hybrid work modes. We have seen, in recent times, the immersion into digital. Is Absa's HR Department keeping up with this new reality? The world is changing; the pandemic has accelerated the digital transformation, which is continuously evolving. Clearly, if we want to stay current, we have to evolve at the same speed. The banking sector had to adjust to this quickly. We have improved the quality and increased the content of our digital training platforms, which any employee can access via a mobile device and thus be constantly growing. Another aspect of the digital immersion in HR to be highlighted, is the automation of some of the processes that were previously done manually, and are now being executed by our digital systems, providing greater flexibility and productivity to our employees. For us, operating in a digital environment aided by modern platforms and innovative methodologies significantly alters the level of delivery. The digital immersion in our HR department has enabled recruitment strategies through searches that quantify, analyse and cross-reference information, which allows us to manage time efficiently by selecting the essence of candidates.

“We are courageous and know that, throughout the growth process, failures are inevitable and it´s through them that we learn to be better every day.” Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 41


Sem limites: a incrível história de Mariana

A BAILARINA IMPROVÁVEL "A vida, às vezes, puxa-nos por caminhos cheios de espinhos apenas para nos testar e dar a saber o quão fortes somos" - Mariana Tembe

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Fotografia: Mariano Silva

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Sem limites: a incrível história de Mariana

A BAILARINA IMPROVÁVEL Escrito por: Jaime

Álvaro

Um trágico acidente, aos oitos anos de idade, deixou sem os membros inferiores Mariana Tembe, que, resiliente, desde cedo aprendeu a conviver com a fatalidade. Em 2006, desafiou a lógica habitual, decidindo formar-se em dança. Mas… como se dança sem pernas? Mariana, bailarina há 16 anos, explicou-o à Xonguila, a partir da Ilha da Madeira, Portugal.

Mariana renasceu com o acidente que culminou com a amputação das pernas? Este foi o nosso mote para a entrevista virtual com esta artista de 34 anos nascida e criada em Maputo. "Não diria que renasci com o acidente, mas sim que me descobri. A Mariana de antes ainda existe em mim, mas, depois do acidente, revelou-se a verdadeira Mariana, forte, determinada, destemida e lutadora. O acidente veio despertar o que já existia", respondeu. "A vida, às vezes, puxa-nos por caminhos cheios de espinhos apenas para nos testar e dar a saber o quão fortes somos", afirmou. Para perceber esta afirmação, é preciso recuar-se no tempo. Há três anos (em 2019), Mariana recebeu um convite para integrar a Companhia Dançando com a Diferença, durante uma apresentação num Festival de dança na Suíça. "Antes de aceitar a proposta, disseram-me para ir conhecer a Ilha da Madeira de modo a avaliar questões de acessibilidade. Quando cheguei lá, fiquei chocada, porque o nível de acessibilidade é de zero por cento. Não é acessível, sobretudo para quem anda de cadeira de rodas. Tem

muitas subidas e descidas, e as inclinações são mesmo para matar", contou. Mariana estava disposta a tudo para crescer profissionalmente e não queria desperdiçar a oportunidade de aprender o mundo e aprender novas coisas, por isso, disse que sim ao convite do director artístico da Companhia, Henrique Amoedo. "A vida é feita de desafios e mais uma vez eu tinha um desafio. Olhei para o lado bom – profissionalmente ia crescer, ia ser muito bom para mim sair das minhas raízes, tentar furar o mundo e aprender novas coisas – e era uma boa oportunidade para sair das asas do papá", disse, com risos. "A Companhia criou-me condições para ter o máximo de conforto que lhes era possível proporcionar-me", prosseguiu. Criada há 22 anos com objectivo de promover a inclusão social e cultural através da dança, a Companhia Dançando com a Diferença conta com cerca de cem pessoas, entre jovens e adultos. Esta é uma história de sucesso que a maioria das pessoas desejaria ter vivido. Mas houve lutas, lágrimas e sacrifícios para Mariana chegar onde está hoje. É uma his-

Depois do acidente que culminou com a amputação das suas pernas, revelou-se a verdadeira Mariana, forte, determinada, destemida e lutadora 44 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022


O inesperado encontro com a dança Completamente diferente de muitos artistas que ainda em tenra idade tiveram contacto com a arte de que vivem não foi o que se passou com Mariana. O primeiro encontro com a dança contemporânea chegou-lhe já quando maior. Na verdade, não foi ela que escolheu a dança, foi a dança que a escolheu. Mariana sofreu um trágico acidente aos oito anos de idade, quando brincava na rua de sua casa com outras crianças. Foi atropelada por um camião militar, tendo os seus membros inferiores sido amputados devido à gravidade

das lesões que sofreu. Apesar disso, sua infância não foi tão difícil como à primeira vista se pode imaginar. "Mesmo depois de eu ter sofrido o acidente, a minha infância foi supertranquila e muito divertida, ao lado de pessoas que sempre me apoiaram, a minha família. Sempre tive amor e carinho dos meus pais e irmãos". Quanto à dança, foi um mero acaso, uma obra do destino. “Nunca nos meus sonhos quis tornar-me uma bailarina de dança contemporânea profissional. Eu entrei tarde na dança, em 2006, a convite de uma amiga, até então desconhecida, que me falou de um projecto de inclusão de dança para pessoas com deficiência”, contou, sublinhando que não tinha sido um amor à primeira vista. “Não me interessei muito a princípio. Mas ela insistiu que deveria ir assistir aos ensaios e, caso gostasse, poderia ficar, caso não, deveria seguir a minha vida”. Depois de alguns dias a matutar no assunto, Mariana decidiu aprender dança e aprendeu igualmente a superar os seus limites.

Fotografia: Mariano Silva

tória que trazemos propositadamente neste mês especial da mulher, Abril, para homenagear as mulheres moçambicanas, e, em particular, as milhares de “Marianas”, do Zumbo ao Índico, do norte ao sul do país, que nunca desistem dos seus sonhos, mesmo depois de golpeadas pelas circunstâncias adversas da vida.

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Tinha 18 anos, o que significava que já era responsável pelos seus actos, que incluíam decidir “namorar” ou não com o que acabou redefinindo a sua vida por completo. “Apesar de não me ter empolgado com a dança no primeiro contacto efectivo que tive, eu não parava de ir assistir a pessoas com limitações de mobilidade como eu a dançarem”. E porque as coisas mais valiosas da vida levam seu tempo... "À medida que eu ia assistindo aos ensaios, acabei me apaixonando e acabei gostando. Hoje não posso respirar sem a dança”, confessou. Fez-se difícil, mas a união já estava escrita. Mariana seria uma bailarina profissional sem membros inferiores. O projecto de inclusão de pessoas com deficiência e sem deficiência na área cultural que redefiniu a vida de Mariana era dirigido por Panaibra Gabriel Canda, coreógrafo e director artístico moçambicano fundador da companhia CulturArte. “Quando se fala de dança, as pessoas pensam logo nas pernas. Mas a dança não são só as pernas, não são só os braços, as costas, a cabeça. A dança é o corpo, o corpo por inteiro”, esclareceu Mariana. “Eu não me considero um milagre por dançar sem pernas. Isso é resultado de um desafio muito grande que encarei com todas as minhas forças. Foram anos de formação, dedicação e muito sacrifício para quebrar limitações. Eu quis fazer isso, doendo ou não, eu quis quebrar tabus”. Diz que os braços se tornaram suas pernas, que já não sabe o que é a sensação de ter as pernas. “Eu não sinto falta das pernas porque eu aprendi a fazer tudo com os meus braços. Os meus braços são as minhas pernas. Os meus braços fazem mais coisas que as pernas. Quando danço, as pessoas nem sentem falta das minhas pernas. As pessoas vêem ali uma criatura perfeita tal como é a dançar”, disse a nossa bailarina que evolui em terras lusas.

A estreia (tardia) nos palcos Mariana formou-se em dança contemporânea adaptada a pessoas com deficiência entre 2006 2008 e estreou-se no palco, com público, há uma década e meia, mais precisamente há 16 anos. Tinha 18 anos.

