Nomeado Herói dos Direitos da Criança – Páginas 71–91
POR QUE MANUEL É NOMEADO?
Manuel Rodrigues
Manuel Rodrigues é nomeado ao Prêmio das Crianças do Mundo por seus 20 anos de luta por crianças cegas e crianças com outras deficiências na Guiné-Bissau. Crianças portadoras de deficiência na Guiné-Bissau estão entre as crianças mais desfavorecidas e vulneráveis do mundo. Manuel e sua organização, a AGRICE, lhes proporcionam uma vida digna. Elas recebem assistência médica, comida, um lar, possibilidade de ir à escola, segurança e amor. Manuel fala sobre os direitos das crianças deficientes a políticos e organizações, mas especialmente para pessoas em aldeias rurais. De outra forma, os aldeões não obteriam tais informações. Graças ao trabalho de Manuel, crianças e adultos sabem que crianças cegas e crianças com outras deficiências têm os mesmos direitos que todas as outras. A luta de Manuel salvou essas crianças de maus-tratos, abandono ou mesmo da morte. 250 crianças cegas viveram no centro de Manuel e frequentaram sua escola adaptada para deficientes visuais. O objetivo é que as crianças voltem para a casa de suas famílias nas aldeias após o treinamento e escolarização com Manuel. A maioria dessas famílias é pobre, e as crianças recebem apoio da AGRICE ao voltar para casa, a fim de poder continuar sua educação e obter uma boa vida em suas aldeias.
Manuel, que é cego desde os três de idade, com crianças cegas que receberam a oportunidade de uma vida melhor através de Manuel e do trabalho de sua organização, a AGRICE.
Manuel faz cafuné na cabeça da menina. Adelia, 9, inclina-se para ele no banco onde estão sentados. Quando nasceu, ela foi deixada para morrer na floresta porque é cega. – Isso me deixa muito triste e bravo. Infelizmente, Adelia não é exceção. A situação das crianças que são cegas ou têm outras deficiências na Guiné-Bissau é terrível. Muitos veem estas crianças como sem valor, não lhes dão amor e não permitem que elas frequentem a escola. Minha vida é lutar por essas crianças, diz Manuel.
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anuel sabe o quanto uma criança portadora de deficiência depende de que os adultos que a cercam se importem e demonstrem amor. Sem negligenciar e abandonar. Manuel sabe porque ele próprio ficou cego aos três anos. – Cresci em uma família comum com muitos filhos. Éramos nove irmãos e irmãs, e minha mãe AnaMaria e meu pai Luis nos amavam. Meu pai e eu éra-
mos melhores amigos. Caminhávamos de mãos dadas até a pré-escola todos os dias e brincávamos muito juntos. Nadávamos e jogávamos bola. Embora eu fosse criança, costumávamos usar roupas iguais. Lembro-me que meu pai estava sempre feliz. Quando Manuel tinha três anos, aconteceu algo que mudou tudo. – Meus olhos, que eram castanhos, começaram a ficar azuis, e eu via tudo
Manuel com Adelia, que foi abandonada na floresta para morrer quando era bebê, mas foi salva por pastores. Desde então, Manuel e sua esposa cuidaram de Adelia e lhe deram um lar, amor e educação.
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Na escola Bengala Branca, de Manuel, há crianças cegas e crianças que enxergam, e elas brincam juntas nos intervalos.
como que por uma névoa. Ficou cada vez mais difícil brincar e me movimentar, e eu tive que abandonar a pré-escola, por enxergar muito mal. Isso me entristeceu muito. Mas quem ficou ainda mais triste foi meu o pai. Ele chorava quase que constantemente. A longa viagem O pai de Manuel recusou-se a aceitar que seu filho havia ficado cego. Ele decidiu que
Manuel receberia o melhor cuidado médico que conhecia. Não na Guiné-Bissau, mas em Portugal, onde seu irmão morava. Ele passou a contatar pessoas que poderiam ajudá-lo. E então começou a guardar tanto dinheiro quanto podia de seu salário no exército. Havia menos comida na mesa para toda a família. Mas eles perseveraram e, eventualmente, foi possível comprar uma passagem que levaria Manuel a seu
tio em Portugal. Mas a família não tinha condições de pagar para ninguém mais ir junto. – Não foi fácil para mim. Eu tinha apenas quatro anos de idade e estava triste e assustado. Mas tive sorte. No voo havia uma freira que me ajudou e, no hospital, havia duas enfermeiras chamadas Judite e Lurdes que cuidaram de mim. Elas me confortavam, liam livros e cantavam, exatamente como pais teriam feito.
Quando Manuel viajou, ele realmente tinha esperança de que os médicos na Europa poderiam lhe devolver a visão. – Porém, depois de um ano no hospital, descobriram que era impossível fazer algo para melhorar minha deficiência visual, chamada glaucoma. Eu tinha recebido atenção médica tarde demais. Escola para cegos Novamente, foi o pai de
Rapaz de 15 anos criou o Braille O Braille foi criado em 1824 por um rapaz francês de 15 anos chamado Louis Braille. O Braille consiste de pontos elevados dentro de pequenos quadrados (células) em uma folha de papel ou de plástico e são lidos usando o tato de ambos os dedos indicadores. Cada caractere de pontos é composto de até 6 pontos. Dependendo de como se combinam os pontos em cada célula, letras diferentes são criadas. Além de letras, também é possível formar números e notas musicais. Todo ano em 4 de janeiro é celebrado o Dia Internacional do Braille em memória do nascimento de Loius Braille em 1809.
Na escola de Manuel as crianças cegas aprendem usando Braille para ler e escrever pela primeira vez em suas vidas.
Molde de plástico com células que se coloca no papel ao escrever com a reglete.
Uma reglete usada para escrever Braille.
72 Este é o nome de Manuel em Braille.
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Novo centro infantil A antiga escola de Manuel era feita de bambu.
– Agora estamos construindo um novo centro para as crianças. Minha velha casa é muito pequena, e quero que as crianças tenham um ambiente mais bem-adaptado. No novo centro, além de quartos teremos um espaço para brincar, um ginásio, espaço para cultivar nossas próprias hortaliças e criar galinhas e cabras. No centro, teremos, entre outros, cursos de jornalismo, administração, informática, costura e culinária para jovens, conta Manuel.
Sempre que pode, Manuel diz a jornalistas, no rádio e aos políticos que crianças com deficiência têm os mesmos direitos que todas as outras crianças.
– Nosso objetivo é que todas as crianças, inclusive aqueles que são cegas ou têm outras deficiências, tenham oportunidades na vida e esperança para o futuro. Que todas as crianças contem e pertencem à sociedade, diz Manuel.
amigos. O nome do meu melhor amigo era António e, no nosso tempo livre, jogávamos futebol e nadávamos. A grande tristeza Os anos se passaram e Manuel aprendeu a viver como cego. Ele achou que a sua vida provavelmente seria boa, apesar de tudo. Mas um dia, quando Manuel estava na na escola há seis anos, ele foi novamente surpreendido com uma notícia que mudou tudo. Seu pai tinha morrido repentinamente de um ataque cardíaco. – Eu tinha dez anos e perdi tanto meu pai quanto a possibilidade de continuar na escola, pois não podia pagar as minhas taxas escolares.
