Património Artístico de Almada (IV) Texto
Imagem
Som
Boletim n.º 41 novembro 2016
ISSN: 1647-1075
Separata
Património Artístico de Almada (IV) Apresentação
Projeto Audiovisual Prof. Louro Artur
Prof.ª Maria de Lourdes Albano Presidente da Direção
No presente ano, pelos 42 anos da aprovação da Constituição da República Portuguesa, a Associação de Professores do Concelho de Almada/Universidade Sénior de Almada afirmou-se através do seu projeto associativo em expansão, nomeadamente com a inauguração da nova sede no coração de Almada como Cidade Educadora. É neste contexto que deve ser compreendida a Separata IV que acompanha o Boletim Profalmada n.º 41, novembro de 2016. Um projeto de investigação que tem por objeto o Património Artístico de Almada, da autoria do Prof. Louro Artur. O investimento na educação como capacitação é indissociável do desenvolvimento humanosocial e, por isso, requer a construção de um novo senso comum que combina em triângulo verdade-bondade-beleza porque as necessidades de subsistência e as necessidades de existência são igualmente básicas. Por isso, como consagra a Constituição de Abril, os direitos humanos de liberdade e igualdade são interdependentes, indivisíveis. Para esta utopia necessária, o voluntariado/ associativismo é a energia pessoal e coletiva que importa aprofundar e expandir. Associativismo sempre!
Pintura de Louro Artur - cúpula da Polivalente do Pragal. Fernão Mendes Pinto escrevendo a Peregrinação junto de sua mulher e filhos
Património Artístico de Almada (IV) Texto
Imagem Introdução
Som
Igreja de Sant'Iago (I) Azulejaria da Capela-mor Sigo pela Rua Henriques Nogueira, até à velha matriz de Santiago e Jardim do Castelo1. Sinto nos pés o contorno das pedras de basalto, alinhadas com a configuração da rua de sentido ascendente. O casario de dois pisos, com pequenas varandas decorativas em ferro fundido e portas de ombreiras dos finais do século XVIII, princípios do século XX. Sinais da Arte do Ferro que a Arte Nova aproveitou, são visíveis na rua em pequenos objectos artísticos de comunicação como: batentes de portas, aldrabas, batentes em forma de mãozinha, espelhos decorativos, argolas e puxadores. A chamada rua do Castelo estende-se pela colina em pedra calcária, até à entrada norte do jardim, coroada por uma entrada de escadaria dupla de pedra. Ligada a esta, um alto e forte muro ou cerca, contorna o jardim, formando um ângulo obtuso de vértice plano na sua maior altura. Acompanhando o largo da Igreja (Largo 1.º de Maio) o muro, reduz-se de dimensão ao receber a elevação, até à entrada sul do jardim e frontaria da igreja, com remate de branco em pedraria. Um imaginário efeito de beleza urbanística, num triângulo de luz branca entre o muro, ou cerca, e casa de habitação na, esquina da subida, projetada pelo arquitecto almadense José Luis Amaro2 nos finais do século XX. No topo da subida a velha Igreja Matriz reconstruida sob planta do arquiteto das obras reais, Padre Francisco Tinoco em 1724 3 Subo o largo pelo lado direito, uma placa toponímica dá-me o nome do Largo. RecorPlanta de Cruz Latina corta4 da no seu braço direito, de- do, que era aqui a moradia de um piso do pároco da igreja, seguida de muros altos que pois do terrramoto de 1755 escondiam quintais de pequenas hortas. O largo e adro da igreja outrora serviu na sua envolvência do cemitério público, que passou no século XVII para o campo de S. Paulo. junto ao convento, e aí se manteve até ao século XIX, a cargo dos frades dominicanos. (R.H. Pereira de Sousa), passando para a administração pública, com a extinção das ordens religiosas em 1834. O largo recebe outra placa toponímica com o mesmo nome, em frente à pilastra da fachada principal da Igreja, transformando-se em rua, de basalto desordenado, contornando a fachada sul até encontrar a