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TARTARUGAS NASCIDAS EM VILAS JÁ SÃO 1,5 MIL ESTE ANO R

A Revista de Lauro de Freitas e Região

Ano 20 | Edição 230 Março de 2018 32.000 exemplares


CENAS DA CIDADE

Blocos fizeram a festa também pelas ruas do Centro de Lauro de Freitas

Recado bem-humorado na “folia de respeito”: contra o assédio sexual

Blocos mantêm tradição e fazem Carnaval família A “Folia de Respeito” em Lauro de Freitas, numa alusão à campanha do “não é não” contra o assédio sexual no Carnaval, colocou nas ruas os tradicionais blocos da cidade. E em Vilas do Atlântico o Carnavilas voltou a acontecer, reunindo aproximadamente cinco mil pessoas pelas ruas do bairro, embaladas por uma bandinha de sopro e a participação do bloco O Povo Pediu. De acordo com Almir Neto, um dos organizadores do bloco, cerca de 600 Kg de alimentos não perecíveis foram recolhidos para doação a uma entidade beneficente do município. O Carnavilas e seu tradicional trenzinho desfilam pelas ruas do bairro, reunindo aproximadamente cinco mil foliões, animados grupos de amigos e famílias, brincando com harmonia e em segurança


EDITORIAL

Ainda a barulheira

A grande repercussão da reportagem sobre poluição sonora publicada pela Vilas Magazine na edição de fevereiro motivou uma enxurrada de novas denúncias e uma nova abordagem do assunto este mês. O calvário por que passam os moradores do Ecovillas, loteamento com acesso pela rua Praia de Tubarão, em Vilas do Atlântico, é representativo do tormento que atinge o bairro todo, toda a orla e a cidade inteira. Há quem tenha que aturar “bate-estacas” todos os fins de semana, quando não todos os dias. Em todo canto se encontra alguém ou algum estabelecimento pronto a ligar os alto-falantes, como se não houvesse vizinhança, a qualquer hora. Em área residencial, pelo menos nos bairros da orla, o desrespeito aos outros ocorre quase exclusivamente nas casas que são alugadas para festas e estadias de fim-de-semana ou curtas temporadas – além das festas comerciais para pequenas multidões. O morador respeita os vizinhos. Em área comercial o abuso é ainda mais frequente, havendo a ilusão de que o zoneamento tudo permite. Não é verdade, nem durante o dia, quanto mais depois das 19h. O limite das 22h para fazer silêncio, parâmetro corrente quando uma briga entre vizinhos é levada à barra da Justiça, na verdade vale o dia inteiro. A lei municipal dos sons urbanos é rigorosa, mas também pouco conhecida e menos ainda aplicada. Os apelos às autoridades não se restringem às tentativas de obter resposta efetiva pelo número 153. Por alguma razão, nem os muito bem relacionados às esferas políticas da cidade conseguem ser atendidos – o que poderia ser sinal de que o compadrio enfim foi extirpado das relações com o poder público, mas revela apenas incapacidade operacional. Admite-se que a prefeitura seja incapaz de manter frota suficiente para atender as certamente numerosas reclamações de poluição sonora. Compreende-se também que a Polícia Militar tenha mais o que fazer, especialmente numa cidade como Lauro de Freitas. Nem tudo, porém, precisa ser tratado à base de denúncia e intervenção da segurança pública. Há medidas que podem prevenir emergências no meio da madrugada. A própria lei 1.536/2014 oferece instrumentos para o controle administrativo da questão: a exigência de Alvará de Autorização para Utilização Sonora, que requer tratamento acústico dos recintos, por exemplo.

Parabéns

O sucesso da temporada de desova de tartarugas com os ninhos nas praias de Lauro de Freitas revela que não somos todos selvagens. Muitos ficaram orgulhosos de ver os ninhos na praia e cuidaram deles. Nem tudo está perdido.

Propaganda

A baixa adesão à campanha de vacinação contra a febre amarela nos oito municípios baianos incluídos pede uma outra campanha, destinada a incentivar o comparecimento aos postos de saúde. Alguma esfera de governo precisa fazer mais do que mandar secretários para dar entrevistas na televisão.

Ausência

Enquanto crescem a olhos vistos os problemas de mobilidade na cidade, provocando transtornos estressantes em motoristas e usuários do transporte público, não se encontra, na mesma medida, agentes da Secretaria de Trânsito, Transporte e Ordem Pública de Lauro de Freitas que orientem o fluxo da quantidade excessiva de veículos. Nas raras ocasiões em que podem ser vistos, estão nas calçadas, simplesmente “apreciando o caos”, como se nada lhes diga respeito. Qualquer motorista que circule pela cidade, conhece os cruzamentos que travam em horário de pico, exceto quem deve ter a obrigação, por dever de ofício, de os conhecer. A bagunça se generaliza com a falta de educação de motoristas que se julgam acima das normas de conduta civilizada. “Primeiro eu, o resto que se dane”, é a norma que prevalece.

Carlos Accioli Ramos Diretor-editor

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NESTA EDIÇÃO A revista de Lauro de Freitas & Região

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REGISTROS & NOTAS...Págs.: 5 a 7 CIDADE...Págs.: 8 a 15 l Salvador libera obra e viabiliza conclusão da estação Aeroporto do Metrô l Moradores prometem recorrer ao Ministério Público contra poluição sonora na cidade l Salva viabiliza participação pública privada em apoio à Polícia Militar EDUCAÇÃO PROFISSIONAL...Págs.: 16 e 17 l Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai: “Fazer curso técnico aumenta renda em 22%” SAÚDE...Págs.: 18 a 21 l Febre Amarela - Boatos preocupam campanha de vacinação que atinge apenas 19% do público-alvo. Ministério da Saúde estuda ampliar vacinação para todo o país MEIO AMBIENTE...Págs.: 22 a 26 l 1,5 mil tartarugas marinhas já nasceram em Vilas do Atlântico nesta temporada e liberadas pelo Tamar para iniciarem seu ciclo de vida. Apenas 1% delas sobreviverá. Um dia, as fêmeas retornarão à mesma praia, para desovar. Educação ambiental promove o conservacionismo da espécie. Comunidade provou que preserva os ninhos nas praias TURISMO...Págs.: 27 a 31 l Turismo classifica estrutura para atribuição de verba l Vila de Santo Antonio, na Linha Verde, a 60 km de Lauro de Freitas, oferece sossego com vista para um mar aberto e piscinas naturais, em um cenário deslumbrante ESPECIAIS EDITORIAIS l Páscoa - págs.: 32 a 37 l 8 de março, Dia Internacional da Mulher - págs.: 40 a 45 NOSSA OPINIÃO...Págs.: 38 e 39 l A batalha pela ‘manada’ nas redes sociais. A boataria nas redes sociais EMPRESAS & NEGÓCIOS...Págs.: 46 e 47 l Profissional esclarece que gorjeta não é receita da empresa l Qual a diferença entre preço e valor? l “Os 5 sentidos da venda”, artigo de Raymundo Dantas, especialista em Marketing no Varejo ESPAÇO ABERTO...Págs.: 48 e 49 l “O Povo Pediu no Carnaval de 2018”. Artigo de Nelson Preto, um dos fundadores do bloco, que este ano participou do Carnavillas. l “Professores velhos ou idosos, tolos ou sábios”, artigo de Jacira Souza, diretora pedagógica do Colégio Pirâmide, de Lauro de Freitas VIVER BEM...Págs.: 50 e 51 l Tratamento de fungo nas unhas pode demorar mais de um ano CLASSIFICADOS BOA DICA...Págs.: 54 a 107 l Seção de facilidades e serviços disponibilizando profissionais nos segmentos Saúde & Bem-Estar, Gastronomia, Festas, Educação, Casa & Decoração, Serviços Gerais, e Auto & Cia. Consulte na página 53, o índice geral por segmento. TRIBUNA DO LEITOR....Págs. 108 a 110 TÁBUA DAS MARÉS / TELEFONES ÚTEIS....Pág. 111


REGISTROS & NOTAS Bom lugar Boa música

Amigos na folia

Grupo de amigos, formado por rotarianos e simpatizantes, “fez a festa” no Carnavilas, tradicional manifestação carnavalesca que embala e agrada a comunidade de moradores de Vilas do Atlântico. Almir e Maria das Graças Rodrigues, Roberto e Magda Mascarenhas, Valdemar e Nazaré Leal, Jorge e Yolanda Couto, Carlos e Tania Accioli Ramos, Alberto d´Almeida e Maria de Lourdes recordaram velhos carnavais, embalados pelo bloco O Povo Pediu.

Mesmo trazendo no cardápio pratos variados de massas, carnes e peixes, o que faz a festa dos clientes do Manga Banana, no coração de Vilas do Atlântico, é a generosa oferta de petiscos e pizzas, que abastecem mesas ao ar livre, espelhadas numa agradável pracinha, ao lado do parque ecológico, onde se alternam famílias e animados grupos de amigos. Plenamente integrado ao ambiente, o grupo Baratino se apresenta em sábados alternados, brindando os clientes com um repertório qualificado da boa MPB, inserindo um molho baiano nas interpretações. Formado pelos músicos João Marcos (voz e violão), Wadoca Lins (bandolim), Anísio Pereira (contrabaixo), Carlos Lago (percuteria e voz) e Ricardo Hardman (percussão), o grupo agrada os clientes da casa, com música refinada e som num nível confortável, permitindo se exercitar uma das saudáveis alternativas que o lugar oferece: o bate-papo entre as pessoas.

20 anos

O empresário Ézio Vannini está temperando carinhosamente, com seu reconhecido talento, os preparativos para a celebração dos 20 anos da sua Trattoria Il Maneggio, este ano. Nesse período, o endereço tem se mantido como um qualificado e prestigiado espaço especializado em gastronomia italiana. Natural de Marsciano, na Úmbria, e torcedor fanático da Juventus, Ézio prioriza a qualidade em vez da quantidade, razão pela qual comanda com apurado cuidado tudas as iguarias preparadas na sua cozinha.

Lançamento

O escritor, pesquisador, e Doutor em Comunicação pela ECO/UFRJ, Marcio Salgado, lançou em janeiro, na Livraria LDM do Shopping Paseo, Itaigara, seu mais recente trabalho, o livro O Filósofo do Deserto. Baiano de Monte Santo, residente no Rio de Janeiro, Márcio passa todos os anos as férias com a família em Vilas do Atlântico. O romance conta a história do filósofo Antônio Brás, refugiado e vivendo uma situação limite. Romance da filosofia, não descreve doutrinas, mas vivências, narradas sob pontos de vista filosófico. O deserto é uma metáfora da existência. A obra está disponível nas livrarias da cidade, mas pode também ser adquirida fazendo pedido pelo e-mail: ofilosofododeserto@gmail.com Março de 2018 | Vilas Magazine | 5


REGISTROS & NOTAS Tito Coelho toma posse como vereador de Lauro de Freitas Tito Coelho (PPS), eleito suplente de vereador por uma coligação de oposição à prefeita Moema Gramacho (PT), tomou posse na Câmara Municipal de Lauro de Freitas em fevereiro. Coelho substituiu a vereadora Maria Augusta (PR), recentemente falecida. Com 33 anos, é natural de Lauro de Freitas, o que para ele “aumenta a responsabilidade do mandato: meu bisavô e minha bisavó estão entre os fundadores da cidade”, disse. Segundo fontes da Câmara Municipal, Tito “deixou no ar uma promessa de ‘casamento’ com a prefeita”, aderindo à base governista. Fisioterapeuta e terapeuta ocupacional formado na Unime, Tito Coelho é especialista em Saúde Coletiva pela UFBA, mestre em Bioenergia pela FTC, doutorando em Saúde Pública pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES) de Buenos Aires e professor de Saúde Pública e Saúde Coletiva na Unime e na FTC. Na foto, Tito Coelho posa com a família, a presidente da Câmara Naide Brito (PT) e a prefeita Moema Gramacho (PT).

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Nova abordagem pedagoga A pedagoga Isabela Reis Fadul, com especialização em psicomotricidade, psicopedagogia, neuropsicologia, terapia cognitivo comportamental e transtornos do desenvolvimento, fundadora da Ludens – Clínicas de Desenvolvimento, Cognição e Comportamento, em funcionamento desde 1997, inaugurou em Lauro de Freitas a Ludens – Instituto de Educação, que tem como proposta oferecer classes de ensino Fundamental e Médio a partir do 6º ano, de acordo com as diretrizes e bases da educação nacional, com novas abordagens de ensino, cujo foco está na aprendizagem, onde o estudante assume a posição de protagonista.

“Nossas turmas são pequenas, mas temos resgatado muitos jovens, recolocando-os, de volta à vida acadêmica. Durante esses anos, em turmas de seis a oito alunos, conseguimos colocar na universidade uma média de dois alunos por ano, outros para ensino técnico e ainda outros de volta à escola regular”, declara a profissional (acima, de blusa amarela, com sua equipe de professores. A partir da esq.: Alisson Lima, Aline Costa, Bibiane Sores, Nathália Ramos e Antonio Jorge Santos).

Emoção marca Arrastão do Bankoma na quartafeira de Cinzas em Portão O Bankoma promoveu um verdadeiro arrastão em Portão, seu território, na quartafeira de Cinzas, reeditando o tradicional ritual que fecha todos os anos a folia momesca na cidade. “É uma forma de agradecer o apoio e carinho de nossa comunidade. A missão foi cumprida, levamos o nome de nossa terra para o mundo”, afirmou o vocalista Jander Neves, de cima do trio. A chuva que caia fininha não esfriou o ânimo do público com a passagem do Furacão da Alegria, que este ano trouxe o tema Ixi Ja Xiri que, segundo a mameto Mãe Lúcia, significa Terra da Esperança. “Celebramos a Kavungo, em bantu, ou Obaluaê em Nagô. Pedimos ao senhor das folhas paz, saúde e que a força que vem da terra continue nos sustentando”, explicou ela ao lado de matriarcas do candomblé, entre elas dona Ebominice, da Casa Branca, Imperatriz da religião na Bahia. Caia a tarde quando o arrastão com milhares de pessoas chegou na porta de entrada do Terreiro São Jorge Filhos da Goméia. A casa, uma das mais antigas e tradicionais da cidade, foi fundada por Mãe Mirinha de Portão e este ano completa 70 anos de existência. “Este também é o momento em que reverenciamos nossos ancestrais e lembramos os seus nomes, sua história e contribuição”, completou a mameto.

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Salvador libera obra e viabiliza conclusão da estação Aeroporto

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secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo de Salvador (Sedur) desembargou no dia 21 de fevereiro a obra da CCR Metrô na estação Aeroporto que havia sido paralisada em 20 de janeiro. A Vilas Magazine noticiou o embargo no contexto da reivindicação territorial de Lauro de Freitas, que envolve aquele mesmo trecho. A CCR Metrô garantiu, em janeiro, que trabalhava com licença ambiental emitida pelo Inema, órgão de meio ambiente ligado ao governo do estado. O embargo deu-se porque a obra não tinha licenciamento ambiental da prefeitura de Salvador “e pela poda irregular do bambuzal”, que teria dado origem a uma autuação e aplicação de multa à concessionária. Agora, de acordo com a prefeitura da capital, a empresa apresentou um novo projeto que “atende aos critérios de licenciamento de obras da prefeitura e à

exigência da Sedur de não interferir mais na área do bambuzal, o que ensejou o embargo feito pelo município, em função da retirada da vegetação”. A liberação da obra está condicionada à recuperação da área que Salvador afirma ter sido degradada. “A CCR nos apresentou uma nova solução, preservando o bambuzal”, disse o secretário da pasta Sérgio Guanabara, acrescentando que “esse fato em si revela que se pode promover um desenvolvimento econômico sustentável, preservando o meio ambiente”. A liberação da obra deu-se cerca de duas semanas depois de ter sido aberto ao tráfego o terceiro e último viaduto do entorno da estação Aeroporto do metrô. O viaduto passa sobre a via férrea, que agora atravessa a avenida 2 de Julho em direção ao pátio de estacionamento das composições. A estrutura tem 400 metros de extensão e 13,16 m de largura, com MANU DIAS

duas faixas de rolamento e um trecho de ciclovia com 2,70 m de largura. A 2 de Julho liga a avenida Santos Dumont (Estrada do Coco) ao Centro. O primeiro viaduto faz a conexão entre o complexo do aeroporto e a avenida Santos Dumont. Falta liberar o segundo, na chamada rua das locadoras. De acordo com o governador Rui Costa (PT), que esteve presente na entrega da obra, a estação Aeroporto deve mesmo entrar em operação este mês. Com a entrega do viaduto, “viabilizamos mais celeridade às obras”, disse. Também em fevereiro foi entregue a nova passarela de pedestres que liga a estação Pernambués, em Salvador, ao 8 | Vilas Magazine | Março de 2018


Passarela da estação Aeroporto: em construção Abaixo: Novo viaduto da av. 2 de Julho: trecho de ciclovia com 2,70m de largura. Esq.: O governador Rui Costa percorre a passarela de Pernambués: possível interligação ao Salvador Shopping bairro de mesmo nome. Ao custo de R$ 9,7 milhões, a passarela é tão extensa quanto o novo viaduto – 400 m – e tem capacidade para 15 mil usuários por hora. Segundo o governador, a ideia é interligar essa passarela à do Salvador Shopping. O equipamento dá uma ideia do que será a passarela da estação Aeroporto quando estiver pronta, ligando o limite de Itinga ao metrô. Em Pernambués há duas rampas, piso tátil, sinalização em braile nos corrimãos e duas escadas rolantes, instaladas nas duas entradas. A passarela é monitorada por 16 câmeras conectadas ao Centro de Controle Operacional, bem como por vigilantes que se alternam em rondas. Março de 2018 | Vilas Magazine | 9


q CIDADE

Moradores do condomínio EcoVillas mostram faixa com apelo à prefeita Moema Gramacho: recursos esgotados

Moradores prometem recorrer ao Ministério Público contra poluição sonora na cidade Lei municipal é severa, mas os abusos são permanentes

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anos morais e à saúde causados pelo descumprimento da lei do silêncio em Lauro de Freitas podem dar origem a uma denúncia de moradores de Vilas do Atlântico junto ao Ministério Público e até, se for necessário, uma ação judicial. É o que prometem famílias residentes no condomínio EcoVillas, prejudicadas pelas emissões sonoras dos estabelecimentos comerciais do entorno – e que estarão no alvo da ação, em companhia da prefeitura municipal, caso a situação não seja resolvida. A Sociedade de Amigos do Loteamento de Vilas do Atlântico (Salva) está apoiando a iniciativa. Qualquer pessoa pode aderir,

