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Revista Família Esperança 2027

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O PODER TRANSFORMADOR DA FAMÍLIA

UMA FÉ COM ENDEREÇO FIXO

IDENTIDADE QUE COMEÇA EM CASA Princípios eternos vividos no cotidiano da família cristã FA M Í L I A

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PA L AV R A

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P R E S I D E N T E

ESTAMOS FORMANDO OU APENAS CRIANDO NOSSOS FILHOS?

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ivemos uma era de crises de identidade. Em um mundo hiperconectado, vozes diversas disputam a mente e o coração dos nossos filhos a cada segundo, tentando ditar quem eles devem ser, no que devem acreditar e como devem viver. Então, a pergunta crucial é: onde se constrói uma identidade espiritual sólida? A Bíblia sublinha que a formação da identidade cristã começa em casa. O lar é o solo sagrado onde a fé deixa de ser uma religião herdada e passa a ser uma experiência vivida. O texto bíblico é categórico ao descentralizar o ensino espiritual do templo para o lar. Em Deuteronômio 6:6-9, Deus nos dá a receita prática: “Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no

SUMÁRIO S TA N L E Y A R C O Presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia para oito países da América do Sul.

dinâmico e esperado do dia. Não precisa ser longo; precisa ser constante. É ali que as dúvidas dos filhos encontram respostas na Bíblia e onde eles aprendem a ver os pais de joelhos. Pais que oram com os filhos geram filhos que confiam em Deus. Veja Atos 2:42-47; Mateus 6:33-34. Estabeleça limites diários para telas.

2. TRANSFORME O SÁBADO EM UM DIA DELEITOSO A guarda do sábado é um dos maiores marcos da nossa identidade. No entanto, se a preparação para esse dia for caracterizada por estresse, brigas e legalismo, nossos filhos associarão o memorial da criação a um fardo. O sábado precisa ser alegre: a melhor comida, o ambiente mais limpo, o tempo de qualidade em família e o contato com a natureza. Veja Isaías 58:13-14.

seu coração. Você as inculcará a seus filhos, e delas falará quando estiver sentado em sua casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantarse. [...] E você as escreverá nos umbrais de sua casa e nas suas portas.”

A sinagoga ou o templo não são os eixos primários da educação espiritual, e sim o lar. A identidade adventista – nossa paixão pela Palavra, a observância do sábado, a esperança da volta de Jesus e o cuidado com a saúde – é assimilada pelo contágio diário de uma fé autêntica dentro de quatro paredes. Se a igreja é o farol, o lar é o gerador de energia. Sem o gerador, o farol se apaga.

TRÊS PASSOS PRÁTICOS PARA CONSTRUIR A IDENTIDADE NO LAR: 1. PRIORIZE O CULTO FAMILIAR O culto da manhã e da noite não pode ser um ritual enfadonho, mas deve ser o momento mais leve, 2

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ANO 16, N. 15 #2027

3. VIVA A COERÊNCIA ENTRE O PÚLPITO E A MESA As crianças têm um “detector de hipocrisia” altamente calibrado. Elas não seguem o que pregamos; elas seguem o que somos quando as luzes da igreja se apagam. A identidade adventista se consolida quando o filho vê que a mesma Bíblia aberta no púlpito pelo pai ou pela mãe é o manual de mansidão usado na hora de resolver um conflito familiar ou de tratar o cônjuge com amor. Veja Salmos 119:9-11.

0 4 ALICERCE SEGURO 0 5 UMA FÉ COM ENDEREÇO FIXO 06

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O PODER TRANSFORMADOR DA FAMÍLIA

0 9 FIRMEZA DIANTE DAS INFLUÊNCIAS 1 2 SOB ATAQUE

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RAÍZES EDÊNICAS DA 1 6 ASIDENTIDADE ADVENTISTA COMPASSIVOS, 1 9 CORAÇÕES FAMÍLIAS RESILIENTES

2 2 A FÉ QUE SE TORNA IDENTIDADE

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2 4 O DISCIPULADO COMEÇA EM CASA A ORAÇÃO TRANSFORMA 2 6 QUANDO UMA FAMÍLIA

p. 2 4 Conheça mais conteúdos e recursos para fortalecer a vida espiritual de sua família em: adventistas.org/familia

Que o nosso lar seja uma embaixada do Reino dos Céus. Que, ao olharem para a nossa rotina, nossos filhos não tenham dúvidas de quem são e para onde estão indo. Que a nossa identidade comece em casa, frutifique na igreja e se complete na eternidade.

Família Esperança é uma revista do Ministério da Família da Igreja Adventista do Sétimo Dia

Coordenação geral: Alacy Barbosa Editor: Felipe Lemos Editor associado: Jefferson Paradello Colaboradores: UNoB - Abdoval Silva UNB - Fabiana Retamero UNeB - Luciano Salviano USeB - Claudiney Cândido UCB- Marcelo Carvalho USB - Elieser Vargas UCoB - Luis Mário ULB - José Wilson Barbosa

Diagramação: Mariane Baroni C. Iaucci Foto da capa: Imagem Generativa Imagens internas: Imagem Generativa

Tiragem: 1.310.178 exemplares

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E D I TO R I A L

R E L AC I O N A M E N TO

ALICERCE SEGURO

UMA FÉ COM ENDEREÇO FIXO

POR FELIPE LEMOS

POR ALACY BARBOSA

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extremamente relevante de oferecer um alicerce seguro para a fé dos filhos. Obviamente, a mensagem é transmitida não apenas por palavras, mas por ações.

Eu talvez nem soubesse ler corretamente, mas, de alguma forma, os ensinos bíblicos estavam sendo transmitidos a mim. O pastor Stanley Arco, presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia para oito países da América do Sul, escreveu que “transmitir valores religiosos não é uma atitude nostálgica, mas uma estratégia de fortalecimento e proteção”1.

Identidade adventista começa em casa e com Cristo no centro da família e do aprendizado. Para que isso se torne realidade, o desafio moderno é grande. Distrações, individualismo, excesso de trabalho e isolamento de cada membro da família podem se tornar barreiras reais.

uando eu tinha menos de 12 anos de idade, minha mãe lia para mim as histórias da Bíblia Para as Crianças. A edição foi produzida originalmente no idioma holandês, em 1948. Calculo que a versão em português foi lançada por volta de 1966 pela editora Sinodal. O autor se chamava Anne de Vries. Na verdade, tratava-se de uma releitura narrativa das histórias bíblicas para crianças, com linguagem mais acessível e uma intenção mais pedagógica.

Essa é a proposta desta edição da revista Família Esperança. Queremos motivar você a pensar no fortalecimento da identidade adventista dentro da família. Os pais e responsáveis que assumem a tarefa de compartilhar princípios religiosos têm um papel

O raciocínio é simples: a igreja é formada por famílias. Se em cada lar houver comprometimento com Deus de manter Sua Palavra viva, nossa identidade profética será preservada. As novas gerações e as anteriores precisam se reunir para trocar experiências sobre as crenças bíblicas todos os dias. É, na verdade, um processo contínuo que nunca tem fim.

No entanto, muitos caminhos e sugestões vão surgir a partir dos artigos publicados nesta edição. Por isso, separe tempo e leia com carinho. Que você seja impressionado(a) pelo Espírito Santo a compartilhar esses ricos conteúdos com amigos e outras famílas.