rua do Castelo, antigo largo da Câmara. Esta rua construída depois do terramoto de 1775, reduziu a dimensão do alçado sul da Igreja, com efeitos negativos no transepto da Capela de Nossa Senhora da Conceição, reconstruida nos finais do século XVIII, revestida no seu interior por um silhar de azulejos de estilo D. Maria I. O escritor Romeu Correia, no seu livro «Homens e Mulheres vinculados às Terras de Almada», afirma que Fernão Mendes Pinto teve sepultura na Capela de Nossa Senhora da Conceição em 1583 e seu filho «ordenou cumprimento da vontade do pai e desejo de ser sepultado na mesma capela». O documento que reproduz estas afirmações, oriundo dos arquivos da Santa Casa da Misericórdia de Almada, desapareceu, assim como, os vestígios tumulares de Fernão Mendes Pinto na Igreja de Santiago. Alexandre Flores que tem estudado profundamente o autor da «Peregrinação», dá-nos outra versão do problema. D. Maria Correia de Brito, mulher de Fernão Mendes, 40 anos mais velha do que ele, foi sepultada na desaparecida Igreja de Santa Maria do Castelo, provavelmente junto de seu marido. O problema fica assim em aberto até novas investigações. Nesta envolvência, os estudos orientaram-se para as suas filhas Madalena e Joana moradoras na Quinta de Montalvão, (freguesia de Caparica) não excluindo moradias em Almada. Montalvão é um lugar onde se desfruta um panorama magnifico sobre o rio. Foi doada parte da quinta aos religiosos dominicanos por Joana de Brito com cedência tumular no convento de S. Paulo. Esta comunicação foi divulgada pela primeira vez, por Alexandre Flores, na Academia da Marinha em Abril de 2013. No altar-mor da Igreja do Convento de S. Paulo, uma pedra tumular (quase tapada por este) com o nome de Joana e de seus herdeiros, com os registos de contrato com os religiosos, a celebração de quatro missas rezadas, para sempre (Roteiro Histórico-Artístico – Seminário Patriarcal de S. Paulo). O investigador local Rui Mendes, que tem colaborado com Alexandre Flores num trabalho prévio para o Seminário de S. Paulo, dá-nos a seguinte informação: «ano de 1645 – Capela e testamento, 22 de Março, D.ª Joana de Brito, moradora na Quinta de Montalvão manda no seu testamento sepultar-se na sua capela da Igreja de S. Paulo.» A atual Igreja de Santiago é o templo mais antigo de Almada. Construída no século XIII, de planta de cruz latina e transepto desenvolvido para receber duas importantes capelas. Sob orientação da Ordem de Santiago, de mestresII
Património Artístico de Almada (IV) -pedreiros desconhecidos, recebeu certa influência cisterciense, simples, rural, clara de plano luminoso e branco. O seu corpo de nave única, situa-se num eixo de orientação, Leste/Oeste, conforme tradição simbólica religiosa. Texto Imagem Som Este eixo longitudinal, encontra uma estrutura que liga o corpo central e transepto à Capela-mor, através de um entablamento de cornija em arco de cesto, que dá sentido arquitetónico ao teto e à sua decoração. Na centralidade, o arco triunfal, abre-se para a Capela e Altar-mor, ladeado por dois nichos com finas molduras ornamentais fixando dois altares, dedicados a Nossa Senhora de Fátima, e ao Sagrado Coração de Jesus. O templo foi na temporalidade objecto de reconstruções e restauros, a última neste século, sob orientação do Padre Fernando Belo. Arruinada no Terramoto de 1755, salvou-se a Capela-mor de maiores estragos, sobretudo ao nível de azulejaria e da cobertura de abóbada de nervuras, de tipologia manuelina. A sua tumulária com referências históricas relevantes, recolhe, ainda, figuras como Julião de Campos Barreto, fidalgo de casa real, cavaleiro da Ordem de Cristo, ouvidor geral, chanceler-mor da fazenda no estado da Índia, desembargador da casa da suplicação, Juiz dos Cavaleiros das Ordens militares em todo o reino e vereador municipal da Câmara de Lisboa (Luis de Queiroz) no reinado de Filipe III, II de Portugal, entre 1598 e 1621. Nota-se, sem presença tumular existente, a figura do Mestre pintor-cavaleiro, Giraldo de Prado (1535?