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Artur Rogério

Tatu breado 33 poemas sertanejos

São José do Egito, setembro de 2009.


4 Artur Rogério © Alguns direitos reservados

Projeto Gráfico Wellington de Melo Revisão Bruno Piffardini


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CÃO SEM DONO

Pobre cão velho, pelo abandono De seu senhor, que ficou ausente Foi definhando, ficou diferente Passavam meses, não sentia sono

Se caísse um dia no menor ressono Despertava, erguia sua mão doente E caminhava diligentemente Nas mesmas trilhas que passava o dono

Nas noites vagas, pelas horas mortas Levava tempos a uivar nas portas Provando ainda sua dor constante

Porém, um dia, já desiludido Com fome, fraco, esbaforido Entrou nas matas, foi morrer distante

Cancão, Flores do Pajeú, 1969.


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7 01. MORRER NA PRAIA

Mas a coisa mais linda do mundo é o mar Da praia onde morri

Quanto mais morri e vivo É como dizia dona Edith Não presta ir pra praia sem aquele negócio

Morrido num negócio que passa daqui prali Foi No ano passado Eu não tinha ido

Andei, nadei, dei, bati num recife dormindo E havia estrelas vivas A caveira dum ouriço Alegria A cabeça da sardinha


8 O beco Por isso procuro a luz de São José do Egito

Eu não agüentava beijar ela Se fosse hoje E beijar ela era a minha vida Se fosse hoje

Se fosse hoje Hoje eu tenho ela e hoje eu ainda ando no chão Jorge Amado Estava escrito Me falaram que um cara se levantou do caixão, lá em Barreiros, quando o enterro já ia ali, aos pés da rua do cemitério, onde tem a Padaria Barbosa, que vende um pastel de carne, menina, que é uma jóia

Areia no saco do surfista Pés de surfista O faro e os joelhos e a calvície do surfista


9 A onda rola Na areia Se fosse hoje

Hoje ela me engole e me tranca dentro dela feito uma chave que ela engole e a porta que ela engole e me tranca dentro dela se fosse dentro dela hoje morria

É A onda vende jóias na rocha E o meu amor rendeu por outras vidas como aquela doença sem cura na boca do mar, como este mar desaparecido, aqui, em São José do Egito, dentro de um dia, em mim, é minha a poesia, se fosse hoje eu ela ia


 10  02. ONDE É QUE TÁ O MENINO

É como dizia O disco-voador botou uma flor O bebê voltou Ao obscuro ventre dum arbusto A dorminhoca contra-atacou aos berros do demoniozinho que tombou de sono assim que a luz nova se extinguiu na curva do céu como pernas que se fecham

Mais um irmão Mais uma noite

A dorminhoca despertou sobressaltada “onde é que tá o menino” O disco-voador despertou E talvez seja aquele lá daquele de São José do Egito despertou Tu já tá de olho vermelho Menino


 11  A criança e galhos nervosos e folhas pardas se adorava como uma criança jogada a formigas e lagartixas fluorescentes dentro da barba roubada da tua mãe Esmaga uma lagarta Tatu-bola Preguiça elefante de costas rosa manga Bota dentro da bolsa Umas unhas forram uma barriga abrida Bota dentro pra fora Asa Sim

Ocultaram e que o menino veio da lua Sem unha Na panela

No meio do caminho tem uma pedra Que se parece com um asteróide desses que dão entre a lua e a Terra Uma unha


 12  Que se parece com um asteróide desses que dão entre a Terra e a lua

Mas antes do bebê E antes de tu saber Então um bicho tipo um cachorro, um maxixe, um grilo, um papa-vento, uma paca, um tatu, um mafagafo, um poeta, um sagüi se aproximou do arbusto E a face cava desse bicho descarregava pores-do-sol e penas afogadas em lágrimas como acontece, por contraste, às pedras naturais e às outras pedras quando submetidas à poeira sem luz, apenas sujeira, largada de gogós, corações, punhos, onde quer que isso seja, desse ser que é, solitário contador, comumente sem notar, do fracasso, da impossibilidade material e imaterial de haver narrativas; aqui não há; e quem me dirá que há? Esses pássaros maquiados, repetidores dessa mecânica imbecil? Bibliotecas? Internet? Essas almas ladronas das poesias livres, silvestres, estelares, mães e filhas de todas as experiências que tivemos, e principalmente das que não tivemos, durante este terrível dia? Assim sempre foi e assim será sempre. Não me interessa o teu


