EL GLOBO • LE GLOBE • THE GLOBE • O GLOBO •
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PREMIO DE LOS NIÑOS PRÊMIO DAS CRIANÇAS DEL MUNDO POR LOS DO MUNDO PELOS DERECHOS DEL NIÑO DIREITOS DA CRIANÇA JORDENS BARNS PRIS FÖR BARNETS RÄTTIGHETER
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PRIX DES ENFANTS DU MONDE POUR LES DROITS DE L’ENFANT
THE WORLD’S CHILDREN’S PRIZE FOR THE RIGHTS OF THE CHILD
# 46 • 2008
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Candidatos a
Direitos da Criança O Que é o Prêmio das Crianças do Mundo? ......... 4 Comemore os Direitos da Criança!................................. 8 Como estão as crianças do mundo? .......................... 10 Cerimônia de Premiação 2007 ....................................... 12 Ombudsman das Crianças do Mundo ...................... 14 Premiados anteriores ................................................................ 15
Quente na neve Suplemento da Votação pág. 28
Thanks! Tack! Merci !
¡Gracias! Obrigado!
GROELÂNDIA (Dinamarca)
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CANADÁ REINO UNIDO
À Sua Majestade a Rainha Silvia da Suécia, AstraZeneca, Abraxis BioScience & Los Angeles Friends of the World’s Children’s Prize, Banco Fonder, ABN AMRO Bank, Interoute, Sida, Rädda Barnen, Radiohjälpen, Folke Bernadotte Akademin, Kronprinsessan Margaretas Minnesfond, Helge Ax:son Johnsons Stiftelse, Svenska Naturskyddsföreningen, Dahlströmska Stiftelsen e Boob Design. A Communication Works (Sydafrika), The ForeSight Group, Grenna Polkagriskokeri, Ågerups, Floristen i Mariefred, ICA Torghallen Mariefred, Centas, Euronics Strängnäs, Petter Ljunggren, Lilla Akademien, Gripsholms Slottsförvaltning, Gripsholmsvikens Hotell & Konferens, Grafikens Hus, Maria Printz & Printzens Matverk, Broccoli e Benninge Restaurangskola. A todas as crianças do júri e às Escolas Amigas Mundiais. Aos Amigos Adultos de Honra, Amigos Adultos e organizações membros do Mundo das Crianças e colaboradores. A Nick Booth, Mark Drewell, David Freeman e Geoff Tudhope.
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Aqui estão os países e áreas onde moram as pessoas desta edição do Globo:
Em Bangladesh: Svalorna (The Swallows), SASUS Em Benin: Juriste Echos Consult No Brasil: Grupo Positivo (Portal Educacional e Portal Aprende Brasil), SEMED-Santarém, 5a Unidade Regional de Educação/ SEDUC-PA, SEMED-Belterra, SME-São José dos Campos, SMEAraraquara, ONG Circo de Todo Mundo, Projeto Rádio pela Educação/ Rádio Rural de Santarém Em Burkina Faso: Art Consult et Developpment No Burundi: Maison Shalom Em Camarões: SOS Villages d’Enfants Cameroun, Plan Cameroun Na Costa do Marfim: Ministère de l’Education, CAMUA – Berte Zanga, Unicef Em Gâmbia: Child Protection Alliance (CPA) Em Gana: Ministry of Education, ATWWAR – Ekua Ansah Eshon, Ghana NGO Coalition on the Rights of the Child – Susan Sabaa, Unicef , Integrated Development Centre – Kenneth Wujangi, VRA Schools – Grace Annancy Em Guiné-Conakry: Ministère de l’Education, CAMUE – Kourouma Oumar Em Guiné Bissau: Ministère de l’Éducation Nationale, AMIC Na Índia: City Montessori School Lucknow – Shishir Srivastava, Times of India’s Newspaper in Education, Peace Trust – Paul Baskar, Barefoot College, Tibetan Children’s Villages, CREATE, Hand in Hand No Quênia: Ministry of Education, Provincial Director of Education for Western and Nyanza Provinces, CSO Network for Western Kenya and Nyanza Province – Betty Okero Na República do Congo: ASUDH/Gothia Cup Na República Democrática do Congo: FORDESK, APEC Na Mauritânia: Association des Enfants et Jeunes Travailleurs de la Mauritanie No México: Secretaría de Desarollo Humano Gobierno de Jalisco Em Moçambique: The Department of Education, SANTAC (Southern African Network Against Trafficking and Abuse of Children), Graça Machel No Nepal: Maiti Nepal Na Nigéria: Federal Ministry of Education, The Ministries of Education in
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SERRA LEOA
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Kogi State, Lagos State, Ogun State, and Oyo State, Unicef, Royaltimi Talents Network – Rotimi Samuel Aladetu, CHRINET, Children’s Rights Network – Moses Adedeji No Paquistão: BLLFS, BRIC, PCDP Em Ruanda: AOCM No Senegal: Ministère de l’Education, Ministère de la Femme, de la Famille et du Développement Social, EDEN – Lamine Gaye, Save the Children Sweden, Unicef Na África do Sul: Ministry of Education, National Department of Education, Eastern-, Western- och Northern Cape Departments of Education, North West Department of Education and Department of Social Development, Bojanala Platinum District Municipality and Department of Education, Qumbu District of Education, The Robben Island Museum, Unisa YLC Na Tailândia: Ministry of Education, Duang Prateep Foundation Em Uganda: Uganda Local Governments Association – Gertrude Rose Gamwera, Wakiso District – Ssekyole Deo, BODCO – Nason Ndaireho, GUSCO No Reino Unido: The Children’s Rights Director for England – Roger Morgan, Oasis School of Human Relations No Vietnã: Vietnam Committee for Population, Family and Children – CPFC, Voice of Vietnam – VOV Children’s Programme, Nguyen T. N. Ly, Save the Children Sweden
www.childrensworld.org
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s ao WCPRC 2008
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AGNES STEVENS EUA Pág. 42 – 66
SOMALY MAM CAMBOJA Pág. 67– 91
Skate sem-teto
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Pág. 47 e 58
Rap para a Votação Mundial
PALESTINA ISRAEL PAQUISTÃO SUDÃO
UGANDA ETIÓPIA QUÊNIA KINSHASA RUANDA BURUNDI ZIMBABWE
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JOSEFINA CONDORI PERU Pág. 16 – 41
Bola de futebol de sacolas plásticas
TIBETE NEPAL BIRMÂNIA ÍNDIA BANGLADESH TAILÂNDIA CAMBOJA VIETNÃ
Suplemento da Votação pág. 8
O Júri do Prêmio das Crianças do Mundo De quantos globos você precisa?
MOÇAMBIQUE
Suplemento da Votação pág. 32
ÁFRICA DO SUL
A Votação Mundial Veja o Suplemento da Votação
Global Vote! Världsomröstning Votación Mundial Vote Mondial Votação Mundial
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O GLOBO é uma publicação da ONG Mundo das Crianças com apoio da ASDI (Agência Sueca de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento) e é uma revista para as Escolas Amigas Mundiais. Box 150, 647 24 Mariefred, Suécia Tel. Tel. +46-159-12900 Fax +46-159-10860 e-mail: prize@childrensworld.org www.childrensworld.org
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A dança do Lorde Krishna Suplemento da Votação pág. 5
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Página 92 e no Suplemento da Votação pág. 36–47
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Este é THE WORLD’S CHILDREN’S PRIZE FOR THE RIGHTS OF THE CHILD PRÊMIO DAS CRIANÇAS DO MUNDO PELOS DIREITOS DA CRIANÇA
Diretor de Redação e Editor responsável: Magnus Bergmar Colaboradores dos números 46–47 Johanna Hallin, Tora Mårtens, Carmilla Floyd, Kim Naylor, Andreas Lönn, Paul Blomgren, Lila DoVan, Ragna Jorming, Annika Forsberg Langa, Christiane Sampaio, Carlos França, Sven Rosell, Kent Klich, Elin Berge Ilustrações & mapas: Jan-Åke Winqvist, Lotta Mellgren Formato: Fidelity Tradução: Tamarind (inglês, espanhol, português), Cinzia Gueniat (francês), JaneVejjajiva (tailandês), Chetan Trivedi, Dinesh Singh (hindu). Dr. M.A Jeyaraju (tamil). Também em vietnamita. Controle de linguagem: Kerstin Connor Foto da capa: Tora Mårtens Pré-impressão: Done Impressão: PunaMusta Oy ISSN 1102-8343
VOTAÇÃO MUNDIAL 2008 14 de janeiro – 14 de abril
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”Caro eleitor” é o que está escrito em um muro na zona rural do Zimbabwe. 560.000 crianças do Zimbabwe leram a revista do prêmio, discutiram os direitos da criança e votaram na Votação Mundial pela primeira vez.
Seu prêmio pelos seus d TEXTO : MAGNUS BERGMAR FOTO : PAUL BLOMGREN, LOUISE GUBB, ELIN BERGE ILLUSTR ATION : LOT TA MELLGREN
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uitas escolas trabalham com o Prêmio das Crianças do Mundo durante várias semanas ou meses, em diferentes disciplinas, até mesmo matemática! Uma boa proposta é estudar os direitos da criança e o prêmio na seguinte ordem: 1. Juntos pelos Direitos da Criança Você pode começar aprendendo mais sobre os direitos da criança com a ajuda da revista do prêmio (pp. 8–11) e no site www.childrensworld.org. Se você mora em um país onde há muitas escolas Amigas
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Olá Amigo Mundial! O Prêmio das Crianças do Mundo pelos Direitos da Criança (WCPRC) pertence a você e a todas as outras crianças e jovens menores de 18 anos do mundo! Sua escola (ou grupo) é uma das 33.000 Escolas Amigas Mundiais, com 15 milhões de alunos, em 86 países. E esse número cresce rapidamente. O WCPRC 2008 ocorre de 14 de janeiro a 14 de abril. Mundiais, você receberá junto com as revistas, um folheto informativo sobre a situação dos direitos da criança no seu país. – Graças à revista O Globo, aprendi sobre meus direitos. Eu gostaria que todas as crianças do mundo participassem todos os anos, da Votação Mundial. Sei que muitos adultos em meu país não sabem que os Direitos da Criança existem, diz Massala, de Brazzaville, capital do Congo. – Devemos ensinar aos adultos quais são nossos direitos, diz Adou, da Costa do Marfim. Koffi, da Costa do Marfim, não confia nos adultos: – Nós, crianças, devemos lutar por nossos direitos.
Eles não serão conquistados facilmente. Eu não entendo porque os adultos não respeitam os direitos da criança. – Eu gostaria que existisse um ministro para as crianças. Uma criança ministro se certificaria que nossos direitos fossem respeitados, pensa Coumba, do Senegal. – Muitos adultos não acreditam que as crianças tenham opiniões sobre temas como escola e sociedade, diz Carine, do Brasil. Aishwarya, da Índia, concorda: – Os adultos nos subestimam. Deveríamos ter a chance de expressar nossas opiniões sempre, como fazemos no WCPRC. As crianças são a maior possibilidade de desenvolvimento para o mundo.
Como estão os direitos da criança em sua vida? Em casa? Na escola? No lugar onde você mora e no seu país? Os políticos escutam as crianças? O que deveria mudar? Os adultos tratam bem as crianças, ou alguma coisa deveria ser diferente? Como você e seus amigos podem falar para seus pais, professores, políticos, jornalistas e outros adultos que os direitos da criança não estão sendo respeitados e como as coisas deveriam ser? Ayanda da África do Sul sabe o que dizer: – Vocês, adultos, devem me tratar da mesma forma como queriam ser tratados quando eram crianças! No suplemento da Votação Mundial, você
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Os animais das cédulas de votação
s direitos pode ler mais sobre o que crianças e jovens pensam sobre os direitos da criança, o Prêmio das Crianças do Mundo e a Votação Mundial. Você pode aprender sobre os direitos da criança no mundo, através das experiências de vida das crianças do júri (páginas 36–47, do suplemento, e textos mais completos no site www.childrensworld.org). 2. Conheça as candidatas ao prêmio Depois de estudar e debater sobre os direitos da criança, é hora de conhecer as candidatas ao prêmio desse ano e as crianças por quem lutam. Nas páginas 16–41, você conhecerá Josefi na Condori e “suas” crianças. Nas páginas 42–66, estão Agnes Stevens e “suas” crianças e nas páginas 67–91 temos Somaly Mam e as crianças “dela”. Como você certamente irá perceber, todas as três candidatas ao prêmio promo-
vem ações fantásticas pelas crianças. E os sentimentos e pensamentos das crianças são exatamente como seriam os seus, se você tivesse vivido as mesmas experiências que elas. Elas são como você. Você pode ler a revista do prêmio como dever de casa. Pode fazer uma exposição ou peça teatral sobre as candidatas ao prêmio e os direitos da criança. Quem sabe uma ”viagem” como repórter, aos países das candidatas. No Manual do professor e na seção do site do prêmio dedicada aos professores, seu professor pode encontrar mais idéias sobre como trabalhar com o WCPRC. Para fazer uma escolha justa, você precisa conhecer bem todas as candidatas ao prêmio e as crianças pelas quais elas lutam. Serão concedidos três prêmios: Global Friends’ Award (Prêmio dos Amigos Mundiais) Seu prêmio e o de todas as outras crianças votantes. Na primeira Votação Mundial, em 2001, votaram 19.000 crianças. Em 2007, 5,2
Meninas de Velankanni, na costa leste da Índia, que perderam seus pais e irmãos na tsunami, preparam sua Votação Mundial.
milhões de crianças votaram. Será que teremos 6 milhões em 2008? World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) É o prêmio do Júri Infantil. Leia mais na próxima página. World’s Children’s Honorary Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Prêmio de honra entregue ao(s) candidato(s) que não receber (em) um dos outros dois prêmios. Você, que vota, e os jurados podem, sem saber, decidir conceder seus prêmios à mesma pessoa. Todos os três candidatos recebem uma quantia em dinheiro pelos trabalhos que realizam em prol dos direitos da criança. O valor total dos prêmios em 2008 é de quase 150 mil dólares. 3. Prepare a Votação Mundial Depois de conhecer as três candidatas, em algumas escolas são feitas cédulas
Lhama – Josefina Condori A lhama vive nos Andes e era o principal animal doméstico dos incas. Nas vilas das montanhas do Peru, elas são usadas como animais de carga. Além disso, as pessoas aproveitam sua lã e comem sua carne. Urso grisalho – Agnes Stevens O urso grisalho é o animal oficial do estado americano da Califórnia e está na bandeira do mesmo. No entanto, hoje não existe mais nenhum urso grisalho na Califórnia. O último foi morto com um tiro em 1922. Tigre – Somaly Mam Restam cerca de 150 tigres selvagens nas florestas do Camboja. Eles sobreviveram a décadas de guerra e bombardeios, mas agora estão em risco de extinção devido à derrubada ilegal das florestas e à caça ilegal.
O que acontece atrás dessa porta? Isso será revelado na próxima página
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O WCPRC ea Votação Mundial não são uma competição. Todas as três candidatas ao prêmio realizaram ações fantásticas pelos Direitos da Criança e, por isso, serão homenageadas na cerimônia do prêmio. Todas as três também receberão prêmios em dinheiro, que deverá ser usado em seus trabalhos pelos Direitos da Criança. Em 2008, o valor total dos prêmios é de quase 150 mil dólares. Na votação mundial e na reunião do júri você e outras crianças e jovens decidem como os prêmios serão distribuídos.
Menina afetada pela tsunami em Velankanni, na Índia, vota.
IMPORTANTE! Não é competição! eleitorais e há debates sobre a votação. Por se tratar da sua votação, é importante que vocês mesmos ajudem a organizá-la. No suplemento da Votação Mundial, você pode saber como a votação é promovida em todo o mundo. Para realizar uma Votação Mundial democrática são necessários: • Lista com os nomes dos eleitores. Todos os votantes devem estar inscritos nela. • Cédulas eleitorais. Você pode copiar o modelo que está na última página do suplemento da Votação Mundial ou criar sua própria cédula.
• Cabine eleitoral. Para que ninguém veja em quem você está votando. • Urna eleitoral. • Tinta contra fraude. Anote na lista de eleitores quem já votou, ou então pinte um dedo, por exemplo. • Mesário. Marca na lista o nome das crianças votantes e entrega as cédulas eleitorais. • Fiscal eleitoral. Fiscaliza a votação, a marcação com tinta e a apuração dos votos. • Apuradores. Contam os votos e enviam o resultado da votação.
4. O Dia da Votação Mundial Decida a data da votação com antecedência. Na África do Sul e no Brasil, entre outros, todas as escolas de um mesmo município escolheram um único dia para a promoção da Votação Mundial, em todas as escolas. Alguns países, estão pensando em introduzir um Dia da Votação Mundial nacional. Agora que você é especialista em direitos da criança, você sabe como exigir que estes sejam respeitados. Você sabe tudo sobre as candidatas ao prêmio e as crianças que elas ajudam. Também já conhece seus prêmios e sabe como uma
Votação Mundial democrática é feita. Esperamos que seu Dia da Votação Mundial seja divertido. Boa sorte e não se esqueça de convidar a imprensa, rádio e TV para documentar! Conte-nos como foi e qual a sua opinião sobre os direitos da criança, o WCPRC e a Votação Mundial. Vamos celebrar! No Deserto de Thar, no Paquistão, os alunos celebram a Votação Mundial dançando e tomando chá com biscoitos ao pôr do sol. Em Santarém, no Brasil, há uma apresentação de dança e são servidas frutas da Amazônia. Na Suécia, são servidos bolos decorados com o arco-íris do WCPRC. Informe o resultado da sua votação Não se esqueça de informar o resultado da votação na sua escola, com o número de votos que cada uma das três candidatas recebeu, até o dia 14 de abril. Os votos do mundo inteiro serão contados em conjunto. O resultado pode ser informado através da urna disponível no site www.childrensworld. org, por e-mail para prize@ childrensworld.org, pelo fax
Atrás da porta: Reunião do Júri Infantil
O júri infantil internacional de 2007 com a rainha Silvia, após a cerimônia do prêmio.
Quando a porta da reunião do Júri Infantil se fecha, os tradutores, únicos adultos na sala, sabem que só devem traduzir exatamente o que as crianças do júri dizem. Antes que o dia termine, o Júri do WCPRC terá decidido quem receberá o próximo Prêmio das Crianças do Mundo.
Através de suas experiências de vida, as crianças de 15 países que compõem o júri, são especialistas em Direitos da Criança. Elas foram, entre outras coisas, soldados-mirins, escravas, refugiadas ou crianças de rua. Elas lutam pelos Direitos da Criança Cada criança do júri repre-
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AMIGOS ADULTOS DE HONRA
+46159-108 60 ou, pelo correio, para WCPRC, Box 150, 647 24 Mariefred, Suécia. Cerimônia do prêmio Durante uma conferência para a imprensa, no dia 16 de abril, em Estocolmo, as crianças revelarão as ganhadoras do prêmio 2008. Se você estiver curioso, visite o site www.childrensworld.org nesse dia. Lá você também encontrará vídeos da cerimônia do prêmio, que acontece no castelo de Gripsholm em Mariefred, Suécia, no dia 18 de abril. A cerimônia ocorre sempre no meio do mês de abril, em memória ao primeiro ganhador do prêmio WCPRC, Iqbal Masih, do Paquistão, que foi assassinado em 16 de abril de 1995.
vel a todos. O WCPRC ajuda o seu país a fazer isto. Agora que você é especialista em direitos da criança, você pode lembrar e ensinar aos adultos o que são os direitos da criança em casa, na escola, para jornalistas e
5. Exija respeito! Quando o seu país ratificou a Convenção dos Direitos da Criança da ONU – todos os países do mundo o fi zeram, com exceção dos Estados Unidos e da Somália – seu país se comprometeu a fazer todo o possível para que os direitos da criança sejam respeitados. Por isso, seu país deve informar às pessoas, adultos e crianças, o que são os direitos da criança, com uma linguagem acessísenta todas as crianças do mundo que vivenciaram semelhantes violações dos Direitos da Criança, ou lutam por eles. Você pode conhecer melhor os Direitos da Criança lendo as matérias sobre as crianças do júri no suplemento da Votação Mundial e no site www.childrensworld.org. É difícil ser membro do júri. Milhões de crianças em todo o mundo vão ter uma amostra e aprender com a vida de cada uma das crianças do júri. Por isso, são as violações aos Direitos da Criança pelas quais você passou, ou a sua luta pelo
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Hora de contar os votos da Votação Mundial de Velankanni.
políticos. Você também pode expressar suas reivindicações, para que os direitos da criança sejam respeitados! Deixe que seus pais leiam essa revista.
Você pode convidar Amigos Mundiais! Muitas escolas e alunos no mundo não sabem que são bem vindos a se tornarem escolas Amigas Mundiais. Você e sua escola podem convidar outras escolas da vizinhança! Tornar-se uma Escola Amiga Mundial é gratuito. Para registrar uma escola, precisamos: nome da escola e endereço postal, uma pessoa da escola como nosso contato (professor ou diretor) e o número total de alunos matriculados. Enviaremos o diploma de Amiga Mundial à escola. O diploma concede à escola o direito de trabalhar com o Prêmio das Crianças do Mundo e o direito de voto para todos os seus alunos na Votação Mundial. respeito aos Direitos da Criança e sua história de vida, que decidem se você pode fazer parte do júri. As crianças do júri devem, se possível, representar todos os continentes e todas as principais religiões. Quando a porta abrir, no dia 13 de abril, saberemos que o júri decidiu quem receberá o Prêmio das Crianças do Mundo 2008. As crianças do júri escolhem seu próprio presidente e os cinco membros que formarão o comitê do prêmio, que escolherá os três candidatos para o ano seguinte.
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Nós temos adultos especiais que são patronos do Prêmio das Crianças do Mundo. Eles são chamados de Honorary Adult Friends, Amigos Adultos de Honra. Alguns são patronos em todo o mundo, outros, em seus países. A Rainha Silvia foi a primeira Amiga Adulta de Honra. Também são Amigos Adultos de Honra, entre outros Nelson Mandela, Graça Machel, o primeiro ministro Xanana Gusmão, Timor Leste, o presidente e ganhador do prêmio Nobel da Paz José Ramos Horta, Timor Leste, o ganhador do prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz, a ex-chefe do Unicef Carol Bellamy, EUA, ex-presidente do Conselho de Segurança da ONU, ex-assistente do secretário geral da ONU para crianças em situação de conflito armado, Olara Otunnu, Uganda, o chefe indígena Oren Lyons, da Nação Onondaga (EUA), o filósofo Ken Wilber, EUA e a top model e ex-refugiada Alek Wek, Sudão e Reino Unido. Os novos patronos da África do Sul deste ano são a ministra da educação Naledi Pandor e a Rainha Mãe da tribo Bafokeng, Semane Bonolo Molotlegi. Envie sugestões de pessoas que você gostaria de ver como um Amigo Adulto de Honra e apresente suas razões! A Rainha O Amigo Adulto de Silvia da Honra Nelson Mandela Suécia. sorri ao ler os quadrinhos sobre sua vida na edição do prêmio do Globo 2005.
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Comemore os direitos d A Convenção dos Direitos da Criança da ONU consiste em 54 artigos. Abaixo apresentamos uma versão resumida. A íntegra da convenção está disponível no site: www.childrensworld.org Princípios Básicos da Convenção • Toda criança tem os mesmos direitos e o mesmo valor. • Toda criança tem direito a ter suas necessidades básicas satisfeitas. • Toda criança tem direito à proteção contra a violência e a exploração. • Toda criança tem direito a exprimir suas idéias e a ser respeitada. Artigo 1 Todos os menores de 18 anos, no mundo inteiro, têm esses direitos acima mencionados.
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Artigo 2 Toda criança tem o mesmo valor. Toda criança tem os mesmos direitos. Nenhuma pode ser discriminada. Você não pode ser tratado/a de forma diferente por sua aparência, cor de pele, sexo, língua, religião e opinião. Artigo 3 Aqueles que tomam decisões que afetam as crianças devem, antes de tudo, pensar no que é melhor para elas.
Artigo 6 Você tem o direito à vida e a um desenvolvimento saudável.
lhe dizem respeito: no lar, na escola, junto às autoridades e nos tribunais.
Artigo 7 Você tem direito a um nome e a uma nacionalidade.
Artigo 18 Seus pais têm a responsabilidade conjunta pela sua educação e desenvolvimento. Eles devem sempre pensar no que é melhor para você.
Artigo 9 Você tem direito de viver com seus pais, desde que isso não seja prejudicial a você. Você tem direito de crescer, se possível, na companhia dos seus pais. Artigos 12–15 Toda criança tem direito de dizer o que pensa. As crianças devem ser consultadas e sua opinião deve ser respeitada em todas as decisões que
Artigo 19 Você tem direito à proteção contra toda forma de violência, contra os maus tratos e os abusos. Você não pode ser explorado por seus pais ou outros responsáveis pela sua tutela. Artigos 20–21 Você, que foi privado/a do
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20 de novembro de 1989 é um dia que deve ser comemorado pelas crianças em todo o mundo. Nessa data, as Nações Unidas aprovaram a Convenção dos Direitos da Criança. Ela se aplica a todos os menores de 18 anos e é também denominada a Convenção da Criança. Todos os países da Terra, com exceção da Somália e dos Estados Unidos, ratificaram esta convenção; que diz que todas as nações devem pensar sempre e em primeiro lugar no que é melhor para as crianças e ouvir o que elas têm a dizer.
Eu exijo respeito aos direitos da criança!
s da criança convívio familiar, tem direito a receber proteção especial. Artigo 22 Se você for obrigado/a a fugir do seu país natal, terá os mesmos direitos que as crianças do país que o/a receber. Se tiver fugido sozinho/a, terá direito à ajuda especial. Se possível, você será reunido/a à sua família.
Artigo 31 Você tem direito a brincar, a descansar, a tempo livre e a um meio ambiente saudável. Artigo 32 Você não pode ser forçado/a a realizar trabalhos perigosos e prejudiciais à sua saúde, ou que prejudiquem seu desempenho escolar.
Artigo 23 Toda criança tem direito a uma vida digna. Se você é portador de uma deficiência, tem direito a cuidados especiais.
Artigo 34 Você não pode ser explorado/a ou obrigado/a a se prostituir. Se for maltratado/a, terá direito à ajuda e proteção.
Artigo 24 Caso fique doente, tem direito a receber a ajuda e o tratamento médico necessários.
Artigo 35 Ninguém tem direito a raptálo/a ou vendê-lo/a.
Artigos 28–29 Você tem direito de ir à escola e aprender conhecimentos importantes, como por exemplo, o respeito pelos direitos humanos e por outras culturas. Artigo 30 As idéias e crenças de todas as crianças devem ser respeitadas. Você, que faz parte de algum grupo minoritário, tem direito à sua língua, cultura e religião.
TribUNA iNfANTil
Artigo 37 Você não pode ser castigado de forma cruel e humilhante. Artigo 38 Você não pode ser recrutado/a como soldado e participar de conflito armado. Artigo 42 Toda criança e adulto devem conhecer a Convenção dos Direitos da Criança. Você tem direito a receber informação e a conhecer os seus direitos.
PEloS DirEiToS DA CriANçA
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Como estão as cria Sobrevivência e desenvolvimento
2,2 BILHÕES DE CRIANÇAS MENORES DE 18 ANOS
79 milhões destas crianças vivem na Somália e nos Estados Unidos, países que não se comprometeram a respeitar os direitos da criança. Todos os demais assumiram o pacto de defender esses direitos.
Nome e nacionalidade Ao nascer, você tem o direito de receber um nome e ser registrado como cidadão do seu país natal. Todos os anos, 133 milhões de crianças nascem no mundo. Porém, cerca de 48 milhões nunca são registradas. Isso significa que não há nenhum documento que prove sua existência!
Toda criança tem direito à vida. Os países que ratificaram a Convenção dos Direitos da Criança devem se esforçar ao máximo para que as crianças sobrevivam e se desenvolvam. 1 em cada 13 crianças (1 em cada 6 nos países mais pobres) do mundo morre antes de completar cinco anos, na maioria das vezes, devido a doenças que poderiam ser evitadas.
