victor tufani
imagens, causos e mentiras
friedrich nietzsche
Falar muito sobre si pr贸prio tamb茅m
pode ser um meio de se ocultar.
parte 1 metrô Victor entrou no metrô, exausto com a semana que se arrasta. “Acordei cismado que hoje era sexta, mas ainda é quinta!”, pensou. São 7 e meia da noite, uns 35 graus de temperatura e o vagão de um lado aceso e outro apagado, tão cheio que as pessoas parecem só peitos, ombros e cabeças emergindo da penumbra. Olhando pra baixo nem dá pra ver direito os próprios pés. Olha em volta, um senhor à sua frente, uns 50 anos, mulato calvo, de bigode e cavanhaque discretos. O homem o encara de frente e ele tem a sensação de que poderia ser aquele homem dali a uns 20 ou 30 anos. Poderia ser ou gostaria de ser. O homem tinha realmente uma cara simpática. Abaixa os olhos na direção da camisa do velho. Uma polo azul, desbotada, e no bolso um emblema escrito “AB K LOS ANGELES”. “Essa sigla parece não fazer sentido nenhum”, pensa. O metrô dá um solavanco, umas senhoras mais atrás dão uns gritinhos, pegas pelo susto. O homem simpático abre os olhos e diz baixinho, com uma voz grave: “Olha o acidente...”. Em seguida, percebendo que está sendo observado, dá um sorrisinho. Pra fugir das cotoveladas de uma senhora que vai desembarcar, Victor resolve virarse de frente para os fundos do vagão, agora mais iluminado — o metrô saiu do túnel para a superfície. Então ele
ABK
LO S
ANG
ELES vê, de perfil, uma figura que, pensa, podia ter saído de um quadro de Boticelli. “Talvez aquele... Como chama? Madona não-sei-o-quê. Deixa, não lembro do nome de nenhum quadro dele”. Era mesmo uma figura incomum. De perfil, no meio do vozerio e dos ombros das outras pessoas, dava pra ver o nariz, perfeito, o rosto cheio de sardas, cabelo ruivo. Ela se estica, deve ter no máximo 1,60m de altura. Põe os fones de ouvido e ele continua fitando-a sem piscar, como que para gravar aquele perfil que talvez nunca mais veja igual. “Quando chegar em casa vou escrever sobre isso aqui”.
fim da parte 1 3
parte2saudade Uma vez eu li um livro em que o autor contava o que lembrava da própria infância, passada numa fazenda em Besançon. As minhas lembranças de infância são quase todas filmes curtos sem diálogo. Só pensamentos e cenas que começam e terminam assim de repente. Algumas lembranças verdadeiras, passadas do meu próprio ponto de vista, outras em parte imaginadas, em que eu sou observador de mim mesmo — o que seria impossível, né. Observador de mim mesmo... Nessas memórias o autor contava que “rolava na grama”. Não recordava mais nada de interessante, só isso, um dia em que ele rolou na grama. Talvez ele também tivesse essa cena inventada na cabeça, vendo a si mesmo rolar na grama, recordando a sensação que o tempo não deixou sair dele. Quando eu volto nas lembranças o máximo que consigo, geralmente lembro do meu primo jogando uma caixa de brinquedos no chão, no quintal da minha avó; depois ele arrancando um pedaço do reboco da parede velha e comendo. Lembro do meu avô apontando uma bicicleta pendurada no teto do barraco que ficava nesse quintal, e do dia em que eu consegui andar pela primeira vez de bicicleta sem rodinha. Lembro dele chegando do trabalho, assobiando na porta. Lembro de quando a gente sentava na porta de casa pra olhar os carros passando. E de quanto eu perambulei com ele a caminho da escola, da banca de jornal, da quitanda na rua de cima, ou no dia em que ele me levou no trabalho. E quanto também perambulei com a minha avó, com meu tio, meus pais, meu primo Ricardo, que não era primo de verdade, mas era “de consideração”. Os filminhos mais vivos da minha infância são ambientados na casa desse primo, em Paty do Alferes. Eu lembro de subir até a copa da goiabeira nos fundos da casa, e ver lá de cima onde todo mundo