FELIPE LEMOS Referência: ARCO, Stanley. Geração R. Revista Adventista, mar. 2026. Disponível em: https://revistaadventista.com.br/stanleyarco/ sem-categoria/geracao-r/. Acesso em: 18 maio 2026.

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Jornalista, diretor da Assessoria de Comunicação da Igreja Adventista para oito países sul-americanos e editor da revista Família Esperança.

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família foi o primeiro projeto de Deus. Foi estabelecida como núcleo onde a fé seria vivida, experimentada e transmitida. Por isso, falar de identidade adventista é falar, necessariamente, das relações construídas dentro de casa. A fé não se revela apenas em momentos formais, mas especialmente na maneira como vivemos uns com os outros todos os dias. Jesus ensina em Mateus 7:24-27 que o que sustenta uma casa é o seu fundamento. Duas casas podem parecer iguais, mas são totalmente diferentes em sua estrutura. Assim também é a família: Não é a aparência que define sua força, mas os valores que a sustentam e a coerência vivida no lar.

A identidade adventista não é apenas doutrinária, mas profundamente relacional. Isso significa que respeito, coerência e prática de um cristianismo real precisam estar presentes em casa. O respeito se expressa na escuta atenta, na forma de falar e na valorização do outro. Onde há respeito, há segurança emocional, crescimento, fortalecimento dos vínculos, e o verdadeiro amor frutifica. A coerência, por sua vez, é o que dá credibilidade à fé. Não basta ensinar princípios; é necessário vivê-los. Quando palavras e atitudes caminham juntas, a fé se torna visível, atraente e transformadora. A Bíblia reforça esse princípio em Colossenses 3:13-14 ao destacar o perdão e o amor como base dos relacionamentos. É nesse ambiente que o cristianismo deixa de ser teoria e se torna prática viva.

AUTENTICIDADE QUE TRANSFORMA O evangelho se manifesta nas pequenas atitudes do dia a dia: no pedido de perdão, na paciência diante das falhas, na escolha de amar mesmo em momentos difíceis, na disposição de servir, cuidar e apoiar. É nesse cotidiano, muitas vezes silencioso e invisível, que a verdadeira identidade espiritual é formada e fortalecida. O lar também é um espaço de cura. Quando há graça, acolhimento e amor, a família reflete o caráter de Deus. Em um mundo marcado por relações frágeis e superficiais, viver um cristianismo autêntico dentro de casa se torna um testemunho poderoso e transformador. Por isso, afirmar que tudo começa em casa não é apenas uma frase, mas um princípio espiritual e prático. É no ambiente familiar que se desenvolvem as bases para um casamento saudável, que se sustenta uma família forte e onde se formam laços com propósito. E é desse lar estruturado que nasce uma igreja viva e comprometida com uma missão a cumprir.

ALACY BARBOSA Pastor e educador, dirige o Ministério da Família e o Ministério Adventista das Possibilidades (MAP) da Igreja Adventista do Sétimo Dia para oito países da América do Sul.

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Os princípios divinos continuam sendo alicerces indispensáveis para a formação do caráter e para o desenvolvimento de pessoas comprometidas com valores bíblicos e cristãos.

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O PODER TRANSFORMADOR DA FAMÍLIA

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L E G A D O

POR DOUGLAS MENSLIN A família, conforme planejada por Deus e revelada ao longo da narrativa bíblica, permanece como o mais eficiente e equilibrado ambiente de cooperação, amor e formação humana. Não existe modelo mais dinâmico para o desenvolvimento de crianças e jovens emocionalmente equilibrados, espiritualmente fortalecidos e preparados para exercer seu papel na sociedade.

UM FAROL PARA OUTROS

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início do século XXI carrega consigo um forte movimento de disrupção em relação aos valores institucionais que, durante séculos, auxiliaram no estabelecimento de padrões éticos e morais estáveis, servindo como base para a construção de uma sociedade orientada pelo bem comum. Em meio às rápidas transformações culturais, sociais e ideológicas, muitas estruturas tradicionais passaram a ser questionadas, relativizadas e, em alguns casos, desconstruídas. Entre os pilares mais impactados por esse movimento está a família. A proteção milenar oferecida por ela – enquanto instituição social

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fundamentada em valores culturais, éticos, religiosos e econômicos – vem sendo substituída por uma visão essencialmente funcional e utilitarista, apresentada sob o argumento de promover maior autonomia e dignidade aos indivíduos. Entretanto, as mudanças propostas têm realmente conduzido à liberdade e à realização humana prometidas? Apesar da tendência pós-moderna de minimizar o papel da família como fortaleza social, o cristianismo continua afi rmando e proclamando que ela é um testemunho vivo do plano de Deus para a humanidade.

Embora os tempos sejam rotativos e as estruturas sociais passem por constantes adaptações, existem fundamentos que não podem ser ignorados sem que ocorram sérias consequências para o bem-estar coletivo. Ao abordar a importância da família na formação das novas gerações, a escritora Nancy Van Pelt afi rma que embora os tempos mudem, as relações humanas que moldam o caráter permanecem essencialmente as mesmas. Os fi lhos continuam necessitando da presença, do afeto e da orientação dos pais, pois é nas relações construídas desde o nascimento que desenvolvem equilíbrio emocional, identidade e segurança para viver em sociedade1. Em Sua infinita sabedoria, Deus estabeleceu a família não apenas para abençoar aqueles que vivem dentro dela, mas também para irradiar

bênçãos à comunidade ao seu redor. Uma família estruturada nos princípios divinos torna-se um poderoso testemunho do evangelho. Na verdade, uma família equilibrada e saudável é um argumento mais convincente em favor do cristianismo do que muitos discursos ou escritos. Ela demonstra, de forma prática, o resultado de vidas guiadas pelas orientações divinas e desperta em outros o desejo de conhecer o autor da vida e da verdadeira felicidade2. Pais que colocam Deus em primeiro lugar no lar e ensinam os fi lhos a reconhecer “o temor do Senhor como o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10) glorificam a Deus através do testemunho silencioso, porém eloquente, de uma família bem dirigida e educada3. Os benefícios dessa escolha ultrapassam os limites do próprio lar e alcançam todos aqueles que convivem com essa família. Esse é o evangelho vivido – não apenas pregado.

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REFLEXO DO MODELO DIVINO Em uma sociedade que frequentemente mede o sucesso pela conquista de diplomas, status profissional e prosperidade material, os valores bíblicos apresentam uma perspectiva mais elevada. A principal missão dos pais não é apenas preparar fi lhos para o sucesso profissional, mas formar homens e mulheres de caráter, capazes de influenciar positivamente outras vidas e outras famílias. Uma família bem ordenada e disciplinada possui, diante de Deus, valor muito superior a qualquer riqueza terrena4. O esforço em tornar a família um reflexo do modelo divino prepara seus membros para exercer influência além das paredes do lar. A educação transmitida pelos pais – tanto pelas palavras quanto pelo exemplo – capacita-os e a seus fi lhos a se tornarem agentes de transformação em seus círculos de convivência. Assim, por meio das relações diárias, princípios são compartilhados, corações são alcançados, vidas são restauradas e estruturas familiares podem ser reorganizadas pela influência de valores fundamentados na Palavra de Deus. Por outro lado, se a família pode ser instrumento de transformação positiva, seu desajuste funcional e emocional também pode gerar profundas consequências sociais. É no ambiente familiar

que os fi lhos recebem as primeiras referências que moldarão suas escolhas, valores e visão de mundo. Embora escola, igreja e sociedade também exerçam influência na formação humana, é no lar que se constrói o alicerce socioemocional e espiritual da nova geração. A sociedade necessita urgentemente de famílias fortes, equilibradas e espiritualmente saudáveis. A verdade vivida no lar manifesta-se de forma simples, porém poderosa, em atos de amor, serviço e coerência cristã. Aqueles que vivem o cristianismo dentro de casa tornam-se luz onde quer que estejam5. Um antigo adágio hebraico afi rma que os pais devem deixar três ensinamentos aos fi lhos: exemplo, exemplo e exemplo. Essa orientação continua extremamente atual. Não basta ensinar: é necessário viver aquilo que se ensina. Uma família torna-se um testemunho vivo não apenas pelo que fala, mas principalmente pelo que demonstra através de suas atitudes, escolhas e relacionamentos. Essa é a herança que recebemos de nossos pais e a herança que somos chamados a transmitir aos nossos fi lhos. Quando a família vive os princípios de Deus, fortalece não apenas o próprio lar, mas também a igreja e aqueles ao seu redor.

