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NÚMERO ESPECIAL SUPLEMENTO DEZEMBRO 2019
Línguas indígenas
5.ª
Edição dos Jogos Florais
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FICHA TÉCNICA Título: InFormar Suplemento Diretor: Jerónimo de Matos Coord.: Edite Prada Revisão de texto: Edite Prada Conceção gráfica, paginação: Domitila Cardoso Propriedade e Editor: Associação de Professores do Concelho de Almada (Apcalmada) Rua da Cerca, 21-23 - 2800-050 Almada Telefone: 219012420 URL: www.usalma.apcalmada.org E-mail: apcalmada@sapo.pt
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Índice Editorial
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História de vida Timor ho laran tomac (Timor no coração)
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O dom de uns o evoluir de outros
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O regresso
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Os Ingleses
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Conto O valor de uma língua
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Um jantar no Quartier Latin
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Ondeando por várias linguagens da arte
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A Língua do amor
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Poesia Rap da palavra dita
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Muito obrigada
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Às vezes
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E D I TO R I A L A Associação de Professores do Concelho de Almada e a USALMA – Universidade Sénior de Almada decidiram celebrar as línguas indígenas, de forma intencional e comprometida, como tema de referência, da V Edição dos Jogos Florais 2019, comungando, em palavras e atos, com o dever cívico de contribuir para a promoção do Ano Internacional das Línguas Indígenas, decretado pela UNESCO. Neste contexto, propuseram-se a partilhar e disseminar o respeito pelas minorias, valorizar a diversidade linguística e cultural, elemento construtivo de identidades e afirmação grupal, e reconhecer as línguas indígenas como elementos dinâmicos dos processos de integração. Na defesa da riqueza da diversidade linguística e cultural dos povos do mundo e do significativo património global de histórias, tradições e memórias, alertou-se para a tomada de consciência da necessidade de preservar as 7 mil línguas indígenas faladas em todo o mundo e salvaguardar cerca de 2.680 que correm o risco de desaparecer, cientes de que as línguas locais concorrem para o reconhecimento identitário e a construção da paz porque "identificam as pessoas, identificam as suas práticas tradicionais, identificam a sua cultura e são um instrumento válido para o desenvolvimento”. A Vª Edição dos Jogos Florais de 2019 consistiu no tributo a uma, a algumas, ou a todas as línguas, privilegiando a coesão social, as histórias e os mitos, os valores e os novos desafios a empreender para proteger a riqueza deste bem comum, património cultural inestimável da humanidade. Os Jogos Florais organizaram-se a partir de palavras-chave representativas da sensibilidade e do modo de «ver» e «estar» no Mundo. Neste sentido, foram convidados os interessados a apresentar trabalhos inéditos, não publicados, redigidos em Português, nas modalidades de Poesia, Conto, Histórias de Vida, em conformidade com o regulamento criado para o efeito. O júri do concurso dos Jogos Florais da Apcalmada - USALMA 2019 pronunciou-se de forma muito positiva, sobre o interesse revelado, por parte dos participantes, referindo, de forma consensual, a qualidade dos textos produzidos e apresentados a concurso, nas diferentes modalidades, estruturados em função de critérios de referência, a saber: originalidade, criatividade, organização das ideias, domínio da língua escrita, adequação e mestria na abordagem do tema. Num tempo consagrado à escrita, por vontade, por gosto, por fruição, às vezes, a poesia de tempos felizes habita-nos a memória e salva-nos a vida. Celebremos em festa as palavras ditas, escritas, leves, soltas, contidas, reconhecidas, vividas. Celebradas. Às vezes, / O céu azul e o mar/ Às vezes, / O brilho do teu olhar / Às vezes, / Tudo é primavera / Cheiro, cor e luz. Maria Manuela Figueiredo Cruz
Almada terra da diversidade, de matriz multicultural e plurilingue encontra sentido na atitude de questionar: Como olhar para a diversidade linguística e cultural? Como olhar para o Homem de forma a garantir a sua individualidade e potenciar os seus talentos? Como tornar a inclusão o grande desafio para desenvolver humanamente o Mundo? Sobre as línguas - a poesia O rap da palavra dita tocou o tempo da poesia, de dizer a língua, as línguas, de a(s) (re)conhecer, de a(s) sentir, na profundidade da sua essência, da sua memória, da sua história. Babel! A (s) língua (s), em devir, como a vida. Corpo em movimento, da imagem, à cor, do olhar ao ver, ler, do som ao sabor, amor. Língua (s) mil a falar. Queremos o mundo a falar! A gritar: é preciso preservar a(s) língua(s). É preciso reclamar o sentido, a comunicação, o coração, a força das palavras.
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A língua mater, identitária, cultural, parte integrante do (des)entendimento humano. Línguas mil a falar! Poesia! Fala o branco, fala o preto/ Fala o índio e o amarelo/ Elas são mais de sete mil/E também há dialetos, mas isso sabem vocês/ complexo ou singelo/Fala corso, fala chinês/Umas com chapéu ou til /Se escrevem ou se sussurram/Pois são mais de sete mil!/É uma Babel! É uma Babel! Que é preciso preservar: Queremos o mundo a falar! Vítor Manuel Alves Fernandes
Sobre a História - a vida das línguas Timor ho laran tomak (Timor no coração) testemunha o valor da diversidade etnolinguística, o sentido da tolerância, da fraternidade, do respeito, da saudade, de um tempo de vida, de vidas com destino em Ermera, Timor, a cerca de sessenta quilómetros do mar, nas enormes montanhas, que recortam lá longe, o horizonte infinito. Dois anos de comissão de serviço constroem uma história única, uma memória partilhada, para o reconhecimento de povos e culturas. (...) "Antes da chegada dos portugueses a Timor já se falava o tétum-térik, devido à necessidade de um instrumento de comunicação para as trocas comerciais. Com a continuada presença portuguesa foram introduzidos novos vocábulos portugueses e vocábulos provenientes da Península Malaia e das ilhas de Sumatra e Bornéu, dando origem a um novo-tétum, designado de tétum praça, uma língua mais simplificada, de tradição oral, isenta de regras gramaticais e de cariz popular, que conviverá com os diferentes grupos etnolinguísticos que compõem o território. Provando-se que estamos perante "povos", com manifestações bem vincadas das suas raízes. O português não se impôs até aos finais da década de sessenta, como língua de unidade entre os "povoe timorenses, mau grado uma ocupação, com mais de quatrocentos anos, por falta de interesse, distanciamento elou tibieza política do Estado Novo... " A. Roberto Cipriano
Sobre como contar uma língua nascente... Josefa, a personagem principal da história, assume com coragem e convicção o seu linguajar diferente mas cativante. Enchia a boca de palavras e despejava-as devagar desta maneira: - “Agarrou l ranhadeiro para abibar l lhume d’alma i l sangre dun cuorpo bien sano. Chena de proua , abriu la puorta de la priêça de casa, puso fincones un sou ser, saliu pa las ourrietas i preinadas. Lhibre como l reissenhor i la chelubrina, yá puode cantar, yá se puode afirmar. A la par de l pertués a partir de hoíje, ye lhuç de Miranda ye lhuç de Pertual.” Valter Augusto Deusdado
Graças aos homens e mulheres falantes do mirandês, língua bebida no leite materno, como dizia o saudoso professor Amadeu Ferreira, o povo português soube assumir, com dignidade, o ato de cidadania, de fazer (re)nascer uma língua antiga, viva, esquecida, envergonhada, perdida no tempo. Em nome de muitos que a aprendem, falam e amam, contrariando-lhe a morte, louvamos a sua vitalidade. Foram valentes, juntaram-se, e assim salvaram o que puderam, o mais importante. Num gesto simbólico de patriotismo, a língua mirandesa tornou-se a segunda língua oficial de Portugal por Lei Nº 7/99 de 29 de janeiro. Cientes de que a diversidade garante o progresso, a evolução, a superação das limitações, aplaudamos o valor de uma língua. Graças a todos os que tornaram sublime a expressão da língua mirandesa, fazendo justiça à diversidade linguística e cultural de um povo, na sua singularidade, contribuindo para a riqueza do património da humanidade. O júri Almada, 30 outubro 2019
