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A Raposa

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R A P O S A

V U L P E

L I S B Ô A


o nome dela será gabriela todos irão olhar e dizer que nome lindo que nome lindo tão doce e bonito e sereno como ela mas se alguém resolver parar um segundo e olhar bem bem bem de perto


NOVAS VÍTIMAS Polícia alerta famílias para redobrarem o cuidado com suas jovens e mulheres solteiras. Foi registrado mais dois casos de mulheres seduzidas pela Raposa. Ela foi vista, no intervalo de uma semana, com uma jovem, 25, estudante, e uma mulher, 37, divorciada. Conhecidos contam que elas nunca haviam demonstrado conduta inapropriada antes. Autoridades locais acreditam que a Raposa se aproveita de mulheres solitárias com julgamento prejudicado.


escolho outro nome esse que me chamam não parece abraçar tudo que escrevo esse que me chamam conversa com outra que tem muito do que esperaram de mim sonharam de mim eu não sei sobre o que escrevo conheço criando outro tanto deixo num canto acumulando frases que até hoje não compreendo escolho outro nome não consigo caber no que sonham de mim não conheço a extensão do meu corpo dos meus sonhos me faço bicho selvagem esperto caçador bicho incompreendido pelo outro bicho-homem se desconheço as fronteiras do que escrevo do que sou como posso caber em um nome? resgato o título de minhas mães terra distante que nossos pés nunca pisaram chapéu colocado


cabeça protegida não há chuva vento ou fragilidade masculina que destrua uma cidade de lucianes lourdes marias e alziras com minhas presas garras pelos e raízes empunho a caneta crio caminhos rasgo etiquetas reescrevo nomes desenterro as histórias de todas as putas e bruxas que me pariram.

nunca soube como usar minhas mãos. não sabia o que fazer com meus dedos, com minhas pernas. sobravam membros. não sabia da possibilidade de existir mulheres entre eles.


NinguĂŠm nunca falou de mim NinguĂŠm nunca me deu nome Havia um caminho pronto e limpo pronto e claro pronto e certo eu desviei desviei desviei desviei


MOVIMENTAÇÃO SUSPEITA Raposa é vista andando na avenida Borges de Medeiros, na tarde de sábado, 21. Estava sozinha e carregava uma sacola. Não foi possível visualizar o seu conteúdo, mas devido o seu histórico, há suspeita que se trata de materiais de alta periculosidade.


ainda ao ler poema das coisas pequenas e doces espontânea é a imagem de uma mulher que nada se parece comigo e um homem que caso se aproxime eu recolhendo pernas quadris braços com cuidado (evitar o grito a quebra a vergonha sempre que possível) observaria o toque por assim ser o desejado esperado programado. certo?


Tem algo que pulsa. Não sei se desconfiam quando ando. Há algo dentro das roupas próximo da bolsa que pulsa pulsa pulsa. Eles olham. Será que percebem? Parada na sinaleira se prestarem atenção podem ouvir vindo de dentro atrás dos tecidos. Há por baixo das minhas unhas os vestígios. Se as cravar em seus rostos vão reconhecer o cheiro?


O SADISMO Homem relata ter sido vítima da Raposa. L, 31 anos, jovem ingênuo, desconhecendo as histórias que circulam pela cidade, envolveu-se com ela há cerca de dois meses atrás. Ele conta que percebeu o risco apenas quando, seduzido, encontrou-se sozinho com a predadora. “Ela não demonstrava nenhum constrangimento. Inclusive foi ela quem tomou a iniciativa durante todo o tempo. Quando decidiu que era hora, foi embora. Não fez nenhum comentário, nunca entrou em contato. Eu me senti totalmente desprezado”, conta L, ainda abalado. Ao contrário do que se acreditava, a Raposa não possui limites na escolha de suas vítimas. L comenta que também percebeu certo desinteresse por suas histórias. “Eu tentei compartilhar minha dificuldade em encontrar parceiras com a mesma intensidade e profundidade que eu me entrego nas relações. Ela parecia não dar a menor importância. Acredito que vi ela sorrir, zombando de mim”. Fica clara a frieza da Raposa ao se aproximar de jovens como L.