edaduas2etrap
estava escondido no “pique-esconde”. De sentar na varanda no fim da tarde e sentir o cheiro do mato, de a gente se esgueirar para uma parte de mata (que parecia uma floresta) que ficava logo na esquina da rua; de visitar “o centro da cidade”, pra onde se ia a pé, e às vezes descalço!, e onde havia a única academia de ginástica onde as crianças faziam natação. Lembro até do cheiro do almoço. E de rolar na grama, um montão de vezes. No ano passado eu tive um pesadelo, me perdia em Paty do Alferes. Acordei e fiquei um mês pensando em visitar aquilo tudo outra vez. Mas meu primo não vive mais lá, e nem a minha avó, que me acompanhava nessas viagens, poderia me acompanhar agora. Eu lembro com saudade dos lugares por onde eu perambulei com o meu avô, mas quantas vezes eu passei por eles de novo, e nunca mais foi a mesma coisa. Eu não tinha mais o meu avô. Na foto, o Ricardo e eu, na varanda no fim da tarde. Eu ainda lembro do cheiro do mato. 5
PAR TE3 TRA GE DIA
Eram umas 5 horas da manhã. Eu estava sentado no banco do carona ao lado do meu pai, que me levava para a faculdade, muito mais cedo do que eu jamais precisaria chegar lá. Mas ele também ia para o trabalho e a única hora em que ele poderia me dar uma carona era aquela. Eu não via nada, porque ainda estava muito escuro, e não dava atenção ao que estava do lado de fora da janela do carro. Dentro da minha cabeça, eu só ouvia a voz de um artista aposentado, de uns 70 anos de idade, imaginava aquela barba branca acompanhando os movimentos do rosto, dizendo: “O meu pai era engenheiro. Que dificuldade ele tinha pra entender que o que eu fazia tinha alguma importância! Achava que tinha tudo que ser grandioso, especial. Eu sempre fiz um monte de coisas úteis, coisas bonitas, mas ele... Ah, com aquela cabeça de engenheiro ele nunca me entendeu”. Agora eu havia chegado na universidade. Só eu e mais um funcionário com quem eu cruzei no estreito corredor que terminava num segundo, perpendicular a este: Me dirigi à direita, onde havia uma sala, provavelmente do Centro Acadêmico, com um freezer, uma mesa e uma cama de casal. Logo a seguir, a sala onde mais tarde eu teria aula, e no fim do corredor o banheiro masculino. Entrei na primeira sala e caí na cama. Tudo ainda estava muito escuro, e eu fechei os olhos.
De repente ouvi a voz dela. Não consegui ver o rosto, só os olhos puxados, brilhando no escuro, e o resto de silhueta contra a luz fraca que vinha da porta dando para o corredor. Tratava-se de uma colega que eu conhecia havia pouco tempo. Linda, uns traços orientais, voz de menina, eu sabia que ela gostava de mim e isso me fazia gostar dela mais ainda. Conversamos qualquer coisa sobre peixe, frango, sei lá. Pareceram 10 minutos de conversa em 10 segundos, e dez segundos de um beijo que eu me lembro melhor do que consigo me lembrar da conversa. Ficamos parados ali na janela e a escuridão persistia, mas agora já dava pra adivinhar que o sol ia nascer em pouco tempo. Eu conhecia o professor com quem teria aquela primeira aula pela manhã. A matéria era inglês instrumental ou qualquer nome parecido. O professor, um negro alto, uns 50 anos de idade, era mais um colega, que chegava, largava a mochila na mesa e começava a bater papo até a aula terminar. Não sei até que ponto ele considerava descartável o assunto que devia ensinar para aquele bando de universitários. Assim que ele entrou na sala eu o cumprimentei e saí, direto para o banheiro. Já havia sentido minutos antes, sentado na sala de aula, o gosto de sangue na boca. Não deu tempo de passar do corredor: Punha sangue pra fora sem parar, escorrendo em grande quantidade pelo lado direito da boca. Corri com os lábios imóveis, entreabertos, e quando cheguei ao banheiro vi em desespero meu olho direito inchar até fechar completamente. Saí outra vez pelo corredor, mal enxergando, o sangue pingando pela boca, e gritei para um gordinho com o celular na mão: “Chama uma ambulância!”