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Encostado à amurada do paquete Índia deixo-me invadir pela beleza esfuziante da majestosa baía de Díli, onde se projecta imponente a sombra da ilha de Ataúro; o meu pensamento paira sobre as águas, daquele mar manso, daquele espelho que reflecte o azul cerúleo do céu, na expectativa de encontrar (...) "o disco de ouro que flutua nas ondas, perto do sítio onde nasce o sol..." No cais, o bulício do desembarque agiganta-se, o ronco dos motores das viaturas militares, Berliet, Unimog, Jeep Wlllys, mistura-se com as vozes de comando, para formaturas, desembarque e ocupação dos veículos, que se aprestam para levar em seus dorsos, os "loricos", alcunha com que, os militares mais antigos, em comissão na Ilha chapam os recém-chegados... O nosso destino é Ermera, cerca de sessenta quilómetros a separarem-nos do mar, ainda agora lhe viramos as costas e já morremos de saudades. Para o interior, as enormes montanhas, que recortam lá longe, o horizonte infinito. À saída de Dili num pequeno aeródromo, um bimotor Havilland Doves está estacionado na pista, depois, abruptamente, a estrada de gravilha e pedregosa transforma-se em picada, a "aventura" começa a desenhar-se. Do alto dos ramos de enormes árvores, que ladeiam a picada, enormes colónias de morcegos (raposas voadoras negras) frugívoros, pendurados de cabeça para baixo, são motivo de espanto, de nunca visto, sensação que nos acompanhará na jornada. Adensa-se a floresta, a picada é um continuo de altos e baixos, um tormento para os corpos que se transportam nas viaturas, que não dispõem do mínimo conforto para o fim em vista. Nunca se importarão, nem incomodarão, as chefias militares com essas questões de somenos importância. Perto de Railaco a paisagem altera-se, uma arriba fóssil constituída por estratos de rocha sedimentar, de uma altura impressionante, prolonga-se por mais de um quilómetro, surpreendendo-nos e maravilhando-nos pela variedade de tons ocres, amarelos e avermelhados. As imagens da arriba fóssil da Costa da Caparica assaltam-nos a memória, as imagens ora se sobrepõem, ora correm em paralelo, são ambas lindas, porém, menos exuberantes, menos generosas na multiplicidade dos matizes verdes, que ora desfrutamos. Ao longo do percurso vamos atravessando leitos secos de ribeiras (não há rios em Timor alertava-nos a professora da quarta classe...), que o tempo, a incúria dos homens e a raiva dos elementos naturais convertem na época seca, em estradas ocasionais. Aqui e ali "palapas" (casas, cujas paredes são construídas com os pecíolos das folhas de uma das palmeiras mais vulgares em Timor) disfarçadas, camufladas pela luxuriante vegetação de casuarinas, grandes extensões de capim, bambus, dos melhores do mundo, palmeiras, eucaliptos brancos e outras espécies de eucaliptos, vistas pela primeira vez, bananeiras, bem assim, outros exemplares botânicos da rica e variada flora timorense e que por ora, não fazem parte do léxico botânico, de quem chega, propiciam uma imagem paradisíaca, uma inesperada paragem no tempo. Atravessamos a ribeira de Gleno árida, prenhe de calhaus rolados que desceram das montanhas circundantes. No vale que se fez plano, grande planície aluvial conduz-nos o olhar até às plantações de
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" T I M O R H O L A R A N TO M A K " ( T I M O R N O CORAÇÃO")
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coqueiros, mais "palapas" disseminadas pela floresta, que trepa e se adensa pelas vertentes dos montes e, no horizonte, lá bem no alto, de braço dado com flocos brancos de algodão, ergue-se majestoso o afloramento calcário do Monte Ramelau, o ponto mais alto de Portugal (à época), destacando-se da cordilheira central de Timor... não param de se acotovelar no cérebro as "primárias" memórias... haveremos de passar a tratá-lo, com deferência por Tata Mai Lau (o avô dos montes). Duas horas para percorrer cerca de sessenta quilómetros atestam bem das dificuldades orográficas, que tiveram de ser vencidas, até sermos, finalmente, despejados na Parada de Nuno Tali, onde nos aguardavam os camaradas da Companhia que íamos render e que com grande alvoroço, alegria, berraria e muito Vat 69 à mistura receberam os "Lírios" (outra mimosa alcunha, para quem chega) ingénuos… escancaravam-se as portas e janelas da "prisão" para os katuas (velhos)... dentro de dias "voariam", para o cais de Dili. Os "Lírios" lançariam âncora e dariam continuidade à vocação ecuménica, e à predisposição para o convívio e/ou miscigenação com outros povos e culturas, sina que cada português traz impressa na alma, desde que ao mar se lançou e, por mares nunca dantes navegados se aventurou... (...) "Prometo ser esta a última história que vos vou contar! ...vale a pena ouvirem é sobre a origem da ilha, que vos vai servir de gaiola dourada, nos próximos dois anos... ! Oh! Katuas deixa de tretas, a malta está que nem farrapo velho, já não aguenta mais histórias, estamos ocos como os cocos sem água... "Eh! pá têm de ouvir é importante, este mito... a origem da "vossa" ilha é o último! e atira-se à narração: "Conta-nos o mito de origem da ilha de Timor, que um velho crocodilo estava sem forças e cheio de fome, quando um rapazinho o viu e ficando com muita pena dele o ajudou dando-lhe comida para recuperar forças. Restabelecido o crocodilo enfrentou um complicado dilema. O seu instinto animal dizia-lhe para devorar o rapaz, pois este não passava de uma presa fácil, tenrinha, mesmo ali à mão de semear. Os outros animais e a sua consciência diziam-lhe para não fazer isso, pois seria muito ingrato e traiçoeiro para com o rapaz, visto que ele lhe tinha salvado a vida... Devorar quem o salvara? Que terrível ingratidão! Envergonhado e cheio de remorsos, o crocodilo resolveu partir para longe e recomeçar a sua vida onde ninguém o conhecesse. Depois de muito refletir, o velho crocodilo perguntou ao rapaz, que era o único amigo que tinha, qual era o seu maior desejo, ao que este respondeu, que gostaria muito de viajar até ao sol nascente. Então, vem comigo à procura de um disco de ouro, que flutua nas ondas, perto do sítio onde nasce o Sol disse-lhe o crocodilo. Quando o encontrarmos seremos felizes! Como prova de gratidão o crocodilo convidou o rapaz para saltar para o seu dorso e iniciaram uma grande viagem, sulcando o mar que parecia não ter fim, em direção ao sítio onde nasce o sol. O crocodilo com o rapaz às costas nadou, nadou, nadou durante um tempo incontável, mas a certa altura o crocodilo percebeu que não podia continuar. Exausto deteve-se na intenção de descansar apenas um instante, logo que parou o seu corpo transformou-se em terra, com árvores, montes e vales, lagoas e ribeiras. O rapaz foi o primeiro habitante desta ilha, transformando-se em liurai (chefe) e passando a ostentar ao pescoço o "bélak" disco em ouro, em forma de sol, que o crocodilo idealizara existir, flutuando nas ondas, perto do sol nascente." O simbolismo do Oriente (Timor) e do Sol Nascente (Loro Sae) cunharão o nome da ilha, que agora como país passou a chamar-se Timor Loro Sae. Ao final desta história restava o narrador e, este ouvinte, mais morto que vivo, que ora se faz, por ironia do destino, contador de estórias. "O mito é uma forma de narrativa que se apresenta como uma possível explicação ou interpretação da realidade e dos acontecimentos... os mitos podem ser entendidos como representações de verdades profundas da mente..." Onde lera isto, já se não lembrava, o contador de estórias... Confuso deixou-se cair na enxerga destinada para aquela noite, vencido pelo cansaço, pelo sono e pelas múltiplas e enriquecedoras experiências partilhadas.
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(...) Uma semana depois no bazar de Hatolia, o evento semanal realizado aos domingos e reconhecido como o "basar boot" isto é o grande bazar: - Pelos caminhos tortuosos, andando sempre em silêncio, sempre a direito, caminham homens e mulheres, as mais novas, semi-nuas, mostram os seios roliços e firmes; outras, as que já aleitaram filhos, escondem-nos com as mãos, que cruzam sobre o peito. Raras trazem "cabaias" (espécie de camiseiro de algodão aberto lateralmente) a vestir-lhes o tronco. Cobrem-lhes os corpos, da cintura aos pés nus, calosos e cicatrizados de feridas de mil tropeções, "lipas", largos pano de algodão, às riscas, coloridos de vermelho, azul, preto e amarelo. Chegados ao local ermo, nu, irregular e terroso, onde se realiza o bazar, os que trazem produtos para vender alinham-se em talhões, ocupam os recantos destinados a cada produto e conservam-se sentados sobre os calcanhares. Expõem-se as frutas saborosas, os ananases, as bananas, as anonas, os cocos, as papaias, as jacas, as laranjas, os tamarindos, as bananas cobre e os tamarilhos... as hortaliças, verdes, encarnadas, amarelas, roxas, urdem no chão um arco-íris; sobressai o branco dos ovos, cacarejam as galinhas, cantam loricos e cacatuas... Mais além, pela abertura dos sacos espreitam os grãos de café Arábica e Libéria, amontoam-se cebolas, batatas doces, milho e inhame. O administrador da circunscrição dá ordens, para que se execute o toque de um tambor, o sinal de abertura do bazar. Ergue-se, da multidão, um alegre alarido, que se expressa em tétum, a língua mais falada na região, cruzando-se com o português (falado por uma pequeníssima franja da população), com o cantonês e outros dialectos (existem mais de dezasseis) que não identificamos... Os vendedores não anunciam os produtos, não chamam os fregueses, conversam, riem, mascam a mistura, de areca e cal, para a cuspirem em seguida, enchendo o chão de manchas vermelhas, o que aos olhos, de recémchegados, parece repelente e repulsivo. O bazar desfaz-se pouco a pouco, o sol do meio-dia inclemente espanta moscas, cães vadios, vendedoras e compradores... enchem-se as lojas dos chinas. As mulheres trocam as moedas ainda há pouco regateadas, pelos víveres, que se fazem necessários e pouco depois rumam às aldeias, por caminhos estreitos, sinuosos, montanha abaixo. .. os homens bebem sofregamente canecas de álcool de arroz, canipa (aguardente importada de Java) e tuaka (seiva da maqueira, líquido adocicado e com algum etanol, recolhido directamente da palmeira e que se bebe mesmo sem fermentar).. Escorre o tempo pelos corpos indolentes, pelas sombras projectadas e, de repente, aqueles homens dessedentados e animados pelos vapores etílicos começam a desafiar-se, surgem apostas, de grupos para grupos, de aficionados partem incitamentos... a multidão alucinada, espevitada, engrossa, salta, empurra-se, grita, num entusiasmo indescritível corre para um recanto do terreiro, que há poucas horas foi bazar e forma um circulo à sombra das ramagens de um secular gondeiro. Monta-se o circo para a luta de galos. De repente, pesado silêncio apodera-se da horda de apostadores... Uma, depois outras vozes isoladas, quebram o silêncio que se fazia mortal, falam em vacas, búfalos, dinheiro, picos de café... dois fantásticos galos, de cores avermelhadas, que o sol suas penas, torna iridescentes, até então conservados a distância um do outro, enfrentam-se no meio do círculo, formado de pernas desnudas, cor de mogno e maculadas por cicatrizes nodulares antigas... Escarvam o solo, alongam os pescoços, batem as asas, eriça-se-lhes a penugem e saltam de frente, um conta o outro, espetando nas carnes os bicos acerados e as lâminas de aço, com cerca de oito centímetros de comprimento, afiadas que nem punhais, que cada um tem atada na perna esquerda, em substituição dos esporões. Rubis de sangue começam a rolar-lhes pelas penas salpicando o chão de pontos vermelhos, pedras soltas de um rosário de dores... Tombam, voltam a erguer-se, tornam a cair, enquanto a multidão delira, grita, se contorce, pula e bate palmas, numa manifestação de entusiasmo orgíaco. Cada vez mais ferozes, os contendores, ofegantes, ansiosos de extermínio, ébrios de desordem e carnificina, dilaceram-se, presos um ao outro, pelas lâminas que profundamente se lhes enterram nas entranhas. São dois galos em luta (!?)... mais parecem dois lobos em época de cio, lutando pela fêmea alfa, compreendem-se estes, pela necessidade da propagação da espécie, pela escolha dos mais fortes, dos mais aquinhoados, aqueles outros, porém, morrem pela vã glória de uns títeres, enraivecidos pelo mórbido prazer