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participando de um abaixo-assinado, entrando em contato pelos números (71) 99332-1083, 3379-1343 ou 3379-2434. Os moradores pretendem sensibilizar a administração pública, antes de denunciar os abusos ao Ministério Público, por meio de faixas apelando à fiscalização da poluição sonora. O recurso à secretaria de Trânsito, Transporte e Ordem Pública tem se mostrado inócuo, de acordo com os moradores, já que a fiscalização nunca está disponível. Em outubro passado a prefeitura de Lauro de Freitas anunciou a criação de uma “patrulha sonora”, supostamente destinada a coibir os abusos, atendendo reclamações dos moradores. Em comunicado, a própria prefeitura lembrou que a lei municipal estabelece que “é proibido perturbar o sossego e o bem-estar público

com ruídos, vibrações, sons excessivos ou incômodos de qualquer natureza, produzidos por qualquer forma ou que contrariem os níveis máximos de intensidade”. Os aparelhos de som, inclusive em carros, não podem ultrapassar 70 decibéis (dB A) de pressão sonora – e mesmo assim são liberados apenas no período diurno. O próprio secretário de Ordem Pública Olinto Borri alertou ainda, na época, também para as vibrações sonoras, que seriam “consideradas prejudiciais quando ocasionarem ou puderem ocasionar danos materiais, à saúde e ao bem-estar público”. A “patrulha” seria composta por servidores da secretaria de Trânsito, Transporte e Ordem Pública, da Superintendência de Segurança Pública e da secretaria de Meio Ambiente, podendo ser acionada por meio


do número 153 – mas qualquer contato resulta apenas na recomendação de se chamar a polícia, conta Lourival Batista Neto, morador do EcoVillas – “e a polícia diz que o estabelecimento está regularmente licenciado, ficando por isso mesmo”. Na verdade, com licença de funcionamento ou não, segundo o que dispõe a lei, ninguém está autorizado a emitir sons acima do limite legal, mesmo em área comercial. Nem mesmo os bares que têm alvará municipal podem exceder os limites da lei, estando obrigados a instalar isolamento acústico. De acordo com o artigo 11º da lei municipal 1.536, de 2014, “a emissão sonora gerada em atividades não residenciais somente poderá ser efetuada

após expedição, pelo órgão municipal competente, do Alvará de Autorização para Utilização Sonora”. Nem mesmo festas públicas tradicionais como o carnaval, São João ou eventos religiosos podem ignorar a lei. Esses estão obrigados a “efetivar acordo com o órgão competente quanto aos níveis máximos de emissão sonora em valores diferentes” dos normais. ISOLAMENTO ACÚSTICO Para emitir um Alvará de Autorização para Utilização Sonora, a lei exige que o estabelecimento apresente “laudo técnico comprobatório de tratamento acústico”, assinado por técnico especializado ou empresa idônea. O alvará para

utilização sonora deve estar afixado “na entrada principal do estabelecimento, em local visível ao público” e a multa prevista para a inexistência dele é de R$ 2.000 por dia até cessar a infração. É com base nos pressupostos dessa lei e em outras irregularidades que os moradores pretendem pedir providências ao Ministério Público ou diretamente ao Judiciário, caso não vejam outra solução. Sérgio Sampaio, ex-servidor público e morador de Vilas do Atlântico há mais de 20 anos, aponta irregularidade, por exemplo, na negativa de identificação dos atendentes do 153, serviço público municipal destinado a receber as denúncias. “Eles dizem que não podem fornecer o u

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nome”, conta. Nem o nome, nem um número de protocolo que permita cobrar responsabilidades. “O cidadão tem o direito de saber quem o atendeu e o servidor tem a obrigação de informar o seu nome”, defende Sampaio. As reclamações de abusos por poluição sonora, longe de se restringir a Vilas do Atlântico ou aos bares, estão por toda a cidade. Moradores de Ipitanga, Buraquinho e Itinga reclamam com frequência de barulho provocado por quem ignora a lei e a vizinhança. O desrespeito à norma em vigor é disseminado em Lauro de Freitas. Além de bares, há residências que são alugadas como recinto de festas de fim de semana, barracas de praia, academias de ginástica e casas de eventos que impõem seus ritmos aos vizinhos até altas horas, além dos famigerados carros equipados com potente sonorização externa. No último réveillon e no mês de janeiro, até mesmo festas comerciais para milhares de pessoas foram realizadas em Vilas do Atlântico. Na orla de toda a cidade, boa parte de Buraquinho e de Ipitanga – classificadas como Zona Predominantemente Turística (ZPT) – o limite legal de emissão sonora é de 60(A) dB entre as 7h e as 19h e de 55 dB entre as 19h e as 7h. O Parque Ecológico – uma Zona Especial de Interesse Ambiental (ZEIA) – foi transformado em recinto para espetáculos, levan-

do ao desespero os moradores do entorno. O limite legal para emissão de sons numa ZEIA é de 55 dB(A) durante o dia, até 19h e 50 dB(A) à noite. A medição dos níveis de som, para efeitos da lei local, é feita em decibéis (dB), intensidade medida na curva de ponderação “A”, conforme definido na norma NBR 10.151 da Associação Brasileira de Normas Técnicas. O valor ponderado A de uma fonte de ruído é uma aproximação à forma como o ouvido humano percebe o som.

MULTA A multa prevista em lei para quem emite sons além do permitido vai de R$ 700 (0,1 a 5 dB acima do limite) a R$ 140 mil (acima de 45 dB). Numa área comercial (CAD) como a avenida Praia de Itapoan, por exemplo, basta u

O QUE DIZ A LEI EM LAURO DE FREITAS l A emissora de ruídos em decorrência de quaisquer atividades industriais, comerciais, prestação de serviços, inclusive de propagandas, sejam políticas, religiosas, sociais e recreativas, excetuando os procedimentos para o licenciamento de eventos no âmbito do município, obedecerá aos padrões e critérios estabelecidos nesta Lei. l Os proprietários de equipamentos de som que utilizem equipamentos sonoros em eventos tradicionais tais como carnaval, festas juninas, festas de largo eventos religiosos e similares, estão obrigados a efetivar acordo com o órgão competente quanto aos níveis máximos de emissão sonora em valores diferentes daqueles previstos no Anexo I desta Lei. l A emissão sonora gerada em atividades não residenciais somente poderá ser efetuada após expedição, pelo órgão municipal competente, do Alvará de Autorização para Utilização Sonora, observado o disposto na Lei e regulamento pertinente. l O Alvará de Autorização para Utilização Sonora será requerido com laudo técnico comprobatório de tratamento acústico e a descrição dos procedimentos recomendados pelo laudo técnico para o perfeito desempenho da proteção acústica do local.

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Instalação artística de João Onofre apresentava cubo hermético dentro do qual tocou uma banda de “death metal” em Londres, em 2014: isolamento acústico é exigido por lei

l A autorização deve ser afixada na entrada principal do estabelecimento, em local visível ao público. l O Alvará de Autorização Sonora será expedido pelo órgão municipal competente após vistoria ao local onde a atividade é exercida, caso seja constatado que o ambiente, onde haverá emissão de sons e ruídos, possui condicionamento acústico adequado no sentido de preservar os limites estabelecidos. l O prazo máximo de validade do Alvará de Autorização para Utilização Sonora é de um ano. l A pessoa física ou jurídica que infringir qualquer dispositivo da lei, seus regulamentos e demais normas dela decorrentes, fica sujeita, isolada ou cumulativamente, a multa simples ou diária, embargo da obra, interdição parcial ou total do estabelecimento ou atividades, cassação imediata do alvará de licenciamento do estabelecimento, perda ou restrição de incentivos e benefícios fiscais concedidos pelo município, paralisação da atividade poluidora e apreensão da fonte de som. l A multa prevista para a falta do Alvará de Autorização para Utilização Sonora é de R$ 2.000 por dia até cessar a infração. l A multa para quem emite sons além do permitido vai de R$ 700 (0,1 a 5 dB acima do limite) a R$ 140 mil (mais de 45 dB acima).


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emitir sons com intensidade de 105 dB depois das 19h para que o responsável seja candidato à multa máxima. Os 60 dB permitidos pela lei naquela região à noite são equivalentes a música ambiente no interior de um bar – e daí a exigência de isolamento acústico para estabelecimentos que oferecem aos clientes música com intensidade acima desse limite. Uma conversa normal entre duas pessoas já equivale a 70 dB de emissão sonora. As queixas de residentes muitas vezes refletem a chamada “batida do bass”, a faixa de baixa frequência, dos sons graves da música, que é percebida como ruído intenso e persistente dentro das casas vizinhas à fonte poluidora e que alcança uma distância maior, inclusive através de

vidros duplos, destinados a barrar o som. O isolamento acústico adequado também elimina esse efeito. De acordo com a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cervicofacial (Aborl-CCF), a poluição sonora pode afetar a audição. Ruídos a partir de 85 dB, intensidade registrada em uma avenida movimentada como a Santos Dumont (antiga Estrada do Coco), já são prejudiciais. A orientação dos especialistas é não permanecer por mais de oito horas em ambientes com sons em torno desse volume. A partir de 95 decibéis, a permanência recomendada cai para duas horas. Os ruídos do dia a dia também podem afetar a estabilidade emocional das pessoas, diminuindo o poder de concentração e

causando nervosismo, estresse, dificuldade para dormir. Os efeitos tendem a ser mais graves em crianças e pessoas de maior idade. Lourival Batista Neto conta que já se viu obrigado a levar a mãe, que tem 85 anos, para a casa de um filho seu no meio da madrugada porque o barulho produzido por um bar instalado em Zona Predominantemente Residencial não cessava. Há ainda moradores com bebês e pessoas enfermas em casa. Mas mesmo os adultos resistentes aos danos causados pela poluição sonora perdem noites aguardando que o estabelecimento vizinho feche as portas, “de quarta a domingo, às vezes pelas três, quatro da manhã, quando acaba a clientela”, conta Batista Neto.

ANÁLISE

Responsabilidade civil decorrente de poluição sonora Breno Novelli

C

omo se sabe, decorrência negativa do processo de urbanização da população é o aumento desenfreado da emissão sonora e dos ruídos excessivos. O tema se agrava, sobretudo, nos grandes centros urbanos, comprometendo, severamente, a qualidade de vida dos seus habitantes. De forma conceitual, poluição sonora é o ruído capaz de incomodar ou de gerar malefícios à saúde, configurando-se em um impacto ambiental. Pode produzir efeitos físicos (aumento de pressão sanguínea e ritmo cardíaco, etc) e psicológicos (ansiedade, insônia, etc). Neste sentido, o responsável pela poluição sonora poderá (deverá) ser responsabilizado nos âmbitos administrativo, cível, criminal e ambiental. Para tanto, a ABNT, através de sua norma NBR 10.151 fixou a avaliação de ruído em áreas habitadas, visando

o conforto da comunidades, como, por exemplo, áreas residenciais, hospitais, mistas (predominantemente residencial ou comercial), recreacional e etc. Disciplinando a matéria, há um emaranhado de normas jurídicas, tanto de cunho constitucional (art. 5º, caput e X; art. 23, VI e, fundamentalmente, art. 225), infraconstitucionais (Lei 10.257/01 – Estatuto das Cidades e Lei 9.605/98 – Lei de Crimes Ambientais), infralegais (Dec. Lei 3.688/41, Art. 42) e, ainda, regulamentações administrativas (Resoluções n. 01/90, 02/90 e 20/94 do CONAMA – Conselho Nacional do Meios Ambiente), dentre outros. Por fim, o Código Civil, que regula a matéria referente aos Direitos de Vizinhança, do qual o direito ao silêncio é uma das manifestações jurídicas mais atuais da hodierna vida em sociedade. A legitimidade para defesa dos interesses no judiciário poderá se dar individualmente ou, também, havendo

grupo, delimitado ou não, de atingidos, pelo Ministério Público. Tratando especificamente da proteção individual, é possível trazer, a título de exemplo, caso julgado em sede do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, no qual moradores se incomodaram com atividades noturnas de uma casa. Válida transcrição: Apelação Cível. Responsabilidade Civil. Direito de Vizinhança. Casa Noturna. Poluição Sonora. Perturbação do Sossego. Vizinhos idosos portadores de doenças. Prova dos fatos constitutivos do direito dos autores. Dano moral configurado. Dever de indenizar. (Apelação 0000020128190034). Em assim sendo, é digno de nota que há proteção jurídica para os casos de abuso na produção de ruídos, sendo possível a dedução da pretensão perante o poder judiciário, caso a via amigável não se afigure como exitosa.

BRENO NOVELLI é advogado, sócio e coordenador do Núcleo Trabalhista e Contencioso Cível do Santos & Novelli Advocacia e Consultoria. Graduado pela Universidade Federal da Bahia. Especialista em Direito e Processo do Trabalho pelo JusPodivm. Especialista em Direito Processual Civil pela Universidade Anhanguera – UNIDERP, Rede de Ensino LFG e Instituto Brasileiro de Direito Processual – IBDP. Cursando LLm (Legal Law Masters) pela Fundação Getúlio Vargas – FGV Rio.

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Salva viabiliza participação pública privada em apoio à Polícia Militar

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Sociedade de Amigos do Loteamento de Vilas do Atlântico (Salva) distribuiu informação dando conta de uma “participação pública privada” com a Polícia Militar no bairro. De acordo com o Major Fabrício, comandante da 52ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM), a equipe de policiamento “está sendo treinada para saber tratar cada morador, saber tratar as pessoas que frequentam a praia e isto é muito importante”. A ideia é “extinguir a sensação que nós estávamos tendo aqui,

muito grande, de assalto e perturbação da ordem pública”, diz. A presença de viaturas da Polícia Militar oferece sensação de segurança “para quem está caminhando, indo para o trabalho, nos pontos de ônibus”, explica o comandante. “Isto é muito importante e vem trazendo um efeito espetacular, fantástico – reduzimos realmente cerca de 98% de roubos na região”, afirma. O que a entidade chama de “participação pública privada”, de acordo com o coordenador-geral Márcio Costa (foto CARLA ORNELAS

Maior presença da PM aumenta a sensação de segurança

acima), é o pagamento de reparos mecânicos em motos da polícia. O comandante da 52ª CIPM confirma que “a Salva tem sido parceira, tem ajudado muito com algumas viaturas, alguns consertos e algumas coisas neste sentido”. “Eles estão nos ajudando muito com situações que ocorrem no dia a dia e, juntamente com nossos policiais, estamos implantando a Operação Verão, que foi iniciada em novembro e vem diminuindo muito os índices de furtos, roubos e de situações que envolvem pessoas que não vem para a região com o intuito de aproveitar este ambiente e sim perturbar a paz de alguns moradores”, acrescenta o Major Fabrício.

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q EDUCAÇÃO PROFISSIONAL

ma pesquisa encomendada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) revela que profissionais que fizeram cursos técnicos têm um acréscimo na renda de, em média, 18% quando comparados com pessoas de perfil socioeconômico semelhante que concluíram apenas o ensino médio regular. Na Região Nordeste, a diferença na renda é ainda maior, chegando a quase 22% para os trabalhadores com formação técnica. De acordo com a pesquisa, divulgada no ano passado pelo Senai, o acréscimo na renda dos profissionais com curso técnico chega, em média, a 21,4% nas regiões Norte e Centro-Oeste e a 15,1% no Sul e Sudeste. O estudo, elaborado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), comparou os rendimentos de trabalhadores que fizeram cursos de educação profissional com aqueles sem esse tipo de formação. Também foram abordados aspectos como gênero, idade, cor, escolaridade, região de moradia, setor de atividade e renda per capita familiar. Segundo a pesquisa, o universo dos trabalhadores que concluíram um curso técnico está dividido quase igualmente entre homens e mulheres, com os profissionais do sexo masculino representando 50,4%. A maioria declarou-se branca (55,9%) e vive em cidades (95,8%), principalmente em regiões metropolitanas (39,8%). A maioria tem entre 25 e 44 anos (50,3%) e a maior fatia (75%) se situa nas faixas médias de renda (de um a dois salários mínimos, chegando a ganhar R$ 1.874). Essa renda corresponde a 44,48% entre aqueles que nunca frequentaram cursos de educação profissional, segundo o Senai. Os cursos técnicos têm carga horária média de 1.200 horas (cerca de 1 ano e 6 meses) e são destinados a alunos matriculados ou que já concluíram o ensino médio. Têm a finalidade de ensinar uma profissão ao estudante que, ao término, recebe um diploma. “Um aumento de renda de quase 20% não é trivial”, avaliou o diretorgeral do Senai, Rafael Lucchesi, em nota divulgada pela instituição. “Trata-se de um diferencial relevante e uma prova de que vale a pena investir nessa modalidade de formação profissional”, concluiu. Ele ressalta que o curso técnico é “o caminho mais rápido” para a inserção qualificada do jovem no mundo do trabalho. Já entre as pessoas que fizeram cursos de graduação tecnológica, os homens representam 56,5% do total. A maioria, 64,9%, se autodeclara branca e 97,7% moradora de áreas urbanas, especialmente de regiões metropolitanas. A maior parte tem entre 25 e 34 anos (38,4%) e 50,6% está nas faixas de renda de um a três salários mínimos. Os cursos de graduação tecnológica são de nível superior (como o bacharelado e a licenciatura) e têm duração entre dois e três anos.