Saúde e atendimento médico Você tem direito a uma alimentação saudável, a ter acesso à água potável e receber atendimento médico. Todos os dias, 29.000 crianças menores de cinco anos morrem (10,5 milhões anualmente) de doenças causadas pela fome, falta de água potável, assistência médica e condições inadequadas de higiene. A vacinação contra as doenças infantis mais comuns salva 3 milhões de crianças todo ano. Entretanto, 1 em cada 4 crianças nunca é vacinada. Todos os anos, 2 milhões de crianças morrem de doenças que poderiam ser evitadas por meio de vacinas. Metade de todas as crianças não têm acesso à água limpa.
Casa, roupas, comida e segurança Você tem direito à moradia, alimentação, roupas, educação, atendimento médico e segurança. 3 em cada 4 crianças no mundo vivem na pobreza. Cerca de 600 milhões de crianças contam com menos de 1 dólar por dia para viver. Outras 900 milhões de crianças vivem com menos de 2 dólares por dia.
Crianças com necessidades especiais As crianças portadoras de deficiências têm os mesmos direitos que qualquer outra criança. Elas têm o direito de receber apoio e desfrutar de uma vida plena, que possibilite sua participação ativa na comunidade. As crianças portadoras de necessidades especiais estão entre as mais vulneráveis do mundo. Em muitos países, elas não podem freqüentar a escola. Muitas são tratadas como se tivessem menos valor e são escondidas. Há 150 milhões de crianças com necessidades especiais no mundo.
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Crianças que vivem nas ruas Você tem o direito de viver em um ambiente seguro. Todas as crianças têm direito à educação, à assistência médica e a um padrão de vida decente. 60 milhões de crianças usam a rua como seu local de moradia. Outras 90 milhões trabalham e passam os seus dias nas ruas, retornando à casa de suas famílias ao final do dia.
Trabalho infantil nocivo Você tem direito de receber proteção contra a exploração econômica e contra o trabalho prejudicial à sua saúde e/ou que o impeça de freqüentar a escola. O trabalho é proibido para todas as crianças menores de 12 anos. Cerca de 200 milhões de crianças com idades entre 5 e 14 anos trabalham. Para três entre cada quatro delas, o trabalho é nocivo à sua segurança, saúde, moral ou as impede de ir à escola. Cerca de 8,4 milhões estão sujeitas às piores formas de trabalho infantil. Por exemplo, a escravidão por dívidas, a prostituição infantil ou as atividades militares. Todo ano, pelo menos 1,2 milhão de crianças são expostas ao ”tráfico”, que é o comércio de escravos da atualidade.
Proteção contra a violência Você tem direito à proteção contra qualquer forma de violência, negligência, maus-tratos e abusos. A cada ano, 40 milhões de crianças sofrem maus-tratos e precisam de tratamento médico. Somente 19 países no mundo proibiram qualquer forma de punição física às crianças. Assim, apenas 2 em cada 100 crianças estão protegidas contra a violência pela lei. Muitos países ainda permitem castigos físicos na escola.
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Crime e punição A prisão de crianças deve ser usada sempre como último recurso e pelo menor tempo possível. Nenhuma criança deve ser submetida à tortura ou qualquer outra forma de tratamento cruel. Crianças que cometem crimes devem receber assistência e ajuda. Crianças não devem ser punidas com prisão perpétua ou pena capital. Pelo menos 1 milhão de crianças estão em prisões. Crianças presas são freqüentemente maltratadas.
Crianças de povos autóctones e minorias Crianças de grupos minoritários ou de povos autóctones têm direito a ter uma língua, cultura e religião próprias. Povos autóctones são, por exemplo, os índios das Américas, os aborígines da Austrália e os lapões do norte da Europa. Os direitos das crianças pertencentes aos povos autóctones e às minorias são freqüentemente violados. Seus idiomas não são respeitados, elas são humilhadas e discriminadas. Muitas dessas crianças não têm acesso à assistência médica.
Você tem direito à proteção e assistência humanitária em casos de guerra ou refúgio. Crianças vítimas de conflito e refugiadas têm os mesmos direitos que qualquer outra criança. Nos últimos 15 anos, pelo menos 2 milhões de crianças morreram em guerras. 6 milhões sofreram lesões físicas graves. 10 milhões de crianças sofreram danos psicológicos graves. Um milhão perderam os pais ou foram separadas deles. 300.000 crianças são usadas como soldados, carregadores ou cavadores de minas (8.000 crianças morrem ou são feridas. Todos os anos, 8.000 crianças morrem ou são feridas por minas.) Pelo menos 20 milhões de crianças estão em fuga.
Escola e educação Você tem o direito de freqüentar a escola. O ensino básico deve ser gratuito para todos. Mais de 8 entre cada 10 crianças no mundo freqüentam a escola. Porém, 117 milhões de crianças nunca puderam iniciar sua vida escolar. Deste total, quase 6 em cada 10 são meninas. Mais de 150 milhões de crianças, das quais 100 milhões são meninas, interrompem os estudos antes da quinta série.
A SUA VOZ DEVE SER OUVIDA! Você tem o direito de dizer o que pensa sobre todas as questões que lhe dizem respeito. Os adultos devem ouvir as opiniões das crianças antes de tomar decisões e sempre considerar o que é melhor para elas.
É esta a situação no seu país e no mundo hoje? Você e as demais crianças do mundo é que podem responder!
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TEXTO : SOFIA KLEMMING ILUSTR AÇÃO : LOT TA MELLGREN/ESTER
rianças no mundo?
Proteção na guerra e na fuga
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THE WCPRC AWARD CER WELCOME! VÄLKOMMEN! ¡BIENVENIDOS! BEM VINDOS! BIENVENUE!
CHAO A MUNG ! AO
A rainha Silvia entrega o Prêmio dos Amigos Mundiais e o Prêmio das Crianças do Mundo a Betty Makoni, que estava acompanhada por Ruth Bikwa e pelas meninas Alice Shavi e Lisa Bonongwe.
O grupo de dança indiano Kasm Kathkaars! dá as boas vindas à elegante rainha Silvia e ao restante do público no castelo de Gripsholm, em Mariefred.
Prêmio de 5.2 milhões de crianças votantes
THE GLOBAL FRIENDS’ AWARD e o prêmio do júri infantil
THE WORLD’S CHILDREN’S PRIZE Betty Makoni
THE WORLD’S CHILDREN’S HONORARY AWARD Cynthia Maung
5.228.801 jovens com idade inferior a 18 anos participaram da Votação Mundial 2007 e escolheram Betty Makoni, do Zimbabwe, como ganhadora do seu prêmio. Todas as candidatas receberam muito mais de um milhão de votos. Através dos 500 clubes da Girl Child Network, Betty ajuda 30.000 meninas, protegendo as vítimas de abuso e outras que estão sob risco de exploração no trabalho infantil, casamento forçado, maus tratos, tráfico e abuso. O júri infantil internacional também apontou Betty para receber seu prêmio.
Cynthia Maung recebe, ao lado de Saw Romel, o Prêmio de Honra das Crianças, das mãos da rainha Silvia. Cynthia é premiada por seus quase 20 anos de luta por centenas de milhares de crianças refugiadas dentro e fora da Birmânia. Ela dirige a clínica Mae Tao, educa profissionais de saúde que retornam às suas vilas de origem na Birmânia, envia centenas de ”médicos mochileiros” para a Birmânia, e dirige escolas e lares-escola para crianças refugiadas. 12 12
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EREMONY 2007
A CERIMÔNIA DE PREMIAÇÃO DO WCPRC 2007 FOTO : ELIN BERGE
Mary Smart e os outros membros do júri exigem respeito aos direitos da criança em suas línguas nativas.
Rakesh Kumar, Hassana Hameida Hafed e Idalmin Santana, do júri.
THE WORLD’S CHILDREN’S HONORARY AWARD Inderjit Khurana
Hannah Taylor, com seu discurso para Cynthia Maung na boca, ajuda Gabatshwane Gumede a preparar sua apresentação.
Bijay Kumar observa a rainha Silvia entregar o prêmio para Inderjit Khurana. Inderjit acredita que, se as crianças não podem ir à escola, a escola deve ir até elas. Ela abriu sua primeira escola para crianças que vivem e trabalham nas plataformas das estações ferroviárias há 21 anos. Agora, sua organização administra 12 escolas em plataformas, 6 creches, 75 escolas em favelas, 20 pré-escolas e programas de bolsas de estudo para crianças pobres, entre outras coisas.
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Thai Thi Nga, do Vietnã, entrega flores de agradecimento das crianças à rainha Silvia.
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World’s Children’s Ombudsman
Momento histórico com o
TexTo : Magnus bergMar FoTo : eLIn berge
O
mar chamou Olara Otunnu ao palco e disse: – A missão que milhões de crianças têm para você durante os dois próximos anos é trabalhar pelos direitos das meninas: o direito das meninas à educação, à proteção contra o estupro e em conflitos armados. – Estou muito feliz por ter recebido essa missão dos representantes de milhões de crianças e farei tudo o que estiver ao meu alcance para, juntamente com as crianças de todos os lugares, exigir respeito pelos direitos das meninas, diz Olara Otunnu. Durante um ano, foi possí-
Acabem com os castigos físicos ! “Acabar com os castigos físicos! Essa é minha missão para o Ombudsman das Crianças do Mundo! As crianças devem ser respeita das e tratadas com a mesma dignidade que os adultos. Os adultos geralmente usam a cultura, suas próprias experi ências ou a religião para tentar justificar os castigos físicos. Estes incluem chutes, murros, puxões de orelha e fortes empurrões contra a parede, em casa ou na escola. Mas por que as crianças devem ser obrigadas a viver de joelhos? As crianças têm direito a serem protegidas contra todas as formas de violência, negli gência, maus tratos e abuso. Mesmo assim, 40 milhões de crianças em todo o mundo são espancadas com tamanha vio lência que precisam de atendi mento médico. O castigo físico é algo vergonhoso, humilhante, insultante, intimidante e dolo roso. Isso precisa acabar já!” Boaz Ongote Magaka, 15, Kisumu, Quênia
Foi um momento histórico quando o primeiro Ombudsman das Crianças do Mundo (OCM), Olara Otunnu, recebeu sua primeira missão do presidente do júri infantil Omar Bandak, da Palestina, durante a cerimônia de premiação. Até abril de 2009, o OCM deve se dedicar aos direitos das meninas. vel enviar sugestões de missões para o OCM. Depois, o júri infantil internacional escolheu uma missão entre as cinco mais comuns, entre as sugestões apresentadas. Primeiro OCM Olara Otunnu é o primeiro Ombudsman das Crianças do Mundo. Ele já foi ministro das relações internacionais, presidente do Conselho de Segurança da ONU e da Comissão dos Direitos Humanos da ONU ex-assistente do secretário geral da
ONU para crianças em situação de conflito armado. – Tornei-me um global citizen (cidadão do mundo) muito cedo, no norte de Uganda. Meu pai era evangelizador em países vizinhos, como Sudão, Quênia e Tanzânia. Eu sabia onde ele estava pelos selos de suas cartas. Quando eu tinha sete anos, me tornei correspondente estrangeiro do meu pai. Ele costumava me pedir para ir até a loja da vila para ouvir as notícias. Na volta, eu corria
para casa bem rápido, para não esquecer e relatar as notícias sobre o que estava acontecendo no mundo. Perguntas e missões para o OCM Você pode sugerir missões para o OCM pelo email mission@worldschildrens ombudsman.org e lhe fazer perguntas no question@ worldschildrensombuds man.org.
“Eu gostaria que o Ombuds man das Crianças do Mundo visitasse todos os países do mundo para garantir que todas as crianças possam estudar. O direito das crian
ser o que quiserem; padres, sapateiros, professores, médicos. Porém, para con seguir atingir seus objetivos no futuro, elas têm que estudar!” Portia Arhinful Brew, 14, Kumasi, Gana
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ças à educação é importan te! Não dá para sobreviver sem ir à escola. Um padeiro não pode vender pão se não souber contar. Um motorista não consegue encontrar o caminho se não souber ler. As crianças têm o direito de
FoTo : Tor a MårTens
Escolas para todos
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a
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Iqbal Masih
Anne Frank
Hector Pieterson
Asfaw Yemiru
Barefoot College
Movimento de Paz das Crianças
Nkosi Johnson
Maiti Nepal
Casa Allianza
Maggy Barankitse
James Aguer
Premiados anteriores do wcPrc 2000
2002
No primeiro ano, foram homenageadas postumamente (após a morte), três das milhares de crianças que tiveram seus direitos violados durante o século 20.
World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) & Global Friends’ Award (Prêmio dos Amigos Mundiais) Nkosi Johnson (póstumo), África do Sul. Lutou pelos direitos das crianças atingidas pela AIDS.
World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) Iqbal Masih, ex- escravo por dívidas em uma tapeçaria, no Paquistão, por sua luta pelos direitos das crianças escravizadas. World Children’s Honoraray Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Anne Frank, da Holanda e Hector Pieterson, África do Sul.
2001 World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) & Global Friends’ Award (Prêmio dos Amigos Mundiais) Asfaw Yemiru, Etiópia. Asfaw tinha 9 anos e morava nas ruas. Aos 14 anos, ele abriu sua primeira escola para crianças de rua, debaixo de um carvalho. Desde então, ele doou todo o seu tempo, durante 45 anos, para dar uma educação às crianças carentes da Etiópia. World’s Children’s Honorary Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Barefoot College, (Escola dos pés descalços), Índia, por sua contribuição de 30 anos, implantando, entre outras coisas, o Parlamento das Crianças e as Escolas Noturnas no Rajastão. Movimento das Crianças pela Paz, Colômbia. que organiza as crianças contra a guerra e coordena atividades que dão alegria a elas.
World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) Maiti Nepal, luta contra o tráfico de meninas pobres do Nepal para a Índia (onde elas são escravizadas em bordéis) e reabilita as meninas atingidas. World’s Children’s Honorary Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Casa Allianza, América Central. Trabalha em favor das crianças de rua.
2003 World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) Maggy Barankitse, Burundi. Salvou dezenas de milhares de órfãos durante dez anos no Burundi em guerra e lhes deu casa, amor e escola. Global Friends’ Award (Prêmio dos Amigos Mundiais) James Aguer, Sudão. Durante 15 anos, salvou milhares de crianças seqüestradas do trabalho forçado no Sudão. James foi preso 33 vezes e dois de seus colaboradores foram mortos. World’s Children’s Honorary Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Pastoral da Criança, Brasil. Trabalha para reduzir a mortalidade infantil e a fome entre as crianças pobres.
2004 World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo ) & Global Friends’ Award (Prêmio dos Amigos Mundiais) Prateep Ungsongtham Hata, Tailândia. Foi trabalhadora infantil quando tinha 10 anos. Abriu sua pri-
Pastoral da Criança
Prateep Ungsongtham Hata
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Paul, Mercy Baskar
Liz Gaynes/ Emani Davis
As 20 mães de Sta.Rita
meira escola aos 16 anos e vem lutando há 35 anos para dar uma educação às crianças mais carentes. World’s Children’s Honorary Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Paul e Mercy Baskar, Índia. Durante 20 anos lutaram contra o trabalho infantil de risco. Liz Gaynes e Emani Davis, EUA. Trabalharam durante 20 anos pelos direitos dos filhos de presos.
Global Friends’ Award (Prêmio dos Amigos Mundiais) AOCM, Ruanda, 6.000 crianças órfãs do genocídio de Ruanda, que se ajudam mutuamente a sobreviver, ter alimentação, escola, um lar, cuidados de saúde e amor. World’s Children’s Honorary Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Jetsun Pema, Tibete. A irmã do Dalai Lama trabalha há 40 anos pelos direitos das crianças tibetanas refugiadas.
2007
2005 World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) As 20 mães de Sta.Rita, Quênia. Durante os últimos oito anos trabalharam para que as crianças que se tornaram órfãs por causa da AIDS tivessem seus direitos respeitados. Global Friends’ Award (Prêmio dos Amigos Mundiais) Nelson Mandela e Graça Machel, África do Sul e Moçambique. Mandela, por sua longa luta por direitos iguais para as crianças da África do Sul e sua defesa destes direitos. Machel, por sua luta de 20 anos pelos direitos das crianças carentes de Moçambique, especialmente os direitos das meninas. World’s Children’s Honorary Award (Prêmio de Honra das Crianças do Mundo) Ana María Marañon de Bohorquez, Bolívia. Luta há 20 anos pelas crianças que vivem nas ruas em Cochabamba.
Prêmio das Crianças do Mundo & Prêmio dos Amigos Mundiais Betty Makoni, do Zimbabwe, que através de sua organização Girl Child Network, fortalece as meninas para que elas possam exigir que seus direitos sejam respeitados. Ela apóia meninas vítimas de abuso e salva aquelas em risco de sofrerem abuso, de serem obrigadas a se casar ou de serem vítimas do tráfico. Prêmio Honorário das Crianças do Mundo Cynthia Maung, da Birmânia, que luta há 20 anos pela saúde e educação escolar de centenas de milhares crianças refugiadas, tanto dentro da Birmânia, governada por uma ditadura militar, quanto no campo de refugiados na Tailândia. Inderjit Khurana, da Índia, que há 21 anos dirige mais de cem escolas e duas linhas telefônicas de auxílio para algumas das mais pobres crianças da Índia, que vivem e trabalham nas plataformas das estações de trem.
2006 World’s Children’s Prize (Prêmio das Crianças do Mundo) Craig Kielburger, Canadá, aos 12 anos de idade fundou a Free The Children. Ele luta pelo direito dos jovens de terem suas vozes ouvidas e para libertar as crianças da pobreza e de violações aos direitos da criança.
Nelson Mandela/ Graça Machel
Ana María Marañon de Bohorquez
Betty Makoni
AOCM
Cynthia Maung
Craig Kielburger
Inderjit Khurana
Jetsun Pema
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L E J U RY P O U R L E P R I X D E S E N FA N T S D U M O N D E 2 0 0 8 E L J U R A D O D E L P R E M I O D E L O S N I Ñ O S D E L M U N D O 2 0 0 8 O J Ú R I D O P R Ê M I O C R I A N Ç A S D O M U N D O 2 0 0 8
the jury for the world’s children’s prize 2008
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Thai Thi Nga
EUA
IG A L M DI A A N MU
I G A L Gabatshwane M A N DI A Gumede MUÁ F R I C A D O S U L
IG A L M DI A A N MU
Hannah Taylor
IG O L A M A N DI MU
IG A L Mary A M A N DI S mart U M SERRA LEOA
IG A L Isabel A M A N DI Mathe MU M O Ç A M B I Q U E
I G A L Laury Cristina A M A N DI Hernandez Petano MU COLÔMBIA
IG O L Hassan A M A N DI Hameida Hafed MU SAARA OCIDENTAL
IG O L A M A N DI U M
Rafesh Kumar
I G A L Maïmouna M A A N DI Dio u f U M SENEGAL
IG A L M DI A A N MU
Idalmin Santana
Railander Pablo Freitas de Souza BRASIL
IG A L M A A N DI U M REINO
Amy Lloyd UNIDO
VIETNAM
CANADÁ
IG A L M DI A A N MU
Rebeka Aktar
IG O L M DI A A N MU
Ofek Rafaeli
BANGLADESH
ISRAEL
ÍNDIA
IG O L M DI A A N MU
Om a r Ba n d a k
IG A L M DI A A N MU
Sukumaya Magar
PALESTINA
NEPAL
the world’s children’s prize for the rights of the child 2008
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NOMEADA • Páginas 16 – 41
Josefina Condori Josefina e seus colegas de trabalho conhecem muitas crianças nas vilas andinas. A Yanapanakusun trabalha junto com as escolas das vilas para divulgar informações sobre a situação das meninas na cidade de Cusco.
J Dionisia tinha dez anos e estava cansada e solitária quando Josefina Condori a encontrou pela primeira vez, do lado de fora de uma das escolas noturnas da cidade de Cusco. A família para quem Dionisia trabalhava como empregada doméstica, havia mandado-a embora. Ela não tinha para onde ir. Naquele momento, Josefina se decidiu. Ela ofereceria a meninas como Dionisia um lar, cuidado e conhecimento para lutar por seus direitos. Josefina Condori é nomeada ao WCPRC 2008 por sua longa trajetória de luta pelas meninas que trabalham como domésticas no Peru, muitas vezes em condições semelhantes à escravidão. Muitas das centenas de milhares de empregadas domésticas são expostas a agressões nos lares onde trabalham. Josefina, que também foi empregada doméstica, luta desde a adolescência pelos direitos das meninas trabalhadoras domésticas. Em 1994, ela fundou a organização Yanapanakusun, que administra um lar para garotas vulneráveis e um centro para trabalhadores domésticos. Josefina e a Yanapanakusun desenvolvem trabalhos educativos e preventivos em 30 vilas andinas nos arredores de Cusco. Eles também transmitem cinco programas de rádio, administram um hotel, uma fazenda e uma escola para meninas e meninos trabalhadores. 500 meninas já viveram no lar. Dezenas de milhares receberam apoio e auxílio nas atividades abertas do centro. Josefina oferece às meninas alimento, roupas, cuidados à saúde, um lar, possibilidade de ir à escola, segurança e amor. Porém, acima de tudo, ela trabalha para que todas as crianças trabalhadoras conheçam seus direitos e tenham condições de exigir o cumprimento dos mesmos.
osefi na fundou a organização Yanapanakusun em 1994, para ajudar meninas e mulheres que trabalham como empregadas domésticas em Cusco, no Peru. Durante o dia, a própria Josefi na trabalhava para uma família. À noite, ela percorria as escolas noturnas da cidade com Vittoria e Ronald, com quem ela iniciou a organização. Eles informavam às pessoas que todos os trabalhadores domésticos têm direito a um bom salário, folga todos os domingos, e a serem sempre tratados com respeito. Foi numa dessas noites que Josefi na conheceu Dionisia.
E já na mesma noite, enquanto Dionisia dormia em um canto, do único cômodo do apartamento, Josefi na disse a Vittoria e Ronald: – Temos que fazer mais para ajudar as meninas. No futuro, quero construir uma casa para onde todas as meninas que precisam de ajuda possam ir. Mas até lá, elas poderão morar aqui conosco. O sonho com Lima A história de Josefi na começa quando ela tem sete anos e mora com sua família em uma vila no sul do Peru. Ela está sentada em seu lugar Continua na página 18
POR QUE JOSEFINA É NOMEADA? colômbia equador
brasil
Peru Lima
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Cusco
des
bolívia
Oceano Pacífico
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TEXTO : JOHANNA HALLIN FOTO : TOR A MÅRTENS & JOHANNA HALLIN
As meninas invisíveis Pelo menos cinco por cento de todas as meninas do Peru, 560.000 meninas, trabalham como empregadas domésticas. Elas limpam a casa, lavam a roupa, cozinham, cuidam de crianças ou realizam outras tarefas domésticas. É bem sabido que a vida para os meninos que moram nas ruas é difícil, porém as meninas sofrem atrás de portas fechadas e poucos têm consciência dos seus problemas.
“Não sejam tão gratas!” “Eu preciso agradecer por poder respirar? Não, exatamente!” diz Josefina. Ela quer dizer que muitas das crianças trabalhadoras aprenderam que precisam ser gratos por tudo. Eles não esperam ser bem tratados. “É claro que é importante ser cortês e agradecer, mas tento ensinar às meninas que bom tratamento, respeito, possibilidade de visitar os pais, tempo para brincar e para descansar não são presentes. Esses são Direitos das Crianças!”
Bem vindo à cidade inca Por todos os lugares de Cusco tremulam as bandeiras do arco-íris. O arco-íris era um símbolo do reino dos nativos incas, que se estendia por toda a Cordilheira dos Andes, antes dos espanhóis invadirem a região no século XVI. Cusco era a capital do império inca, e a bandeira do arco-íris se tornou o símbolo da cidade.
Oi amigo! Há muitas formas de saudar novos amigos nas vilas nos Andes. Se Edwin, 12 anos, vê alguém de quem gostaria de ser amigo, ele pega uma pedrinha e a atira. Aqui, ele atira a pedrinha para Clorinda, 14 anos. Quando ela nota a pedrinha, que cai perto de seus pés, eles podem começar a conversar entre si.
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Todas as noites, Josefina e as meninas comem juntas.
preferido, uma pedra em forma de cavalo, chorando. Seu pai morreu. Sem o pai para cuidar da lavoura na floresta, a família logo fica mais pobre. Em breve, eles não terão dinheiro para comprar comida nem roupas. – E nem adianta ficar me amolando para ir à escola, diz a mãe para Josefina. Você tem que ajudar em casa, escola é coisa para meninos.
Toda a sua vida parece vazia desde a morte do pai. Josefina começa a sonhar em ir para Lima, a capital. Ela sabe que muitas meninas da região vão para lá trabalhar. ”Lá eu poderia ir à escola e comprar roupas bonitas. E sapatos! E doces”, pensa Josefina. Portanto, quando a mãe diz que Josefina vai com um parente para Lima, ela fica muito contente.
Espancada e jogada fora Lima não é tão bela como Josefina havia imaginado. Ela vai morar em um cômodo pequeno e sujo junto com seu primo e a família dele. ”Cometi um erro!” pensa Josefina. Ela mora naquele quartinho por cinco anos. Muitas noites ela chora deitada no chão, onde dorme. Durante o dia, ela cuida do filho de seu primo, varre a casa, lava a roupa e a louça.
Josefina não gosta de sair, pois as crianças da vizinhança riem por ela falar quéchua e não espanhol. A esposa do primo grita ordens em espanhol. Quando Josefina não entende o que ela diz e faz algo errado, ela é espancada e chutada. – Chola, grita a mulher. Você é burra e preguiçosa! Um dia, a criança se machuca. – Não foi culpa minha.
Josefina conseguiu roupas de bebê para o filho de Miriam, que tem apenas dois dias de idade. Miriam, 16 anos, mora no lar há três meses. Ela foi expulsa da casa onde trabalhava quando a patroa percebeu que ela estava grávida.
Muitas vezes, Josefina é convidada para falar nos programas de rádio da Yanapanakusun. É uma boa maneira de disseminar informação entre meninas trabalhadoras domésticas que não têm permissão de seus patrões para sair.
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Josefina (no meio) com sua mãe perto de sua vila de origem. Ao procurar sua mãe, depois de 10 anos como doméstica, elas mal conseguiam conversar. Josefina tinha esquecido quase totalmente sua língua natal, o quéchua.
Quando entra na escola, aos 12 anos, Josefina (à direita) entra em contato com muitas meninas que também trabalham como domésticas. Ela finalmente encontra amigas que a entendem.
Josefi na tenta explicar, porém a mulher do primo não acredita nela. Ela pega uma faca e ameaça matar Josefi na. Aos doze anos, Josefi na toma coragem e pede permissão ao primo para ir à escola. – Menina ingrata, quem vai cuidar do nosso fi lho? Fora daqui, diz o primo. Ele abre a porta e Josefi na de repente está sozinha na rua. Mas ela tem sorte. Através de um vizinho, ela consegue outro emprego na casa de uma família que
mora em outra parte de Lima. Finalmente, ela pode começar a freqüentar uma escola noturna. Lá ela aprende a ler, escrever e contar. Na escola noturna, Josefi na fi nalmente faz verdadeiras amigas. Elas também são meninas que trabalham. Uma delas leva Josefi na a uma associação de trabalhadores domésticos. Eles se reúnem todo domingo para falar sobre suas experiências e tentam, juntos, encontrar soluções para os problemas uns dos outros. E riem muito!
Mamãe! Quando Josefi na tem 17 anos, ela quer reencontrar sua família. Ela encontra o primo em Lima e ele explica como voltar à vila. O primo está contente em vê-la, pois depois que ela foi expulsa e sumiu, a mãe de Josefi na foi à polícia e deu parte de seu desaparecimento. Josefi na encontra sua mãe. Faz dez anos que elas se viram pela última vez, e há muitas coisas que ela quer contar. Mas ela mal consegue! Durante seus anos de trabalho, as famílias que a
empregaram a proibiram de falar quéchua – Eu senti tanto a sua falta, diz Josefi na, e elas choram juntas. De volta a Lima, Josefi na continua a ir à escola toda noite. Quando tem 23 anos, ela faz o exame fi nal. Ela Em sua busca pelas origens e certidões de nascimento das meninas, Josefina já rodou a Cordilheira dos Andes de trás para frente. Muitos já conhecem seu trabalho e ajudam a Yanapanakusun na luta pela defesa dos direitos das meninas.