-1592) autor do importante retábulo da Igreja da Misericórdia de Almada e respetiva segunda bandeira real da instituição. O pintor quinhentista faleceu na Vila de Almada a 24 de junho de 1592 e foi enterrado na Igreja de Santiago, com a tumba de casa, acompanhado de toda a Irmandade. O Barroco Joanino para alguns arquitetos portugueses ainda reserva traços maneiristas, caso de Tinoco da Silva, na execução exterior do templo, enquanto o interior, recebe uma animação estética de formas, sobretudo na capela-mor e arcos de entrada das capelas laterais. O retábulo do altar-mor, desenhado por este, em pedraria de boa qualidade de tons diferenciados, recebe colunas de capitel clássico, coroadas por um frontão triangular sobreposto. No centro deste conjunto sagrado, uma moldura simples em arco de volta perfeita, recebe na sua cabeceira o trono agora restaurado4 , com três interessantes cintas decorativas de ouro novo que edificam uma luz simbólica e representativa no conjunto retabular. Esta exaltação do altar-mor, acompanhada do seu sacrário, proporcionam uma perceção visual de perspetiva no envolvimento da capela-mor. Nas paredes colaterais o revestimento azulejar integral, cobre as superfícies até às nervuras das abóbodas, vãos, portas e interior do arco triunfal. As composições figuradas e cenográficas do orago da Igreja, num registo a azul cobalto e branco, foram criadas pelo pintor lisbonense Nicolau de Freitas (1703-1765) cerca de 1730, no início da sua atividade profissional. Época designada por grande produção Joanina, na qual o pintor se enquadrou. Nicolau de Freitas foi discípulo do pintor de Azulejos e Óleo, António de Oliveira Bernardes, entre 1720-1724, dando entrada na Irmandade de São Lucas (Associação de Artistas Lisbonenses) em 1726, fazendo parceria com outro grande pintor de azulejos Bartolomeu Antunes, na oficina deste, casando posteriormente com a filha mais velha de Antunes, Joana Catarina Rosa. Os painéis de azulejo da capela-mor da Igreja de Sant´Iago, um dos ícones da cidade de Almada, organizam-se segundo dois temas da vida e morte do mártir São Tiago a lendária “Batalha de Clavijo” e a “Transladação do corpo de São Tiago” de Jerusalém para Espanha. Estas peças de azulejaria, guardam aspectos plásticos da expressão do pintor. Ambientes luminosos, bons contrastes de luz e sombra, composições barrocas harmoniosas, envolvimento arquitetónico, perceção de perspetivas, delicadeza e firmeza no traço, linhas abertas de pormenor, movimento aparente, esfumado gradual de manchas, aspectos gerais da figuração, paisagem e cercaduras decorativas. A densidade destes sinais, jogados na presença de luz e sombra modelada, descobrem o toque do pintor. Um equilíbrio de linhas e manchas que o forçam a inventar elementos imaginários, como na presença da arquitetura decorativa de base (cercaduras), das duas cenas, como um balcão onde se desenrola a ação. Uma visão direta do real representada por dois grupos distintos no tempo, no painel da « Transladação do corpo de São Tiago» a presença motivante do Santo, na lendária «Batalha de Clavijo», num painel marcado pelos volumes de figuração de São Tiago e o seu cavalo e o universo da batalha, definida por uma perspetiva de mancha esfumada, impulsionada pelo movimento aparente dos seus cavaleiros. ————————