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JOSÉ CRUZ / ABR

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“Fazer curso técnico aumenta renda em 22%”

TECNOLOGIA PREMIADA Confirmando a qualidade do ensino e do trabalho desenvolvidos em diversos ramos, os brasileiros conquistaram no ano passado sete medalhas de ouro, cinco de prata e três de bronze, além de 26 certificados de excelência, na WorldSkills 2017, maior competição de modalidades que correspondem às profissões técnicas da indústria e do setor de serviço. As vitórias garantiram o segundo lugar no torneio realizado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. O catarinense Bruno Davila Gruner, 22 anos, aluno do Senai em Jaraguá do Sul, garantiu a medalha de ouro em Polimecânica e Automação, mas os brasileiros faturaram ouro também em Mecatrônica, Eletricidade Industrial, Manufatura Integrada, Tornearia CNC, Polimecânica e Automação, Escultura em Pedra e Tecnologia de Mídia Impressa. Competidores das modalidades Tecnologia da Moda, Joalheria, Construção de Estruturas Metálicas, Manutenção Industrial e Desenho Mecânico – CAD levaram a prata. Já as quatro medalhas de bronze foram obtidas nas seguintes modalidades: Marcenaria de Estruturas, Movelaria e Construção de Estruturas para Concreto. No quadro geral, o Brasil, que havia sido campeão na última edição, realizada em São Paulo, em 2015, perdeu apenas para a Rússia. O feito inédito dos russos também contou com uma mãozinha brasileira: profissionais que competiram em sete ocupações foram treinados pelo Senai. A contratação objetivou ampliar a preparação e também a divulgação de carreiras técnicas naquele país, que sediará a próxima edição da WorldSkills, em


O diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi: nível de excelência que o Brasil dificilmente consegue reproduzir em outros rankings Dir.: FlatFish em exposição na WorldSkills: tecnologia de curso técnico Abaixo: Bruno Gruner comemora a medalha de ouro na última WorldSkills

co, de competitividade, inovação ou de educação regular”, disse – “em educação profissional, o Brasil tem excelência, que é uma porta para a juventude brasileira”. Além da competição, houve espaço para exibição de cases de sucesso em tecnologia e inovação do Brasil, como o protótipo do FlatFish, robô subaquático autônomo desenvolvido pelo SenaiCimatec. O exemplar de demonstração do veículo autônomo submarino ficou em

exposição durante os quatros dias de competição e atraiu olhares de curiosos e pesquisadores do mundo inteiro. O primeiro protótipo do Veículo Autônomo Submerso (AUV, sigla para Autonomous Underwater Vehicle) já foi finalista do Prêmio ANP de Inovação Tecnológica. O FlatFish foi desenvolvido em parceria com a Shell, no intuito de realizar inspeções visuais em 3D de alta resolução para alcançar níveis avançados na exploração de petróleo e gás em águas profundas. JOSÉ PAULO LACERDA / CNI

2019, na cidade de Kazan. O empenho também levou a Rússia a apresentar a maior delegação na edição deste ano. Rafael Lucchesi comemorou o resultado, que demonstra o alto nível do Brasil no conjunto das profissões: “é o nível de excelência que o Brasil tem e que dificilmente nós conseguimos reproduzir em outros rankings, seja de desempenho econômiFOTO: WORLDSKILLS

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q SAÚDE

Campanha de vacinação contra a febre amarela atinge apenas a metade do público-alvo na Bahia

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m Lauro de Freitas e outros sete municípios baianos, a mobilização havia atingido pouco mais de 53% do público-alvo no final de fevereiro. Apenas 14.950 pessoas buscaram os postos de vacinação na primeira semana da campanha e no dia 26 de fevereiro ainda eram esperadas cerca de 1,5 milhão de pessoas, de acordo com as autoridades de saúde do estado. A mobilização com a dose fracionada encerra-se no dia 9 de março. Para a campanha atingir 95% do público-alvo, seria necessário vacinar mais de 125 mil pessoas por dia entre 27 de fevereiro e o dia 9. O fraco comparecimento da população, mesmo após o dia D, em 24 de fevereiro, levou Ramon Saavedra, coordenador estadual de Imunização da secretaria da Saúde da Bahia, a fazer um apelo à população: “Enquanto outros estados estão correndo para impedir o avanço da doença, a Bahia está na fase de prevenção”, explicou. “Então, é de fundamental importância que a população se dirija aos postos de saúde para se imunizar” – disse, enfatizando que “a vacina é a forma mais eficaz de se proteger contra a febre a amarela”. No Rio de Janeiro e em São Paulo a campanha resultou ainda mais decepcionante. Foram vacinados até meados de fevereiro cerca de 3,9 milhões de pessoas – pouco mais de 19% do público total esperado de 20 milhões. O Rio de Janeiro vacinou 1,2 milhão de pessoas, o que equivale a 12% do público-alvo. Em São Paulo, foram 2,7 milhões ou 26% da expectativa. Na Bahia, a meta é vacinar 3,3 milhões

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de pessoas com a dose fracionada até o final da campanha, em 9 de março. Participam Lauro de Freitas, Camaçari, Candeias, Itaparica, Mata de São João, São Francisco do Conde, Vera Cruz e Salvador. BOATOS A difusão de boatos nas redes sociais e por meio do Whatsapp pode ter sido um obstáculo à atual campanha de vacinação contra a febre amarela no país. Para Igor Sacramento, pesquisador do Laboratório de Comunicação e Saúde (Laces) em entrevista divulgada pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz, “o impacto das chamadas fake news na campanha de vacinação da febre amarela ainda não foi mensurado”.

Antes de compartilhar uma informação que possa causar pânico desnecessário e confundir, certifique-se que vem de uma fonte oficial Mas a reação popular é complexa: “ao mesmo tempo que vemos as filas aumentando, há uma crescente desconfiança em relação ao fracionamento (o termo leva as pessoas a crerem que se trata de algo menor, fragmentado, ineficiente, ruim) e à própria vacina”, que os boatos

RAQUEL PORTUGAL / MULTIMEIOS / ICICT / FIOCRUZ

Igor Sacramento, do Icict-Fiocruz: dizer que é boato, que é mentira, que é ignorância, não ajuda em nada e apenas incrementa a disputa pela verdade

sugerem que poderia fazer mal. “Essas notícias se espalham com muita força nas redes sociais online, mas também em aplicativos de troca de mensagens como o WhatsApp”, verifica. Um dos boatos mais persistentes é o de que macacos transmitem febre amarela. “O zelador do meu prédio me mostrou um vídeo que recebeu no WhatsApp fazendo um grande histórico das doenças que teriam origem em macacos: HIV, ebola e na sequência a febre amarela”, diz Sacramento. Outros vídeos também distribuídos por meio do Whatsapp e disponíveis em outras partes da rede fazem alertas desinformados que muitas vezes levam as pessoas a evitar a vacinação. “A Farsa das Vacinas - Febre Amarela” e “Febre Amarela, assista antes de tomar a vacina!” são os títulos de dois deles. O primeiro “numa linguagem mística e alarmista, faz associação entre a vacinação e o objetivo de diminuição da população mundial pelos ‘donos do mundo’”, conta Sacramento. “O outro é um áudio, com a imagem congelada, de alguém que parece ser um guru espiritual”. Entre as mentiras sobre a febre amarela que estão em circulação está a de


que a “febre amarela é uma farsa criada para vender vacinas”, que um “médico de Sorocaba diz que vacina paralisa o fígado” ou ainda que “própolis espanta o mosquito da febre amarela”. A Fiocruz recomenda que “antes de compartilhar uma informação que possa causar pânico desnecessário e confundir, certifique-se que vem de uma fonte oficial”. Para o pesquisador, “as fake news não têm como ser combatidas ou eliminadas” porque “elas fazem parte da dinâmica social contemporânea”. VERDADES Com 545 casos e 164 óbitos registrados no país entre julho de 2017 e 20 de fevereiro deste ano, a febre amarela continua no topo das preocupações do Ministério da Saúde. No mesmo período do ano passado, foram confirmados 557 casos e 178 óbitos. Até agora os casos estão concentrados em Minas Gerais (264 casos, com 77 mortes), São Paulo (208, com 57 mortos) e Rio de Janeiro (72 casos e 29 mortes). A vacinação com a dose fraciona é destinada a pessoas a partir dos dois anos de idade, desde que não apresentem condições clínicas especiais. Todos que

já tomaram a vacina em dose completa, ao longo da vida, não precisam receber nova dose. A intenção é proteger o maior número de pessoas, em localidades com grande contingente populacional e com evidência de circulação do vírus, além de risco elevado de transmissão da doença. Dados da secretaria de Saúde da Bahia indicam que, no ano 2000, foram confirmados dez casos de febre amarela silvestre no estado – todos em pessoas residentes nos municípios de Coribe e Jaborandi. Deste total, três morreram. No mundo, a febre amarela mata uma em cada duas pessoas que ela contamina. Os casos de 18 anos atrás foram os últimos autóctones – quando a infecção acontece no próprio local de residência – registrados na Bahia. Em 2018 houve a confirmação de um caso, mas importado. Apesar de não haver confirmações, no mesmo período houve 21 suspeitas, três das quais continuavam em investigação no final de fevereiro. O secretário da Saúde do Estado Fábio Vilas-Boas lembra que é muito importante que a população busque os postos de vacinação para receber a dose fracionada da vacina. “Até o momento não tivemos casos de febre amarela em humanos” na Bahia, “mas o vírus está circulando”. Por

isso, “quanto mais gente vacinada, menor é a chance de haver a introdução da febre amarela humana em nosso meio”, disse. O coordenador do programa estadual de imunização Ramon Saavedra explica que o desenvolvimento de uma vacina segue altos padrões de exigência e qualidade em todas as suas fases, o que inclui a pesquisa inicial, os testes em animais e humanos sob rigorosos protocolos. “Nenhuma vacina está livre totalmente da ocorrência de efeitos indesejáveis, porém os riscos de complicações graves são muito menores que os das doenças contra as quais elas protegem”, afirma Ramon. Diretamente, não há como controlar a boataria nas redes sociais, opina ainda Igor Sacramento. “Dizer que é boato, que é mentira, que é ignorância, não ajuda em nada” – seria apenas “uma forma de incrementar a disputa pela verdade”. O que ele defende é uma mudança na estratégia de comunicação: “do ponto de vista da comunicação, uma disposição grande para o diálogo, para a empatia, para a compreensão, mas também uma processo de formação que permita que profissionais de saúde conheçam a especialidade do imperativo comunicacional de nosso tempo”. Para ele, “não adianta apenas ter pá- u LUCAS LINS

Dia D da campanha em Lauro de Freitas e outros sete municípios ainda não tem números de adesão conhecidos

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q SAÚDE

“sobretudo dialogar”, que “não é dizer que é mentira, que é falso, que é burrice” porque “isso não aproxima, afasta ainda mais a ciência da população”. Vacinação contra febre amarela aguarda ampliação da produção de doses

LUCAS LINS

ginas, perfis no Facebook ou no Twitter, responder às perguntas, porque também é preciso produzir conteúdos que apresentem outras dimensões do processo de saúde-doença, da importância da vacinação, reconhecendo e jamais ignorando que outras informações circulam”. Além disso, “é fundamental estratégias de comunicação mais locais”, não havendo mais “como pensar a comunicação em rede de acordo com os preceitos da comunicação de massa”. Seria necessário

Ministério da Saúde estuda ampliar vacinação para todo o país

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Ministério da Saúde estuda ampliar a vacinação contra febre amarela para todo o país ainda neste ano devido à circulação do vírus em novas áreas. Durante reunião da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), em fevereiro, o ministro da Saúde Ricardo Barros apresentou a proposta que deve ser definida com os estados. A sugestão será também discutida com organismos

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internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Ao apresentar a proposta, Barros defendeu que estratégia de vacinar toda a população deve ser feita de forma gradual, de acordo com as possibilidades dos estados. “Se decidido, haverá uma programação de vacinação para cada estado”, esclareceu.

Leia mais sobre boatos em redes sociais, no espaço Nossa Opinião, nas páginas 38 e 39) A ideia é incluir todos os estados do país como Área Com Recomendação de Vacinação (ACRV). Atualmente, parte do Nordeste, Sul e Sudeste do país não fazem parte das áreas de recomendação de vacina, por não apresentarem circulação do vírus. Nestes locais devem ser vacinados, aproximadamente, 34 milhões de pessoas, sendo 11 milhões nos estados da região Sul e Sudeste, além de 23 milhões no Nordeste. Atualmente, a estratégia de vacinação contra a febre amarela faz parte da rotina de 21 estados brasileiros e também é recomendada para pessoas de outras regiões que vão se deslocar para áreas silvestres e rurais nessas localidades. O Ministério, ao longo de décadas, vem ampliando as áreas de vacinação, conforme a necessidade apontada pelo monitoramento constante da circulação do vírus. O ministro aguarda a entrada em funcionamento de uma nova fábrica, em São Paulo, para aumento da produção da vacina no país, “que poderá produzir mais quatro milhões de vacinas por mês”, levando à capacidade de imunizar toda a população. “Com isso, todo o Brasil se tornaria área de vacinação permanente”, concluiu. Para atender exclusivamente à demanda da campanha de vacinação em doses fracionadas, o ministério distribuiu 19,4 milhões de doses da vacina contra febre amarela aos estados de São Paulo (10 milhões), Rio de Janeiro (4,7 milhões) e Bahia (300 mil).


Marรงo de 2018 | Vilas Magazine | 21


q CIDADE MEIO AMBIENTE

CORRIDA PARA A VIDA 1,5 mil tartarugas marinhas já nasceram em Vilas do Atlântico nesta temporada e liberadas pelo Tamar para iniciarem seu ciclo de vida. Apenas 1% delas sobreviverá. Um dia, as fêmeas retornarão à mesma praia, para desovar. Educação ambiental promove o conservacionismo da espécie. 22 | Vilas Magazine | Março de 2018


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ntre as tartarugas marinhas que nasceram desde o fim do ano passado na orla de Lauro de Freitas há um pequeno despigmentado (foto), atualmente sob cuidados na base do Projeto Tamar em Arembepe. Os despigmentados têm a cor dos olhos normal, ao contrário dos albinos, que têm olhos vermelhos. Tapioca, como foi batizado pela equipe do Tamar, é da espécie cabeçuda e ficou retido no ninho, sem conseguir escalar a areia. A raridade desse filhote, nascido na terça-feira de carnaval, é representativa do sucesso que foi este primeiro ano com ninhos na praia. Só os recém-nascidos na praia de Vilas do Atlântico e liberados pelo Tamar já são quase 1,5 mil. Até 23 de fevereiro foram contados 37 ninhos na orla do bairro e entre março e abril ainda vão nascer tartarugas em outros 15, de 45 a 60 depois da desova. Ao todo, no trecho de 7 Km de praia identificado pelo Tamar como “Buraquinho”, que vai do Flamengo à foz do rio Joanes, foram 81 ninhos – 39 ainda na praia – e quase 2,8 mil filhotes. Cerca de 30 desses filhotes – 1% – devem chegar à vida adulta, com as fêmeas retornando para desovar na praia em que nasceram. Incluindo Itapuã, o Tamar registrou mais de cinco mil nascimentos em 191 ninhos, todos em plena área urbana. Ainda há 85 ninhos aguardando a eclosão dos ovos, que deve acontecer até meados de abril. u Março de 2018 | Vilas Magazine | 23


q MEIO AMBIENTE

“Não perdemos nem um ninho” deixado na praia que fosse devido à intervenção humana, comemora Nathalia Berchieri, bióloga do Tamar responsável pelo monitoramento das praias numa área de 47 quilômetros a partir da base de Arembepe. Ela conta que os banhistas respeitaram as marcações e não houve ninhos violados. Havia o temor de que a grande movimentação na praia durante o verão – incluindo as festas de fim de ano e em janeiro – resultassem em danos aos ninhos. As 81 desovas verificadas até agora representam um aumento em relação à temporada 2016-2017, que registrou 78. O número vinha caindo pelo menos desde a temporada 20122013, quando o Tamar registrou 109 desovas no trecho. No ano seguinte foram 107 e depois 102. A melhoria do desempenho nesta temporada dependeu muito dos moradores e visitantes. As tartarugas sempre desovaram em Vilas do Atlântico, mas antes os ovos eram recolhidos pelo Tamar e transportados até uma base do projeto, onde ficavam sob proteção até nascerem os filhotes. Agora os ovos ficam onde as tartarugas escolherem desovar e os filhotes nascem sem auxílio humano – o que é ideal. Além de respeitar as marcações, as pessoas tomam atitudes positivas para proteger as tartarugas. Vitor Leme, proprietário da barraca Araruama, por exemplo, teve o cuidado de colocar caixas de plástico sobre os ninhos que encontrou pela manhã ao chegar à praia, enquanto o pessoal do Tamar não chegava para cercar a área. Há também quem tome a iniciativa de “ajudar” os filhotes a sair dos ninhos quando percebe os primeiros na areia. “É uma atitude bem-intencionada”, reconhece o biólogo Eduardo Saliés, coordenador da base do Tamar em Arembepe, “mas que prejudica o nosso trabalho porque altera o ninho”, impedindo o recolhimento de dados científicos importantes para o acompanhamento do processo. O melhor é chamar o pessoal do Tamar, pelos números (71) 98127-0038, 99979-0392 e 3676-1045, ou deixar que elas se virem sozinhas.

Cercados de caixas plásticas ao lado da barraca Araruama: Victor Leme tomou a iniciativa de proteger os ninhos até que a equipe do Tamar chegasse à praia

Alguns deles acabam indo na direção errada quando a iluminação em terra é mais forte que a luz natural no mar. “Em Ipitanga, onde temos alguns ninhos ainda a nascer, estamos acompanhando diariamente a incubação por se tratar de uma área com muita iluminação pública, podendo desorientar os filhotes para a via pública, o que já aconteceu”, conta Nathalia Berchieri. De acordo com ela, em Vilas do Atlântico, apesar dos vários postes do calçadão sem o anteparo de proteção, nenhum filhote perdeu o rumo do mar nesta temporada. Tudo na desova e nascimento das tartarugas marinhas dá informações aos biólogos para o monitoramento do processo: o rastro que as tartarugas deixam ao subir à praia para a desova, por exemplo – e o que os filhotes fazem ao caminhar para o mar quando nascem. O comportamento dinâmico das espécies requer uma atenção permanente. É provável, por exemplo, que mais exemplares cheguem para desovar nos próximos meses, mesmo depois do encerramento da temporada, que se estende de setembro a março. Saliés explica que o Tamar tem observado um alongamento do período, de ano para ano. “Estamos pensando em ampliar a temporada oficial” de desova, disse. Agora as tartarugas marinhas chegam mais cedo e partem mais tarde. No extremo norte do litoral baiano, onde as condições naturais são perfeitas para a desova, já há tartarugas desovando e nascendo o ano inteiro. O biólogo conta que outra observação mais recente é de que tartarugas mais jovens têm chegado para desovar no litoral baiano. “Elas são menores, ainda desajeitadas e têm dificuldades para subir à praia e desovar”, verifica. Já é outra geração de tartarugas marinhas, a segunda desde que o Tamar começou a atuar, nos anos 80. As espécies que desovam no litoral continental brasileiro, conta o biólogo, ainda não saíram da zona de perigo de extinção, mas a recuperação já começou. Eduardo Saliés e Nathalia Berchieri em Vilas do Atlântico: nenhum caso de depredação nesta primeira temporada com ninhos na praia

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Comunidade provou que preserva os ninhos nas praias

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manutenção dos ninhos nas praias é resultado do esforço do Tamar, ao longo de oito temporadas reprodutivas consecutivas, na execução do Programa Nossa Praia é a Vida, no litoral norte da Bahia. Fundamental para o programa é a participação dos usuários das praias, inquilinos, proprietários das casas dos condomínios, funcionários de hotéis e pousadas, donos de comércio e barracas. A adequação da iluminação nos condomínios litorâneos é um destaque. “Quase não precisamos mais remover os ninhos para protegê-los, apenas aqueles em risco iminente”, contou a bióloga do Tamar, Luciana Veríssimo. “As pessoas são os nossos olhos, nos avisam sempre que há alguma tartaruga na praia ou filhotes desorientados”, garante. De acordo com a oceanógrafa Neca Marcovaldi, coordenadora de conserva-

ção e pesquisa do Tamar, atualmente 99% dos ninhos permanecem em seu local original do norte do Rio de Janeiro ao norte do Rio Grande do Norte. Ela credita isso “ao trabalho de sensibilização, educação ambiental e de inclusão social junto às comunidades locais e turistas”. Este ano foi a vez de Lauro de Freitas provar que respeita as leis e as tartarugas marinhas. Desde 1998 uma lei federal impõe detenção de seis meses a um ano e multa a quem impede a procriação da fauna, modifica, danifica ou destrói ninho. As penalidades são aplicáveis a pessoas físicas e jurídicas. Mas até a década de 80 era um hábito comum, nas comunidades litorâneas, matar tartarugas marinhas para consumir a carne. O casco servia para fabricar armações de óculos, pentes, pulseiras, anéis. As fêmeas eram capturadas quando subiam à praia para desovar.