Referência:

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1

Van Pelt, Nancy. Hijos triunfadores - La formación del carácter y la personalidad. APIA, Doral, FL. 2010, pág. 14.

2

White, Ellen. Vida em família – construindo relacionamentos felizes. CPB, Tatuí, SP: 2001, pág. 09

3

White, Ellen. O Lar Adventista. CPB, Tatuí, SP, 2004, pág. 27.

4

Idem, pág. 32

5

White, Ellen. Signs of the Times, 1º de setembro de 1898.

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E D U C AÇ ÃO

FIRMEZA DIANTE DAS INFLUÊNCIAS

DOUGLAS MENSLIN

FORMANDO UM CORAÇÃO QUE SABE ESCOLHER

Pastor, educador e doutor em Educação, é vicepresidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia para oito países da América do Sul.

P O R K A R I N A TAVA R E S G I R O T T O

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Limites são importantes, mas não suficientes. Eles protegem, mas não sustentam escolhas quando o filho está sozinho. O que sustenta é a convicção. E convicção não nasce da imposição: nasce da compreensão.

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unca houve uma geração tão exposta quanto a de hoje. Nossos filhos crescem ouvindo muitas vozes ao mesmo tempo. Vozes que opinam, seduzem, pressionam, confundem e, muitas vezes, competem diretamente com aquilo que ensinamos dentro de casa. O que antes chegava aos poucos, hoje invade sem pedir licença. E diante disso, muitos pais vivem uma inquietação silenciosa. “Será que estou perdendo a influência sobre meu filho”?

Isso representa o que estamos construindo como família?

os fi lhos do mundo, mas prepará-los para viver nele de forma consciente.

Que consequência essa escolha pode trazer?

A pergunta não é nova, mas o cenário é. E talvez a resposta não esteja na tentativa de controlar tudo o que vem de fora, mas de fortalecer aquilo que está sendo construído por dentro.

Perguntas assim criam uma pausa. E muitas decisões erradas poderiam ser evitadas se houvesse apenas um momento de pausa antes de agir.

Antes de tentar fi ltrar tudo o que vem de fora, é necessário fortalecer o que está sendo construído por dentro. E isso passa pelo vínculo. Filhos que se sentem amados, ouvidos e respeitados tendem a se abrir mais. Compartilham dúvidas, pedem ajuda e consideram a orientação dos pais. Quando há conexão, há influência. Quando não há, outras vozes ocupam esse espaço.

Quando Cristo ocupa o centro do lar, a dinâmica muda. A casa deixa de ser apenas um espaço de convivência e passa a ser um lugar de formação. É ali que o fi lho aprende a interpretar o mundo, a dar significado ao que vive e a construir critérios para suas escolhas. A Bíblia orienta de forma clara em Provérbios 4:23 que devemos guardar o coração, porque dele procedem as fontes da vida. Isso fala diretamente sobre pensamentos, crenças e percepções. É nesse lugar interno que as decisões começam a ser formadas.

QUANDO O EXEMPLO FALA MAIS ALTO

Por isso, limites são importantes, mas não suficientes. Eles protegem, mas não sustentam escolhas quando o fi lho está sozinho. O que sustenta é a convicção. E convicção não nasce da imposição: nasce da compreensão. Na prática, é preciso ensinar os fi lhos a pensar. Na clínica, é comum ver jovens que sabem exatamente o que pode ou não pode, mas não sabem explicar o motivo. E quando não há clareza, a decisão tende a seguir o ambiente, a emoção ou a necessidade de aceitação. Ensinar a refletir é uma das maiores formas de proteção. No dia a dia, pequenas perguntas ajudam a desenvolver esse pensamento:

Isso agrada a Deus?

Você se sentiria em paz contando isso para Jesus?

Mas existe algo ainda mais forte do que aquilo que os pais falam: aquilo que vivem. Os fi lhos observam tudo. O tom de voz, as reações, as prioridades, a forma como lidam com pressão, frustração e decisões. A vida cotidiana ensina o tempo todo. Se o discurso aponta para Deus, mas a prática aponta para desempenho, status ou aparência, o fi lho percebe. E essa incoerência confunde. Quando há alinhamento entre o que se fala e o que se vive, a mensagem ganha força. A fé deixa de ser teoria e passa a ser experiência. A escritora Ellen G. White reforça essa responsabilidade ao afi rmar: “Não devem os pais permitir que os costumes e práticas mundanas tenham poder controlador, negligenciando assim a educação dos filhos” (O Lar Adventista, p. 183). Isso não significa afastar

ESCOLHAS FUNDAMENTADAS A fé precisa fazer parte da rotina de forma real. O culto familiar, a prática da oração e o contato com a Bíblia não são apenas hábitos espirituais: são momentos de formação de pensamento. Como diz o Salmo 119:105, a Palavra é luz para o caminho. Quando essa luz está dentro do lar, o fi lho enxerga melhor mesmo quando tudo ao redor está escuro. Outro aspecto importante é envolver os fi lhos na missão. Quando a fé é vivida de forma prática, servindo, participando e se envolvendo, eles entendem que a vida cristã não é apenas evitar erros, mas viver com propósito. Isso muda a forma de decidir. Eles passam a escolher o que tem valor. As influências externas não vão desaparecer, mas o impacto delas pode diminuir. Filhos que aprendem a pensar, que desenvolvem convicções e que crescem em um ambiente de amor e coerência tornam-se mais fi rmes. Não perfeitos, mas conscientes. O objetivo não é criar filhos que nunca sejam influenciados, mas que saibam avaliar, escolher e permanecer. Filhos que, mesmo diante da pressão, consigam se posicionar com clareza. Porque, no fim, o que sustenta a vida não é o controle dos pais, mas os filtros que foram construídos dentro do coração.

K A R I N A TAVA R E S G I R O T T O É psicóloga e pedagoga.

Isso combina com quem você quer ser?