Tomei o barco de volta para casa, na África, e fiquei muito triste durante toda a viagem. Quando Manuel voltou para casa, havia guerra. A Guiné-Bissau estava lutando para se libertar do poder colonial de Portugal, que então governava o país. A família levou Manuel em segurança para a casa de parentes no país vizinho, a Guiné. Lá, ele pode estudar em uma escola para crianças e jovens com deficiência. Seis anos mais tarde, a Guiné-Bissau se tornou independente e Manuel voltou para casa.
Parou o presidente A Guiné-Bissau era pobre e muito estava destruído depois da guerra. A família de Manuel tinha que sobreviver com o que a mãe conseguia vender no mercado. Manuel, que tinha dezesseis anos, sabia que precisava conseguir um emprego e ajudar. Por ser cego, ninguém achava que ele conseguiria um emprego, mas Manuel ia todos os dias ao palácio presidencial e pedia para falar com o presidente. Ele achava que o presidente iria ajudá-lo e às outras pessoas com deficiência a conseguir um emprego. Todos os dias ele recebia a resposta de que não era possível encontrar o presidente. Mas ele continuou a ir lá. – Um dia, consegui me colocar no caminho do carro do presidente para que ele não pudesse continuar! Os guardas presidenciais me levaram até ele. Expliquei que precisava de ajuda para conseguir um emprego, porque ninguém empregava cegos.
TEXTO: ANDREAS LÖNN FOTOS: KIM NAYLOR
Manuel que ficou mais desapontado. Mas ele continuou a lutar por seu filho. Ele tinha descoberto que havia boas escolas para cegos em Portugal, mas elas eram caras. Não havia uma única escola para cegos na GuinéBissau, então o pai de Manuel recomeçou a economizar dinheiro para ajudar o filho. – A família juntou dinheiro suficiente para que eu pudesse começar a estudar em um internato em Portugal. Embora sentisse saudades da minha família, eu gostei muito de lá. Pude aprender a contar, ler e escrever em Braille. Na escola, também aprendi coisas práticas, como me vestir, escovar os dentes e tomar banho. E fiz muitos novos
Isabel, 14, ficou cega quando era pequena. Depois de algum tempo no centro de Manuel, ela agora pode voltar para a casa da avó Fatumata e começar em uma escola para crianças que enxergam. O objetivo de Manuel é todas as crianças possam voltar para suas famílias.
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Manuel conta uma história para as crianças. Abdulai, sentado em seu colo, foi encontrado uma semana atrás, quando Manuel saiu em missão de resgate.
Contei que havia aprendido a trabalhar como telefonista na escola na Guiné. O presidente ficou curioso e me deixou testar o PBX do gabinete presidencial. Quando passei no teste, ele ficou tão impressionado que arrumou um emprego para mim como operador na sede dos correios! Tornou-se comerciante Depois de um ano, o presidente foi deposto por um gol-
pe, um novo sistema de telefone foi introduzido e Manuel ficou desempregado. Mas ele não desistiu. Ele tinha conseguido poupar algum dinheiro e decidiu se tornar um comerciante. Manuel comprava material escolar, produtos de higiene pessoal e bebidas na cidade, e então os vendida no campo. Com o dinheiro, ele comprava óleo de palma e madeira, que vendia na cidade. – Era um trabalho duro para mim, mas eu gostava. Após algum tempo, as coisas estavam tão bem que eu pude comprar um carro velho, contratar um motorista e começar um pequeno negócio de
Lixeira personalizada Muitas coisas na escola são adaptadas para facilitar a vida dos deficientes visuais. Por exemplo, as lixeiras são penduradas em vez de ficarem no chão, para que ninguém possa tropeçar nelas. E há uma corda para indicar às pessoas onde jogar o lixo.
táxi também. No final, eu tinha conseguido economizar tanto dinheiro que pude construir uma boa casa para a família. Foi maravilhoso para dar isso à minha mãe depois de tudo que ela fez por mim. AGRICE Embora Manuel estivesse bem, não se esquecia das crianças cegas do país que não tinham as mesmas oportunidades que ele. Que não tinham pais que as amavam. E que não tinham podido ir à escola porque seus pais pensavam que era um desperdício de dinheiro, uma vez que cegos nunca poderiam trabalhar, nem mesmo ajudar em casa. – Muitas delas eram escondidas ou abandonadas. Em alguns casos, acreditava-se até mesmo que as crianças cegas estavam possuídas por espíritos malignos, e elas eram deixadas na floresta para morrer. O governo ainda
não tinha fundado uma única escola no país que fosse adaptada para deficientes visuais, diz Manuel. Por isso, em 1996 Manuel fundou a organização AGRICE (Associação Guineense de Reabilitação e Integração de Cegos) para que deficientes visuais pudessem disseminar a conscientização na sociedade e lutar juntos por seus direitos. – Eu queria mostrar a todos que nós existimos e temos os mesmos direitos que outras pessoas. Frequentar a escola, conseguir um emprego e participar. E, estando juntos, não nos sentiríamos mais tão sozinhos. Lar seguro Através da AGRICE, Manuel entrou em contato com muitas crianças cegas que estavam sofrendo. Quando sua mãe morreu, ele decidiu converter metade da sua casa no primeiro lar seguro para
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De volta a casa Além do Braille, Isabel aprendeu, no centro de Manuel, que é capaz de muito mais do que aqueles que a cercam acreditam. Agora, ela vive com a família e tem ajuda de seu primo Aua para vir todas as manhãs à escola, que antes era apenas para crianças que enxergam. É assim que Manuel quer ver as coisas funcionando.
crianças cegas na GuinéBissau. Os primeiros a se mudarem para lá, em 2000, foram os irmãos foram Suncar, 11 meses, e Mamadi, 6 anos. – Depois que o pai abandonou a família, a mãe foi acusada de ser impura, por ter tido filhos cegos, e expulsa da aldeia, conta Manuel. Junto com sua esposa Domingas, Manuel cuidou dos dois meninos. Deramlhes alimentação, vestuário, cuidados médicos e segurança. O boato sobre o quão bem os irmãos eram tratados por Manuel se espalhou, e mais e mais crianças cegas o procuraram. – Ao mesmo tempo, começamos nossa missão de resgate em que visitávamos as aldeias à procura de crianças cegas ou com outras deficiências, pois sabíamos que muitas delas viviam em risco. Informávamos sobre os direitos da criança e nos oferecía-
mos para cuidar de crianças que precisavam de ajuda. Logo, havia mais de quarenta crianças deficientes visuais em casa conosco! Manuel pagava tudo para as crianças com seu próprio salário e era difícil arcar com todas as despesas. Escola Bengala Branca No lar de Manuel, as crianças eram treinadas para cuidar de si mesmas e ajudar suas famílias ao voltar para casa. Pois a meta de Manuel era que as crianças voltassem para casa e fizessem parte da sociedade.
Elas aprendiam a lavar roupa, lavar pratos, fazer limpeza, vestir-se, cozinhar coisas simples e muito mais. Mas Manuel sabia que as crianças também precisavam ir à escola como todas as outras crianças. Ele insistia constantemente com o governo que uma escola adaptada para deficientes visuais, com professores treinados em Braille, devia ser fundada imediatamente. Ele escreveu cartas, telefonou e visitou autoridades por vários anos. Nada aconteceu. – No final, eles se cansaram
de mim. O governo não planejava fundar uma escola, mas me deu um terreno para construir, acredito que para me calar. Manuel e a AGRICE não tinham quase nenhum dinheiro, mas construíram uma pequena escola simples de bambu e folhas de palmeira, onde as crianças inicialmente se sentavam no chão, sem bancos. Ao mesmo tempo, treinaram professores em Braille. A escola foi concluída em 2003 e recebeu o nome de Bengala Branca, em homenagem aos bastões que pessoas cegas costumam usar.