Quando o Tamar lançou ao mar a primeira ninhada nascida sob sua proteção, havia praticamente uma geração de crianças e jovens daquelas comunidades que nunca tinham visto um filhote de tartaruga. As práticas predatórias raramente acontecem atualmente nas áreas protegidas, mas o descaso com o meio ambiente e a ideia de que as praias são de ninguém em vez de serem de todos ainda levam perigo aos ninhos. O esforço de educação do Tamar inclui abordagens aos banhistas e as populares solturas dos filhotes que ficam retidos nos ninhos e de tartarugas reabilitadas. A instalação de placas informativas e cartazes em bares e barracas de praia é outro recurso. No fim, é o comportamento da população em geral que mais impacto terá na preservação ou depredação dos ninhos. Nesse sentido, o passado fornece uma perspectiva positiva de futuro. A base do Tamar em Arembepe, criada em 1983, quando a legislação de proteção ambiental praticamente não existia, foi inicialmente a “base de Interlagos” porque as ações de proteção às u

Filhotes caminham para o mar em Vilas do Atlântico: apenas 1% chegará à idade adulta

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q MEIO AMBIENTE

tartarugas marinhas na região começaram por iniciativa dos moradores do condomínio de Interlagos. Só em 1992 a base foi transferida para o povoado de Arembepe, também em Camaçari, onde atualmente conta com infraestrutura de serviços e um centro de visitantes. AREMBEPE Hoje a base de Arembepe monitora a região que concentra o maior número de desovas do litoral continental do país, principalmente das espécies cabeçuda e de pente. A base da Praia do Forte cobre mais 30 quilômetros entre a foz do Jacuípe e a foz do Imbassaí, incluindo as praias de Barra de Jacuípe (3 km), Guarajuba (8 km), Itacimirim (5 km) e Praia do Forte (14 km). Nesses trechos são registradas mais de duas mil desovas a cada temporada – apesar da grande pressão da presença humana, pela alta concentração de condomínios. O litoral norte baiano é reconhecido internacionalmente, pelo Comitê Executivo da Convenção Interamericana para a Proteção e Conservação das Tartarugas Marinhas, como a principal área de nidificação da América Latina para as tartarugas marinhas cabeçudas e do Atlântico Sul para as tartarugas de pen-

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te. A preservação das praias em condições adequadas é essencial porque as tartarugas marinhas desovam nas praias em que nasceram, completando um ciclo de vida que remonta à época dos dinossauros. O Projeto Tamar começou a proteger as tartarugas marinhas no Brasil em 1980. Com o patrocínio da Petrobras, por meio do programa Petrobras Socioambiental, hoje o Projeto é uma soma de esforços entre a Fundação Pró-Tamar e o Centro Tamar/ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). O Tamar trabalha na pesquisa, proteção e manejo das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil, todas ameaçadas de extinção: tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) e tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). As equipes protegem cerca de 1.100 quilômetros de praias e estão presentes em 25 localidades, em áreas de alimentação, desova, crescimento e descanso das tartarugas marinhas, no litoral e ilhas oceânicas dos estados da Bahia, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.


q TURISMO

Turismo classifica estrutura para atribuição de verba

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auro de Freitas subiu uma posição – de C para B – no ranking do Ministério do Turismo que classifica os municípios de acordo com a infraestrutura e empregos no setor de hotelaria e o fluxo de turistas. A promoção, que iguala Lauro de Freitas a, por exemplo, Camaçari, Lençóis e Santa Cruz Cabrália, não reflete o potencial turístico, mas o investimento no setor de turismo. Para o Ministério do Turismo, a metodologia permite “otimizar a distribuição de recursos públicos”, além de “orientar a elaboração de políticas específicas para cada categoria de municípios” – no pressuposto de que o turismo de Camaçari e o de Lauro de Freitas apresentem algo em comum a partir de dados econômicos. Com a participação no ranking dando acesso a recursos federais para o setor, a quantidade de municípios turísticos saltou de 2.175 cidades (291 regiões) em 2016 para 3.285 (328 regiões) no ano passado. O novo mapa foi divulgado em fevereiro. Só na Bahia houve um aumento de 28% no número de municípios turísticos, de 117 para 150 entre 2016 e 2017. Foram incluídos 52 destinos baianos e saíram outros 19, que figuravam nas categorias C, D e E. Desses 150, apenas quatro são categoria A: Salvador, Mata de São João, Porto Seguro e Cairu. De acordo com o mapa, 23% dos municípios cadastrados (740) estão nas categorias A, B e C. Esses municípios concentram 93% do fluxo de turistas nacionais e 100% do fluxo estrangeiro. Os demais 2.545 municípios figuram nas categorias D e E. São destinos que não possuem fluxo turístico nacional e internacional expressivo. No entanto, observa o ministério, alguns possuem papel importante no fluxo turístico regional e precisam de apoio para a geração e formalização de empregos e estabelecimentos de hospedagem. A nova categorização está valendo como parâmetro para solicitar apoio financeiro federal “para promoção de eventos geradores de fluxo turístico”. Municípios melhor classificados têm acesso a maiores recursos, independentemente do potencial turístico objetivo. Na faixa B estão também cidades como

O Poço Verde, em Ourolândia, extremo norte da Chapada Diamantina: município não tem acesso a verbas que poderiam gerar a infraestrutura ausente Feira de Santana e Vitória da Conquista. Já municípios da Chapada Diamantina, região turística de reconhecido potencial, mas com pouca infraestrutura, estão classificados na faixa E. É o caso de Quixabeira, que foi incluído em 2017, Barra do Mendes e Ourolândia, que tem atrações como o Poço Verde. Os três ficam sem qualquer acesso a verbas para eventos que poderiam ampliar aquela mesma infraestrutura.

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q CIDADE TURISMO

Sossego com vista para o mar 28 | Vilas Magazine | Marรงo de 2018


VILA DE SANTO ANTONIO Mar aberto e piscinas naturais em um cenário deslumbrante. A cerca de 60 Km de Lauro de Freitas, próximo a points agitados da Linha Verde, ainda é possível experimentar a tranquilidade de uma praia paradisíaca.

Texto: TATIANA MENDONÇA tatianam@gmail.com Fotos: ADILTON VENEGEROLES asvvas@gmail.com Conteúdo licenciado pela Ag. A Tarde.

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q TURISMO

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ntre as praias do Litoral Norte, tão conhecidas dos soteropolitanos, esconde-se um sossego que atende pelo nome de Santo Antônio. Ao ntre contrário das badaladas vizi- Norte, tão conheas praias do Litoral nhas, Praia do Forte, Imbassaí, Porto de cidas dos baianos, esconde-se um sossego Sauípe, suas areias abrigam poucos visique atende pelo nome de Santo Antônio. ntre as praias do Litoral Norte, tão conhecidas dos soteropolitanos, esconde-se um tantes, um punhado de moradores e uma imensidão Ao contrário das badaladas vizinhas, Praia do For- sossego que atende pelo nome de Santo de calma e silêncio, boa para quem estiver querendo te, Imbassaí, Porto de Sauípe, suas areias abrigam Antônio. Ao contrário das badaladas vizifugir dos excessos do Carnaval. “Tá ouvindo? O bapoucos visitantes, um punhado de moradores e uma nhas, Praia do Forte, Imbassaí, Porto de rulho que a gente tem aqui é esse: os passarinhos e as imensidão de calma e silêncio, boa para quem quer Sauípe, suas areias abrigam poucos visitantes, um punhado de moradores e uma imensidão folhas balançando com o vento”, diz Wellington Corviver a natureza, em todo seu esplendor. de calma e silêncio, boa para quem estiver querendo deiro, que mantém uma pousada no local. “Tá ouvindo? O barulho que agente tem fugir aquidosé excessos do Carnaval. “Tá ouvindo? O baPara chegar à vila, há dois caminhos: quem estiver rulho que esse: os passarinhos e as folhas balançando com o a gente tem aqui é esse: os passarinhos e as em Diogo pode ir caminhando pelas dunas, coisa de folhas balançando com o vento”, diz Wellington Corvento”, diz Wellington Cordeiro, que mantém uma 20, 30 minutos, a depender da disposição; e quem deiro, que mantém uma pousada no local. local.do Coco (são cerca Para chegar à vila, há dois caminhos: quem estiver estiver de carropousada segue pelano Estrada Para vila,grande há dois quem Diogo pode ir caminhando pelas dunas, coisa de de 90 km de Salvador) atéchegar encontraràuma pla- caminhos: em 20, 30 minutos, a depender da disposição; e quem estiver em Diogo pode ir caminhando pelas dunas, ca que indica a entrada do lugar. É também o marco estiver de carro segue pela Estrada do Coco (são cerca coisa de 20 , 30 minutos, a depender da disposição; para o fim do asfalto. A estradinha de terra que leva a de 90 km de Salvador) até encontrar uma grande plae quem estiver de carro segue pela Estrada Santo Antônio tem cerca de 3 Km. Num tempo recenca quedo indica a entrada do lugar. É também o marco para até o fim do asfalto. A estradinha de terra que leva a Coco (são cerca de 60 km de Lauro de Freitas) te, carro nenhum entrava lá, era só jegue, mas agora Santo Antônio tem cerca de 3 Km. Num tempo recenencontrar umaque grande placa que indica a entrada há esse progresso, de tal modo já existe até um te, carro nenhum entrava lá, era só jegue, mas agora do lugar. É também o marco para o fim do asfalto. estacionamento. há esse progresso, de tal modo que já existe até um A estradinha de terra queeleva Logo se avista o acesso à praia, propriamente, aí a Santo Antônio estacionamento. Logo se avista o acesso à praia, propriamente, e aí de 3 só Km. tempo recente, carro é preciso seguirtem a pé.cerca A princípio, dá Num para ver as é preciso dunas de areia fofa e os coqueiros compridos, de nenhum entrava lá, era nada só jegue, mas agora há seguir a pé. A princípio, só dá para ver as dunas de areia fofa e os coqueiros compridos, nada de água. Mas tenha coragem, que a subida logoque é já existe até um esse progresso, de talcurta modo água. Mas tenha coragem, que a subida curta logo é recompensada.estacionamento. Tem mar aberto para quem for de recompensada. Tem mar aberto para quem for de mar aberto, e perto das pedras se formam piscinas mar aberto, e perto das pedras se formam piscinas Logo se avista o acesso à praia, propriamente, naturais para ficar de bobeira se refrescando e vendo naturais para ficar refrescando e aídeé bobeira precisoseseguir a pé.e vendo o tempo passar, ou brincando despreocupadamente o tempo passar, ouAbrincando despreocupadamente princípio, só dá para ver as dunas de com areia fofa e os coqueiros compridos, alguma criança que se leve. com alguma criança se leve.Mas tenha coragem, que a subida nadaque de água. curta é recompensada. E, pensando logo bem, praia deserta só é uma ideiaTem boa E, pensandomar bem,aberto praia deserta só é uma ideia boa à distância, no plano dos sonhos. Na prática,piscinas é melhor para quem for de mar aberto, e perto das pedras se formam com a conveniência de uma barraca onde se à distância, no plano dos sonhos. Na prática, é melhor naturais para ficar de bobeira, se refrescandocontar e vendo o tempo passar, ou brincando possa beber uma cerveja, tomar um guaraná, parar contar com a conveniência de uma barraca onde se despreocupadamente com alguma criança para quealmoçar. se leve. Por ali são oito delas, que para compor possa beber uma cerveja, tomar um guaraná, parar E, pensando bem, praia deserta só é uma ideiabucólico, boa àsão distância, no plano dos o cenário feitas de madeira e recobertas para almoçar. Por ali são oito delas, que para compor com palhas dos coqueiros. sonhos. Na prática, é melhor contar com a conveniência de uma barraca onde se o cenário bucólico, são feitas de madeira e recobertas que chegam passam o dia na praia e possa beber uma cerveja, tomar um guaraná,Muitos parardos para almoçar. Por ali são oito depois vão embora, mas há quem queira ficar por com palhas dos coqueiros. delas, que para compor o cenário bucólico,mais são feitas de madeira e recobertas tempo, num intensivão de desanuviar os penMuitos dos que chegam passam o dia na praia e com palhas dos coqueiros. samentos, reaprender o que seja tranquilidade. E aí depois vão embora, mas há quem queira ficar por alugar vão uma casa ou ficar numa Muitos dos que chegam passam o dia napode-se praiaescolher e depois embora, masdas há mais tempo, num intensivão de desanuviar os pencerca de 10 pousadas da vila, todas sem grandes luquem queira ficar por mais tempo, num intensivão de desanuviar os pensamentos, xos. Para comer, há cinco restaurantes, quase todos samentos, reaprender o que seja tranquilidade. E aí reaprender o que seja tranquilidade. E aí pode-se escolher da mesma família. alugar uma casa ou ficar pode-se escolher alugar uma casa ou ficar numa das Os moradores também são quase todos parentes, numa das cerca de 10 pousadas da vila, todas sem grandes luxos. Para comer, há cerca de 10 pousadas da vila, todas sem grandes luos Mendes. Francisco Batista Mendes, 77, conta que cinco restaurantes, quase todos da mesma família. xos. Para comer, há cinco restaurantes, quase todos seus familiares vivem ali há mais de 100 anos – ele os Mendes. Francisco Batista da mesma família. Os moradores também são quase todos parentes, mesmo nasceu lá. Alinham-se em poucas ruas de caMendes, 77, conta que seus familiares vivem ali há mais de 100 anosser– as ele mesmo sinhas coloridas, como costumam moradas do Os moradores também são quase todos parentes, nasceu lá. Alinham-se em poucas ruas de casinhas coloridas, como costumam ser os Mendes. Francisco Batista Mendes, 77, conta que moradas do interior, um–jeito é uma grande bestagem, coisa de seus familiaresas vivem ali há mais de 100 anos ele de dizer que 24 SALVADOR DOMINGO 4/2/2018 sem imaginação, ter de uma mesmo nasceugente lá. Alinham-se em poucas ruas ca- casa e pintá-la de branco. Há cerca de vinte Francisco abriu o primeiro restaurante da vila, o Maria sinhas coloridas, como costumam ser asanos, moradas do

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Moqueca, batizado com o nome de sua mulher, Maria José Silva, com quem vive

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A pequena duna oculta o mar da vila, que possui pousadas e restaurantes, entre eles o do casal Francisco Mendes e Maria José, moradores de lá, casados há 53 anos

A pequena duna oculta o mar da vila, que possui pousadas e restaurantes, entre eles o do casal Francisco Mendes e Maria José, moradores de lá, casados há 53 anos


interior, um jeito de dizer que é uma grande bestagem, coisa de gente sem imaginação, ter uma casa e pintá-la de branco. há 53anos e com a qual teve 12 filhos. começo eraabriu só o primeiro Há cerca de vinteNo anos, Francisco uma barraquinha para abastecer os trabalhadores que restaurante da vila, o Maria Moqueca, batizado com o interior, um jeito de dizer que é uma grande bestaestavam construindo onome Complexo Costa do Sauípe. Iam gem, coisa de gente sem imaginação, terde uma casa e sua mulher, Maria José Silva, com quem vive pintá-la até ládeabranco. pé nos dias deháfolga para tomar uma pinga. 53 anos e com a qual teve 12 filhos.Só No começo era Há cerca de vinte anos, Francisco abriu o primeiro só uma barraquinha abastecer os trabalhadores depois é que o estabelecimento ganhoupara ares turísticos, restaurante da vila, o Maria Moqueca, batizado com o que estavam construindo o Complexo Costa do Sauícomdemesinhas espalhadas numa nome sua mulher, Maria José Silva, com quemárea vive coberta em frente pe. Iam até lá a pé nos dias de folga para tomar uma varanda. háà53 anos e com a qual teve 12 filhos. No começo era pinga. Só depois é que oda estabelecimento ganhou só umaPegados barraquinhaestão para abastecer trabalhadores outrososdois restaurantes, sua irmã que estavam construindo o Complexo Costa do Sauíares turísticos, com mesinhas espalhadas numa área e do seu primo. pe. Iam até lá a pé nos dias de folga para tomar uma à varanda. Pegados estão outros coberta em frente Francisco pescador,ganhou andava por aí de jangada pinga. Seu Só depois é que o era estabelecimento dois restaurantes, da sua irmã e do seu primo. a “70 braças de fundura”, como diz, tão longe que não ares turísticos, com mesinhas espalhadas numa área Seuestão era pescador, andava por aí de jancoberta em frentemais à varanda. Pegados outrosestá se avistava a terra, masFrancisco agora aposentado. gada a “70 braças de fundura”, como diz, tão longe dois restaurantes, da sua irmã e do seu primo. Dos seus filhos todos, só um quis seguir a lida, e Seu Francisco era pescador, andava por aí janque não sede avistava mais a terra, mas agora está apoainda o sustento com o trabalho de gada a “70assim braças complementa de fundura”, como diz, tão longe sentado. Dos seus filhos todos, só um quis seguir a pedreiro. Demais modo que, hoje,está para que não se avistava a terra, mas agora apo- abastecer o restaulida, e ainda assim complementa o sustento com o trasentado. seus filhos comprar todos, só umpeixe. quis seguir apensou?”, Francisco rante,Dos é preciso “Já balho de pedreiro. De modo que, hoje, para abastecer lida, e ainda assim complementa o sustento com o trapergunta, abismado. o restaurante, é preciso comprar peixe. “Já pensou?”, balho de pedreiro. De modo que, hoje, para abastecer O fatoé preciso repetiu-se nas casas vizinhas.Os moradores o restaurante, comprar peixe. “Já pensou?”, Francisco pergunta, abismado. hoje vivem mais do turismo, trabalhando nos grandes Francisco pergunta, abismado. O fato repetiu-se nas casas vizinhas. Os moradores O fato repetiu-se nas casas vizinhas. Os moradores aos visitantes que hotéis das cercanias ou atendendo hoje vivem mais do turismo, trabalhando nos grandes hoje vivem mais do turismo, trabalhando nos grandes chegam às barracas ehotéis pousadas da vila. Algumas aos mu-visitantes que das cercanias ou atendendo hotéis das cercanias ou atendendo aos visitantes que lheres se ocupam do artesanato, produzindo bolsas eAlgumas muchegam às barracas e pousadas da vila. chegam às barracas e pousadas da vila. Algumas muesteiras dedopiaçava. maiores preocupações, lheres se a ocupam produzindo bolsas e lheres se ocupam artesanato,Alheios produzindo bolsas e do artesanato, esteiras Alheios a maiores preocupações, de piaçava.pequenos esteiras Alheios a maiores preocupações, deepiaçava. os meninos correm brincam. os meninos pequenos correm e brincam. os meninos pequenos correm e brincam.