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E S P I R I T U A L I DA D E

SOB ATAQUE POR MARCOS BLANCO

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á imagens na Bíblia que não envelhecem. Uma delas se encontra no final do capítulo 12 do livro do Apocalipse: “O dragão ficou irado com a mulher

e foi travar guerra com o restante da descendência dela, ou seja, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Apocalipse 12:17, NAA). Essa “mulher”, no simbolismo profético, representa o povo fiel de Deus; e “o restante de seus filhos”, o remanescente do tempo do fim. Esta cena, lida com cuidado, deixa claro algo que muitas vezes não percebemos: o dragão não declara guerra a uma instituição nem a um edifício. Ele declara guerra a uma descendência, a uma família. Em outras palavras, batalha fi nal não está apenas nos grandes cenários geopolíticos que costumamos estudar na profecia bíblica. Ela está muito mais próxima: atrás da porta de cada lar. 12 | FAMÍLIA ESPERANÇA

A família foi o primeiro projeto de Deus para a humanidade. Antes do Santuário, antes do sacerdócio, antes da nação, antes da igreja, Deus estabeleceu o lar:

“[...] e o coração da sociedade, da igreja e da nação, é o lar”, escreveu Ellen White (O Lar Adventista, p. 15).

O lar edênico, antes de ser afetado pelo pecado, foi o modelo para todas as famílias que se seguiram: ali se entrelaçaram, pela primeira vez, o amor, o trabalho, a adoração e a missão. Não é coincidência, portanto, que o adversário o tenha escolhido como seu campo de batalha preferido. Se ele prejudica o lar, prejudica o remanescente; se prejudica o remanescente, tenta, em vão, atrasar o retorno de Cristo.

E, embora Deus tenha transmitido a verdade ao Seu povo por meio dos profetas, juízes, reis e apóstolos, foi aos pais que Ele confiou a tarefa mais delicada: transmitir essa verdade de geração em geração. “Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no seu coração. Você as inculcará a seus fi lhos, e delas falará quando estiver sentado em sua casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se” (Deuteronômio 6:6 e 7, NAA). O lar é, em última análise, o berço onde nasce a identidade profética. Se esse berço for esvaziado de Cristo, o remanescente ficará sem apoio. Por isso, embora as formas do ataque mudem de acordo com a época, o objetivo nunca muda. O amor que Deus deseja para o casamento é real, presente e ativo, não virtual. Portanto, devemos cuidar para que as telas não substituam o toque, o

olhar e o diálogo sincero com nosso cônjuge.

DIANTE DO GRANDE CONFLITO Os desafios da família hoje são conhecidos: a polarização ideológica que nos divide até mesmo dentro de casa; o ritmo acelerado da vida que nos deixa sem tempo para olhar nos olhos uns dos outros; o avanço silencioso das telas que esvaziam nossas conversas após o jantar; a confusão quanto à identidade (de gênero, de propósito, de pertencimento); a pressão econômica, a cultura do descarte aplicada ao casamento. Aqui e ali, os lares se desmantelam sem estrondo. Porém, nenhum desses desafios é, na verdade, o problema real. Eles são a superfície. O verdadeiro problema é o mesmo de sempre: o dragão está enfurecido e vai contra a descendência.

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compartilha a mesma raiz de “sentar-se”. Habitar é sentar-se juntos. E sentar-se juntos hoje tem um custo: exige desligar a tela, abaixar o tom da voz, escutar o outro até o fim, perdoar antes de dormir. Essa união não se compra nem se herda: constróise com paciência, com humildade, com renúncia às próprias agendas. Em um mundo polarizado, um lar onde se pode discordar sem se destruir já é um milagre e um testemunho.

Como respondemos? Quero mencionar três trincheiras nas quais podemos nos refugiar em meio a esta guerra em curso.

Voltar a ver o lar como base de missão. Aqui está, talvez, a diferença que temos como adventistas. Para muitos, a família é apenas um refúgio diante do mundo. Para nós, além disso, é a primeira base missionária de Deus. O testemunho mais poderoso de que esta geração necessita não são as grandes campanhas, mas os lares que vivem o que pregam. “De todo lar cristão deveria resplandecer uma santa luz”, escreveu Ellen White (O Lar Adventista, p. 37). Em um tempo em que a identidade adventista corre o risco de ser diluída em slogans, os lares que oram, que servem, que abrem as portas, que adotam, que acompanham e que cuidam são a melhor pregação.

Cristo, mais uma vez, no centro. Não como um lema devocional, mas como uma decisão diária. Em tempos de identidades fluidas, a única identidade que se sustenta é a que nasce da comunhão com Cristo. E essa comunhão não se improvisa no sábado de manhã: ela é cultivada a cada dia no culto familiar. “Sustentai a fortaleza do lar. Consagrai vossa família a Deus [...]”, exortou Ellen White (O Lar Adventista, p. 319). O culto familiar, essa prática tantas vezes postergada, não é uma prática obsoleta: é a trincheira onde a identidade adventista é forjada. Se em casa não se ora, não se estuda a Bíblia e não se canta a Deus, nenhum sermão de sábado poderá compensar o que se perde no resto da semana. Aprender de novo a nos sentar juntos. “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Salmos 133:1, NAA). Em hebraico, “habitar”

Sim, os eventos finais serão vertiginosos. Porém, antes que as grandes profecias do tempo do fim se cumpram, há uma batalha pequena e silenciosa que se trava todas as noites ao redor de cada mesa, em cada canto do lar, onde se decide se Cristo está ou não no centro. O dragão sabe disso. Por isso, ataca justamente aí. E nós, filhos do remanescente, o que faremos? Hoje é tempo de voltar ao lar.

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Por essa razão, interpretar os desafios familiares atuais sem a cosmovisão profética adventista é ler apenas a superfície. Somente dentro da estrutura do grande conflito é possível entender por que tantos casamentos se desfazem quando poderiam prosperar; por que tantos filhos se afastam justamente quando mais precisam da comunidade da igreja; por que tantos lares cristãos adormecem quando o relógio profético acelera. Não, não é coincidência. É estratégia.

Para pais que intercedem com amor: um guia de oração intencional para acompanhar cada fase da vida dos filhos.

Para esposas que clamam pelo seu lar: um guia de oração intencional pelo marido e pelo casamento.

MARCOS BLANCO Pastor e doutor em Teologia, é presidente da Associação Casa Editora Sul-Americana (ACES), na Argentina.

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havia dado. Dessa maneira, com o correr do tempo, a Terra toda seria ocupada com lares e escolas em que as palavras e obras de Deus seriam estudadas e onde os estudantes mais e mais ficariam em condições de refletir pelos séculos sem fim a luz do conhecimento de Sua glória” (Educação, p. 22).

AS RAÍZES EDÊNICAS DA IDENTIDADE ADVENTISTA P O R J Ô N ATA S L E A L

Assim, é no Éden que encontramos as raízes da verdadeira identidade adventista na família.

DESÍGNIO DIVINO

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uando questionado pelos fariseus quanto ao fato de a lei permitir o divórcio, Jesus indicou um padrão mais elevado ao afi rmar que “não foi assim desde o princípio” (Mateus 19:8). Em seu diálogo com os líderes religiosos de seu tempo, Ele apontou para o Éden, modelo que deveria prevalecer no lar cristão. Ao refletir sobre essa percepção, a escritora Ellen White afi rmou que

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O Jardim do Éden era uma representação do que Deus desejava se tornasse a Terra toda; e era Seu intuito que à medida que a família humana se tornasse mais numerosa, estabelecesse outros lares e escolas semelhantes à que Ele

O relato de Gênesis 1 e 2 mostra que o mundo como nós conhecemos não é fruto de um acidente, mas resultado do desígnio intencional de um Deus amoroso e sábio. Do caos inicial (Gênesis 1:2) Deus traz ordem, preparando um lar para o primeiro casal, cuja criação é resultado da deliberação triúna (Gênesis 1:26). No fi nal da semana da criação, Ele declarou que tudo o que havia feito era “muito bom” (Gênesis 1:31). Assim, a família não é um construto social condicionado culturalmente à evolução temporal. Sua forma e função são determinadas por Deus. Qualquer desvio desse modelo original inevitavelmente leva à desintegração do que foi defi nido na criação.