 13  fracasso. Não quero saber da tua vida, já não é hora de olhar nos teus olhos, onde quer que isso seja


 14  03. PAU DE GALINHEIRO

Como é mesmo o nome de Alberto Caeiro Gengiva, Monga Monalisa Egípcia Barreiros Carmen Miranda Empadão de Frango, Sorvete de Chiclete, Nêgo, Carrero

A sala católica tem três gatos de gesso pintados de preto Como sobreviver à morte Purê de pêra Tinha maracujá de gaveta Bom dia, boa tarde, boa noite, boa sorte, boa, boa vida Eu ovo O sol se fode e o sabiá continua na gaiola

Não foi uma galinha Foi um tatu


 15  E um elefante Foi um tatu Mas foi um homem

Tu sois o pau do galinheiro

É melhor ver a bunda dele É melhor ver os versos dele e acreditar que restará um sabonete prum rato roer no meio das cuecas dele dobradas no guarda-roupa dele. Alberto Caeiro não é de Lisboa

O nome dele é o nome daquele menino que mora ali embaixo, aquele perto da praça, aquele menino que é filho daquela mulher que tem uma vendinha que vende, aquele menino, menino, que todo dia passa aqui na frente, que parece que ele tem uma moto daquelas, parece que ele é moto-taxista, como é mesmo o nome dele


 16  04. O POETA MARGINAL

Eu sou o poeta marginal Como cuscuz, tatu, sardinha, lata e cabeça de bacalhau E uma evangélica Rabo de cavalo, bunda de pipoca, olhos, gema mole, bacon, lama no buço, pano branco, anja, alfazema suíça

Pois sou universal, pois sou de uma evangélica agora eu

Caiu o último pedaço do papel higiênico dentro do vaso Cobriu a merda morta que boiava E eu dei uma chorada Parecia que o meu coração esquerdo se derretia todinho, um bolinho de goma

Ainda que o mal seje o ditador desta Terra E a caveira me encare e escarre no meu copo americano Eu tenho fé em deus e na minha evangélica


 17  Agora E naquele negócio Agora Chupo a periquita, mordo uma salsicha, faço outras coisa e manguetown ô ô ô

Eu sou o poeta marginal Eu tenho a minha musa

Tanto que um dia escrevo Um dia invento a poesia De rua


 18  05. TESTÍCULO

Um bago de laranja é um feijão do feijão de corda É uma castanha Um feto criança

Um bago de laranja é também uma bile de galinha Um rim de vaca Um bago de laranja é um carro de polícia de brinquedo e um assento duma bicicleta roubada Aquela carroça levando aquele sofá pra consertar

É a Lojinha dos Fogões de tarde O mercadinho da mãe de Sandra

Um bago de laranja é aquele jumento amarrado naquele terceiro pé de fícus Um bago de laranja é aquele canteiro que fica ali em frente ao Mercado de São José do Egito


 19  Uma água turva, um camarão, uma ova É um versículo Ali a dona senhora madame tia nêga loira que aquece o celular na esquina E um testículo Tatu breado é um bago de laranja cravo


 20  06. TATU BREADO

Tatu breado E eu nem passei na tua casa

E eu me lembrei

Olha lá a farda, o corno, o rabo, o buraco É que é tanto lixo nesse mundo, meu Deus, que eu não resisto e escrevo mais um, Deus É que, cê sabe, é como dizia dona Edith Junto a todo livro sempre há invisível o Livro dos Perdões

O bichinho, meu Deus, é chegado numa necrofilia O bichinho, meu Deus, ele é de Deus, ele é divino

Teve um dia que teve um cara que me pediu pra eu tirar os sapatos antes de eu entrar na casa dele Aí eu falei pra ele que eu tinha um buraco


 21  Tatu breado, dinheiro, sorte, feijão, milho, alface Tatu breado Mas a vela

Ela também leva A tua alma E o teu cadáver


 22  07. TATU

Tromba na testa Veado no ombro Bolacha

Zoológico espalha as cinzas do brilho do brilhante cegado Papagaio pirata Pirata brilhante Peixe

Isca caça Mija boca Folha fofa Bicho, e o bicho embola-alma-ereta-na-areia-uma-prancha