Fotografia: Mariano Silva

“Depois da minha primeira apresentação em palco, nunca mais parei. Na verdade, foi nessa actuação que, quando terminámos o espectáculo, eu senti aquela gente toda a aplaudir e fiquei espantada, de queixo caído, e disse a mim mesma que era isso que queria fazer na minha vida. Quero fazer as pessoas levantarem-se e ovacionarem-me”, revelou. “Naquela altura eu decidi, era aquilo que pretendia fazer. Não queria fazer

algo que as pessoas ficassem a lamentar. Eu não quero que as pessoas olhem para mim e sintam pena de mim. É o que geralmente as pessoas fazem quando vêem uma pessoa com deficiência rua. Lamentam ou falam mal, cochicham nas costas. Falam mal porque infelizmente há muitas pessoas com deficiência na rua a passar necessidades, a pedir esmola”, lamentou. “Sempre olhei para a mendicidade como algo terrível que pode acontecer na vida de um ser humano e prometi a mim mesma que não ia permitir que a vida me puxasse para a rua para viver de mão estendida”. Era preciso travar uma luta para ter algo diferente, que veio do inesperado ou imprevisível para a sua condição física. Chama-o de milagre da vida. “Quando descobri a dança, eu disse: esta é a minha paixão, eu quero fazer isto, eu quero viver disto. A dança para mim representa... Eu não sei como explicar, não sei que palavras usar, mas a dança é como se fosse...” – assim mostrou Mariana a dificuldade que tem em descrever com palavras o sentimento que tem pela dança. “Quando eu danço, sinto-me livre, sinto que estou num momento mágico, momento esse que nunca se repete e, quando eu estou a dançar no palco, não sou a Mariana que todos conhecem, sou mais um corpo para partilhar com o mundo as experiências da vida, as reflexões, os pensamentos, os sentimentos. Aquele é um momento único e não tenho limites. É o único momento em que me sinto num lugar incomum, inacessível, a que eu consegui chegar, e é uma sensação incrível”, frisou. “Uma das coisas que me motiva a continuar a dançar é que, depois de todas as minhas apresentações, vejo pessoas a chorarem de emoção. Com a dança consigo tocar o coração, a alma das pessoas. As pessoas olham para mim e acreditam que a vida não parou por ali. É essa magia que me motiva e faz com que me levante todos os dias.” Mariana, que se orgulha de iluminar a vida das pessoas, pretende dançar até não poder mais, e à dança quer juntar o curso de Psicologia Educacional focada nas pessoas com necessidades educativas especiais, partilha-nos, assim revelando o seu lado mais sensível e humanista. "Fui forçada a interromper o curso ainda em Moçambique, por dificuldades financeiras. Na verdade, isso sempre me comoveu. Quero saber como comunicar com essas pessoas, como lidar com elas, como perceber as suas preocupações, os seus pensamentos. Afinal de contas, elas são como nós, têm sentimentos, têm sonhos."

“Eu não sinto falta das pernas porque eu aprendi a fazer tudo com os meus braços. Os meus braços são as minhas pernas. Os meus braços fazem mais coisas que as pernas” - Mariana Tembe, bailarina Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 47


“ I promised myself that I would not allow life to pull me into the street to live with my hand outstretched”

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Fotografia: Mariano Silva

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Limitless: Mariana's Incredible Story

THE UNLIKELY BALLERINA Written by: Jaime

Álvaro

Mariana Tembe, who lost her lower limbs after a tragic accident at the age of eight, is resilient and soon learnt how to live with that fatality. In 2006, she defied the usual logic by deciding to learn how to dance. But…how does one dance without legs? Mariana, who has been dancer for 16 years, explained it to Xonguila, calling in from Madeira Island, Portugal. Was Mariana reborn with the accident that resulted in the amputation of her legs? This was our motto for the virtual interview with this 34-year-old artist, born and raised in Maputo. "I wouldn't say that I was reborn with the accident, but rather that I discovered myself. The Mariana from before still exists in me but, after the accident, the real Mariana emerged – strong, determined, fearless and a fighter. The accident awoke that which already existed," she replied. "Life sometimes pulls us down thorny paths, just to test us and show us how strong we are," she said. To understand this statement, it is necessary to go back in time. Three years ago (in 2019), Mariana received an invitation to join Companhia Dançando com a Diferença (an inclusive dance company), during a performance at a dance festival in Switzerland. "Before accepting the proposal, I was told to visit Madeira Island in order to assess accessibility issues. When I arrived there, I was shocked, because the level of accessibility is zero percent. It is not accessible, especially for those on a wheelchair. There are many up and down inclines, and the slopes really are killer ones", she said. Mariana was willing to do anything to grow professionally and didn't want to miss the opportunity to explore the world and learn new things, so she said yes to Henrique Amoedo´s invitation, the Company's artistic director. "Life is made of challenges and, once again, I had a challenge. I looked on the bright side – I would grow professionally, it would be very good for me to grow out of my roots, try to pierce the world and learn new things – and it was a good opportunity to get out from under Daddy's wings",

she said, laughing. "The Company created the conditions for me to have the maximum comfort they were able to provide me with", she continued. Created 22 years ago with the aim of promoting social and cultural inclusion through dance, Companhia Dançando com a Diferença comprises approximately 100 people, including young people and adults. This is a success story that most people wish they had lived through. But there were struggles, tears and sacrifices for Mariana to get to where she is today. It is a story that we purposely bring to you in this special women’s month, April, to honour Mozambican women and, in particular, the thousands of “Marianas”, from the Zumbo to the Indian Ocean, from the north to the south of the country, who never give up on their dreams, even when hit by the adverse circumstances of life. The unexpected encounter with dance What happened to Mariana was completely different from many artists who are, from an early age, exposed to the art they will later live by. The first encounter with contemporary dance came to her when she was older. In fact, she didn't choose dance but rather, it was dance that chose her. Mariana had a tragic accident at the age of eight, while playing in the street in front of her house with other children. She was run over by a military truck, and her lower limbs were amputated due to the severity of the injuries she sustained. Despite this, her childhood was not as difficult as one might at first imagine.

“When I dance, I feel free. I feel like I'm in a magical moment” Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 51


"Even after I suffered the accident, my childhood was super peaceful and a lot of fun, alongside people who always supported me, and my family. I always had love and affection from my parents and brothers". As for dance, it was mere chance, a work of fate. “Never in my dreams did I ever want to become a professional contemporary dancer. I joined dance late, in 2006, at the invitation of a friend, until then unknown, who told me about a project to include dance for people with disabilities”, she said, stressing that it had not been love at first sight. “I was not very interested [in dance] at first. But she insisted that I should go and watch the rehearsals, and if I liked it, I could stay; if not, I should go on with my life.” After a few days of thinking about it, Mariana decided to learn how to dance, and thus learnt to overcome her limits. She was 18 years old, which meant that she was already responsible for her actions, including deciding whether or not to entertain what ended up redefining her life completely. “Although I didn't get excited about dance in the first real contact I had, I couldn't help going to see people with mobility limitations like me dancing”. And because the most valuable things in life take

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their time... "As I watched the rehearsals, I ended up falling in love and I ended up enjoying it. Today, I can't breathe without dance", she confessed. She had been reluctant, but her fate was sealed. Mariana would become a professional dancer without lower limbs. The project to include people with and without disabilities in the cultural area that redefined Mariana's life was directed by Panaibra Gabriel Canda, Mozambican choreographer and artistic director who founded the company CulturArte. “When we talk about dance, people think of legs right away. But dancing is not just the legs, it's not just the arms, the back, the head. Dance is the body, the whole body”, explained Mariana. “I don't consider it a miracle that I dance without legs. This is the result of a very big challenge that I faced with all my strength. It was years of training, dedication and a lot of sacrifice to break limitations. I wanted to do it, hurting or not, I wanted to break taboos.” She says that her arms have become her legs, that she no longer knows what it feels like to have legs. “I don't miss the legs because I learnt to do everything with my arms. My arms are my


Fotografia: Mariano Silva

legs. My arms do more things than my legs. When I dance, people don't even miss my legs. People see a creature dancing, a creature that is perfect just as she is”, said our dancer, who continues to evolve whilst in Portuguese lands. The (late) stage debut Mariana trained in contemporary dance adapted for people with disabilities between 2006 – 2008, and debuted on the stage with a live audience a decade and a half ago, 16 years ago to be exact. She was 18 years old.