. Achei que fosse uma reação alérgica, o que me dava certa calma, mas eu estava morrendo! Nessa hora eu acordei. Estava deitado de lado na cama, o rosto tão afundado no travesseiro que não consegui abrir um dos olhos. E babava em grande quantidade pelo lado direito da boca. 7
intervalo
entediantes diálogos —————————————
— Pô, mas e a Fulana, hein? A morena. Se amarra em você. — Que é isso. — É, ué. Naquele dia da conversa, tudo que você dizia ela concordava. Tá a fim. — E isso lá é sinal de alguma coisa, rapaz? — Sinal claro. Ainda por cima fica toda risonha quando te vê. — Tá doido, não vi nada disso. Ficou é de cara fechada o tempo todo. — Então tu tá cego. Porque eu vi ela se rindo toda. — Tsc. — Não faz essa careta não que você sabe que ela te quer. — Até a piada da caixa de sapato eu contei. Só ela é que não riu. — Não riu porque já conhecia o final antes de você contar. — Então! — Não viu como ela veio pra perto? Arrumava o cabelo e tudo. De mulher eu entendo. — É, isso aí eu até que percebi. — Não foi? — Tava muito arrumada também, né. Mais do que o normal. — Lógico. Já sabia que ia te encontrar por lá. — Perfumada e tudo. — E tu pensas que é à toa? — Agora você me deixou com a pulga atrás da orelha. — É coisa certa, tô te dizendo. — Até que é bonitinha também. — Jeitosinha, jeitosinha. — O que me falta é conversa... — Mais conversa do que já tem? Aí vira amizade. — É, tem razão... — O negócio é não cozinhar muito. Tem que agir logo. — Então chamo pra sair hoje à noite! — Porra, agora sim. — Deixa eu achar o perfil dela aqui. — Mas presta atenção que se não me engano ela tinha um namorado. — É mesmo? — Ou ainda tem. — E você me jogando nesse buraco? — E o cara é médico, parece. — Legal... — Ele tava lá um dia desses, veio buscar ela de carro, não sei se tu viu. — É, eu vi. — Bem apessoado... — Sei... — Haha. Sabe, né? Não dá nem pra bater de frente. — E nem quero. — É, rapaz... Então desliga isso aí. Pede mais duas cervejas pra gente. 9
...e uma história de amor TIA GUIDA
Esta é a história de amor que aconteceu com a minha tia-bisavó, Margarida Mendes. Daria uma novela, mas aconteceu de verdade. Margarida Mendes nasceu em 1900 na Vila do Conde, em Portugal. Ainda muito jovem ela conheceu um garoto chamado Manuel de Araújo, eles se apaixonaram e começaram a namorar. No entanto, o meu tataravô, pai da Margarida, tinha uma boa condição financeira — era comandante — e o garoto Manuel de Araújo trabalhava na lavoura. O pai não aceitaria nunca o casamento dos dois. Naqueles primeiros anos do século XX, a França era um país que oferecia maiores oportunidades, e Manuel foi tentar a sorte lá. Ele e a minha tia-bisavó Mar-
garida (que a minha avó, que me contou esta história, chama de “tia Guida”) foram até o Convento de Nossa Senhora das Neves, prometeram que iriam se encontrar de novo, trocaram flores (eram cravos brancos) e ele foi embora. Veio a Primeira Guerra Mundial, e um pretendente pediu Margarida em casamento. Com a guerra, ela tinha quase certeza de que Manuel, que não havia dado notícias, devia estar morto. O seu pretendente (era padrinho da minha avó, mas não perguntei o nome dele) era um cara rico, tinha propriedades aqui no Brasil, e assim a tia Guida casou-se com ele. Minha avó nasceu em 1932, também na Vila do Conde, e em 1935 ela veio com os pais, e a tia Guida com seu marido, todos para o Brasil.