Notas: 1- Numa gravura de Coelho Júnior, desenhada por Nogueira da Silva em 1859, «Vista de Almada tirada do Convento de S. Paulo» (Alexandre Flores), podemos observar uma imagem de mancha de arvoredo, junto ao pano de muralha do forte de Almada. Em 1868 este conjunto de árvores diversificadas escondia, na sua centralidade, um coreto (restaurado em 1962) de planta octogonal, construido em alvenaria com suportes de pedraria, nos cunhais e molduras envolventes. Uma escadaria trapezoidal de dois lances de cinco degraus, dá acesso ao palco, ladeado por um varandim decorativo em ferro fundido. Nos vértices do polígono estrutural, oito braços sustentam oito ferros fundidos que suportam uma elegante cúpula acústica campaniforme. O ilustre almadense Luis de Queiroz referia-se a este jardim público, como «passeio» em 1899 (possivelmente recordando o passeio público lisboeta idealizado pelo arquiteto Reinaldo Manuel e consagrado posteriormente na literatura queirosiana). Pode este jardim do Castelo colher algumas árvores importantes, ligadas à paisagem almadense, como a Amoreira e a Bela Sombra, mas são os fenómenos da contemplação que o edificaram como lugar de beleza. Caleidoscópio de luz e sombra, que se descobre entre o ponto de observação, o Tejo e a cidade de Lisboa. Este lugar teve no século XX forte presença social, face a eventos culturais, recreativos e religiosos. Nos inícios do século XXI, o Jardim foi restaurado, adquirindo aspetos minima-
III
Património Artístico de Almada (IV) listas na sua composição espacial, perdendo assim o seu aspeto pitoresco. 2- O arquiteto Texto e associativista José Luís Amaro, nasceu em Almada em 1954 e faleceu na Ásia em Agosto Som de 2016, Imagem quando optou por férias naquela parte do mundo. Este notável arquiteto almadense pós-modernista, tinha o Curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes (1982), Estágio de dois anos em Educação e Artes Visuais (1985), pós-graduação em Ordenamento do Território e Planeamento Ambiental, na Universidade Nova de Lisboa (1996), Diplomado pela Sociedade Portuguesa de Acústica e pela Escola Superior de Atividades Imobiliárias, sendo perito avaliador do Serviço de Finanças de Almada. Membro da Ordem dos Arquitetos Portugueses, Sócio produtor da Associação de Artistas Plástico de Almada- Imargem, (homenageado por esta Associação em 2012) e membro dos Rotary Club de Almada desde 1995. Consultor na área do Urbanismo, para a firma V.T.M, na elaboração do Plano Diretor da Câmara Municipal de Mesão Frio. Autor de projetos desde 1982 na área do Urbanismo da Arquitetura e do Design, nomeadamente Edifícios de habitação e Equipamentos, de onde se destaca Escolas do Ensino Básico, Cine-Teatro Academia Almadense, sede da Associação de Artistas Plásticos de Almada-Imargem, Auditórios, Creches, Centros de Dia e Lares, e ainda na conceção e produção de Exposições Institucionais (Catálogo Imargem 30 anos). Num capítulo do livro da historiadora de Arte Ana Tostões, «Arquitetura Moderna e Obra Global a partir de 1900» a autora define um tempo arquitetónico, no qual José Luis Amaro enquadrou a sua expressão criadora. «Os anos 80 parecem ser os anos de todas as descobertas: do património, das formas classizantes, dos planos de ornamento, tudo temperado por uma extrema disponibilidade para aceitar fontes e referências várias». A revelação desta nova geração, que José Luis Amaro fez parte, encontra nos contrastes dos materiais a criação de volumes diferenciados de luz e sombra, e um registo abstrato de superfícies lisas e limpas. Os valores espaciais de recorte racional, são sensíveis à presença da natureza que os envolve e lhes dão cor. Nos vinte anos da Imargem, José Luis escreveu O meu percurso de vinte anos, na Arquitetura, vem despertando em mim uma curiosidade crescente sobre a sua diversidade e complexidade e uma admiração e respeito por todos aqueles que a exercem, com brio e profissionalismo. Desse exercício, que deve ser uma simbiose da Técnica e da Arte, nasce a obra arquitectónica, símbolo maior da actividade humana e testemunho indelével de uma sociedade para as gerações vindouras. 