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está tão orgulhosa! Sua nova amiga Vittoria a parabeniza. Elas se conheceram na associação para trabalhadores domésticos, e planejam se mudar para Cusco e iniciar uma associação parecida lá. Cusco é uma cidade nos Andes. Há centenas de anos, era a capital do reino inca e continua a ser um centro, aonde muitas meninas vão para trabalhar. Josefina, Vittoria e Ronald se mudam para um apartamento de um cômodo. Quando começam seu trabalho nas escolas noturnas, percebem que a situação das empregadas domésticas em Cusco é ainda pior do que em Lima. A maioria das empregadas domésticas são garotas jovens, muitas têm apenas cinco ou seis anos de idade e estão sozinhas na cidade. A maior parte delas vem de vilas situadas no alto das montanhas, falam apenas quéchua e não têm nenhum contato com suas famílias. Nos importamos Logo o trabalho de Josefina está totalmente concentrado na ajuda às meninas trabalhadoras invisíveis de Cusco. Primeiro, ela ajuda as meninas a obterem suas certidões de nascimento. Porém, isso é difícil, pois muitas delas esqueceram seus sobrenomes e onde ficam suas vilas de origem. Muitas vezes Josefina tem que fazer longas caminhadas até as vilas nas montanhas. Quando visita as vilas, ela aproveita a oportunidade para falar sobre a situação das meninas trabalhadoras em Cusco. Quando as meninas conseguem suas certidões de nascimento, podem finalmente começar a freqüentar a escola. A maioria se matricula em escolas públicas, mas a organização de Josefina tam-
bém abriu uma escola para meninas e meninos que trabalham em Cusco. Agora, a Yanapanakusun, a organização de Josefina, já construiu a grande casa para as meninas, que era o sonho de Josefina. A organização tem também um pequeno hotel, onde se hospedam pessoas de todo o mundo, e um estúdio de rádio para difundir conhecimento sobre a situação das meninas empregadas domésticas. O trabalho segue em frente, porém Josefina ainda enfrenta oposição por parte da polícia, de advogados e de juízes que querem fechar a casa. – Eles não querem ouvir as meninas, diz Josefina. – As garotas que ajudamos já foram desapontadas muitas vezes, e nunca se sentiram amadas. É por isso que queremos mostrar que nós realmente nos importamos com elas. Brincar e se movimentar é importante para a autoestima e adiciona prazer na ida à escola. Educação física é uma parte vital do programa educativo da Yanapanakusun.
O que fazem JOsefiNa e a YaNapaNakusuN? • Administram um lar onde as jovens empregadas domésticas têm um lugar para morar, roupas e cuidado. • Procuram as famílias das meninas e ajudam as garotas a obter documentos de identidade. • Administram um centro de ajuda para meninas empregadas domésticas em Cusco. • Transmitem cinco programas de rádio para divulgar informações sobre a situação e os direitos das meninas trabalhadoras para as próprias meninas, suas famílias, empregadores e o restante da sociedade. • Realizam trabalho preventivo em vilas e comunidades localizadas nas montanhas nos arredores de Cusco. • Administram a escola noturna Maria Angola para meninas e meninos trabalhadores de Cusco. • Administram uma escola profissionalizante para meninas trabalhadoras. • Administram uma fazenda no vale sagrado dos incas. • Administram um hotel e uma agência de viagem.
“Nos ajudamos mutuamente” Josefina fundou a organização Yanapanakusun junto com Vittoria Savio Gilardi e Ronald Zarate Herrera em 1994. Yanapanakusun significa ”nós nos ajudamos mutuamente” em quéchua. A organização administra muitos projetos. O mais importante é o Caith, que é o trabalho de Josefina com as meninas empregadas domésticas.
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Rosia
é livre na montanha
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osia não quer se levantar essa manhã. Debaixo do cobertor de lã que o pai teceu ainda está quentinho, mas fora da cama está frio. Pequenos cristais de gelo se espalham sobre toda a casa e a vila, como um véu branco. As sandálias de Rosia estão rígidas devido à geada da noite e logo os pés começam a doer por causa do frio. O vilarejo fica 4.300
metros acima do nível do mar, portanto, apesar da proximidade com o equador, as noites são sempre frias. Rosia corre até a torneira e depois de volta até a casa, em seguida corre para o mesmo lugar para aquecer os pés. Pelo menos está seco. No período chuvoso, sempre há neve e lama todas as manhãs. Quando o café da manhã está pronto, Rosia acorda seus irmãos, José e Jeovana.
A mãe e o pai não estão em casa. Eles se levantam muito antes de amanhecer para caminhar durante três horas montanha abaixo, até a plantação de milho da família. A mãe pediu para Rosia cuidar dos irmãos. Mas eles trapaceiam na hora do banho, e ao invés de se lavarem, jogam apenas uma água no rosto. A água do poço está congelante. – Só não digam nada para a mamãe, diz Rosia sorrindo. Enxerga mal Rosia leva os irmãos consigo para a escola azul claro. Do lado de dentro das paredes de pedra do pátio, as crianças jogam futebol. Rosia adora futebol. Os meninos jogam contra as meninas, e Rosia
Rosia Sencia Peña, 11 Gosta de: Estar na montanha junto com as ovelhas. Prato preferido: Batata cozida. Deseja: Um par de sapatos de pele clara. Ama: Meus irmãos José, 8 anos, e Jeovana, 5 anos. Jogar futebol. Detesta: Discussão e briga e quando as crianças são más umas com as outras. Sonha: Trabalhar em uma casa de família, ganhar dinheiro e comprar roupas bonitas. Orgulhosa de: A saia que meu pai costurou.
TEXTO : JOHANNA HALLIN FOTO : TOR A MÅRTENS
No alto da montanha Rosia se sente livre. Ela corre com as ovelhas e brinca com seus irmãos. Hoje ela imagina que trabalha na cidade de Cusco e que tem roupas novas e bonitas. De repente, um grito mórbido de uma das ovelhas a desperta de sua fantasia! Ela corre em direção à ovelha e à raposa cinza, mas é tarde demais…
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Batata amassada – hum! Todo dia depois da aula, Rosia ajuda seu pai a secar a batata. A batata seca pode ser armazenada pela família durante todo o inverno sem estragar. 1. Escolha batatas bem pequenas. Coloque-as para secar ao sol.
2. Depois de dois dias, é hora de bater e torcer a batata para que a casca se quebre e o líquido saia.
3. Bata as batatas mais algumas vezes. No final, elas irão ficar secas e pretas.
não tem medo de atracar-se para pegar a bola. Ela dribla e faz gol! As outras meninas comemoram e pulam, Rosia joga os braços para o ar. Na sala de aula, Rosia não se sente tão segura de si. Ela gosta de ir à escola. Mas o sol forte do alto da montanha feriu seus olhos e ela tem dificuldade para enxergar o que o professor escreve no quadro. A mãe quer levá-la ao médico, mas primeiro eles têm que economizar dinheiro para pagar o médico e a viagem de quatro horas até lá. Assim, Rosia continua a forçar os olhos e sente dores de cabeça na hora do almoço. Deseja sapatos A escola termina diariamente ao meio dia. Então, Rosia segura a mão de sua irmã e elas sobem em direção ao topo da montanha. Elas têm que cuidar das ovelhas. – Na montanha eu me sinto livre, diz Rosia Ela tem um estilingue para
atirar pequenas pedras em direção ao rebanho de ovelhas, para que elas voltem para casa à noite. Rosia gosta do som do estilingue. Às vezes ela brinca com outras crianças que pastoreiam ovelhas na montanha. Mas normalmente são só ela e seus irmãos. Ela costuma se sentar na montanha para observar as ovelhas e fantasiar. O que ela mais sonha é ir para Cusco trabalhar. Rosia já viu muitas meninas da vila entrarem em um caminhão e sumirem em direção a um mundo sedutor na cidade. – Eu gostaria de trabalhar e ganhar dinheiro para comprar roupas bonitas. Primeiro eu gostaria de comprar um casaco amarelo de lã com botões brilhantes. E sapatos! Eu gostaria muito de ter um par de sapatos, diz Rosia. A mãe de Rosia trabalhou em Cusco quando era jovem. Minha mãe contou sobre os carros e as barracas de frutas no peso, onde vendem maçã, laranja e manga. – Mas eu só quero trabalhar para alguém que eu conheça, não para uma família estranha. Eu preferia ir para Cusco junto com a minha mãe, diz Rosia.
4. Moa a batata seca para fazer farinha de batata, que pode ser usada em molhos, sopas e cozidos.
Rosia
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A raposa cinza se aproxima De repente, uma ovelha solta um grito aflito e Rosia acorda de seu sonho. Os irmãos de Rosia também gritam, pois podem ver todos os dentes brilhantes da raposa mordendo a garganta da ovelha. O sangue espirra sobre a lã. Rosia corre em direção à raposa cinza e à ovelha. Ela joga uma pedra para espantar a raposa, mas é tarde demais. Sua ovelha branca está morta. – O que vamos fazer? A mamãe vai ficar brava e nos bater, diz José, olhando assustado para a ovelha nos braços de Rosia.
É comum os pais baterem em seus filhos, mas Rosia sabe que sua mãe não fará isso. Porém, ela vai gritar e ficar brava. No caminho para casa, Rosia está triste e calada. Ela carrega a ovelha e sua camisa fica coberta de sangue. Não existe eletricidade na vila. Então, depois que o sol se pôs e a mãe terminou de gritar, Rosia se senta sozinha no escuro do lado de fora da casa. – Eu vou embora daqui, pensa, e as lágrimas escorrem. Tudo vai melhorar se eu simplesmente for embora daqui.
Rosia com sua família do lado de fora da casa, que fica no meio da vila.
Muitas das crianças na vila não tomam o café da manhã. Sem comida no estômago, elas ficam indisciplinadas e agitadas na sala de aula. Por isso, alguns pais da vila dão um copo de mingau pela manhã para todas as crianças. Uma vez, a cada duas semanas, a mãe de Rosia traz o lanche.
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Por que as meninas querem ir para a cidade?
Sandálias de pneu de carro Rosia e a maioria das crianças das vilas situadas no entorno de Cusco usam sandálias – no verão e no inverno. Elas se chamam ushuta e, antigamente, eram feitas com a pele de lhama. Agora as sandálias são feitas com pneus usados de carro.
• As famílias das áreas rurais geralmente são muito pobres. Algumas meninas vão para a cidade para deixar de passar fome e frio. • As escolas das vilas são pequenas e têm apenas três ou quatro séries. Algumas meninas vão para a cidade porque querem continuar os estudos. • O alcoolismo e a violência são problemas comuns em vilas pobres. Algumas meninas vão para a cidade para fugir do abuso em casa. A maioria das meninas que vão para as cidades do Peru sabem muito pouco sobre o que as aguarda. Meninas que trabalham em casas de família têm que trabalhar duro e ficam isoladas no local onde trabalham, principalmente antes de aprenderem a falar espanhol. Freqüentemente elas são maltratadas e vítimas de abuso. Por isso, Josefina e a Yanapanakusun trabalham junto às escolas das vilas, para informar crianças e pais sobre como é a vida de uma empregada doméstica. Rosia e seus colegas de classe adoram jogar futebol. Os muros de pedra do pátio constituem as linhas laterais.
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TEXTo & FoTo : JoHANNA HALLIN
Eu sou boa!
– Eu sou boa! – Eu sou boa! Os gritos ecoam entre as casas e as montanhas. Dimitri, da organização Yanapanakusun, de Josefina, veio com sua motocicleta pela estrada de cascalho recém-construída, a primeira estrada que leva até o vilarejo. Esta é uma das 30 vilas que a Yanapanakusun visita regularmente.
O
s alunos da quinta e sexta séries brincam, conversam, escrevem listas e desenham por toda a manhã. O tema é dignidade. É uma palavra difícil e leva algum tempo para compreender o que ela realmente significa. – Dignidade é respeitar a si mesmo e aos outros, diz Regina. – Exatamente, diz Dimitri. Podemos ser pobres, mas merecemos respeito mesmo assim. Vocês devem se esforçar na escola e serem amigáveis com os adultos, mas os adultos também
devem ser gentis com vocês. Ninguém pode bater em vocês e nem maltratá-las. Lidia franze a testa. Quando seu pai chega em casa bêbado, geralmente há brigas e discussões. Isso é desrespeitoso, pensa Lidia. – Fico com raiva quando meu pai se comporta assim, diz ela. Lidia e as outras alunas já conversaram muito sobre pais e adultos bêbados. Muitos adultos aqui consomem bebidas alcoólicas para esquecer o trabalho duro, a fome e a pobreza. Mas as crianças nunca se esquecem.
Lidia Garate Luza, 13 Gosta de: Brincar no pátio da escola. Não gosta: Quando os adultos discutem e brigam. Deseja: Que meu pai respeite a mim e aos meus amigos. Sente falta de: Minha mãe. Ela morreu quando eu era pequena. Admira: Dimitri, que nos ensina sobre os direitos da criança.
– Antes, eu sempre sonhava em me mudar para Cusco ou para Lima, mas agora meu sonho é que uma escola seja construída em nossa vila, diz Lidia. – Eu quero terminar o ensino médio e depois abrir um negócio. Vou vender pão, noodles, batata e açúcar. Prefiro morar aqui. Porém, eu nunca, nunca vou tomar bebidas alcoólicas e, quando me casar, meu marido também não vai beber.
O corpo todo participa das aulas da Yanapanakusun.
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Detenham os professores bêbados
Jeni Maribel Piñe Pucyura, 9 Gosta de: Matemática, é lógico e simples. Detesta: Adultos bêbados. Quer ser: Bibliotecária, para poder ler todos os livros.
Jeni Maribel adora ir à escola e fazer cálculos matemáticos. Porém, hoje é segunda-feira e a turma não vai aprender nada novo.
J
eni-Maribel e as outras crianças se sentam totalmente imóveis quando ouvem o professor se aproximar. Ele cheira a suor e álcool e logo começa a gritar com as crianças. – Por que ninguém puxou minha cadeira? Vocês não prestam para nada, bando de crianças estúpidas! Por que eu tenho que ficar neste buraco? O professor é de Cusco, mas trabalha no vilarejo onde Jeni Maribel mora.
Muitos adultos da cidade encaram as pessoas do interior com desprezo. Por isso o professor não se importa com seu trabalho. Ele freqüentemente está bêbado e, neste dia, como na maioria das segundas-feiras, dorme com a cabeça sobre sua mesa. As crianças se sentam caladas o dia todo. Quando o professor acorda, ele tira o cinto para bater nos dedos de alguém. Depois que o horário da escola termina, as crianças se reúnem atrás da casa de Jeni Maribel.
– Precisamos fazer alguma coisa, diz ela. Eles decidem que todos vão contar sobre o professor a seus pais quando chegarem em casa. Jeni Maribel fala sobre os espancamentos e como o professor bêbado grita com as crianças. Nessa noite, os pais se reúnem e vão à polícia. No outro dia, o professor não aparece. Os alunos ficam sozinhos na sala de aula todos os dias da semana. Na segunda-feira seguinte, chegam dois novos professores. – Ouvimos falar sobre seu problema. Mas prometemos que nunca viremos bêbados para a escola. Vamos tratálos com respeito, da mesma forma que vocês nos respeitam como professores, prometem eles. Jeni Maribel fica orgulhosa. Junto com seus colegas de classe, ela conseguiu se livrar do professor bêbado. – Eles deveriam colocar todos os maus professores atrás das grades! diz ela. Não só os professores, mas todos os adultos que espancam crianças ou as maltratam.
Jessica Quispe, 11 anos, e Juli Borrientos, 9 anos, usam trajes da região de Tinta, ao sul de Cusco.
Victor Manuel Meza, 10 anos, e Marco Antonio Luna Huisa, 11 anos, usam trajes do festival da colheita, da região de Tinta.
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O guarda-roupa de Cusco TEXTO : JOHANNA HALLIN FOTO : TOR A MÅRTENS
As crianças da região de Cusco adoram dançar e cantar. Há muitos belos trajes para vestir e muitas danças para aprender. Algumas são originárias da época dos incas, outras têm suas raízes na Espanha. Em junho e julho, as festas se sucedem. O festival mais importante em Cusco se chama Inti Raymi e remonta à época em que os índios celebravam o dia mais curto do ano, o solstício do inverno.
Clorinda Cachira Owepe, 15
Feliz: Quando eu danço. Triste: Quando nossas lhamas e carneiros morrem no frio do inverno. Brava: Quando adultos obrigam meninas a trabalhar dia e noite, sem nem um dia de descanso. Desejo: Dançar na encosta da montanha novamente.
Rosemery Ugarte, 12 anos, usa um traje que foi trazido ao Peru pelos conquistadores espanhóis há muitos séculos.
Clorinda dança a dança da ladeira Reyna Caceres Puma, 10 anos, e Carlos Enrique Contreras, 11 anos, usam um traje de Chicchinccha. Eles são chamados de cowboys dos Andes, pois muitos naquela região trabalham com cavalos e gado.
Sabina Yahaira, 5 anos, está vestida com um traje Tincus, típico da região em torno do Lago Titicaca, no sul do Peru.
Jose Nicolas Ccapatinta Lopez, 12 anos, em um traje Canchi, usado para uma das mais antigas danças indígenas. Essa dança é sobre a secagem da batata.
No site www.childrensworld.org você pode assistir dois filmes onde Clorinda e suas colegas de escola dançam.
“Eu adoro dançar! Mas preciso ter espaço para dançar como eu quiser”. Minha vila fica próxima da montanha Apu, cujo nome significa deus em quéchua. É a mais alta e mais sagrada montanha perto de Cusco. Todo ano fazemos uma grande festa no inverno e todas as pessoas da vila dançam. Nós, meninas, dançamos mais intensamente. O lugar onde celebramos o festival fica na montanha, em um declive. As pessoas mais velhas da vila contam histórias sobre meninas que dançaram com tamanho entusiasmo que acabaram caindo no precipício. Uma vez eu quase caí! Mas meu pai me segurou.”.
Gregorio Cansaya Quispe, 10 anos, veste uma fantasia de demônio de uma dança tradicional da região de Paucartamzo, próxima à floresta peruana.
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TEXTO : JOHANNA HALLIN FOTO : TOR A MÅRTENS
Cansada e solitária em
Cusco É tratada como um cão “Eu tenho que me sentar na cozinha e comer os restos, como um cão. Às vezes não sobra nada para eu comer. Uma vez eu estava com tanta fome que procurei por alguma coisa para comer nos sacos de lixo, atrás da casa. Naquele momento, eu pensei que seria melhor se eu nem existisse”. Reyna, 11
A maioria das meninas que vêm trabalhar em Cusco é do interior, das regiões montanhosas que cercam a cidade. Elas sonham com a vida na cidade, educação e roupas bonitas. Todavia, a realidade freqüentemente se assemelha mais a uma prisão.
Ninguém me vê
Ter o cabelo puxado “Eu lavo as roupas da família toda. O pior é quando as crianças mancham suas camisas brancas com suco de frutas. Essas são as manchas mais difíceis de remover e, se eu não consigo, a dona da casa fica brava. Ela grita comigo e puxa meu cabelo”. Carmen Celia, 13
“A dona da casa cozinha, mas eu tenho que cortar todos os legumes e manter acesa a lenha do fogão. Depois das refeições sou eu que lavo a louça e limpo a cozinha. Muitos acham que ela é uma boa cozinheira. Isso me dá raiva. Ninguém percebe que eu ajudo”. Fany, 12
Nunca sai “Eu nunca saio. Eu me perderia, e para quem poderia perguntar o caminho? Eu não sei falar espanhol. Além disso, minha patroa diz que eu poderia ser roubada e apanhar na rua, ou que a polícia poderia me levar. Isso me amedronta”. Laydi, 12
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Valeria cochila na carteira da escola
Grita palavões “O dono da casa fica bravo com muita facilidade. Não importa o que eu faça, ele sempre grita comigo. Palavrões, muito alto. Tenho vontade de arrancar minhas orelhas quando ele faz isso”. Juli, 13
Na escola noturna, as meninas têm a chance de usar computadores. Onde moram, a maioria delas só pode tirar o pó dos computadores.
Josefina encontra as
garotas na escola noturna Visitar as diferentes escolas noturnas é uma parte importante do trabalho de Josefina e Yanapanakusun. É onde ela entra em contato com meninas que precisam de ajuda e apoio. As escolas noturnas são, na verdade, para trabalhadoras domésticas adultas, mas muitas das alunas são crianças. Muitos patrões não permitem que as meninas freqüentem a escola regular, mas as autorizam a irem à escola noturna depois que elas concluem suas obrigações diárias. Algumas meninas só têm permissão para ir uma vez por semana. Por isso as escolas noturnas organizam aulas extras aos sábados e domingos.
Valeria cochilou hoje, com a cabeça apoiada no livro-texto e os braços sobre o joelho. O professor da maior escola noturna de Cusco a acordou delicadamente. Não é a primeira vez que ele vê uma menina exausta após um dia de trabalho. Mas Valeria se envergonha mesmo assim. Ela quer ir bem na escola, mas é difícil quando os olhos ardem como se estivessem com areia e os braços estão pesados como chumbo. “Eu me levanto pouco antes das seis da manhã. A essa hora a casa toda está fria, e começo logo com a limpeza para me esquentar. Se tenho sorte, os dois garotos dormem até as sete e meia. Aí eu tenho tempo de fazer parte das minhas lições de casa antes que eles acordem. A dona da casa vai para o trabalho quando eu acordo, então é minha responsabilidade vestir os meninos e levar o mais velho para a creche. O menino mais novo só tem um ano de idade. Eu cuido dele e brinco com ele o dia todo. Eu gosto quando ele ri, e ele também gosta de mim. Ao meio-dia, eu dou almoço para os meninos e lhes dou banho. Depois, eu cuido deles e lavo roupa durante o resto da tarde. Na maior parte do tempo, é fácil. Mas, às vezes, meus patrões ficam bravos. Na semana passada, eu estava brincando na rua com os meninos bem na hora que o dono da casa chegou. Não havia nenhum carro lá fora, mas ele ficou muito bravo e me chamou de ’idiota’. Senti-me estúpida e triste. Todos os dias, às seis da tarde, eu vou para a escola noturna. É a melhor parte do dia, mas eu estou sempre tão cansada. Tenho dor de cabeça e mal consigo segurar uma caneta. É por isso que não vou tão bem na escola. Não tenho energia para me concentrar naquilo que o professor diz. Eu queria poder ir à escola durante o dia, como as outras crianças. Mas preciso trabalhar, então isso é impossível. As nove e meia eu volto para a casa. Então tenho que lavar a louça do jantar e tentar comer alguma coisa antes de me deitar”.
Valeria Llamacehima Churata, 13 Gosta de: Se ocupar e fazer brincos. Fica triste: Quando penso em minha mãe e como ela costumava rir e me abraçar. Sonho: Ser enfermeira.
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Luz Garda encontra o lar
Luz Garda tem 11 anos quando viaja num ônibus que segue para uma cidade, cujo nome ela desconhece. Ela fugiu. Agora está sozinha, faminta e bem longe dos berros dos parentes e das mãos rudes dos homens. Uma mulher de belas roupas se senta ao seu lado. – Você precisa de ajuda?
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uz Garda veste apenas uma camiseta fi na. A mulher a envolve com uma manta e sorri para ela. – Estamos a caminho de Cusco, diz a mulher. É uma cidade grande, porém não se preocupe, vou cuidar de você.
Luz Garda fica contente. Finalmente um adulto que se importa com ela. Até hoje, ela nunca se sentiu bem vinda em lugar algum. Quando ela tinha seis anos, seu padastro a mandou morar com uma tia na cidade, para ir à escola. No entanto, vários anos se passaram até que a tia achou que tinha condições de pagar as taxas escolares. Ao invés de ir para a escola, Luz Garda tinha que ajudar na limpeza da casa e trabalhar na pequena loja de sua tia.
Um dia, as irmãs de Luz Garda a aguardavam do lado de fora da porta. Surpresa, ela as abraçou. Ela sentia falta de suas irmãs mais velhas, desde que estas deixaram a vila, há muitos anos. – Agora você vai morar conosco, disseram as irmãs. Assim, ela deixou a casa da tia sem se despedir e nem ao menos dizer para onde estava indo. Todavia, a vida na casa das irmãs não foi como Luz Garda esperava. Ela deixou a escola para cuidar do sobrinho. Suas irmãs trabalhavam em um bar todas as tardes e à noite. Porém, o pior era o namorado de uma das irmãs. Quando ela estava trabalhando, ele tentava tirar a roupa de Luz Garda e tocá-la. Quando Luz Garda contou para sua irmã, ela ficou furiosa. – Não minta sobre meu namorado, gritou ela, e deu
É a primeira vez que Luz Garda e sua melhor amiga visitam a feira anual de Cusco. Antes, as famílias para as quais trabalhavam não lhes davam folga. É a primeira vez que elas comem algodão doce e andam de carrossel e roda gigante.
um tapa na cara de Luz Garda. Suma! Então, Luz Garda saiu pela porta, foi para a rodoviária e comprou uma passagem com as únicas moedas que tinha. Foi assim que ela foi parar sentada ao lado da bela mulher no ônibus para Cusco. O sonho se torna pesadelo A primeira semana é como um sonho. Luz Garda dorme bem e, durante o dia, ajuda a mulher a varrer o chão da casa. Porém, depois, a mulher quer que Luz Garda faça muito mais. Cozinhar, lavar
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Gosta de: Dançar, ouvir música, ler livros, fazer compras. Livro preferido: Harry Potter. Música preferida: Reggae. Sonho: Ser artista ou guia turística. Admira: Josefina. Ela é como uma mãe para mim.
Luz Garda compra bilhetes de carrossel com o dinheiro que ganhou da família para quem trabalha agora. Eles são bons e justos.
TEXTO : JOHANNA HALLIN FOTO : TOR A MÅRTENS
Luz Garda Callapiña Chani, 16
a louça, tirar o pó, lavar as verduras, fazer compras, polir as janelas. As tarefas são cada vez mais numerosas, e a mulher fica cada vez mais insatisfeita. Como Luz Garda vem de uma vila sem eletricidade, ela nunca usou um ferro de passar roupa. Um dia, ela queima uma das blusas da mulher, que fica furada. Quando a mulher percebe, ela fica furiosa. – Você é ingrata e preguiçosa. Eu devia te mandar para a polícia, sibila ela. Luz Garda trabalha todos os dias da semana, das sete da manhã até a hora de dormir, às nove e meia da noite. Ela tenta cumprir todas as tarefas direito, mas a mulher sempre encontra algo para reclamar.
Os direitos das empregadas domésticas Um dia, na feira, Luz Garda conhece uma menina em frente à banca de pão. – Oi, você também é empregada doméstica? pergunta a garota. Luz Garda assente, curiosa. A menina diz que até mesmo as pessoas que traba-
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lham como empregadas domésticas têm direito de ir à escola, têm direito a folga todo domingo e têm direito a um salário. Luz Garda não tem nada disso, mas como ousar dizer algo à mulher? Luz Garda nunca mais encontra a menina. Às vezes ela acha que foi um anjo que ela encontrou em frente à banca de pão. Ela agradece todos os dias pelo que a menina disse. Porém, toda vez que ela tenta tocar no assunto sobre seus direitos, a mulher apenas ri. Uma noite Luz Garda foge novamente. Ela corre até quando acha que os pulmões vão explodir e que não há ninguém a seguindo. Essa noite ela dorme na praça em Cusco. Quando os policiais a acordam, ela está assustada e com frio.