Colega

Franze a pele A pata queima a grama


 23  E, pela beira da estrada, floresce a jurema Que não serve pra nada

Bebe o coco Ombro ilha torta coqueiro Mão de criança sem a criança dona

Só a alma Só a peçonha da pessoa Que, rasa, foi espantada Quando pousou a barata


 24  08. BARBIE

Dentro do sofá tem fubá Dentro do mar tem uva Dentro do mosquito tem sangue Dentro do sangue tem um pirulito De lixo

Dentro do lixo tem uma cama Dentro da cama tem uma Barbie Dentro da Barbie tem sangue Dentro do sangue tem um pirulito De lixo

Dentro do lixo tem uma calcinha Dentro da calcinha tem um besouro Dentro do besouro tem um fruta-pão Dentro do fruta-pão tem uma piscina Dentro do mar tem uva Dentro da uva tem amor


 25  Dentro da vida tem muita poesia mesmo e tem mais um negócio

Dentro do negócio tem uma piscina Dentro da piscina tem um cara de sunga Dentro da sunga tem um pirulito De lixo

Dentro do lixo tem uma maçã Dentro da maçã tem uma graviola Dentro da graviola tem um araçá Dentro da goiaba tem um pirulito De lixo

Dentro da piscina tem chá Dentro do chá tem um ovo Dentro do ovo tem um Clássico das Multidões e um litro de Johnny e um espetinho de frango com bacon e queijo e um saquinho de amendoim daqueles verde Dentro das crianças rendidas pelo crack e pelo esquema social que capitalizamos e aprovamos com um sorriso branco tem um pirulito


ď Ą 26 ď ˘ De lixo

Dentro do lixo tem uma calcinha Dentro da calcinha tem lixo Dentro da pessoa tem uma pessoa De lixo Dentro


 27  09. BOLACHA PRETA

Aqui não se come bode, vinho ou cerveja Em São José do Egito Nem chupa a azeitona roxa da minha casa Não toma café Cevada Olho de cabra Tem o caldo verde-podre da cana caiana Tem até corrida de carro Cara bonito E moça de cabelo tingido

Tem até poeta E poeta fingido Fazendo réstia

Eu acho que agente ainda não estamos ainda suficientemente amadurecidos ainda para morrer, seu Zé, seu Zé, Zé, Zé, Zé


 28  Mas Ainda que o mar ainda se encontre perdido ainda Eu vi Aqui Em São José do Egito A bolacha é preta


 29  10. TATU

Teve uma hora que fugiu pelos bueiro Uma pena caiu na calçada da farmácia Parecia um tatu Mas parecia uma raposa Mas parecia uma pessoa

Teve uma hora que calou Ficou aquela cara de caju Eu já disse a ele que ele não tem mais saúde pra comer essas coisas

Nem pensar Nem roer os bancos da igreja Teve uma hora que tocou o sino da igreja E um terror Saído dum túmulo Saído dum túmulo Atravessou a avenida esmagando carros com as sete patas de chumbo e o rabinho nuzinho malvadinho, arrebentou fios


 30  elétricos, derrubou postes e sobrados, destelhou, com o chifre, o mercado público, a igreja, envenenou toda a gente com aquele vapor pútrido expulso de bolsas crescidas ao dorso escamado, cavoucou jardins, secou o açude velho com raios lasers atirados de uma pá de belos olhos azuis

E teve uma hora que voltou Só ouvimos a batida vazia da tampa do túmulo E o dono do túmulo reclamando da hora e das marcas de pés sujos


 31  11. CIDADÕES

Um sapo lambiscou o pernil de um mosquito Ela não quer me dar o periquito Nem um bolo

Meus pés tão preto, embora o barro seje alvo Eu balanço a rede Eu estou grávida - A rede

Mas amanhã fazerão um dia igual a este Carroça, polícia, cavalo, moto-taxista, velho, milho, bode, cabra, caras de olho duro no beco de Ciça E uma marcha de disciplina e satisfação E, provavelmente, uma alegria E os pés sujados de cinzas dos cidadões

Esses meninos esses livros Na boca do sapo costurada


 32  Isso se fosse naquela época

? ? ? !