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do sangue e da jogatina. Um dos contendores desfalece e cai em agonia. Na multidão ululante só duas expressões se corporizam: a dos que ganharam apostas e a dos que as perderam. Os primeiros riem, insultam o galo vencido, agarram-no, ainda arfante arrancam-lhe as pernas, despedaçam-no. Os segundos, vencidos e vexados afastam-se derrotados. Pagam-se as apostas que foram feitas em dinheiro... o circo continua, até que haja galos e apostadores disponíveis... Este bárbaro espectáculo, tido como um grande evento comunitário, de base económica e lúdica, manifesta-se com uma intensidade que nos fere a sensibilidade,… Este costume cruel, assente em secular tradição, a que as autoridades coloniais não foram capazes de pôr cobro, constitui, todavia, uma fonte de receita orçamental, através da cobrança de uma licença para a sua realização… O dia de bazar termina com o arrear da bandeira portuguesa. _________ Antes da chegada dos portugueses a Timor já se falava o tétum-térik, devido à necessidade de um instrumento de comunicação para as trocas comerciais. Com a continuada presença portuguesa foram introduzidos novos vocábulos portugueses e vocábulos provenientes da Península Malaia e das ilhas de Sumatra e Bornéu, dando origem a um novo-tétum, designado de tétum praça, uma língua mais simplificada, de tradição oral, isenta de regras gramaticais e de cariz popular, que conviverá com os diferentes grupos etnolinguísticos que compõem o território. Provando-se que estamos perante "povos", com manifestações bem vincadas das suas raízes. Outro ponto em comum ressalta das personagens dos mitos, que são transversais às culturas desses "povos", onde o sagrado e o profano se misturam. Maioritariamente gentios, durante séculos, não viviam afastados do sagrado, pois "aquele" a quem os agricultores pedem boas colheitas e a quem os Lia Na'in (senhores da palavra, verdadeiras enciclopédias vivas de literatura oral e seus guardiões) exortam nas suas orações de agradecimento e de súplica (pedindo chuva, por exemplo) é sempre o mesmo Deus Único o Ser Brilhante e Supremo Criador do Universo, designado em tétum por Maromak. O português não se impôs até aos finais da década de sessenta, como língua de unidade entre os "povo timorenses, mau grado uma ocupação, com mais de quatrocentos anos, por falta de interesse, distanciamento e/ou tibieza política do Estado Novo... " E com esta diversidade etnolinguística, que iremos conviver, os dois anos da nossa Comissão de Serviço, acentuando a nossa imunidade ao racismo, marcando a nossa disponibilidade para o convívio fraterno, com povos e culturas muito diferentes. Pseudónimo: A. Roberto Cipriano Autor: Manuel António Martins Fonseca*. USALMA
*Manuel António Martins da Fonseca nasceu a 24 de Abril de 1947, concelho de Castro Marim, distrito de Faro. Fez o Curso Geral do Comércio e Geral dos Liceus na cidade de Évora e o Curso Complementar dos Liceus em Lisboa. Cumpriu serviço militar obrigatório, na ex-colónia de Timor-Leste de 1969 a 1971. A viagem no navio Índia efetuou-se em quarenta e cinco dias, do Cais de Alcântara-Mar em Lisboa ao porto de Díli em Timor. A Companhia de Artilharia – CART. 2523, a que esteve vinculado instalou-se no aquartelamento de Nuno Tali a 9km da vila de Ermera e a 58km a sudoeste de Díli. Durante dois anos fortaleceram-se laços de amizade e solidariedade com a população, comungando das suas tradições, das suas lendas e mitos, da sua História, do seu secular atraso e do esquecimento a que os Timorenses foram votados, por muita gente grande... Porém: - “Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da terra”. Este provérbio africano acompanhou-o durante a sua estada em Timor e contribuiu para a consolidação do seu amor pelos gentios da pérola do Sol Nascente. Atualmente é aluno da Universidade Sénior de Almada-USALMA, matriculado na disciplina Língua e Cultura Portuguesa regida pela Professora Edite Prada. Timor no coração, em tétum “Timor ho laran tomak”.
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O D O M D E U N S , O E VO L U I R D E O U T R O S Falas e não sei como te ouço. De uma forma plena, penso. O entendimento é tão natural que me leva a acreditar que falamos a mesma linguagem.
Andaste por longes terras. Conheceste outros povos, outras civilizações, cada um com a sua língua, a sua riqueza, os seus mitos. Com eles viveste e conviveste e quiseste partilhar o teu saber. A tua generosidade em ensinar juntou-se à sua vontade de aprender. Tiveste garotos de olhos muito atentos que te seguiam ávidos, interessados. Fosse numa escola rudimentar, em bancos de madeira; ao ar livre, sentados no chão, numa roda; num colégio ou num liceu tradicional, havia uma constante - transmissão de conhecimentos, desenvolvimento da consciência cívica, educação.
A África, terra ancestral, tinha um apelo mágico, culturas que pretendias desvendar, um pôr do sol como um abraço quente. Mas o mundo é grande e novos desafios chegavam doutras latitudes. Outros povos, outros modos de vida. Ameaças de usurpações, violências, desumanidades. Não podias ficar indiferente. Tu chegavas e os elos de ligação em breve estavam criados. Solicitavam-te que partilhasses o teu saber, com a mesma busca de conhecimentos, de cultura geral, de experiências digitais e tecnológicas, linguísticas e cívicas. Há novos horizontes, muitos querem navegar por mundos desconhecidos, mundos virtuais, mundos de criatividade e beleza, que surge como água nas fontes. Tu ensinas, entregas-te com a generosidade da permanência. Viajas pelos costumes, mas principalmente pelas gentes e a cultura.
No teu percurso encontraste guerra, morte, doença, mutilações. Ataques químicos da maior crueldade, um mundo de tragédia a precisar de ajuda médica, humanitária e cultural. Mas prometeste lutar pelos vivos, com solidariedade, dedicação, atenção plena. Em espírito de equipa, valorizando ter alguém com quem partilhar responsabilidades e que dê confiança. As ideias
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As línguas autóctones, que com facilidade aprendias, permitiam que te integrasses no seu ambiente e ouvisses o relato dos seus problemas ou das pequenas vitórias de cada dia, participasses das suas festas, assistisses às suas danças, às suas magias, aos encontros noturnos de homens de cócoras em volta duma fogueira, de tronco nu e lanças em riste. As crianças levavamte com elas para as suas aldeias e conhecias a sua gente, as suas cubatas, a vida em comunidade. Na diversidade progrediam e mutuamente se enriqueciam.
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surgem em catadupa. A energia cresce, a tua capacidade de trabalho é uma preciosidade que consegue dar uma resposta pertinente ao apelo de povos em dificuldade.
Como um despertar ao toque de clarim, a criação do futuro aguarda pelo teu saber de qualidade. A tua vontade é a chama duma realidade a construir. Num futuro de paz e diálogo entre os povos, entras no caminho da tua realização, usando o teu dom de ensinar e aperfeiçoar, partilhando saberes entre as diferentes identidades e valores. E necessária a revitalização das línguas maternas, sabes que a língua não morre nas gentes, apenas fica adormecida perante a preponderância das línguas dominantes. As famílias ensinam o dialeto do amor. A língua é elemento de integração, comunicação e desenvolvimento. Se se perdem as línguas nativas, com elas se perdem a história, as tradições e as memórias de um povo. E povo respeitado é gente mais feliz. Tu, homem do mundo, sabes tirar o melhor dos vários mundos que te habitam e do cruzamento de diversas culturas. Esse é o segredo da tua humanidade.
Quando voltas sempre me surpreendes. Não te consideras o salvador, nem o centro do mundo, mas um grão de areia na imensidade da globalização. Só queres ter o que possas merecer. És a gentileza com que trabalhaste e ensinaste. Admiro-te, admiro-te desde que te conheci. Sinto-me uma privilegiada por te ter encontrado. E a vida num ativo fluir. Pseudónimo: Lorena Lis Autora: Maria Luísa Vieira Elvas da Silva*. USALMA
*Maria Luísa Vieira Elvas da Silva nasceu em 1949, em Viseu. Aí viveu até aos dezassete anos com seus pais e irmãs. Sua avó materna e sua tia, que residiam no andar de cima da mesma casa, acompanharam também toda a sua infância. Frequentou o Jardim Escola João de Deus, o Colégio da Imaculada Conceição, onde fez a instrução primária e o Liceu. Tirou o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Foi notária em Almada e aposentou-se em 2010. No ano seguinte, matriculou-se na USALMA, onde frequenta as disciplinas de Língua e Cultura Portuguesa, Inglês, História de Arte e Encontro com a Poesia, participando mensalmente no Chá com Poesia. Tem aproveitado oportunidades únicas em sede de visitas de estudo, idas a espetáculos, nomeadamente ao Teatro Municipal Joaquim Benite e já colaborou no Correio da Usalma.