A polícia mantém Luz Garda presa por muitos dias. No fi nal, acaba mandando-a para Josefi na e a Yanapanakusun. Cerca de 15 meninas de diferentes idades dividem um quarto de dormir. Todas vêm de pequenas vilas nos arredores de Cusco e trabalharam para famílias que as maltrataram. Josefi na faz muitas perguntas, porém Luz Garda não responde. Ela apenas a fita silenciosamente. Ela não pode confiar em mais ninguém. Confia em Josefina Durante um bom tempo, Luz Garda faz tudo que pode para irritar Josefi na. Ela é desagradável, se recusa a ajudar e não quer ser amiga
A certidão de nascimento de Luz Garda foi necessária para que ela pudesse voltar para a escola.
O guarda-roupa de Luz Garda Traje de dança Duas bolsas servem de guarda-roupa para as belas roupas de Luz Garda.
– Eu adoro dançar reggae. Já fiz vários cursos de dança para aprender a dançar melhor. É importante usar um sapato de salto para dançar.
Roupas de trabalho – Não são tão bonitas, então não tem problema se eu sujá-las.
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de nenhuma das outras meninas. Mas Josefi na é paciente. Ela entende que esse é o modo de Luz Garda mostrar que está triste e com raiva. Quando ela já está na casa há um ano, Josefi na diz: – Acho que devemos procurar sua família. Primeiro, Luz Garda fica com medo. Ela não quer encontrar os parentes de quem fugiu. Mas ela acaba concordando em ir. Durante a longa viagem de ônibus, ela conversa com Josefi na. Parece que é a primeira vez que elas conversam de verdade. Na casa de sua tia, Luz Garda consegue uma cópia de sua certidão de nascimento. Isso significa que ela pode voltar a freqüentar a escola. Então Luz Garda toma coragem. – Desculpe-me por ter
fugido, diz ela. – Desculpe pelas vezes em que não te tratamos tão bem como deveríamos, diz a tia. No caminho de volta para Cusco, tudo mudou. Luz Garda fi nalmente decidiu confiar em Josefi na. Minha nova família Agora Luz Garda tem 16 anos. Durante o dia, ela trabalha na casa de uma família que paga bem, e de noite ela vai à escola. Depois ela volta para a casa de Josefi na e para o quarto que divide com Fortune e Adaluse. – O melhor de tudo é que ganhei uma família na Yanapanakusun. Minhas colegas de quarto são como minhas irmãs, diz Luz Garda. – Agora posso me sentir contente e feliz. E quando estou triste, posso chorar sem medo.
O doce preferido de Luz Garda.
Luz Garda e sua melhor amiga, Adaluse, estão ambas no último ano da escola Maria Angola da Yanapanakusun.
Roupas esportivas – Uso minhas roupas novas para brincar e praticar esportes. Minha brincadeira preferida é uma corda dupla para pular. Como é muito frio aqui em Cusco, eu geralmente pratico esportes para me esquentar.
Sapatos para esporte
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Experimente o quéchua Oi Eu estou bem, irmão (para um rapaz) Eu estou bem, irmã (para uma garota) Como você se chama? Sim Não Obrigado Tchau/Até outro dia Eu te amo
Allillanchu kashanki Allillanchu kashanki Allillanmi panay Ima’n sutiki? Ari Manan Diospagarasunki Tupananchis cama Noka munakuyki
Gregorio ensina a contar até dez em quéchua no site www.childrensworld.org! A bolsa e o material escolar de Luz Garda.
Direito a dois idiomas O espanhol e o quéchua são os idiomas oficiais do Peru. No entanto, o espanhol é tido como mais elegante, pois a maioria das pessoas que têm dinheiro e poder nas cidades falam apenas o espanhol. Muitas pessoas pobres nas montanhas falam somente o quéchua. Geralmente, quando uma menina vem para a cidade para trabalhar, ela não consegue conversar com ninguém. A família para quem ela trabalha se recusa a falar quéchua e ela nunca aprendeu espanhol. Após alguns anos, depois de aprender o espanhol, não é raro ela esquecer o quéchua. Isso significa que não poderá conversar com sua família, caso tenha a chance de reencontrá-la. – Por isso, é importante que as meninas aprendam o espanhol e tenham a possibilidade de manter sua língua nativa, diz Josefina. Não é só a questão do idioma, mas também uma forma de garantir sua autoestima e manter sua história. Os livros de Harry Potter são os favoritos de Luz Garda. ”Gosto da lealdade entre os três amigos. Além disso, Harry tem talentos mágicos, que ele desenvolve conforme aprende mais e mais. Eu também quero desenvolver meus talentos.”
Roupas de verão
Roupas de inverno
– Essas são minhas roupas de praia. Já fui para Lima uma vez e vi o oceano Pacífico! Óculos de sol
Chapéu de sol – Eu uso esse chapéu de sol quando caminho pela montanha. É preciso proteger a cabeça contra a forte luz solar, senão você pode até desmaiar.
A bolsa de pato vem do lago Titicaca, no sul do Peru.
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A organização de Josefina administra a escola noturna Maria Angola. Ela é aberta para crianças que trabalham, tanto meninas quanto meninos. As meninas geralmente trabalham como domésticas ou com algum parente. Os meninos geralmente moram sozinhos, às vezes alugam uma cama e às vezes moram na rua. Eles trabalham lavando pratos em restaurantes, ou como vendedores de rua, ajudantes em uma padaria ou oficina. No entanto, tanto meninas quanto meninos geralmente são muito solitários e se sentem desvalorizados. A maioria trabalha duro e está freqüentemente cansada. Muitos acham difícil trabalhar em grupo, pois nunca aprenderam a cooperar com outras crianças através de brincadeiras ou estudo. Os alunos da Maria Angola aprendem muitas coisas diferentes, mas a coisa mais importante que aprendem é: • que todas as crianças têm direitos. • que meninas e meninos têm o mesmo valor. • que todos os seres humanos merecem respeito, liberdade e conhecimento. • a colaborar. • a poder exigir seus direitos.
Um dia em Yanapanakusun 07:15 Hora de acordar Durante o inverno, Josefina acorda as meninas às sete e quinze. É o tempo exato para elas fazerem a cama, se arrumarem e tomarem o café da manhã antes de irem para a escola. – Dentro de casa é frio, assim elas podem ficar na cama o máximo de tempo possível, diz Josefina. No verão, quando o sol começa a esquentar mais cedo, elas se levantam às seis e meia.
07:45 A caminho da escola Clorinda, 15 anos, desce a rua apressada em direção à escola. Ela e metade das meninas da casa freqüentam uma escola diurna. As demais freqüentam a escola noturna.
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Uma escola para meninas e meninos
09:00 Alimentar a gansa Fortunata e Youana alimentam a gansa e lhe dão água. – Ela come grama, casca de laranja e restos de alimentos. Temos sete gansas e cada uma delas bota um ovo todos os dias, diz Fortuna.
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10:00 Aguar as plantas Sonia, 12 anos, e Elisabeth, 11, plantaram sementes em pequenos vasos. Agora as plantas estão crescendo e ficam maiores todos os dias.
09:30 Limpeza da gaiola do porquinho-da-índia As meninas têm 14 porquinhos-da-índia que moram em uma gaiola no quintal. Eles não são animais domésticos com os quais se pode brincar. No Peru, o porquinho-da-índia é uma iguaria que as pessoas comem. – Mas não comemos nossos porquinhos-da-índia. Eles são tão fofinhos que temos pena deles, diz Vittoria, 11 anos.
10:15 Dar banho em Trapo O cachorro se chama Trapo, que significa pano velho ou farrapo. Ele ganhou esse nome quando era filhote e Josefina tentou jogá-lo fora, pensando que ele fosse um pedaço de pano no chão. Adaluse e Sonia dão banho em Trapo toda semana. O cachorro mora no quintal e late quando algum estranho tenta entrar.
10:30 Coelho sorridente Um coelho mora no jardim, e Fortuna, 17 anos, o batizou como Meggi. O coelho vem correndo quando ela o chama.
– Nós cuidamos dos animais e eles cuidam de nós. Muitas das meninas vêm do interior e cresceram com animais, diz Josefina. É importante que tenham a chance de manter esse contato. Além disso, os animais domésticos são bons para as meninas que foram maltratadas por adultos, pois na relação com os animais elas podem recomeçar a lidar com seus sentimentos. Elas podem aprender sobre cuidado, confiança e amor.
Rosalbina, 14 anos, adora jogar llajes. No site www.childrensworld.org você pode aprender como se joga.
11:00 Prática em grupo com psicólogo Duas vezes por semana, Elisabeth, 11 anos, e as outras meninas se encontram com o psicólogo de Yanapanakusun. Aqui elas falam sobre experiências difíceis pelas quais passaram, e sobre como se sentem no momento e em relação ao futuro.. – Aprendemos a respirar com calma, a conversar com os colegas, a ouvir e a falar. Muitos no Peru acham que é uma vergonha conversar com um psicólogo, mas eu acho que é bom, diz Elisabeth.
12:30 Tricô e brincadeira Quando as tarefas da manhã terminam, Vittoria, 11 anos, relaxa. Todo domingo as meninas que trabalham vêm à casa para se encontrarem e fazerem coisas divertidas. Algumas semanas atrás elas aprenderam a tricotar. Vittoria já está fazendo seu terceiro cachecol. Ela o enrola em volta do pescoço e continua a tricotá-lo.
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Almoço em breve Mariam, 16 anos, e Sonia preparam o almoço. Todas as meninas comem juntas, geralmente cozido com batata, milho e outros legumes.
Hora do dever de casa Gracelia, 12 anos, e Jeni-Maribel, 9 anos, fazem o dever de casa na biblioteca. Ambas freqüentam a escola de manhã, assim, quando as outras garotas vão para a escola noturna, elas fazem o dever de casa juntas.
Na biblioteca, há quebracabeças e revistas em quadrinhos que falam sobre meninas que fazem trabalhos domésticos.
17:30 Parque de diversão Quando algum dos adultos tem tempo de ir junto, as meninas vão ao parque. Tem escorregador e campo de futebol, mas o mais legal são os balanços.
16:30 Hora de lazer com DVDs Nos finais de semana, depois que todos os deveres de casa estão feitos, as garotas podem assistir TV. O que elas mais gostam de assistir são vídeos musicais. Clorinda tem vários DVDs da cantora peruana Fresialinda. – Ela está sempre feliz e canta bem. Eu gosto de huayno, a música tradicional dos índios, diz ela.
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20:30 Jantar Quando as últimas meninas voltam da escola noturna é hora do jantar. Depois da comida, elas ganham uma colher de mel. Durante o inverno é muito frio à noite, e muitas se resfriam. O mel dá uma sensação agradável e suave na garganta.
Ouça e veja a artista preferida de Clorinda – Fresialinda – no site www.childrens world.org!
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18:00 Simulação de terremoto Muitos edifícios no Peru têm círculos de terremoto marcados com um S. As marcas indicam o lugar mais seguro do terreno. É para lá que as garotas devem ir se houver um terremoto.
22:00 Boa noite Elisabeth e Vittoria escovam os dentes e brincam um pouco mais até Josefina entrar. É hora de ir para a cama. – Sueña con los angelitos. Sonhem com os anjos, diz ela.
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TEXTO : JOHANNA HALLIN FOTO : TOR A MÅRTENS
A rádio das meninas É uma quinta-feira de manhã e o ponteiro dos segundos se aproxima das oito e meia. As lâmpadas se acendem. É hora do programa de rádio das empregadas domésticas! – Bem vindas. Hoje vamos falar sobre nosso direito de sermos tratadas com justiça e decência, diz Inés Kcorahua Cruz. Quando Inés era pequena,
ela trabalhava como empregada doméstica e foi salva por Josefi na. Agora ela apresenta o programa de rádio para informar outras crianças que se encontram na mesma situação pela qual ela passou. Hoje está no estúdio Amanda, 14 anos, empregada doméstica e ouvinte fiel.
– Eu sei que existem muitas meninas que ainda estão aprendendo o trabalho doméstico, diz Inés, mas leva tempo para aprender. Mesmo se você comete um erro, merece ser tratada de maneira justa e decente. Quando a dona da casa fica brava, grita e bate, você acha que esse é o jeito mais fácil de aprender? Eu não acho! – Eu também não acho, diz Amanda no microfone e para além das ondas do rádio. Todos podem cometer
Direitos no rádio “Eu sempre ouço o programa de rádio das meninas. Tenho um radinho prateado que funciona a pilha. O que eu mais gosto é quando elas falam dos direitos das meninas. Eu trabalho todos os dias vendendo doces, biscoitos e sorvete na rua. Agora eu sei que tenho direito de ser bem tratada. Direito de ir à escola noturna. Agora que conheço meus direitos, eu me sinto mais forte, mais inteligente e mais segura. Antes eu nunca sabia o que dizer quando alguém me maltratava. Mas agora eu sei! Há leis que protegem crianças e trabalhadores. Eu costumo ouvir o programa junto com meus pais, assim eles também podem aprender sobre os direitos da criança”. Zaida Ines Canahuri Quispe, 12
erros, e com o tempo a pessoa aprende. Mas não com gritos e tapas. A rádio das empregadas domésticas vai ao ar cinco horas por semana, tanto em espanhol quanto em quéchua. A maioria das meninas que trabalha em casas de família não tem permissão dos patrões para ouvir rádio. É por isso que o programa é transmitido de manhã, assim as meninas podem ouvir escondidas. – Sabemos que há muitas meninas que não recebem o respeito que merecem, só porque são humildes, solitárias e não podem se defender, diz Inés. – Mas lembre-se que, se você precisar de ajuda, a Yanapanakusun está aqui para você. Anote nosso endereço e número de telefone, para nos telefonar ou nos visitar! No site www.childrensworld. org você pode ouvir o programa de rádio.
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Parabéns! Hoje é um dia muito especial em Yana pana kusun. Hoje todo mundo comemora aniversário!
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aniversário é um dia importante no Peru. A maioria das crianças e adultos comemoram com uma grande festa, bolo, balões, palhaço, presentes, piñata e muita comida gostosa. Porém, as garotas que trabalham não têm ninguém para organizar uma festa de aniversário para elas. Então, ao invés de divertido, o aniversário se torna um dia ainda mais solitário e triste. Várias meninas que moram com Josefi na também não sabem quando fazem aniversário. Elas perderam contato com suas famílias e parentes e não se lembram mais onde e quando nasceram. Por isso, Josefi na oferece uma grande festa para todas elas comemorarem ao mesmo tempo. Rebeca acabou de descobrir que seu aniversário é dia 13 de maio. É uma sensação estranha. Ela sabe que já comemorou seu aniversário antes, mas não consegue se recordar como foi. Isso ocorreu antes de sua mãe
ficar doente e morrer. – Eu tinha seis anos e, depois disso, meu pai ficava bêbado todos os dias, diz Rebeca. Eu sempre saía de manhã e só voltava para casa depois que anoitecia. A casa era só gritaria e briga. Rebeca caminhava pela montanha com as ovelhas e lhamas da família. Ali ela podia chorar e pensar em sua mãe. Em casa ela estava sempre calada e tomando cuidado para não irritar o pai. Quando ela tinha dez anos, sua prima veio visitar. – Você precisa deixar a menina ir à escola, como as outras crianças, disse a prima ao pai de Rebeca. – Não, ela tem que ficar em casa comigo, vociferou o pai. Mas a prima percebeu que Rebeca estava assustada e infeliz. Na manhã seguinte, bem cedo, antes que o pai acordasse, elas caminharam por todo o longo caminho até a cidade mais próxima e tomaram o ônibus para Cusco.
Lista de desejos de Rebeca • Livros de aventura, principalmente sobre dragões. • Um carro vermelho, para poder dirigir até minha vila natal e fazer uma visita. Aí eles ficariam surpresos! • Um quarto próprio com uma janelinha, uma cama azul, um CDplayer e um microfone para cantar.
Rebeca Aguilar Condori, 12 Sonho: Um quarto próprio e silencioso. Quer ser: Cantora e compositora. Admira: Gabatshwane, membro do Júri do Prêmio das Crianças do Mundo.
Conte sobre seu dia especial! Você comemora seu aniversário ou tem alguma outra data especial? Visite o site www.childrensworld.org e conte o que faz para celebrar.
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Princesas
visitam o vale sagrado – Uau! diz Luz Garda e estica os braços como um condor, a ave sagrada dos incas. Embora ela e as outras meninas que moram com Josefina tenham crescido na zona rural dos arredores de Cusco, esta é a primeira vez que visitam uma ruína inca.
TEXTO : JOHANNA HALLIN FOTO : TOR A MÅRTENS
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uase um milhão de turistas de todo o mundo visitam Cusco todos os anos. Eles vêm para ver as escavações arqueológicas, percorrer as trilhas incas e admirar os remanescentes da cultura inca. Josefi na, Luz Garda e as outras garotas andam por caminhos estreitos e escadarias. Ao chegar na cidade inca de Pisaq, elas se sentam em frente ao templo circular do sol. – Sei que muitas de vocês se envergonham por virem da zona rural, diz Josefi na. Mas olhem em volta! Seus antepassados construíram no alto das montanhas, eles eram reis. Esse background não é algo do qual se envergonhar. Vocês são princesas! Luz Garda e Sonia se entreolham, rindo. É difícil se sentir uma princesa depois de lavar as roupas íntimas de seu empregador. – Eu sei, diz Josefi na, rindo com elas. Às vezes nos sentimos como se não tivéssemos nenhum valor, especialmente quando o patrão é repugnante e o trabalho é pesado. Nessas situações é ainda mais importante nos lembrarmos de nossas origens. Pisaq fica no vale sagrado dos incas. O rio Urubamba corre pelo vale, e aqui cres-
cem pelo menos quinze tipos diferentes de milho. – Por que os incas moravam tão alto nas montanhas? pergunta Luz Garda. – Porque a montanha era sagrada, e os incas ricos queriam morar perto do deus do sol, Inti, conta Josefina. Além disso, era mais fácil defender a cidade em caso de guerra. – Havia deuses quando os incas viviam aqui? pergunta Elisabeth. – Sim, acredito que sim, diz Josefi na. Nós somos católicas e cremos em Deus. No entanto, os incas viam deuses no sol, na terra, na montanha, nas estrelas e na
água. Alguns fundamentos da sua religião ainda existem. Por exemplo, para nós que vivemos nos Andes, é muito importante tratarmos bem a natureza. – Cusco já existia na época dos incas? Luz Garda deseja saber. – Sim, os incas acreditavam que Cusco fosse o centro do universo, pois essa era a capital do seu reino. As meninas riem novamente. – Que ótima excursão! exclama Luz Garda. Estou feliz por conhecer coisas das quais posso me orgulhar.
Uma pequena escada montanha acima leva as meninas à cidade inca de Pisaq. A Inca Kola é o refrigerante mais popular no Peru.
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Os incas construíam terraços para poder plantar milho, batata e grãos nas encostas íngremes das montanhas.
O povo dos reis
Se eu fosse um rei inca eu... “... construiria uma escola só para meninas, que seria a melhor escola de todo o mundo. Ela teria os melhores e mais gentis professores e todos comeriam uma deliciosa refeição no almoço todos os dias”. Graciela Games, 12 “... daria um monte de brinquedos para as crianças solitárias brincarem. Elas teriam folga da escola toda quarta-feira, para terem tempo de brincar com suas coisas novas”. Rosalbina Nina Condori, 15
“... cuidaria para que nenhuma criança precisasse trabalhar ou fazer coisas chatas. Todas as crianças poderiam brincar durante o dia. À noite, cada criança ficaria com sua mãe e seu pai”. Sonia Poña Hoyta, 12
“... construiria um parque só para crianças! Lá, haveria escorregadores, gangorras e balanços grandes, e todas as crianças poderiam comer quantos doces quisessem. Aos domingos, as crianças descansariam e os outros dias da semana seriam só para brincadeiras. O parque abriria para ricos e pobres, mas os adultos não teriam permissão para entrar”. Vittoria Carreño, 11 år
“... distribuiria todo o meu ouro, para que ninguém mais fosse pobre. Assim, nenhuma criança precisaria trabalhar”! Zulma Panique Escolante, 14
• A grandeza dos incas durou apenas 100 anos, porém, durante esse período, eles governaram uma área que se estendia do sul da Colômbia até a região central do Chile. • Inca significa rei. • Os incas não tinham linguagem escrita e não usavam a roda, mas eram especialistas em construir casas com rochas pesadas e no transporte de água dos longos vales até os topos das montanhas. • A mais famosa ruína inca, Machu Picchu, que também fica no vale sagrado, era o local de veraneio dos reis incas. A bela cidade de pedra foi esquecida quando os espanhóis invadiram Cusco, mas as ruínas foram redescobertas por um arqueólogo no início do século XIX. • Durante um longo período, a trilha inca era o único caminho para se chegar a Machu Picchu. Hoje, milhares de turistas chegam de trem ou ônibus para visitar o local todos os dias. • Machu Picchu foi nomeada pela Unesco como atrimônio Histórico da Humanidade. 41
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NOMEADA • Páginas 42–66
Agnes Stevens R
Na quadra dos sem-teto, em Los Angeles, centenas de crianças lutam pela sobrevivência,cercadas pelo tráfico de drogas, pela violência e a miséria. Ryan, 13 anos, é uma delas. Agnes Stevens e sua organização, School on Wheels, ajudam Ryan e outras crianças sem-teto a terem sucesso na escola e a sentirem que têm valor. Um milhão de crianças não têm moradia fixa nos EUA.
POR QUE AGNES É NOMEADA?
para escrever e desenhar, com o intuito de criar condições para que elas estudem e tenham a chance de serem crianças.
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Agnes Stevens é nomeada ao WCPRC 2008 por seus 20 anos de luta pelas crianças sem-teto nos EUA. Todo ano, Agnes e sua organização School on Wheels ajudam milhares de crianças sem-teto com idade entre seis e 18 anos. Centenas de voluntários dedicam dezenas de milhares de horas como professores de reforço de crianças que vivem em albergues, hotéis de estrada, em carros e na rua. Os professores de reforço oferecem segurança às crianças sem-teto. Quando elas se mudam, a School on Wheels as acompanha, proporcionando estabilidade em uma existência incerta. As crianças podem manter contato com a School on Wheels através de uma linha telefônica gratuita de auxílio. Agnes e a School on Wheels ajudam as crianças a se mudarem de escola e seus pais a obterem novas vias de documentos perdidos, como boletins escolares e certidões de nascimento. As crianças ainda recebem bolsas e material escolar, e dinheiro para o ônibus e o metrô. Em muitos albergues, a School on Wheels montou salas especiais para as crianças, com computadores, livros e material
yan desce do ônibus escolar e caminha em direção à quadra mais suja e mal-cheirosa daquela área. Aqui, as drogas são vendidas abertamente nas esquinas, e as calçadas estão amontoadas de pessoas sem moradia. Ryan e sua família já se mudaram muitas vezes e moraram em albergues e hotéis de beira de estrada. Mesmo assim, eles nunca precisaram dormir na rua, como milhares de outras pessoas fazem aqui, abrigadas em barracas, sobre pedaços de papelão ou velhos cobertores. Depois de alguns anos nesta região, Ryan reconhece muitos dos sem-teto, mas raramente cumpri-
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A sala das crianças da School on Wheels no centro de Los Angeles.
Agnes caminha pela área dos sem-teto com as irmãs Khadijah e Janine, Ryan e seu primo, que também se chama Ryan!
menta alguém. Muitos deles são doentes mentais ou usam drogas, e podem se tornar agressivos e violentos se alguém os incomoda. Por isso, é raro Ryan olhar alguém nos olhos, é mais seguro assim. Durante sua curta caminhada, Ryan precisa se desviar das pessoas que dormem na rua, em sacos de dormir ou enroladas em cobertores. Certa ocasião, ele teve que pular para fora do caminho, quando um homem irado passou
apressado com seu carrinho de supermercado lotado de roupas e coisas velhas. Ryan se acostumou com a sujeira, o mau cheiro e o caos. Ele não se assusta mais, porém, às vezes vê coisas que não quer ver. Como no outro dia, quando uma mulher idosa se agachou e urinou em uma esquina. Ou quando um casal brigava e trocava agressões físicas na calçada e a mulher repentinamente tirou a roupa e começou a correr nua. “Ninguém deveria ter que viver assim”, pensa Ryan. Ao avistar a familiar placa amarela iluminar o concreto
cinza, ele sente-se contente. School on Wheels – Escola sobre Rodas – mostra ela, em grandes letras redondas. As janelas são pintadas em cores alegres e, ao passar pela porta, Ryan encontra Agnes, a fundadora da organização. Ryan sabe que ela tem mais de 70 anos de idade, porém Agnes conversa e brinca com as crianças como se tivesse a idade delas. Aposentada. Não, obrigada! Agnes havia acabado de se aposentar de seu trabalho como professora, quando leu um livro que mudou sua
Ryan e Agnes.
vida. O livro era sobre famílias sem-teto nos EUA. Agnes ficou chocada ao descobrir que centenas de milhares de crianças não tinham moradia fi xa e que muitas delas não freqüentavam a escola.
Olá com as mãos
Leva algum tempo para os irmãos do sul de Los Angeles, Adrian, 11 anos, e Daniel, 14 anos, se cumprimentarem. Eles fazem uma seqüência de diferentes apertos de mãos até sentirem que se saudaram de forma adequada. Às vezes, eles reproduzem o mesmo ritual todo novamente para se despedirem! “What’s up?” “How’re you doing?” 43
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Ryan gosta de ajudar crianças mais novas que vêm à School on Wheels, pois ele próprio teve muito apoio.
– A aposentadoria pode esperar, disse ela a si mesma. Vou ajudar as crianças semteto com os deveres escolares. Agnes começou a ajudar em albergues e escolas, e conheceu dois irmãos semteto de 9 e 11 anos, que lhe pediram que os ensinasse a Agnes com Janine, 9 anos, que não teve moradia fixa durante a maior parte de sua vida.
ler. Agnes se preparou durante todo o final de semana. Porém, na segundafeira, quando voltou, os meninos tinham ido embora. O episódio permitiu que Agnes entendesse ainda mais sobre como é a vida das crianças sem-teto. Elas nunca sabem com antecedência onde dormirão na noite seguinte. Agnes logo encon-
trou outras crianças que precisavam de sua ajuda. No entanto, ela nunca se esqueceu dos meninos que sumiram. Nos primeiros anos, Agnes trabalhava sozinha. Ela enchia o carro de livros escolares, lápis e giz e ia encontrar as crianças em parques e albergues por toda a cidade de Los Angeles. Logo percebeu que precisava pedir
ajuda a outras pessoas e fundou a organização School on Wheels – Escola sobre Rodas. A School on Wheels cresceu muito desde então. A organização começou com uma única professora de reforço – a própria Agnes – e hoje conta com o apoio de centenas de voluntários, que ajudam as crianças sem-teto com os deveres de casa.
Crianças que não existem
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Há cerca de um milhão de crianças sem-teto nos EUA e 200.000 na Califórnia. – Ainda assim, ninguém quer falar sobre elas, é escandaloso, diz Agnes. As crianças sem-teto são as mais pobres entre os pobres. Elas crescem em áreas onde não há lugares para brincar nem parques, e estão cercadas por drogas, gangues, violência e prostituição. Comparando-as com outras crianças, elas estão normalmente mais cansadas, com fome e doentes. Elas se sentem envergonhadas, diferentes e excluídas. Quero ajudálas a acreditarem em si próprias e fazer com que percebam que elas têm valor.
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No início, apenas Agnes era professora de reforço; hoje ela tem centenas de voluntários ajudando.