(zakar) e fêmea (neqebah). Eles têm o mesmo valor, mas são diferentes física e emocionalmente. Cada um tem o seu papel. A liderança espiritual da família fica clara na abordagem divina em Gênesis 3, que requer respostas de Adão, e não de Eva. Afi rmar a liderança espiritual do homem não significa degradar o valor da mulher. O modelo cristão de casamento é construído a partir da imagem de Cristo e a igreja, cuja relação deve ser marcada por amor e respeito mútuos (Efésios 5:23-25). Assim como na igreja, há no casamento igualdade na diversidade.

UNIDADE INDIVISÍVEL No casamento, a humanidade experimenta unidade indivisível. Embora o relato da criação contenha claros sinais de planejamento literário, as palavras usadas por Adão para descrever sua esposa formam a única unidade poética dessa seção. Ao referir-se à mulher como “osso dos meus ossos e carne da minha carne,” o homem salienta uma relação íntima que transcende o social (Gênesis 2:23). A narrativa da queda em Gênesis 3 começa com o primeiro casal geograficamente separado. No contexto narrativo da história, esse é o primeiro passo para a queda e ilustra a importância do princípio encontrado em outra seção da Bíblia: dois é melhor do que um (Eclesiastes 4:9, 11 e 12).

A palavra adam funciona como nome próprio apenas posteriormente. Em Gênesis 1:26, ela significa “humanidade. É quando homem (ish) e mulher (isha) são criados à imagem de Deus e desfrutam de status idêntico diante dEle. O fato de o homem ter sido formado primeiro não aponta para sua primazia, porque a ordem da criação não é do melhor para o pior, mas do incompleto para o completo. O fato de a mulher ser chamada “auxiliadora” (Gênesis 2:18) também não diminui seu valor porque Deus é chamado “auxiliador” de Israel (Salmos 33:20). Assim, a imagem de Deus é defi nida como macho

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SA Ú D E

COMUNHÃO COM DEUS A primeira família foi formada para ter comunhão com Deus. Embora possa ser dito que a criação da humanidade é o ápice da obra criadora divina, ela não é o clímax da semana da criação. Ele ocorre no sétimo dia, quando, após criar o espaço para a família humana, Deus estabelece o tempo para que Ele possa ter comunhão com o casal. A linguagem de Gênesis 3:8 também sugere que o caminhar de Deus no jardim era habitual. No Éden, Adão e Eva tinham o privilégio de falar com o criador sem barreiras. No entanto, o pecado mudou tudo drasticamente.

MANTENDO A IDENTIDADE ADVENTISTA HOJE Apesar de o pecado ter transtornado a ordem original da criação também no âmbito da família, é no lar que a nossa identidade adventista pode ser mantida e transmitida. Segundo o plano de Deus para o seu povo, era ali que o conhecimento de Deus e os valores celestiais deveriam ser propagados (Deuteronômio 6:6-9). Embora não seja possível exagerar a influência que a escola e a igreja desempenham no desenvolvimento da criança, o papel da formação da identidade adventista não pode ser terceirizada. Também é preciso considerar que marido e mulher devem entender que seus papeis são distintos não apenas no contexto do matrimônio, mas na

educação dos fi lhos. Visões distorcidas sobre suas funções têm gerado identidades distorcidas. O primeiro sinal de problema nessa área aparece no diálogo de Deus com a humanidade após a queda, em que Ele descreve as novas condições sob as quais marido e mulher sobreviveriam (Gênesis 3:16-21). A unidade edênica é um desafio em mundo de pecado onde egoísmo e doenças emocionais imperam. Contudo, o Éden nos aponta para a união singular que o casamento representa. De algum modo, ela espelha a própria unidade trinitária onde três são um. Deus estabeleceu o casamento como uma conexão que nunca deveria ser quebrada, uma aliança eterna. A seriedade dessa união não deve ser perdida de vista em meio à normatização do que não é normal diante de Deus. Em seu ensino, Jesus não relativizou o ideal edênico como haviam feito os líderes religiosos de seu tempo, mas afi rmou a seriedade da união matrimonial que apenas a morte ou relações sexuais ilícitas podem quebrar (Mateus 19:8-9). Um retorno às origens da família no Éden é um antídoto necessário contra as forças culturais que lutam contra o mundo que Deus criou e designou “muito bom”. A tentativa secular de criar algo melhor é um projeto falido. O lar ainda é o lugar onde identidades celestiais são forjadas e mantidas, e para onde podemos voltar, pelo menos de algum modo, ao Éden perdido.

CORAÇÕES COMPASSIVOS, FAMÍLIAS RESILIENTES POR LÍA TREVES

U

ma mãe me contou, desconcertada e com lágrimas nos olhos, que em sua casa tudo “estava bem”, mas, ao mesmo tempo, algo não estava. Não havia grandes confl itos nem crises visíveis, mas existiam longos silêncios, respostas curtas e corações cansados. “Oramos juntos”, disse ela, “vamos à igreja, mas sinto que não sabemos como cuidar uns dos outros emocionalmente.” Essa cena é mais comum do que imaginamos. Muitas famílias amam a Deus, mas nem sempre sabem o que fazer com aquilo que sentem. E o que não é administrado acaba se acumulando… e termina afetando a maneira como nos relacionamos, cremos e vivemos a fé.

J Ô N ATA S L E A L Pastor e doutor em Religião. Atualmente, é o reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia (SALT) e diretor do departamento de Espírito de Profecia da sede sul-americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia. 18 | FAMÍLIA ESPERANÇA

E M O C I O N A L

A identidade adventista começa no lar, sim, mas não apenas no que ensinamos, e sim em como vivemos, sentimos e tratamos uns aos outros. A Bíblia expressa isso de forma profunda e simples:

“De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4:23). O coração – nosso mundo emocional – não é um detalhe secundário; é a fonte da qual flui tudo o mais. A escritora Ellen G. White descreve isso com muita ternura: “O lar deve ser tudo quanto está implícito nessa palavra. Deve ser um pequeno Céu na Terra, um lugar onde se cultivem as afeições em vez de serem estudadamente reprimidas. Nossa felicidade depende do cultivo do amor, da simpatia e da verdadeira cortesia de uns para com outros” (O Lar Adventista, p. 15).

E cultivar exige tempo, intenção… e aprendizado.