“After my first performance on stage, I never stopped. In fact, it was during that performance that, when we finished the show, I saw all those people applauding and was amazed. My jaw dropped, and I told myself that this was what I wanted to do in my life. I want to make people stand up and give me a standing ovation”, she revealed. “At the time, I decided that that's what I wanted to do. I didn't want to do something that people would lament. I don't want people to look at me and feel sorry for me. That's what people usually do when they see a disabled person on the street. Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 53


Fotografia: Mariano Silva

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They feel sorry or speak ill of them, whisper behind their backs. They speak badly because, unfortunately, there are many people with disabilities on the street, begging for alms”, she lamented. “I always looked at begging as something terrible that can happen to the life of a human being, and I promised myself that I would not allow life to pull me into the street to live with my hand outstretched”. It was necessary to put up a fight to have something different, something unexpected or unpredictable for her physical condition. She calls it the miracle of life. “When I discovered dance, I said: this is my passion, I want to do this, I want to live from it. For me, dance represents... I don't know how to explain it, I don't know what words to use, but dance is as if it were...” – that's how difficult it was for Mariana to describe in words the feeling she has for dance. “When I dance, I feel free. I feel like I'm in a magical moment, a moment that never repeats itself and, when I'm dancing on stage, I'm not the Mariana that everyone knows; I'm simply another body sharing with the world [my] life experiences,

reflections, thoughts, feelings. That is a unique moment, and I have no limits. It's the only time I feel like I'm in an unusual, inaccessible place that I've managed to get to, and it's an incredible feeling,” she said. “One of the things that motivates me to keep dancing is that, after all my performances, I see people crying with emotion. With dance, I can touch people's hearts and souls. People look at me and believe that life didn't stop there. It is this magic that motivates me and makes me get up every day.” Mariana, who is proud to bring light to people's lives, wants to dance until she can't anymore. To dance, she wants to add an Educational Psychology degree focused on people with special educational needs, she shares with us, thus revealing her most sensitive and humanist side. "I was forced to interrupt the degree while still in Mozambique, due to financial difficulties. In fact, this [subject] has always moved me. I want to know how to communicate with these people, how to deal with them, how to understand their concerns, their thoughts. They are like us, they have feelings, they have dreams."

“When I'm dancing on stage, I'm not the Mariana that everyone knows; I'm simply another body sharing with the world [my] life experiences. That is a unique moment”

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Fotografia: Mariano Silva

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Chude Mondlane Escrito por: Yana de Almeida

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Chude Mondlane Escrito por: Yana de Almeida

Os seus olhos contam histórias de vida enquanto lhe saem da boca melodias que embalam a alma e convidam a uma viagem no tempo. Passado e presente comunicam-se pela voz de uma mulher que cantou Moçambique por onde passou. Chude Mondlane é uma mistura de artes e “mundos”. Dança e música juntam-se numa mulher que deixou a sua marca em grandes palcos pelo planeta. Recebeu-nos no seu “cantinho de arte”, lugar onde vive documentado parte do seu percurso musical. Em sua casa, a artista procurou reservar um espaço para deixar a arte falar… Álbuns, fotos, vídeos e memórias acompanharam a nossa conversa com esta mulher-artista moçambicana. Filha do primeiro Presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Eduardo Mondlane, e da americana Janet Mondlane, Chude teve muito contacto com a música ainda na infância. A sua mãe “fazia magia” com alguns instrumentos, como o violino e piano. “Cresci em Dar Es Salam, e na altura não tínhamos televisão, nem internet. A música era o centro do entretenimento da nossa família. Durante as viagens cantávamos em família e era bastante divertido”, disse-nos Chude. O “bichinho pelos palcos”, como ela própria apelida o amor que nutre pelas apresentações em público, surgiu aos 9 anos de idade. Na escola, em Dar Es Salam, fez a sua primeira apresentação pública de dança, com o seu grupo escolar: “Lembro-me como se fosse ontem. Os meus pais foram ver o show. Aqueles aplausos, estar em frente do público, fazer performances… tudo isso despertou em mim a paixão pelos palcos.”

Uma artista sem fronteiras Após o assassinato de seu pai, Chude foi estudar em Filadélfia, nos EUA, numa academia de dança moderna, entre os 12 e os 13 anos de idade. Passou pelas mãos de profissionais que dividiam o palco com grandes nomes da dança moderna, como Isadora Duncan e Martha Gra ham. “Estudávamos música, artes, história da arte e canto. Faziam parte do nosso currículo. Viajámos pelos EUA para fazer performances”, acresceu. Também passou pela antiga União Soviética, e aos 13 anos conseguiu uma bolsa de estudos para estudar ballet clássico naquele país. Após a experiência na União Soviética, local onde ficou até aos 16 anos, foi ao Cazaquistão. Entretanto sopravam em Moçambique os ventos da independência, e Chude Mondlane, na outra parte do mundo, não se conteve com a notícia da libertação, só pensando em voltar para o seu país. “Quando soube da independência, abandonei os meus estudos. Passei pela Tanzânia em direcção a Moçambique para a viver de perto. Era a primeira que vivia no país”, disse a artista. Pouco depois da independência, com o país fragilizado pela destruição de infra-estruturas e falta de quadros profissionais, Chude deu aulas de dança numa escola para crianças com deficiência.

A artista queria explorar mais a sua arte e estudá-la melhor, por isso foi à Suíça, local onde morava o seu avô materno. Na altura, a música que vivia dentro de si pedia para ser cantada. A interpretação que fez do número musical de Frank Sinatra “My way” num Hotel na Suíça fê-la ganhar espaço como vocalista de uma banda que tocava naquele lugar, e foi assim que, aos 19 anos, Chude começou a cantar profissionalmente. Uma moçambicana entre grandes nomes da música mundial Os anos 80 são inesquecíveis para Chude Mondlane, que deles guarda lembranças que o tempo não pode apagar. Tal é o caso do festival em que participou no Japão onde esteve presente o lendário Stevie Wander. Ganhou prata no Festival Internacional de Música da Coreia em 1980, e venceu o Festival Internacional de Música de Tóquio em 1981. Álbuns e singles também fizeram parte desta época. Trabalhou com Marcus Miller, nome sonante do Jazz mundial, Robert Flack, o pianista Abdullah Ibrahim e Hugh Masekela. Também colaborou com artistas nacionais da cena musical tradicional e urbana. Chude Mondlane foi consagrada o Artista do Ano pela Rádio Moçambique em 1999.

Passado e presente comunicam-se pela voz de uma mulher que cantou Moçambique por onde passou. Chude Mondlane é uma mistura de artes e “mundos” 58 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022


Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 59 Chude and Lionel Richie - Tokyo Commodores opening act (1981)


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Uma mulher pela causa das mulheres Formada em antropologia cultural e estudos africanos, a cantora, compositora, intérprete e produtora musical, de 63 anos de idade, tem-se dedicado nos últimos tempos à sua produtora, a Nkateko Productions, uma empresa de produção musical cujo trabalho já mostrou frutos, como é o caso do “Festival Xingomane”, realizado em Gaza para celebrar grupos de dança tradicional e criar experiências para os artistas locais da região. O projecto denominado “The Acoustic Sessions” é outra iniciativa de intervenção na área musical ligada à promoção artística da mulher. Criado em 2019, assenta na produção e gravação audiovisual de números musicais com a missão de criar conteúdo de artistas femininas para distribuição em plataformas digitais e redes sociais. Cada artista apresenta quatro (4) te-

mas originais e faz live performance. “A intenção é dar espaço a artistas femininas. Fazemos gravações e colocamos em plataformas digitais como o Youtube, a Amazon, o Spotify, para a distribuição”, disse Mondlane. Chude tem a causa da mulher nas suas veias e, por isso, sente-se chamada a lutar através do que mais sabe fazer, para o bem-estar da mulher moçambicana. A situação da covid em 2020 forçou a paragem da iniciativa “The Acoustic Sessions”, mas Chude Mondlane acredita que, com um olhar mais atento à cultura nacional e às iniciativas para o seu desenvolvimento, todos os obstáculos podem ser ultrapassados. “Temos uma riqueza cultural enorme. Há ainda muito a fazer para que ela não se perca. Há necessidade de se investir mais na cultura, de se criarem formas de os projectos ligados à cultura não morrerem”.