Boa ouvinte Ryan recebeu ajuda de Agnes e da School on Wheels para mudar de escola, e toda semana ele encontra sua professora de reforço. – Ela me ajuda com os deveres de casa e me inspira a fazer sempre o melhor e a não desistir jamais, diz Ryan, que se lembra da primeira vez que veio à School on Wheels. – Assim que entrei pela porta, senti que esse seria meu lugar seguro. Aqui eu podia me concentrar para aprender. Eu disse a Agnes que não tinha uma bolsa escolar e ganhei uma na mesma hora! Ela é uma boa ouvinte. Quando tenho um problema, ela me ajuda a ver a solução, e me faz sentir bem comigo mesmo. Agnes costuma dizer que a escola é um segundo lar
para muitas crianças, onde elas têm amigos e adultos com quem conversar e nos quais podem confiar. Portanto, uma criança semteto não perdeu somente um lar, mas dois! Mesmo que continuem indo à escola, elas deixam de se sentir em casa ali. Como Ryan, que nunca conta a ninguém na escola que é um sem-teto. – Muitas vezes, as crianças não têm condições de comprar uma bolsa e o material escolar, ou então perdem seus livros escolares durante as constantes mudanças, diz Agnes. Quando isso acontece, elas são censuradas, mas não ousam contar a verdade à professora. Elas têm vergonha e se sentem diferentes e excluídas. Ao fi nal, muitas abandonam a escola. Ryan senta-se diante de
um dos computadores para procurar informações para um projeto escolar sobre aeronaves. Seu maior sonho é ser piloto. – Eu adoro a Internet, diz ele. É como o maior livro do mundo. Ryan vê uma menina pequena lutando com um livro de leitura. Ele deixa o computador e a ajuda a soletrar as palavras. – Sem a School on Wheels eu teria encontrado ainda mais dificuldades na escola, diz Ryan. Por isso, é uma sensação boa poder ajudar alguém.
A capital dos sem-teto Los Angeles é famosa por suas estrelas de cinema e belas praias. Todavia, também é a capital dos sem-teto nos EUA. Há mais sem-teto aqui do que em qualquer outro lugar. A grande maioria fica na área dos sem-teto, no centro de Los Angeles, a uma pequena distância dos arranha-céus, onde bancos e grandes empresas têm seus escritórios.
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Por que as pessoas se tornam sem-teto?
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Há muitos motivos, porém, muitas vezes tem a ver com a falta de dinheiro. Um dos pais ou ambos perdem o emprego e não conseguem pagar o aluguel. Em certas ocasiões, são despejados e acabam na rua. Muitas mães sozinhas se tornam semteto ao se separarem de seus parceiros violentos. Alguns pais perdem sua moradia devido ao abuso de drogas ou porque têm doenças psíquicas. Além disso, milhares de adolescentes vivem sozinhos nas ruas depois de fugir de casa. : Co
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Na área dos sem-teto, no centro, milhares de pessoas vivem nas ruas.
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Muitas exigências para ser voluntário Agnes chama sua organização de School on Wheels, porque seus professores de reforço muitas vezes têm que dirigir por longas distâncias. Eles vão até onde as crianças estão: escolas, bibliotecas, albergues, hotéis de beira de estrada e as salas especiais das crianças da School on Wheels. – Temos que ser os protetores das crianças, diz Agnes. Elas já foram decepcionadas muitas vezes e precisam saber que não estão sozinhas. Que há pessoas que se preocupam com elas e que não irão esquecê-las. Atualmente, há cerca de 400 professores de reforço, mas Agnes quer ter pelo menos o dobro. Mesmo assim, é um pouco difícil ser um voluntário da School on Wheels. Todos os candidatos a professor de reforço são selecionados cuidadosamente. – Eles têm que preencher uma ficha de inscrição, deixar impressões digitais e atestados de antecedentes criminais, e se submeter a uma entrevista. Precisamos ter certeza que o professor de reforço será capaz de fazer um bom trabalho e que as crianças estarão seguras e a salvo em sua companhia.
O que fazem Agnes e a School on Wheels?
Agnes com crianças e ajudantes do lado de fora da sala das crianças no centro de Los Angeles. Chandalea, uma menina sem-teto, ganhou uma bolsa nova.
Chandalea ganha uma bolsa! Antes do início de cada período letivo, a School on Wheels distribui bolsas escolares novas com lápis, réguas, tesouras e outras coisas úteis. Chandalea, 11 anos, está feliz com sua bolsa nova e ansiosa para que as aulas comecem logo. – Eu e minha família estamos sem-teto há bastante tempo, conta ela. É difícil, mas cuidamos uns dos outros. 46
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• Ajudam milhares de crianças em seus estudos. Centenas de professores de reforço trabalham gratuitamente totalizando mais de 30.000 horas por ano. • Criam salas especiais para as crianças em albergues, com computadores, livros, material para desenhar e escrever. • Todo ano, fornecem uma bolsa com o material escolar completo a 5.000 crianças. • Fornecem uniformes escolares às crianças sem-teto sempre que necessário. • Disponibilizam um número de telefone gratuito para onde as crianças podem telefonar para manter contato e pedir ajuda. • Ajudam as crianças e seus pais, quando estas precisam mudar de escola. • Ajudam as crianças e seus pais a obter documentos perdidos, por exemplo, boletins escolares. • Aconselham os pais sobre a educação de seus filhos. • Trabalham em cinco regiões no sul da Califórnia, inclusive Los Angeles, Santa Bárbara e Ventura. A School on Wheels também atua em outros dois estados dos EUA, Indiana e Massachusetts.
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E
quer um pouco de paz Antes de Ed, 11 anos, se tornar um sem-teto, ele nunca havia sequer imaginado que crianças podiam ir parar na rua. A noite em que sua família dormiu em um carro foi a pior de sua vida.
O
s problemas se tornam sérios quando o pai de Ed agride com violência sua mãe, Edith. Quando o pai vai para a cadeia, eles têm que sobreviver com o salário da mãe, que não é suficiente para pagar a alimentação e o aluguel. – Arrume suas coisas, diz a mãe um dia. Temos que sair daqui. – Para onde vamos?, perguntam Ed, seu irmão mais novo, Leonard, e a irmã mais velha, Guadalupe. A mãe fica calada por alguns instantes.
– Não sei, ela acaba por admitir. Mantém as aparências A família recebe auxílio para levar seus móveis e outros pertences para um depósito. Apenas as coisas mais necessárias são empacotadas em sacolas e bolsas, que eles carregam consigo, quando começam a se mudar para casas de amigos e conhecidos. A maioria das pessoas que eles conhecem mora em lugares apertados. Assim, eles nunca podem
ficar muitas noites no mesmo lugar. As férias de verão estão por terminar, e Ed está muito preocupado sobre como as coisas ficarão quando as aulas recomeçarem. Sua mãe procura outro apartamento, mais barato, porém parece impossível encontrá-lo. Todos os proprietários exigem o pagamento do primeiro e do último aluguel adiantados. É muito dinheiro, que a mãe nunca tem de sobra. Ela trabalha em uma lanchonete que serve hambúrguer e recebe pouco. O salário todo é gasto com alimentação, roupas e transporte. Seis meses mais tarde, a família toda está desesperada. Geralmente, eles dormem na sala de estar de alguém, com suas coisas amontoadas em bolsas e sacolas. Pela manhã, é uma bagunça quando todos tentam encontrar roupas limpas ao mesmo tempo. Pior ainda, é descobrir como chegar
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Ed
Ed Korpie, 11 Mora: No albergue, Venice, em Los Angeles. Gosta de: Andar de skate, beisebol, futebol americano. Ler livros. Jogar jogos de computador. Não gosta de: Quando pegam minhas coisas. Ama: Minha família. Admira: Tony Hawk, skatista. Sonho: Aprender a fazer um ollie no skate. Quer ser: Programador de jogos de computador.
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Seu pai saiu da prisão e, no momento, está morando na casa de um amigo. Ele sempre vem visitar os filhos no albergue. Em Los Angeles, quase todo mundo tem carro, mas Ed e sua família sempre vão à pé a todos os lugares. Às vezes as pessoas olham estranhamente para eles, só porque estão andando à pé!
à escola partindo de um lugar onde nunca estiveram antes. Ed está sempre cansado e preocupado. Ele sente dores de estômago e de cabeça com freqüência. E não tem tempo e nem tranqüilidade suficiente para fazer os deveres de casa, pois eles têm que se mudar toda noite. Ed não conta a seus colegas de classe e ao professor que não tem onde morar. Eles podem começar a zombar dele ou desprezá-lo. Ele se esforça
muito para que ninguém perceba que algo está errado, mas às vezes é quase impossível manter as aparências. O pai não sabe de nada O pai das crianças ainda não sabe o que ocorreu. Ele manda cartas da prisão e quer saber quando eles vêm visitá-lo. Da última vez que esteve preso, a mãe os levava para visitá-lo, porém agora ela não quer. Ela diz que eles
não têm tempo e nem condições financeiras. Ed entende que sua mãe decidiu se separar de seu pai para valer. Porém, como irão conseguir se virar sozinhos? Afinal, eles não têm para onde ir. A mãe liga para todos os conhecidos e um amigo oferece sua van para eles dormirem. Eles colocam cobertores no assoalho do carro e se apertam no pequeno compartimento de carga. Essa noite Ed está com muito
medo e não consegue dormir. Os sons lá de fora são assustadores, mas o pior são todos os pensamentos que fazem sua cabeça girar. É assim que eles vão viver o resto da vida? No dia seguinte, sua mãe decide que já chega. Ela ouviu falar de uma igreja que oferece abrigo para famílias sem-teto, todavia a mesma se localiza numa outra região da cidade, distante das escolas das crian-
Ed com sua mãe Edith e os irmãos Leonard, 9, e Guadalupe, 15. A mãe de Ed é mexicana. O pai dele nasceu nos EUA. Porém, seus avós maternos imigraram da Finlândia para os EUA. Por isso, o sobrenome de Ed, Korpie, é finlandês. O albergue fica perto do famoso calçadão de Venice Beach. Ed e Leonard costumam andar de skate aqui, mas não nadam com freqüência, pois a água é suja.
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ças. Agora, Ed e seus irmãos terão que mudar de escola, e ela terá que conseguir um novo emprego. Advogada e professora Há seis meses, eles moram em um pequeno dormitório no albergue da igreja. Eles têm duas beliches e um armário onde espremem todas as suas coisas. Uma vez por semana, a professora de Ed, Jessica, da School on Wheels, vem estudar com
ele. Durante o dia, ela é advogada da vara de família, mas esse trabalho é mais divertido, ela diz a Ed. Ele gosta de Jessica porque ela é gentil e explica bem problemas matemáticos difíceis, fazendo os parecer simples. Geralmente, eles vão até a biblioteca estudar. É agradável estar fora do albergue por algum tempo. – O pior do albergue são todas as regras. Para as crianças é difícil ter tão pou-
ca liberdade, Ed explica a Jessica. Temos que ir ao culto o tempo todo, senão eles nos expulsam. Nosso dormitório é minúsculo, e é difícil tomar conta de nossas coisas e convivermos. No entanto, é muito bom saber onde você vai dormir na noite seguinte. E não ter que estar nas ruas, dormir em carros e nem no chão das casas das pessoas.
A mãe acabou de limpar o dormitório da família, mas Ed diz que bastam apenas 30 segundos para que o caos volte a reinar.
Ed gosta de ler, principalmente os livros de C.S. Lewis sobre Narnia.
Ed adora andar de skate. – Meus momentos mais felizes são quando aprendo novas manobras. Estou tentando aprender o ollie, então levo tombos e me machuco o tempo todo, mas vale a pena.
Os pratos preferidos de Ed são sanduíches de dois andares e o menudo mexicano que sua mãe faz.
A casa do sonho de Ed Ed passa os deveres de casa com sua professora de reforço, Jessica. Toda vez que eles se encontram, costumam começar pelas novas esfoladuras de Ed. Ele se machuca muito ao andar de skate.
– Uma casa verde com piscina, biblioteca e pista de skate. Meu sonho é ter um quarto só meu – Isso nunca foi possível. Eu colocaria pôsteres nas paredes e poderia ficar em paz, tranqüilo e cuidar de mim mesmo. 49
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Um dia na quadra d Janine Williams, 9 anos, e sua irmã mais velha Khadijah, 16, vivem na rua com sua mãe há 6 anos. Essa noite, elas tentarão conseguir vagas para dormir em um albergue para moradores de rua, situado no coração da área dos sem-teto em Los Angeles. É para cá que vêm aqueles que não têm para onde ir.
TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
17:30 Filas para dormir em segurança Janine, sua irmã mais velha e a mãe entram na longa fila do albergue Midnight Mission, que fica na área dos sem-teto. Centenas de moradores de rua têm esperança de conseguir comida e um lugar para dormir aqui essa noite. Isso se chama sono seguro, pois as ruas dessa área são muito perigosas à noite.
18:00 Enfim, o jantar! Janine recebe um prato de cozido de carne com legumes. – O gosto é melhor do que a aparência, garante ela.
19:00 Boa noite Os adultos passam a noite em grandes dormitórios. As famílias com crianças se apertam em um quartinho no segundo andar. Essa noite, há apenas mais uma família aqui. Pai, mãe e três crianças pequenas. Eles acabaram de ir morar na rua, e essa é sua primeira noite em um albergue. Janine fica com pena deles. Ela já passou muitas noites aqui e sabe como funciona. Os velhos cobertores cinzas pinicam, mas mesmo assim Janine dorme rapidamente.
05:30 O despertador da polícia Ao amanhecer, quando Janine ainda dorme, a polícia passa pela vizinhança expulsando os moradores de rua que dormem do lado de fora. É ilegal morar na rua. Alguns protestam, porém a maioria se levanta e recolhe suas coisas.
06:00
Bom dia É preciso acordar cedo para não perder o café da manhã. De manhã, todas as pessoas que moram temporariamente no albergue devem deixar o local. Janine e Khadijah vão para a escola, enquanto sua mãe vai procurar emprego e tentar encontrar outro lugar para passar a noite.
10:00 Aula Janine foi obrigada a mudar de escola várias vezes, desde que passou a morar na rua. Eventualmente, ela perdia muitos dias de aula. – É difícil fazer amigos e acompanhar as aulas quando você é novo na escola.
07:45
15:00
Para a escola Janine toma o ônibus para a escola. Ela ganhou bilhetes de ônibus da School on Wheels para ter condições de ir à escola todos os dias.
Para a School on Wheels Depois da aula, Janine se apressa em voltar para a área dos sem-teto, para a sala das crianças da School on Wheels. Todos os seus amigos moradores de rua se encontram aqui. – As pessoas que trabalham na School on Wheels são gentis e gostam de ajudar.
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a dos sem-teto
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15:30 Lanche Janine come um bolinho de mel frito salpicado com canela e açúcar. É gostoso, mas os dedos ficam pegajosos.
Hora da fila Janine e Khadijah vão encontrar sua mãe. Agora elas vão saber onde dormirão essa noite. Agnes vai junto por uma parte do caminho. Ela e as crianças se conhecem há muitos anos. Agnes lhes dá folhetos com o telefone gratuito da School on Wheels. – Liguem para nós se precisarem de ajuda. Vocês sabem que basta um sinal e seu professor de reforço virá até vocês, lembra ela.
16:00 Dever de casa Janine recebe ajuda de seu professor de reforço, Steve, para fazer o dever de casa. Ele explica de um jeito que fica fácil entender. Ele também conta piadas engraçadas.
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17:20
17:27 O homem dos balões No meio do caminho, elas encontram o homem dos balões, Joe, especialista em fazer figuras com balões. Ele faz flores e coelhos com balões para outras crianças moradoras de rua, que estão lá com seu professor de reforço da School on Wheels. – Por favor, por favor, faz um coração para mim! pede Janine.
Antes...
17:30 Os corações Janine percorre o resto do caminho com seus amigos da School on Wheels. Ela abraça forte seus dois corações, um rosa e outro vermelho. Ela vai colocá-los ao lado do travesseiro essa noite. Que ótimo final de dia!
Meio penteado
Depois
Um dia Janine conheceu uma moradora de rua que fazia belos penteados. Ela fez alongamento no cabelo de Janine e o trançou. Porém, só deu tempo para fazer metade no primeiro dia. No dia seguinte, a mulher desapareceu, e Janine teve que desfilar por aí com meio penteado por alguns dias. Finalmente, elas se encontraram outra vez em outro albergue. Agora o penteado está completo!
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Jarifri, 11 Casa dos sonhos: Casa azul com porta preta em Las Vegas, pois gosto de todas as luzes de lá. Teremos quatro quartos, quatro guarda-roupas e dois banheiros. Gosta de: Dançar, lutar taekwondo e da escola. Admira: Meu irmão mais velho, Michael Jackson e Elvis Presley. ”Eu, meu irmão e meus pais moramos em um pequeno quarto de hotel de estrada. Muitos sem-teto moram aqui. Meu professor de reforço da School on Wheels, Frank, vem aqui uma vez por semana me ajudar com os deveres de casa. Desde que começamos a estudar juntos, minhas notas melhoraram. Morar apertado não é um grande problema, isso aproxima nossa família. Todo final de semana, eu e meu pai fazemos performances no calçadão de Venice beach. Ele é palhaço e eu danço com roupas e chapéu dourados. Eu danço desde que aprendi a andar e sou faixa vermelha no taekwondo. Comecei a praticar luta marcial para me defender. Há muitas brigas na escola”.
A casa dos nossos sonhos Existem mais de um milhão de crianças sem-teto nos EUA. Elas moram em albergues, carros, hotéis temporários ou na rua. Suas famílias foram parar na rua por diferentes motivos, mas todas têm uma coisa em comum: sonham com uma casa própria, onde possam se sentir seguras e felizes.
Shatrea Olivera, 12 Casa dos sonhos: Uma grande casa cor de rosa, com quatro quartos, cozinha grande e um quintal com balanços, não, um parquinho inteiro. Quero ter meu próprio quarto, azul e branco. Gosta de: Brincar. Admira: Minha mãe ”Estamos sem-teto desde que minha mãe deixou nosso pai, porque ele era ruim para ela. Moramos em muitos lugares diferentes. Com parentes, em hotéis e em um carro. Durante um período, nos mudávamos quase todo dia. Agora moramos em um albergue de transição. É chamado ”de transição” porque estamos prestes a conseguir nosso próprio apartamento. Minha mãe trabalha e economiza dinheiro para podermos nos sustentar. Esse albergue é bastante bom. Tem um parquinho no jardim e há muitas crianças com quem brincar. A School on Wheels construiu uma sala especial para as crianças, com livros, material de desenho e computadores. Lá eu costumo desenhar e encontrar meu professor de reforço”.
Cesar com seu irmão mais novo, Eric.
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Casa dos sonhos: Um palácio branco, com paredes brancas e piso brilhante de madeira, piscina e pista de skate. Todos os dias, convidarei todos os meus amigos e familiares para um grande bufê com comida deliciosa. Eu terei uma TV de tela grande e todos os consoles de jogo que existem. Admira: Meu irmão mais velho, que me ouve quando preciso conversar com alguém. Gosta de: Andar de skate, nadar, comer pizza, tomar sorvete e ler. ”Estamos sem-teto há vários anos. O pior é ter que se mudar tantas vezes. Temos que carregar todas as nossas coisas no ônibus. Com freqüência, perdemos alguma coisa. Eu já perdi muitas de minhas coisas preferidas, das quais realmente preciso. Isso me deixa triste e com raiva. Morar no albergue é razoável porque há muitas crianças. No entanto, as regras são muito rígidas. As crianças não têm nenhuma liberdade e têm que ficar em silêncio o tempo todo. Eu gosto da School on Wheels porque eles me ajudaram muito. Quando nos mudamos, às vezes perco contato com meu professor de reforço , mas sempre damos um jeito de nos reencontrar”.
Matthew, 12 Casa dos sonhos: Uma casa grande, com uma TV enorme e uma pista de skate no quintal. Admira: O skatista Dustin Dollin. Gosta de: Andar de skate e videogame. ”A pior coisa de ser um sem-teto é ter que mudar de escola o tempo todo. Em apenas um ano, freqüentei três escolas diferentes. Sempre fico nervoso quando mudo de escola, é extenuante tentar se adaptar e fazer novos amigos. No momento, moro em um albergue com minha mãe, duas irmãs e dois irmãos. Tenho uma ótima professora de reforço da School on Wheels. Espero que ela continue a me ajudar, mesmo se nos mudarmos novamente. Já moramos em diferentes albergues e hotéis temporários, e este é o melhor lugar até agora. Nosso albergue anterior ficava em uma região perigosa, com muitas gangues violentas. Eles atiravam a noite toda. Porém, sinto falta dos meus amigos de lá. No futuro, sonho em acabar com toda a violência e ser skatista profissional ou policial”.
TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
Cesar Hurtado, 12
A família de Cesar.
Kibsaim Itsui Gallegos-Sierra, 8 Casa dos sonhos: Uma casa cor de rosa com faixas brancas. Meu quarto terá paredes cor de rosa com flores vermelhas. A casa ficará perto da praia e terá um grande jardim com escorregador e piscina. Admira: Minha professora de reforço. Gosta de: Jogos de computador, cadeira de balanço, brincar de esconde-esconde e fazer bagunça. ”Acho que sempre fui sem-teto. Minha mãe, eu, minha irmã e meu irmão menor nos mudamos para lá e para cá. Já moramos em um albergue em Los Angeles. Às vezes vamos para o México. O pior de morar em um albergue é ter que acordar tão cedo. Quando estamos em Los Angeles, eu vou à School on Wheels quase todos os dias. Minha professora de reforço, Crystal, faz o dever de casa comigo e me leva para passear. Também quero ser professora quando eu crescer. Quero aprender a nadar, apesar de parecer difícil. Eu nunca vi o mar de perto, mas ouvi dizer que é muito lindo”. 53
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TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
Rosemary, professora reforço de Brianna, a ajuda a entender um problema complicado.
Brianna quer ajudar os sem-t É tarde da noite quando Brianna, 11 anos, vai com sua mãe e seu irmão, Adrian, fazer uma reserva em um arruinado hotel de beira de estrada. Os dois irmãos mais velhos se escondem na esquina. Não é permitida a estadia de cinco pessoas em um só quarto, mas a mãe não pode pagar dois. Se alguém descobrir, eles terão que dormir na rua essa noite.
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pós pagar a diária do hotel, a mãe abre a porta para que Ryan, 12, e Daniel, 14, entrem escondidos. No quarto, todos respiram aliviados. Estão seguros por mais uma noite. Desde que a mãe, Melissa, deixou o violento pai de seus filhos semanas atrás, eles têm se hospedado
em diferentes hotéis de estrada localizados na área mais pobre e perigosa do sul de Los Angeles. A família não pode ficar muito tempo em cada lugar, senão os funcionários do hotel percebem que há muitas pessoas no mesmo quarto e os expul-
sam. Porém, agora, o dinheiro da mãe começa a acabar. Para onde eles irão depois? A mãe procura por ajuda no catálogo, e encontra os telefones de diversos albergues para sem-teto. Ela e as crianças têm dificuldade de encarar a si próprias como sem-teto. Sem-teto não é um homem sujo, vestido em trapos, que mora em uma caixa de papelão? De qualquer forma, a mãe começa a ligar e as crianças ouvem. Parece que parte dos albergues aceita famílias. – Quantos filhos você tem?, pergunta o homem do alber-
gue. Quantos anos eles têm? Quando ouve que o fi lho mais velho de Melissa, Daniel, tem 14 anos, a resposta infelizmente é não. – Ele tem que ficar sozinho no dormitório para homens adultos. – Mas ele tem apenas 14 anos, é uma criança, diz Melissa. – São as regras, diz o homem. Nunca deixamos garotos adolescentes ficarem com as famílias. Pode ser perigoso. A mãe desliga e continua
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m-teto quando crescer
Brianna Audinett, 11 Mora: Na zona sul de Los Angeles. Gosta de: Sapatos, atuar em teatro, ler livros e escrever contos. Não gosta de: Sentir tédio. Feliz: Quando estou na School on Wheels. Admira: Minha mãe. Quer ser: Médica ou estrela de cinema.
tentando outros albergues, mas as coisas parecem difíceis. Em Los Angeles, muitos adolescentes já fazem parte de gangues desde de 12 anos de idade. Os albergues temem que os jovens rapazes sejam violentos e machuquem outras crianças. No entanto, a mãe não desiste. Ela reclama, implora, pede e acaba encontrando um albergue que deixa a família toda ficar junta. Silêncio! No dia seguinte, eles tomam o ônibus para a área dos sem-teto no centro de Los Angeles. O albergue parece uma prisão, uma grande construção cinza em concreto. Brianna acha a área horrível. Há muita desordem e sujeira. As pessoas gritam e balançam os braços, conso-
Brianna não gosta da área dos semteto, porque tem muita sujeira e desordem e, muitas vezes, é perigosa.
mem bebidas alcoólicas e se deitam como mortas nas calçadas. De repente, Brianna percebe que um velho a mira estranhamente. A mãe também vê. Ela acaba pedindo que ele pare. Ele se afasta um pouco, mas continua a olhar fi xamente. – Não se preocupe mamãe, diz Brianna mais tarde. Posso cuidar de mim mesma. Brianna e sua família ficam no albergue por seis meses. Eles encontram vaga em um quarto com beliches no dormitório familiar. Há muitas outras mães com seus fi lhos, e Brianna logo faz amigos. O melhor do albergue é saber que se tem onde dormir, pensa Brianna. O pior são as ruas do lado de fora, e o tumulto e o barulho no quarto. As crianças gritam e choram, e as sirenes de 55
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Brianna Um dia, uma equipe de cinema vem à School on Wheels. Eles vão fazer um filme. Brianna e seus amigos vão escrever o roteiro e participar do filme.
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– Brianna com sua família: Daniel, Ryan, Adrian, Brianna e a mãe, Melissa.
TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
ambulâncias e viaturas policiais soam constantemente do lado de fora. O irmão de Brianna, Ryan, que tem asma, piora no abrigo e tosse o tempo todo. Nessa situação, é quase impossível brincar. – Fiquem em silêncio, sentem-se quietos, é isso o que as crianças ouvem. – Eles agem como se não soubessem o que significa ”diversão”, reclama Brianna para a mãe. – Nós não vamos morar aqui para sempre, promete ela. A School on Wheels saúda o dia Em frente ao albergue, Brianna encontra sua salvação; a sala das crianças, da School on Wheels. Brianna vai para lá todo dia depois da aula. – Eu adoro a School on Wheels. Eles cuidam de nós e nos protegem, explica ela para a mãe. Se uma pessoa maldosa implica com você na rua, eles ajudam. Temos um telefone gratuito para onde podemos ligar a qualquer hora se precisarmos.
Brianna e seus irmãos ganharam mochilas escolares novas e cada um tem seu professor de reforço, que ajuda com o dever de casa. Além disso, a mãe recebe assistência quando as crianças precisam mudar de escola. Muitos papéis e documentos importantes sumiram quando a família estava sem moradia, mas a School on Wheels providencia outros novos. O mais importante é que a mãe sabe que seus fi lhos estão seguros, enquanto ela trabalha. – Sem vocês, nós não teríamos conseguido, Melissa sempre diz para a School on Wheels. Um dia, a família é informada de que receberá auxílio para se mudar para um apartamento só deles. Parece irreal. É maravilhoso. Brianna está muito feliz por poder sair do albergue. Todavia, ela planeja voltar à área dos sem-teto no futuro. – Serei médica quando crescer, e ajudarei os doentes, principalmente os sem-teto. Eles não têm dinheiro nem convênio médico, mas eu os ajudarei assim mesmo.
Brianna com o figurino completo de Ruby.
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erei uma das heroínas da história e meu nome será Ruby, explica Brianna. Ela e sua amiga Janine, que faz a super heroína Pink Ice, formam uma equipe. – Nós salvamos as pessoas e lutamos contra os vilões, diz Janine, que no fi nal do fi lme tenta transformar todo o mundo em um mar de diamantes corde-rosa. Elas mesmas escreveram o roteiro do fi lme, junto com seus amigos semteto da School on Wheels. A equipe de cinema faz parte da organização Hollywood Heart. Normalmente, eles trabalham em produções cinematográficas reais em Hollywood, porém, nos dias de folga, desejam fazer algo para ajudar crianças em dificuldades. Por três dias, a School on Wheels se transforma em um estúdio de fi lmagem. As crianças escrevem o roteiro, constroem os cenários, e fazem os acessórios e figurinos. Depois elas fi lmam e, quando a edição do fi lme está pronta, vão à estréia. – Essa é uma das coisas mais divertidas que já fiz, diz Brianna. Se eu não conseguir ser médica, talvez eu seja uma estrela de cinema.
aç ã
o!
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vira estrela de cinema A Hollywood Heart vem à School on Wheels para filmar. As crianças sem-teto são as estrelas do dia.
Khadidjah, 16 anos, deixa de preencher as inscrições para faculdades por alguns momentos a fim de participar do filme.