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O REGRESSO Voltou. Estava diferente, não era mais aquele jovem, quase adolescente, que partira dois anos atrás. Tinha-se transformado num homem, um homem fisicamente forte e musculado e de convicções mais seguras e inabaláveis... Mas à custa de quê? Tanta, tanta coisa!. Lembrava-se da infância feliz, na sua aldeia; os pais lavradores pobres, mas muito honestos, incutiram-lhe desde muito cedo conceitos e valores, que ele nunca mais esqueceu e que foram muito, muito importantes durante toda a sua vida e sobretudo cruciais naquele período de dúvidas e incertezas...
A aldeia era pequena, terra pedregosa com pequenas leiras encravadas nas serranias, que produziam apenas o necessário para alimentar o gado e para a subsistência da família… tinha, naquela altura, apenas um estreito caminho que conduzia à estrada que os levava à vila… os carros tinham dificuldade em lá chegar... Tirando as visitas do padrinho, poucos mais motivos de interesse tinha. Era por isso que ouvia sempre atento as conversas dele com o pai... falavam do governo, da guerra em África, da pobreza em que todos viviam, nos que partiam para França e voltavam nas férias falando o que chamavam de" Franciú", palavras inventadas, mas que eles entendiam muito bem e os faziam rir... Eram sobretudo as mulheres que durante as "vacances" se davam mais "ares" de pessoas importantes. Todos sabiam, porque alguém o tinha confessado num momento de confidências, as dificuldades que lá passavam. A vida nos " Bidonvilles" e os trabalhos difíceis que tinham que fazer, mas que apesar de tudo consideravam melhores que cultivar aquela terra bravia, pois viam sempre dinheiro no fim do mês… e poupados como se tinham habituado a ser, conseguiam juntar dinheiro… O pai ainda pensara emigrar, mas talvez por ter mais leiras, gado e uma casa razoável
H I S T Ó R I A D E V I DA – 3. º P RÉMIO
Além dos pais, também o padrinho, que os visitava com frequência, foi importante na sua formação. O padrinho, apesar das suas humildes origens, tinha estudado, primeiro no seminário e depois tirara, com muitos sacrifícios, um curso de filosofia. Era um homem muito culto e ouvia-o falar com o pai coisas que ele nem sempre entendia, mas que o seu subconsciente ia armazenando e bebia, como uma esponja, aquelas conversas que o atraiam, ainda que lhe fizessem alguma confusão... o pai participava nelas porque gostava de ler e o padrinho trazia-lhe livros e revistas que o ocupavam nos poucos momentos de lazer... e ele sonhava em estudar e vir a ser como o padrinho, um homem culto...
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“Autodidata", que trabalhava no campo e até gostava daquilo que fazia… mas a par disso lia poesia e livros filosóficos... Nem sempre ignorante é a palavra adequada para aqueles que não prosseguem os estudos e ele não se considerava ignorante... Na aldeia, como na maior parte das terras, havia pessoas muito típicas, que ele nunca mais esqueceu - a D. Isaura, a intriguista e alcoviteira de serviço - que sabia todas as notícias e conhecia a vida da maior parte das pessoas, gostava de levar e trazer novidades modificando-as a seu jeito… A Julieta, mãe solteira com dois filhos e que já ia no terceiro relacionamento - uma puta desavergonhada - na boca da Isaura - para a mãe uma infeliz e uma lutadora - pois não tivera sorte e criava os filhos tentando ultrapassar as muitas dificuldades de mãe solteira. Como é que palavras tão diferentes, podiam definir a mesma mulher?!... Havia também o "Ti Luís", pai da Lúcia, amiga da mãe, que estava "passado" como muitos diziam, para classificar a sua demência e senilidade e gritava em alto e bom som pelas ruas da aldeia: - Vão todos à merda… Temos um governo de ladrões - são todos uns" cabr..." e ria-se por fazer uma rima... Apesar de toda a gente saber do seu estado mental, ainda foi denunciado pelo "bufo" da terra e foi interrogado por dois agentes, que o soltaram porque se aperceberam do seu estado, não sem antes advertirem a filha, para que o mantivesse em casa, senão iria para um asilo… Paradoxalmente, aquelas palavras sem significado para ele, correspondiam à realidade política vigente... e ao que muitos de nós pensávamos... Os pais eram das pessoas mais respeitadas na aldeia, eram tidos como pessoas muito sérias e sabedoras e a sua opinião muito considerada... Zé Manel, foi crescendo neste ambiente fechado de pouco mais de uma centena de pessoas, mas que era um pequeno exemplo do que se passava no país rural daqueles finais da década de sessenta do século XX. Tinha alguns amigos que tinham ficado dos tempos de escola, quer da aldeia, quer de aldeias vizinhas, outros tinham partido com os pais para França e não voltavam por causa da guerra. O padrinho e os pais eram o seu grande pilar e, desde muito novo, que tinham incutido nele os valares que ele devia respeitar, baseados nos mandamentos da igreja onde iam, todas as semanas, à missa dominical e onde ele deixara de ir a partir da adolescência, o que os pais respeitavam... falavam-lhe do respeito pela vida humana e pelos bens alheios e desde muito cedo ele começou a distinguir entre o bem e o mal… não como palavras ocas e sem significado, mas sim pela prática diária da sua vida… Até nas brincadeiras com os amigos isso se refletia; escondia-lhes a roupa quando tomavam banho na cascata da fraga mas, ao contrário do que outros faziam, não os deixava voltar nus para casa, quando muito descalços, porque a roupa aparecia antes de regressarem. Também iam ao "rebusco" da fruta nos quintais, mas era mesmo o "rebusco" de frutos que já ninguém apanhava. Apesar de tudo, era sempre uma aventura... gostava também de passear sozinho, geralmente nas tardes de domingo, pelos campos, observando as plantas e os animais escutando o silêncio da serra e levando para ler, entre as urzes e as giestas, um livro que o padrinho lhe emprestara... Era uma vida simples, mas que o fazia sentir-se feliz. A matança do porco era também uma festa, um ritual da aldeia em que muitos se juntavam, mas já aí ele se escondia quando chegava a hora de matar o animal, quando este, apercebendo-se do que o esperava, começava numa chiadeira infernal... achava sempre que era uma violência, necessária sim, mas que o deixava sempre a pensar... no poder dos fortes sobre os fracos. Os pais conheciam bem as suas fragilidades, sobretudo a sua sensibilidade e as suas fraquezas emocionais... os seus silêncios, os poemas que ele escondia, mas que eles adivinhavam serem de palavras que
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traduziam muito do que se passava com ele… temiam, à medida que o tempo passava e se aproximava a idade de ir "às sortes", como todos diziam. Por outro lado pensavam - é tão franzino e fracalhote nos seus 19 anos, que pode "ficar livre" e procuravam não se preocupar, nem preocupá-lo, antes do tempo... Na aldeia, apesar de pequena, já tinha morrido na guerra um jovem e outro voltara estropiado... Mas depressa chegou a altura de ir à inspeção militar, e as palavras de franzino e fracalhote com que os pais o adjetivavam foram transformadas em menos de nada em mancebo forte e saudável e apto para a vida militar... quase todos ficavam aptos, eram necessários, havia guerra. . . E Zé Manuel lá partiu para o centro do país para fazer "a tropa". A instrução militar exigente e fisicamente muito desgastante não o incomodava muito, porque estava habituado a calcorrear caminhos, a saltar penedos e a fazer trabalhos pesados, mas a violência psicológica, os insultos gratuitos e sem significado, as palavras ofensivas, que não estava habituado a ouvir, os castigos desumanos e "pseudo" disciplinadores, isso sim, isso incomodava-o, sobretudo quando caíam em jovens mais fracos do que ele. Quando voltou a casa, ao fim de mês e meio, porque estava longe, desabafou com os pais e o padrinho, mas estes apaziguaram a sua revolta e o padrinho disse-lhe — não te preocupes, são apenas palavras, nenhuma delas significa nada, pois são vazias, inadequadas e são proferidas com intenções estúpidas e injustas… mas ele não conseguia entender... mas como fora educado para cumprir e fazer o seu melhor, a recruta correu bem. Até ganhou uma medalha por ser um soldado exemplar... Era caricato, ele que não gostava nem entendia nada daquilo, ganhar uma medalha por ser "exemplar" — cumpridor seria a palavra mais correta e adequada. Mas lá continuou a tentar adaptar-se e até fez algumas amizades para a vida... Depois, depois foi mobilizado, como era previsível e lá partiu para terras distantes, no outro lado do mundo, engolido no ventre daquele enorme navio, ele que nunca tinha visto o mar… mas apesar das lágrimas da mãe, as palavras animadoras do pai e do padrinho ajudaram-no a ultrapassar aqueles momentos... E depois, o teatro de guerra, uma espingarda na mão e defende-te, mas ataca também porque eles são os teus inimigos... mais uma vez palavras com significado deturpado — Inimigos?!... ele não os conhecia, não sabia quem eles eram… não percebia porque lhes chamavam inimigos, ou até percebia, mas as palavras diziam o contrário daquilo que ele entendia — era tudo muito confuso — A espingarda na mão e ter de matar. Mais uma vez uma confusão com a palavra matar. Matar, agora não era crime, mas um dever... Para eles o outro não era ninguém, mas ele sabia que o outro devia ser Alguém e ele também não era ninguém, mas ele sabia muito bem que era Alguém. Nenhuma destas palavras, Alguém e Ninguém, tinha o significado que normalmente era atribuído, elas agora eram apenas um instrumento de guerra. E quando, pela primeira vez chegou a altura de apontar a matar, vacilou que estava ele ali a fazer? O que acontecera a tudo aquilo em que sempre acreditara?!... Tudo isto se passou numa fração de segundos, o suficiente para ser atingido... mas a dor lancinante que sentiu era uma mistura de dor e alegria. . . Tivera sorte. O tiro acertara-lhe numa perna, um ferimento grave, quase perdia a perna, o que felizmente acabou por não acontecer… mas ficou incapacitado, o suficiente para não mais voltar ao terreno de guerra...
