Skip to main content

Athanazildo, ou simplesmente Tanah

Page 1

CULTURAMA

Ano 1 - Nº 1 - Abril/2011

oé Ser palhaço irnaã! brincade lena Conheça He aça Figueira, palh profissional

rrêa o C h a Tan sua fala de o e çã dedica arte amor a

Criminal história d D: a santista qo rapper Hip Hop ue tem na veia! Você sabia que Santos tem um Museu da Imagem e do Som? Confira!

Teat E +: cinem ro ama dor, a cu l t ,m para todo úsica s ouvi dos! os


PINGUE-PONGUE VAGNER LIMA

Athanazildo, ou simplesmente Tanah Tanah Corrêa desempenha vários papéis em seu dia a dia. É ator, diretor de teatro e cinema, roteirista, pai e, aos 70 anos, ele tem muita história para contar.

22

Vagner Lima Athanazildo Corrêa Neto, ou simplesmente Tanah Corrêa, é um santista de coração. Nascido em Bauru, veio para Santos ainda criança. E foi nesta cidade que começou os primeiros passos em sua premiada carreira de ator e diretor. Tanah vem de uma família na qual a arte era apresentada às crianças no meio das brincadeiras, e assim também criou seus filhos: levando-os consigo para atrás das coxias. Ao longo dos seus 70 anos de vida, dirigiu premiadas peças de teatro, fez participações em filmes e telenovelas como ator e diretor, trabalhou com gente como Plínio Marcos e Regina Duarte, dirigiu a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente, foi secretário de Cultura de Santos e membro da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura. Nessa entrevista, concedida gentilmente em seu apartamento na Ponta da Praia em Santos, que tem uma privilegiada vista de toda a orla Santista, Tanah fumou três cigarros durante mais de uma hora de conversa, e relembrou - com uma memória afiada - entre outras coisas, como foi ser convidado para dirigir uma peça de Mirian Rios, ex-mulher de Roberto Carlos. Um detalhe: foi o próprio Roberto quem o convidou.

Tanah fala também do orgulho que sente do filho e também ator Alexandre Borges, conhecido por suas atuações em telenovelas da TV Globo, e da honra de ser homenageado e virar tema de enredo da escola de samba santista X-9, vencedora do Carnaval 2011. Você nasceu em Bauru. Como veio para Santos? Fale um pouco sobre sua infância. Meus pais se separaram e a família da minha mãe tinha uma casa em Santos, então viemos morar aqui. Meu avô era uma artista múltiplo, tocava violino, cantava. Minhas tias faziam teatro em casa. Não posso dizer o quanto eles influenciaram minha carreira, mas minha família me mostrou uma bagagem que não era comum entre as famílias na época. Como você viu que queria fazer teatro, como começou na carreira? Quem começou a fazer teatro amador primeiro foi a minha irmã. Fui para São Paulo, e lá comecei a trabalhar como vendedor de livros para me sustentar. Vi no jornal um anúncio de um curso de teatro e me inscrevi aleatoriamente. Me envolvi com o grupo e foi assim que comecei no teatro.

23


Como foi sua estréia no teatro profissional? Depois de ser demitido do meu emprego na Petrobras, fui para São Paulo. Lá reencontrei amigos, inclusive o Plínio Marcos e comecei a procurar emprego. Um amigo meu estava montando uma peça chamada ‘O Santo Inquérito’, com texto do Dias Gomes, direção e adaptação do Flávio Rangel e tinha Regina Duarte como atriz principal. O Flávio estava precisando de um assistente de direção e eu fiz uma entrevista com ele. Nos demos bem, tivemos uma química e assumi o cargo de assistente. Até aí já havia feito umas quinzes peças no teatro de amadores, e essa foi minha primeira peça no teatro profissional. Houve uma época em que você tinha vários espetáculos sendo apresentados, não é? Tinha montado ‘Os Saltimbancos’ e ‘A maravilhosa estória do sapo Tarô-Bequê’ em São Paulo. O espetáculo ‘Os Saltimbancos’ recebeu convite para ser apresentado no Rio. Lá montei também um espetáculo chamado ‘Viveiro de Pássaros’, em parceria com o Braguinha, com músicas dele. Fiquei com dois espetáculos no Rio. Um dia recebi um recado para que eu ligasse para o

24

Roberto Carlos, o cantor. Eu não acreditei, achei que fosse uma brincadeira, o pessoal de teatro brinca muito. Fui até lá e o Roberto e a Mirian Rios, que na época era casada com ele, estavam me esperando. Ele me cumprimentou ‘ô bicho’, daquele jeito dele. Eu fiquei meio assustado em ver aquele ícone popular na minha frente. Eles tinham ido assistir aos meus espetáculos no Rio e queriam que eu fosse o diretor da Mirian. Ela queria escrever uma peça infatil, mas não tinha idéia de nada, nem de texto, A partir daí fizemos um estudo e apresentei para eles uma peça chamada ‘O sonho de Alice’. Eu fiz todas as letras. O Eduardo Laje e o Erasmo Carlos também ajudaram. Isso tudo foi antes da Mirian fazer televisão. Você atuou em peças do Plínio Marcos e foi o fundador do Teatro Plínio Marcos, em São Paulo. Como era sua relação com ele? Conheci o Plínio na minha juventude aqui em Santos. Ele morava a três, quatro quadras da minha casa, em um conjunto habitacional. O Plínio sempre foi uma figura meio estranha, era diferente dos outros garotos da época, se vestia mais à vontade, ia a circos, ao teatro. Tive a oportunidade de encenar a peça

Barrela em 1978, quando uma série de pessoas, encabeçadas pelo falecido Francisco Milanni, se uniram para encená-la, vinte anos após ela ter sido censurada. Eram apresentações clandestinas. Vendíamos ingressos de mão em mão e, no dia das apresentações, fechávamos a porta do teatro e só abríamos para quem estava com o nome na lista, porque ainda havia perigo de prisão.