Chude ganhou prata no Festival Internacional de Música da Coreia em 1980, e venceu o Festival Internacional de Música de Tóquio em 1981. Álbuns e singles fizeram parte desta época, em que também trabalhou com nomes sonantes da música a nível mundial

Chude with Big Band - Tokyo Japan (1983)

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A interpretação de Chude de “My way”, de Frank Sinatra, num hotel na Suíça fê-la ganhar espaço como vocalista de uma banda que ali tocava. Assim, aos 19 anos, Chude começou a cantar profissionalmente

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Fotografia: Mariano Silva

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Chude Mondlane Written by: Yana de Almeida

Her eyes tell life stories while melodies come out of her mouth, lulling the soul and inviting you to travel back in time. Past and present speak through the voice of a woman who sang Mozambique wherever she went. Chude Mondlane is a blend of arts and “worlds”. Dance and music come together in a woman who left her mark on big stages around the planet. She received us in her “art corner”, a space that documents part of her musical journey. At her home, the artist sought to reserve a space to let art speak… Albums, photos, videos and memories accompanied our conversation with this Mozambican woman-artist.

in Dar Es Salam, and at the time we didn't have television nor internet. Music was at the centre of our family entertainment. We used to sing as a family during trips, and it was a lot of fun”, Chude told us. The “stage bug”, as she calls her love for public performances, appeared at the age of 9.

The daughter of the first President of the Liberation Front of Mozambique (FRELIMO), Eduardo Mondlane, and the American Janet Mondlane, Chude had a lot of exposure to music during childhood. Her mother “worked magic” with some instruments, such as the violin and the piano. “I grew up

Whilst at school in Dar Es Salam, she gave her first public dance performance with her school group: “I remember it like it was yesterday. My parents went to see the show. The applause, being in front of the audience, performing… all of that awoke in me a passion for the stage.”

64 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022 Chude with Likute


USSR - Chude e Janet Mondlane (1973)

Chude - far right - last performance dad saw- Dar (1966)

Chude has the women´s cause in her veins and, therefore, feels called to fight through what she knows best, Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 65 for the well-being of Mozambican women.


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Um retrato de Chude Mondlane a carvão feito pelo artista moçambicano Penuel Madeira Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022 penuel.art


An artist without borders After her father´s assassination, Chude went to study in Philadelphia, USA, at a modern dance academy, between the ages of 12 and 13. She studied at the hands of professionals who shared the stage with great names in modern dance, such as Isadora Duncan and Martha Graham. “We studied music, arts, art history and singing. They were part of our curriculum. We travelled across the US to do performances,” she added. She also passed through the former Soviet Union, earning a scholarship to study classical ballet in that country at the age of 13. After her experience in the Soviet Union, where she stayed until she was 16, she went to Kazakhstan. Meanwhile, the winds of independence were blowing in Mozambique, and Chude Mondlane, in that other part of the world, could not contain herself with the news of liberation, only thinking about returning to her country. “When I learnt of independence, I abandoned my studies. I passed through Tanzania towards Mozambique to experience it up close.

the Korea International Music Festival in 1980, and was the winner of the Tokyo International Music Festival in 1981. Albums and singles were also part of this era. She worked with Marcus Miller, world-renowned in the Jazz world, Robert Flack, pianist Abdullah Ibrahim and Hugh Masekela. She also collaborated with national artists from the traditional and urban music scene. Chude Mondlane was awarded the Artist of the Year by Rádio Moçambique in 1999. A woman for the women´s cause Graduated in cultural anthropology and African studies, the 63-year-old singer, songwriter, performer and music producer has dedicated herself in the later years to her production company, Nkateko Productions, a music production company whose work has already born fruit, such as the “Festival Xingomane”, held in Gaza to celebrate traditional dance groups and create experiences for local artists in the region. The project called “The Acoustic Sessions” is another initiative in the musical field linked to the artistic promotion of women.

“Music was at the centre of our family entertainment. We used to sing as a family during trips, and it was a lot of fun”

She was the first to live in the country,” said the artist. Shortly after independence, with the country weakened by the destruction of infrastructure and lack of skilled professionals, Chude gave dance lessons at a school for children with disabilities. The artist wanted to further explore her art and study it better, so she went to Switzerland, where her maternal grandfather lived. At the time, the music that lived inside her asked to be sung. Her interpretation of Frank Sinatra's musical number “My way” in a hotel in Switzerland earned her the role of lead singer of the band that played there, and that's how, at age 19, Chude began to sing professionally. A Mozambican among the greats of world music The 80s are unforgettable for Chude Mondlane, of which she keeps memories that time cannot erase. Such is the case of the festival she took part of in Japan, where the legendary Stevie Wander was present. She won silver at

Created in 2019, it is based on the audiovisual production and recording of musical numbers with the mission of creating content by female artists for distribution on digital platforms and social networks. Each artist presents four original themes and performs live. “The intention is to create space for female artists. We make recordings and put them on digital platforms like YouTube, Amazon, Spotify, for distribution,” said Mondlane. Chude has the women´s cause in her veins and, therefore, feels called to fight through what she knows best, for the well-being of Mozambican women. The Covid-19 situation in 2020 forced a stop to the initiative “The Acoustic Sessions”, but Chude Mondlane believes that, with a focused effort on national culture and initiatives for its development, all obstacles can be overcome. “We have enormous cultural wealth. There is still a lot to be done so that it doesn't get lost. There is a need to invest more in culture, to create ways for projects linked to culture to be kept alive”.

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Fotografia: Erik Odiin

Turismo

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Turismo

A globalização, o turismo e nós Escrito por: Neyde

Cuna

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Turismo

A globalização, o turismo e nós Escrito por:

Neyde Cuna

A

globalização faz o mundo parecer menor, dá-nos a sensação de estarmos todos muito próximos uns dos outros, e de que tudo, ou pelo menos quase tudo, é alcançável. Esta ausência ou diminuição de barreiras entre os países é impulsionada pelo desenvolvimento dos transportes (aviões, comboios, navios-cruzeiros…) e o avanço das tecnologias de informação. A internet, que se tornou um dos ícones da globalização, deu lugar a este mundo hiperconectado, que opera em tempo real e partilha informação e experiências instantaneamente. Tudo isto cria maior interacção e integração entre pessoas, empresas e governos. Tornámo-nos uma aldeia global, o que veio estimular ainda mais o turismo internacional. Cresceu significativamente o desejo das pessoas de conhecer novos, lugares diferentes dos habituais, e as motivações também se vão diversificando, o que resultou no desenvolvimento de vários tipos de turismo, como o cultural, o rural, o de saúde, o de intercâmbio, o de negócios, o de desporto, o de aventura, o de sol e praia, o ecoturismo, entre outros. Moçambique é famoso pelo turismo de sol e praia e é também riquíssimo no

turismo histórico-cultural, embora este ainda não seja tão aproveitado quanto o de praias e safáris. Chegam todos os anos turistas de diferentes países para desfrutar a beleza e riqueza do solo moçambicano, e, graças à globalização, nos últimos 10 anos o número de chegadas internacionais passou de 1.193.000 em 2008, para 2.743.000 em 2018, isto é, mais do que duplicou, registando o maior recorde, com uma receita de 241,8 milhões de dólares. Com a globalização trazendo consigo um consumo constante de informação e cultura internacional e um número crescente de turistas, é preciso aceitarmos o hibridismo cultural, e, mesmo, não temos como a ele fugir. A troca e mistura de culturas acaba sempre por deixar um toque na cultura moçambicana e influenciar os nossos modos de vida. Rega-nos com novas perspectivas, deixa-nos mais tolerantes e menos ignorantes ao que não é nosso, abrindo espaço para convivências positivas e novos conhecimentos. De facto, a globalização não é uma escolha, é uma realidade, a transformação é inevitável. No entanto, jamais percamos o que nos define, os nossos valores, a nossa alma. Que tenhamos sempre em mente que muito do que é nosso é bom. E que nos orgulhemos sempre disso.