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DUAS PALAVRAS, DUAS ATITUDES Neste ponto, vale a pena nos determos brevemente em duas palavras-chave do título, escolhidas de forma intencional: compaixão e resiliência. A compaixão não é apenas sentir pena do outro. É a capacidade de perceber sua dor, conectar-se com ele e responder com amor. É olhar para o membro da família não a partir do julgamento (“você reagiu mal de novo”), mas da compreensão (“algo está acontecendo com você; quero entender”). Jesus viveu constantemente movido pela compaixão, e é esse mesmo espírito que transforma a dinâmica familiar. A resiliência, por sua vez, é a capacidade de atravessar as dificuldades e sair fortalecido. Não significa evitar a dor, mas aprender a crescer por meio dela. Uma família resiliente não é aquela que não tem problemas, mas aquela que aprende a enfrentá-los unida, com fé e com ferramentas emocionais saudáveis. Sob a perspectiva da Terapia CognitivoComportamental (TCC), compreendemos que aquilo que pensamos influencia diretamente o que sentimos e como agimos. Na vida familiar, isso é fundamental. Muitas vezes, o problema não está no que acontece, mas na maneira como interpretamos os acontecimentos. Por exemplo, um fi lho pode pensar: “Meus pais não me entendem”, e isso gerar raiva ou distanciamento. Ou um cônjuge pode interpretar: “Não sou importante para você”, e sentir tristeza ou rejeição. Se esses pensamentos não forem trabalhados, as emoções se intensificam e os relacionamentos se enfraquecem. Mas quando aprendemos a parar, identificar o que estamos pensando e confrontar esses pensamentos com a verdade – incluindo a verdade

bíblica –, algo muda. Filipenses 4:13 nos lembra: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Existe uma versão em português que gosto muito, que diz: “Onde eu estiver e com o que tiver, posso fazer qualquer coisa por meio daquele que faz de mim o que sou” (versão A Mensagem). Essa verdade não é apenas espiritual; ela também transforma a maneira como enfrentamos os desafios. É aqui que entra a inteligência espiritual: a capacidade de viver nossas emoções em conexão com Deus. Não se trata de deixar de sentir, mas de aprender a sentir com propósito, direção e esperança.

HÁBITOS QUE FORTALECEM VÍNCULOS O próprio Jesus é nosso maior exemplo. Ele chorou (João 11:35), angustiou-Se profundamente (Mateus 26:38), mas nunca ficou preso às emoções. Sempre as levou ao Pai. Isso nos ensina algo muito valioso: sentir não é fraqueza… faz parte de uma vida espiritual autêntica. Quando, em casa, aprendemos a dizer “isso me machuca”, “isso me preocupa” ou “preciso de ajuda”, sem medo de sermos julgados, algo belo começa a crescer: a confiança. E onde existe confiança, há espaço para que o caráter de Cristo seja formado. Além disso, uma família emocionalmente saudável está muito mais bem preparada para a missão. Ela consegue permanecer fi rme em meio às provações, perdoar com mais facilidade e refletir o amor de Deus de maneira genuína. Como diz 2 Timóteo 1:7: “Porque Deus não nos deu o espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação”. Esse domínio próprio também se manifesta na maneira como administramos aquilo que sentimos.

Referências: 1

Beck, J. S. Terapia cognitivo-conductual: Teoría y práctica (3ª ed.). (2021) Editorial Artmed.

2

Bíblia Sagrada: A Mensagem. (E. H. Peterson, Trad.). (2011) Editora Vida.

3

Bíblia Sagrada: Nova Almeida Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil. (2017). https://www.bibliaonline.com.br/

4

WHITE, E. G. O Lar Adventista. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira.

Este artigo foi escrito com apoio de uma ferramenta de inteligência artificial para organizar as ideias principais. 20 | FAMÍLIA ESPERANÇA

S U G E S TÕ E S P R ÁT I C A S PA R A

FORTALECER AS EMOÇÕES NA FAMÍLIA

NINGUÉM GOSTA DE MIM

FAZER DO CULTO FAMILIAR UM ESPAÇO VERDADEIRO

DAR NOME AO QUE SE ESTÁ SENTINDO

Se você perceber que seu filho responde apenas com monossílabos ou está mais calado do que o habitual, aproveite para perguntar: “Como você realmente se sentiu hoje?”, em vez de apenas cumprir o ritual do culto.

Quando alguém reage com uma raiva desproporcional, você pode ajudar essa pessoa a identificar: “Você está com raiva ou, na verdade, está frustrado ou triste?”

QUESTIONAR PENSAMENTOS NEGATIVOS

Se um adolescente disser: “Ninguém gosta de mim”, esse é o momento de ajudá-lo a questionar esse pensamento e SERÁ QUE ISSO buscar evidências reais.

É VERDADE?

ESTOU IRRITADO; PRECISO DE ALGUNS MINUTOS PARA ME ACALMAR.

ENSINAR PELO EXEMPLO Se, como adulto, você reconhece: “Estou irritado; preciso de alguns minutos para me acalmar”, isso é ensinar autocontrole na prática.

CRIAR ESPAÇOS SEGUROS PARA CONVERSAR

ORAR DE MANEIRA ESPECÍFICA

Caso perceba que alguém evita falar sobre certos assuntos, talvez essa pessoa precise de um ambiente sem críticas nem interrupções para conseguir se expressar.

Em vez de uma oração genérica, quando houver tensão na família, ore: “Senhor, ajuda-nos com este conflito específico”.

PRATICAR A GRATIDÃO DIARIAMENTE

SERVIR JUNTOS

Em dias difíceis, quando as reclamações predominam, vale a pena parar por um momento e mencionar pelo menos uma bênção. “Hoje quero agradecer por...”

Fortalecer as emoções em família não acontece automaticamente. É um caminho percorrido dia após dia, com paciência e sob a direção de Deus. Mas, quando Cristo ocupa o centro do lar, até mesmo as emoções mais difíceis podem se tornar oportunidades para crescer, amar melhor e refletir Seu caráter.

Se a família estiver excessivamente concentrada em seus próprios problemas, sair para ajudar outras pessoas pode mudar a perspectiva e uni-la.

LÍA TREVES É educadora e psicóloga clínica.

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D I S C I P U L A D O

O LAR COMO ESCOLA DA FÉ O culto familiar é um momento simples, mas profundamente significativo, quando a família se reúne para buscar a Deus em conjunto. Mais do que uma atividade religiosa, é uma atividade que ajuda a formar hábitos espirituais. Os escritos de Ellen White trazem muita luz sobre esse assunto. No capítulo 3 do livro Testemunhos Seletos, volume 5 (que ainda não foi traduzido ao português), ela recomenda que o culto familiar:

A FÉ QUE SE TORNA IDENTIDADE P O R C U C A L A PA L M A

Q

uando eu tinha 11 anos, minha família se mudou para uma casa onde havia um abacateiro no quintal. Até então, eu não sabia o que era um abacate. Ninguém em casa o comia. A árvore fazia parte da paisagem, mas nunca despertou nosso interesse. Anos depois, ela foi removida, e ninguém sentiu sua falta. No entanto, quanto eu já estava com quase 20 anos, “descobri” o abacate. Aprendi a apreciá-lo, e hoje o comemos todos os dias! Ele se tornou parte da nossa mesa e dos nossos hábitos. Curiosamente, quando chegamos ao Brasil, descobrimos algo que nos surpreendeu ainda mais: em muitos lugares, o abacate é consumido com leite e açúcar. Para nós, que aprendemos a comê-lo com sal e limão, isso parecia um sacrilégio culinário. No entanto, essa experiência também revela um ponto interessante: a forma como uma pessoa se relaciona com algo depende muito da cultura na qual foi formada. Essa pequena história deixa uma lição simples, mas profunda: dificilmente se ama aquilo que não se conhece. E muitas vezes, o que não se ama acaba se tornando irrelevante.