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Que alívio sentiu, que alegria! ... Só ele sabia o que na realidade tinha acontecido. Para muitos ele era um herói, um mutilado de guerra, mas se alguém por ventura adivinhasse o que se passara, seria um cobarde. Mas para ele, nem uma coisa, nem outra, apenas um homem, que por segundos hesitara em matar um outro ser humano. Tão simples como isso… nada mais... Mas quando voltou estava diferente, não mais podia voltar a ser o jovem que partira. Aprendera, finalmente, que nem tudo é preto e branco... e muitas vezes não há palavras que se apliquem a essas variações... uma coisa, era certa, continuava sem compreender o pouco valor que se pode dar à vida humana. A vida esse bem tão precioso... A princípio, quando regressou, acordava a meio da noite, todo transpirado, com uma opressão no peito, gritando aflitivamente. O medo que não sentira na guerra, sentia-o agora, no conforto da sua casa, na intimidade da sua cama... depois, depois deixava-se dormir de mansinho, pensando que apesar da pequena deficiência com que ficara e que não o impedia de trabalhar, era feliz… não tinha morrido, nem tinha matado... Estivesse aquele outro, que ele poupara, tão feliz como ele se sentia agora e tinha valido a pena. E adormecia sereno com um sorriso nos lábios... Pseudónimo: Objetor Autora: Maria Manuela Santos Figueiredo da Cruz*. USALMA
*Maria Manuela Santos Figueiredo da Cruz foi professora durante 14 anos e médica durante mais de quarenta, continuando a exercer. Nasceu em Lisboa, mas foi em Almada que sempre viveu, desde os quatro dias de vida. Recorda a sua primeira manifestação cívica, quando aos quatro anos de idade, assistiu às manifestações de alegria e libertação do final da II guerra. Amante das letras, sempre recorreu à escrita e à leitura como meio de evasão, ainda que a vida profissional e familiar exigentes tenham limitado essa expressão. A reforma, devolveu-lhe tempo para as leituras regulares e a escrita. As aulas de escrita criativa ajudaram e vai recebendo alguns prémios em concursos e Jogos Florais…Na gaveta “acumulam-se” trabalhos, aguardando publicação.
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OS INGLESES
Cresci e vivi toda a minha adolescência num bairro da classe operária, que não se poderia considerar um bairro pobre, mas onde o rendimento de cada um era apenas fruto do seu trabalho diário nas fábricas ou no comércio. Maioria operária, muitos dos quais nos estaleiros navais que havia na época em laboração, a Lisnave, a Parry & Son, o Arsenal do Alfeite, outros na construção civil, estivadores, vários empregados de comércio ou de outras profissões de baixo rendimento. Não me recordo de no meu bairro existirem muitas pessoas com profissões liberais. Lembro-me de uma professora, talvez a mais qualificada e era só. Havia também alguns comerciantes e esses já se poderiam considerar na classe dos remediados. Podemos dizer que, embora a generalidade dos habitantes do meu bairro não fosse pobre, os seus rendimentos não convidavam a que os filhos fossem estudar depois de fazerem o exame da quarta classe. Mais tarde alguns frequentariam o ciclo porque a sexta classe se tornara obrigatória. Ainda assim, muita da rapaziada da minha geração já se atrevia a frequentar o curso industrial ou o comercial e um ou outro até acabou por ir para o Liceu. O Eduardo formou-se em medicina, o Zé andava em letras, uma moça formou-se em Economia e eu também andei na universidade. Éramos as exceções. Mais tarde, numa geração mais nova dez anos do que a minha, tudo isto se veio a alterar, muito por consequência do 25 de Abril e da mudança de Regime, mas isto é só um aparte. Continuando a minha narração, a maioria acabava por desistir, mas ainda me lembro de um ter feito o curso de serralheiro mecânico, outro de eletricista e pouco mais. Aos catorze anos já andava quase toda a malta a trabalhar e eu próprio, apesar de ter seguido o curso liceal e mais tarde o universitário, comecei a trabalhar com treze anos de idade aproveitando os períodos de férias. Portanto, como não éramos todos que continuávamos os estudos, os filhos daqueles com menores rendimentos, às vezes famílias numerosas, não tinham outro remédio senão ir logo trabalhar mal terminavam a quarta classe integrando o mercado de trabalho infantil, restando um número muito reduzido dos que acabavam por aprender a falar línguas estrangeiras. Isto se não contarmos os que emigravam, pois esses não tinham outro remédio. No verão de 1970, estava eu nos meus quinze anos de idade, não fui, como já tinha acontecido nos verões anteriores, trabalhar mal acabei as aulas. Abria-se uma janela de oportunidade para eu ingressar nos escritórios de um dos estaleiros, só que teria de esperar até completar os dezasseis anos de idade. Como festejava o meu aniversário no verão, lá me inscrevi e aguardei pela chamada. Tive "direito" a quase dois meses de férias, um luxo para quem estava acostumado a, em meados de junho de cada ano, pegar na lancheira do almoço e ir trabalhar nas lojas de confeções ou sapatarias ou armazéns da Baixa como paquete. Ora, no verão desse ano, passou-se uma coisa bizarra. Dois ingleses estavam a acampar na ribanceira que ia do meu bairro até à velha fábrica de sabão, já na altura desativada devido a um grande incêndio que por ali tinha lavrado, em meados do século passado, ribanceira
H I S T Ó R I A D E V I DA – ME NÇ ÃO HONROSA
A história que aqui vos trago passou-se na minha adolescência e ainda a guardo na memória como se fosse hoje. E se a escolhi para vos contar foi porque tem intrínsecos, que na história vou tornar explícitos, os conceitos que escolhi como tema, em forma de palavras. A língua não é uma barreira. A amizade não tem idades. Como o mundo seria melhor na aceitação das diferenças.
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essa que era o meu caminho costumeiro para ir pescar no rio. Com a debandada geral dos operários da fábrica, uns para uma outra fábrica dos mesmos donos, mas que se situava em Alhandra, portanto bem longe e os outros para outras atividades fora da região, parte das casas, na arriba, onde moraram, ficaram abandonadas. Pois foi mesmo numa dessas casas em ruína que os dois ingleses abancaram. Para nós aquilo era muito exótico ou não fosse este povo meio inculto, suficientemente conservador que vivia "orgulhosamente só", isolado da Europa e do Mundo, eivado de preconceitos, para quem o Maio de 68 lhes foi vendido como uma ação de subversivos e o Woodstock um acontecimento de vagabundos, drogados e outros hippies. O nosso bairro não era diferente e o exotismo e admiração advinham de, primeiro serem estrangeiros e nessa época verem-se poucos por aquelas bandas, depois, porque estavam a acampar, vejam bem, numa casa em ruínas e, ainda por cima, porque eram dois homens juntos, se já se viu coisa igual. Pior ainda era que andavam quase sempre em tronco nu, o que para a época não era muito bem visto. E assim, os ingleses se tornaram palco das atenções e motivo das conversas lá no bairro. E, como não podia deixar de ser, lá vinha a história dos teddy boys que davam drogas às crianças para as raptarem ou abusarem delas, tenham cuidado, não aceitem nada dessa gente, eu quero-vos é afastados e, para mim, nada de dizeres a eles que falas inglês. E pronto já estava o caldo entornado... Eu e o meu irmão tínhamo-nos tornado os melhores amigos dos ingleses. Éramos, na altura, dos poucos que "arranhavam" o inglês, quero dizer, na realidade eu era o único dos putos que ia para aquelas bandas à pesca que falava um pouco de inglês e que conseguia, embora sem uma grande desenvoltura, pedindo-lhes para que não falassem muito depressa, porque o meu vocabulário não era, de todo, muito rico, manter uma conversa com eles. E assim, durante aquele tempo, acompanhávamo-los à mercearia onde eles faziam algumas compras, pasta dos dentes, café, bolachas, levávamos-lhes peixe que, acabado de pescar no rio, nem chegava a entrar em nossa casa, entre outras "mordomias". Até que um dia os convidei para jantar lá em casa. Só que isso, já não o fiz à revelia dos meus pais. Primeiro acertei com eles que, com alguma relutância, ia ser o bom e o bonito, o falatório lá no bairro de se convidarem dois estranhos para dentro de casa, sabia-se lá quem é que se ia meter das portas para dentro, condescenderam e lá convidei os ingleses. E aqui foi a nossa surpresa. Eles aceitaram com grande felicidade e simpatia. Em nossa casa, embora a minha mãe não soubesse uma palavra de inglês e o meu pai só soubesse algumas avulsas, tivemos uma conversa muito interessante. Um deles engenheiro e o outro arquiteto estavam numa de globefrotters tentando sobreviver o mais possível com o que a natureza lhes conseguisse proporcionar, evitando ao máximo as compras, apenas o indispensável. E sempre acampavam junto de locais onde houvesse muita água, para poderem tomar banho e fazer as suas próprias refeições. Do que me lembro e já não é pouco para factos passados há cinquenta anos, ficou-me retido na memória a surpresa de se olharem ao espelho e verem aqueles rostos tão barbudos, pois já não aparavam a barba fazia tempo, o elogio à comida portuguesa, confecionada pela minha mãe e servida ao jantar e ao vinho, do qual disseram maravilhas, embora eu, confesso, não os pudesse acompanhar na apreciação, pois que com aquela idade não bebia. E lembro-me também duma muito interessante revelação, a de que em Portugal não dispensavam o café, que eles chamavam café português e que faziam numa cafeteira de alumínio que os acompanhava sempre pendurada na mochila. Mostraram fotografias da família, das mulheres e dos filhos, pois ambos eram casados e um dos quais tinha filhos, agradeceram a hospitalidade portuguesa, elogiaram muito aos meus pais o nosso comportamento pois, ao contrário de muitos dos outros catraios, nunca lhes pedimos "moni", "moni" que era como a malta lhes pedia dinheiro (money). Partiram, mas ficamos sempre amigos. De vez em quando, estávamos a receber lá em casa um postal ilustrado dos locais por onde eles iam passando. O tempo, inexorável, cumprindo a sua missão, cortou-nos o contato. A amizade e a lembrança ficaram connosco para toda a vida. De vez em quando ainda se conversa. lembras-te dos ingleses...". E foi também assim, através dos ingleses que eu "vi" pela primeira vez o Estádio do Maracanã, num lindo postal do Brasil onde, afinal, apesar do sotaque, se falava português. Pseudónimo: Caixeiro Viajante. Autor: Vítor Manuel Alves Fernandes*, USALMA
* Ver nota biográfica na página 22.