Tia Guida viveu casada por 23 anos. A minha avó conta que seu marido era ótimo, fazia tudo que ela pedia, mas ela não gostava tanto dele como havia gostado do Manuel, seu namorado da adolescência. Depois desses 23 anos, o marido morreu, e a tia Guida ficou viúva por mais 5 anos. Um dia, ela sonhou com seu antigo namorado Manuel, e resolveu enviar uma carta aos parentes que haviam ficado em Portugal, pra saber se havia notícias dele. A prima dela, que recebeu a carta, sabia desde a época da Guerra que Manuel estava vivo, e tinha contato com ele, que nunca havia se casado e era então engenheiro, ainda vivendo na França. Manuel recebeu a correspondência, respondeu, e depois de déca-
to de Nsa. Sra. das Neves antes da Primeira Guerra Mundial. Eles viveram juntos por 12 anos, os mais felizes da vida da tia Guida, como a minha avó conta. Então Manuel morreu, e a tia Guida voltou ao Brasil.
das separados, os dois aos 57 anos de idade (ele nasceu no dia 20 de maio, ela no dia 20 de julho do mesmo ano), ele pediu que ela fosse à França pra se casar com ele. E ela aceitou. Ela saiu daqui em num navio festivo que levava de volta para Portugal o então presidente Craveiro Lopes, que havia feito uma visita ao Brasil. Chegando lá, ela ficou na casa dos parentes
até que fosse arranjada a viagem para a França. Manuel combinou que ela chegasse trazendo uma bandeirinha de Portugal, e ele estaria segurando uma bandeirinha francesa, pro caso de os dois não se reconhecerem mais depois de tantos anos. O reencontro aconteceu e os dois se casaram aos 60 anos de idade. Ele ainda tinha a flor que havia trocado com ela no Conven-
Aqui ela viveu por mais três anos. A minha avó disse que “ela chorava dia e noite falando dele”, e em 1975 decidiu que voltaria a Portugal, para ser enterrada junto dele em Vila do Conde, pra onde ele havia sido mandado. Assim ela fez. Morreu lá um ano depois, aos 76 anos, e foi enterrada ao lado de Manuel. Na foto, a da direita é a tia Guida, segurando meu tio no colo, cerca de 1956-57. A da esquerda é a minha bisavó Zulmira.
fim do intervalo 11
pa r t e
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Mentir é uma arte de equilibrista. Uma vez que a mentira começa, ela tem que terminar (sob pena de não ser mais mentira). Então uma boa mentira tem que ser maleável, ágil, a fim de concluir o seu percurso. O mentiroso sabe que não pode exagerar nem se deixar trair pela consciência. Sempre no topo da corda bamba, até chegar ao outro lado. Só quando o ônibus parou no ponto é que comecei a fuçar os bolsos atrás de algum trocado. Subi contando as moedas no espaço mal iluminado, então encarei o motorista — um negro velho que olhava pra mim, a mão estendida pra receber o dinheiro, um sorriso de boca fechada. O meio-sorriso me deixou à vontade o bastante pra fazer uma brincadeira que já havia feito antes em outra ocasião: Em vez de cumprimentá-lo em português, disse um sonoro “¡buenas noches!”, carregado do melhor sotaque que eu aprendi nos filmes. O motorista fechou o semblante por um instante, mas enquanto eu passava pela roleta ele sorriu mirando o retrovisor, e respondeu baixinho: “Buenas noches, garoto.” E essa seria toda a história, se um cara de uns 30 e poucos anos, sentado imediatamente atrás do motorista, não tivesse achado graça naquilo. Ele se contorceu na cadeira e começou a falar com o outro, como se eu não estivesse ouvindo: “Aí, ele é espanhol, chefe, é espanhol, hahaha.” Sorri e fui parar de pé ao lado dele, propositalmente. Então o homem me pergunta: — Aí, tu é espanhol mesmo cara? — Sou colombiano... (eu respondia sério, forçando o sotaque) — Caraca, hahaha. Que loucura, cara, colombiano... Mas tu tá fazendo o que aqui? — Moro aqui há sete “años”. A minha