Antes da filmagem, todas as crianças precisam ser maquiadas e vestir seus figurinos. Salmai, 7 anos, está com o cabelo prateado e usa um penduricalho de dólar no pescoço.
Ryan Audinett, 13, interpreta um detetive e está com as algemas preparadas.
Ryan Wilson, 13, mostra sua melhor pose de astro de cinema, com sua metralhadora de plástico.
As super-heroínas Pink Ice (Janine) e Ruby (Brianna) se preparam para sua próxima cena.
FATOS SOBRE FILMES Escondido atrás da máscara de Red Devils, está Ryan Mcneil, 9 anos.
Adrian Audinett, 12, gosta de atuar em filmes, porém quer mesmo ser arquiteto.
As pessoas costumam chamar Los Angeles de capital do cinema e um de seus bairros, Hollywood, é famoso em todo o mundo. O primeiro filme de Hollywood foi produzido em 1910. Com o título “In Old California”, era um filme mudo, sem som. O primeiro filme com som foi ”The Jazz Singer”, lançado em 1927. No início, os estúdios cinematográficos faziam versões estrangeiras dos filmes americanos com som, para que as pessoas que não entendiam inglês pudessem assistí-los. Eles filmavam a versão estrangeira do filme, por exemplo, com atores franceses ou espanhóis. Depois de algum tempo, perceberam que era mais fácil e barato dublar ou legendar os filmes em diferentes idiomas. Quando mais pessoas tiveram acesso à TV na década de 1950, muitos acreditaram que o cinema acabaria. Porém, não foi o que ocorreu. Atualmente, os grandes estúdios de cinema de Los Angeles produzem cerca de 60 filmes por ano, e a indústria cinematográfica fatura muitos bilhões de reais. 57
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Nick com seu pai, Frank, e sua mãe, Michelle.
Nick é um herói Quando Nick tinha sete anos, ele morava em um prédio famoso por ser ponto de encontro de traficantes e usuários de drogas. Uma noite, a polícia invadiu o edifício.
Nick Barger, 10 Mora: Hotel de estrada, Los Angeles. Gosta de: Andar de skate, desenhar, jogar videogame e ler. Não gosta de: Drogas. Ser tratado como um bebê. Fica triste: Quando meus amigos se mudam. Ama: Estar com minha família. Admira: Minha mãe e meu pai. Laura, minha professora de reforço. Sonho: Uma casa própria. Quer ser: Escritor.
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odas as pessoas no prédio, em todos os apartamentos, estavam envolvidas com drogas. O apartamento de Nick era um entra e sai de gente, e muitas vezes as pessoas se deitavam e dormiam no sofá ou no chão. No andar debaixo, morava uma gangue que vendia drogas 24 horas por dia. Os pais de Nick, Michelle e Frank, não vendiam drogas, mas quase sempre estavam alucinados. O consumo de drogas os tornava diferentes, percebeu Nick. Às vezes, eles se senta-
vam ou deitavam mirando o vazio. Eventualmente, quando despertavam daquele estado de apatia, ficavam muito tristes. Nick amava seus pais. Porém, eles estavam muito doentes e debilitados devido às drogas para serem mãe e pai. Assim, Nick teve que se cuidar sozinho. Família adotiva Uma madrugada, Nick acordou com gritos e choro do lado de fora. As pessoas corriam pelos corredores, tentando fugir ou se livrar das drogas jogando-as no vaso
sanitário. Depois de algum tempo, a polícia entrou no apartamento de Nick e começou a gritar com os seus pais. Os policiais usavam roupas escuras e armas. Os pais de Nick pareciam muito assustados. Então, um policial notou a presença de Nick. – Você não pode ficar aqui, disse o policial. Nick chorou e disse que queria ficar com seus pais, mas o policial telefonou para um assistente social que veio buscá-lo. Nick não sabia o que ia acontecer com seus pais. Ele teve que ir morar com uma família adotiva; uma família que é paga para cuidar de crianças que não podem morar com seus próprios pais.
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Espancado Nick fez oito anos na casa da família adotiva, porém ninguém parecia se importar. Os pais adotivos tinham muitas crianças na casa, tanto filhos biológicos como outras crianças adotivas. Eles eram mais velhos do que Nick e o maltratavam. Diziam coisas ruins e batiam nele. Nick tentava revidar, porém, eles eram maiores e mais fortes. Os pais adotivos nada faziam para defendê-lo. Depois de algum tempo, a mãe de Nick foi para uma clínica de tratamento para narcômanos, onde Nick pôde visitá-la. Eles choraram quando se encontraram pela primeira vez, e sua mãe pediu perdão. Eles conversaram e riram, até que de súbito a mãe de Nick viu as marcas roxas nos seus braços.
– É minha família adotiva, eles me batem, disse Nick. A mãe de Nick reclamou com os assistentes sociais que haviam escolhido a família adotiva de Nick. Contudo, os pais adotivos afi rmaram que Nick estava mentindo. Ele provavelmente tinha caído. Ou então tinha sido a mãe de Nick que o havia espancado. Aqueles que tinham poder de decisão acreditaram nos pais adotivos, e Nick teve que voltar para lá. Agora, as coisas se tornaram ainda piores para Nick.
O quarto de hotel onde Nick e seus pais moram é muito apertado.
Todos estavam bravos, porque ele havia feito intrigas e lhe bateram ainda mais. Depois, entretanto, a mãe de Nick pode começar a lutar pela sua guarda defi nitiva, pois estava sem usar drogas a um bom tempo. Nick foi chamado à corte, porém, a primeira vez que encontrou o juiz, não ousou dizer nada sobre os maus-tratos. Os pais adotivos o ameaçaram. – Fique calado ou diga que é sua mãe que te espanca, eles aconselharam Nick. Senão...
Junto da mãe Enfi m, na terceira audiência no tribunal, Nick não agüentou mais e contou a verdade. O juiz bateu seu martelo na mesa e disse: – Você pode ir morar com sua mãe. Nick se mudou para a clínica onde sua mãe lutava para se recuperar totalmente de seu vício. Seu pai estava em outra clínica de tratamento para homens. Nick e a mãe dividiam o quarto
O filtro de sonhos de Nick fica pendurado acima da cama, para reter todos os pesadelos assustadores, antes que eles destruam seu sono.
TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
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Minha professora de reforço A professora de reforço de Nick, da School on Wheels, se chama Laura. – Ela é como minha amiga, minha professora e minha irmã mais velha. Ela me ajuda com o dever de casa e tem muita paciência. Laura também me levou a um jogo de beisebol e ao cinema.
Na parede, Nick, sua mãe e seu pai têm suas respectivas agendas diárias. Eles perdem pontos, quando fazem algo negativo e ganham pontos, quando fazem coisas boas. – Isso nos ajuda a sermos positivos, diz Nick.
com mais duas mães e seus cinco filhos. Era apertado, mas Nick logo fez novos amigos e tudo corria bem com sua mãe. Ela aprendeu não apenas a parar de se drogar, mas também a pagar as contas e cuidar de seu filho. Ela aprendeu a viver defi nitivamente longe das drogas. Juntos novamente Agora, ambos os pais de Nick não usam drogas há três anos. Eles receberam Nick não pode levar amigos ao hotel. Quem não é hóspede, não tem permissão para entrar.
alta das clínicas de tratamento há algum tempo, porém ainda não conseguiram encontrar um lugar para morar. – A casa dos meus sonhos é uma cobertura no 42o andar, diz Nick. Meu quarto será gótico, com paredes e móveis pretos, luz negra e morcegos colados no teto. Mas, na verdade, nada disso importa. Não me importo de morarmos em uma caixa de papelão, contanto que estejamos juntos.
Como Nick e seus pais não dispõem de moradia, eles são obrigados a viver em um hotel de estrada, onde moram muitos outros semteto. Eles pagam a cada mês, apesar de poderem ser expulsos a qualquer momento. Muitos amigos sem-teto de Nick desapareceram do hotel. – É quase impossível se tornar melhor amigo de alguém e manter uma amizade, diz ele a seus pais. À noite, antes de dormir,
Nick costuma pensar em tudo o que lhe ocorreu. – Vou escrever um livro sobre minha vida, pois quero contar a outras pessoas as experiências pelas quais passei. Sobrevivi a muitas coisas enquanto aguardava estar novamente junto com meus pais. – Você é nosso herói, Nick, dizem seus pais. Sem você, nós nunca teríamos conseguido.
Amigo das aranhas A mãe de Nick tatuou uma aranha, porque Nick adora aranhas. – Uma vez, vimos uma aranha na parede da classe. Todas as crianças gritaram e quiseram matá-la, mas eu fiquei na frente da aranha e pedi que ninguém a tocasse. O professor disse: “Escutem Nick, ele está certo”. Coloquei a aranha para fora pela janela.
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Sempre que Nick tem chance, ele pega seu skate e pratica novas manobras na rua em frente ao hotel. Skate é um dos esportes mais populares nos EUA. Dizem que foi inventado por um surfista entediado que colocou rodas na prancha de surf e começou a “surfar” no asfalto. O que é um skate?
Prancha – geralmente tem um desenho na parte debaixo, que aparece durante as manobras Lixa adesiva – oferece aderência à prancha Cauda – extremidade posterior da prancha Nariz – extremidade anterior da prancha Rodas – quatro rodas Eixos – dois eixos seguram as quatro rodas
TEXTO : CARMILL A FLOYD, JOHANNA HALLIN FOTO : KIM NAYLOR
Nick adora skate
Manobras mais populares Ollie – A manobra básica, que é o ponto de partida para muitas outras. É um salto no plano, sem segurar a prancha. Nollie – É como o ollie, porém ao invés de saltar a partir da cauda da prancha, salta-se a partir da dianteira da prancha. Kickflip – Um pontapé na prancha para que esta se mova por baixo dos pés. 180 – Metade de um giro em torno do próprio eixo, para que o nariz da prancha fique onde estava a cauda. 360 – Um giro completo em torno do próprio eixo. 900 – Dois giros e meio no ar, em rampa vertical. Grind – Deslizar sobre os eixos. 50–50 – Um grind sobre os dois eixos. Five-0 – Um grind sobre um dos eixos. Boardslide – Deslizar a parte inferior da prancha acompanhando um objeto. Manual – Uma manobra de equilíbrio sobre duas rodas, girando para frente ou para trás.
COMO SE FAZ UM OLLIE:
1. Coloque o pé traseiro na cauda e o pé dianteiro no meio da prancha.
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2. Agache e flexione os joelhos.
3. Salte e certifique-se de que a cauda bata no chão, de modo que a prancha se incline para cima.
4. Ao saltar, deixe o pé dianteiro deslizar para frente. Assim, a prancha se ergue e a estabilidade se desloca.
5. Erga as pernas para ir mais alto.
6. Endireite sua perna e centralize seu peso.
7. Flexione o joelho na aterrissagem e deslize para sair. 61
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A tia de Marlen é sua “mãe”
Os mexicanos de Los Angeles costumam usar uma correntinha no pescoço com o próprio nome em letras douradas. Ou com o nome de alguém que se gosta. O pingente com o nome Marlen foi um presente de minha mãe.
TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
Quando a mãe de Marlen descobriu que havia sido contaminada pelo HIV e não conseguiu mais trabalhar, elas perderam seu apartamento. A assistente social disse: “Mude-se para um albergue para pessoas sem-teto com HIV e AIDS, senão tiraremos sua filha de você”.
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Marlen chama sua tia Angelina de “mãe”, porque ela sempre cuidou de Marlen e a amou como uma verdadeira mãe.
O guarda-roupa de Marlen Marlen Contreras, 13 Mora: No albergue para pessoas com HIV e AIDS. Gosta de: Andar de skate, música, desenhar e da escola. Não gosta de: Pessoas malvadas. Fica triste: Quando minha mãe está doente. Ama: Minha mãe. Deseja: Um cachorrinho, no entanto, animais de estimação são proibidos no albergue. Quer ser: Enfermeira ou médica.
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arlen e sua mãe não queriam se mudar para o albergue. – Ficamos com muito medo, conta Marlen. Não sabíamos quase nada sobre a AIDS. Minha mãe achava que eu também ficaria doente se morássemos com outras pessoas contaminadas. Já moramos aqui há vários anos. Eu me adaptei bem, e aprendi muito sobre a doença, por exemplo, que é possível ter uma longa sobrevida se a pessoa tomar remédios e se cuidar. Marlen nasceu no México,
Os tênis mais bonitos de Marlen se chamam Superstars, ou Shelltoes. De frente, eles parecem conchas. O cartão-presente que as crianças recebem da School on Wheels para comprar o uniforme escolar.
Marlen recebe um uniforme escolar novo da School on Wheels uma vez por ano ou mais freqüentemente, se necessário. – Na escola existe muita pressão para que as pessoas usem roupas de marca. É perigoso usar determinadas roupas e cores, pois podem pensar que você faz parte de uma gangue. É mais simples usar o uniforme escolar, camisa e calça azuis.
mas veio para os EUA com duas semanas de idade. – Essa que eu chamo de mãe, na verdade é minha tia. Nunca conheci meu pai e minha mãe biológica não podia cuidar de mim. Ela bebia demais e foi presa. Minha tia Angelina me trouxe para a América, para que eu tivesse a chance de ter uma vida boa. Eu a chamo de mãe, pois ela sempre cuidou de mim como uma mãe. Preocupada com a mãe – Quando eu era pequena, ela morava com meu padrasto, de quem eu gostava muito. Depois eles se separaram, e minha mãe conheceu outro homem que batia nela. Uma vez, meu padrasto veio até nossa casa e queria me ver. O homem não deixou que ele entrasse. Vi meu padrasto
– Esses são meus jeans preferidos. Eles são perfeitos para pular e dançar. Às vezes fico muito brava e frustrada. Nessas horas, ouvir música, pular para cima e para baixo e dançar feito louca ajuda a extravasar. Música me deixa feliz. Os estilos musicais de que mais gosto são hip hop e rock espanhol. – Gosto das aulas de ginástica na escola, porém meu esporte preferido é o skate.
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pela janela e chorei, esperneei e gritei, porém ele não me ouviu e nunca mais voltou. O homem piorou, ele batia em minha mãe e a ameaçava. No fi nal, a polícia veio e o levou. Então minha mãe descobriu que havia sido contaminada com o HIV. O estado de saúde da mãe de Marlen é bom, entretanto, às vezes ela precisa ser internada. – Nessas ocasiões, fico muito preocupada, diz Marlen. Além de Marlen, há só três crianças mais novas no albergue. – Eu tinha uma amiga da minha idade, mas ela se mudou para outro albergue. Ela era minha melhor amiga, e conversávamos sobre tudo. Eu sinto falta dela. Marlen não pode contar a ninguém onde mora, pois ainda existe muito preconceito sobre a AIDS. Uma vez, uma colega de escola descobriu onde Marlen mora. – Ela espalhou na escola que eu morava em um lar para doentes de AIDS e que todos deviam manter distância de mim. “Não falem com a Marlen”, dizia ela. “Não permitam que ela se sente perto de nós. Ela pode contaminar você e sua família com a AIDS”. Eu reclamei com o diretor. No fi m, ameacei denunciá-la à polícia. Ela ficou com medo e parou.
Michael ficou sem-teto quando a mãe teve câncer Quando a mãe de Michael teve câncer de pulmão e entrou em coma, ela perdeu o emprego e a bela casa que eles tinham perto do mar.
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mãe de Michael ficou no hospital em coma por vários meses. Michael, que na época tinha 14 anos, foi morar na casa de seu melhor amigo do time de futebol americano. Michael ficava com a mãe no hospital uma semana sim outra não. – Era difícil. Fui obrigado a agir como adulto, e minha mãe era como uma criança de quem eu tinha que cuidar. Quando o dinheiro de sua mãe acabou, ela foi transferida para um hospital pior. Os funcionários trabalhavam demais e eram estressados. – Eles me tratam feito lixo, chorava minha mãe. Sinto dores terríveis, mas não me dão nenhum remédio contra dor, porque o hospital tem que economizar dinheiro. Quando a mãe fi nalmente teve alta, eles não tinham
para onde ir. Acabamos nos mudando para um albergue. Na escola, Michael não contou nada. Ele temia que as pessoas o desprezassem. As notas caíram e ele estava prestes a perder sua vaga no time de futebol americano. – Através da School on Wheels, consegui um profes-
Michael quer ser jogador profissional de futebol americano.
A roupa da formatura – Essa é a roupa que usei na minha festa de formatura na oitava série. Foi minha mãe quem me deu. Eu adoro a cor e o modelo.
Michael e sua mãe
sor de reforço, Rafael. Com a ajuda dele, consegui me recuperar e passar na escola. Continuamos a nos encontrar uma vez por semana. Meu sonho é ser jogador profissional de futebol americano ou bombeiro.
Michael adora jogar futebol americano. –O jogo me ensinou muito sobre colaboração e a não ser egocêntrico. Todos são importantes em um time, somos tão bons quanto nosso elo mais fraco. O troféu de futebol americano de Michael.
É caro ficar doente Quase 50 milhões de americanos não têm convênio médico, e muitos são duramente afetados quando precisam pagar contas hospitalares altíssimas. Os EUA estão em uma posição muito ruim na classificação da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre o funcionamento do sistema de saúde. 63
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As crianças têm o mesmo valor Sierra acorda com o pai sacudindo seu ombro. São apenas 5h30 da manhã. Porém, se ela não se levantar agora, terá que enfrentar uma longa fila para o banho. ierra corre para o banheiro do corredor e entra debaixo da água quente ainda meio dormindo. Enrolada em uma toalha, ela volta na ponta dos pés para o dormitório e se deita para dormir mais uma hora antes do café da manhã. Às oito da manhã, todos têm que deixar seus quartos. As pessoas têm que levar consigo todos os seus pertences de valor, pois não há trancas nas portas dos dormitórios. Ninguém pode voltar ao albergue até o fi nal da tarde. O pai vai trabalhar e Sierra vai para a escola. – Não se esqueça de que esta noite temos que ensaiar para o próximo pow-wow, diz o pai. – Está bem, responde
Sierra. Ela e seu pai, Big Bear, são índios nativos do norte da América, da nação Hunkpapa Sioux. Sierra dança e seu pai toca percussão. O pow-wow é uma grande festa onde os índios norte-americanos se encontram para conversar, dançar, cantar e tocar juntos. Sierra adora as danças tradicionais, especialmente a dança Fancy-shawl (Belo Xale), onde apenas meninas e mulheres atuam. – Giramos em círculos e balançamos com belos xales coloridos, ficamos parecendo borboletas, explica Sierra. – Quando danço, esqueço todos os meus problemas. Sierra tem orgulho de ser índia. – Em nossa cultura, as crianças e os adultos têm o mesmo valor. Podemos par-
Sierra com seu pai, Big Bear. Ela também tem um nome indígena, que significa ”Aquela que caminha com o trovão”.
ticipar das assembléias e nossas opiniões são ouvidas. Isso é ótimo. Os instrumentos de percussão Na escola de Sierra, algudo meu pai são feitos de madeira mas crianças descobriram e revestidos com pele de vaca. que ela mora em um albergue. – Algumas são malvadas e dizem “Eu não gosto dela, ela é uma sem-teto. Ela é pobre”. Eu tenho apenas três amigos na escola. As pessoas querem estar somente com aqueles que são da mesma cor que elas. É deprimente ser maltratada por ser diferente. Os dormitórios
TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
Sierra Longfeather, 11 Mora: Em um albergue em Santa Bárbara. Gosta de: Tocar percussão, dançar, cantar. Fica triste: Quando os adultos não me respeitam. Ama: Meu pai. Admira: Martin Luther King.
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Sierra quer ser Designer de motos, artista, policial, viajante ao redor do mundo, dançarina, escritora, presidente
do albergue são apertados.
Sierra ganhou o colar de seu pai. Ele é feito de prata e pedras de turquesa.
Os índios foram os primeiros
Quando os europeus chegaram à América do Norte, havia cerca de cinco milhões de pessoas que ali moravam. Hoje, elas são chamadas de ”índios da América”. Naquela época, havia milhares de povos indígenas e algumas centenas de idiomas e dialetos. Porém, hoje restam apenas cerca de dois milhões – Eu admiro Martin de índios nos EUA e um milhão no Luther King porque ele lutou por todas as raças, Canadá. Muitos índios foram mortos não só por sua própria raça, pelos europeus, mas a grande maioria mas até mesmo por nós, morreu de doenças, de fome e devido índios. Infelizmente, ele a outros problemas resultantes da morreu pelas coisas em invasão dos brancos. Hoje, os que acreditava, mas até índios são o grupo minoritário hoje as pessoas são mais pobre dos EUA. discriminadas.
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Kattranece tinha nove anos e acabara de fazer compras com a mãe, quando escutou um estrondo ensurdecedor. Demorou alguns segundos até ela perceber que alguém havia atirado em sua direção.
Kattranece levou um tiro
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ntre no carro, rápido! grita sua mãe. Kattranece e suas irmãs menores se jogam no banco de trás e a mãe acelera. Os tiros vêm de outro carro que as persegue pela estrada e continua a atirar. De repente, Kattranece sente uma dor queimando seu tórax. – Mamãe, está queimando! A mãe constata que Kattranece foi atingida, mas não ousa parar. Ela acaba entrando em uma rua onde há muita gente. A polícia chega e os perseguidores desistem. Tiro no pulmão Kattranece foi ferida no pulmão pelo tiro e quase morreu. Ela é internada no hospital por três meses e é operada três vezes até os médicos conseguirem remover o projétil. Mais tarde, ela tem que testemunhar no tribunal contra um dos homens que atiraram. Ele é membro de uma gangue, e diz que se enganaram. Eles queriam atirar em outra pessoa. Kattranece precisa reaprender muitas coisas, como falar e andar, e tem que
recuperar a memória. Ela consegue, porém o ferimento fez sua asma piorar muito. Isso se torna um problema quando a família fica sem moradia. Depois de uma grande briga com o pai de Kattranece, sua mãe faz as malas rapidamente com o que vê pela frente e diz às fi lhas que é hora de ir. A partir de então, todo dia elas se mudam para um novo lugar. Kattranece acha que a mãe agiu certo. Todavia, é difícil quando sua tosse piora, devido aos lugares onde dorme, nos albergues, hotéis de estrada e carros, exposta ao pó, à sujeira e ao frio. Nos últimos meses, a família mora em um albergue para famílias sem-teto. O que Kattranece mais gosta de fazer é cantar. – Eu me apresentei em um piquenique do albergue. Eu estava nervosa e, de repente, comecei a rir no meio da música. Depois da apresentação, fiquei aliviada e contente. As pessoas me elogiaram. Se conseguirmos um lugar para morar, vou voltar a cantar no coral da igreja.
Kattranece com as irmãs Shacarla, 4, Shatrea, 12, Kathiella, 6 e sua mãe, Kathleen.
Quando Kattranece saiu de casa, ela levou um urso de pelúcia parecido com este. O dela sumiu em uma das mudanças. Ela sente falta dele e de um colar de pérolas que ganhou da avó.
Kattranece Fuguoa, 14 Mora: Em um albergue para famílias, no sul de Los Angeles. Gosta de: Escrever canções e cantar. Ler. Ouve: Alicia Keys. Fica triste: Quando os adultos brigam. Feliz: Quando canto e estou com amigos e minha família. Admira: Minha mãe. Quer ser: Cantora, estilista ou jornalista.
Kattranece recebe ajuda de um professor de reforço para fazer o dever de casa na sala das crianças, que a School on Wheels construiu no albergue.
Uma pessoa doou um teclado para a School on Wheels e pediu que ele fosse entregue a uma criança sem-teto interessada em música. Kattranece ficou com ele!
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TEXTO : CARMILL A FLOYD FOTO : KIM NAYLOR
Na feira, todos os irmãos pintam os rostos para se parecerem com animais selvagens.
Zachery sente falta de seus irmãos
Zachery, 10 anos, desfruta de um bom dia, pois encontra sua irmã e seu irmão e vai à feira com eles e sua mãe. Normalmente, os irmãos ficam com seu pai, enquanto Zachery e sua mãe moram no albergue. Um terceiro irmão mora em um lar adotivo. A mãe está livre das dro-
Três irmãs = uma família
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irmã mais velha Ashley, 19 anos, veio assim que pôde, quando soube que sua mãe havia sido presa novamente. Suas irmãs mais novas ficaram sozinhas no apartamento e estavam prestes a serem despejadas. Ashley teve que deixar seu emprego e a escola noturna para cuidar das irmãs. Não havia espaço no apartamento onde Ashley morava com o namorado. Então, as irmãs tiveram que se mudar de um lugar para outro. Após vários meses nessa situa-
ção, elas conseguiram vaga em um albergue. – Já assisti filmes sobre pessoas sem-teto, diz Brittney, mas nunca imaginei que poderia me tornar uma delas. Sinto saudades da minha mãe, e espero que ela fique sóbria para podermos morar juntas novamente.
gas há dois anos, e Zachery espera que eles possam morar juntos em um apartamento próprio em breve. – O pior de ser um semteto é não poder jogar futebol americano e ter que conviver no albergue com outras pessoas que roubam nossa comida. Quando nos muda-
mos para cá, compramos um monte de comida, porém voltamos e tudo tinha sumido. Agora estou preocupado, temo que peguem minhas coisas. Também me preocupo por não poder estar com meu irmão, Desmond, e protegê-lo. Às vezes ele apanha de outras crianças na escola.
Brian & Byron ganharam um lar!
Brian, 14, e seu irmão Byron, 13, estão muito felizes. Depois de dois anos em um albergue para pessoas sem-teto, a mãe deles provou que consegue se manter longe das drogas, e eles receberam auxílio para mudarem para um apartamento só deles. Fica em um bairro perigoso, onde há gangues e se ouvem tiros durante a noite. Entretanto, há um pátio interno onde podem brincar e andar de skate, sem risco de se envolverem em brigas. Ambos gostam da escola e querem proje-
tar jogos de computador quando crescerem. – Nosso modelo é Shigeru Miyamoto, o melhor designer de jogos de computador do mundo, diz Brian.
Clifton ganhou um prêmio de poesia O professor de Clifton sugeriu que ele participasse de um concurso de poesia, e Clifton, 11 anos, que mora em um albergue com sua mãe, escreveu um poema sobre o amor.
– Pensei nas coisas que gosto de fazer e conversei com a família e os amigos. Dei o nome de “O amor iguala...”. Trabalhei duro, e o poema ficou cada vez mais longo. É sobre o fato de ser o interior que conta, não o exterior. E que podemos sobreviver com
ajuda do amor, mesmo quando passamos por dificuldades. Dentre os 10.000 poemas enviados pelas crianças, o de Clifton foi um dos poucos premiados. Os vencedores participaram de uma grande cerimônia em Beverly Hills, e seus poemas foram recitados
por atores famosos de Hollywood. – Minha mãe chorou. Eu ganhei 500 dólares, e eles deram muitos livros para a sala das crianças da School on Wheels no albergue. Isso me deixou orgulhoso e ainda mais empenhado na escola.
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NOMEADA • Páginas 67–91
Somaly Mam – Sua filha desapareceu, Somaly. Ela não estava na escola quando fui buscá-la. Eu não sei onde ela está! Somaly mal consegue respirar. Seu guardacostas telefona e Somaly teme que o pior tenha acontecido. A família vive sob ameaça constante de morte. A luta de Somaly pelas milhares de meninas vendidas como escravas no Camboja lhe rendeu muitos inimigos. O que fizeram com sua amada filha Champa?
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polícia começa imediatamente a procurar por Champa, 14 anos, entre as gangues criminosas donas dos bordéis da capital do Camboja, Phnom Penh. É lá que estão muitos dos inimigos de Somaly. Por todo o país, seus colegas de trabalho procuram dia e noite. Quando Champa está desa-
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Angkor Wat
Camboja
TEXTO : ANDRE AS LÖNN FOTO : PAUL BLOMGREN
POR QUE SOMALY É NOMEADA?