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O QUE DEFINE QUEM SOMOS Algo parecido pode acontecer com nossa identidade adventista. A Bíblia pode estar em casa. Um quadro com um versículo pode estar pendurado na parede. Uma família pode identificar-se como cristã ou adventista. Mas, se a fé não for conhecida, experimentada e vivida no lar, corre-se o risco de se tornar distante, quase decorativa, como aquele abacateiro que estava no quintal, mas que não fazia parte da vida da família. Mas o que, afi nal, é a identidade adventista? É aquilo que defi ne quem somos. Ela é formada por valores, crenças, hábitos e experiências desenvolvidas ao longo do tempo. Mais do que conhecer doutrinas ou pertencer a uma igreja, ela se constrói quando a fé é vivida no lar, por meio de um relacionamento diário com Deus. Nesse processo, o culto familiar ocupa um lugar essencial.

•

Tenha horário regular;

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Seja breve e participativo;

•

Envolva as crianças;

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Seja um momento agradável.

É quando as crianças aprendem que a Bíblia não é apenas um livro que se abre na igreja, mas um guia para a vida diária. É ali que descobrem que falar com Deus é algo natural. É ali que elas entendem que a fé não é uma teoria, mas uma experiência compartilhada. Com o passar do tempo, esses momentos cotidianos vão moldando a maneira de pensar e sentir de cada membro da família. Vão formando memória espiritual. Vão criando uma cultura. Assim como o gosto por certos alimentos é aprendido com o tempo, o coração também aprende a apreciar as coisas de Deus quando é constantemente exposto a elas! Cada vez que uma família abre a Bíblia, ora junta, conversa sobre Deus ou agradece por Suas bênçãos, está semeando algo no coração de seus fi lhos. Está formando uma maneira de ver o mundo. Está transmitindo uma identidade.

O RISCO DAS PEQUENAS OMISSÕES E o que acontece se não priorizamos o culto familiar? Qual é a nossa desculpa? Dizemos que não temos tempo, mas dedicamos horas ao que consideramos importante. Dizemos que estamos cansados, mas ainda encontramos energia para outras atividades. Dizemos que não sabemos como fazê-lo, como se o relacionamento com Deus exigisse perfeição

em vez de sinceridade. Dizemos que as crianças não prestam atenção, quando muitas vezes nunca lhes ensinamos a fazê-lo. Facilmente nos distraímos, adiamos as questões espirituais e, no fundo, acabamos vivendo como se o culto familiar fosse opcional. Mas não é. Quando o culto desaparece, a fé não se mantém sozinha. Ela enfraquece. Esfria. Torna-se irrelevante. E o mais perigoso é que esse processo não é evidente no início. Não há um momento em que tudo se desintegra; simplesmente, Deus deixa de fazer parte da vida diária. Por isso, não realizar o culto familiar não é uma decisão neutra. Na prática, é escolher que outras coisas formem nossa identidade ao invés de Deus. E isso é realmente perigoso! Assim como aprendi a amar o abacate, a fé também precisa de mais do que presença: precisa de experiência. A igreja pode nos mostrar seu valor, mas é no lar, por meio do culto familiar e da oração, que essa fé se torna parte de quem somos. No entanto, o culto familiar não se resume apenas a formar bons hábitos para esta vida. Trata-se de preparar o coração para a eternidade. Em cada momento em que uma família se reúne para buscar a Deus, está construindo algo que transcende o presente. Está formando um relacionamento que não termina aqui. A identidade adventista não se resume a viver uma vida melhor neste mundo, mas a caminhar cada dia mais perto de Jesus, até que esse relacionamento se torne pleno na eternidade. É um processo silencioso, cotidiano, mas profundamente decisivo. Um dia, essa identidade se tornará visível em sua plenitude, quando escutarmos as palavras do próprio Jesus: “[...] Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34). Esse dia não será o resultado de um momento isolado, mas de uma vida em Sua presença. Porque aquilo com o que convivemos todos os dias é o que, no fim, define quem somos, hoje e por toda a eternidade!

C U C A L A PA L M A Psicopedagoga e licenciada em Letras, atualmente trabalha na área de tradução.

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V I DA

C R I S TÃ No entanto, há um consolo extraordinário nessa mesma lição: a impiedade também não é uma sentença hereditária compulsória. Se eu falhei no passado, se minha história é marcada por quedas, meu erro não precisa ser a prisão eterna do meu filho.

QUANDO DEUS ESCREVE UMA NOVA HISTÓRIA

O DISCIPULADO COMEÇA EM CASA P O R J O S A N A N A LV E S

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ntes que o Sinai ecoasse os mandamentos sob trovões e chamas, ou que os primeiros templos fossem erguidos com ouro e cedro, Deus estabeleceu o lar como o santuário primordial da fé. É no ambiente doméstico, no espaço sagrado entre o despertar da manhã e o repouso silencioso da noite, que a identidade espiritual de uma criança começa a ser moldada. Para a família adventista, essa realidade ganha uma urgência profética: o lar não é apenas um abrigo, mas o laboratório da salvação e o berço inegociável da missão. Muitas vezes, olhamos para nossa árvore genealógica com um peso no peito, temendo que os erros, vícios e falhas de nossos antepassados sejam sentenças irrevogáveis sobre o destino de nossos fi lhos. O medo de que a “maldição hereditária” prevaleça sobre a promessa divina costuma paralisar pais que lutam contra sua própria história.

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A sucessão dos reis de Judá registrada na genealogia de Jesus, em Mateus 1:7-8, revela uma dinâmica libertadora e profundamente esperançosa. Ali, no registro da linhagem do Messias, vemos quatro gerações que desafiaram qualquer determinismo genético. O texto sagrado nos diz que Roboão gerou o ímpio Abias; Abias gerou Asa, que fez o que era reto diante do Senhor; Asa gerou o fiel Josafá; e este gerou o infiel Jorão. Essa alternância de caracteres e caminhos espirituais nos traz uma lição de humildade e poder. Uma vida piedosa não é um bem que podemos deixar em testamento; ela não é transmitida pelo DNA, nem se herda por osmose. Isso é uma notícia que me humilha e me coloca de joelhos, pois percebo que não possuo o poder de salvar meus fi lhos apenas com o meu exemplo ou com minha herança religiosa. Cada indivíduo deve ter seu próprio encontro pessoal e intransferível com Cristo.

A graça de Deus é a força transformadora capaz de interromper linhagens de dor, vício e mediocridade espiritual para iniciar histórias inteiramente novas. A genealogia de Jesus nos ensina que, embora a salvação seja individual, a misericórdia de Deus é geracional, estendendo-se a mil gerações daqueles que O amam. Devemos orar diariamente para que Deus transforme nossas linhagens tortas em caminhos retos para a vinda do Salvador. Para isso, precisamos entender que a fé se perde quando deixa de ser contada, celebrada e vivida nas pequenas coisas. A identidade adventista se fortalece apenas quando a religião deixa de ser um evento semanal de duas horas na igreja para se tornar o oxigênio que se respira dentro de Casa. Nossas escolhas diárias — o que colocamos à mesa, a forma como gerenciamos nossas fi nanças, o modo como tratamos o cônjuge durante uma divergência e a alegria com que recebemos o sábado — são as marcas reais que impactarão o futuro. Não basta que nossos fi lhos frequentem as melhores escolas ou ocupem cargos de relevância; o sucesso maior é que eles conheçam o Deus de seus pais através de memórias vivas: o culto familiar fervoroso que não é um fardo, mas um prazer; a fidelidade nos dízimos e ofertas vista como um ato de gratidão, e o serviço ao próximo como estilo de vida.