mãe é brasileira. — E como você chama? (pensei num ex-colega da faculdade) — Juan Ruiz. E você? — Meu nome é André. Seguiu-se um breve momento de silêncio, talvez ele pensasse no que ia perguntar a seguir. — Em que lugar da Colômbia que tu morava? — Em Cartagena de Las Índias... — Ah, tô ligado, já ouvi falar. O que tem de bom lá? — Ora, tem praias, tem... “Bellas” mulheres, é bem parecido com o Rio, calor. — É, dizem que as mulheres de lá são bonitas mesmo... E você aqui faz o quê, é estudante? Resolvi me arriscar, pensando numa profissão diferente, mas só conseguia lembrar de uma palavra da pesquisa sobre fotografia que eu andava fazendo: “Daguerreótipo”. — Eu sou daguerreotipista. — Daguerre o quê? E é o que isso? — É como um fotógrafo, mas com um processo mais tradicional. — Aaah, sim. Tipo máquina analógica? — Sííí, exactamente. Não passei mais do que quinze minutos no ônibus, então cheguei ao ponto e me despedi do André. Ele apertou minha mão animado: “Aí, maneiro, hein, Juan! Um dia eu vou lá conhecer a Colômbia!” Descendo, agradeci (desta vez em português). O André ainda estava sorrindo sozinho, olhando pra frente. Saí do ônibus satisfeito, como o equilibrista que chega ileso ao outro lado. Subi a rua pensando nesse cara jantando com seus filhos e contando como conheceu um daguerreotipista colombiano no ônibus a caminho de casa. 13
Lembrando dos dias terrivelmente chatos em que tive que me apresentar ao “alistamento militar obrigatório”, até que vivi uns momentos. Todas as vezes em que estive no quartel, em Triagem, foram dias em que se levantava muito cedo, quase não se fazia nada, e se esperava muito tempo até sermos liberados de volta pra casa. Havia muita segregação: Parte dos garotos conversava animadamente sobre o futuro militar, tinha até quem fizesse flexões no pátio, polichinelos, coisas assim. Outra parte, dos que também queriam ser selecionados para o serviço, olhavam os primeiros e conversavam sobre como a seleção era injusta: “Tem muito peixe. Aquele moleque ali vai entrar direto hoje, não vai precisar fazer nada”. Os músicos e homossexuais ficavam afastados dos grupos, eram apontados pelos outros, não faziam nada. Outra parte conversava sobre problemas crônicos de saúde, motivo que, com sorte, os faria sair dali o mais rápido possível: “Eu tenho asma”; “Ah, isso não é nada. Eu tenho uma hérnea no saco, moleque.”; “Eu tenho problema de coração, se correr muito eu morro.”; “Eu não tenho nenhum problema sério, mas como tenho acne, eu não posso me barbear todos os dias, então eles vão me liberar.” No primeiro dia um garoto chegou perto de mim, disse que morava na Tijuca e odiava as forças armadas. “Você também não acha isso aqui uma merda? Olha só pra esses caras.” Eu concordei com um aceno de cabeça e foi o bastante pra me integrar num dos grupos de conversa. O garoto que falou comigo tinha um papel de liderança: Era comunista e estudava na UERJ. Falava do comunismo e falava mal do exército. Vez ou outra algum outro garoto concordava: “Ah, cara, pode crer! Que merda esses milicos!”. Ele: “Fala baixo, cara, você tá dentro de um quartel.” Um dos soldados passava toda hora: “Tira o pé da parede! Tira o pé da parede, porra, eu vou fazer vocês limparem!” No exame físico havia duas fileiras de baias, posicionadas frente a frente, e eu via exultan-