Ou Já se sabe Aqui Da poesia É tua Embolando dos sapatos ao chapéu da antena Serpenteando entre as pernas nuas e vestidas Na rua, onde sempre esteve, onde deve estar A poesia livre dos poetas


 33  12. LOJINHA DOS FOGÕES

A lua, lá em cima, no meio, o térreo, um negócio preto, a Lojinha dos Fogões Fechou o Mercado Na rua O comércio No beco de Ciça

Mas a Lojinha dos Fogões tá trancada restando somente a placa acesa lá no alto Feito um ronco de gato Um tatu breado, um giz, uma espinha, um cochilo, uma estrela afogada na réstia

Ela só me observo e ela Mais umas três pessoas Não é mais hora de sair essa hora


 34  Barriga, sonho, índio, revólver, amor, roupa limpa, saudade, ainda existem essas coisas neste mundo

A Lojinha dos Fogões já tá trancada Nem água Nem um ovinho de capoeira, assim, na manteiga, assim, sabe?, nem um café Petinho, nem um foguinho, nem duzentas gramas de mortadela, quartinho de cachaça, nem um socorro de morte de fome

Só a catinga duma carniça de lagartixa E o mais grande desejo de que tudo nasça pelo começo

Já Fechou o comércio Mas ela tá trancada


 35  13. RUBI E RITA

Rubi Glúteo direito Rita Glúteo esquerdo Rubi e Rita furaram a minha bunda Graças à medicina Graças à bactéria

Rubi e Rita tiraram a minha cueca Mas eu amo ele


 36  14. UMA FLAUTA DOCE

Bermuda, corneta, colírio, feijoada, sax, x-burguer, ouvido, calcinha, câmera fotográfica Nada

Uma erva Uma flauta doce


 37  15. TATU BREADO

A lua lembe a pedra cortada, a telha, toda bunda e até a tua e a minha A do moto-taxista Uma língua de peixe morto

Uma língua na tua calcinha Calcinha preta Tua buceta e as folhas secas girando em torno duma árvore de fruta

Foi quando vi ela Foi quando ela ainda não tinha a língua dela dentro da minha bunda E quando eu pensava que uma luz apagada era uma memória futura

E quando eu não conhecia o mundo eu Nem o fim


 38  Nem aquela parte que tem uma porta e uma janela e um negócio que é assim feito aquele negócio que é assim Que é o que existe de mais sério na vida

Mas ela ainda vive sem dizer nada e ainda surpreende também a mim que sempre a deixo ela mim foder ela feito uma tartaruga todo dia ela mim fode E ainda mim beijo ela de olhos arregalados

E O rabo dela Na tua boca E a fotografia que ela tirou de lá de São José da Coroa Grande

E mas o que tem é só o couro e o capacete de um moto-taxista Tatu breado E Meu bodinho Na chuva


 39  E um brega pondo o pau pra fora dentro da minha boca e também Assim Da tua


 40  16. BARREIROS Quadro branco Barreiros Barro vermelho Papel higiênico Barreiros Banheiro Barreiros Sertanejo preto Daquela noite que faltava energia e da calçada só se via umas estrelas que pertenciam ao céu Barreiros Flecha na testa Barreiros De graça Na nova casa, o filho atravessou a casa e pulou da varanda da casa Rios de pneu O filho que cospe no peito que bebeu Aquilo neu


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Barreiros escrito E pintado Barreiros cuspido E escarrado Lençol de solteiro A maresia dando nó cego nos cadeados Cueca no espelho Merda fonte de água limpa Barreiros Vivo E quando esqueço


 42  17. TATU BREADO

Um cubo blindado e um papagaio Não pisam o piso da sala limpada A cena dos cavalos que voam entre as árvores é projetada num dos lados da esfera esta

A arara afia a pena

No bico do triângulo diminuíram a pressão que da tinta faz tempo que eu disse no bico Em caminho de paca Tatu caminha dentro

O tatu e a cartola Tatu breado Tatu breado A cartola e o tatu Tatu Tatu


 43  Tatu Bola


 44  18. UM GRILO

E tem um grilo no telhado Do tamanho dum cachorro E ele já tá rouco

Gagá, máquina de petróleo, beija o lodo aflito represado Avista, olhos de osso, a metralhadora das motos de frete

Não drama Já que está morto Nunca foi

E já faz uns dois anos e dezoito meses que mora no telhado Tem hora que atola o rabo na malha da parabólica, quando pousa uma coruja branca na malha da parabólica, tem hora que ele atola o rabo na malha da parabólica e fode o jogo Faz uns dois anos e dois meses que só ele morre do telhado