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Somaly Mam é nomeada ao WCPRC 2008 por sua longa e muitas vezes perigosa luta para salvar meninas vendidas como escravas para e nos bordéis do Camboja. Somaly, que foi vendida para um bordel quando criança, deseja que as meninas que foram escravas tenham as mesmas oportunidades na vida que as outras crianças. Através da organização AFESIP, ela construiu três lares seguros para as meninas que foram salvas da escravidão. Ali, elas têm alimentação, tratamento de saúde, um lar, chance de freqüentar uma escola e, mais tarde, acesso à educação profissionalizante. Sobretudo, Somaly oferece às meninas segurança, carinho e amor. 3.000 meninas que antes eram escravas, conquistaram uma vida melhor graças a Somaly. Ela e a AFESIP representam as meninas no Camboja e cobram constantemente do governo e das diversas organizações, para que cuidem das meninas do país. Somaly é freqüentemente ameaçada de morte. Em 2006, sua filha de 14 anos foi seqüestrada, estuprada e vendida para um bordel. Essa foi a punição de Somaly por sua luta em prol dos direitos das meninas.
parecida há 4 dias, a polícia telefona e diz que sua pista foi rastreada no norte do país, na fronteira com a Tailândia. Uma região conhecida pelo comércio de meninas escravas. Somaly segue direto para lá. Quando ela chega, a polícia já encontrou Champa em um bordel. Os seqüestradores a
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estupraram e depois a venderam para o bordel. O seqüestro de Champa foi uma experiência terrível para Somaly. – Eu não conseguia parar de chorar quando a abracei. Ela estava drogada e não me reconheceu. Eu tomei seu lindo rosto entre as mãos e lhe pedi perdão repetidamente. Doía tanto. Meus inimigos haviam feito mal à minha amada filha como retaliação contra mim. Ela havia sido obrigada a passar
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pelos mesmos abusos terríveis pelos quais eu passei durante tantos anos. Sem pai nem mãe A história de Somaly começa na floresta da montanha, ao leste do Camboja. Ela cresceu em um vilarejo, sem mãe nem pai. Ninguém sabia para onde eles haviam partido. O povo do vilarejo cuidou de Somaly. Sempre havia comida e um lugar para ela dormir na casa de alguma família. – Mas quando íamos dormir, eu via que as outras crianças se deitavam juntinho de suas mães. Eu me deitava sozinha e passava frio. Eu me sentia muito abandonada. Um dia, quando Somaly tinha nove anos, um homem chegou ao vilarejo para comprar madeira para vender na planície. Alguém no
vilarejo contou que o homem vinha da mesma cidade que o pai de Somaly. – Ele disse que conhecia meus parentes, e fiquei contente quando ele perguntou se eu queria ir com ele. Eu tinha esperança de encontrar meu pai lá na cidade. Nada foi como Somaly pensara. Ela não conseguiu encontrar o pai, e o homem, que Somaly havia passado a chamar de avô, deixou de ser gentil. – Ele não era casado e nem tinha filhos, portanto precisava de alguém para ajudar em todas as tarefas domésticas. Ele também precisava de ajuda para ganhar dinheiro para comprar bebida alcoólica. Tornei-me sua escrava. Eu tinha que me levantar às três horas toda manhã para buscar água no rio. Eu vendia a água para vários res-
taurantes que serviam sopa no café da manhã. Somaly caminhava por muitas horas com os pesados baldes d’água. Ao terminar, ela lavava a louça em um dos restaurantes, antes de correr para casa e fazer o almoço do avô. Durante o resto do dia, ela trabalhava para vizinhos que precisassem de ajuda nos campos de arroz. – Depois, eu ia toda noite para um lugar na cidade onde se fabricavam noodles. Lá, eu moia os grãos de arroz usando um pesado moinho de pedra para fazer farinha. Eu nunca chegava em casa antes da meia-noite. Se Somaly chegasse em casa com dinheiro suficiente para a bebida do avô, ele ficava bastante satisfeito. Caso contrário, ele ficava doido de raiva. – Ele me amarrava, me
açoitava com chibata e me chutava feito um louco. Vendida pela primeira vez Um dia, quando Somaly tinha doze anos, o avô lhe disse para ir buscar querosene para a lamparina na casa do comerciante. – Eu conhecia bem o comerciante. Ele costumava ser gentil e me dava doces. Porém, dessa vez, ele me bateu forte no rosto, arrancou minhas roupas e me estuprou. Depois, ele disse que me mataria se eu contasse para alguém. Ele também falou que meu avô lhe devia muito dinheiro. Agora eu sei que meu avô havia pagado sua dívida, permitindo que o homem me estuprasse. Essa foi a primeira vez que fui vendida. – À noite, me deitei sob uma grande mangueira e chorei. Eu sentia dores por
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fui espancada e estuprada pelo dono do bordel. Depois ele me trancou em um quartinho. Antes de sair, ele disse: ”Faça o que eu mando, ou então vou te bater e te estuprar todos os dias!” Somaly sonhava o tempo todo em fugir e, certa vez, ela conseguiu. Entretanto, eles a encontraram e, como punição, ela foi amarrada e abusada por vários homens durante mais de uma semana. - Eles conseguiram me domar. Eu tinha perdido, diz Somaly. Resgata a primeira menina Somaly ia em frente e tentava simplesmente sobreviver. Mas então ocorreu algo que mudaria sua vida. – Um dia chegou uma menina nova. Ela tinha só
todo o corpo e me sentia confusa e suja. Eu não entendia o que havia acontecido. Como não tinha ninguém com quem conversar, tentei falar com a árvore. Vendida novamente Um dia, quando Somaly tinha quinze anos, o avô disse que eles iam viajar para a capital, Phnom Penh,
dez anos. Ela tinha pele escura e era muito magra. Era como se fosse eu mesma que tivesse entrado por aquela porta. Eu sabia que essa menina seria arruinada como eu havia sido. Mas ela ainda podia ter uma boa vida. Logo lhe dei o dinheiro que eu tinha. Os donos e os vigias não estavam lá, e consegui deixá-la sair. Ela estava livre. Quando os donos perceberam a fuga, disseram que puniriam todas as meninas. – Porém contei que fui eu quem a libertou. Eles ficaram loucos de raiva e me bateram por muitas horas. Depois me trancaram em uma gaiolinha apertada para mostrar às outras o que acontecia com quem era desobediente.
para visitar os parentes dele. Todavia, ela foi enganada. A casa para onde o avô a levou não era de seus parentes, mas sim um bordel. Ele a havia vendido. De novo. – Quando entendi em que tipo de lugar eu tinha ido parar, tentei impor o máximo de resistência que pude. Eu me negava a atender ”clientes”. Como punição,
Somaly conversa com uma jovem garota e sua mãe. Somaly conta que a AFESIP está lá, caso as famílias precisem de ajuda.
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Salvou todas! Os anos se passaram. Somaly havia sofrido tantos maus tratos que não tinha mais autoconfiança e nem coragem de fugir. No fi nal, os donos do bordel confiavam tanto nela que a deixavam sair com seus clientes. Ela sempre voltava com o dinheiro. Durante um tempo, ela tinha um cliente americano rico que queria se casar com ela, mas ela não aceitou. Ela temia que ele a vendesse nos EUA. Antes de viajar de volta para casa, o homem deu 3.000 dólares a Somaly, para que ela pudes-
se começar uma nova vida. Era uma quantia enorme em dinheiro. Somaly podia comprar uma casa e ainda abrir um pequeno negócio. – Mas eu sabia que as outras meninas do bordel sofriam exatamente como eu. Desde que ajudei a primeira garotinha a fugir, meu sonho era libertar as outras também. Portanto, dei o dinheiro ao dono do bordel e ele concordou em libertar todas as dez meninas! Foi
Somaly brinca com uma menina de um bairro pobre. A AFESIP presta muita atenção nas meninas pequenas, pois o risco de que sejam vendidas para bordéis em breve é grande.
Medo do escuro – Detesto ficar sozinha no escuro. É nesse momento que todas as lembranças terríveis voltam. Adoro estar ao ar livre e brincar com as meninas no campo de arroz. Quando jogamos futebol, pescamos e caçamos caranguejos juntas, eu me sinto viva novamente, diz Somaly.
uma sensação incrível ver as meninas como pessoas livres! A primeira incursão Somaly conheceu um agente humanitário francês chamado Pierre. Ele a encorajou a começar uma nova vida. Ele disse que ela conseguiria. Eles se casaram, e depois de oito anos Somaly fi nalmente estava livre. Todavia, ela pensava o tempo todo nas
AComo FEa SIP organização de Somaly, a AFESIP, atua:
• Visitam os bordéis para ajudar as meninas que são obrigadas a trabalhar lá e para procurar meninas menores de 18 anos que foram vendidas como escravas. • Fazem incursões conjuntas com a polícia para libertar as meninas menores de 18 anos identificadas. • Ajudam as meninas a denunciarem aqueles que as venderam, compraram e abusaram delas. Também cuidam para que as meninas tenham advogados em casos de processos judiciais. • Proporcionam às meninas resgatadas um lar, alimentação, tratamento de saúde, ajuda psicológica, chance de freqüentar a escola fundamental e de, mais tarde, obter uma educação profissionalizante como estilistas ou cabeleireiras. • Ajudam as meninas a voltarem para suas famílias, quando possível. • Ajudam as meninas a começarem uma nova vida, oferecendo educação profissionalizante. Eles também fornecem os equipamentos de que as meninas precisam. A AFESIP visita cada menina durante pelo menos três anos para verificar se tudo vai bem. • Disponibiliza um telefone de auxílio para onde as meninas podem ligar 24 horas por dia. –O mais importante é que damos carinho e amor às meninas. Nada é mais importante do que isso. Assim, a maioria das meninas podem crescer fortes e cuidar de si mesmas, apesar de todas as experiências pelas quais passaram, diz Somaly.
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milhares de meninas que ainda estavam escravizadas nos bordéis. Todo dia, ela observava como meninas pequenas eram expostas a abusos terríveis. O sonho de Somaly era salvar todas as meninas da escravidão. – Conversei com Pierre sobre meus sonhos e nós decidimos fundar a organização AFESIP (em francês: Agir pour les Femmes en Situation Précaire – em português: Ação pelas Mulheres em Situação Vulnerável) para ajudar as meninas no Camboja. Somaly passou a visitar os bordéis em Phnom Penh. Ela ensinava às meninas sobre os cuidados com a saúde e como se proteger contra a AIDS. Ela levava as meninas doentes para o hospital. Os donos dos bordéis queriam garotas saudáveis, e deixavam Somaly fazer visitas freqüentes. O que eles não sabiam, era que ela sempre procurava por meninas menores de dezoito anos e que haviam sido vendidas como escravas. Logo a AFESIP fez sua primeira incursão conjunta com a polícia para salvar uma das
meninas que Somaly havia descoberto. Era uma garotinha de quatorze anos chamada Srey, que era mantida drogada. Somaly e Pierre cuidaram de Srey em sua casa. Com o tempo, vieram mais e mais meninas morar com eles. Todo o dinheiro que tinham foi usado. Somaly entrou em contato com todas as organizações assistenciais que conhecia e lhes pediu ajuda financeira para salvar as meninas. Após um ano, em 1997, Somaly finalmente conseguiu ajuda e teve a oportunidade de abrir um pequeno centro onde podia cuidar das meninas que eram resgatadas. Vale a pena morrer por essa causa Onze anos se passaram desde a fundação, e mais de 3.000 meninas foram salvas da escravidão e conquistaram uma vida melhor graças ao trabalho duro de Somaly e da AFESIP. Hoje, eles têm três lares seguros onde vivem 150 meninas resgatadas. Atualmente, a AFESIP conta com centros na Tailândia, no Vietnã e no
Laos. Entretanto, Somaly tem muitos inimigos e vive sob constante ameaça de morte. Ela recebe telefonemas ameaçadores no meio da noite, carros a seguem e os lares para as meninas resgatadas da AFESIP sofrem ameaças de bombas. Alguém incendiou sua casa, e Somaly tem que andar sempre acompanhada de guarda-costas. Ela é obrigada a viajar regularmente para o exterior, quando se torna perigoso demais ficar no Camboja. – Dizem que o tráfico de escravas rende mais dinheiro que o tráfico de drogas. Por isso, é difícil e perigoso acabar com ele. Os donos de bordéis, a máfia, certos policiais, juízes e políticos que ocupam altos cargos ganham muito dinheiro com o tráfico de meninas. Certas pessoas acreditam que pelo menos 20 mil meninas menores de dezoito anos sejam mantidas como escravas no Camboja. Somaly não irá interromper sua luta pelos direitos delas. – Eu quase desisti quando minha filha, Champa, foi seqüestrada e vendida para um bordel. Porém, ela me
– A única coisa que realmente me deixa contente é ver as meninas voltarem a brincar e rir. Aí eu também fico feliz! diz Somaly.
disse com tranqüilidade que eu deveria continuar. Champa disse que tinha a mim, e que ficaria bem apesar de tudo. Mas ela não sabia o que seria das outras meninas se eu desistisse. As palavras dela me deram força para seguir adiante. As meninas me chamam de mãe e eu realmente sinto como se elas fossem minhas filhas. Eu as amo. As garotas e eu passamos por experiências semelhantes, portanto eu sei do que elas precisam. Segurança, carinho e amor. Como eu poderia desapontá-las ou abandoná-las? Sei que posso ser assassinada a qualquer momento, mas lutar para que as meninas possam ter um bom futuro é uma causa pela qual vale à pena morrer.
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Camboja duramente afetado A partir de 1963, guerras sangrentas irromperam no Camboja, devastando casas, estradas e terras cultiváveis e matando muitas pessoas: Durante a guerra dos EUA contra o Vietnã (1959– 1975), o vizinho, Camboja, também foi atingido. Entre os anos de 1969 e 1973, os EUA lançaram mais de 500 mil toneladas de bombas sobre o Camboja. Determinadas regiões do país foram totalmente destruídas e centenas de milhares de pessoas foram mortas. Entre 1975 e 1979, o partido comunista do Camboja, o Khmer Vermelho, tomou o poder no país. O líder do partido se chamava Pol Pot. Durante esse período, quase 2 milhões de pessoas morreram de fome e foram submetidas ao trabalho forçado, à tortura ou assassinadas. Até mesmo crianças foram mortas. Milhares de pessoas desapareceram sem deixar rastros. – Muitos dizem que meu pai foi levado pelo Khmer Vermelho e desapareceu, mas ninguém tem certeza sobre o que ocorreu, diz Somaly. O crime do Khmer Vermelho contra o povo do Camboja é considerado um dos piores genocídios da história da humanidade. (Leia mais sobre genocídio no site www.childrensworld.org)
A guerra e a violência tornaram o Camboja um dos países mais pobres do mundo na atualidade. Um terço da população do país vive com menos de 1 dólar por dia. Quase metade (45%) das crianças cambojianas são subnutridas. – A guerra e a violência não apenas tornaram o Camboja muito pobre, mas também destruíram as pessoas. Muitos perderam a noção de certo e errado. As pessoas se tornaram brutais, e se importam apenas com sua própria sobrevivência. A vida de outra pessoa não tem tanto valor. Acho que é por isso que tantas famílias vendem suas próprias filhas para bordéis como escravas. As meninas são as mais atingidas, porque, do ponto de vista cultural, uma menina vale menos do que um menino no Camboja. Uma menina muitas vezes é vista como uma escrava, que pode ser usada tanto pela família quanto por outros adultos. Nós lutamos para que meninas e meninos tenham o mesmo valor, diz Somaly.
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Sreypao
foi vendida como escrava Aos sete anos de idade, Sreypao foi vendida como escrava para um bordel por sua própria mãe. Foi o início de um longo pesadelo. – Acho que eu teria morrido se Somaly não tivesse me ajudado. Ela salvou minha vida e eu a amo por isso. Somaly é minha nova mãe, diz Sreypao.
A
–
qui tem um! Venha cavar aqui! Depressa! Sreypao corre o mais rápido que consegue até as meninas ajoelhadas no campo de arroz um pouco adian-
te. Hoje é ela que está com a pesada pá de ferro usada para desenterrar os caranguejos dos buracos fundos na lama. Durante a estação chuvosa, Sreypao e as outras garotas, que moram no lar para meninas resgatadas de Somaly, saem à procura de caranguejos quase toda tarde. Sreypao observa as garras saindo da lama. Ela cava em torno do caranguejo com fi rmeza e cuidado, para ter certeza que não irá perdê-lo.
Sreypao, 16 Mora: No lar de Somaly para meninas resgatadas. Ama: A vida! Detesta: Que seja possível comprar e vender seres humanos. O pior que já lhe aconteceu: Ser vendida como escrava para um bordel. O melhor que já lhe aconteceu: Quando Somaly e a AFESIP me salvaram. Admira: Somaly! Ela salvou minha vida! Quer ser: Como Somaly, e salvar meninas da escravidão.
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Muitas vezes faminta – Meu pai morreu quando eu tinha um ano. Minha mãe tentava cuidar de mim e de meus cinco irmãos. Não era fácil para ela. Eu era a filha mais velha, por isso tinha que ajudar bastante. Eu cozinhava, lavava a louça, cuidava dos irmãos menores, fazia de tudo um pouco. Eu trabalhava nos campos de arroz dos vizinhos para ganhar um dinheiro extra. Muitas vezes, passávamos fome. Às
vezes comíamos uma vez por dia, às vezes não comíamos nada, lembra Sreypao. Um dia, quando ela tinha sete anos, uma mulher e um homem vieram visitar. Sreypao nunca os tinha visto antes. O casal disse que podia ajudar a família, empregando Sreypao como trabalhadora doméstica na casa de um parente deles na capital, Phnom Penh. – Minha mãe acabou concordando com a proposta e eu também. Eu queria ajudar, pois sabia que precisávamos de todo o dinheiro que pudéssemos conseguir. Sreypao começou a se preocupar quando eles se aproximaram de Phnom Penh. Ela nunca havia estado em uma cidade grande antes. A mulher e o homem foram gentis e disseram que não havia nada a temer.
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s.
Depois ela enfia a mão na lama, tão rápido quanto um raio. – Não foi tão mal, hein? grita ela, pulando e chacoalhando o caranguejo o mais próximo que consegue dos rostos de suas amigas. Sreypao ri. Entretanto, durante muito tempo não havia alegria em sua vida.
“Nós te matamos!” Mas assim que entraram na casa, o homem e a mulher mudaram completamente. – Eles me jogaram em um quartinho e trancaram a porta. Eu fiquei com medo e comecei a chorar. Eu não
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O que é preciso para uma boa caça a caranguejos?
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... e amigos!
O maior templo do mundo! Uma pá de ferro...
O templo budista na camiseta de Khema se chama Angkor Wat e fica no noroeste do Camboja. Ele foi construído no século XII e é a maior construção religiosa do mundo. Todos no Camboja se orgulham muito do templo. O Angkor Wat está estampado até mesmo na bandeira e nas cédulas do país! Às vezes, as meninas resgatadas por Somaly e pela AFESIP fazem um passeio até Angkor Wat.
... um balde...
O guarda-roupa de Sreypao Cada uma das meninas do lar de Somaly tem seu armário no quarto, onde guardam todas as suas coisas. No armário de Sreypao há:
– Além disso, é claro que tenho minhas roupas no armário. Eu adoro roupas!
Uma bolsa escolar, com livros e canetas. Um sabonete. Um vidro de xampu. Uma escova de dente. Um creme dental. Um prato e uma colher. Um travesseiro. O colchão de palha colorido onde ela dorme, fica inclinado contra a parede em um canto do quarto, pois não cabe no armário. 76
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entendi nada e gritei: ”Por que vocês me trancaram? Eu vim para cá trabalhar como doméstica!” Então eles disseram: “Pare de gritar! Se você não se calar, vamos te matar!” Fiquei morrendo medo e quis voltar para casa. Os dias se passaram e Sreypao não foi libertada. Davam-lhe água, mas nada para comer. Depois de uma semana, o homem veio até ela e disse: “Cuide de um cliente”. – Eu disse que não sabia o que aquilo significava. Eu pensava ter ido para lá para limpar a casa e lavar a louça. O homem ficou furioso e mandou quatro homens entrarem no quarto. Eles rasgaram minhas roupas e me bateram com cinto e fios elétricos por todo o corpo. Depois eles me fi zeram um mal terrível. Na época eu não sabia o que era aquilo. Agora sei que eles me estupraram. Eu chorava e pedia
O uniforme escolar...
que eles parassem. Por fi m, acabei desmaiando. Escorpiões e aranhas – Acordei com eles me jogando água e perguntando se eu ia “cuidar de um cliente”. Quando eu disse que ainda não entendia o que aquilo queria dizer, eles me trancaram em outro quarto. O quarto estava cheio de aranhas, escorpiões e animais venenosos. Depois de alguns dias, eu tinha ferimentos no corpo todo e fiquei muito doente. Eu chorei e gritei pela minha mãe, mas eles apenas disseram: “Não adianta, ela não te ouve. Ela não vai te ajudar!”. Eu não entendia o que estava acontecendo. Eles não me deixavam sair nem quando eu precisava ir ao banheiro. Até que não consegui mais segurar. Fui obrigada a fazer na roupa ou no chão. Quando os homens viram o que havia
... as roupas tradicionais que usamos para costurar e tecer. Foram as meninas que moram no lar de Somaly para garotas um pouco mais velhas que fizeram as roupas. Elas vão ser estilistas, e fazem roupas muito bem!
ocorrido, ficaram loucos da vida e gritaram: “Por que você não avisou?”. Eu fui punida. Eles me bateram e me açoitaram novamente.
aguardava quando senti que não conseguiria. Não mais uma vez. Eu ia fugir a qualquer preço. Mesmo que eles me matassem.
Desistiu – Por fi m, acabei desistindo. Eu não agüentava mais apanhar, e acabei concordando com o que eles me pediram. Mas nada melhorou, muito pelo contrário. Descobri que “cuidar dos clientes” era a mesma coisa. Estupro e agressão. Durante noites inteiras e com muitos homens diferentes. Em pouco tempo, parecia que meus sentimentos haviam sido destruídos de alguma forma. Como se eu estivesse morta. Sreypao foi vendida para outros bordéis. Uma noite, quando tinha onze anos e era escrava em diferentes bordéis há mais de quatro anos, ela tomou uma decisão. – Um novo “cliente”
A fuga Sreypao perguntou se podia comprar um bolo na loja da esquina antes do próximo cliente. Eles permitiram, mas dois homens iriam junto, como vigias. – Então eu disse que, se estavam com medo que eu fugisse, talvez fosse melhor eles irem comprar o bolo, enquanto eu esperava em frente ao bordel. Os homens nunca imaginaram que eu sairia dali. No entanto, assim que eles viraram as costas, eu corri o máximo que pude. Quando virei, vi que eles haviam me descoberto e estavam me seguindo. Eu chorava e meu coração batia forte.
Minhas roupas de ginástica...
... e minhas roupas preferidas. Eu ganhei a saia e as calças de Somaly. São as melhores coisas que tenho!
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Juntas. As meninas nunca saem sozinhas, elas cuidam umas das outras para que nada de mal aconteça. – Eu olhei para trás de soslaio e corri direto até trombar com um casal que caminhava. Eles viram que eu estava chorando e perguntaram o que houve. Expliquei o melhor que pude, e eles disseram que podiam me ajudar. Eles me mandaram subir depressa em sua motocicleta. Eu tinha muito medo de ser vendida novamente. Porém, o casal trabalhava para a AFESIP e estavam em sua ronda noturna usual no
Coentro para a sopa de caranguejo.
Caldo Tom Yam
parque, à procura de meninas que precisam de ajuda! O resgate – Quando chegamos à AFESIP, todos foram muito gentis comigo, e entendi que estava salva. Somaly me abraçou e disse que tudo ficaria bem. Eu confiei nela imediatamente. Eu sentia que ela entendia exatamente
pelo que eu tinha passado. Ganhei um sabonete e roupas limpas. Um médico me examinou e depois me encontrei com um psicólogo. Foi uma sensação muito boa poder falar sobre todas as coisas terríveis que haviam acontecido. Após quatro meses, Somaly quis saber se Sreypao não tinha vontade de se mudar
A mãe da casa, Sochenda, ajuda Sreypao a fazer a sopa.
para sua casa na zona rural e freqüentar uma escola. – Fiquei muito feliz. Imagine, poder deixar Phnom Penh e todas as lembranças ruins! E eu nunca havia tido chance de ir à escola. O dia em que entrei na sala de aula foi o mais feliz de minha vida. Agora já faz quase cinco anos que Sreypao mora no lar para meninas resgatadas de Somaly. – Sinto-me totalmente segura aqui. Somaly, nossa mãe da casa e todas as outras pessoas da AFESIP nos dão muito amor. Nós, meninas, somos como uma família e cuidamos umas das outras. Às vezes conversamos sobre todas as coisas terríveis que aconteceram. Toda quinta-feira, uma psicóloga vem aqui para nos ajudar. Tentamos fazer coisas divertidas e pensar em tudo de bom que pode acontecer no futuro.
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Somaly, minha nova mãe! – Tenho certeza de que minha mãe sabia que estava me vendendo para um bordel. Ela me mandou sair da sala quando o homem e a mulher chegaram, para que eu não ouvisse o que falavam. Não sei quanto dinheiro ela recebeu por mim. É claro que minha mãe era pobre, mas mesmo assim não entendo como alguém pode vender sua própria filha. A AFESIP me
O mesmo valor Sreypao quer lutar pelos direitos das meninas no futuro. Assim como Somaly, ela quer fazê-lo contando sua própria história. – Para que essa situação mude, os rapazes têm que mudar. Há algo muito errado quando alguém pensa que pode se aproveitar de meninas e mulheres, como fi zeram comigo. Eles não têm coração? Eles gostariam que suas filhas, irmãs, esposas ou mães fossem tratadas dessa forma? Os rapazes precisam começar a ver as meninas de outra forma. Eles têm que entender que temos o mesmo valor e deve-
ajudou a encontrar com minha mãe algumas vezes. Porém, ainda tenho raiva dela e não quero morar lá nunca mais. Na verdade, eu gostaria que ela fosse presa, mas não posso denunciá-la. Seja como for, ela é minha própria mãe. Apesar de que, agora, Somaly é minha nova mãe! Ela me ama e diz que vai me ajudar a realizar meus sonhos.
– Meu primeiro dia na escola foi o melhor dia da minha vida! diz Sreypao.
mos ser tratadas com respeito! Quero falar nas escolas sobre o que me aconteceu. Se os meninos tiverem a chance de ouvir minha história, talvez eles pensem e comecem a tratar melhor as meninas. É
difícil contar aos outros sobre todas as experiências terríveis pelas quais passei, mas Somaly me ajuda a ter coragem!
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meninas resgatadas em três lares – Quando me sinto triste e cansada, vou para o lar de meninas onde Sreypao mora. As meninas me dão força e vontade para continuar lutando. Eu as amo! Nós somos boas umas para as outras, diz Somaly. O lar é para as meninas mais jovens resgatadas da escravidão. Há 39 meninas morando lá no momento. A mais nova tem apenas sete anos. Quando as meninas terminam o ensino fundamental, a maioria se muda para um dos outros dois lares de Somaly para garotas um pouco mais velhas. Lá elas podem fazer os cursos profissionalizantes da AFESIP e se educarem como estilistas ou cabeleireiras. Elas também podem estudar matemática e khmer, o idioma falado no Camboja. – Quero começar o curso de cabeleireira, diz Sreypao. No momento, um total de 151 meninas resgatadas moram nos três lares.
– Se alguma de nós precisa de ajuda ou tem vontade de fazer alguma coisa, como um piquenique, podemos escrever uma carta e depositá-la na caixa secreta. Só Somaly tem a chave dela. Ela lê todas as cartas. Como Somaly passou pelas mesmas coisas que nós, ela entende como nos sentimos e o que precisamos. Eu escrevi uma carta e pedi que minha irmã mais nova pudesse morar aqui. Tenho medo que nossa mãe a venda. Somaly prometeu que ela poderá vir para cá, e estou imensamente feliz por isso. A chave para os sonhos das meninas...
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Um dia no lar para m – Bom dia, garotas! Vocês dormiram bem? Ainda está escuro lá fora quando a mãe da casa, Sochenda, acorda as meninas na bela casa de madeira construída sobre palafitas…
05:30 05:00 Ginástica da manhã Aquelas que têm boa disposição de manhã tentam animar as demais. Todas tiram os pijamas e vestem roupas de ginástica, descem as escadas e se posicionam no jardim. Então é hora da dura ginástica matinal, durante pelo menos meia hora toda manhã.