eu sem saber nada ela tanto me ensina truques lembrar de canções e piadas guardar a textura da palma de sua mão no meu braço direito fingir que não há dor até acreditar que ela me conta histórias em que tudo acaba bem é onde me escondo repito para não se preocupar vai ser tudo diferente afinal comigo é sempre tudo diferente mas não recordarei das pausas e signos no susto irei abandonar as histórias não saberei como se dança as canções ou como se ri das piadas me faltará a coragem para reconhecer


até aprender a fingir o caminho ser retomado a surdez inventada a miopia forjada o bolso costurado no braço direito para guardar o desenho de sua mão esquerda e um pedaço do momento antes em que só ela sabia


o melhor lugar para se guardar a língua é no ouvido no pescoço nos lábios abertos de outra mulher


ninguém se importa com as mulheres ninguém dirá isso em voz alta mulheres são muito sensíveis aliás ninguém se importa em conversar com as mulheres elas não têm muito a dizer ninguém se importa em fingir o desgosto quando mais uma mulher cai morta sempre tão exageradas as mulheres


AUTORIDADES DIVULGAM NOVO ALERTA O recente desaparecimento da Raposa preocupa autoridades locais sobre futuros casos. Acreditam que após o período de reclusão, ela pode fazer como vítimas novas moradoras da cidade ou outras mulheres solitárias. Equipe de policiais e comunidade civil preocupados com o comportamento lascivo e impróprio aos bons costumes, se organizam para manter famílias em alerta. Descrevem a aparência da Raposa para facilitar reconhecimento. Pode ser confundida com homem ou mulher, devido sua aparência dúbia. Acredita-se que ela utiliza a característica a seu favor. Tem comportamento dócil, mas se altera de maneira abrupta ao ser confrontada, demonstrando instabilidade e propensão a ataques histéricos. É vista circulando pelas ruas do Centro Histórico e Cidade Baixa. Pelo histórico de vítimas, tem preferência por mulheres, entre 24 e 50 anos. Costuma conversar com cães que encontra na rua, ignorando seus donos.


do que as mulheres são feitas? mulheres são feitas de carne ossos sangue metade saliva metade veias mulheres são feitas de terra fogo fome e sede mulheres carregam no peito a marca de um cigarro no peito a marca de um soco no peito a marca de uma culpa no peito


coberto no peito desnudo o sonho pisado pela bota do pai pelos joelhos do avô pelo pé do homem desconhecido que você gritou não e ainda assim não escutou mantêm nos ouvidos as mulheres um pedaço de algodão uma faca um buraco no lóbulo uma privada de tampa escancarada


houve um tempo meu maior desejo era a coragem de ser raposa há agora o cansaço queria a ousadia de abrir mão de toda tentativa quantas fantasias cairiam no chão?


ACABOU O PERIGO? A Raposa foi vista, quarta-feira (08), na Praça da Alfândega, às 16h. Carregava um livro e permaneceu no local até o anoitecer, quando se dirigiu para a Cidade Baixa. Por volta das 17h, uma criança se aproximou e demonstrou naturalidade ao conversar com ela. Desde o último mês não houve registro de novos casos. Apesar de sua clara aversão às normas e padrões, o recomendado é ignorar a presença da Raposa enquanto ela apresentar comportamento dócil. Qualquer alteração de conduta, é obrigação de cada cidadão avisar pessoas próximas, a fim de preservarem suas famílias. Autoridades locais reforçam a importância de se manter vigilante com espécies como a Raposa por perto.


o desejo era assim: três passos para trás a cada um dele foi então o susto tenho o passo firme ao caminhar até ela


foi necessรกrio milhares de mortes uma quarentena trancada em casa nenhum futuro num passe de mรกgica parei de fugir de mim


- Eu não costumo sonhar. - Você o quê? - Sonhar. Não costumo sonhar. - Eu sonho, e muito. Como é não sonhar? - Eterno. - Como? - Nada parece começar ou ter fim. É sempre o mesmo. Como um lago em dia sem vento. - E dói? - Às vezes. Em outras, você só vai adormecendo. - Igual gás. - Igual gás. - Eu sonho tanto que canso. - E sonha o quê? - Tudo. Tudinho. Ontem mesmo, sonhei que amava. - E isso é novo? - Aquela pessoa, sim. Nunca havia amado antes. - E depois? - Hein? - E depois que você acorda, como é? - Tem vezes que acordo e não recordo nada. Em outras, tudo é muito claro.


- E dói? - Sempre - E nunca descansa? - Nunquinha. Mas tem dias que consigo amar e sorrir, chega ser ruim acordar. - Você não ama e sorri aqui? - Faz tempo que não. - Eu também. - Queria que você me visitasse. - Eu iria, se pudesse. Mas não tem jeito. - Como você aguenta? - Eu penso que deve ter algo além. - Além do quê? - Desse ponto. - O quê? - Qualquer coisa. - Posso esperar com você? - Pode. - E se eu dormir? - Eu durmo também. - E se eu sonhar e você não? - Você me conta. - Espero sonhar de novo que amo alguém. - Eu também.


vulpe lisbĂ´a @cafecomaraposa


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A Raposa by Alec Lisboa - Issuu