PRIMO POSTIÇO PRIMO POSTIÇO PRIMO POSTIÇO O mineiro Wellington Cordeiro aesposa esposa Jacira, soteropolitana, O mineiro Wellington Cordeiro eea Jacira, O vila, mineiro e a esposa Jacira, soteropolitana, são uns dos poucosda ‘estrangeiros’ dajá foram Cordeiro são uns dos poucos ‘estrangeiros’ masWellington devidamenvila, mas já foram devidamente adotados. “Meu ape-são uns dos poucos ‘estrangeiros’ da soteropolitana, te adotados. “Meu apelido é primo”, conta Wellington. “E quando lido é primo”, conta Wellington. vila, “E quandojá tomam tomam uma, aí chamam de prima”, mas ri. foram devidamente adotados. “Meu apeuma, aí chamam de prima”, ri. Juntos, eles montaram lido é primo”, conta Wellington. “E quando tomam Juntos, elesanos montaram há Antônio. três anos a Pousada Santo Antônio. há três a Pousada Santo uma, aí chamam de prima”, ri. Juntos, eles montaram Buscavamumlugarisoladoebonitoparamudarde Buscavam um lugar isolado e bonito para mudar de vida, deixando há três anos a Pousada Santo Antônio. a correria de Salvador, onde viviam. a correriavida, de deixando Salvador, onde viviam. Ele trabalhava como dentista; Buscavamumlugarisoladoebonitoparamudarde Eletrabalhava como dentista;ela, como publicitária. E ela, comoquem publicitária. é que pode dizer que essa não foi uma boa tro-a correria de Salvador, onde viviam. vida, deixando E quem queaceito pode dizer essa não foi uma boa troca? “Não ca? é “Não mais que seque desmanche o negócio”, Eletrabalhava como dentista;ela,comopublicitária.E declara Wellington. aceito mais que se desmanche oquem negócio”, declara Wellington. é que pode dizer que essa não foi uma boa troNoesquemabedandbreakfast,apousadatemtrês No esquema bed and breakfast, a pousada tem três quartos, ca?entre “Não quartos, com diárias que variam R$aceito 240 e mais que se desmanche o negócio”, com diárias que variam entre R$ 240 e R$260. O casal está consdeclara Wellington. R$ 260. O casal está construindo mais dois. Os turistas truindo mais dois. Os turistas chegam detambém Salvador, principalmente, chegam de Salvador, principalmente, mas Noesquemabedandbreakfast,apousadatemtrês de Aracaju, Goiânia, e até de foraquartos, doepaís. recebemas também de Aracaju, Goiânia, atéJáde fora do país. recebecom diárias que Já variam entre R$ 240 e ram hóspedes da França, Alemanha e até da Islândia. ram hóspedes da França, Alemanha e até da está Islândia. R$ 260. O casal construindo mais dois. Os turistas No quintal, tem lugar de acender fogueira e tocar vioNo quintal, tem lugar de acender fogueira e tocarprincipalmente, violão, olhan-mas também chegam de menSalvador, lão, olhando a lua, escutando o mar, “contando do a lua, tira”. escutando o mar, “contando mentira”. de Aracaju, Goiânia, e até de fora do país. Já recebeE tem programa melhor? « E tem programa melhor? ram hóspedes da França, Alemanha e até da Islândia. No quintal, tem lugar de acender fogueira e tocar vio25 lão, olhando lua, escutando o mar,e“contando menA pequena duna oculta o mar da vila, queapossui pousadas tira”. E tem programa melhor? « restaurantes, entre eles o do casal Francisco Mendes e Maria SALVADOR DOMINGO 4/2/2018

José , moradores de lá, casados há 53 anos. SALVADOR DOMINGO 4/2/2018

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Especial - PÁSCOA

Quem disse que Jesus tinha 33 anos? Há muitas controvérsias sobre a idade que ele tinha quando morreu

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ssim como a origem de símbolos e vários rituais da Páscoa são cercadas de controvérsias, muitos dos assuntos relacionados a Jesus também. Um deles é sobre a idade que ele tinha quando morreu. É muito comum as pessoas falarem em 33 anos, mas há controvérsias. Na Bíblia não há nenhum registro que confirme a idade e estudiosos chegaram a esta idade interpretando registros descrevendo fatos nos quais a idade é citada. Lucas, que não conheceu Jesus pessoalmente e nem foi seu discípulo, em seus escritos aponta que Jesus iniciou seu ministério aos 30 anos (Lucas 3:23). Já outro evangelista, João, faz menção a quatro festas de Páscoa após o início do trabalho de Jesus. Se a primeira Páscoa foi quando Jesus tinha 30 anos, na quarta ele estava com 33 anos. O professor de Filologia Grega da Universidade Complutense de Madri e especialista em Linguística e Literatura do Cristianismo Primitivo, Antônio Piñero, autor do livro “La verdadera Historia de la Pasión”, disse para a agência EFE que para se aproximar mais de uma data exata, é preciso fazer uma investigação astronômica. “Ele morreu em uma sexta-feira, com lua cheia em Páscoa, por isso sabe-se que 15 de Nisã - o primeiro dos 12 meses do calendário judaico -, que é quando se comemora a Páscoa judaica, reunia essas condições” entre os anos citados. “O resultado é que há duas opções: 7 de abril do ano 30, segundo o qual Cristo teria morrido com 36 anos, e 3 de abril de 33, no qual Cristo teria 39”, assegura. Já para o professor de História Antiga da Universidade da Cantábria e professor “honoris causa” da Universidade de Bolonha, Ramón Teja Casuso, “cada povo parte de seu feito mais importante para medir o tempo. E Dionísio, o Exíguo, o monge e matemático que estabeleceu no século 6 qual era o ano em que Jesus nasceu – o Anno Domini – estava errado”, assegura Teja. Investigações históricas posteriores demonstraram que Herodes, o Grande, que era rei da Judéia durante o nascimento de Jesus e responsável pela perseguição e massacre das crianças com menos de dois anos, teria morrido, na realidade, no ano 4 a.C., e, por isso, Cristo teria nascido no ano 5 ou 6 a.C., paradoxalmente. Essa vertente, que não teria por que contradizer o fato de Jesus


Especial - PÁSCOA

ter morrido aos 33 anos, entra em choque com a história que diz que Pôncio Pilatos, o prefeito de Judéia, “lavou as mãos” antes de decidir se executaria Cristo ou Barrabás. Pôncio Pilatos “ocupou este cargo entre 29 e 37 d.C.”, afirmou Teja, o que significa que Jesus morreu com entre 34 e 42 anos. De onde vem, então, a ideia de que Cristo morreu aos 33? Os evangelhos nunca afirmam tal coisa, mas Lucas, no capítulo 3, conta que “quando Jesus começou o seu ministério, tinha cerca de 30 anos”. DIA DA MORTE Outra controvérsia é sobre o dia da morte de Jesus. “É mais provável que Jesus tenha sido crucificado na quinta-feira, pela simples razão de que se fosse crucificado às 15h de sexta-feira, teria morrido no final da tarde. Isso, para os judeus é o novo dia, ou seja, sábado (Shabat), dia de descanso”, argumenta Piñero. “A crucificação em dia de descanso teria sido uma profanação monumental. É mais possível que não tenha sido crucificado na sexta-feira, mas na quinta-feira. Ou seja, não em 7, mas em 6 de abril do ano 30 d.C.”, conclui. Para o padre Abel, da Paróquida São João Evangelista, de Vilas do Atlântico essas controvérsias não tem nenhuma utilidade. “O que importa é quem foi Jesus e os ensinamentos que ele deixou”, afirma.

Jejum e abstinência são formas de penitências recomendadas

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ão comer carne na Sexta-Feira Santa é uma tradição muito conhecida dos católicos, mas o que poucos sabem é que há leis que regulam o jejum e a abstinência que vão muito além. Elas estão no Código de Direito Canônico e nos 5 Mandamentos da Igreja, que diferem dos 10 Mandamentos, bem difundidos. A abstinência e o jejum, que na verdade são sinônimos, são formas de penitência interior, quando o cristão trata de fazer uma reorientação radical em sua vida, conforme define a Igreja Católica. E são válidos para todas as sextas-feiras do ano e no período da Quaresma (exceto aos domingos), que inicia no dia seguinte ao Carnaval. O Quarto Mandamento da Lei da Igreja diz: “Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja”, cujas orientações estão no Código de Direito Canônico. Segundo ele, o jejum consiste na privação de alimentos. A orientação tradicional é que se faça apenas uma refeição completa durante o dia e, caso haja necessidade, é permitido fazer outras duas, mas em menor quantidade. Estão obrigados ao jejum os que tiverem completado 18 anos até os 59 completos. Os outros podem fazer, mas sem obrigação. Grávidas e doentes estão dispensados, assim como quem desenvolve trabalho braçal. Já a abstinência é trocar as refeições por algo mais simples e, nas sextas-feiras da Quaresma não é permitido comer carne de animais de sangue quente, assim como na Quarta-Feira de Cinzas. Ela inicia aos 14 anos e vale para a vida toda. Grávidas, doentes e “pobres que recebem carne por esmola”, estão liberados. Padre Abel, pároco da paróquia São João Evangelista, de Vilas do Atlântico, explica que somente o jejum e a abstinência de carne de animais de sangue quente na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão são obrigatórios. Nos demais dias do ano, há apenas a recomendação. “O jejum é o dia inteiro. Recomenda-se uma refeição principal no café da manhã e um lanche à noite. Quem estiver trabalhando pode almoçar, mas aí deixa de fazer o lanche à noite. E nos intervalos destas refeição, somente água pode ser ingerida. Isto é obrigatório e o restante das regras são opcionais”, diz. A abstinência durante a Quaresma, acrescenta, é um sacrifício que um cristão pode escolher qual deseja como forma de penitência. “Pode ser deixar trocar a refeição por uma mais simples, deixar beber, de controlar suas paixões, controlar sua raiva. É abster-se de algo”, diz. Em resumo, o jejum e a abstinência são obrigatórios na Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa da Paixão. Nos demais dias da Quaresma, exceto aos domingos, são apenas recomendados e parciais. Durante o ano, nas sextas-feiras, exceto se tiver alguma festa programada, a abstinência é obrigatória e o jejum é opcional. A abstinência consiste em deixar de comer carne de animais de sangue quente nos dias que sua prática for obrigatória. Nos demais, o fiel pode abster-se de outro alimento e até mesmo de algum tipo de comportamento que costuma a ter. Já o jejum é limitar a quantidade das refeições nos dias para os quais ele é obrigatório ou parcial.

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q COMPORTAMENTO

Especial - PÁSCOA

6 curiosidades sobre a Páscoa Cada cultura tem sua forma de comemorar a ressurreição de Jesus

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a tradição cristã, Jesus foi crucificado e sepultado numa sexta-feira, mas ressuscitou na madrugada do domingo. O sábado entre os dias é conhecido como Sábado de Aleluia, no qual se comemora a permanência de Jesus Cristo no túmulo. O domingo anterior ao dia da Páscoa é o Domingo de Ramos, quando se celebra a entrada de Jesus em Jerusalém. O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa. A data recebeu este nome em referência ao trecho bíblico que narra a visita de Jesus Cristo a Jerusalém. A população cortou ramos de árvores, ramagens e folhas de palmeiras para recebê-lo. Ele entrou no lugar no dia seguinte, montado em um jumento, e foi recebido com o abanar de folhagens e os clamores de “Rei dos Judeus”. O easter egg hunt é uma grande tradição da Páscoa nos Estados Unidos. É uma brincadeira em que os adultos espalham ovos coloridos pelo jardim para as crianças tentarem encontrar. Ganha quem encontrar mais ovos. Na Casa Branca acontece o mais tradicional deles e esse ano ela chegou na 140ª edição. O presidente americano sempre participa da atividade para manter a tradição.

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No Sábado de Aleluia acontece a Malhação de Judas, comum em países da América do Sul. Cada país realiza a tradição de um modo, sendo que alguns queimam os bonecos em frente a cemitérios ou perto de igrejas. No Brasil é comum enfeitar o boneco com máscaras ou placas com o nome de políticos, técnicos de futebol ou mesmo personalidades não tão bem aceitas pelo povo. A Páscoa judaica, ou Pessach, é comemorada no 14º dia de Nissan (mês do calendário lunar, que é o seguido pelos judeus). Diferentemente da Páscoa cristã, a festa relembra a libertação dos hebreus de um longo período de escravidão no Egito. Uma série de rituais marcam a festa, celebrada durante 8 dias. Entre eles figura o Seder, um banquete no qual é recontada toda a história da fuga do Egito. Esta refeição inclui uma série de alimentos com função simbólica. Um costume cultivado em algumas partes da Alemanha é a fogueira da Páscoa, o Osterfeuer. O fogo tanto é o símbolo do sol, como da chama da fé, estando ainda ligado à purificação. Antigamente, a “limpeza de Páscoa” na Alemanha começava no pátio da igreja, onde os fiéis juntavam restos de madeira, galhos e as ramagens secas que sobravam do Domingo de Ramos. Isso para a grande fogueira, a ser acesa na noite de sábado para domingo.


Especial - PÁSCOA

Páscoa tem perdido seu real significado Viagens e compra de chocolates ocupam o espaço da religiosidade

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eriadão, descanso, viagens e chocolates. Para muitos, esses são os assuntos mais importantes da Páscoa, que marca a morte e ressurreição de Jesus. Desde o advento do cristianismo e do aproveitamento das comemorações para fins comerciais, a data perdeu seu interesse para muitos católicos. O padre Abel, da paróquia São João Evangelista, de Vilas do Atlântico, argumenta que o real significado da data é que Jesus morreu na cruz e ressuscitou. “Isto traz a perspectiva da vida eterna. Na cruz, Jesus assumiu os pecados do mundo. Este é o verdadeiro sentido. O que acontece hoje é que temos o aspecto comercial, com os chocolates, predominando”, lamenta. Com o passar dos anos, imagina, as pessoas foram criando um distanciamento. “Há, por parte de muitas pessoas, uma certa indiferença. Isto se reflete na pouca preocupação com alguns princípios e valores, como os da dignidade, da fraternidade. Jesus nos ensinou o respeito à vida e hoje vemos muitas coisas que poderiam ser diferentes. Falta uma maior preocupação com o próximo”, afirma. O líder religioso não desanima e destaca que a Igreja pode reverter o quadro dando uma maior atenção para a catequese, ou seja, passar os ensinamentos de Jesus, sobretudo para os mais jovens. O diretor das Pontifícias Obras Missionárias, um órgão do Vaticano sediado em Brasília, padre Maurício Jardim, não vê um quadro tão negativo, emb o ra re co n h e ça que o real sentido da Páscoa vem se perdendo. “No ano passado, foi decidido, durante a Assembleia dos Bispos do Brasil, mudar a iniciação”, revela. O batismo, pri-

meira eucaristia e crisma se mantém, mas outras atividades foram incluídas, como também houve uma mudança na forma de atrair os católicos não praticantes, com foco nas crianças. Como exemplo ele cita a introdução de algumas atividades nas missas de domingo, sempre envolvendo a família e procurando fazer com que ela se sinta integrada em uma comunidade. Nas missas, por exemplo, estão sendo criados momentos para que as crianças recebam, em dias distintos, uma Bíblia, um escapulário, um terço e também o Pai Nosso por escrito. “É uma entrega oficial em um momento especial e isso faz parte deste novo processo de educação”, salienta. No Brasil hoje, revela, 64% dos habitantes, conforme pesquisa, se dizem católicos, mas somente 7% afirmam ser praticantes. “Nós vivemos uma crise política, ética e social. Entendemos que são sinais de uma mudança de época. Essas mudanças sempre acontecem em função de uma crise. E estamos preparados para que essa mudança nos leve para uma sociedade melhor, mais ética, fraterna, solidária”, afirma. Maurício afirma que um grupo de católicos das 11 mil paróquias espalhadas pelo Brasil entra de fato na quaresma, compreendendo o seu significado e praticando as recomendações. Já outra, a parcela maior, não. “De fato cresce a secularização, ou seja, as pessoas deixam o aspecto religioso de lado e passam a ver a Páscoa muito mais como uma data para aproveitar um feriadão e o aspecto comercial também contribui para isso. Esse fatores fazem com que os católicos não praticantes enfraqueçam o sentido da Páscoa”, afirma. O distanciamento dos ensinamentos deixados por Jesus, argumentam tanto Maurício quanto padre Abel, contribuem para as desigualdades sociais e a violência. Esta última, não por acaso, é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, que sempre acontece no período da quaresma.

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q CIDADE

Especial - PÁSCOA

Pesquisa aponta a causa da morte de Jesus Médico legisla americano fez investigação para apontar a causa

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esus morreu antes de ser suspenso na cruz? Morreu no momento em que lhe cravaram uma lança no coração? Morreu de infarto? No livro “A crucificação de Jesus – as conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal” (Editora Ideia e Ação, 455 págs), lançado no Brasil e escrito quando o autor, médico legista americano Frederick Zugibe, tinha 76 anos, aponta a causa: parada cardiorrespiratória decorrente de hemorragia, isso combinado com choque traumático decorrente dos castigos físicos a ele infligidos. Um dos médicos legistas mais respeitados do mundo, Zugibe estudou o tema durante quase meio século e escreveu três livros e mais de dois mil artigos. Para chegar a conclusão da causa da morte, ele utilizou uma cruz de madeira nas medidas que encontrou nos seus estudos: 2,34 metros por 2 metros). Ele selecionou voluntários para serem suspensos e monitorou eletronicamente cada um deles. “Foi como se eu estivesse conduzindo uma autópsia ao longo dos séculos”, escreve Zugibe na introdução do livro. Trata-se de uma viagem pela qual ninguém passa incólume – sendo religioso, agnóstico ou ateu. O ponto de partida é o Jardim das Oliveiras, quando Jesus se dá conta do sofrimento que se avizinha: condenação, açoitamento e crucificação. Relatos bíblicos revelam que nesse momento “o seu suor se transformou em gotas de sangue que caíram ao chão”. Conforme relatos bíblicos, Jesus suou sangue. A descrição foi realizada pelo apóstolo Lucas, que era médico. Segundo Zugibe, esse fenômeno é chamado de hematidrose, raro na literatura médica. Ele pode ocorrer em pessoas que estão sob forte estresse mental, medo e pânico. As veias das glândulas responsáveis pelo suor se comprimem até se

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romperem e o sangue se mistura, sendo expelido pelo corpo. Os voluntários do teste, entre 25 e 35 anos, foram ligados a instrumentos para testar o estresse e os batimentos cardíacos. Todos observaram que era impossível encostar as costas na cruz. Eles sentiram fortes cãibras, adormecimento das panturrilhas e das coxas e arquearam o corpo numa tentativa de esticar as pernas. Zugibe analisou três teorias principais sobre a causa da morte: asfixia, ruptura do coração e choque traumático e perda de sangue. A teoria mais propagada é a da morte por asfixia, mas ela jamais foi testada. Essa hipótese sustenta que a posição na cruz é incompatível com a respiração, obrigando a vítima a erguer o corpo para conseguir respirar. O ato se repetiria até a exaustão e ele morreria quando não tivesse mais forças. Quanto à hipótese de Cristo ter morrido de ruptura do coração ou ataque cardíaco, Zugibe alega ser muito difícil que isso ocorra a um indivíduo jovem e saudável, mesmo após exaustiva tortura. Ele prefere apostar no choque causado pelos traumas e pelas hemorragias. A isso somaram-se as dores provenientes dos nervos medianos e plantares, o trauma na caixa torácica, hemorragias pulmonares decorrentes do açoitamento, as dores da nevralgia do trigêmeo (semelhantes a um choque elétrico no rosto) e a perda de mais sangue depois que um dos soldados lhe arremessou uma lança no peito, perfurando o átrio direito do coração. Para Zugibe, a causa da morte foi “parada cardíaca e respiratória, em razão de choque traumático e perda de sangue resultante da crucificação.”