O PODER DO DISCIPULADO Muitos pais sentem-se intimidados, acreditando que discipular os fi lhos exige currículos teológicos complexos, oratória impecável ou métodos pedagógicos infalíveis. Contudo, o verdadeiro discipulado bíblico é, essencialmente, baseado na convivência e na vulnerabilidade. João 14:20 resume essa profunda realidade espiritual e prática: “Eu estou em meu Pai, e vós

em mim, e eu em vós”. Cristo não apenas emitia decretos do alto; Ele estendia o convite: “Segueme”. Ele vivia ao lado dos discípulos, permitindo que eles O vissem em todos os aspectos da vida — na fome, no cansaço, na oração e na dor. O discipulado eficaz ocorre no momento em que a criança ou o adolescente observa a coerência entre o discurso e a prática. É quando o fi lho pergunta: “Pai, por que você estuda a Bíblia antes de ligar o celular todas as manhãs?”, e o pai não responde com um sermão, mas faz um convite: “Venha comigo. Vou te mostrar o que Deus me disse hoje”. Se pregamos o perdão na igreja, mas guardamos rancores amargos na sala de estar, estamos ensinando que o evangelho é uma farsa. Se falamos da volta de Jesus, mas vivemos como se o acúmulo de bens nesta terra fosse nossa única esperança, nossos fi lhos perceberão a dissonância.

LEGADO ESPIRITUAL Se Cristo não estiver no centro das nossas relações domésticas, nossa missão para o mundo será apenas um eco vazio e sem vida. O lar é, e sempre será, o primeiro e mais importante campo missionário. É ali, através da saúde emocional, do respeito mútuo e da espiritualidade prática que demonstramos ao universo que o evangelho realmente funciona. Como líderes, pais e educadores precisamos ajudar cada família a compreender que sua linhagem pode ser redimida e transformada pelo poder da coerência e da graça. Ao priorizarmos o altar da família e o discipulado pelo exemplo, estamos formando jovens que não apenas “sabem” sobre Deus, mas que “conhecem” a Deus. Quando o mundo olhar para essas famílias, verá um vislumbre do céu. A esperança do advento não começa no púlpito; ela começa, de fato, dentro de casa, na fidelidade das pequenas coisas e na beleza de uma vida coerente com a eternidade.

J O S A N A N A LV E S É pastor e diretor do Ministério de Mordomia Cristã da Igreja Adventista do Sétimo Dia para oito países da América do Sul.

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C R E S C I M E N TO

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NASCIMENTO DA FÉ GENUÍNA Em meio a essa realidade, lembro-me de um episódio que marcou minha vida. Quando eu era criança, nossa família enfrentou uma das provações mais dolorosas que um lar pode viver. Um de meus irmãos adoeceu repentinamente. Seu estado de saúde se agravou e, apesar de todos os esforços médicos, não foi encontrada uma solução. Por fim, ele sofreu uma reação adversa aos medicamentos e faleceu em decorrência de uma parada cardiorrespiratória.

QUANDO A ORAÇÃO TRANSFORMA UMA FAMÍLIA POR RICARDO PEÑAFIEL

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m um mundo em que famílias enfrentam constantes pressões, como os desafios da criação dos fi lhos, crises conjugais, problemas de saúde e questões emocionais e espirituais, surge uma pergunta urgente: o que realmente defi ne uma família cristã? Suas crenças? Princípios? Tradições? Embora tudo isso tenha valor, existe um elemento essencial que transcende o visível: a oração. Não como uma prática ocasional, mas como uma experiência viva que encoraja, sustenta e transforma o lar. Como pastor, acompanhei muitas famílias em diferentes momentos de sua trajetória. Vi lares

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experimentarem profundas alegrias, mas também perdas irreparáveis. E, nessa caminhada, há uma verdade que se repete: as famílias que permanecem fi rmes não são as que evitam as crises, mas as que aprenderam a depender de Deus por meio da oração. A oração é a linguagem da alma. Nela, os pais modelam a fé, os fi lhos aprendem a confiar e o lar se transforma em um pequeno santuário. Pesquisas recentes mostram que essa prática continua sendo importante para muitos cristãos. Ainda assim, transformar essa experiência em um hábito vivido em família permanece um desafio para diversas famílias.

A dor foi profunda. No entanto, alguns dias depois de seu sepultamento, algo começou a acontecer e encheu nossa casa de medo. Todas as noites, no mesmo horário, meus pais ouviam um choro que parecia ser o do meu irmão. Com aquele som, também se ouvia o ranger da cadeira de balanço onde ele costumava descansar, como se alguém a estivesse balançando. O medo tomou conta deles. Permaneciam no quarto, sem coragem de sair, ouvindo, noite após noite, aqueles sons que não conseguiam compreender. Em meio àquela angústia, um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia deu ao meu pai um conselho simples, mas decisivo: orar. Disse a ele que falasse com Deus com sinceridade e pedisse clareza: se aquilo viesse de Deus, que continuasse; mas, se fosse um engano do inimigo, que cessasse para sempre. Passaramse alguns dias até que meu pai finalmente decidiu fazer essa oração. Lembro-me de que ele se ajoelhou como nunca havia feito antes. Até então, sua experiência com Deus era marcada principalmente pela repetição de orações memorizadas. Naquela noite, porém, foi diferente. Ele abriu o coração, falou a partir de sua dor e pediu que, se aquilo não viesse dEle, desaparecesse para sempre. Além disso, assumiu um compromisso: começar a conhecer Jesus verdadeiramente. Ao terminar sua oração, tudo ficou em silêncio. Nunca mais se ouviu aquele choro. Deus respondeu à oração de meu pai.

UMA ORAÇÃO QUE MUDOU NOSSA HISTÓRIA Essa experiência marcou um antes e um depois em nossa família. Meu pai compreendeu que a oração não é um ritual, mas um relacionamento vivo com Deus. A partir de então, começou a estudar a Bíblia com um interesse especial em compreender temas como a morte e a esperança cristã. Com o passar do tempo, sua vida foi transformada e, com ele, toda a nossa família decidiu seguir a Jesus. Essa história confirma que a oração tem poder real. Ela não apenas traz paz ao coração, mas também dissipa o medo, firma a verdade e fortalece a fé em meio à escuridão. Aquele momento marcou minha vida e se tornou um farol que me lembra de que, ao lado de minha esposa e de minhas filhas, somos chamados a depender de Deus por meio da oração. Hoje, o chamado é claro para toda família família cristã: não basta ensinar sobre a oração; precisamos vivê-la em nossos lares. A oração deve tornar-se nosso DNA espiritual. Deve ser o legado transmitido de geração em geração, uma herança viva que ensine nossos filhos a quem recorrer em meio às crises. Porque quando uma família ora, ela se fortalece em meio às dificuldades, permanece unida em meio às provações e é protegida contra os ataques do inimigo. A oração não é apenas um refúgio; é também uma arma poderosa. Em um tempo em que as influências espirituais se tornam cada vez mais sutis, precisamos de lares que aprendam a travar suas batalhas rendidos aos pés de Jesus. Precisamos de famílias que compreendam que a verdadeira vitória não é alcançada por meio de recursos humanos, mas por uma dependência total de Deus. Que cada lar recupere essa prática sagrada. Que cada pai e cada mãe se torne intercessor. Que cada filho cresça seguro de que a oração faz parte natural da vida. Quando a oração se integra à identidade, transforma gerações.

RICARDO PEÑAFIEL

Pastor e mestre em Ministério Pastoral, é o secretário executivo da Igreja Adventista do Sétimo Dia para o Equador.

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