Bengala Branca A escola de Manuel se chama Bengala Branca. Desde 1950, a bengala branca, que muitas pessoas cegas usam para auxiliar quando caminham, é o símbolo mais comum para os cegos.
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Em missão de resgate Às vezes, Manuel e seus companheiros trocam o jipe por uma carroça puxada por burros para conseguir chegar a uma aldeia onde eles sabem que há crianças com deficiência que passam dificuldades. Chegando à aldeia, Manuel é bem recebido. Quando ele conta que crianças com deficiência têm os mesmos direitos que as outras crianças, os moradores escutam. Ele também fala sobre as causas da cegueira e como evitar danos aos olhos.
– Um dia, o embaixador do Canadá me acompanhou à escola para ver como trabalhamos com nossos alunos. Quando estávamos na sala de aula, uma enorme serpente sinuosa veio pela grama em direção às crianças. O embaixador ficou alarmado e preocupado com a segurança das crianças. Após o encontro com a cobra, a embaixada decidiu nos dar dinheiro para que pudéssemos começar a construir uma escola mais segura para as crianças! Escola mista Hoje, nenhum estudante senta no chão na escola de Manuel. Com o apoio de Portugal e do Canadá, a AGRICE construiu uma escola com seis salas de aula, refeitório, biblioteca, sala de música e duas salas para aula de artes. O ministério da educação da Guiné-Bissau ajuda Manuel com professores. E, hoje, a escola é aberta a todos,
não apenas deficientes visuais. Atualmente, há 70 alunos deficientes visuais e 177 que enxergam na escola. – Para mim, é óbvio que devemos aprender juntos. É uma ótima maneira de quebrar o isolamento das crianças deficientes e fazer as pessoas entenderem que todos nós temos um lugar na sociedade. Todos temos valor. Inicialmente, muitas famílias com filhos cegos sentiam que era estranho permitir que
seus filhos estudassem conosco, mas agora temos reputação como uma das melhores escolas do país, e muitos querem vir para cá, afirma Manuel. As 250 crianças de Manuel Faz 16 anos que Manuel cuidou dos irmãos órfãos Suncar e Mamadi. Mais de 250 crianças cegas foram ajudadas da mesma forma desde então. Hoje, 41 pessoas trabalham na AGRICE e dão às crianças
cegas um lar, alimentação, cuidados médicos, oportunidade de ir à escola, segurança e amor. As crianças não precisam pagar nada. A maioria se reúne com suas famílias depois que Manuel informou e preparou exaustivamente as aldeias sobre a melhor forma de cuidar de crianças com deficiência visual. As crianças vêm de famílias pobres e recebem apoio contínuo da AGRICE depois de voltar para casa, a fim de continuarem os estudos e terem uma boa vida. Hoje, 37 crianças vivem no lar de Manuel, mas logo haverá mais, pois ele e a AGRICE continuam saindo em missões de resgate para aldeias remotas.
Quer ficar bonito! – Quando minha esposa Domingas não está aqui para me ajudar a escolher roupas bonitas, eu uso este aparelho que diz qual é a cor da peça de roupa contra a qual é posicionado. Desta forma, minhas combinações de cores não são loucas! Foi Domingas quem me ensinou quais cores combinam entre si, afirma Manuel, rindo.
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– Embora muito tenha melhorado para crianças deficientes desde que começamos a trabalhar, ainda há muito a fazer. Somos um país pobre, onde muitos não sabem ler porque nunca foram à escola. Portanto, devemos ajudar a informar sobre os direitos de todas as crianças nas aldeias. Adelia foi deixada para morrer por ser cega, e isso aconteceu apenas alguns anos atrás, e eventos semelhantes ainda ocorrem. Portanto, é vital estarmos lá! Como um pai Manuel às vezes fica muito cansado e triste com todas as coisas terríveis que afetam as crianças na Guiné-Bissau. Mas, em vez de desistir, ele se convence ainda mais a continuar seu trabalho. – Nesses momentos, penso em todas as chances que tive na vida, graças a meu pai. Ele era meu melhor amigo e seu amor por mim o fez se esforçar para que eu tivesse absolutamente o melhor cuidado e educação que existiam. Meu pai é meu exemplo. Como ele foi para mim, quero ser para todas as pessoas com deficiência visual que precisam de mim. Como Adelia, por exemplo. Continuarei a lutar por seus direitos e os de todas as outras crianças cegas, enquanto viver. c
Causa da cegueira na Guiné-Bissau As causas mais comuns de cegueira em Guiné-Bissau são: Oncocercose (“cegueira dos rios” ou “mal do garimpeiro”) é uma infecção parasitária causada pela picada de uma mosca preta, encontrada em rios. Em seguida, um parasita produz milhares de larvas venenosas no corpo, inclusive nos olhos. A pessoa tem coceira grave e lesões oculares que muitas vezes causam cegueira. É possível vacinar contra a doença. Tracoma é uma doença infecciosa, na qual bactérias causam uma rugosidade na face interna das pálpebras, criando cicatrizes. Lenta e dolorosamente, a infecção leva à cegueira. Geralmente é transmitida por moscas que tiveram contato
com os olhos de uma pessoa infectada. Doença comum entre crianças que vivem na miséria, em lugares apertados e sofrem com a falta de água potável e instalações sanitárias cobertas. É possível prevenir e manejar com aumento do acesso à água potável, melhor saneamento, medicamentos e cirurgia. Catarata é uma doença que provoca a opacificação da lente do olho. É possível operar. Glaucoma é uma doença que ataca o nervo óptico e causa um aumento da pressão no interior do olho. Não se pode operar para reverter a deficiência visual adquirida, mas o cuidado médico pode ajudar a reter o que resta da visão.
Um único oftalmologista – É possível prevenir e tratar a quase toda a cegueira*. Mas a Guiné-Bissau é um país pobre e há apenas um médico oftalmologista em todo o país. Muitos estão a mais de cem quilômetros de distância do centro de saúde ou hospital mais próximo. As pessoas permanecem cegas por causa da falta de conhecimento e de médicos, e também porque não recebem tratamento a tempo. Quando saímos em missões de resgate, sempre informamos sobre as causas da cegueira
e como prevenir lesões. Por exemplo, que se deve estar atento ao banhar-se e lavar roupa no rio. Encorajamos as pessoas a procurar cuidados médicos e também distribuímos medicamentos gratuitos para as doenças oculares mais comuns. Também informamos pelo rádio, diz Manuel. * 80% da cegueira no mundo é evitável ou tratável.
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Escola para todos Hoje, a escola de Manuel é considerada uma das melhores do país. Ela é usada como um modelo de como crianças com deficiência e sem deficiência podem ir à escola e aprender juntas. Adelia com um garotinho cego. Quando ela nasceu cega, sua mãe a deixou na floresta.
200 milhões de crianças com deficiência De acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU, crianças com deficiência têm os mesmos direitos que todas as outras. Elas têm direito a um apoio extra e auxílio para uma boa vida. Apesar disso, crianças com deficiência estão entre as crianças mais vulneráveis em todo o mundo. Em muitos países, elas não vão à escola, são tratadas como menos dignas e escondidas. Há 200 milhões de crianças com deficiência em todo o mundo.