Especial - PÁSCOA

RENAN KUBOTA / FOLHAPRESS

#quaresmaFIT Período entre o Carnaval e a Páscoa é usado para fazer dieta e aumentar a intensidade da atividade física, seja por motivos religiosos ou não

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qui e ali, no Instagram e em blogs, surge um novo incentivo para a dieta. Ele tem uma roupagem tradicional, embora siga todos os preceitos de uma dieta da moda: é a “Quaresma Fit”. A proposta é aproveitar os quarenta dias da Quaresma para segurar a balança e liberá-la devidamente na Páscoa. Hashtags como #páscoasemculpa e #quaresmafit pululam em redes sociais. O mais comum é que os adeptos cortem pão, bebida alcoólica, doces e carnes (exceto peixe), em uma vaga referência ao jejum cristão desse período, mas há quem aproveite o período para seguir dietas da moda, que proíbem glúten, por exemplo. “Isso tem sido bastante comum no consultório. Os pacientes chegam dizendo: ‘A minha Quaresma vai ser cortar o pão’”, diz a nutricionista Adriana Kachani, do Hospital das Clínicas da USP. A bancária Maria Clara Dias, 32, está de dieta desde janeiro, mas sabia que a Páscoa seria a primeira grande provação. “No Carnaval, perdi mais quilos do que ganhei com a cerveja, mas na Páscoa a conta não fecha, é uma festa parada e glutona”, diz ela. Sem esperanças de autocontrole diante dos ovos, apelou para um grupo de ajuda no WhatsApp. Ela e as primas enviam fotos das refeições junto a estímulos. Nenhuma delas pretende jejuar de verdade. “Meu jejum vai ser de jacas [gíria para deslizes na dieta]”, brinca. Diferentemente de Maria Clara, o analista de sistemas Francisco Cadamuro, é católico. Ele sempre seguiu a Quaresma por motivos religiosos. Há dois anos, entrou em um regime rigoroso e perdeu 33 quilos. Desde então, as Quaresmas aliam sacrifício religioso a um ganho de saúde. “Corto carne, bebidas gaseificadas e álcool”, diz ele, que intensifica a rotina de exercícios no período. No domingo de Páscoa, Maria Clara pretende comer “todos os ovos a que tenho direito”. Já Francisco quer se manter firme. “Vou comer, mas sem exageros”, diz. Intercalar períodos de privação com bonança é sabidamente um gatilho para compulsões alimentares. Mas muito antes das dietas entrarem em voga, o calendário religioso já propiciava essas variações bruscas. “Comida é cultura. O contexto em que algo é feito é tão importante quanto o que ingerimos”, diz o nutrólogo Celso Cukier. Para ele, restrições religiosas, desde que não sejam radicais, não provocam o mesmo efeito rebote de uma dieta estética. “Se a intenção não é ficar magro, e sim fazer um sacrifício, a atenção se volta para outra coisa. No caso de uma dieta de emagrecimento, só se pensa em comida e no próprio corpo”, diz Cukier. Quem segura a vontade para liberar tudo na Páscoa, no entanto, está

O analista de sistemas Francisco Cadamuro intensifica os cuidados com a dieta e a rotina de exercícios na Quaresma gestando um efeito sanfona. “A pessoa restringe a comida rapidamente. Isso funciona, ela emagrece, as células de gordura ficam vazias. Quando chega a comida, no entanto, essas células se enchem o máximo que podem”, explica. Quando uma célula de gordura chega a seu limite, novas células são geradas. Por isso que, uma vez tendo engordado, é cada vez mais difícil permanecer magro: ex-gordos têm mais células de gordura no corpo. Na tradição católica, a Quaresma é o período de purificação entre os excessos do Carnaval e a Páscoa. “Sou judia, mas acho que aproveitar a Quaresma para fazer dieta e emagrecer é um empobrecimento da religião católica”, opina a nutricionista Adriana Kachani. “Uns poucos católicos ainda observam essa data, retiram algum prazer mundano”, explica o filósofo Luiz Felipe Pondé. A proposta seria comer pouco e em horários regrados, rezar bastante e meditar sobre os pecados. Para ele, a “Quaresma Fit” se enquadra em um processo de comoditização dos valores religiosos, que são esvaziados e diluídos em artigos para o consumo. “A ideia original é se purificar reprimindo um desejo, mas isso foi substituído por uma mera suspensão de consumo. Não vou comer doces, isso é Quaresma. Não funciona assim. Ou talvez funcione, mas só para um ‘selfie’ mais magrinho”, diz. Juliana Cunha / Folhapress.

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A revista de Lauro de Freitas & Região

Nossa Opinião

A batalha pela ‘manada’ nas redes sociais

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creditar é quase sempre uma necessidade – independentemente dos fatos. O comum dos cidadãos busca o conforto das certezas absolutas, as que trazem um horizonte previsível e reasseguram o próprio ego. É assim que acreditamos no que precisamos acreditar e não necessariamente no que é verdadeiro. Por vezes a necessidade de acreditar está ligada ao comportamento de manada ou “efeito adesão”, na terminologia psicológica. A crença em fatos ou boatos, conceitos ou ideias aumenta na proporção do número de pessoas que já tiverem embarcado na tendência. Quem não sabe com firmeza aonde ir, vai para onde a boiada for. Os arquétipos que povoam o imaginário vão frequentemente habitar uma realidade alternativa muito particular, ditando certezas que dificilmente serão abaladas. É por meio deles, manipulando as vontades, que a publicidade, por exemplo, cria a necessidade de consumo de determinados produtos – inclusive candidatos a cargos públicos. O advento do marketing político brasileiro, na primeira campanha de ACM ao governo da Bahia, introduziu os arquétipos e a necessidade de acreditar numa seara até então dominada pelo debate, pela informação na perspectiva jornalística – sem redes sociais nem grupos de Whatsapp para disseminar credos. O governador biônico da ditadura militar deu lugar a um eleito vendido como arquétipo de Oxumaré – o multifacetado, ao mesmo tempo furioso e bondoso. A manipulação das percepções fez escola e deixou verdadeiras receitas de bolo: o “foi Maluf que fez” da campanha de 1992 em São Paulo seria livremente adaptado 38 | Vilas Magazine | Março de 2018

para um “foi Roberto que fez” na campanha de 2007 em Lauro de Freitas. O resultado não foi o mesmo – mas porque do outro lado também havia “marqueteiros”. Os produtos políticos competem não pelo voto, mas por tempo de televisão nas campanhas – um ambiente controlado que favorece a criação de necessidades e credos junto às massas. Este ano a batalha pela manipulação da vontade alheia vai acontecer principalmente no Facebook e no Instagram, territórios eminentemente selvagens sob controle

alega ainda que a mudança visa combater as “fake news” – ou notícias falsas, termo cunhado pelo atual presidente dos Estados Unidos para adjetivar toda e qualquer notícia que não o agrade. Consistindo numa contradição em termos – se é falso não é notícia, mas boato – a formulação revela ciência. Uma conselheira de Donald Trump já justificou inverdades ditas pelo presidente como sendo “fatos alternativos” – derradeira expressão da necessidade de acreditar.

STEPHEN LAM / REUTERS / FOLHAPRESS

BOATOS DE FACEBOOK O jornal Folha de São Paulo, o de maior circulação no país e que tinha o maior número de seguidores no Facebook, decidiu no mês passado que deixaria de publicar na rede de Zuckerberg. A Folha sublinha que a decisão de Zuckerberg apenas favorece a boataria na rede – já que a informação passa a chegar à timeline preferencialmente por iniciativa dos “amigos” de cada um, e não das páginas das empresas de comunicação. O problema é que os “amigos” tendem a publicar e replicar boatos, sem qualquer preocupação com a verificação dos fatos. Basta que a “sensacional revelação” atenda o credo particular de quem publica. Nem a decisão de Zuckerberg nem a reação da Folha estão descoladas da disputa em torno do Instant Articles – um espaço em que o Facebook gostaria de enfeixar todos os veículos de comunicação, fornecendo jornalismo aos usuários da rede. A ideia poderia separar a boataria da informação, mas a Folha, obviamente, quer ser paga pelo que produz. Zuckerberg vê uma vantagem absoluta na mídia que é o Facebook e quer pagar nada pelo conteúdo de jornalismo.

Mark Zuckerberg, do Facebook: menos noticiário profissional na timeline

de Mark Zuckerberg, um bilionário norteamericano, mas também no Twitter, plataforma igualmente estrangeira. Alegando que deseja favorecer a interação entre as pessoas que usam o Facebook, Zuckerberg decidiu mostrar menos noticiário na “timeline” de cada um e mais postagens dos “amigos” – nome dado à coleção de contatos que o usuário mantém na sua página de perfil. O empresário


A Folha acusa o Facebook de estimular uma dinâmica de “autorreferenciamento”, sendo o usuário sempre apresentado a ideias que ele já apoia e a verdades em que ele já acredita, cultivadas pela sua própria rede de “amigos”. Sem espaço nesse universo alternativo, o contraditório passa a ser encarado como ofensa, em posições extremadas pelo reforço contínuo das verdades particulares. Essa é a dinâmica já presente no Whatsapp, onde pessoas com verdades afins se comunicam para reafirmar, alimentar e retroalimentar as suas próprias certezas absolutas. É um espaço em que o contraditório está banido. Qualquer tentativa de racionalização é mal recebida porque provoca desconforto na medida em que nega atendimento à necessidade de acreditar – seja no que for. Mais selvagem ainda, o Whatsapp é terreno que não obedece a algoritmos, não está sob supervisão e ninguém decide o que chega prioritariamente à tela do celular. É nesse ambiente que melhor proliferam os boatos. O distinto público pode até saber perfeitamente bem o que é fonte credível e o que não é. Apenas escolhe acreditar no que, para seu conforto, precisa acreditar. Quem acredita em “correntes do bem” destinadas a ajudar um menino que tem a saúde em risco está exercitando mecanismo de recompensa a si mesmo: faz bem ser bom e fazer o bem. É confortável acreditar que R$ 100 de contribuição salvarão uma vida. E quando for revelado que aquilo não passava de um golpe para arrecadar dinheiro, muita gente se negará a crer. Do outro lado desse fenômeno há os produtores de boatos, que nem sempre são mal intencionados. A disseminação de plataformas de comunicação, em redes sociais, comunicadores instantâneos e mesmo por meio dos velhos blogs convenceu muita gente de que poderia produzir informação para consumo público. Confundindo comunicação social com conversa de mesa de bar, crescente número de pessoas denomina de “matéria” qualquer texto que publica – ou envia aos veículos de comunicação. O fenômeno transparece, por exemplo, em vídeos oferecidos por populares às emissoras de televisão. O telespecta-

dor não se contenta em filmar o flagrante e fornecer os dados básicos: ele narra a cena por conta própria, entrevista passantes, opina e produz um simulacro de matéria, imitando o que vê na televisão e ignorando que raramente o que está à vista reflete a verdade do fato. EDUARDO ANIZELLI / FOLHAPRESS. DIGITAL

Rosental Alves, do Centro Knight pa­ra o Jornalismo nas Américas: mais informação tem resultado em menos pessoas infor­ma­das CACOFONIA A democratização da comunicação também veio dar voz a comunidades e segmentos da sociedade que nunca tiveram espaço e que usam as plataformas de forma responsável e consciente, além de competente. O problema é separar as iniciativas legítimas das que estão a serviço da desinformação, deliberadamente ou não. Nesse sentido, a distribuição de peças publicitárias travestidas de jornalismo, como se matérias fossem, em blogs e nas redes sociais, concorre para desacreditar a comunicação popular autêntica e as iniciativas profissionais alternativas. No limite, a cacofonia atinge também os veículos de comunicação tradicionais, que passam a competir por credibilidade com a boataria reinante. Rosental Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, lembra uma pesquisa Gallup-Knight Foundation mostrando a queda de credibilidade na imprensa daquele país. Para 79% dos americanos entrevistados, “uma notícia verdadeira que

deixe mal um político ou um grupo político é sempre ou às vezes” falsa, sublinhou. “Que mundo é este em que o jornalismo luta para sobreviver e a sociedade não acredita que uma notícia verdadeira seja verdadeira?”, questionou. Rosental, especialista em meios digitais há mais de 20 anos, falava na abertura do 2º Encontro Folha de Jornalismo, no mês passado, em São Paulo. O mundo que o acadêmico estranha está permeado pela boataria, oferecida e consumida em variado menu, conforme a necessidade de reafirmação das certezas de cada um. “Saímos da era dos meios de massa para entrar na era da massa de meios, onde cada um de nós pode formar audiências”, disse – o drama é que “mais informação tem significado menos pessoas informadas”. A desinformação assume formas perigosas quando o boato nas redes sociais, por exemplo, desaconselha a vacinação contra a febre amarela – como tem ocorrido mais recentemente. Não é verdade que a vacina seja nociva. Todos devem se vacinar. Mas combater a boataria é tarefa de que nem os profissionais dão conta. O FBI, dos Estados Unidos, equivalente à Polícia Federal no Brasil, indiciou no mês passado um grupo de russos acusados de disseminar boatos para influenciar a eleição presidencial e favorecer o atual presidente. E já avisou que esperam novas ações nas eleições legislativas deste ano. A batalha da desinformação política nas redes sociais é cada vez mais intensa também no Brasil. O pico da boataria atingido em 2014 promete ser superado este ano, com novos exércitos de “influenciadores digitais” a serviço dos partidos, tanto para criar ilusões positivas a respeito de uns, como para difamar outros. O gerenciamento profissional de perfis falsos nas redes sociais também trabalha o comportamento de manada. Daí, inclusive, a importância de publicar ou não pesquisas de intenção de voto, principalmente mais perto do dia da eleição. A “manada” tende a aderir ao candidato que está melhor colocado, independente de quaisquer fatos. E não há nada que você possa fazer sobre isso – a não ser a sua própria parte, informando-se da verdade.

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q CIDADE

Especial - 8 de março | Dia Internacional da Mulher

É elogio, cantada ou assédio?

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Toda a manifestação grosseira ou insistente é considerada assédio

esde que casos de assédio sexual ga nharam espaço na mídia, especialmente por envolver celebridades, surgiu uma dúvida entre muitas pessoas: é elogio, cantada ou assédio? Para especialistas, elogios e cantadas podem ser considerados assédio se o autor não der ouvidos ao “não” da mulher ou ao simples fato de ela ignorar o que ouviu. O assédio se configura, principalmente, quando o objetivo do autor é de satisfazer seus desejos sexuais. O assédio sexual não é paquera nem elogio. É uma manifestação grosseira, independente da vontade da pessoa a quem é dirigida e que pode ser configurado como crime, dependendo do comportamento do assediador. Assobios, comentários de viés sexual, olhares e até mesmo contato indesejado são con-

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siderados crimes pela Constituição. Em geral, enquadram-se como importunação ofensiva ao pudor. Esses casos se referem ao assédio verbal, ou seja, cantadas e ameaças. Se comprovada e prática, os autores são condenados e multados. A pesquisadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam), Tânia Fontenele, explica que é importante destacar a noção de que esses comportamentos são desrespeitosos e não confundir com elogios. “Na nossa cultura, essa atitude já está tão naturalizada que as pessoas fazem como se não fosse nada. Não importa a roupa que você esteja vestida, essa postura é absolutamente detestável e não podemos admiti-la”, ponderou a especialista. Um levantamento do projeto Think Olga com 7.762 mulheres constatou

que 99,6% das entrevistadas já foram assediadas. Cerca de 98% delas relatou que a cantada ocorreu na rua, e 64%, no transporte público. Para 83%, a situação é desagradável. Por vezes, esse comportamento é minimizado e confundido com elogio. Contudo, a pesquisadora Tânia Fontenele, explica que essa noção é falaciosa. “Não podemos achar que isso é natural ou que esse tipo de comportamento seja elogioso, pois é absolutamente vazio. O que acontece é uma perpetuação de preconceitos machistas, o indivíduo se sente no direito de fazer o que quiser.” Quando um assédio ocorre em local público, especialista recomendam que a mulher, se for possível, dê um grito de alerta para que as pessoas ao redor percebam o que está ocorrendo e que possam ser testemunhas na delegacia. É importante, também, nos demais casos de assédio, que a mulher recolha o máximo de informação sobre o assediador, como sinal físico, tatuagens e roupas e, se for possível, que comprove com grava-


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ções, e-mails ou mensagens, aquilo que vem sofrendo. AS PENALIDADES De acordo com o artigo 216 do Código Penal, o assédio sexual caracterizase por constrangimentos e ameaças com a finalidade de obter favores sexuais feita por alguém normalmente de posição superior à vítima. A pena é de detenção e varia entre um e dois anos, caso o crime seja comprovado. A mesma legislação enquadra como Ato Obsceno (artigo 233) quando alguém pratica uma ação de cunho sexual (como por exemplo, exibe seus genitais) em local público, a fim de constranger ou ameaçar alguém. A pena varia de 3 meses a um ano, ou pagamento de multa. PAQUERA OU ASSÉDIO? Conforme artigo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), quando um homem tem interesse em conhecer uma mulher, ou elogiá-la, ele não lhe dirige palavras que a exponham ou a façam sentir-se invadida, ameaçada ou encabulada. Caracteriza-se como assédio verbal (artigo 61, da Lei das Contravenções Penais n. 3.688/1941), quando alguém diz coisas desagradáveis ou invasivas (como podem ser consideradas as famosas “cantadas”) ou faz ameaças. Apesar de ser considerado um crime-anão, ou seja, com potencial ofensivo baixo, também é considerado forma de agressão e deve ser coibido e denunciado. O assédio gera constrangimento e outros impactos psicológicos, como insônia, depressão, aumento de pressão arterial, dor no pescoço e transtornos alimentares (com aumento ou perda de peso).