SITE CURTA SANTOS

A maioria dos seus trabalhos é como diretor. Você prefere mais ficar por trás das câmeras? Eu não gosto de trabalhar como ator porque é um trabalho que exige uma continuação, um período de dedicação à peça. Já o trabalho de direção tem mais maleabilidade, você pode até fazer outros trabalhos ao mesmo tempo. Fiz algumas coisas como ator, mas prefiro a direção. Que trabalhos você fez na TV? Eu fiz O Rei do Gado, a primeira fase, fiz diversas participações nos Saltimabancos, dos Trapalhões, inclusive o Renato Aragão ia sempre ver a peça para adaptar para o cinema. Também fiz Mangueira, Meu Amor para a TV Brasil e A Maravilhosa Estória do

Tanah, ao lado de Alexandre Borges, um de seus dez filhos

Sapo Tarô-Bequê, para a TV Educativa. Que trabalhos você fez em cinema? Tive participações pequenas em cinema. Fiz O Invasor, Mangueira, Meu Amor, que depois foi para a televisão, fiz Um Copo de Cólera, com meu filho Alexandre e Júlia Lemertz. Como foi para você dirigir a encenação da fundação da Vila de São Vicente? A primeira foi em 1998, e depois em 2008 e 2009. Uma das

25


características do espetáculo era ser encenado durante o dia, porque São Vicente não tinha equipamentos para encenação à noite. Sugeri ao Márcio (França) que me desse o último dia da encenação de 1998 para que eu fizesse à noite e pedi os equipamentos da prefeitura de Santos emprestados. E até hoje a apresentação é feita à noite, e é um espetáculo lindo. O projeto é muito gostoso porque envolve atores e atrizes da Baixada Santista toda, muita gente participa, e os atores conhecidos que vêm se envolvem com os atores regionais. Como foi sua passagem pela Secretaria de Cultura de Santos, em 1984? Primeiro foi uma surpresa, porque eu não tinha nenhuma intenção de ter um cargo público. O meu projeto era dar mais apoio à área cultural e valorizar os talentos de Santos. Quando chegamos havia dois grupos de teatro, quando saímos havia trinta. Quando entramos, dez pessoas assistiam aos espetáculos locais, quando saímos, eram lotados. Como foi sua passagem pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura? Eu comecei na Comissão nos

26

VAGNER LIMA

Tanah falou sobre carreira e filhos

últimos dois anos do governo FHC, eu fui representando a área teatral. Quando o Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura no governo Lula, deixamos o cargo à disposição, mas o Gilberto me pediu para ir à Brasília e continuar. Fiquei mais quatro anos. Não se ganha nada, apenas uma ajuda de custo, passagens de avião, hospedagem, alimentação. Posso garantir que 98% dos projetos apresentados são aceitos, mas muito poucos são realizados, porque é muito difícil captar os recursos junto às empresas. Como o senhor vê o cenário cultural na Baixada Santista hoje? Não existe um isolamento do cenário cultural, a Baixada Santista é um retrato do cenário de todo o Brasil. Eu acho que o povo brasileiro ainda está no experimento do doce que se chama televisão. A televisão domina e

dita a linguagem da produção cultural. Isso dificulta a verdadeira importância das raízes culturais, principalmente nos estados mais urbanos. Isso é ruim para os estados menos urbanos, eles não conseguem transformar isso em consumismo, não em ação cultural. Quando não se tem um reconhecimento da identidade cultural, valorizamos mais o que é de fora. Que conselho você daria para quem quer ser ator? Abdicação, renúncia. Ser atriz ou ator não é fácil. Você vai perder festas, precisa se concentrar no estudo e na formação. Um milhão de passos começam com o primeiro. É difícil ver alguém dizendo que o pai quis que ele fosse ator ou atriz. Isso parte de você, então é preciso se dedicar para levar esse ideal adiante. Onde você acredita que há mais talentos? TV, teatro ou cinema? Talento não se encontra em um lugar específico. Mas a formação vem do teatro. É no teatro que o ator aprende a construir um personagem, onde pode esmiuçar o texto. Como seu filho Alexandre Borges começou na carrei-

ra de ator? Foi por influência sua? Tenho dez filhos, todos eles iam comigo para a coxia. Até mesmo nos espetáculos proibidos eu os levava. Não via problemas em eles ajudarem na técnica. Alexandre deslanchou depois de entrar para grupos de teatro. Quando você vê o Alexandre na televisão, o que sente? É um prazer muito grande, porque a gente vê a seriedade com que ele leva o trabalho de ator. E me surpreende como ele não se deslumbrou com a fama, com a exposição. Ele continua o mesmo, tratando o público com respeito. Como foi para você ser homenageado pela X-9? Foi uma surpresa. Na verdade eles me pediram. Fui levar um enredo e eles recusaram, porque diziam ter outro na cabeça. E esse enredo era uma homenagem para mim. Foi uma honra. Entrei na X-9 aos seis anos de idade e tenho um carinho muito grande por ela, que é minha escola de coração. Sempre torço pelas escolas de samba, elas são trincheiras na defesa da cultura brasileira.

27


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Athanazildo, ou simplesmente Tanah by Vagner Lima - Issuu