1,4 milhão de crianças cegas Há 19 milhões de crianças deficientes visuais no mundo. 1,4 milhão são incuravelmente cegas, e há cerca de 500.000 novos casos de cegueira infantil a cada ano. Dos novos casos, metade das crianças morrem em um a dois anos.
O trabalho da organização de Manuel A organização AGRICE: • Faz missões de resgate nas aldeias. Procura por crianças cegas e crianças com outras deficiências, que muitas vezes passam muitas dificuldades. Auxílio no centro de Manuel é oferecido às crianças. • Informa aos aldeões, durante as missões de resgate, que crianças com deficiência têm os mesmos direitos que todas as outras crianças. Também ensina como se proteger contra as doenças oculares mais comuns e distribui medicamentos gratuitos. • Oferece a crianças deficientes visuais proteção, um lar, comida, roupa e segurança no centro. Ali, cada criança também é treinada para vestir-se, lavar-se, limpar a casa, lavar os pratos, lavar roupa,
cozinhar alimentos simples e outras coisas, para ser capaz de cuidar de si mesma no futuro e ajudar sua família ao voltar para casa. • Fornece às crianças assistência médica e cirurgia ocular, quando é possível operar. • Administra uma escola que é primeira adaptada para deficientes visuais no país, mas é aberta a todos. A AGRICE ajuda a adaptar escolas regulares em todo o país para acomodar crianças com deficiências diversas e ensina Braille a professores. • Auxilia as crianças a se mudarem de volta para casa. Eles preparam as famílias e vizinhos das crianças, e professores nas aldeias antes dessas crianças voltarem, a fim de que sejam bem recebidas. Se não for possível
reunir a criança com sua família, eles ajudam a criança a conseguir uma família de acolhimento. Uma criança nunca deixa o centro de Manuel até que se saiba que ela criança irá para um ambiente seguro. • Ajuda crianças com as taxas e uniformes escolares muito tempo depois de terem deixado o centro de Manuel, para que possam continuar a ir à escola e ter uma boa vida. • Informa toda a comunidade que crianças com deficiência têm os mesmos direitos que todos. Manuel fala no rádio e a AGRICE publica uma revista. Eles lutam para que o governo a ratifique (assine) a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
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Muitos amigos – Estou no quarto ano na escola de Manuel. Eu trabalho tanto com Braille quanto com o alfabeto regular. Na minha escola há crianças que enxergam e crianças cegas. Muitas vezes, aqueles que enxergam ajudam os demais, dizendo- nos o que o professor escreveu no quadro, quando ele o faz. Tenho muitos bons amigos que enxergam, conta Samuel, sentado ao lado Otinelo e Assanato.
– Fui abandonado pelos meus pais porque eu era cego. Porém, um dia Manuel chegou à aldeia e me levou. Ele cuidou de mim de uma forma que meus próprios pais nunca tinham feito. Graças a ele, eu agora até enxergo de um olho! Tenho Manuel como meu pai e o amo, diz Samuel, 12, que vive no centro de Manuel e sonha ser jogador de futebol profissional em Portugal.
Se ajudam – Costumo realizar tarefas para Manuel. Às vezes, ele me pede para ajudá-lo quando sai do centro. Nessas ocasiões, ele coloca a mão no meu ombro e vamos juntos. É bom poder ajudá-lo, afirma Samuel.
Ama desenhar – Eu gosto de desenhar e o faço todos os dias. Branco é minha cor favorita. Para funcionar, eu preciso do papel muito perto do meu olho ao desenhar, diz Samuel.
S
amuel nasceu em uma família pobre formada pela mãe, pai, e seu irmão Solomon, que é amblíope. Quando o pai percebeu que Samuel era completamente cego, ele abandonou a família. Como muitas outras pessoas, ele acreditava que não fazia sentido ter filhos cegos, porque eles não podem ir à escola nem ajudar nos campos. – Minha mãe trabalhava nos campos, e sempre que conseguia trabalho, ela deixava meu irmão e eu com vizinhos da aldeia. Às vezes, minha mãe ficava fora por
semanas seguidas, conta Samuel. Os vizinhos não cuidavam bem dos irmãos. Samuel e Solomon ficavam famintos, nus, sujos e eram espancados frequentemente. Samuel, que era apenas um bebê, ficava deitado no chão, e Solomon cambaleava pela aldeia sem ninguém acompanhando. – Não sei por que minha mãe não me levava nas costas quando trabalhava. Se uma mãe tem um filho que enxerga, é óbvio que ela o leva e amamenta. Não foi assim comigo, e eu não me sentia
bem de ser deixado sozinho. Eu chorava o tempo todo.
TEXTO: ANDREAS LÖNN FOTOS: KIM NAYLOR
Samuel conseguiu a visão!
O resgate de Manuel Manuel ficou sabendo que havia dois menininhos cegos que estavam sofrendo na aldeia e partiu em seu jipe em uma missão de resgate. – Ele me levou e a Solomon para morar com ele no centro. Não me lembro de nada da época na aldeia, pois tinha apenas um ano, mas Manuel nos conta nossa história para que possamos entender por que estamos em seu centro. No início, Samuel chorava muito. Mas Manuel e sua esposa, Domingas, cuidavam dele como seu próprio filho. Ele era alimentado várias vezes ao dia e recebia muito carinho. Um dia, ele parou de chorar; quando chegou a hora, começou a estudar na escola de Manuel. Manuel 79
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Meus irmãos
reconheci. Foi uma sensação estranha. Foi Manuel que cuidou de mim quando eu precisei. Ele comprou roupas e sapatos, sabonete, shampoo, comida... até mesmo biscoitos e doces, às vezes. Ele me confortou quando eu estava triste. Eu tive amor. Sem ele, eu nunca teria ido à escola ou passado por uma cirurgia e conseguido enxergar. Tenho Manuel como meu pai e o centro como minha casa. E as outras crianças como meus irmãos.
– Eu, Jamie e Djibi dividimos o quarto. Somos como irmãos. Dá uma sensação de segurança ter uns aos outros. Todas as manhãs eu ajudo Jamie, que é totalmente cego, a buscar um balde de água para que ele se lavar e escovar * os dentes, conta Samuel.
Samuel, 12 Ama: Carros. Detesta: Insetos. Melhor coisa que aconteceu: Manuel cuidou de mim e me deu a oportunidade de enxergar. Pior coisa que aconteceu: eu estava abandonado quando eu era pequeno. Admira: Manuel! Quer ser: Jogador de futebol profissional no clube português Porto. Sonho: Ter uma picape Toyota incrível.