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O VA L O R D E U M A L Í N G UA Josefa e Bartolomeu eram dois velhos, velhos de idade, que somados os anos perfaziam 161. Quando surgia a oportunidade, Josefa acrescentava sempre, que ela era mais velha que ele um ano. Tinham nascido ali e ali permaneciam. Descontadas as poucas idas ao médico à cidade, nunca dali se ausentaram. Ela e o seu Bartolomeu eram os mais velhos do lugar, e isso era assumido com “proua”*. Na pequena aldeia, outrora com mais de 400 pessoas, hoje resumem-se a trinta. Aquela gritaria da garotada a correr pelas ruas, quando regressavam da escola primária ao meio-dia para almoçar, desassossegava tudo, até as gatinhas que andaram livres na rua, era a vida na sua plenitude. O perfume das hortas frescas cultivadas logo no romper da primavera, já se tinha perdido. No inverno, a lenha queimada nas lareiras para aquecer a casa e preparar as refeições, espalhava aquele cheiro tão característico saído das chaminés, que invadia todo o espaço da aldeia. Hoje tudo é silêncio como se a vida tivesse feito uma pausa. Os filhos foram-se embora na busca de uma vida melhor, ficaram apenas os mais velhos. Josefa e Bartolomeu tinham quatro filhos e já todos tinham tentado convencê-los a irem morar com eles para a cidade. Tempo perdido, confessava ela à vizinha Arminda um pouco mais nova. Veja lá ó vizinha Arminda! Então ia para a cidade e depois tinha que falar “grave”**. Ela nunca aprendera outra língua senão aquela que os pais lhe haviam ensinado. A vizinha respondia com aquela voz doce.
Josefa ganhava fama e muita gente visitava aquele lugar para a ouvir falar. Era um linguajar diferente mas cativante. Contava-se que no final do século XIX, um homem muito sábio que estudava na universidade, se deslocou do Porto àquelas terras, gastando cinco dias na viagem, só para ouvir falar aquela língua, porque a tinha ouvido a um estudante matriculado na Academia Politécnica do Porto, que quando a falava, até as guitarras se calavam. Josefa, sempre que tivesse pessoas para a ouvir enchia a boca de palavras e despejava-as devagar desta maneira: - Muitos a aprenderam e falavam, mas era com a boca pequena. Até parecia que tinham vergonha. Era uma língua de gente pobre, de pastores e boieiros. Todos sabiam que morava longe, meio escondida. Quem por ali passava admirava-se e pedia na maioria das vezes para que a falassem. À primeira impressão, soava-lhe estranho, mas pediam sempre para falar mais e mais...
C O N TO – 1 .º PR É MIO
Deixe-se estar aqui na sua casa, neste lugar especial, onde tudo conhece, não só as pessoas, mas também os aromas e tudo o que a envolve, nomeadamente esta língua que cada vez está mais esquecida.
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A história já vinha de muito longe, ainda Portugal não era o que é hoje. Tinha parentes do outro lado da raia, eram castelhanos e lioneses. O que se dizia era que tinha um passado importante porque tinha castelos, mosteiros e ordens militares. Depois vieram as guerras, gente com vontade de ficar com o que não lhes pertence, como sempre acontece. Foram valentes, juntaram-se, e assim salvaram o que puderam, o mais importante. Depois chegou o desenvolvimento. Aí sim que a coisa se complicou. A maioria das pessoas foram-se embora e muitos como que zangados iam dizendo. Ficar para aí, lá fora há outro encantamento, fala-se “grave”, o resto já não conta. Passou tempos muito maus, todos lhe viraram as costas, e alguns até diziam; ficai para aí esquecida que já servis para nada. Envergonhada foi-se recolhendo num encolher de ombros. Viveu de esmolas de visitas de tempos a tempos, até houve quem se zangasse quando lhe perguntavam por ela. Os anos foram passando, e ela sentiu-se doente, muito doente, tiveram que a levar a Lisboa, para ser tratada na Assembleia da República em 1999. Foi um ar fresco que lhe entrou e fez este discurso.’ - “Agarrou l ranhadeiro para abibar l lhume d’alma i l sangre dun cuorpo bien sano. Chena de proua, abriu la puorta de la priêça de casa, puso fincones un sou ser, saliu pa las ourrietas i preinadas. Lhibre como l reissenhor i la chelubrina, yá puode cantar, yá se puode afirmar. A la par de l pertués a partir de hoíje, ye lhuç de Miranda ye lhuç de Pertual.” - “Pegou no ranhadeiro*** para avivar o fume da alma e o sangue de um corpo são. Cheia de vaidade abriu a porta do hall de sua casa, colocou marcos no seu ser, saiu pelos baixios e planaltos. Livre como o rouxinol e a cotovia, já pode cantar, já se pode afirmar. Conjuntamente com o português, a partir de hoje é luz de Miranda é luz de Portugal”. Regressou de novo à sua terra e nunca mais teve medo de dizer o que pensava. O grupo de pessoas que até ali tinha estado em silêncio a ouvir, não aguentou mais e perguntou: - Afinal, de quem falais? A resposta veio breve. - Falo da língua mirandesa. ————————— A língua mirandesa tomou-se a segunda língua oficial do País por Lei N.° 7/99 de 29 de janeiro *“Proua” - Vaidade, Presunção **“Grave” - Português, falar português ***“Ranhadeiro*” - Vara comprida que serve para espalhar as brasas dentro do forno do pão. Pseudónimo: José Preinada Autor: Valter Augusto Deusdado*. USALMA
*Valter Deusdado nasceu em 1952 em Miranda do Douro, distrito de Bragança. Fez a sua formação no Instituto Superior Técnico e na Marinha, onde durante mais de quarenta anos fez a sua carreira atingindo o posto de capitão-de-mar e guerra. Sempre atento às pessoas e ao seu comportamento cria a atmosfera que vai servir de inspiração à sua escrita. É uma escrita de poucas palavras que é necessário mastigar para as sentir. Em 2011 publicou o seu primeiro livro “L Ancuontro” em língua mirandesa. Em 2016 publicou o 2.º livro “Noites Escuras”. Em 2018 publicou o 3.º livro “A Escolha”. Em 2019 publicou o 4.º livro “O Regresso” a partir do segundo são bilingues: português e mirandês.
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U M J A N TA R N O Q UA RT I E R L AT I N Talvez algum interesse tenham, para esta breve história que vos vou contar, as línguas que se falaram na Península Ibérica, quer as pré-romanas, quer as medievais. Isto porque nesta região ibérica se falaram mais de duas dezenas, muitas, ou talvez todas, de grande relevância para o conhecimento, quiçá para a formação, das línguas atuais, as que se falam em Portugal e em Espanha. Haverá mesmo especialistas em línguas indígenas ou, se não tanto, arcaicas que poderão explicar de onde veio a língua que o meu amigo António fala.
E assim, evoluindo de línguas arcaicas, mas que hoje já não se podem considerar propriamente indígenas, caraterizando-se estas como as línguas originais dos habitantes de uma determinada região, visto que pela nossa península passaram, ao longo de muitos séculos, povos de muitas latitudes, cada um com o seu dialéctico linguajar ou estruturado falar, acabamos todos por aqui a saber falar português ou castelhano, sendo que o castelhano serviu, de alguma maneira, por ser o elemento congregador de um conjunto de nações espanholas. E foi através das campanhas navegadoras, os descobrimentos, que também, espalhados pelo mundo, indígenas dos mais diversos quadrantes foram iniciados no Português e no Castelhano, muitas vezes à custa da subordinação que os reinos de Portugal e Espanha impunham, em detrimento, ou até mesmo a eliminação, das línguas indígenas, das quais, felizmente, ainda houve resistentes e por isso serão cerca de sete mil as que chegaram aos nossos dias. Para mitigação dos nossos pecados colonizadores, ou talvez não, porque a nossa língua é também o nosso orgulho, não fomos só nós os Ibéricos que disseminámos novas línguas faladas e escritas, também outros o fizeram, holandeses, franceses, ingleses, alemães, eslavos e por ai fora, como de resto já o tinham feito povos muito mais antigos na Europa, de que os fenícios são apenas um exemplo. Sempre que oiço falar de línguas estrangeiras em comparação com o português, sou
C O N TO – 2 .º PR É MIO
Seria por demais fastidioso explicá-lo neste conto socorrendo-nos da origem e da evolução do Tartessiano, do Celtibero, das línguas Galaica e Púnica, da Fenícia. Tão pouco ou nada se envolvera, na história que ora vos narro, o Buro, o Gótico, o Suevo e o Vândalo. Hoje em dia, fala-se, na Península Ibérica, o Basco, o Catalão, o Galego, o Mirandês, a língua leonesa, a aragonesa e a asturiana, mas todas elas com pontos de união ou pelo menos em comunhão, com o Castelhano, na nossa vizinha Espanha ou com o Português no nosso país. O que parece mais certo é que a maioria dos vocábulos que constituem o léxico destas duas línguas provenham etimologicamente do Latim e do Grego. O meu amigo António sabia isso, sabia mesmo que as nossas duas línguas, com as suas diferenças, tinham origem naquelas todas muito antigas, pois era um rapaz culto e que fazia garbo dos seus conhecimentos gerais. Do tipo de quem vai a um concurso de televisão e são favas contadas.