Nem o toró


ď Ą 45 ď ˘ Nem o fogo Nem a minha e a tua alegria Nem quando joga a fantasia O grilo continua lĂĄ em cima


 46  19. O OLHO LOURO

O pinto engoliu o gogo que o bêbado escarrou no tronco Ele mexe com Internet Tem um cabelo no ovo E outro daqueles daqueles na escova da escova de dente E outro E ele só não enxerga a serventia de se mudar pra cidade O boi morto Uma família O tégio tatuado na pista A pista tatuada no tégio Pneu careca A vez que ela não se depila e se esquece de vedar a peça Mas quando ela morde Também vê Ela E quando ela fica preta E o olho louro lá vê ela


 47  A mula-sem-cabeça O saci A mariposa galega O cara da flauta O verme, a mão amarela e o pé amarelo e o olho amarelo No pote de biscoito No caramujo No piolho Tatu Amarelo

O oráculo cabeçudo Esperança de guerra Tato breado Mãos de poeta Meu Deus O olho louro vê tudo Esse olho envergado feiticeiro que dorme à sombra de folhas e pessoas vivas ou amarelas


 48  O olho louro criou tudo Cadeira Sol Cadeira Deus Cadeira Até onde eu sei Segundo aquele cara que conheci no mercado Aquele que só sai de casa depois do dia e depois da noite Ele tinha um sotaque de índio e um olho azul que foi atingido por um galho da caatinga durante a fuga Ele me contou várias histórias e disse acreditar em duendes, castigos e recompensa Disse que nunca vai morrer, que está a cada dia mais aceso e esperançoso Teve uma manhã que até saiu e ganhou uns minutos sentado na praça, analisando uns que passavam vagarosos, ainda vazios do sono recente e que, por isso, pode ser, não percebiam o seu olhar de ave alta


 49  Antes de levantar, ele me contou que essa história estava perto de um fim, ela vem de uma época com muitas crenças perversas transmitidas de um modo tão violento que traços delas ainda restavam marcados na água dos seus olhos Analisou o céu, fugiu e me largou de molho Vi as fissuras no céu, a madrugada sendo violada a marretadas Placas, poças de lama talhada, se acabando, secando, cada vez mais, vencidas pela chegada do sol, tudo sob o olho do misterioso dono desse fogo quente e amarelo e de outro


 50  20. MANTEIGA DE GARRAFA

Mas nada é assim Assim Tirando o poema Tipo

Ando no mundo Tirando aquele telão que passa futebol E também passa uns shows de dinheiro

Quando eu morrer Quero morrer Longe Do meu corpo Mas quase fui matado lá em Barreiros Mas fui matado em frente à capela de Riacho do Meio E Mas ando no mundo e nada é vulgar


 51  Tirando a poética, os humanos machos, umas revistas de literatura e a minha morte, a tua, e a existência dum lugar chamado Riacho do Meio O que vejo é a beleza de Valter A biografia de Marlon Brando de Valter E o véu entre o meu corpo e a paisagem Ando no mundo

Tem algodão na narina e no cu E um saco de grãos de milho feito um saco de sal dentro dum grão de milho assim tipo dentro dum saco de açúcar E as minhas costas ardem feito as costas duma galinha

E minha mãe tá longe, de costas E Deus se parece com um pastel

Manteiga de garrafa na macaxeira é o mijo de anjos rajando troncos de nuvens É E este sangue ele


 52  Vê Ele sai de dentro

Mas nada é banal Tirando a poética A minha morte A tua A existência de poemas De poetas A existência de literatura


 53  21. POETA BOBO

A gente ficamos vendo os carros de corrida Aí ele olhou pra mim e disse assim, disse assim pra mim que eu era um poeta bobo Retratista, maloqueiro, blog, correios, Artur

Ele disse pra mim fazer uma profecia ligeiro Na carreira, falei, bobo sou e sou eu mesmo, mas o tal poeta eu desconheço Nunca vi mais gordo E eu nem sei escrever a palavra ainda soneto Nem Tipo Eu falei assim E nem aquela outra

É que na minha terra, poeta é feito merda Drummond-drumonnd é o motor do carro E Carlos é o meu vizinho, o que tem só um ovo