É preciso aceitarmos o hibridismo cultural, e, mesmo, não temos como a ele fugir. A troca e mistura de culturas acaba sempre por deixar um toque na cultura moçambicana e influenciar os nossos modos de vida 70 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022


Fotografia: Gaddafi Rusli

Turismo

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Turismo

Globalization, Tourism and Us

G

Cuna

lobalization makes the world appear smaller. It gives us the feeling that we are all very close to each other and that everything, or at least almost everything, is achievable. This absence or reduction of barriers between countries is driven by developments in transportation (planes, trains, cruise ships…) and the onward march of information technologies. The internet, which has become one of the icons of globalization, has given way to this hyper-connected world, which operates in real time and shares information and experiences instantly. All this creates greater interaction and integration between people, companies and governments. We have become a global village, which has further stimulated international tourism. People's desire to discover new places, different from the usual ones, has grown significantly, and motivations have also diversified, which has resulted in the development of various types of tourism, such as cultural, rural, health, exchange, business, sport, adventure, sun and beach, ecotourism, among others. Mozambique is famous for sun and beach tourism, and is also very rich in historical and

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cultural tourism, although this is still not as popular as beaches and safaris. Tourists from different countries arrive every year to enjoy the beauty and richness of our land and, thanks to globalization, in the past 10 years the number of international arrivals has increased from 1,193,000 in 2008 to 2,743,000 in 2018 – that is, more than doubled, setting the highest record to date, with a revenue of 241.8 million dollars. Since globalization brings with it a steady consumption of information and international culture, not to mention an increasing number of tourists, it is necessary to accept that cultural hybridity is an unavoidable consequence. The exchange and mixing of cultures always ends up leaving a trace on Mozambican culture and influencing our ways of living. It waters us with new perspectives, makes us more tolerant and less ignorant of that which is not ours, thus opening space for positive coexistence and new knowledge. In fact, globalization is not a choice, it is a reality; transformation is inevitable. However, let us never lose sight of what defines us, our values, our soul. May we always keep in mind that much of what is ours is good. And may we always be proud of that.

Fotografia: Chelsea Gates

Written by: Neyde


Turismo

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Fotografia: Mariano Silva

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“O meu trabalho é muito espiritual, feito com muita emoção e carinho, é a exposição de tudo o que sinto, é a fotografia de tudo que vejo.”

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Jesse Jane “Projectos sempre existem, e a parte boa é quando os concretizamos e os apresentamos ao público com o maior orgulho”

Podias compartilhar connosco um pouco do início da tua jornada. Como começaste e, o mais importante, porque decidiste pintar? Pintei os meus dois primeiros quadros em 2008, para um leilão com os pais de angariação de fundos do meu baile de finalistas. O nosso pintor Samate Mulungo ajudou-me com o material e ensinou-me algumas técnicas básicas. Um dos quadros foi vendido, e o outro está comigo até hoje, não o venderei por nada. Decidi continuar porque naquele dia descobri que gostava mesmo de pintar e desenhar, arte esta que sempre me fascinou, desde pequena. Como caracterizas o teu trabalho? O meu trabalho é muito espiritual, feito com muita emoção e carinho, é a exposição de tudo o que sinto, é a fotografia de tudo que vejo. O abstracto é a técnica de que mais gosto, especialmente pelo facto de o apreciador poder interpretar da sua forma e viajar em seus pensamentos. O que mais te inspira na pintura, de onde surgem as tuas melhores ideias? As minhas ideias e a minha inspiração vêm da natureza, acho que não podia ser diferente já que ela é o centro de tudo. Quem consideras serem as tuas grandes referências nesta área de actividade? Confesso que gosto de alguns pintores, em particular Samate Mulungo, Naguib, Lizzie Ana, Picasso, Miguel Ângelo, mas, no fim do dia, acabo não tendo preferidos, porque todos eles passam sentimentos e técnicas diferentes, todos juntos completam e elevam esta arte. Existe algum momento emocionante na tua carreira que queiras partilhar connosco?

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Eu acho que todos os momentos são emocionantes, desde a produção da minha primeira obra, a primeira venda que efectuei, os convites para exposições, a abertura do meu primeiro atelier, é difícil especificar o que mais me emocionou, pois todos eles foram diferentes e muito importantes. Na tua opinião, quais são os maiores desafios actualmente no sector? Dificuldades sempre existem, principalmente num país com tantos problemas acima dos das artes, mas sinto que a nova geração está a lutar muito para reverter esta situação. Existe muita burocracia em torno das artes. Penso que estamos a criar uma independência cultural que está a ficar cada dia mais forte, e espero que esta força continue e que as dificuldades sirvam somente para nos fortificar, não para desanimar. Para além da pintura, que outras formas de arte te fascinam? Onde podemos acompanhar os teus trabalhos? Para além desta arte, aprecio muito a escultura, a música, e, em geral, todo o tipo artesanato. Na verdade, acho que sou fascinada por tudo, tenho um carinho especial por cada uma delas. Os meus trabalhos estão expostos na minha galeria (The Art and Scents Hub), e, virtualmente, no meu Instagram @ jessejsjane_art e Facebook Jess Jane Arte. Quais consideras serem os ingredientes essenciais para um futuro próspero no mundo da arte? Os ingredientes certeiros são, com certeza, a perseverança, nunca desistir, foco, amor pelo que se faz, autoconfiança e energias positivas, sempre. Projectos sempre existem, e a parte boa é quando os concretizamos e os apresentamos ao público com o maior orgulho.


Fotografia: Mariano Silva

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Fotografia: Mariano Silva

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“As minhas ideias e a minha inspiração vêm da natureza, acho que não podia ser diferente já que ela é o centro de tudo” - Jesse Jane

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Fotografia: Mariano Silva

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Jesse Jane

“Projects will always exist, and the good part is when we carry them out and present them to the public with the greatest pride.”

Tell us a little bit about the beginnings of your journey. How did you start and, most importantly, why did you decide to paint? I painted my first two paintings in 2008, for a school prom fundraising auction for parents. Our painter Samate Mulungo helped me with the materials and taught me some basic techniques. One of the paintings was sold, and I kept the other one to this day – I won't sell it for anything. I decided to continue because, that day, I discovered that I really liked to paint and draw, an art form that has always fascinated me since I was little. What inspires you the most in painting, and where do your best ideas come from? My ideas and inspiration come from nature. I think it couldn't be any different, since she [sic] is the centre of everything. Whom do you consider to be your main references in this area of activity? I confess that I like some painters, in particular Samate Mulungo, Naguib, Lizzie Ana, Picasso, Michelangelo. But, at the end of the day, I end up not having favourites, because they all convey different feelings and techniques and, together, they complete and elevate this art. Is there an exciting career moment that you´d like to share with us? I think that every moment is exciting, from the production of my first work, to the first sale I made, the invitations to exhibitions, the opening of my first studio…It is difficult to specify what moved me the most, as they were all different and very important. In your opinion, what are currently the biggest challenges in the sector? Difficulties always exist, especially in a country with so many problems greater than those in the arts, but I feel that the new generation is fighting hard to reverse this situation. There is a lot of bureaucracy around the arts. I think that we are creating a cultural independence that is getting stronger every day, and I hope that this strength will continue and that the difficulties will only serve to strengthen us, rather than discourage us. Aside from painting, what other forms of art fascinate you? Where can we follow your work? In addition to this art form, I really appreciate sculpture, music and, in general, all kinds of crafts. In fact, I think I'm fascinated by everything; I have a special affection for each one of them. My works are on display in my gallery (The Art and Scents Hub), and virtually on my Instagram @jessejsjane_art and Facebook Jess Jane Arte. What do you consider to be the essential ingredients for a prosperous future in the art world? The right ingredients are, of course, perseverance, never giving up, focus, love for what you do, self-confidence and positive energy, always. Projects will always exist, and the good part is when we carry them out and present them to the public with the greatest pride.

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Fotografia: Mariano Silva

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Fotografia: Mariano Silva

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Ana Bela dos Reis Borges

Quando a paixão pelo desporto faz esquecer a idade Escrito por:

Jaime Álvaro A jogadora de basquetebol eventualmente mais velha do mundo é de Moçambique, tem 59 anos e chama-se Ana Bela dos Reis Borges. Ana Bela é um exemplo de longevidade desportiva. Esta mãe, avó, empresária e atleta-presidente (Desportivo), provou que a idade é apenas um número, ao competir ao mais alto nível no último Campeonato Nacional de Basquetebol feminino disputado na cidade de Maputo (Liga Sasol 2022).