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confrontado com a majoração da dificuldade da nossa língua. Aqui se diz que é uma das mais difíceis e complexas do mundo, num enaltecimento que tem tanto de mítico como, por vezes, de bacoco. É certo que não é uma língua simples, é muito bem estruturada e rica, mas considerá-la a mais difícil do mundo é um caminho por onde não estou disponível a seguir. Curiosamente e em contradição, sempre que se fala de espanhóis, se ouvem não menos bacocas, mas desta vez quase me atreveria a classificar de boçais, afirmações de que os espanhóis não nos percebem porque não querem, porque não só são presunçosos, mas também demasiado preguiçosos. E eu fico a pensar, «Então em que é que ficamos? E uma língua difícil ou é fácil falar português e os espanhóis é que são burros?». Apesar de já o ter referido antes, ainda não vos apresentei o António. O António era um espanhol, ou é um espanhol meu amigo, pois embora não o veja há mais de trinta anos, estimo que seja vivo e esteja de boa saúde. António é um espanhol típico, tanto quanto é licito adjetivar um espanhol como típico. Tem uma personalidade forte, é daqueles do tipo antes quebrar do que torcer, se o companheiro fuma dois maços de tabaco, ele fuma três e, obviamente, se o companheiro aguenta meia dúzia de cañas, ele aguenta uma dúzia! Talvez eu esteja a exagerar, não sei se um espanhol típico é isto, mas ainda me lembro de afirmações deste tipo, durante as nossas conversas quando, por razões profissionais, tive de viver em Madrid. Eu e o António trabalhávamos numa companhia francesa com delegações por toda a Europa e, naturalmente, também em Lisboa e em Madrid. Quando la estive deslocado, era com o António que eu mantinha uma relação mais estreita, pois tínhamos muitas afinidades profissionais e equivalência de responsabilidades e conhecimentos técnicos na área dos computadores. Se bem que não é nas línguas “faladas” pelos computadores que esta história se sustenta e encerra, esta referência serviu para eu vos situar na minha relação com o António. Pseudónimo: Xavier Sepúlveda Autor: Vítor Manuel Alves Fernandes*. USALMA
*Vítor Manuel Alves Fernandes nasceu em Lisboa em 1955, mas é almadense por opção. Formou-se em Engenharia Eletrotécnica no Instituto Superior Técnico e em Máquinas Marítimas da Marinha Mercante na Escola Náutica Infante D. Henrique. Exerceu a sua atividade profissional maioritariamente na área de Informática. Foi também Professor de Matemática no ensino superior particular. Apaixonado por fotografia, dá formação nesta área em regime de voluntariado na USALMA, Unisseixal e Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro. Como blogger, pode ser seguido em: http://constantinogvacas.blogspot.pt. Publicou o seu primeiro romance, "Sete Facadas e Carapaus de Escabeche", em 2012, ed. Pastelaria Studios. Tem-se afirmado como autor de contos, romance e poesia em nome individual ou participando em várias coletâneas. As suas últimas publicações foram o livro de contos "Pero que las hay, las hay e outros sabores" ed. Emporium, 2018 e a participação na coletânea de poesia IDEÁRIOS, Outubro 2019.
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O N D E A N D O P O R V Á R I A S L I N G UAG E N S DA A RT E A Clave está no lugar certo se o Sol a acompanha, depende do desejo da Natureza; contudo Orfeu orquestra o musicado da Vida e pode fazê-lo ao relanti. Se a pauta das árvores que fustigam num vento de pintor inspirado, é criado um quadro identificável por quem na tempestade se reviu. E os quadros são cenas de vivências ou vivências teatralizada... filmes com observâncias subjetivas e que se pretendem com fins felizes ou em aberto, para deixar a idiossincrasia jogar. Um conto é uma estória e sei dum pintor que saiu duma carruagem, em plena tempestade, para estar incluso em algo que o seu arrivismo lhe poderia irrigar, na memória, o sentido de si para a retratar. Os outros viajantes permaneceram timoratos dentro da carruagem, bloqueada pela chuva que fazia lamaçal intenso no percurso a seguir. "Os vaidosos passam ao largo duma poça de lama, não só porque os possa sujar mas antes de tudo porque não se podem nela mirar!" Orfeu, portanto, deixou música nas pinceladas abstratas do pintor então desconhecido. Quando da exposição anual em Paris das correntes vigentes, muitos foram os visitantes e mais as obras rejeitadas, tantas que decidiram fazer uma mais modesta exposição dos artistas não conceituados com as devidas obras por apreciar. Uma senhora anafada e conduzida por dois Lulus, bem franqueada por um marido que demonstrava afeto e carente da esposa, deteve-se frente ao quadro da tempestade. Assim que depôs os seus olhos sobre a obra, até então incompreendida, exclamou : Mas eu já vi isto... Não, querida, este quadro é um dos rejeitados e é a primeira vez que é exposto retorquiu o marido. Aproximou-se um homem que suavemente lhes dirigiu a palavra dizendo: Por acaso a Madame e o Senhor não foram surpreendidos umas semanas atrás por uma tempestade enquanto viajavam de carruagem... !? Fomos sim - disse o marido - e até tememos pela vida de um homem que em plena tempestade abriu as portas da carruagem e enfrentou a chuva e o vento, parecendo indiferente ao perigo que corria e ao qual nos expôs quando a carruagem quase se destroçava com menos peso dentro. Não digas mais querido, este quadro é a Tempestade. E este homem é o louco! Perdão o Pintor! - Conta-se acerca do primeiro quadro abstrato figurativo de William Turner... Orfeu decidiu cindir sua harpa e metade deu-a a Sebastião da Gama enquanto da sua clausura voluntária na serra da Arrábida. Deus tangiu-o com o seu dedo quando Sebastião tentou
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Mas digo-te que já vi isto em qualquer lugar...!
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ser corda em Suas mãos e assim começou a Maternidade da Serra. Vinte e sete anos o Sol fez na terra a sombra do poeta, e Jasão já encaminhando Orfeu na Barca, porque os Argonautas cederam a proa da embarcação ao Músico Poeta - se bem que música e palavras se confundam quando a permeabilidade sonora do espaço dá lugar ao eterno... "Ars longa vita brevis". E fico eu na senda das palavras, sabendo algumas notas de música mas apenas compondo escrevendo, buscando sonoridades latentes às vezes ásperas lusitânicas mas de afirmação poética para que fluam como água para bocas sedentas doutras Águas... Folhas que caiem umas sobre as outras e já Homero clamava por outras gerações que se libertariam da lei da morte... Quem ensinou a Sebastião o caminho para o Parnaso...!? Orfeu, de certeza, quando ressuscitado perdeu por pouco Eurídice; deixou sua cadência de movimentos melódicos à conta dos que os saberiam cantar... Simplória, chamaram-me um dia e eu simples... simplesmente intrigante e insólita na prefiguração duma árvore que sabe semear ao vento, o que a terra consegue fazer germinar, uma aridez contemporânea de Valores e Cultura da sensibilidade, não dos sentidos... Ah Platão! Quem ousaria olhar-te nos olhos senão o Conhecedor dos espaços sidérios, Anacoreta e tratado, por Vitor Hugo, com a ousadia de grande lágrima do Universo ou mais perto como "Padre Etemo" Que sorte para Guerra que haja Oração à Luz. Pseudónimo: Nanah Autora: Maria Helena G. Castelhano*. USALMA
*Maria Helena G. Castelhano nasceu a 10 de Março de 1962 em Almada, cidade onde cresceu e iniciou os seus estudos. Frequentou na faculdade de Ciências de Lisboa o Curso de Química que relega para se dedicar às Artes Plásticas na Sociedade Nacional de Belas Artes. Perseguindo o sonho de poder ilustrar o que escreve e também de dar azo a uma natureza expressiva começa a sua aventura entre quadros e escritos. Paralelamente estuda em duas Universidades Seniores de Almada, facto que completa e vivifica a sua jornada colectiva e social.