 54 

Aí ele olhou pra mim e disse assim, disse assim pra mim disse assim que eu era um poeta bobo Aí a gente ficamos o resto do dia tentando estourar o vidro, atirando britas, acerolas, bulindo a lua diurna do sertão com uma vara de jurema


 55  22. A MONTANHA MÁGICA

Tinha a carne, mas faltava sabão É esse sol sincero que mata a fantasia magrinha que babava no meio da tuia fedida A máquina, a pátina, a graxa, o grude todo se embolando todo se vazando pela área

Tem sabão, mas não tem poesia O morro nublado, a mosca, o sapo, o crocodilo, os músculos banidos, todo tecido E o tecido sujo de tudo no mundo Mostarda, peidos, freios de fundo No pico, o cruzeiro, brilha uma fivela de rodeio aos pés da santa pintada na flanela

Teria poesia, mas já não teria sol Pro sapato, pro puxa-saco, pra meia-calça rasgada Pra vencer uma montanha mágica


 56  23. O SAL É BENTO

E lá no fundo do quintal, enquanto o tatu fumava, ouvimos o berro dum jumento apavorado com a lenda do mijo do sapo

E Regina disse que a paixão dela não era tanta E que se fosse ela o jumento Ela jogava sal

Mas Azeilda disse que o sal é bento

E eu olhei pro sal E eu olhei pros pés do sapo E eu olhei pros pés do sapo

E eu olhei pro pau do jumento E eu olhei pro sal

E eu olhei pro sal


ď Ą 57 ď ˘ E, ensebado, reparei os esporĂľes, as penas pardas estourando a lingerie, as asas vazando entre os botĂľes do vestido de chita de Azeilda


 58  24. BETINHA

Betinha vai casar No ano que vem


 59  25. A GRADE E A PORTA

Tava naquele dia que fica em casa Quando o moto-taxista, sem celular, pôs abaixo a grade e a porta e despachou toda espécie de ruína sobre o meu corpo aberto no sofá E cavalgamos num cavalo branco Afastamos a telha Subimos pra cima E perdemos de vez o medo, o destemor, a vida


 60  26. A VELA NA CABEÇA

Eu tava aqui pensando Eu tava aqui pensando

Ainda já dá pra vi ela Uma águia pintada no computador Ela embola, resta por aí feito barro Pata Osso da cabeça Coruja Lua bola boba Néscia Cachorro, búfalo, passarinho, tatu Mas ela vive no meio do caminho E eu querendo ver ela Ainda já dá pra vi ela Mas ela já leva uma vela na cabeça


 61  27. SERTÃO

Ontem que eu ando no chão Se não fosse o pastel Nem teria mais um romance

O azeite bebe o garfo, o mar do sertão é subindo pra cima, sentido ganha-pão de São Pedro E um leite de vaca assada

A tristeza vazia da face do bode é máscara que encobre o incêndio que há por trás do cosmo cadente e do bode E da cabra E do filho do bode com a cabra Que só pode ser cabra ou bode Da luz sempre sem luz, que encanta os lobos, os índios, e as histórias sobre bodes e outros bichos meio que tristes Postes Poesia


 62  Se não fosse o pastel Não seria


 63  28. EBA

Broxe Blablablá Bode

A consciência dos bêbados é igual à libido de padres: Pintura de árvore

Erva doce Erva Modesses

Aba Oba Eba

A E I


 64  O U

Bode Zzzzzzázzzzzzzzzzzzzzzzzzumnmzz... Com certeza Ele é poeta Com certeza De longe se vê, vê, aquilo é um poeta Com certeza A


 65  29. POESIA

Dizem que fora daqui Eles comem os cravos A salvação é que aqui no sertão não há vagas pra poemas, em São José do Egito Tem uma brasa Desse tamanho E uma pena ainda quente Na asa E umas nuvens barbudas E umas nuvens farpadas que até se curvam pra ver de perto como esses caras afiam A faca

E Pelo tempo de uma vida Vivem


ď Ą 66 ď ˘ E como matam o poema E como salvam a poesia


 67  30. O MOTO-TÁXI

O moto-taxista, o homem dele era o cliente E a coroa dele, socada no jeans, maltratada Viciada

O moto-taxista, o vaga-lume cruza a feira E cruza o couro preto da vaca voa a pista Rapariga

Ele usa desodorante de mulher Dele Pêlo na orelha, colo o peito nas asas dele Cheiro o capacete, cheiro da cidade toda E a cidade dele Dela