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na representou a equipa recreativa de Mucopelinhas, de Nacala. O campeonato foi conquistado pela equipa “canarinha” (alcunha do Costa do Sol), que bateu, na final, a turma “locomotiva” (alcunha do Ferroviário de Maputo), da capital. A equipa na qual joga a nossa entrevistada terminou a prova em sexto lugar e foi despromovida, devendo passar pela poule de apuramento para retornar à prova máxima do basquetebol nacional. Ana Bela afirma categoricamente que a equipa “voltará à elite do basquetebol nacional” com ela no comando, pois não pensa tão já retirar-se dos campos. “Não tenho a ideia de parar de jogar a curto prazo, aliás, sequer tenho intenções de parar. Quero jogar até aos 70 anos, se tudo correr bem. A não ser que haja um regulamento impeditivo”, afirma, com o entusiamo que a caracteriza, a veterana de 59 anos, quando questionada sobre a sua aposentação. Mas, afinal de contas, quem é “dona Ana Bela” (assim tratada pelos colegas em campo), que virou a maior atracção da Liga Sasol? “Eu sou uma moçambicana com sangue crioulo. Nasci em Moçambique, mas os meus pais são ca-

bo-verdianos. Em 1985, abandonei Moçambique devido à guerra civil e fui viver em Cabo-Verde. Só regressei ao país em 1993, depois do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma”. Mas a paixão pelo desporto já existia muito antes da guerra e muito antes de Ana Bela partir. A veterana, agora à porta dos 60 anos, anda no desporto desde os seis anos de idade. Participou em dois campeonatos nacionais (2019 - 2022). Formada em Gestão e Contabilidade, é empresária, mãe de quatro filhos, atleta e presidente da equipa em que joga. Derrubando estereótipos e preconceitos “Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência, da sua fé” (George Sand). Ana Bela é prova de que a idade pode não ser uma limitante para nada, e muito menos para sonhar. Ana ultrapassou a barreira de idade, mas reconhece que continua a existir preconceito em questões que “até deviam ser motivo de orgulho”. Esta guerreira tornou-se símbolo de resiliência e coragem para continuar a fazer aquilo que todos deviam fazer, a coisa que a faz sentir-se mais viva: o desporto, o basquetebol em particular. “Estar a competir com a idade que tenho tem o lado positivo e o lado negativo. Porque uns

vêem-no com bons olhos, outros, com maus olhos. Eu peço às pessoas para não me incriminarem, não falarem mal de mim. Eu gosto de jogar, deixem-me jogar, por favor”, pede, com humildade, a “cinquentona” da bola ao cesto. “Jogar basquetebol na minha província na minha idade é um desafio muito grande, devido a estereótipos relacionados com a idade. Mas o que eu desejo, o que eu quero é jogar basquetebol. Portanto, não me interessa o que as pessoas pensam. Se o basquete, se o desporto me faz bem, não ouço e faço o que é melhor para mim, sempre foi assim na minha vida”, disse. Ana Bela acredita que o desporto é uma componente de visibilidade da mulher na sociedade e no espaço público. Muitos nomes que se destacaram como talentos desportivos são resultantes de lutas ao longo dos anos por conquistas nesse espaço dominado pelos homens. “Os factores socioculturais condicionam o envolvimento da mulher e da rapariga aqui em Nacala, onde a maior parte da população é muçulmana. Isso acaba influenciando o seu desenvolvimento e o seu futuro. Desejo ver mais mulheres e raparigas do meu distrito abraçando a modalidade desportiva.”

Dona Ana provou que a idade não é um empecilho, ao participar no último Campeonato Nacional de Basquetebol Feminino aos 59 anos Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 85


Fotografia: Mariano Silva

“Enquanto o meu corpo permitir, enquanto tiver energia para jogar, nada nem ninguém me vai parar”

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Jogando (também) pela vida Ana Bela revela que não joga só para quebrar os estereótipos e preconceitos relacionados com a idade, joga pela própria vida. “Eu nasci com asma. Desde que me conheço como Ana Bela sei que sou asmática. Então, encontrei no desporto uma maneira de dilatar os meus pulmões e tenho menos crises de asma por ano”, frisou, considerando o desporto sua salvação, sua vida. “Eu fiquei um tempo parada, durante três anos, podem confirmar os médicos em Nacala, eu estava sempre nas urgências. Desde que voltei a praticar, desapareci das urgências, e até os médicos perguntam como estou e eu digo que estou óptima, que estou na melhor fase da minha vida. Para mim, o desporto é terapêutico para o meu corpo e para a minha alma”, afirmou. Dona Ana provou que a idade não é um empecilho ao participar no último Campeonato Nacional de Basquetebol Feminino aos 59 anos. A idade não a impediu de competir ao mais alto nível, ombreando com jogadoras mais jovens. “Com esta idade, estar a treinar, estar a competir ao mesmo nível com as minhas colegas mais novas é uma superação pessoal. Enquanto o meu corpo permitir, enquanto tiver energia para jogar, nada nem ninguém me vai parar”, avisa. “O Basquetebol não pode morrer”, vaticina Ana, e pede apoio das autoridades e do empresariado local para desenvolver a modalidade da bola ao cesto e promover o empoderamento da mulher e da rapariga no distrito onde vive, Nacala-Porto, em Nampula. “Somos uma equipa nova, não temos ainda condições de ter um campo só nosso. Pedimos emprestado e muitas vezes têm-nos negado. Com a nossa força de vontade e empenho, às vezes treinamos em frente da igreja, às vezes corremos pelas estradas de Nacala-Porto, fazemos caminhada, vamos à praia, todo um esforço para não deixar o basquetebol morrer em Nacala, mas falta-nos praticamente tudo, desde o equipamento, bolas, tabelas e todo o tipo de material inerente à prática de basquetebol”, frisou, lamentando as dificuldades que a equipa vem enfrentando ao longo dos anos. Entretanto, as dificuldades não tiram a vontade de continuar a lutar pelo desenvolvimento do desporto local. Ana sonha um dia ver o campeonato provincial de basquetebol, que acontece em Nampula, no seu distrito, e pede apoio ao empresariado e às autoridades locais para criarem condições para se reabilitar e construir novos campos que permitam a realização da prova. “Isso beneficiaria enormemente a indústria do turismo local porque iria trazer muitas caravanas com equipas de todas as regiões do país e causaria o impacto positivo que o desporto consegue dar. Nacala sairia a ganhar, o desporto também”, concluiu. Fora das quatro linhas, Ana Bela dos Reis Borges é empresária no ramo de agronegócios, exercendo também as funções de Presidente da equipa em que joga. Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 87


Ana Bela dos Reis Borges

When a passion for sport makes you forget about age Written by:

Jaime Álvaro Potentially the oldest basketball player in the world, she is from Mozambique, 59 years old and her name is Ana Bela dos Reis Borges. Ana Bela is an example of sporting longevity. This mother, grandmother, businesswoman and athlete-president (at Desportivo) proved that age is just a number, by competing at the highest level in the last National Women's Basketball Championship, which took place in Maputo city (Liga Sasol 2022).

A

na represented the recreational team of Mucopelinhas, from Nacala. The championship was won by the “canarinhos” team (nickname for the Costa do Sol club), which beat, in the finals, the “locomotiva” team (nickname for the Ferroviário de Maputo club), from the capital. The team for which our interviewee plays finished the competition in sixth place and was relegated, having to go through the qualifying pool to return to this top national basketball competition in the future. Ana Bela categorically states that the team “will re-join the elite [teams] of national basketball” with her in charge, as she will not be retiring from the courts anytime soon. “I haven´t in mind to stop playing in the short term; in fact, I don't want to stop at all. I want to play until I'm 70, if all goes well. Unless there is a regulatory impediment”, she says, with the enthusiasm that characterizes her, this 59-year-old veteran, when asked about her retirement. But who is, after all, “Dona Ana Bela” (thus regarded by her courtside colleagues), who has become the biggest attraction of the Liga Sasol (“Sasol League”)? “I am a Mozambican with Creole blood. I was born in Mozambique, but my parents are Cape Verdeans. In 1985, I left Mozambique due to the civil war and lived in Cape Verde. I only returned to the country in 1993, after the General Peace Treaty, signed in Rome”. But the pas-

sion for sport existed long before the war and long before Ana Bela left. The veteran, now entering her 60s, has practiced the sport since she was six years old, and participated in two national championships (2019 - 2022). With a degree in Management and Accounting, she is a businesswoman, mother of four children, athlete and president of the team she plays for. Breaking down stereotypes and prejudices “Each one is as old as their heart, their experience, their faith” (George Sand). Ana Bela is proof that age cannot be a limiting factor for anything, let alone dreaming. Ana has overcome the age barrier but recognizes that prejudice continues to exist on issues that “should, instead, be a source of pride”. This warrior became a symbol of resilience and courage in continuing to do what everyone should: the thing that makes one feel most alive – in her case, this is sport and, in particular, basketball. “Competing at my age has its positives and negatives. Because some see it in a good light, and others in a bad light. I ask people not to incriminate me, not to speak ill of me. I like to play – let me play, please”, humbly asks the “fifty-something” of the ball-tobasket sport. “Playing basketball in my province, at my age, is a very big challenge, due to age-related stereotypes. But what I desire, what I yearn for is to play basketball. And so, I don't care what people think. If basketball, if sport