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A L Í N G UA D O A M O R
“Adolfo, conheço várias línguas. Considerando bem, todas elas são belas, sonoras, expressivas, maleáveis e harmoniosas. Todas, sem exceção. Mas - atenção! - há línguas e línguas. Entre aquelas que eu conheço, há uma que se releva (e de que maneira!) pela sua magia: o francês; sim, digo bem: o francês. Além de bem sonante, o francês é melódico, doce e, sobretudo, muito romântico. Para fazer amor, amigo, não encontras melhor. Desculpa dizer-te isto a ti, eu que sou um aprendiz à tua beira. Quando me casei, apercebi-me logo disso, de maneira que, agora, quando eu e a minha mulher queremos fazer amor, não temos outro proceder: ligamos a rádio numa estação francesa, ouvimos uma música francesa e… pronto! Tiramos a roupa, deitamo-nos na cama e começamos os nossos jogos amorosos. Quando o calor começa a subir, eu concentro-me e digo-lhe em voz doce e sentida: ‘Ma petite chatte! Ma bellefleur!’ E ela: ‘Mon amour!’ E eu volto: ‘Mon choux! Ma colombe!’ E ela de novo: ‘Mon trésor! Monpigeon!’ E eu repito: ‘Mon minou mignon!, Mon xplos du désir ! E ela remata: ‘Mon xplosiv du plaisir, mon brave cavalier, mon doux amour, mon grand et xplos amour…mon…mon xplosive amour ! Ah, Adolfo, nós atingimos as nuvens; nós entramos pelo Céu adentro, onde temos a dita de ouvir os coros celestiais entoando hinos de louvor. E sabes em que língua? E verdade: em francês. Acredita-me, Adolfo! Nós não queremos outra maneira de fazer!” Rendi-me a uma confissão tão intimamente sincera. Tratava-se do meu amigo Januário, e bastava. Findo o encontro, paguei a despesa, despedi-me e regressei a casa: “Roberta, temos que aprender a falar francês!” “Francês?! Mas porquê, Adolfo?!” “Porque é uma língua muito bonita.” “Por que dizes ‘bonita’ Q” “Porque, porque soa muito bem ao ouvido.” “Também o inglês, o italiano e outras línguas mais!”
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O meu amigo Januário tem tanto de filósofo como de sibarita. Com a sabedoria que lhe vem dos seus trinta e cinco anos bem vividos, gosta de sorver a vida até ao fundo. Intensamente. Sensualmente. Creio que foi por ter passado uns catorze anos em França, de onde, para bem ou para mal dos seus pecados, trouxe uma companheira muito cobiçada na cidade pela sua beleza e ousadia. Mas adiante!... Há coisa de três anos, depois de uns uísques bem gelados, o Januário confidenciou-me:
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“Sim, sim, mas o francês é mais doce, mais melodioso e, principalmente, muito mais romântico. Entra melhor no ouvido e... no coração!” “Sim. Temos que aprender a falá-lo.” Pusemos a língua à obra e começámos a frequentar as aulas de francês na Alliance Française durante dois longos anos. Com o pouco de francês que ainda nos ficara dos idos tempos do liceu e com o empenho que na tarefa pusemos, conseguimos atingir aquele nível de execução que nos pareceu suficiente para o efeito pretendido. E a partir de então, passámos a fazer amor em francês. Finalmente! Assim, quando temos disposição, subimos para o quarto, tiramos a roupa, vestimos os pijamas, ligamos o rádio numa estação francesa, ouvimos uma canção francesa, deitamo-nos e começamos as brincadeiras do costume. Nessa altura, eu começo a dizer: ‘Ma petite chatte! Ma belle fleur!’ A minha mulher, por sua vez, acrescenta: ‘Mon amour! Mon pigeon!’ E assim por diante, como o momento aconselha. Hoje em dia, meus amigos, olhando bem para trás, consideramos que foi uma boa decisão a nossa. Temos, no entanto, de reconhecer humildemente que nem tudo tem corrido conforme o que esperávamos e pretendíamos. E que, depois de algumas frases na língua de Victor Hugo e quando já estamos com o espírito meio perturbado, tanto eu como a minha mulher esquecemo-nos do francês com tanto esforço aprendido e pobres de nós! - não conseguimos passar além das nuvens. Pseudónimo: Contador de Estórias Autor: António Luís Pinto da Costa*. Unisseixal
*António Luís Pinto da Costa nasceu em Tresminas, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, em 1946. Estudou filosofia, teologia e psicologia. Depois de ter cumprido o serviço militar, começou a lecionar nos ensinos preparatório e secundário. Fez a licenciatura em História, o mestrado em História dos Séculos XIX e XX e o doutoramento em Antropologia Social da Educação. Colaborou na feitura do currículo do mestrado em Antropologia da Educação ministrado no I.S.C.T.E., a partir de 2003/04, e, de seguida, na lecionação da disciplina de “Etnografia e Culturas Escolares”, sob a regência do prof. Luís Souta. Assinou até ao presente oito livros. Fez parte do grupo dos cinco sócios da Casa do Educador do Concelho do Seixal que fundou a Universidade Sénior do Seixal, de que se tornou o
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R A P DA PA L AV R A D I TA E foi no tempo em que o Homem falava uma língua só, E que todos se entendiam. E a enorme torre de Babel Deus a tomou. E os separou. E em línguas mil se desentenderam. Fala o branco, fala o preto Fala o índio e o amarelo Elas são mais de sete mil E também há dialetos Mas isso sabem vocês Complexo ou singelo Fala corso, fala chinês Umas com chapéu ou til Se escrevem ou se sussurram Pois são mais de sete mil! É uma Babel! É uma Babel! Que é preciso preservar: Queremos o mundo a falar! Dizem já que muitas delas Vão desaparecer em breve Quanta já é moribunda? E melhor nem se saber. Será razia profunda Muita língua irá morrer Apontem isso. Quem se atreve? É uma Babel! É uma Babel! Que é preciso preservar: Queremos o mundo a falar! Ele é na mata amazónica E na floresta africana Seja a língua muito harmónica Ou apenas gutural
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E se nada se fizer
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Para o mundo isto é um mal E até mesmo o mirandês Que é língua de português Morrer seria coisa insana!!. É uma Babel! É uma Babel! Que é preciso preservar: Queremos o mundo a falar! E perde-se conhecimento Acaba-se com a memória E um golpe na cultura Pois língua indígena é coisa pura Só se fala enquanto dura Se queremos ficar na história Este agora é o momento! É uma Babel! É uma Babel! Que é preciso preservar: Queremos o mundo a falar! Pseudónimo: Ismael o Pensador Autor: Vítor Manuel Alves Fernandes*. USALMA
* Ver nota biográfica na página 22.
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M U I TO O B R I G A DA ! Nda pandula chalua, pelo despertar deste novo dia, pela vontade de o partilhar com alegria, fazendo dele o melhor de todos até agora vividos. Gratidão é um sentimento que exprime reconhecimento, - algo de bom que o ser humano tem quer seja meu amigo, meu irmão, meu pai, minha mãe, meu filho, meu bem, faça ou não, parte da minha vida, despertou em mim uma forma feliz de ser grata, de ser reconhecida! Nda pandula chalua, expressão linda e simples que o povo Umbundu repete sempre, com um sorriso, - um sorriso travesso no olhar -
Quisera saber agradecer, cada dia, tudo o que de bom recebo de Deus, da família, dos amigos, dos conhecidos, mais ou menos queridos, que com seu olhar envolvem meu ser, me comovem, me inebriam, me ensinam a ser grata por cada alegria, por cada bênção desmedida, por cada ternura que me adoça a vida, por cada insignificante olhar, que me torna feliz e agradecida…
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deixando vislumbrar o próprio coração!
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Saber dizer 'obrigada' ou 'muito obrigada' quando a educação no-lo permite — já que nem todos somos gratos — mostra a diferença que em nós existe. E eu desejo agradecer: Pela vida, pela saúde, pela alegria de viver, pelo bem-estar que me anima o ser, pelos queridos meus, pelos sorrisos teus, por temos abraços, quais apertados laços que me deixam emocionada, minha irmã, minha amiga mais chegada! E mesmo não estando a teu lado, porque é imensa a lonjura que nos separa .. — ao leres o que escrevi — apesar de longe, talvez consiga ouvir tuas doces palavras: Nda pandula chalua! Lalipo chiwa, minha amiga! _________ Nda pandula chalua = Muito obrigada Lalipo chiwa = Adeus
Pseudónimo: Mi Mourito Autora: Maria Sales Cardoso*. USALMA
*Maria Sales Cardoso nasceu em Casével, Castro Verde, a 23 de Maio de 1940. Foi no concelho de Almada, onde reside, que viveu a sua adolescência e juventude. Trabalhou no sector público, dedicou parte da sua vida como missionária em Angola, foi professora e desempenhou funções como secretária administrativa numa entidade privada, estando, presentemente, reformada. Tem uma filha, um filho e quatro netos. Nos tempos livres, gosta de ler, escrever, ouvir música e viajar. Editou dois livros de poesia, Momentos… em 2006 e Retalhos… em 2008.
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ÀS VEZES Às vezes, O céu azul e o mar Às vezes, O brilho do teu olhar Às vezes, Só noite e escuridão Às vezes, Teus olhos a chorar Às vezes, Um aperto, neste pobre coração. Às vezes, O riso das crianças Às vezes, O morrer das esperanças Às vezes, Um pardal a chilrear Às vezes, Só um mocho a piar Um inverno escuro e frio Às vezes, Tudo é uma cruz Às vezes, Tudo é primavera Cheiro, cor e luz... Pseudónimo: Tágide Autora: Maria Manuela Figueiredo Cruz*. USALMA
* Ver nota biográfica na página 22.
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Às vezes,
5.ª EDIÇÃO DOS JOGOS F LORAIS A quinta edição dos jogos florais da Apcalmada-USALMA teve em consideração o facto de 2019 ser o Ano Internacional das Línguas Indígenas. Esta celebração é uma homenagem ao universo das línguas enquanto instrumentos vivos, modelados por povos com culturas diferentes e com as mais diversas vivências ambientais, sociais e políticas. O facto de se reportar às línguas indígenas, coloca no horizonte conceitos como o respeito pelas minorias, a diversidade como elemento construtivo de identidades e afirmação grupal e o reconhecimento das línguas como elementos dinâmicos dos processos de integração. Nesta quinta edição dos Jogos Florais pretendeu-se prestar tributo a uma, a algumas, ou a todas estas dimensões das línguas, intermediárias privilegiadas da expressão da sensibilidade e do modo de «ver» e de «estar» no Mundo de cada um e de todos.