A conquista sem assédio Psicóloga conta como o assunto é tratado em Portugal e dá dicas

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ma troca de olhares, um comentário simpático e o início de uma conversa, se a mulher der abertura, é o caminho para um homem não correr o risco de ser ser enquadrado como um assediador. O problema do assédio é um fenômeno mundial reporta a psicóloga portuguesa Raquel Martins Ferreira, da cidade de Oeiras, distante cerca de 20 quilômetros de Lisboa. Assim como no Brasil, em Portugal, explica Raquel, o assédio fica configurado quando há abordagens inconvenientes ou insistentes, perturbando a dignidade e a liberdade da pessoa alvo. “Existem vários tipos de assédio e todos são baseados no princípio de perseguir ou forçar alguém

a fazer algo contra a sua vontade. Cada vez mais se ouve falar no tema assédio e isso sensibiliza as mulheres e homens para o que se deve fazer quando acontecem estes casos. Antigamente, muitas pessoas tinham medo de falar e expor a situação por vergonha. Hoje em dia isso ainda acontece, ainda existe vergonha em denunciar estes casos, principalmente no trabalho, onde as pessoas têm medo de perder o emprego”, afirma. As cantadas em Portugal são chamadas de “engate”ou “flirt” e são consideradas grosseiras quando o homem diz para a mulher algo como “és mesmo boa, oh boa, que corpo, nem sabes o que te fazia e afins”, conta Raquel, salientando que “estas afirmações e comentários são muitas vezes extremamente ofensivos e desconfortáveis para quem os ouve”. Aquela olhada fixa, insistente, também pode causar desconforto. “É considerada como uma falta de respeito. No

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entanto, é raro alguém fazer uma queixa contra esse tipo de comportamento. Normalmente as pessoas seguem o seu caminho, ignorando os olhares.” Raquel explica na tentativa de um homem conquistar uma mulher, caso não haja reciprocidade e ele seja insistente, isto passa a ser assédio. “Aqui em Portugal, uma boa forma de começar uma conversa, de forma educada e respeitosa é ‘Olá, te achei muito bonita. Será que podemos conversar um pouco?’. Se a pessoa estiver interessada tudo bem. A partir daí podem começar uma conversa e até se conhecerem melhor. Caso contrário, cada um segue o seu caminho. Se o mesmo não acontecer e a pessoa continuar insistindo sem a outra pessoa querer, isto poderá dar origem a uma queixa de assédio”, explica. A psicóloga conta que o mais comum entre os portugueses é a chamada “flirtada”. “A verdade é que as mulheres portuguesas são, na sua maioria, mais reservadas e a abordagem tem de ser diferente”, diz. O início de um relacionamento, seja ele com intenções mais duradouras ou apenas passageira, tem mudado com o passar do tempo e com as novas tecnologias. Segundo Raquel, as redes sociais se tornaram um canal cada vez mais usado. Nelas, contudo, valem as mesmas regras da vida física, ou seja, o assédio também está presente e um homem pode ser alvo de uma denúncia e vai acabar tendo que responder por isso na esfera judicial.

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As formas de violência Saiba identificar quando uma mulher está sendo vítima de violência

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iolência contra a mulher é qualquer conduta, ação ou omissão de discriminação, agressão ou coerção, ocasionada pelo simples fato de a vítima ser mulher e que cause dano, morte,

constrangimento, limitação, sofrimento físico, sexual, moral, psicológico, social, político ou econômico ou perda patrimonial. Essa violência pode acontecer tanto em espaços públicos como privados. O Conselho Nacional de Justiça, que desenvolve dentro dos seus programas e ações, um voltado específicamente sobre a violência contra a mulher, relaciona os casos que podem ser enquadrados como transgressão. Consulte os casos na página seguinte:


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VIOLÊNCIA DE GÊNERO – Violência sofrida pelo fato de se ser mulher, sem distinção de raça, classe social, religião, idade ou qualquer outra condição, produto de um sistema social que subordina o sexo feminino. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – Quando ocorre em casa, no ambiente doméstico, ou em uma relação de familiaridade, afetividade ou coabitação. VIOLÊNCIA FAMILIAR – Violência que acontece dentro da família, ou seja, nas relações entre os membros da comunidade familiar, formada por vínculos de parentesco natural (pai, mãe, filha etc.) ou civil (marido, sogra, padrasto ou outros), por afinidade (por exemplo, o primo ou tio do marido) ou afetividade (amigo ou amiga que more na mesma casa). VIOLÊNCIA FÍSICA – ação ou omissão que coloque em risco ou cause dano à integridade física de uma pessoa. VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL – Tipo de violência motivada por desigualdades (de gênero, étnico-raciais, econômicas etc.) predominantes em diferentes sociedades. Essas desigualdades se formalizam e institucionalizam nas diferentes organizações privadas e aparelhos estatais, como também nos diferentes grupos que constituem essas sociedades. VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR/VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – Acontece dentro de casa ou unidade doméstica e geralmente é praticada por um membro da família que viva com a vítima. As agressões domésticas incluem: abuso físico, sexual e psicológico, a negligência e o abandono. VIOLÊNCIA MORAL – Ação destinada a caluniar, difamar ou injuriar a honra ou a reputação da mulher. VIOLÊNCIA PATRIMONIAL – Ato de violência que implique dano, perda, subtração, destruição ou retenção de objetos, documentos pessoais, bens e valores. VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA – Ação ou omissão destinada a degradar ou controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de outra pessoa por meio de intimidação, manipulação, ameaça direta ou indireta, humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ou ao desenvolvimento pessoal. VIOLÊNCIA SEXUAL – Acão que obriga uma pessoa a manter contato sexual, físico ou verbal, ou a participar de outras relações sexuais com uso da força, intimidação, coerção, chantagem, suborno, manipulação, ameaça ou qualquer outro mecanismo que anule ou limite a vontade pessoal. Considera-se como violência sexual também o fato de o agressor obrigar a vítima a realizar alguns desses atos com terceiros. Consta ainda do Código Penal Brasileiro: a violência sexual pode ser caracterizada de forma física, psicológica ou com ameaça.

Agressor deve pagar pensão Isto acontece quando a mulher não tem como se sustentar

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falta de renda para se sustentar, no caso de ter que se afastar de um marido agressor, faz com que muitas mulheres acabem se sujeitando a conviver com quem não respeite seus direitos. A desembargadora Ana Maria Amarante, atualmente lotada na 1ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, e que já foi coordenadora do Movimento Permanente de Combate à Violência Doméstica e Familiar do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), explica que a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) garantiu, como uma das medidas protetivas, a prestação de alimentos à mulher em situação de violência doméstica e dependente financeiramente do agressor. A decisão fica a cargo do juiz que avaliará o pedido encaminhado pela polícia. Após prestar queixa da situação em uma delegacia ou posto de atendimento especializado da mulher mais próximo de sua casa, a polícia tem 48 horas para abrir um inquérito e requerer uma medida protetiva para a vítima de agressão. O juiz examinará o pedido encaminhado e, também no prazo máximo de 48 horas, deverá deferir ou não o pedido. O juiz pode determinar que o agressor pague provisoriamente pensão alimentícia à companheira que tem, também, o direito de ser encaminhada a uma Casa Abrigo, caso esteja em situação de risco de morte. As Casas Abrigo acolhem mulheres em situação de violência doméstica e familiar e seus filhos menores de idade quando há grande risco para a integridade física da mulher. “Vale lembrar que a permanência nas

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q MODA & ESTILO

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“A violência doméstica é uma triste tradição”

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Casas Abrigo é temporária. Durante o período que precisar ficar lá, a mulher deve reunir condições para retomar o curso de sua vida”, afirma Ana Maria. O juiz também pode determinar que a mulher seja incluída em programas de assistência mantidos pelo governo, como o Bolsa Família, programas de cesta básica, além de garantir vaga em escolas e creches para seus filhos (principalmente, quando todos são obrigados a sair de casa e mudar para outro lugar, em outro bairro, por exemplo). Medidas protetivas de urgência são aquelas adotadas em casos em que a vítima corre sério risco de ser agredida ao voltar para o domicílio após a denúncia. Entre os exemplos de medidas protetivas estão a obrigação de que o suspeito da agressão seja afastado da casa ou do local de convivência da vítima; a proibição de que o suspeito se aproxime ou que mantenha contato com a vítima, seus familiares e testemunhas; a obrigação do suspeito em prestar alimentos para garantir que a vítima dependente financeiramente não fique sem recursos; e a suspensão temporária de contratos de compra, venda ou aluguel de propriedades que sejam de posse comum.

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afirmação e da desembargadora Ana Maria Amarante, atualmente lotada na 1ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), e que já foi coordenadora do Movimento Permanente de Combate à Violência Doméstica e Familiar do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Ela destaca que isto não ocorre apenas no Brasil, mas em escala mundial. “Ela é perversamente democrática, pois não distingue classes sociais. Pobres e ricos maltratam suas mulheres e a matéria demanda uma abordagem multidisciplinar, inclusive com enfoque educacional, para tentar acelerar a mudança de uma mentalidade arraigada há milênios. No TJDFT há um programa muito bom: ‘Maria da Penha vai à escola’, com palestras para jovens, nas escolas, feitas por magistrados que atuam nos Juizados de Violência Doméstica”, relata. Como a violência doméstica envolve sentimentos arraigados, segundo Ana Maria, nem sempre uma medida protetiva é freio suficiente para conter as agressões. “A jurisprudência é bastante severa com a manutenção de prisões em flagrante ou preventivas, com poucos habeas corpus deferidos, pois não basta alegar que é pessoa que trabalha e que tem bons antecedentes”, ressalta. Uma das grandes preocupações, revela, é a possibilidade da soltura de quem ameaçou de morte uma esposa ou companheira. “Mesmo considerando que a pena pelo crime de ameaça pode ser até menor do que o período de prisão provisória, o fato é que o sujeito tem ficado preso mesmo. Todavia, como esses casos tramitam em segredo de justiça, o efeito inibidor de uma boa publicidade não é muito ponderável não. Se pudéssemos alardear mais os casos de prisão, quem sabe os homens poderiam ver que a impunidade está acabando e que as mulheres estão acreditando que vale a pena buscar a Justiça”, alerta. COMO DENUNCIAR As mulheres que sofrem violência podem procurar qualquer delegacia de polícia. A mulher que sofreu violência pode ainda procurar ajuda nas Defensorias Públicas e Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, nos Conselhos Estaduais dos Direitos das Mulheres e nos centros de referência de atendimento à mulheres. Se for registrar a ocorrência na delegacia, é importante contar tudo em detalhes e levar testemunhas, se houver, ou indicar o nome e endereço delas. As mulheres também podem usar o Ligue 180, o disquedenúncia, para receberem orientações.


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Uma nova mulher é possível

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s mulheres conseguiram Estudiosa muitas conquistas através do universo de lutas travadas durante feminino explica vários anos e agora chegou o momento de aproveitar as oportunicomo conquistar dades. A doutora em educação e mais espaços estudiosa do universo feminino, há pelo menos duas décadas, Alice Schuch, defende que chegou a hora do nascimento de uma nova mulher. Autora do livro “Mulher: Aonde vais? Convém?”, Alice argumenta que “a nova mulher não vai construir a sua história com brigas e disputas”. Segundo a pesquisadora, o caminho agora é tomar conta dos espaços conquistados a partir da capacitação profissional. “A responsabilidade de cada uma de nós é com o próprio crescimento. Nós mulheres temos inteligência. Temos tudo. O Século XXI é uma benção para nós. As mulheres, que ficaram em segundo plano por muitos e muitos anos, hoje vivem uma nova realidade. Muita coisa mudou”, argumenta. Para Alice, as chances de progredir socialmente e profissionalmente existem em um cenário mais favorável. “Hoje, as leis estão a nosso favor. É verdade que ainda temos um resto histórico de conformação, de subalterna. Essa acomodação precisa e deve acabar. Precisamos tomar conta desse espaço que foi criado por nós mesmas”, diz. Mas como começar a trilhar esse novo caminho? Para Alice tudo começa com o estudo e qualificação profissional. Para

ela, a mulher também deve ter em mente que necessita conquistar a sua independência econômica. “Precisa ter um salário que a permita se sustentar. A partir deste ponto, deve se capacitar optando por uma atividade que esteja ligada a um dom. Quando criança, nós damos sinais daquilo que gostamos mais de fazer e os pais devem ficar atentos e incentivar, proporcionando atividades e qualificação voltadas para esse dom. As chances de uma mulher obter sucesso em sua vida aumentam muito quando ela explora seu dom”, afirma. Alice destaca que até os doze anos, a criança incorpora para si o destino imposto ou o exemplo de vida praticado pelos pais. “Depois ela não consegue retomar a sua total independência de decisão. A partir dos 18, já jovem adulta, fixa aquele modelo familiar e social”. “O ideal é a independência na escolha de onde se quer chegar, desenvolvida a partir das aptidões individuais. Cada pessoa é um projeto único. Nem sempre as pessoas vivem de acordo com um projeto de vida ou planejamento pessoal. Todos nós nascemos com um dom, mas não seguimos ou não lapidamos. Deixamos o destino nos levar. Então, para o nascimento desta nova mulher é necessário repensar a vida e fazer um planejamento traçando um plano para atingir cada objetivo”, resume.

Evento esportivo só para elas Dia 11 será realizado, na Praia de Ipitanga, um evento esportivo voltado exclusivamente ao sexo feminino, celebrando o Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março. Com percurso de quatro quilômetros, a corrida tem largada marcada para as 7h30, em frente ao Centro Pan Americano de Judô, indo até a Praia da Aleluia e retornando ao ponto de partida, onde se encerra. Inscrições – limitadas a 300 participantes na faixa etária de 12 a 85 anos – podem ser feitas na loja Santana Sports, localizada em frente aos Correios, no Centro de Lauro de Freitas, de 5 a 10. As 200 primeiras inscritas ganharão camisetas alusivas ao evento. Para participar do evento, promovido pelo professor Ribeiro, candidatas devem levar, no ato da inscrição, uma lata de leite em pó integral ou um saco de leite desnatado, que será doado para a Accabem - Associação Casa de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes.

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MATEUS BRUXEL / FOLHAPRESS

q EMPRESAS & NEGÓCIOS

Profissional esclarece: gorjeta não é receita da empresa Empresas que contabilizaram esta receita como parte do seu faturamento, e pagaram tributos sobre o montante total, podem pedir restituição do que foi pago indevidamente

E

m maio do ano passado, a Lei 3.419/2017, normatizou um tipo de pagamento bastante comum no dia a dia das pessoas: a gorjeta. “Ela continuou sendo um pagamento espontâneo do cliente ao empregado do estabelecimento visitado”, esclarece o advogado Raul Monegaglia. “No entanto, promoveu uma alteração do porcentual da gorjeta que deve ser revertido em encargos trabalhistas e pontuou como deve ser a divisão deste valor entre os funcionários”. Para Monegaglia, mesmo com a Lei, ainda restou uma dúvida comum entre as empresas que recolhem gorjetas – esclarecida posteriormente e de maneira expressa – na Medida Provisória nº 808, de 14 de novembro de 2017: a gorjeta deve ser incluída no faturamento da empresa? “O artigo 457, no parágrafo 12, esclarece a dúvida: a gorjeta não constitui receita própria dos empregadores. Destina-se aos trabalhadores e será distribuída segundo os critérios de custeio e de rateio definidos em convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho”, esclarece o advogado. Na prática, deve assim funcionar: a receita obtida por meio do pagamento de gorjetas não deve ser incluída no faturamento da empresa, mas sim, contabilizada à parte. É um valor sobre o qual incide INSS: empresas optantes pelo Simples pagam 20% de imposto sobre a verba arrecadada. As demais, 33%. De acordo com o advogado, as empresas que até então não contabilizavam a verba de gorjeta separadamente – e a 46 | Vilas Magazine | Março de 2018

incluíram no faturamento da empresa – pagaram impostos indevidos. “A recomendação é que procurem apoio jurídico e contábil e peçam a restituição destes valores. Além de ser um direito, pode ser uma verba interessante para promover pequenas melhorias na empresa”.

Raymundo Dantas Escritor e palestrante, especializado em Marketing no Varejo, com Mestrado na Espanha. E-mail: raymundo_dantas@uol.com.br

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Os 5 sentidos na venda

omentamos aqui, na edição de fevereiro, sobre a “experiência do produto”, essa possibilidade de o cliente poder pegar o produto, vê-lo “ao vivo”, experimentá-lo, esse grande diferencial que o ponto de venda sempre terá em relação às vendas por Internet. Pois bem, a vantagem da experiência do produto vem do fato de que as compras são, como sabemos, muito mais emocionais que racionais. Há um impulso em direção à mercadoria, que define a compra. Esse impulso, que é emoção, é provocado por circunstâncias as mais diversas, que podemos conhecer e administrar, aumentando as vendas.

Vamos partir do princípio de que a experiência do produto se dá através dos cinco sentidos de que dispomos: visão, audição, olfato, tato e paladar. É por aí que entra o estímulo que vai gerar o impulso da compra. Então, nada mais lógico do que prestarmos muita atenção, no ponto de venda, para atiçarmos sempre o uso dos sentidos do cliente. O paladar, por exemplo. Nos supermercados todos já conhecem a importância da degustação de produtos para o incremento de vendas. É grande, e precisa ser cada vez maior, o número de demonstradores que oferecem degustação nos pontos de venda. Ali o cliente exercita seu paladar, prova o produto gratuitamente, pode analisar seu sabor,


Qual é a diferença entre preço e valor? xiste uma grande confusão entre os significados de valor e preço. São duas coisas completamente distintas no mundo das negociações. Quando se fala em valor de determinado produto, as pessoas imediatamente remetem para o gasto, ou seja, para quanto estão dispostas a desembolsar. E é aí que está o X da questão: dinheiro está relacionado a preço e não a valor. O valor só existirá se o produto ou serviço apresentar algum benefício ao cliente. Certo dia, ouvi de um cliente que o produto dele era de grande valor, porque permitia ‘isso e aquilo’. Quando terminou de falar, tive de dizer a ele: “seu produto não tem

valor algum”. Depois de assustá-lo, expliquei que, na verdade, o produto dele tinha características que poderiam significar potenciais benefícios, mas que esses benefícios teriam que ser percebidos pelos clientes, e não por quem estava vendendo. Assim, o valor não é próprio do produto, mas é algo dado a esse produto pelo comprador. Para algumas pessoas, esse sentimento é mais forte ou mais necessário que para outras. Alguns pagam, por exemplo, R$ 1.000 em uma garrafa de frisante, pois enxergam os benefícios em desembolsar essa quantia. Apenas quando consegue enxergar esse valor, o cliente terá a sensação de que a aquisição, independentemente do preço, foi um bom negócio. É nesse momento que o vendedor tem uma enorme importância, já que é papel dele entender e mostrar que as características do produto se conectam às necessidades do com-

prador, para que ele dê seu valor ao objeto e não tenha o preço como empecilho na hora de escolha. Para isso, ouvir e identificar as necessidades do cliente é fundamental para a venda, pois muitas vezes ele vem com a ideia pronta, quer o produto, porém não o adquire por achar muito caro. Muitas vezes, isso acontece, entre outros fatores, porque as necessidades do cliente não foram identificadas corretamente. Sendo assim, vendedores e líderes de equipes devem sempre lembrar-se de um caminho muito importante para a concretização do negócio: primeiro, ouçam o comprador, identifiquem suas necessidades, e então as relacionem com as características do produto. Somente assim, o cliente poderá enxergar, de fato, o valor de sua aquisição.

sua consistência. Se o produto é mesmo bom, certamente será comprado, talvez naquele momento, talvez em outra oportunidade. De qualquer modo, o fato é que o consumidor já conhece o produto, gostou do seu sabor, por que irá “se arriscar”, comprando um outro produto similar que nunca consumiu? O mesmo acontece com a audição. O povo costuma dizer que as pessoas “se emprenham pelo ouvido”, não é verdade? Que significa isso na linguagem popular? Significa que uma coisa dita com segurança, e que inspire confiança, normalmente é acreditada. Um bom jingle no rádio, por exemplo, pode levar ao desejo de consumir o produto. Uma boa música ambiente, cria um clima propício. Mas uma informação bem passada pelo vendedor, no ponto de venda, pode definir a compra. A visão talvez seja o sentido mais importante. Podemos explorá-lo de várias maneiras. A indústria, aliás, já procura utilizar toda a sua criatividade no próprio desenvolvimento dos produtos: desde o design, até a embalagem, tudo é previsto com a intenção de causar um impacto

estético à visão do consumidor. No ponto de venda, entretanto, podemos ajudar esse trabalho com a correta utilização de decoração, espelhos, cores e tudo o mais que possa excitar os olhos. As cores são um capítulo à parte no encantamento visual. Elas provocam determinadas emoções, que podem ser utilizadas favoravelmente. O vermelho, por exemplo, atiça a fome, o verde cria tranquilidade no ambiente, o cinza passa credibilidade, seriedade, dourado evoca nobreza, para os itens mais sofisticados do seu mix, e assim por diante. Saber usar as cores na decoração é um reforço para produzir as emoções desejadas. O tato tem sua grande importância nas decisões sobre produtos que necessitam de adequada textura, temperatura ou, por exemplo, riqueza de detalhes. Além disso, o toque é psicologicamente muito ligado à ideia de posse. Assim, tocar um produto já significa um desejo de possuí-lo. Preste atenção, quando o cliente se dirige a uma determinada mercadoria e a toma nas mãos é porque desejou tê-la. A não ser que

alguma coisa o tenha desagradado pela visão (peso, formato, preço, etc.), a compra é certa. Por isso devemos estimular o cliente a pegar o produto com suas mãos, aumentando a chance da venda. E não esqueçamos também o olfato, que é decisivo, quer para criar uma boa percepção do ambiente físico (limpeza, higiene do ponto de venda e dos empregados), quer para a venda de toda a linha de produtos. Que produtos? Os de perfumaria e de limpeza, por exemplo, mas não apenas esses. É o cheirinho que vem do forno, por exemplo, que cria o desejo de comprar pão. Já o odor da peixaria ou do açougue dá a vontade de comprar seus produtos, ou traz completo nojo da mercadoria ali exposta. Por tudo isso é que precisamos estar atentos, fazendo do ponto de venda um lugar de boas emoções para todos os sentidos do cliente. Pois quanto mais emoções, mais desejos. Aliás, até Roberto Carlos sabe disso!