3- A numerosa família de arquitetos de apelido Tinoco notabilizou-se temporalmente entre os séculos XVI e princípios do século XVIII. O padre Francisco Tinoco da Silva, no final do Século XVII e primeiro quartel do século XVIII estudou arquitetura civil e militar com o seu tio Francisco da Silva Tinoco e em 1678, tornou-se mediador e arquitecto das obras reais depois da morte do tio. Em 1683, foi mestre dos Paços da Ribeira, tendo como seus discípulos José Rodrigues Ramalho e João Antunes. Este último, tornou-se um importante arquiteto barroco na época de D. João V. Conhecendo-se poucos projetos do padre arquiteto Francisco Tinoco, alguns historiadores põem dúvidas quanto à obra da Igreja de Nossa Senhora do Cabo Espichel entre Francisco Tinoco e João Antunes, pela presença de aspectos tardo-maneiristas existentes no templo. Outra obra atribuída a Francisco Tinoco da Silva, o Chafariz do Sapal, é considerada a fonte mais monumental de Setúbal. Mandada construir em 1697 por ordem da Câmara Municipal, foi transferida para a Praça Teófilo Braga no século XX. Inicialmente edificada junto da atual Câmara Municipal, toda em mármore branco e rosa, recebia água da nascente situada em Arca d´água (Alferrara) através do aqueduto dos Arcos. A historiografia local aponta para projeto de Francisco Tinoco, intervencionada por João Antunes por morte do primeiro. 4- Com o patrocínio de D. António, irmão do rei D. João V, a planta de reconstrução da igreja de Santiago, foi atribuída ao Padre arquiteto Francisco Tinoco da Silva. A reedificação do templo em 1724, salvaguardou a abóboda de nervuras manuelinas de cobertura da capela-mor. Peça de elevada importância na temporalidade, o altar-mor fixa também o restauro do seu sacrário. Segundo o investigador almadense Luis de Queiroz (Almada na História n.º 21-22) em 1899, afirma que «O altar-mor é de esplêndida talha dourada feito em 1880, a expensas do benemérito cidadão Sr. Jerónimo Ferreira das Neves». No lado leste da Igreja existe um embasamento com óculo luminoso, e frontal encimado por uma cruz de ferro. Uma pequena placa de pedra, que inscreve o seguinte: «Acrescentada e dotada com um trono de 1880 pelo benemérito J. F. das Neves».
Bibliografia consultada
Flores, Alexandre. Almada Antiga e Moderna I freguesia de Almada, C.M.A, 1985 2 Flores, Alexandre; Costa, Paula A. Freitas. Misericórdia de Almada. Das origens à restauração. Ed. Santa Casa da Misericórdia de Almada. 2006 3 Auyghe, René, Diálogo com o Visível. Ed. Livraria Bertrand 4 Queiroz, Luis. Descrição histórica sobre Almada., Almada na História, n º 21-22. CMA 2012 5 Rodrigues, Maria João Madeira, Sousa, Pedro Fialho de, Bonifácio, Horácio Manuel Pereira, Vocabulário Técnico e Critico de Arquitetura. Ed. Quimera 6 Teixeira, Luis Manuel, Dicionário Ilustrado de Belas-Artes. Ed. Presença, 1985 1
Agradecimentos: Ao Sr. Padre Marco Luís Aos Srs. Artistas Plásticos, Gena de Sousa e D´Sousa (fotografias)
IV
Património Artístico de Almada (IV) Texto
Imagem
Igreja de Sant'Iago paineis de azulejos da Capela-mor
Som Rão Kyao – Sopros de Vida
Transladação do corpo de São Tiago» e «São Tiago combatendo os mouros na batalha de Clavijo». Os dois painéis barrocos, revestem integralmente as duas paredes da capela-mor, tendo em comum, duas bases decorativas de características arquitetónicas. Estes volumes, suportam um plano de palco, onde se desenvolvem as cenas. No primeiro caso, uma colagem temporal singular, reúne dois grupos distintos. À esquerda da imagem, um grupo trajando vestes dos finais de seiscentos, no qual um nobre e uma jovem de expressão piedosa, percepcionam o movimento aparente do grupo. Os discípulos do Santo mártir, com indumentária de memória romana, prosseguem na transladação de Jerusalém para Espanha o corpo de São Tiago.