Meu irmão e eu – Manuel salvou a mim e a meu irmão mais velho, Solomon. Quando pequeno, eu pensava que Solomon enxergasse, porque ele andava muito bem sem esbarrar nas coisas. Mas após a operação, eu puder perceber que ele era cego. Isso me deixou muito triste, diz Samuel. Quando Solomon era pequeno, ele enxergava um pouco, mas pouco a pouco ele ficou total mente cego.
arranjou para Samuel, assim como todas as outras crianças no centro, passar por exames oftalmológicos extensos. Os médicos descobriram que ele tinha catarata em um olho e quiseram tentar operá-lo. – Eu tinha oito anos e fora cego por toda a minha vida, portanto não conhecia a aparência de nada. De repente, pude enxergar com um olho, e a primeira coisa que vi foi o ventilador de teto sobre minha cama de hospital. Fiquei apavorado! Mas Domingas estava lá e me confortou. Conseguir enxergar Quando Samuel se levantou da cama e desceu as escadas do hospital, ele estava tão feliz que ficou correndo lá fora em volta do pátio do hospital. As enfermeiras tentaram pegá-lo, mas não conseguiram! – Tudo era diferente do que
Escola de todas as crianças!
eu tinha imaginado. Por exemplo, Manuel era muito maior do que eu pensava! Minha vida ficou muito mais simples após a cirurgia. Não preciso mais sentir tudo pelo tato o tempo todo nem temer cair e me machucar ou ser atropelado, e posso ir à loja fazer compras! Mudar de casa? Enquanto Samuel e Solomon estavam no centro, Manuel lutava para fazer contato com os pais dos meninos. Agora que sabem que Samuel enxerga, e o quanto Solomon aprendeu, os pais querem que os irmãos se mudem de volta para casa. O objetivo de Manuel que as crianças morem com suas famílias sempre que possível. Mas Samuel não está tão convencido. – Após a cirurgia, a mãe veio aqui me visitar. Ela não me reconheceu e eu não a
Profissionais de futebol O desejo de Samuel é morar com Manuel mais alguns anos. Depois, ele sonha se mudar para muito, muito longe... – Eu amo o futebol e meu maior sonho para o futuro é ser jogador de futebol profissional no grande clube português Porto. Um dos jogadores da equipe é de Guiné-Bissau, mas meu jogador favorito é Ronaldo. Se eu me tornar estrela de futebol na Europa, vou, ao mesmo tempo, jogar futebol eu amo e ganhar muito dinheiro. Eu construiria uma casa bonita e teria uma picape Toyota incrível. É o meu sonho.
“Eu e Samuel somos amigos. Nós sempre jogamos futebol no intervalo e nos ajudamos mutuamente quando temos tarefas difíceis de matemática e ciências. Em nossa escola, há crianças cegas e que enxergam. Eu realmente não acho que haja qualquer diferença. Somos todos iguais. Para mim, é óbvio que crianças cegas devem frequentar a escola. Na Guiné-Bissau, às vezes ocorre de crianças que têm uma deficiência terem mais dificuldade de ir à escola porque as escolas não estão adaptadas às necessidades das crianças. Isso é errado. Todas as escolas deveriam ser adaptadas para que qualquer pessoa possa frequentá-la, como ocorre com a nossa escola. Se você não vai à escola, será difícil conseguir um emprego e cuidar de sua família. Quando crescer, eu quero ser professor.” Germindo, 15
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á um jogo de futebol emocionante entre meninas e meninos no pátio da escola. Manuel é o treinador da equipe dos meninos, “Grilo”, e grita instruções para Samuel, que é o capitão. Ao lado de Manuel está Augusto Silva, que é professor de inglês e treinador da equipe das meninas, “N’goringor” É como um jogo normal de vida e morte! – Quase todos os jogadores são cegos. Por isso, usamos
Julio, 14 Equipe: Grilo Posição: Meiaatacante Jogador favorito: Messi Clube preferido: Barcelona
uma velha garrafa plástica de refrigerante como “bola”, pois precisamos ouvir a bola para jogar. Se usarmos uma bola de futebol padrão, precisamos colocá-la em um saco plástico para que possamos ouvir o farfalhar. Eu gosto mais da bola que da garrafa! Temos que jogar aqui no pátio, que tem muros em todo seu entorno, para que todos tenham ideia de onde está a bola, explica Samuel. Até mesmo os dois treina-
Samuel, 12 Equipe: Grilo Posição: Meiocampista e capitão da equipe Jogador favorito: Messi Clube preferido: Porto
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Ussai, 12 Equipe: N’goringor Posição: Meiocampo Jogador favorito: Messi Clube preferido: Barcelona
dores cegos escutam a bola para poder dar suas instruções para os jogadores. – Hoje os rapazes saíram vitoriosos por 7-4, mas da próxima vez os venceremos! diz Domingas, rindo.
Melhor modelo de bola de futebol!
Solomon, 16 Equipe: Grilo Posição: Goleiro (guarda-redes) Jogador favorito: Ronaldo Clube preferido: Real Madrid e Benfica
Anna Maria, 18 Equipe: N’goringor Posição: Zagueira Jogador favorito: Ronaldo Clube preferido: Porto
Minha bola de futebol favorita em um saco plástico.
TEXTO: ANDREAS LÖNN FOTOS: KIM NAYLOR
Vamos lá, Samuel!
Ouvem futebol – Nós acompanhamos todos os campeonatos europeus ouvindo pelo rádio. Geralmente fazemos isso todos juntos. Manuel é, talvez, o ouvinte mais interessado! conta Julio. Futebol que se ouve!
Domingas, 14 Equipe: N’goringor Posição: Goleira (guarda-redes) Jogador favorito: Ronaldo Clube preferido: Real Madrid
Djibril, 12 Equipe: Grilo Posição: Atacante Jogador favorito: Ronaldo Clube preferido: Benfica
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Manuel em missão de r A poeira gira atrás do jipe de Manuel quando ele passa nas estradas esburacadas entre aldeias. Ele está em missão de resgate, para defender os direitos das crianças com deficiência. E salvar suas vidas.
–
N
ós saímos em missões de resgate de dois em dois meses. Se tivéssemos recursos, o faríamos mais frequentemente, porque a necessidade é muito grande. Em muitas partes do nosso país, crianças com deficiência vivem em constante perigo para suas vidas. A maioria das pessoas em áreas rurais está muito distante de hospitais que têm conhecimento sobre crianças com deficiência. Muitas
dessas pessoas são pobres e nunca foram à escola. Portanto, elas têm dificuldade em compreender informações escritas sobre os problemas de seus filhos. Assim, crianças com deficiência ainda podem ser vistas como demônios ou serpentes que devem ser deixadas na floresta. É por isso que nosso socorro é tão importante. Nós educamos aldeias e famílias sobre os direitos das crianças com deficiência, e, então, ofe-
Braima – o menino se Não só crianças deficientes visuais – Nós não ajudamos apenas crianças com deficiência visual. Recebemos dicas sobre crianças com muitas deficiências diferentes, que têm dificuldades físicas e mentais em suas aldeias. Todas as crianças têm direito a uma vida boa e sempre tentamos garantir que as crianças recebam cuidados adequados. Braima passará por exames no hospital e depois receberá educação no centro. Também treinaremos sua mãe sobre a melhor forma de cuidar de Braima. A mãe receberá algumas cabras para que possa começar reproduzi-las e vender e para se sustentar. Geralmente não trabalhamos com esse tipo de ajuda, mas aqui temos que ajudar, afirma Manuel.