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is good for me, I don't listen [to anyone else] and I do what's best for me; it's always been that way in my life”, she said. Ana Bela believes that sport is a vehicle to promote women's visibility in society and in the public space. Many names that have stood out as sporting talents are the result of years-long struggles for a place in this male-dominated space. “Sociocultural factors condition the involvement of women and girls here in Nacala, where most of the population is Muslim. This ends up influencing their development and their future. I want to see more women and girls in my district embracing sport.” Playing for her life Ana Bela reveals that she doesn't just play to break ageist stereotypes and prejudices; she also plays for her very life. “I was born with asthma. Since I know myself as Ana Bela, I´ve known myself to be asthmatic. And so, I found in sport a way to expand my lungs´ capacity and thus have fewer asthma attacks per year”, she stressed, considering sport her salvation, her life. “I stopped for a while in the past, for three years, and the doctors in Nacala can confirm that I was constantly in the emergency room during that time. Since I started practicing again, I disappeared from the emergency room, and even the doctors ask how I am, and I say I'm great, I'm in the best phase of my life. For me, sport is therapeutic for my body and soul”, she said.


Fotografia: Mariano Silva

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Dona Ana proved that age is not an obstacle by participating in the last National Women's Basketball Championship at the age of 59. Age has not stopped her from competing at the highest level, alongside younger players. “At this age, to be training, to be competing at the same level with my younger colleagues is a personal achievement. As long as my body allows it, as long as I have the energy to play, nothing and no one will stop me”, she warns. “Basketball cannot die”, urges Ana, and asks for support from the authorities and the local business community to develop this sport and promote the empowerment of women and girls in the district where she lives, Nacala-Porto, in Nampula. “We are a new team; we are not yet able to have our own court. We have to borrow one and are often turned down. With our willpower and commitment, sometimes we train in front of the church, sometimes we run along the roads of Nacala-Porto, we go for a walk, we go to the beach, all part of an effort not to let basketball die in Nacala. But we lack practically everything – from the equipment, balls, basketball backboards and all kinds of material inherent to the practice of basketball”, she stressed, lamenting the difficulties that the team has continuously faced over the years. However, these setbacks do not take away the will to continue fighting for the development of local sport. Ana dreams of one day seeing the provincial basketball championship take place in her district, in Nampula, and asks for support from the business community and local authorities to create the necessary conditions to rehabilitate and build new courts that would allow the competition to take place. “This would hugely benefit the local tourism industry because it would bring many convoys with teams from all regions of the country and would have the positive impact that sport can have. Nacala would win, and so would sport”, she concluded. Outside of the courts, Ana Bela dos Reis Borges is a businesswoman in the agribusiness sector, also performing the duties of President of the team in which she plays. 90 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022


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Fotografia: Cortesia de Mozambique Dubai Business Forum


MOZAMBIQUE-DUBAI BUSINESS FORUM “Criar Oportunidades para o Desenvolvimento de um Ambientede Negócios Sustentável entre Moçambique e o Dubai”

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om o intuito de desenvolver uma iniciativa de exploração comercial e institucional entre Moçambique e os Emirados Árabes Unidos, a Dubai Chamber of Commerce and Industry Mozambique (DCCI) e a Fundação para a Melhoria do Ambiente de Negócios (FAN), em parceria com a Associação Industrial de Moçambique (AIMO), organizaram, no passado mês de Março, o Mozambique-Dubai Business Forum, tendo como pano de fundo a Expo Dubai 2020. O Mozambique-Dubai Business Forum é uma iniciativa do sector privado que tem como lema “Criar Oportunidades para o Desenvolvimento de um Ambiente de Negócios Sustentável entre Moçambique e o Dubai”. Pretende expor as potencia-

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lidades do mercado moçambicano, numa perspectiva tanto de exportação de produtos para o Dubai-Emirados Árabes Unidos, como de atracção de investimento. De forma estratégica em termos de agenda nacional de industrialização, a AIMO – Associação Industrial de Moçambique, o BNI e a Moz Parks juntaram-se à iniciativa como parceiros. O evento realizou-se a 28 de Março, na sede da Câmara de comércio e Indústria de Dubai, que teve a cortesia de ceder a sala sem custos para a iniciativa. Estiveram presentes mais de 100 pessoas, que participaram num intenso ciclo de networking e reuniões empresariais que tiveram em vista atrair os stakeholders relevantes para os sectores que Moçambique leva ao Dubai.


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Fotografia: Cortesia de Mozambique Dubai Business Forum

Estiveram presentes mais de 100 pessoas, que participaram num intenso ciclo de networking e reuniões empresariais

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98 | Revista Xonguila © Ed. 46 • Abril/April 2022 Fotografia: Cortesia de Mozambique Dubai Business Forum


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eeking to develop interest in commercial initiatives and strengthen institutional ties between Mozambique and the United Arab Emirates, the Dubai Chamber of Commerce and Industry Mozambique (DCCI) and the Fundação para a Melhoria do Ambiente de Negócios (FAN – “Foundation for the Improvement of the Business Environment”), in partnership with the Associação Industrial de Moçambique (AIMO – “Mozambican Industrial Association”), organized the Mozambique-Dubai Business Forum this past March, against the backdrop of Expo 2020 Dubai. The Mozambique-Dubai Business Forum is a private sector initiative whose motto is “Creating Opportunities for the Development of a Sustainable Business Environment between Mozambique and

Dubai”. It intends to showcase the potential of the Mozambican market, with a view to both exporting products to Dubai-United Arab Emirates, and attracting investment in Mozambique. Strategically, and in line with the national industrialization agenda, AIMO – Associação Industrial de Moçambique (“Mozambican Industrial Association”), BNI and Moz Parks joined the initiative as partners. The event took place on March 28 at the headquarters of the Dubai Chamber of Commerce and Industry, which extended the courtesy of providing the venue free of charge for the occasion. More than 100 people were present, participating in an intense cycle of networking and business meetings aimed at attracting relevant stakeholders for the commercial sectors that Mozambique chose to take to Dubai.

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Fotografia: Tim Trad

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YARA POLANA EM REYKJAVÍK, ISLÂNDIA Escrito por: Eliana

Silva

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YARA POLANA, EM REYKJAVÍK, ISLÂNDIA Escrito por:

Eliana Silva

A tecnologia de lés a lés É à distância de um clique que se adivinha a rapidez, a boa energia e a vontade de promover impacto de Yara Polana. A viver entre dois polos bastante distintos, Reiquiavique e Los Angeles, esta moçambicana trabalha como senior developer. É impossível pensar na capital islandesa, Reiquiavique, e não imaginar as temperaturas baixas ou as poucas horas de sol diário que a caracterizam. Pequenos pormenores para a vivência de Yara Polana, uma jovem moçambicana que é formada em Comunicação Visual e que vive entre o frio do norte da Europa e as temperaturas amenas de Los Angeles, a cidade mais populosa do oeste dos Estados Unidos. Yara saiu de Moçambique há 10 anos porque sentiu que lhe faltavam opções de ensino superior na área de multimédia. Na altura, quando saiu do Aeroporto Internacional de Maputo, em Julho de 2011, o destino era a Noruega, mas a sua jornada coincidiu com os atentados de Oslo e na Ilha de Utoya, e a jovem ficou com dúvidas sobre se esta seria a melhor opção para viver. Em alternativa, matriculou-se na Universidade de Artes na Islândia. Hoje, aos 33 anos, Polana trabalha numa área que está no centro do desenvolvimento de várias nações e sente que tem um papel activo em construir a mudança. “A tecnologia está sempre a evoluir, não é possível aprender uma linguagem de programação ou framework e dizer que já temos tudo o que é necessário para ir em frente. A linguagem evolui, o framework evolui, descobrir o uso e desuso destes no dia-a-dia é chave. É necessário estar-se sempre alerta quanto a essa evolução, estar-se sempre a aprender, mesmo que não se esteja a implementar o conhecimento. O grande desafio é que, vivendo sobrecarregados de informação, caímos sob a pressão de não saber tudo ou não saber muito, de ter que lidar com limitações da tecnologia, a síndrome