Mário Rodrigues

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Mário Rodrigues é diretor do Instituto Brasileiro de Vendas (IBVendas) - www.ibvendas.com.br

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ESPAÇO ABERTO

O Povo Pediu no Carnaval de 2018 Nelson Pretto

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á pelo final dos anos 70 do século passado, um grupo de músicos se reuniu com muitos outros amigos e amigas e, juntos, começaram a ‘cantar para seus males espantar’. Tudo começou com a ideia de construir um pequeno trio elétrico, um artefato sonoro-musical, para Lula Gazineu tocar. Estávamos em 1978. Nascia, assim, pelo menos na ideia, o trio de nome Sarigão, movido pelo slogan-bordão: “O Povo Pediu, o Sarigão saiu”. Como o tal Sarigão nunca saiu das nossas cabeças, restou somente O Povo Pediu. Vale lembrar que o nome e o slogan foram criação de Ciro Boy – Ciro Baptista D’Orleans e Bragança, poeta e matemático, como ele se autointitulava à época. Puxados por Lula Gazineu, Tito, Quito, Ciro Boy, Mara Bu, Dilase, Mara, Palito e tantos outros, foram juntando uma verdadeira malta de gente a celebrar a alegria e o Carnaval. Mas não só o Carnaval. Bastava ter um motivo e lá íamos nós celebrar o Dia de Reis, Réveillon, São João e tudo mais que permitisse uma ou muitas folias. Os ensaios – que nome pomposo para os nossos encontros de pura imO Povo Pediu desfilou no Carnavillas, em Vilas do Atlântico, resgatando as marchinhas dos antigos carnavais. A comunidade pede que a apresentação se repita nos próximos anos.

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provisação! – aconteciam na casa de um ou de outro, nos bares, na rua, em qualquer canto... e o grupo foi crescendo e, mais que de repente, decidiu-se encarar o Carnaval de 1979. Em um dos encontros, na barraca da Valdete, em Piatã, chegou-se à conclusão de que aquele grupo, que atendia por Regional, ficaria, de fato e de direito, denominado O Povo Pediu. Batizado feito, chegou a hora de designar o local do encontro, horário de saída – horário esse nunca cumprido –, e a composição de uma música para ser o enredo do novo bloco. Prontamente recorremos ao grande poeta Zé Enrique Barreiro, que criou, em parceria com Lula Gazineu, a primeira composição autoral d’O Povo Pediu. É deles, portanto, a autoria de nosso hino, linda poesia e melodia a embalar, desde então, nossas folias. Isso tudo “porque cantar nos encanta, porque este amor nos uniu. Porque a força foi tanta, porque o Povo Pediu”. Logo em seguida, Gazina e Zé Enrique lançaram o manifesto indicando que “o Carnaval é de todos e todos estão ao meu lado”. Depois veio A Roda, que “é um laço, corrente de aço que fecha o prazer”. Gileno Félix Antônio Menezes botaram O Povo para pedir um beijo. As músicas foram se sucedendo. Pura beleza e poesia.

Mas para O Povo sair também precisava de um ponto de apoio para os esquentas e criações de cartazes: inicialmente, meu ap no Canela, casa de minha mãe, e depois no edifício Pedra da Sereia. Pura folia a alegria aqueles encontros! Não sabemos de quem foi a ideia de sair do Pé do Caboclo, no Campo Grande, decisão muito acertada. Afinal, o Carnaval ainda era com banquinhos e cadeiras nos passeios da Av. Sete. Sair dali em direção à Castro Alves era, portanto, abrir “oficialmente” o Carnaval, já que estávamos apenas na sexta-feira. Falar hoje, de apenas na sexta feira, parece brincadeira. Havia também a nossa porta-estandarte, a querida Mara Bu, que já nos deixou. Sertaneja, grande, braba e destemida, acumulava as funções de porta-estandarte e segurança. Depois de Mara, vieram Diana e Linda. Embalado no repertório autoral e com a filosofia de cantar marchinhas de antigos carnavais e sátiras, o Povo foi aglutinando participantes e admiradores-seguidores. Como o Carnaval foi se agigantando, a saída passou a ser nas quintas-feiras, ainda do Pé do Caboclo. Mara Bu vacilou e só chegou na sexta-feira, atrasada. Gileno não perdoou, e mandou um ‘Mara Bu’, com direito a coro e tudo. Mais uma música passou a integrar o repertório d’O Povo Pediu. O trajeto inicial era do Campo Grande até o Beco da Maria Paz, onde acontecia a Lavagem do Beco. Como, sem se saber


por que, a lavagem parou de ser realizada, e lá foi o bloco descer a Ladeira de São Bento para chegar ao pé do poeta, na Praça Castro Alves. Não era um percurso fácil. Consumida maior parte do tempo para chegar do Caboclo à antiga Manon, na esquina da Casa de Itália, só restava aos músicos puxar um Corre Corre Lambretinha para dar uma acelerada e, quem sabe, chegarmos inteiros à Piedade. Haja fôlego! O tempo foi passando, o Carnaval mudando e se eletrificando cada vez mais. O Povo começou a sua peregrinação por novos locais para as saídas. Já esteve no Pelourinho, no Campo Grande (só que em direção ao Garcia), no Rio Vermelho, entre outros tantos lugares. Mas o Povo Pediu não para e, alcançado novos voos, este ano esteve no Carnavilas e na segunda-feira de Carnaval, no Recife Antigo, na Rua do Carmo, capital pernambucana, onde saiu sem corda, sem registro e com muita alegria.

Professores velhos ou idosos, tolos ou sábios? Jacira Souza

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educação transformadora está em alta no Brasil. O processo de ensino aprendizagem não é mais como você conheceu: as inovações tecnológicas que impactaram o setor educativo já são uma realidade virtual, aumentada ou mista. E, se a tecnologia em si não resolve tudo, os recursos existentes cada vez mais se aprimoram – associando as estratégias e metodologias que pressuponham que todos podem aprender em diferentes ritmos e formas – já seriam suficientes para provocar uma melhora na qualidade da educação no país. De acordo com Zanela, vemos que os instrumentos tecnológicos utilizados na educação, desde o marco da sua história estão, até hoje, em uso nas salas de aula. A visão inovadora, na comunicação e transmissão de informações, trazida pelas novas tecnologias são instrumentos importantíssimos de transformação dando-lhe “[...] um novo sentido no processo de ensinar desde que consideremos todos os recursos tecnológicos disponíveis, que estejam em interação com o ambiente escolar no processo de ensinoaprendizagem” (Zanela, 2007. p.26). Entendo que hoje não faltam recursos, mas pessoas que abram a mente para mudar a forma. Ainda hoje diretores e coordenadores encontram dificuldades em lidar com as resistências de alguns professores que não conseguem mudar suas práticas educativas por conta das demandas que vem encontrando nos recursos tecnológicos em sala de aula. O mundo tecnológico deixa o professor assustado. Muitos insistem em utilizar métodos tradicionais de ensino por não saberem lidar com novos instrumentos tecnológicos. “[...] o homem está irremediavelmente preso ás ferramentas tecnológicas em uma relação dialética entre a adesão e a critica ao novo”. (Paiva, 2008. p.1). É preciso que o profissional educador faça uma reflexão sobre sua prática ou como ele se

encontra no momento atual em sua carreira, decidindo entre ser velho ou idoso quando posicionar suas práticas como professor em sala de aula. Conceituo idoso como uma pessoa que tem bastante idade. Já o conceito de velho vem de uma pessoa que diz que conhece tudo, já sabe de tudo e diz que não precisa aprender. Aí basta reproduzir o já se faz. Então professor você é velho ou idoso? Se você se considera um profissional já com um bom tempo de carreira, com experiência na área da docência, caberá aqui outra reflexão; você é um professor sábio ou tolo? Encontrei um conceito que considerei legal para o significado de tolice: “Tolice é fazer as coisas do mesmo modo e querer resultados diferentes”. E, entre outros conceitos, “sabedoria é o dom que nos permite discernir qual o melhor caminho a seguir, a melhor atitude a adotar em diferentes contextos que a vida nos apresenta”. A educação que transforma é aquela que é seguida de perto, acompanhada passo a passo na construção do conhecimento do aluno e isso se faz com o foco na eficácia do projeto da escola. A gestão precisa ser pedagógica, centrada na sala de aula e observando o processo de ensino aplicado pelo professor para uma aprendizagem mais significativa para o aluno. No caso de se tratar de um professor, precisaria compreender quais experiências historicamente tem sido bem sucedidas e quais se mostraram eficazes, pois nem tudo que é eficiente é eficaz mas, com certeza, tudo que é eficaz foi eficiente ao fazer. Então, precisamos ficar distante do velho/ tolo para sermos professores idoso/sábios. REFERÊNCIAS ZANELA, Mariluci. O Professor e o “laboratório” de informática: navegando nas suas percepções. 43f. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007. (p. 25-27). BELLONI, Maria Luiza. Educação a Distância. 2.ed. São Paulo: Editora Autores Associados, 1999. (p.53-77). PAIVA, Vera Lúcia Menezes de Oliveira. O Uso da Tecnologia no Ensino de Línguas Estrangeira: breve retrospectiva histórica. Disponível em <www. veramenezes.com/techist.pdf> acesso em 2 ago. 2008.

JACIRA SOUZA é diretora pedagógica do Colégio Pirâmide, de Lauro de Freitas (souzajacira@yahoo.com.br)

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q VIVER BEM

Tratamento de fungo nas unhas pode demorar mais de um ano Cuidados de higiene são essenciais para evitar a onicomicose. Idosos são os mais atingidos pela doença

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descaso no cuidado com as unhas pode causar a proliferação de fungos, o que acarreta uma onicomicose, tipo de micose que atinge 20%

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da população mundial, segundo estudos médicos. Além de causar desconforto, a doença ainda pode levar mais de um ano para ser tratada. “O paciente tem que ter

muita disciplina no tratamento, pois o fungo é um organismo muito resistente”, diz a podóloga Cristina Lopes. “Os fungos fazem parte da microbiologia do nosso organismo. Em alguns momentos, a gente passa por período de diminuição da imunidade, dando ambiente propício para os fungos crescerem de maneira desordenada. E o tratamento é lento e difícil, precisa de paciência”, afirma o dermatologista Claudio Wulkan, da Sociedade Brasileira e Americana de Dermatologia.


Entre os fungos no corpo humano, a onicomicose é a segunda que mais aparece, ficando atrás da frieira, que, aliás, quando malcuidada, pode se espalhar pelas unhas. “A unha do pé cresce um milímetro por mês, quatro vezes mais devagar que a das mãos. Por isso. acaba sendo mais com uma doença nos pés”, afirma o médico. A prevalência é maior em pessoas mais idosas, pois o fluxo sanguíneo é menor, criando uma situação onde o fungo cresce com facilidade. “Em criança é mais difícil pegar. A unha cresce mais rápido, tem circulação melhor, além da mãe, que fica ‘em cima’”, diz Wulkan. Alguns cuidados simples são bastante eficientes para evitar a doença. “O fungo gosta de um ambiente mais quente, úmido e escuro. Então, quando se usa um calçado fechado, com meia, por exemplo, aumenta a possibilidade de o organismo se instalar no pé”, afirma a podóloga Cristina. Especialistas também falam que receitas milagrosas não existem. “O tratamento é feito com medicamentos por via oral”, diz Wulkan.

DICA Fungos gostam de ambientes quentes e úmidos. Por isso, quem tem o costume de usar o mesmo sapato por vários dias seguidos está mais sujeito a pegar micose nos pés. A doença pode afetar o espaço entre os dedos (criando a frieira, o pé-de atleta ou a tinha), ou pode prejudicar as unhas, obrigando a fazer um tratamento que leva meses. “Não há um limite de dias em que o mesmo sapato pode ser usado, mas o indicado é sempre variar e deixá-los arejando”, diz o dermatologista Claudio Wulkan. Março de 2018 | Vilas Magazine | 51


Jaime de Moura Ferreira Ad­mi­nistrador, consultor organizacional, professor universitário, escritor, ambientalista, sócio fundador do Rotary Club Lauro de Freitas. E-mail: jamoufer@hotmail.com

Viver na sombra

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uitos seres humanos, nas diversas atividades da vida, começam imitando outros, o que é normal. Assim, aproveitam e vivenciam os conhecimentos e experiências de terceiros, até construírem seus valores individuais. Quando esses buscam a sombra para se protegerem dos elementos da natureza (sol, chuva, vento forte, raio, etc.), tudo bem, pois reconhecem a superioridade dessas forças. Porém, procurarem se esconder, eternamente, na sombra de outro ser humano, é lamentável. Segundo Friedrich Nietzsche (15/10/1844 – 25/8/1900) filósofo e escritor alemão: “se se quer ser alguém, deve venerar-se a própria sombra”. A sombra vem a ser a região escura formada pela ausência da luz, que muitas vezes decorre da intermediação de um corpo. Dessa forma, aqueles que continuam se usufruindo da luz que não é própria, dificilmente vão ter representatividade, pois se manterão na sombra projetada pelo corpo, que não é o seu. Verifica-se que, quanto maior a dimensão de um corpo, mais amplo será o bloqueio da passagem da luz. Por essa razão, existem seres humanos que não costumam transferir suas luzes para terceiros, transformandose em pessoas opacas. Não se pode considerar essa atitude como egoísta, porém defensiva, afinal,cada um deve lutar pela sua claridade. Leonardo da Vinci, gênio da Antiguidade (15/4/1452 – 2/5/1519) escreveu: “jamais o sol vê a sombra”. A sombra pode ser de diversos ta52 | Vilas Magazine | Março de 2018

manhos e depende da luz que a ilumina. Assim, cada pessoa possui sua sombra, de acordo com o seu evolutivo. No entanto, viver na sombra dos outros é uma deterioração do caráter humano. O correto seria a pessoa viver com sua própria luz e sombra. Buscar descobrir a centelha luminosa que existe no seu interior e tornar seu futuro iluminado, através da sabedoria e conhecimentos adquiridos. Cada pessoa deve evitar a limitação pelas suas desesperanças e desesperos e tentar evoluir na espiritualidade, que é a grande força para essa claridade. A ajuda e cooperação de outro ser, inicialmente, para adquirir sua luz, criar sua própria sombra e sair das trevas é natural e aceitável. No entanto, cada um deve utilizar suas energias e talentos, exaustivamente, para procurar a luz da sua verdade e da sua existência. A escuridão decorre dos maus pensamentos, atitudes negativas, imobilismo e ações depreciativas, que afetam sentimentos e pensamentos e tiram a luz dos seres humanos. Esses, até podem trabalhar e aprender com outros, sem, contudo, viver em suas sombras. A sombra, também, pode ser definida como solidão. O ser humano incapaz de produzir, viver com valores éticos e morais elevados e sem ter a representatividade social, absorve a ignorância transcendental, que lhe compromete a capacidade de buscar a verdade e a sabedoria. Assim, confunde autoridade material com autoridade espiritual, deixando de trazer para si o que lhe é de maior importância, a luz. Então, busca viver na sombra dos outros e, consequentemente, na solidão. Esse ser, primeiramente, deveriam pensar

na necessidade de suas mudanças. Geralmente, o ser evoluído tenta ajudar aqueles que estão em sua sombra a buscar a verdade e a sabedoria, não com simples conselhos, mas com atitudes permanentes. Muitas vezes não consegue seu intento, pois os que vivem em sua sombra não aceitam evoluir e preferem manter-se sugando, como plantas daninhas. São os travadores do crescimento. Pior, é quando se busca a sombra de pessoas desumanizadas, consideradas de procedimentos incorretos e que procuram o poder, de qualquer forma, sem cumprir as leis e orientações sociais. Nesse caso, os seres humanos que vivem nessas sombras, não adquirirem sua iluminação própria, serão sempre dependentes e se propõem a viver, eternamente, nas trevas. Ainda existem aqueles que demonstram e informam que seus conhecimentos foram adquiridos de outros. Muito normal, pois todos nós chegaremos à evolução, através de diferentes fontes. Esses que assim se comportam merecem parabéns! O que se lamenta e parece não percebido pelos que vivem na sombra de outros, é o desgaste desses seres, quando descobertos, perdendo, inclusive, sua credibilidade para o grupo que lhe acolhe. Então, segue um conselho para quem está começando: busque sua luz própria. Não deixe que o tempo a modifique, para pior. Procure sua evolução. Faça sua escolha certa, sem querer enganar alguém. Deixe sua marca, perante os outros, pois seu tempo, no universo vivente, poderá ser curto.

Vilas Magazine | Ed 230 | Março de 2018 | 32 mil exemplares  

Vilas Magazine | Ed 230 | Março de 2018 | 32 mil exemplares

Vilas Magazine | Ed 230 | Março de 2018 | 32 mil exemplares  

Vilas Magazine | Ed 230 | Março de 2018 | 32 mil exemplares

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