O SILÊNCIO
Existe um alfabeto do silêncio, mas não nos ensinaram a soletrá-lo. Frequentemente, a leitura do silêncio é a única durável, talvez mais que o leitor. Roberto Juarroz
Mas o que é o silêncio? Tacere → silêncio verbal, e Silere → tranquilidade, ausência de movimento e de ruído.
“Silere é uma espécie de virgindade intemporal das coisas, antes de nascerem ou depois de desaparecerem”.
O silêncio é a forma mais acabada de se aproximar de Deus e de sua criação. O silêncio coincide com a aparição do verbo: começa a linguagem, o ato da fala (locutio).
Deus “em si” é pureza, claridade, bondade e silêncio. Jacob Boehme (1575-1624)
Seu silêncio o torna incognoscível, estado sem paradigma, sem sinal. Para se manifestar, Deus cria um contrarium de si mesmo, representado na Cabala pelos 7º Sephiroth Deus começa a falar através de sophia.
O tema do silêncio está sempre ligado ao da palavra. Todos têm direito ao silêncio, mas nem todos à palavra. Entre os gregos havia uma palavra para indicar esse direito: isegoria - outro nome para democracia - direito para todos de falar na assembléia.
Problema sempre atual, o direito à palavra relaciona-se diretamente ao direito à expressão. E o direito ao silêncio, quem reclama?
Para Tímon, o cético, o silêncio – aphasía (ciência do tacere) é • uma atitude psicológica - diz respeito à alma; • uma atitude lógica - diz respeito à postura diante das “verdades”; • uma postura ética - visa obter repouso ataraxia. Recusa-se à fala sistemática e dogmática, mas nem por isso é um silêncio só da boca, mas também do pensamento e da razão.
Obaluaiê é o deus do silêncio entre os africanos – senhor da terra e da morte, coberto por um filá de palha (mistério).
Obaluaiê apresenta pelo silêncio, o que realmente importa: a vida.
O deus do silêncio entre os gregos é Harpócrates (Hoor-po-krat-ist, ou pequeno Hórus) representado como uma criança com um dedo na boca. Harpócrates é decorrente do deus egípcio, Hórus , filho de Isis e Osíris
Hórus é o deus que causa de toda geração, de toda natureza, e de todas as forças dos elementos e como tal ele precede todas as coisas e abarca todas as coisas em si mesmo.
“Silêncio não é mutismo, mas um outro falar”.
Sartre
Fala → trampolim para o silêncio Silêncio → trampolim para a sabedoria.
Na música tacet (calar-se em latim) corresponde ao silêncio de um instrumento ou de uma voz, como parte de um trecho musical.
Taceo → Tacere → tácito (ser implícito, prudente, calado).
“Somos uma ilha de carne cercada de silêncios por todos os lados”. Samuel Beckett
Em nosso corpo, habitam muitas vozes, ecoam sons vindos de todas as partes do interior da gente. Só através do silêncio poderemos ouvir todas elas. O ruído e os rumores não facilitam em nada o curso do rio. São pedras que impedem a passagem, mas que nos servem para meditar sobre a força e o fluxo das passagens.
Para penetrar nos mistérios da comunicação, silenciar...Sentir o expressar de cada fagulha desse som erudito. A mesma regra vale para aprender sobre os silêncios do corpo e suas falas
O silêncio do corpo fala por expressões e gestos.
Cada expressão pode indicar uma fala; cada gesto um pedido, uma recusa, uma aceitação; um olhar geralmente diz tudo: é um sinal com muitos discursos.
Um silêncio contém mais palavras do que muitas imagens. Jean Yves Leloup
Há certamente algo inexpressível. Ele se mostra, é o elemento místico. Aquilo que não se pode falar deve-se calar. L. Wittgenstein
O que (pode ser) de mais completo que o silêncio? Honoré de Balzac
Pra que falar? Mas, para que calar? Não existe ouvido para nossa palavra. Mas tampouco há ouvido para nosso silêncio. Ambos se alimentam unicamente entre si. E às vezes intercambiam suas zonas, como se quisessem amparar-se mutuamente. Roberto Juarroz
Texto: “Frasementos poéticos” - Gustavo de Castro e Silva Imagem: O silêncio – Fernand Khnopff Música : Boadicea – Enya