Almoço, osso, suco de mangaba, farinha Meu capitão, moto-taxista do meu navio Rapariga


 68 

E ele passa, e ele pára, ele é um cara dele E o homem dele era mais um cliente dele Mas Ele me disse, ele me disse um dia que, apesar dos amigos e da farra, muitas vezes se sente só e que tem o desejo de se mudar pra São Paulo, mudar de vida, enricar, que nunca falou isso a ninguém, como também nunca havia falado sobre seu hábito de autopunição nos momentos em que acha que fez algo que o valha: ele conta e reconta estrelas na esperança de que nasçam verrugas nos seus dedos, sim, mas até hoje, nem uma coceirinha, nada da magia, segundo ele, até hoje o rito não rendera nada, ou talvez sim, ou talvez, ele me disse, talvez ele seja um anjo, ele me disse, e que não se agüenta, é um anjo exterminador que precisa pegar assim toda espécie de gente, na rua, mas que ama apenas um cliente, pois é um amor é recíproco, é um amor de novela, ele me disse assim pra mim um dia, ouviu Rapariga


 69  31. NA POESIA

Didi, Nõe, Job Patriota, Louro Batista, Zé Limeira, Rogaciano Leite, Severina Branca, Rafaelzinha, Antônio Marinho, Antônio Marinho, Pinto do Monteiro, Cancão Se eu nascesse hoje Eu sabia a que vivia E por que os outros vivos e Tarcísio e o mundo inteiro morria

No Alto da Santa, na praça, sozinho, agora, abraçando Regina Eu morro Na poesia


 70  32. PEDRO

Pedro Mora no meu esquecimento E no sítio E na minha cabeça ele me chama e foge

Pedro Tem as minhas pernas E Pedro Tem as pernas dele lá em João Pessoa

Pedro Meu dedo, meu filho, ele, e minha filha Regina E Pedro

Pedro


 71  Saiu do berço antes do tempo Da minha filha vírgula vírgula Regina E Pedro

Pedro Beija o meu rosto Sinto a sua barba Sinto o seu cheiro No quarto É a memória de um futuro E, mas, Regina, é o meu presente, e o laço Eu, amo ela Tatu breado

Mas, E toda a noite Pedro Vem


 72  Dormir comigo Mas Ele Não é meu filho Não o conheço Regina Ele Mora no meu esquecimento


 73  33. A BORBOLETA

E a borboleta com uma asa deitada na calçada E a outra levantada E eu pensava que ela estava Morta Mas ela não estava


 74 


 75  ÍNDICE

01 – MORRER NA PRAIA......................................................7 02 – ONDE É QUE TÁ O MENINO.....................................10 03 – PAU DE GALINHEIRO...................................................14 04 – POETA MARGINAL.........................................................16 05 – TESTÍCULO.....................................................................18 06 – TATU BREADO...............................................................20 07 – TATU................................................................................22 08 – BARBIE.............................................................................24 09 – BOLACHA PRETA...........................................................27 10 – TATU................................................................................29 11 – CIDADÕES......................................................................16 12 – LOJNHA DOS FOGÕES.................................................33 13 – RUBI E RITA...................................................................35 14 – UMA FLAUTA DOCE....................................................36 15 – TATU BREADO........................................................... 37 16 – BARREIROS....................................................................40 17 – TATU BREADO..............................................................42 18 – UM GRILO.................................................................... 44


 76  19 – O OLHO LOURO...........................................................46 20 – MANTEIGA DE GARRAFA............................................50 21 – POETA BOBO..................................................................53 22 – A MONTANHA MÁGICA..............................................55 23 – O SAL É BENTO.............................................................56 24 – BETINHA........................................................................58 25 – A GRADE E A PORTA....................................................59 26 – A VELA NA CABEÇA......................................................60 27 – SERTÃO...........................................................................61 28 – EBA...................................................................................63 29 – POESIA.............................................................................65 30 – O MOTO-TÁXI...............................................................67 31 – NA POESIA......................................................................69 32 – PEDRO.............................................................................70 33 – A BORBOLETA................................................................73


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Este livro foi composto com a fonte Adobe Garamond Pro caixa 12 para o corpo e títulos.

Tatu breado - Artur Rogério  

Livro pertencente à Decalogia Ladrona

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