Manuel recebeu uma dica sobre um menino que precisa de ajuda em uma aldeia remota. Quando chega, ele é recebido por Djenabu, uma mãe triste e preocupada que vê seu filho Braima, 8, deitado e se arrastando no chão. Com a ajuda dos braços, ele tenta arrastar o corpo pelo quintal. Embora as crianças vizinhas estejam jogando futebol a poucos metros de distância, é impossível para Braima participar do jogo. Sua mãe, Djenabu, conta: “Braima tem um problema no pescoço e não consegue ficar de pé sozinho. Eu realmente não sei
o que há de errado. Meu marido me deixou quando nosso filho nasceu. Ele disse: ‘Isso não é meu filho. Isso é uma cobra rastejando’. Alguém precisa me ajudar a explicar ao meu marido que ele está errado. Nosso filho é um ser humano, não uma cobra. É difícil para mim sustentar Braima sozinha e ter comida suficiente para nós. Estou muito preocupada com
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e resgate recemos cuidado, moradia e educação em nosso centro para essas crianças, diz Manuel. 16 trabalhadores de campo Manuel e sua organização, AGRICE, têm 16 trabalhadores de campo em todo o país. Eles visitam aldeias e comunidades para procurar crianças cegas e crianças com outras deficiências. Manuel tem parceria com igrejas, mesquitas, líderes tradicionais e autoridades locais.
no serpente
o futuro, mas Manuel prometeu que vai me ajudar. Manuel diz que, se meu filho receber os cuidados certos, ele eventualmente poderá cuidar melhor de si mesmo. Ele pode ter uma vida boa sem ter que lutar como faz agora. Esse é meu maior desejo. Manuel também acredita que
Eles contatam a AGRICE quando sabem que há crianças que precisam de ajuda, e é então que Manuel sai em missões de resgate. Antes de cada visita, ele contata as autoridades locais e explica o que deseja fazer. A AGRICE também precisa de permissão das autoridades para trazer crianças ao centro de Manuel.
Braima sonha em poder brincar com as outras crianças quando elas fazem algazarra.
Às vezes, Manuel tem que continuar a viagem em uma carroça. Quando ele chegar à aldeia haverá uma reunião sobre crianças com deficiência e seu direito a uma boa vida.
Abdulai terá chance Uma semana atrás, Manuel saiu em missão de resgate. Ele visitou a aldeia de Abdulai, 4, e agora Abdulai e seu pai estão no centro de Manuel há um dia. – Sou muito grato a Manuel dar esta chance ao meu filho! Abdulai vai aprender coisas que seriam impossíveis em casa, na aldeia. Coisas importantes para a vida. Como um cego pode se cuidar na vida cotidiana. E, não menos importante, poder ir à escola! Quando Abdulai concluir a escola de Manuel, o plano é que ele volte para casa. Minha família e eu vamos visitá-lo aqui no centro sempre que pudermos, diz o pai Sene, abraçando Abdulai antes de pegar o longo caminho de volta para casa na aldeia.
Braima pode conseguir ir à escola. Ele prometeu levar meu filho para que ele possa ser examinado e obter a ajuda de que precisa. Braima também poderá morar no centro de Manuel. Isso me deixa muito feliz!”
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Adelia foi deixada para morrer – Nunca me esquecerei do momento em que peguei a pequena Adelia em meus braços pela primeira vez. Ela estava muito fraca e coberta de sujeira, pulgas e picadas de insetos. Nenhum de nós pensou que ela sobreviveria. Ela havia sido deixada na floresta para morrer só por ser cega. Fiquei com tanta raiva que não consegui dormir por vários dias. Agora Adelia tem nove anos e eu a amo, diz Manuel ao contar a história de vida de Adelia:
Q
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“
uando Adelia nasceu e seu pai descobriu que ela era cega, imediatamente ele disse que a filha não era sua e abandonou a família. A jovem mãe de Adelia não sabia o que devia fazer. Ela deixou Adelia sozinha na floresta, sem água nem comida. Adelia estava nua e sem proteção contra cobras, cães, chuva e o sol escaldante. Alguns pastores passaram pelo local onde Adelia havia sido abandonada. Eles viram o pequeno corpo deitado imóvel no caminho. Como Adelia havia gritado e lutado por muito tempo, não produzia mais nenhum som. Ela não tinha forças. Os pastores
estavam convencidos de que a menina estava morta quando, de repente, ela se moveu um pouco. Eles pegaram Adelia com cuidado e correram para a estação de uma missão católica nas proximidades. Em nome das crianças As freiras me contataram e nós cuidamos de Adelia. Ela estava totalmente coberta de terra e muito fraca. Demoslhe comida e bebida, e a levamos ao hospital para que fosse medicada corretamente. Como que por milagre, ela voltou à vida. Nós sempre tomamos medidas em relação às crianças e tentamos assegurar que aqueles que cometeram cri-
Manuel não desaponta ninguém – Nunca enviamos uma criança de volta para casa, a menos que saibamos que ela será bem cuidada, afirma Manuel.
mes sejam levados à justiça. Por isso, fui à polícia e relatei o que havia acontecido com Adelia e quis que eles prendessem os pais. Mas não aconteceu absolutamente nada. O sistema jurídico não funcionava bem no país, que ainda estava devastado por golpes e guerras. Além disso, a polícia não leva a sério os crimes contra crianças deficientes. Procurei por toda parte Decidi tentar localizar os pais eu mesmo. Andei dezenas de quilômetros por estradas entre pequenas aldeias, com fome e passando a noite onde fosse possível. Depois de algum tempo, todos disseram
Coisas favoritas
que devia desistir, mas eu quis continuar. Finalmente encontrei a mãe de Adelia, que era muito jovem. Porém, antes que pudéssemos chegar a algum tipo de solução, ela desapareceu. De vergonha. Desde então, ela está desaparecida. Eu a perdoei, pois creio que todos nós podemos cometer erros. Mas isso mostra o quão importante é nosso trabalho de explicar que crianças cegas e outras crianças deficientes têm os mesmos direitos que todas as outras. O mais importante é que Adelia está viva, e que podemos ajudá-la a ter uma boa vida. Quando estou com ela, eu fico feliz. Ela é engraçada e faz muitas piadas. Eu a amo!”
– As minhas coisas favoritas são essas pequenas panelas, tigelas e talheres de brinquedo que ganhamos de Manuel no Natal do ano passado, conta Adelia.
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Duas brincadeiras que Adelia, Cadi e os outros sempre brincam juntos: Correrer! = Corra! Todos correm dando várias voltas em círculo enquanto o líder da brincadeira grita “Corra!”, “Corra!”. De repente, o líder grita um desafio, por exemplo: “Sente-se!” “Emparelhem-se dois a dois!” “Quatro a quatro!” e assim por diante. As crianças saem uma a uma. Terra e Mar As crianças tiram os sapatos e os colocam em uma linha, que é o limite entre a terra e o mar. Um líder da brincadeira grita “terra” ou “Mar” e todos os alunos devem pular ou ficar onde estão, de modo que fiquem do lado certo da fronteira. A última pessoa a mudar para o lado certo, ou quem fica do lado errado, sai. No final, sobra apenas uma pessoa.
N’guende é professora e aluna O maior sonho de Adelia é ser professora na escola de Manuel, assim como N’guende, que mora com Manuel desde que tinha 10 anos... “Minha mãe morreu quando eu era pequena, então a avó cuidou de mim. Fiquei cega aos três anos. Não havia escola para crianças cegas onde morávamos, mas um dia, quando eu tinha dez anos, Manuel veio e conversou com minha avó. Ele disse que podia me ajudar. Eu finalmente consegui começar a frequentar a escola! Agora já moro aqui no centro há dez anos e ajudo a cuidar das crianças menores. Lembro-me de como recebi a ajuda de Manuel e sua esposa Domingas quando eu era pequena. Agora quero proporcionar a mesma sensação às crianças que se mudam para cá. Que sintam-se seguras e amadas. Somos como uma família e eu sou como sua irmã mais velha. No período da manhã, eu sou professora auxiliar de Adelia e das
outras crianças. Eu as ensino a ler, escrever e contar usando Braille. Na parte da tarde eu frequento a escola como aluna. Eventualmente, quero me formar verdadeiramente como professora. Meu sonho é ser professora na escola de Manuel futuramente. Mais tarde na vida, quero formar minha própria família, embora eu nunca vá esquecer a minha família aqui no centro. Manuel e Domingas são meus pais. No meu coração é assim.” N'guende, 20 anos
O guarda-roupa de Adelia – Eu gosto muito de roupas. Manuel me dá todas as minhas roupas. Mas é a “irmã mais velha” N’guende que cuida de nossas roupas e do nosso quarto, Adelia diz, rindo.