Toda a cena é envolvida num ambiente naturalista que determina a belíssima e equilibrada obra estética. Num primeiro plano determinante, a cena da Batalha de Clavijo ganha não só significado simbólico com a presença do Santo, como também, uma proporção no equilíbrio entre as partes do conjunto. Um volume de cavaleiro e cavalo formam uma massa modelada de claro-escuro (cavalo) e um contraste apoiado por um desenho firme de movimento (cavaleiro), direcionado. O universo de sombras circulares e luz, criam um impulso vitorioso. A cenografia, deixa-nos o registo de algum casario de mancha diluída e pormenores naturalistas bem determinados no espaço prespetivado.
V
Património Artístico de Almada (IV) Texto
Na análise da Imagem, os fatores de informação, comunicação e interpretação são elementos fundamentais. No pormenor do painel um grupo de cinco observadores assistem de forma expressiva, à transladação do corpo de São Tiago. Presente num tempo que não é o seu, o pintor criou o seu tempo de memórias intemporais. A figuração de traço e mancha elegante e firme, recebe a luz que a modela. Uma composição harmoniosa num movimento de panejamentos que a animam.
No fragmento de imagem plástica, aberta para um ambiente campestre, um momento de repouso ou de retoma de caminhada, dos discípulos de São Tiago que conduzem o Santo mártir, de Jerusalém para a Galiza. Na centralidade de imagem, uma cruz imaginária, define-se na horizontalidade do corpo do Santo, de rosto sereno e redentor, trajando vestes de peregrino, com o seu signo primitivo de concha de vieira suportado por duas espadas em forma de cruz. A ação da figura do discípulo de costas, na vertical, perceciona uma visão direta do real, edificando um movimento direcionado esteticamente bem resolvido, ao nível do gesto, da linha e da mancha obtida. Os outros dois discípulos de expressões serenas, esboçam ligeiros sorrisos de cumplicidade com o Mestre, no seu mortalhado pano de viagem. No invisível da imagem, um triângulo sagrado, estrutura a figuração, num inagualável paradigma de beleza. A representação de um vaso decorativo, de características ornamentais, com duas grinaldas simétricas, edifica na centralidade, os dois painéis de desenho arquitetónico. A forma côncava da superfície funciona como nicho, proporcionando uma aparência monumental de enquadramento. O objeto decorativo, elegante nos seus elementos estéticos de claro-escuro modelado, reflete o toque de pincelada criativa, que o autor consagrou nos pormenores de flores e frutos das suas grinaldas. Esta albarrada com festão ornamental, do barroco Joanino, define o esplendor de uma época, rica de formas, luz e movimento aparente. VI
Imagem
Som Rão Kyao – Sopros de Vida
Património Artístico de Almada (IV) Texto A motivante presença de São Tiago na lendária batalha de Clavijo cria uma imaginária força nos cavaleiros cristãos. Na imagem um forte volume de cavaleiro e cavalo formam um primeiro plano e uma singular perspetiva de mancha em trompe-l´oeil. O impulso de movimento direcionado da figuração, que se repete em obras de Arte sobre São Tiago, é um fator emblemático da Ordem, que se reparte por princípios religiosos e guerreiros, na reconquista cristã, a sul de Lisboa. Almada, por exemplo, recebeu carta do rei D. Sancho I, com a doação da Vila à Ordem de Santiago em 28 de Outubro de 1186. Na parte superior da imagem à esquerda, uma visão em profundidade de casario, suportado por uma cerca, recortada por elementos de paisagem de sentido ascensional.
Imagem
Som Rão Kyao – Sopros de Vida
A forma labiríntica com dissolução de contornos, característica também do Barroco, dissimulando a figuração rígida e percecionando, na imagem, uma mancha circular que se alonga em profundidade, dando um sentido que ultrapassa os limites do painel. A intenção de movimento da primeira personagem é repetida pelos restantes cavaleiros, tecnicamente representados por um esfumado de cor e tons.