te todos os magrelos e gordinhos sendo dispensados. Na minha vez, o médico me aprovou. Saí dali tão puto, descalço, transtornado com a cegueira (e o cinismo) do médico diante dos meus 1,70m e (talvez na época) pouco menos de 50kg, que puxei o peso (também era parte do exame) com apenas uma das mãos, enquanto segurava meus sapatos com a outra, e provavelmente devo ter sido o recordista de lá, levantando apenas alguns gramas, talvez um quilo, enquanto os demais faziam força pra levantar 30, 50, até 70 quilos. A seguir vinha o exame de vista, que fazíamos escorados numa parede a cerca de um metro e meio de um quadro de oftalmologista, com letras que diminuem de tamanho linha a linha. O garoto ao meu lado, visivelmente nervoso, era o próximo: “Tampa o olho direito! O direito, cidadão! Não, é o outro! Isso. Agora lê ali aquela primeira letra.” Era ridículo, a gente tinha que ler a maior letra de todas à distância de três passos, que espécie de exame de vista era aquele? A letra era um enorme “M”. Mas o garoto disse baixinho: “É dáblio”. Olhei pra ele, espantado. O médico ficou calado por alguns segundos, talvez pensando se havia ouvido direito. “Qual a letra, cidadão?” “É dáblio, senhor.” “Lê essa porra direito, guerreiro! Tu tá enxergando algum dáblio ali?” O garoto, em desespero: “É dáblio, senhor, é dáblio!”. “Tá bom. Pode ir pra lá por gentileza. Próximo!”.
parte 5
O QUARTEL Depois de cada dia de apresentação (devo ter ido mais de dez vezes ao quartel), todos se reuniam no pátio, e um dos soldados chamava os garotos, nome a nome, para que pegassem de volta o CAM, o papelzinho onde eram marcados os avisos de dispensa ou a próxima data de apresentação. Um rapaz parado na minha frente pede ao garoto do lado: — Aí, cara, eu tenho um probleminha de surdez, então quando ele chamar RENATO GOMES DA SILVA você pode me avisar? Eu não estou conseguindo ouvir daqui.” — Claro, pode deixar, eu te aviso. O soldado começa: “RENATO GOMES ...” — Ali, cara, é você, é você! —... MADEIRA. — Ah... Não, não, espera. O último nome é diferente. Mas porra, é parecido hein, hahaha. Teu irmão, cara, só que ele é o madeira e tu é o táuba! Depois de muitas idas ao quartel, e de ter passado por todos os testes e todas as entrevistas, em que fomos inquiridos sobre hábitos alimentares, consumo
de drogas e relações homossexuais, eu tinha certeza de que, contra minha vontade, eu seria convocado para 10 meses de serviço militar obrigatório. Até que meu pai conseguiu, por intermédio de um amigo, que eu conversasse com um tenente, num quartel diferente do que eu ia sempre. No dia marcado, acordei às 5h da manhã e me dirigi pra lá, acompanhado pelo meu pai, até entrar na sala do tenente. Apertei a mão, sorri: “Bom dia!”, eu tinha certeza de que aquele homem ia me liberar da obrigação. Então ele remexe uns papéis na mesa e diz, sem me olhar: “Olha, Victor, eu tô vendo aqui que você tem 17 anos, já está matriculado na universidade, e isso é muito bom. Você sabe, hoje as forças armadas não querem mais saber de nenhum garoto perdido, a gente quer gente como você, que tem propósito, rapazes assim que já estão encaminhados na vida...” Ele queria dizer que gente obediente se dá bem no quartel. “Pensa direitinho, rapaz. Olha, se você vier pra cá, você deixa de ser civil. Também não vai entrar como recruta porque tem curso superior. O soldo é alto, você entra, treina e deixa o tempo passar, só isso. O dinheiro cresce e daqui a pouco você vai ser tenente. Sabe o que que é isso? É outro status, cara. Vai comer mulher pra caralho.” Depois disso ele me dispensou. Eu fui assistir a uma palestra dada por um major. Talvez o tenente tenha lido na minha expressão a falta de vontade e o terror que significaria pra mim passar 10 meses em serviço militar, porque no fim da palestra, um rapaz veio correndo: “Victor, o seu CAM!”. Uma assinatura e um aviso de dispensa. Fui só mais uma vez ao quartel. 15
FIM