Eu vou para a escola vestida assim...
... e meus sapatos favoritos, porque são muito confortáveis!
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O dia de Adelia na cas a No momento, 37 crianças vivem no centro de Manuel. Algumas estão quase concluindo a escola e sua formação e têm a oportunidade de voltar a morar com suas famílias. Também há crianças como Adelia, que têm o centro como lar. – Sinto-me segura aqui e eu vou morar aqui toda a minha vida, este é meu lar, afirma Adelia, rindo. 05h00 Bom dia!
06h30 Giri-giri para a escola de Manuel
– Toda manhã N’guende me acorda. Nós dormimos no mesmo quarto, quatro crianças e N’guende. Ela é como uma irmã mais velha. Somos todas cegas. Primeiro, eu faço minha cama, depois, vamos para o banheiro, nos lavamos e escovamos os dentes. Então, visto meu uniforme escolar. N’guende nos ajuda a escovar o cabelo, pusemos Adelia.
– N’guende confere se pusemos todas as nossas coisas na bolsa da escola e nos coloca no ônibus escolar, chamado “giri-giri”. No ônibus, nós cantamos juntos, conta Adelia.
08h00 A aula começa 10h00 Intervalo para o desjejum
TEXTO: ANDREAS LÖNN FOTOS: KIM NAYLOR
– Também como meu desjejum, pão e suco, na escola. O cheiro de pão é meu aroma favorito! No intervalo, nós brincamos, é a melhor coisa de toda a escola! Cadi, 7, colega de Adelia, concorda: – Nós dançamos, cantamos e brincamos juntas, as crianças cegas e nós, que enxergamos. É bom estarmos todos juntos na escola, porque somos amigos!
Na classe de Adelia, há crianças cegas e crianças que enxergam. – Eu amo a escola e quero ser professora na escola de Manuel, diz Adelia.
12h00 Fim do dia na escola – Quando as aulas terminam, tomamos o giri-giri de volta para casa, diz Adelia.
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as a de Manuel
13h30 Brincadeira e soneca
13h00 Almoço e lavar pratos – Quando chegarmos a casa, trocamos de roupa e almoçamos. Eu lavo os pratos quando é a minha vez no revezamento programado. No centro de Manuel, tarefas domésticas como lavar pratos, cozinhar, limpar e fazer a cama são parte do treinamento para conseguir cuidar de si mesmo e ajudar a família ao voltar para casa. O objetivo de Manuel é que as crianças cegas possam viver como todo mundo. Aqui, Adelia, Nafi, Domingas e Djuma lavam pratos.
17h15 Banho
– Depois do almoço, eu brinco com meus amigos. Somos como irmãos, pois moramos juntos. Todos os meus amigos são belos e bons. Eu sei como é a aparência deles, porque os senti. Nós jogamos futebol, dançamos e cantamos. Quando terminamos de brincar, tiramos a soneca da tarde todos juntos, conta Adelia, enquanto sente o rosto de Nafi para saber sua aparência.
18h00 Jantar
20h00 Djumbai – Reunião da Noite
– Sempre temos boa comida! Meu prato favorito é peixe com óleo de palma, afirma Adelia.
– Toda noite, fazemos Djumbai e cantamos e dançamos juntos. Depois, N’guende sempre conta alguma história, muitas vezes da Bíblia, diz Adelia.
Ama manga! – Ontem, quando o pai Manuel voltou para 21h00 Boa noite, Adelia! casa de uma viagem, ele – N’guende vem e nos diz boa noite trouxe manga. Eu adoro antes de dormir. Isso nos faz sentir o sabor de manga! seguras, conta Adelia.
Piloto é feio! – Todos os meus amigos são bonitos, mas também temos um cachorro chamado Piloto aqui. Ele é feio! Uma vez, ele me mordeu. Ele queria meus biscoitos! É por isso que eu acho que ele é feio. Mas é gostoso fazer carinho nele, explica Adelia.
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Isabel de nova vida
– Primeiro, eu perdi meus pais. Depois, perdi a visão em ambos os olhos. Todos os meus sonhos foram esmagados. Mas Manuel me deu a chance de uma vida melhor. Agora sinto que posso ser qualquer coisa que eu quiser no futuro! diz Isabel, 14.
E
la mudou-se do centro de Manuel para a casa da família de sua tia, na pequena cidade de Gabu. Lá, ela se tornou a primeira criança com deficiência a frequentar escolas regulares junto com as outras crianças na cidade. É assim que Manuel deseja que a vida seja para todas as crianças de quem ele cuida. “Cresci com a minha mãe em uma pequena aldeia. Meu pai morreu quando eu era bebê. A mãe vendia óleo de palma e hortaliças no mercado. Nós nunca tínhamos comida suficiente, mas eu recebia muito amor da mãe. Minha mãe também estava doente e foi piorando cada vez mais. Geralmente era eu
que tinha de limpar a casa, lavar a roupa e ir ao mercado para vender, porque a mãe não conseguia. Muitas vezes eu ficava com tanto medo que chorava. Éramos apenas minha mãe e eu. Um dia, quando eu estava fora brincando com meus amigos, meus pesadelos acabaram se realizando. Um vizinho veio correndo e me avisou que minha mãe tinha morrido. Corri para casa e vi que a casa estava cheia de gente chorando. Eu me encolhi com minha mãe na cama e a abracei muito, muito forte. Não conseguia parar de chorar. Ficou cega Meus tios moravam com suas famílias na vizinhança, então
eu não estava completamente sozinha. Mas eles eram muito pobres e nunca houve comida suficiente para todos. Eu também havia adoecido, mas eles não cuidaram de mim. Eu só ficava deitada em um canto sentindo-me excluída. Sentia que eles não me amavam. Minha tia Djenabo ficou sabendo da minha situação e veio me buscar para morar com ela e minha avó aqui em Gabu. Eu comecei a frequentar escola e tinha comida suficiente. Mas eu continuei doente e sentia uma terrível dor no corpo todo. Chegou um ponto em que eu não conseguia andar. Também comecei a ficar confusa, por isso minha tia me levou para o hospital. Um dia, quando estava lá, de repente não consegui mais enxergar. Entrei em pânico e gritei, mas os médicos não puderam fazer nada. Eu tinha ficado cega. De ambos os olhos. Pensei imediatamente que agora tudo estava acabado. Não havia nenhuma possibi-
Isabel, 14 Ama: Ir à escola. Detesta: Ser obrigada a ficar em casa e sentir-me inútil.
Melhor coisa que aconteceu: Manuel ter me ajudado.