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de impostor bate-nos à porta… Nestes momentos é preciso ter-se um foco e uma disciplina impecável’, partilha. Embora seja optimista, a developer reconhece que nem sempre é fácil: “Porque, estando a aprender algo novo, se não estiver a implementar hoje, está na sua jornada profissional implementar no futuro? Eu já passei por tudo isto, depressão, ânsia, síndrome de impostor, mas o que me faz sempre sair do fundo do poço é a minha disciplina, que aprendi com os meus pais – disciplina, persistência, paciência e auto-respeito (ou amor próprio)”. É esta resiliência que motiva Yara. De tal forma que, além de estar a par dos eventos que se passam nas duas geografias onde vive, ainda se preocupa com a agenda tech nacional. A nível de referências, é na escola Rocketseat que se forma sistematicamente. Quanto aos projectos a implementar, Polana afirma que há vários que gostaria de pôr em prática por saber que iriam simplificar muitos serviços locais. “Os hospitais estão extremamente sobrecarregados, e seria uma boa experiência introduzir um serviço que facilitasse consultas online, por vídeo, para casos não graves, claro. Porque, com este serviço, talvez se tire a carga do cliente de ter que ir a um estabelecimento e ter que esperar horas para ter uma consulta de 3 a 5 minutos, enquanto pode ter a consulta no local em que está e ser direccionado para o serviço hospitalar correcto sem perder tanto tempo”, partilha, com confiança, a jovem.


Fotografia: Cortesia de Yara Polana

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“A tecnologia está sempre a evoluir, não é possível aprender uma linguagem de programação ou framework e dizer que já temos tudo o que é necessário para ir em frente” – Yara Polana, senior developer Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 103


Fotografia: Cortesia de Yara Polana

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YARA POLANA, IN REYKJAVÍK, ICELAND Written by:

Eliana Silva

End-to-end technology A mere click away, one can guess Yara Polana ´s agility, good energy and will to make an impact. Living between two very different hubs, Reykjavik and Los Angeles, this Mozambican works as a senior developer. It is impossible to think about the Icelandic capital, Reykjavík, without imagining the low temperatures or the reduced daylight hours that characterize it. Small details for the experience of Yara Polana, a young Mozambican who has a degree in Visual Communication and lives between the cold of northern Europe and the mild temperatures of Los Angeles, the most populous city in the western United States. Yara left Mozambique 10 years ago because she felt she lacked higher education options in the multimedia field. At the time, when she left Maputo International Airport in July 2011, her destination was Norway, but her journey coincided with the attacks in Oslo and Utoya Island, and the young woman had doubts about whether this would be the best option of a place to live. As an alternative, she enrolled at the University of the Arts in Iceland. Today, at the age of 33, Polana works in an area that is at the heart of the development of several nations and feels that she has an active role in building change. “Technology is always evolving; it´s not possible to learn a programming language or framework and say that we already have everything necessary to go forward. The language evolves, the framework evolves, discovering their use and disuse in everyday life is key. It´s necessary to always be alert to this evolution, to always be learning, even if you are not implementing the knowledge. The great challenge is that, living overloaded with information, we fall under the pressure of not knowing everything or not knowing enough, of having to deal with the limitations of technology, the imposter syndrome knocks on our door...in those

moments, focus and impeccable discipline are key”, she shares. Although she is optimistic, the developer recognizes that it is not always easy: “Because, when you are learning something new, if you are not implementing it today, is it in your professional journey to implement it in the future? I've been through it all, depression, anxiety, imposter syndrome, but what always makes me come out of the deep end is my discipline, which I learnt from my parents – discipline, persistence, patience and self-respect (or self-love)". It is this resilience that motivates Yara – to such an extent that, in addition to being aware of events taking place in the two geographies where she lives, she is also concerned with the national tech agenda. In terms of references, she systematically trains at the Rocketseat school. As for the projects to be implemented, Polana says that there are several that she would like to put into practice, knowing that they would simplify many local services. “Hospitals are extremely overloaded, and it would be a good experience to introduce a service that facilitates online consultations by video, for non-serious cases of course. Because, with this service, perhaps the customer's burden of having to go to a health facility and having to wait for hours to have an appointment of 3 to 5 minutes can be removed, while they can have the appointment at the place where they are and be directed to the correct hospital service without wasting so much time”, shares the young woman confidently. Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 105


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Fotografia: Mariano Silva

AVOKOLIWA "Já Nasceu" de Lina Cunha FFLC - Fundação Fernando Leite Couto Abril/April 2022 • Ed. 46 © Revista Xonguila | 107


Fotografia: Mariano Silva

Cartas de Amor para Meninas Mal Comportadas, de Eliana N'Zualo

Fotografia: Creative Lines

Direcção Artística - Yuck Miranda CCFM - Centro Cultural Franco-Moçambicano

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MUSAMBIQUE,

Fotografia: Miguel Peral

de Manuela Pimentel e JAS Camões - Centro Cultural Português

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Recomendação de leitura Reading suggestions

A macaquinha de dois pés esquerdos Uma história infanto-juvenil educativa e pedagógica inspirada na savana africana, repleta de aventuras e surpresas para os leitores. Bilingue, em português e changana. (“The Little Monkey with Two Left Feet”) An educational and pedagogical children's tale inspired by the African savannah, full of adventures and surprises for readers. Bilingual, in Portuguese and Changana.


Bairro Indígena - Memórias do Esplendor e da Degeneração 1938/40-1966” Um livro que narra factos relativos ao Bairro Indígena, entre os bairros da Mafalala, Mincadjuine e KaTlavana, onde o escritor Juvenal Bucuane cresceu. Conta factos desde o seu primeiro ano de vida (1952) até à intempérie que se abateu sobre este subúrbio de Lourenço Marques em Janeiro de 1966, o ciclone Claude. O bairro foi construído entre 1938 e 1940, tendo-se nele registado vários episódios que não eram senão uma comédia humana protagonizada pelos seus habitantes, cada um dos quais com as suas inconfundíveis características. Após o terrível ciclone, o rumo do bairro mudou, começando pela sua designação, que de Bairro Indígena passou a Bairro da Munhuana, tendo sido, de permeio, Bairro Popular da Munhuana. (“Native Quarter - Memories of Splendour and Degeneration 1938/40-1966”) This is a book that narrates facts related to the Bairro Indígena (“Native Quarter”), a suburb located between the neighbourhoods of Mafalala, Mincadjuine and KaTlavana, where the writer Juvenal Bucuane grew up. It recounts facts from the author´s birth year (1952) up until one of the worst weather events to hit this suburb of the then Lourenço Marques in January 1966, the cyclone Claude. The Quarter was built between 1938 and 1940, and several records show events that were nothing short of a human comedy starring its inhabitants, each with their own unmistakable characteristics. After the terrible cyclone, the fate of the Quarter changed, starting with its designation, which went from Bairro Indígena (“Native Quarter”) to Bairro da Munhuana, having been, in between, Bairro Popular da Munhuana.


Mulher Moçambicana Ouve-se o tilintar dos adornos nos tornozelos sobre passos firmes na terra. Caminha com força, garra e determinação. Veste as mais belas e coloridas capulanas e lança-se ao mundo. Dia após dia incansável na luta pelos seus sonhos e objectivos. Tem força na mesma proporção que tem fragilidade. Mas é a sua fragilidade que a torna linda e perseverante. Usando do mussiro à Chanel, elas são únicas no seu jeito caloroso de ser. Possuem sorrisos cheios de marcas, mas também de esperança. Sorrisos de quem sabe o que quer. Menina, mulher de atitude, mesmo que o tempo mude elas são sol, são verão e canção que alegra cada coração que cruzar o seu caminho.

Yaniza Nizamodine


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Editorial

8ª conferência e exposição de mineração, Petróleo, gás e energia de moçambique

8a Edição

2 - 3 Junho 2022 | Maputo, MoçaMbique Centro InternaCIonal de ConferênCIas JoaquIm ChIssano

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