No rico universo decorativo Barroco, as portas da capela-mor, recebem no prolongamento dos painéis, molduras ornamentais formadas por formas geométricas côncavas e convexas, com remates naturalistas de grinaldas de flores que se sobrepõem nos frisos decorativos das portas. A poética presença da aplicação geométrica, nos espaços entrelaçados, com os elementos naturalistas, dão à forma barroca profundidade curvilínea que se desprende do plano, como volumes escultóricos em baixo-relevo. VII
Património Artístico de Almada (IV) Texto
Imagem
Som
Património Artístico de Almada (I) Património Artístico de Almada (II) Texto
Imagem
Boletim n.º 37 junho 2015
Separata
ISSN: 1647-1075
Património Artístico de Almada (I) Projeto Audiovisual* Prof. Louro Artur
Som Boletim n.º 39 abril 2016
ISSN: 1647-1075
Separata
Património Artístico de Almada (II) Projeto Audiovisual Prof. Louro Artur
Apresentação Prof.ª Maria de Lourdes Albano Presidente da Direção
•A Associação de Professores do Concelho de Almada (Apcalmada) tem eleito a área editorial como uma das
estratégias do seu projeto associativo, traduzida em duas dimensões: publicações periódicas e institucionais (Boletins – Profalmada e Correio da Usalma, Revista Memórias e Futuro); publicações não periódicas, como sejam Separatas e Brochuras, e, particularmente, edições de autor direcionadas para a criação literária, a educação e a cidadania, privilegiando os associados, os professores e estudantes da Universidade Sénior de Almada (USALMA). A geografia humana da nossa atividade editorial, assegurada pela coordenação de Ernesto Fernandes, Edite Prada e Joaquim Ribeiro, regista, entre 2011 e o tempo de hoje, autores como Feliciano Oleiro, José Monteiro, Amélia Cortes, Américo Morgado, Madalena Moreira (narradora), Luciana Couto, Maria de Lourdes Albano (coord.), Ernesto Fernandes e Edite Prada (org.). Uma viagem editorial escrita por centenas de autores, nomeados na nossa Revista Memórias e Futuro.
Apresentação Prof.ª Maria de Lourdes Albano Presidente da Direção
• A presente Separata Património Artístico de Almada I inicia a divulgação da pesquisa artística de Louro Artur, professor e pintor, que honra o concelho ao devolver a cada um de nós a riqueza estético-expressiva da nossa identidade cultural. Uma investigação exemplar que, editada em capítulos, impressa e online, dará lugar a edição em livro. Um projeto que amplia a bibliografia da História das Artes, daí o seu valor didático-pedagógico para o aprofundamento da educação democrática, ancorada nos direitos e responsabilidades humanos.
Na sequência da edição de Património Artístico de Almada (I), Separata do Boletim n.º 37, junho de 2015, eis a segunda Separata, resultante da pesquisa artística de Louro Artur, professor e pintor, que honra o património histórico-cultural do Concelho e projeta a sua identidade.
• A educação, seja académica ou ao longo de toda a vida, deve ser sempre formação contínua e pluridimensional: científico-técnica, estético-expressiva e ético-política. Estas três dimensões em cruzamento são a condição para aprender a ser, conforme o Relatório da UNESCO para o século XXI – Educação: um tesouro a descobrir (1996).
Este projeto em curso, a traduzir-se em várias monografias, é um excelente instrumento para a educação pluridimensional e integral do ser humano científico-técnica, estético-expressiva e ético-política, nas escolas e na USALMA.
Bem haja, Louro Artur. O nosso reconhecimento.
O nosso reconhecimento, Professor Louro Artur.
Número 1
—————— *
Número 2
Projecto publicado na revista “Anais de Almada” N.º 3, ano 2000, p.113-122, agora revisto com outros dados.
Ficha Técnica
Número 3 VIII
Direção: Maria de Lourdes Albano Coordenação: Ernesto Fernandes. Fotografia, Capa, Conceção Gráfica e Paginação: Joaquim Ribeiro Revisão: Edite Prada e Ernesto Fernandes Secretariado: Sónia Tomás e Tânia Sofia Depósito Legal: 284511/08 ISSN: 1647-1075 Redação e Administração: Rua da Cerca, 21-23 - 2800-050 Almada Telefone e Fax: 219012420 e-mail: usalma@apcalmada.org