Pior coisa que aconteceu: Ter perdido tantas coisas na vida. Admira: Manuel! Quer ser: Algo importante. Sonho: Fazer algo significativo.
lidade de eu continuar na escola. Antes, eu havia planejado concluir meus estudos da melhor maneira possível e, mais tarde, conseguir me tornar médica, professora ou outra coisa importante. Poder ganhar dinheiro e cuidar de mim e da minha família. Agora, todos os meus sonhos
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Faz compras – Aua e eu geralmente vamos juntas ao mercado fazer compras. Ela me diz o que há para comprar e me avisa dos carros e motocicletas. Sem a ajuda de Aua, ficaria perdida, afirma Isabel.
estavam destruídos. Como eu iria sobreviver? Eu apenas chorava e chorava. Foi tão ruim quanto eu imaginara. Eu não podia ir à escola, e apenas ficava deitada pela casa. Até mesmo minha família achava que uma criança cega não poderia ter nenhuma utilidade. Por meses, eu permaneci assim. Inativa, solitária e sem amigos. Minha tia e a prima Fatinja me davam banho e trocavam minhas roupas. Elas até mesmo me alimentavam. Eu me sentia totalmente inútil. Veio ao centro de Manuel Quando eu havia ficado deitada e apática por três meses, um homem veio até nós e se apresentou como Manuel. Ele disse: “Sou cego como você. Eu posso ajudá-la. Se vier comigo para Bissau, você pode voltar para a escola. E quando terminar a escola, você poderá encontrar um bom emprego e começar a trabalhar como todo mundo.
Tenha-me como exemplo. Eu também sou cego, mas isso funciona! Porém, você terá que lutar muito por isso.” Eu não me convenci totalmente com o que ele disse, mas me senti disposta a correr o risco. Manuel também
conversou com a família. Eles nunca tinham ouvido falar que pessoas cegas poderiam frequentar a escola, ler, escrever, contar e ajudar em casa, e tiveram dificuldade de acreditar nisso, mas, depois de conhecer Manuel, souberam
que ele dizia a verdade. Manuel me levou primeiro a um hospital na capital para que eu pudesse obter os medicamentos certos, não para enxergar, mas para que meu corpo ficasse saudável. Em seguida, me mudei para o centro de Manuel. Não está sozinha Conheci muitas outras crianças cegas no centro. Antes, achava que somente eu tinha
Relógio que fala – A melhor coisa que tenho é um relógio que ganhei de Manuel. Ao se pressionar um botão, uma voz diz que horas são. O relógio também diz quando é hora inteira e meia. Eu preciso saber o horário para ter um bom controle sobre meu dia, por exemplo, quando é hora de orar e quando é hora de ir à escola, diz Isabel. Ela também ganhou óculos de sol e uma bengala de Manuel.
Obteve uma nova vida – A primeira vez que encontrei Isabel, ela estava deprimida e sentia que não tinha vida. Mas com o tempo as coisas melhoraram muito. Hoje, ela é “ Isabel de vida nova!” diz Manuel, rindo.
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O nome de Isabel em Braille.
Um verdadeiro membro da família
Isabel lê o dever de casa em Braille.
sofrido coisas difíceis. Agora conheço muitas pessoas com problemas semelhantes, e isso significava que não me sinto tão sozinha. Nós brincamos, dançamos e cantamos juntos. No centro, aprendi a lavar roupa, lavar pratos, limpar a casa, lavar-me e cuidar de crianças mais jovens. Aprendi a cozinhar coisas simples e servir aos outros. De repente, eu não era uma pessoa inútil que não conseguia fazer nada por ser cega. Voltei a ser mais como uma pessoa normal. Ao mesmo tempo, comecei a estudar na escola de Manuel. Aprendi a ler, escrever e contar, através do Braille. Foi uma sensação incrível, e fiquei muito feliz! De volta à casa Após alguns meses, Manuel disse que sua organização, AGRICE, ajudou a adaptar uma escola na minha cidade natal, para que crianças cegas
pudessem estudar lá com todos os outros alunos. Entre outras coisas, eles ensinaram Braille aos professores. Ele também me contou que visitou minha família e os preparou para que eu pudesse voltar para casa. Embora gostasse muito do centro de Manuel, eu queria voltar para a casa de minha família. Sentia saudades de todos. Já estou em casa há quase um ano. Há muito amor na minha família, e eu ajudo em quase tudo na casa. Sinto-me como um verdadeiro membro da família que tem tarefas participa. E vou bem na escola! Sinto-me confortável na classe e tenho muitos amigos. É ótimo ir a uma escola com crianças cegas e crianças que enxergam. Acho que nós, que temos deficiência, devemos frequentar escolas regulares e viver com nossas famílias. Nós pertencemos à comunidade e queremos estar com todos! No futuro, quero fazer algo que tenha significado, como ser professora. Após o tempo que passei no centro de Manuel, acredito que posso ser qualquer coisa!”
– Quando fiquei cega, eu não participava de nenhuma tarefa em casa. Sentia-me inútil e não como um membro da família. Mas depois do período no centro de Manuel, isso é diferente. Agora eu ajudo e participo de tudo que a família faz! conta Isabel, rindo.
Tarefas de Isabel Estar juntos – Nas tardes e noites nós geralmente brincamos ou sentamos juntos e conversamos, diz Isabel, aqui pulando elástico com primos e vizinhos.
A amiga de Isabel no centro de Manuel “Isabel era minha melhor amiga aqui no centro. Nós éramos como irmãs. Manuel a ajudou a voltar a morar com sua família e ela frequenta a escola lá. Fiquei triste quando ela se mudou, e ainda sinto sua falta. Mas logo ela virá nos visitar. Vim para cá quando tinha cinco anos, porque a escola onde eu morava não aceitava crianças cegas. Eu não queria sair da casa de meus pais, mas agora eu gosto muito daqui,
tenho muitos amigos e tive a chance de estudar. Meu sonho é ser advogada e lutar pelos direitos da criança. Sei que foi certo Isabel voltar para casa agora. Acho que terei uma educação melhor aqui no centro de Manuel, mas quando a concluir, eu sei que ele vai me ajudar voltar para casa, também.” Domingas, 14
Vestida para a escola... ... meus belos óculos de sol...
Gosta de moda – Lembro-me um pouco da aparência das coisas. Lembro que verde é a cor das folhas da mangueira. Verde é minha cor favorita, mas também gosto de rosa, amarelo e laranja. Para mim, é importante estar limpa e bonita, ter belas roupas e o cabelo arrumado. Assim como todas as outras pessoas. Não quero ser alguém que não é bonita só porque eu sou cega. Gosto de roupas e gosto de
Este é o meu guarda-roupa!
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... para o trabalho doméstico...
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moda. É ótimo quando as pessoas dizem que eu estou bem. Fatinja me ajuda a escolher roupas que combinam, mas eu também tenho uma boa ideia. Por exemplo, posso dizer que quero que meus jeans pretos cortados e minha blusa vermelha e preta e meus chinelos vermelhos. Então, é só esperar que as roupas que eu quero estejam lavadas e limpas!
... com as roupas favoritas...
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Faz as camas
Ora com a avó
– Acordo às cinco horas para as orações. É quando faço as camas.
– Visto minha roupa da oração, lavo-me e oro com a avó Fatumata. Peço a Deus por ajuda e apoio na vida. Depois, sinto-me bem em ir à escola.
Cozinha e serve – Eu também ajudo a preparar o jantar, por exemplo, encontrando especiarias. Mas não fico perto do fogo ou das panelas, pois poderia derrubar alguma coisa e me queimar, diz Isabel.
Dou banho em meus primos pequenos
Limpa a casa
Busca água
– Nós limpamos a casa também no fim de semana. Eu varro e esfrego o chão dentro de casa. Fatinja limpa o quintal, porque eu me desoriento facilmente e realmente não sei onde estou.
– Depois da escola, eu busco água do poço e carrego o balde na cabeça na volta.
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