Banho Depois do exercício, todas tomam banho e escovam os dentes.
06:30 Para a escola Todas vestem o uniforme escolar. – Sempre ajudamos umas às outras quando vamos para a escola. Principalmente nós, que somos um pouco mais velhas, cuidamos para que os uniformes das meninas mais novas estejam corretos e que elas não esqueçam seus livros, diz Sreypao.
07:00
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TEXTO : ANDRE AS LÖNN FOTO : PAUL BLOMGREN
Café da manhã Antes do café da manhã, as meninas vão até seus armários no quarto de dormir e pegam seus próprios pratos e colheres. – Hoje temos arroz e feijão, mas meu café da manhã preferido é peixe com legumes. A comida é uma delícia e nunca fico com fome, diz Srey Moch, 11 anos. Depois do café da manhã, cada uma lava seu prato e sua colher.
Aulas – Eu adoro estar na escola. Concentro-me para aprender coisas para o futuro e assim não tenho tempo para pensar sobre todas as coisas horríveis que aconteceram. Não freqüentei uma escola até os 11 anos de idade, porque era escrava em um bordel. Agora estou na quinta série, apesar de ter dezesseis anos. Se a AFESIP não tivesse pagado meu uniforme e livros, eu nunca teria tido condições de ir à escola, diz Sreypao.
12:00
13:00
Siesta Hora de descansar. É bom poder subir para casa e deitar para ler ou dormir quando está tão quente lá fora.
Limpeza As meninas se revezam na limpeza da casa e do jardim. Algumas ajudam a preparar o jantar. Quem precisa, tem aulas extras com um professor da AFESIP.
11:00 Almoço Todas as meninas voltam para casa e almoçam. 80
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a meninas resgatadas de Somaly 14:00
17:00 Jantar
Tecelagem Toda tarde, as meninas aprendem a tecer e costurar na máquina. – Quando me mudar daqui, gostaria de fazer o curso de corte e costura da AFESIP. Quero ser uma ótima tecelã para poder me sustentar quando for adulta, diz Chitra, 13 anos.
18:00
20:00
Dever de casa A maioria jogam futebol, brinca de esconde-esconde e caça caranguejos no campo de arroz. Outras lavam suas roupas, tomam banho e fazem o dever de casa. Às 18:30 o gerador é ligado para a casa ter eletricidade. Assim, as meninas não precisam fazer o dever de casa no escuro, apesar de morarem na zona rural, onde geralmente não há eletricidade. – Nós nos ajudamos com os deveres de casa. Se tiver alguma coisa que você não entende, sempre tem alguém que sabe explicar. Quero ser médica quando crescer, portanto sei que preciso estudar muito, diz Leng, 11 anos (à esquerda), que estuda ciências junto com Sopheap, 12 anos, (à direita).
Hora do Filme! Somaly acredita que é bom para as meninas assistirem TV de vez em quando, para saberem o que está acontecendo ao seu redor, no Camboja e no mundo. – Mas prefiro assistir filmes engraçados, que me fazem rir bastante! diz Sreypao.
21:00
24:00
Hora de dormir sob o mais longo (?) mosquiteiro do mundo Todas pegam seus colchões de palha. Elas esticam os colchões lado a lado em duas fileiras no chão. Depois, algumas meninas cobrem os lugares de dormir com dois enormes mosquiteiros. Os cortinados têm mais de dez metros de comprimento e protegem as garotas de pegarem malária. Pouco antes de o gerador ser desligado e da luz se apagar, a mãe da casa, Sochenda, vem dizer boa noite. – Ela faz isso toda noite. Ela realmente se importa conosco, como uma verdadeira mãe, diz Sreypao.
Hora do terror… De vez em quando, alguma das meninas acorda de seus belos sonhos com alguém acariciando sua perna ou seu cabelo. Se olhar para cima nesse momento, ela fitará um par de olhos mirando-a fixamente e ouvirá uma gargalhada terrível… – Às vezes, quando as outras já dormiram, eu saio, me pinto e me transformo no fantasminha da casa! Volto para o quarto silenciosamente e escolho uma boa vítima. Primeiro, eu seguro seu pé cuidadosamente... Depois, a puxo para fora do mosquiteiro com toda força, ao mesmo tempo que dou o urro mais alto que consigo. Todas acordam e correm em volta do quarto, gritando. Eu adoro me fantasiar e, se fosse possível, gostaria de participar de um grupo de teatro de verdade no futuro. Esse é o meu sonho, diz Kanha, 19 anos.
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Meninos mais amados
– Fiquei super triste quando meu irmão entrou na escola, enquanto eu fui obrigada a ficar em casa e trabalhar, conta Ly, 13 anos, que mora em dos lares para meninas resgatadas de Somaly.
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“
qui no Camboja nós, meninas, temos muito mais deveres em casa do que os meninos. Já aos 5 anos de idade, temos que começar a lavar louça, cozinhar, costurar, limpar a casa, trabalhar no campo de arroz e cuidar de nossos irmãos menores, para que nossos pais possam trabalhar. Os meninos nunca precisam fazer esse tipo de coisa. Tudo o que eles fazem é brincar! Quando os pais pedem a ajuda de seus fi lhos e o menino não quer, não há problema. Ele não é obrigado. Porém, se a menina se recusar, eles ficam terrivelmente bravos. Eu acho injusto e fico com raiva só de pensar nisso. Os meninos deveriam ajudar as meninas. Se ajudássemos uns aos outros, as tarefas seriam feitas com mais rapidez e assim as meninas também teriam tempo livre. É claro que também gostamos de brincar!”. O filho na escola Se uma família é pobre e os pais têm que escolher entre mandar o fi lho ou a fi lha para a escola, eles quase
sempre escolhem o menino. Foi assim comigo. Fiquei decepcionada quando meu irmão entrou na escola e eu fui obrigada a ficar em casa e trabalhar. Os pais acreditam que os meninos terão condições de conseguir um emprego melhor e poderão sustentar a família mais tarde. Já as meninas só são capazes de realizar as tarefas domésticas. Porém, acredito que podemos fazer as mesmas coisas que os meninos se tivermos chance. Nós também podemos trabalhar em escritórios e sermos chefes! Para termos uma vida melhor, é importante freqüentarmos a escola como os meninos. Eu adoro ir à escola! Aqui no centro, sempre conversamos sobre como a vida é mais difícil para nós, meninas, do que para os meninos. Espero que isso mude para as meninas terem uma vida melhor no futuro. Mas acho que isso vai demorar, pois todas as famílias do Camboja parecem amar mais seus fi lhos do que suas filhas. Não entendo porquê.”
Vida de risco para meninas – Detesto ter medo só porque sou menina, diz Oudom, 15 anos, que vive em um dos lares para meninas resgatadas de Somaly. “
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o Camboja, estamos expostas a mais perigos do que os meninos. Se sairmos do lar, podemos nos envolver em problemas muito sérios. Podemos ser estupradas, seqüestradas e vendidas para bordéis e sermos exploradas por adultos de todas as formas possíveis.
Por isso, muitas meninas não querem, ou ousam, arrumar um emprego fora de casa. Eu me sinto exatamente como elas, e detesto sentir isso. Deveríamos poder circular livremente, sem medo. Isso deveria ser um direito de todos! Aqui no centro de Somaly,
cuidamos umas das outras para que nada de mal aconteça a nenhuma de nós. Nunca saímos de casa sozinhas, sempre o fazemos em grupos de várias meninas. Se alguma das minhas amigas estiver em apuros, eu farei tudo para apoiá-la e ajudá-la”.
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Para que se usa um krama? Krama é um tecido tradicional muito comum no Camboja. Aqui, Chitra, 13 anos, mostra algumas das maneiras que se pode usar o tecido!
Para manter o suor longe dos olhos… …ou só porque é bonito!
Para proteger a cabeça do sol… …e do vento. Como cachecol…
…xale…
Para comprar berinjelas…
Quando se vai ao templo budista…
…ou melões no mercado!
…vestido…
…e saia!
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Synoun ganhou uma nova vida – Eu fui mantida prisioneira, como escrava em um bordel na Tailândia, por mais de um ano e achava que minha vida tinha acabado. Mas Somaly e a AFESIP me deram uma nova vida. Agora tenho meu próprio salão de cabeleireira e posso cuidar de mim mesma, diz Synoun.
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“
resci em uma vila pobre na zona rural aqui no Camboja. Uma de nossas vizinhas costumava viajar para a Tailândia para comprar e vender coisas. Ela dizia que era fácil ganhar dinheiro. Um dia, a mulher contou que ela conhecia um homem na Tailândia que podia me arrumar um emprego em uma fábrica têxtil. Minha família precisava muito do dinheiro, então eu concor-
dei. Porém, fui enganada. O homem não me levou para uma fábrica, mas sim para um bordel. Eu tinha só 16 anos, mas quando fui aprisionada senti como se minha vida já tivesse acabado. O bordel era tão terrível que eu perdi a esperança de jamais conseguir sair de lá. A sorte é que eu estava errada. Depois de um ano, a polícia invadiu o bordel e nós fomos libertadas e mandadas de volta para casa.
Família pobre Quando cheguei em casa, minha mãe disse que nunca mais me deixaria sair da vila novamente. Eu só poderia andar por perto, para que nada de mal acontecesse. Mas não era tão fácil. Minha família continuava pobre e não havia como ganhar dinheiro onde nós morávamos. Como poderíamos sobreviver se eu não saísse para procurar emprego? Meu pai se preocupava o tempo todo com a minha segurança. Um dia, ele contou que havia ouvido falar de uma organização em Phnom Penh que ajudava meninas que haviam sido vendidas para bordéis. Talvez eles pudessem nos ajudar. Meu
pai telefonou para lá e não demorou muito para que duas pessoas da AFESIP viessem me buscar. Eles estavam preocupados com minha irmã menor, Samnang, que também poderia ter problemas. Eles pediram permissão para ela também vir conosco. Nossos pais concordaram e eu fiquei super feliz, pois amo minha irmã. Belos penteados Estávamos muito nervosas quando chegamos a Phnom Penh. Porém, Somaly nos
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abraçou e todas as outras pessoas também foram muito gentis. Finalmente relaxamos. Dias depois, chegaram algumas meninas que fi zeram o curso de cabeleireira da AFESIP e mostraram como fazer belos penteados e lindas unhas. Na mesma hora senti que era aquilo que Synoun, 23 eu queria fazer no futuro. Mora: Junto com minha Ao mesmo tempo em que irmã mais nova. iniciei o curso de cabeleireiAma: Minha família. ra, minha irmã começou a Detesta: O tráfi co de escravos. aprender a costurar e tecer. O pior que já lhe aconteceu: Eu realmente adorei o curso. Ser seqüestrada e vendida Eu fazia estágio com difecomo escrava na Tailândia. rentes cabeleireiros, sempre O melhor que já lhe aconte- sonhando em abrir meu próceu: Fazer curso de cabeleireira prio salão e ser bem sucedie receber ajuda para abrir meu da. No entanto, eu tinha próprio salão. pouca autoconfiança. Admira: Somaly. Somaly e os funcionários me Quer ser: Uma cabeleireira apoiaram e me deram muito bem sucedida. amor. Eles diziam que eu Sonho: Conhecer outros países. certamente conseguiria!
O próprio salão! Após um ano, me senti preparada. A AFESIP me pediu para encontrar um bom local onde pudesse abrir meu salão. É claro que não podia ser na minha vila de origem, pois lá ninguém tinha condições de ir ao cabeleireiro. Todavia, na cidade que ficava a apenas meia hora de viagem de moto-táxi da vila, eu encontrei um bom lugar onde
No salão “Cortes Modernos de Synoun” você pode cortar o cabelo, fazer permanente no cabelo e nos cílios, alongar o cabelo, desfrutar de uma massagem facial e embelezar suas unhas com a manicure! O alongamento de cabelo é muito popular entre as clientes de Synoun e custa US$ 0,75.
poderia morar e trabalhar. Algumas pessoas da AFESIP foram até lá e, depois de aprovarem o lugar, me ajudaram a começar. Eles me deram tudo: tesouras, pentes, secadores de cabelo, armários, xampu... tudo! Foi incrível. Minha irmã mais nova abriu seu ateliê de costura no mesmo local. Dividimos o aluguel e fazemos companhia uma à 85
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Amor de irmãs – Me sinto segura por morar junto com minha irmã mais nova. Minha mãe e meu pai estão muito felizes por estarmos tão bem agora. Eles vêm sempre aqui, e nós costumamos visitá-los em casa na vila pelo menos uma vez por semana, diz Synoun.
outra. No início, a AFESIP nos visitava com freqüência para ver como as coisas estavam indo, se estávamos conseguindo cuidar de tudo e se as pessoas da cidade nos tratavam bem. Era bom. Um dia Somaly visitou o salão e eu fi z suas unhas,
que ficaram lindas. Aquele foi um ótimo dia! Ela me pediu para telefonar sempre que eu precisasse de algo. É reconfortante saber que Somaly estará lá se precisarmos de ajuda. Ela ou algum outro funcionário ainda vem aqui de vez em quando
Moda Justa
para ver se está tudo bem. Se a AFESIP não tivesse me ajudado, eu nunca teria conseguido a vida que tenho hoje. Nunca teria tido condições de fazer o curso de cabeleireira e nem de abrir meu próprio salão sozinha. Mesmo não sendo sempre
fácil, é fantástico ter uma educação profissionalizante e um trabalho de verdade. Agora me sustento sozinha e ainda posso ajudar minha família. Maravilhoso!”
Parte das meninas que fazem o curso de cabeleireira da AFESIP ou o curso de corte e costura têm dificuldade de conseguir emprego quando se formam. Isso se deve à alta taxa de desemprego no Camboja, mas também porque muitas das meninas não são aceitas quando voltam para a comunidade. Às vezes elas são consideradas “sujas”, e as pessoas preferem comprar suas roupas ou cortar o cabelo em outro lugar. Para ajudar essas meninas, a AFESIP fundou, em 2003, a “Fair Fashion” – Moda Justa. As meninas fabricam roupas que são vendidas no Camboja e no exterior. Elas recebem salários com os quais podem se sustentar, e o local de trabalho é seguro. As meninas são tratadas com respeito e não são obrigadas a fazer hora extra. Claro que o trabalho infantil é proibido na Fair Fashion. Porém, essa situação não é semelhante no Camboja, onde metade das crianças trabalha. O dinheiro que a Fair Fashion recebe com a venda das roupas é usado para salvar outras meninas da escravidão. No momento, 30 meninas trabalham na Fair Fashion no Camboja. Em 2004, a Fair Fashion foi aberta também no Vietnã.
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Syna salva escravas Quando Syna tinha 13 anos, foi atraída de sua vila no Vietnã para a capital do Camboja, Phnom Penh. Lá, ela foi vendida como escrava para um bordel. Hoje ela faz aquilo que todas as garotas que foram salvas por Somaly sonham...
S
yna mantém os olhos abertos quando passa pelos corredores escuros dos bordéis. Ela sabe que atrás de cada uma das portas fechadas de metal por onde passa, pode haver meninas de até sete anos de idade, mantidas prisioneiras como escravas sexuais. Ela conhece os terríveis abusos a que essas meninas são submetidas e o quanto elas sofrem. Por três anos, a própria Syna foi trancada e explorada por homens. Agora, ela trabalha como assistente social nos bordéis para a AFESIP. Em um pequeno quarto no fundo do bordel, dez
meninas esperam por Syna. Elas ficam esfuziantes quando ela chega. – Oi! Que bom vê-las novamente! Como estão vocês? pergunta Syna e abraça cada uma delas. Elas se sentam em círculo no chão e começam a conversar. No começo há muitas piadas e risos, mas depois a coisa fica mais séria. Muitas contam que seus ”clientes” batem nelas e que é difícil se defender. Uma menina chega depois das outras. Ela é magra e fraca e está muito doente. Syna se preocupa com ela. – Você deve vir à clínica da AFESIP para podermos
ajudá-la. Você promete que virá? A garota acena com a cabeça e diz que vai tentar. Syna lembra as meninas de que a melhor forma de se protegerem contra a AIDS é usar preservativo. Ela também explica como é importante que elas se lavem bem para se manterem saudáveis. Ela distribui preservativos, creme dental, escovas de dente, e sabonetes gratuitamente para todas. A menina foi laçada Depois da visita, Syna fica cansada. A escuridão, os quartos pequenos e o odor desagradável fazem com que
Quando eu descubro alguma menina que foi vítima do tráfico de escravas, informo à polícia, que liberta a garota. Mesmo que este trabalho muitas vezes me faça mal devido a todas as antigas lembranças, vale a pena. Toda vez que uma menina é salva da escravidão, me sinto muito feliz, diz Syna.
ela quase sempre sinta náuseas. Todas as memórias terríveis daquele quartinho retornam. – Se eu tivesse menos de dez homens por dia, apanhava do dono do bordel. Muitas vezes, meu castigo era ficar sem comer nada. E não dava para fugir, independente do quanto eu desejasse a liberdade. O bordel havia sido construído sobre palafitas no meio da água, e a única chance de chegar ou sair de lá era por uma ponte estreita e muito bem vigiada. Em volta do bordel, os donos espalharam varetas pontiagudas e pontas de fer87
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ro no fundo da água. Uma vez, uma menina conseguiu serrar a grade de sua janela e pular para fora. Ela foi laçada. – Eu sonhava o tempo todo em escapar da minha prisão, e depois de um ano, achei que meu sonho se realizaria. A polícia invadiu o bordel e nos levou para a delegacia. Mas não demorou muito até que a dona do bordel chegasse e pagasse os
policiais. Ao invés de nos salvar, eles nos levaram de volta para o bordel. Eu gritava que havia sido raptada e que queria voltar para o Vietnã, mas ninguém se importava, lembra Syna. Então, um dia, três anos depois, a polícia invadiu o bordel de novo. Dessa vez foi diferente. Os policiais fi zeram a incursão junto com a AFESIP para salvar as meninas.
As duas tarefas de Syna 1. Cuidar das meninas que são obrigadas a se venderem nos bordéis para sobreviver. Principalmente salvá-las do HIV e da AIDS. 2. Salvar crianças que foram raptadas e vendidas como escravas.
– Foi totalmente irreal! Eu não ousava acreditar que estava livre! ”Não são mais escravas!” – Somaly veio até mim, pois percebeu que eu estava com medo. Ela me abraçou, passou a mão pelos meus cabelos e disse: ”Como está você, minha fi lha? Não tenha medo. Tudo vai se resolver.” Eu não sentia tamanho calor humano há muito tempo. A mãe de Syna procurou por ela durante mais de três anos. Elas se gostam muito, e aqui Syna ajuda a mãe a cozinhar.
Nunca vou me esquecer, diz Syna. Ela foi morar no lar para meninas resgatadas de Somaly e fez o curso de corte e costura da AFESIP. – Depois, Somaly perguntou se eu ainda sabia falar vietnamita, pois ela precisava de alguém que pudesse conversar com todas as meninas trazidas do Vietnã para o Camboja. Fiquei com medo, mas aceitei imediatamente! Somaly havia me dado tanto carinho e amor, e até salvou minha vida. Agora eu sentia que teria a chance de devolver um pouco ajudando outras meninas em dificuldades.
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TEXTO : ANDRE AS LÖNN FOTO : PAUL BLOMGREN
Syna fez cursos de inglês, psicologia e terapia de grupo. Acima de tudo, Somaly a ajudou a recuperar sua auto-estima, que estava muito abalada depois do longo período como escrava. – Lembro que ela falou: ”Não tenha medo, Syna. Agora somos fortes. Não somos mais escravas!” Ela me explicou que eu tinha direitos, que eu deveria ser forte e corajosa. E isso ajudou! Salvou 14 meninas – Já faz seis anos que trabalho como assistente social. Junto com pelo menos mais uma assistente social, eu visito cerca de três bordéis por dia e tento ajudar as meninas a se cuidarem. Grande parte do trabalho é ensiná-las a se protegerem do HIV e da AIDS. Também escuto seus problemas. Sou amiga. Se existe uma coisa de que precisamos quando
somos obrigados a trabalhar em um bordel, é de amizade. Nada pode ser mais solitário. Elas precisam de intimidade e carinho, e eu tento lhes oferecer. Toda vez eu digo às meninas que a AFESIP está pronta para ajudá-las a conseguir uma educação e uma vida diferente. Porém, muitas vezes as meninas foram submetidas a tantas coisas terríveis que perderam totalmente a autoconfiança. Elas têm vergonha e não acreditam que podem fazer outra coisa. Elas crêem que suas vidas já estão destruídas. Comigo era a mesma coisa. Antes de a Somaly me ajudar, eu não acreditava nem mesmo que conseguiria olhar nos olhos de outras pessoas novamente. Como as meninas sabem que eu passei pelas mesmas experiências que elas, percebem que realmente é possível construir uma nova vida.
– Entretanto, minha tarefa mais importante nos bordéis é identificar meninas menores de dezoito anos. Meninas que foram vítimas do tráfico de escravas. Quando eu descubro alguém, nós informamos a polícia, que faz uma busca no bordel e liberta a garota. Então nós cuidamos dela. Eu descobri quatorze meninas que haviam sido vítimas do tráfico de escravas e denunciei isso. Todas ganharam uma nova vida graças à AFESIP. Mesmo que este trabalho me faça mal muitas vezes, por causa de todas as lembranças do passado, vale à pena. Toda vez que alguém é salvo da escravidão, me sinto muito feliz! Entretanto, eu ficaria ainda mais feliz se nenhuma menina no mundo todo tivesse que passar pelas coisas que eu passei. Todas nós merecemos coisa melhor.
Syna, 23 Mora: Com minha família, em Phnom Penh. Ama: A liberdade. Detesta: Quando os adultos fazem mal às crianças e violam seus direitos. O pior que já lhe aconteceu: Ser escrava e não poder fazer nada contra aquilo. O melhor que já lhe aconteceu: Somaly e a AFESIP terem me dado uma nova vida. Admira: Somaly, é claro! Ela é uma mulher incrivelmente corajosa.
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Vida em Família – Eu procurei por Syna todos os dias durante mais de três anos. Primeiro no Vietnã e depois no Camboja, pois me disseram que muitas meninas vietnamitas eram raptadas e vendidas em Phnom Penh. Eu tinha uma foto de Syna e
Syna e seu irmão mais novo, Tanga, 12 anos, ajudam a mãe a preparar o jantar.
andava pelas vilas e cidades batendo nas portas e perguntando se alguém tinha visto minha amada filha. Não posso descrever como fiquei aliviada quando finalmente vi a fotografia dela na delegacia e descobri que a AFESIP estava
– Amo Syna e tenho muito orgulho de seu trabalho, diz a mãe, Chou.
cuidando dela. Eu senti que a AFESIP podia oferecer uma nova vida a Syna e por isso decidimos ficar aqui em vez de voltar para casa. Agora a família toda mora junto novamente e sou grata por isso! Eu amo Syna e tenho muito orgulho daquilo
que ela faz. Tenho certeza de que sem Somaly e a AFESIP ela teria morrido, diz Ceou, a mãe de Syna. Quando possível, a AFESIP encoraja as meninas a voltarem para suas famílias e terem uma vida normal novamente.
é comércio de escravos A grande maioria das meninas que Somaly ajuda foram vítimas do “tráfico”. Traficar é comercializar seres humanos, e torná-los escravos. Mais de 1,2 milhões de crianças no mundo são vítimas do tráfico, o que significa, muitas vezes, ter negado o direito de viver com seus pais, o direito à proteção contra
violência e abuso, o direito de ir à escola e o direito de brincar. O comércio de meninas escravas ocorre em todo o Sudeste da Ásia. Milhares de meninas do Vietnã são vendidas no Camboja, e meninas do Camboja, Laos, Birmânia e da Malásia são freqüentemente levadas para a Tailândia. Garotas
tailandesas e chinesas entram clandestinamente através das fronteiras de países como o Camboja. Somaly ajuda a todas Para Somaly, não importa de onde as meninas vêm. Nos três lares do Camboja vivem meninas cambojianas e vietnamitas. A AFESIP cuida para que as meninas
do Vietnã, Tailândia e China possam voltar para casa, quando se sentem prontas. Todavia, isso só ocorre quando se sabe que as meninas terão uma boa vida ao retornarem. A AFESIP também conta com centros no Vietnã, Tailândia e Laos.
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pesar de todos os países do mundo, inclusive o Camboja, terem leis que proíbem a discriminação contra as meninas, muitas vezes elas são tratadas de forma inferior. Muitas meninas são expostas a abuso, tráfico e à pior de todas as formas de trabalho infantil – a prostituição em bordéis. Mais de 2 milhões de crianças, em sua maioria meninas, são exploradas no comércio sexual. É mais fácil manipular e tirar vantagem de crianças que não foram alfabetizadas. 65 milhões de meninas não vão à escola. Das 150 milhões de crianças que abandonam a escola antes da quinta série, 100 milhões são meninas. Dos 875 milhões de adultos no mundo que não sabem ler
e escrever, quase 600 milhões são mulheres. Em todo o mundo, as mulheres geralmente têm salários inferiores aos dos homens, mesmo desempenhando as mesmas funções. Apesar de as mulheres constituírem dois terços da mãode-obra do mundo, sua renda representa apenas um décimo da renda mundial. Os homens têm mais poder na política e na economia, pois é mais comum serem chefes e líderes. O fato de as meninas não serem tão bem tratadas quanto os meninos fere Convenção da Criança da ONU, que determina que todos têm o mesmo valor e devem ter as mesmas oportunidades na vida, independente de terem nascido meninos ou meninas.
Sete assistentes sociais As sete assistentes sociais da AFESIP em Phnom Penh trabalham em sete distritos, visitando bordéis, parques e outros lugares onde meninas obrigadas a se prostituir precisam de ajuda. – Só no meu distrito, há 65 bordéis. Eu visito cada bordel uma vez por mês, conta Syna. Os donos de bordéis permitem que Syna e outras assistentes sociais entrem, porque a AFESIP ajuda ”suas” garotas a se manterem saudáveis. Sobretudo ajudam essas meninas a se protegerem contra o HIV com a distribuição gratuita de preservativos.
100 das meninas de Somaly morreram de AIDS A credita-se que quatro, de cada dez garotas obrigadas a se venderem no Camboja, estão contaminadas com o HIV. – Quando as meninas vêm até nós, elas podem visitar nossa clínica. Lá nós explicamos sobre o HIV e a AIDS e informamos que elas podem fazer o teste, se desejarem. Porém, nunca obrigamos ninguém. Se uma garota decide fazer o teste e o mesmo revela que ela está contaminada, fazemos de tudo para que ela possa receber os remédios e o tratamento adequados. Antes de tudo, lhe oferecemos apoio, porque é um sofrimento muito grande descobrir que se tem uma doença letal. A pessoa precisa de muito carinho e amor nessa situação. Alguém da AFESIP sempre acompanha as meninas ao hospital, para que elas não se sintam solitárias. Se as meninas forem sozinhas até lá, elas podem ser muito maltratadas. Os médicos e enfermeiros geralmente dizem que as meninas são ”ruins” e ”sujas”. – Nós cuidamos das meninas até o final. Um de nossos lares para meninas resgatadas foi batizado em homenagem à primeira de nossas meninas que morreu de AIDS. Ela se chamava Tomdy, e eu nunca vou esquecê-la. Desde então, mais de cem de nossas meninas morreram de AIDS, conta Somaly.
TEXTO : ANDRE AS LÖNN FOTO : PAUL BLOMGREN
Meninas têm tratamento pior no mundo todo
Ama a liberdade! – Eu amo a liberdade! Não existe nada pior do que ser presa e explorada. É por isso que sempre costumo dizer às crianças para não confiarem em ninguém que não conheçam. Que não se sintam tentados a seguir alguém que diz que eles podem ter uma vida melhor em outro lugar. Isso pode terminar muito mal. Eu sei, pois aconteceu comigo, diz Syna.
Syna com a filha de uma das meninas de um bordel.
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