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NÚMERO ESPECIAL SUPLEMENTO NOVEMBRO 2018
O Património Somos Nós
4.ª
Edição dos Jogos Florais
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FICHA TÉCNICA Título: InFormar Suplemento Diretor: Jerónimo de Matos Coord.: Edite Prada Revisão de texto: Edite Prada Conceção gráfica, paginação: Domitila Cardoso Propriedade e Editor: Associação de Professores do Concelho de Almada (Apcalmada) Rua da Cerca, 21-23 - 2800-050 Almada Telefone: 219012420 URL: www.usalma.apcalmada.org E-mail: apcalmada@sapo.pt
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Índice Editorial
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História de vida Em cadeia
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O Ti Manel dos farrapos
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Geração insone
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Conto Todos diferentes… Todos iguais
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A beleza das coisas simples
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Poesia A poesia é de todos
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Património
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As palavras
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Sempre viva
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E D I TO R I A L Com a quarta edição concluída, os jogos são já, também eles, Património da Associação de professores do Concelho de Almada (Apcalmada) e da Universidade Sénior de Almada (USALMA). Elemento estrutural e essencial das memórias individuais e coletivas, o Património é multiplicidade e diversidade de identidades, valores, tradições, símbolos, realizações edificadas, realidades paisagísticas e culturais «Corre-me nas veias, aos saltinhos, o ribeiro da minha aldeia. Carrego dentro de mim, toscos e rebeldes, os blocos de granito da serra que me viu nascer. Inebria-me o cheiro a urze e a resina e fascina-me o mistério verde e altaneiro da floresta. Ecoam no meu peito as preces e os cânticos da igrejinha românico-gótica onde fui batizado e onde aprendi a ver os outros como irmãos.» In: Em cadeia O património é uma presença viva que constantemente nos questiona e interpela num diálogo com o passado por vezes difícil «São lembranças pegajosas que não consigo arrancar da memória. As crianças dormem, a mulher dorme, mas eu continuo a atravessar o espaço entre a cantina e o abrigo dos condutores;» in Geração insone; por vezes construtivo: «E para nós todos, foi-se com a sua morte a morte das ingénuas vivências de outros tempos. Mas foi com elas que nos estruturámos e enriquecemos. Valeu a pena!» in O Ti Manel dos Farrapos, de António Dias Henriques. O património surge nos textos a concurso também como conceito integrador, alargado e dinâmico, num processo que aceita as diferentes identidades, aposta e valoriza o diálogo intercultural, a coesão social, as histórias e os valores «O pinheiro em monologo «E eu, vigilante e sempre atento, fui testemunha da amizade que se criou, no meio do barulho de tachos, do perfume da muamba, do picante das chamuças, da variedade de sabores da cachupa e do avinagrado do arroz de "pica no chão", pois todos eles, apesar das suas dificuldades, quiseram dar a conhecer os sabores das suas terras como cartão de visita para melhor se conhecerem e cimentarem uma amizade nascente.» in Todos Diferentes… Todos Iguais, de Maria Manuela Santos Figueiredo da Cruz. E para entender o Património «O que é preciso é ter olhos e descobrir a beleza das coisas simples!" in A Beleza das Coisas Simples, de António Luís Pinto da Costa. A comunicação verbal na sua complexidade não foi ignorada no conjunto dos elementos trazido à tona pelos textos dos jogos florais: «O que querem as palavras realmente dizer? Do que nos falam elas? Das coisas que nomeiam, Ou do próprio nome das coisas? Das próprias coisas nomeadas, dirão uns Da nomeação das coisas, dirão outros. Alguns, poucos, dirão que nem de uma coisa nem de outra.
Esses sabem que elas serão um dia dispensáveis, como dispensável é o joio quando baralhado com o trigo. In As Palavras, de Fernando Humberto Santos Serra. Mas as palavras, ferramenta de eleição para os poetas não são fáceis. Carregam inúmeros sentidos, acumulados numa vida longa, por vezes interrompida por desuso, mas muitas vezes recuperadas, renovadas, colocadas à janela da vida e da sociedade transmutadas na vida que a nova realidade lhes atribui. Mas, ainda assim, não se entregam facilmente ao primeiro que as queira burilar: «E arrancadas dos troncos sulcados de signos palavras vazias, frases inacabadas, insanos sinais, símbolos de nada, que nada dizem ou não dizem nada de mais... peço socorro à sintaxe - ou às ninfas, sei lá! A Erato, sim a Erato!»
In A Poesia é de Todos, de Vítor Manuel Alves Fernandes.
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Neste mundo da palavra não faltam referências à Flor do Lácio, portadora de uma memória que se perde na lonjura dos tempos: «Foi no fascínio desta flor sempre viva que um povo inteiro foi além de si, para se encontrar com todos os povos que persistem em ver o mar. »
In Sempre Viva, de José Manuel de Jesus Monteiro. O património é a coluna vertebral de uma cultura, de uma comunidade. O júri dos jogos florais felicita os premiados, mas também todos os concorrentes que com o seu contributo ajudam a fortalecer essa cultura, essa comunidade. O Júri Almada, 9 de outubro de 2018
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EM CADEIA
O senhor António Ramiro não morreu — continua a conversar comigo e a contar-me as estórias que a sua avó também lhe contara a ele, quando criança. Ainda hoje ouço o Mário Fernandes a tocar a concertina para a mocidade bailar no largo do Cruzeiro e o Roberto, de Vale de Baixo, a cantar ao desafio, acompanhado pela guitarra portuguesa do Agostinho Serrador! Os termos regionais continuam a soar na minha memória. Nunca pude esquecer as regras do menino bem-comportado, que pais, familiares e vizinhos incansavelmente me repetiam. Um, entre dezenas, eu era um cabrito irrequieto do pequeno rebanho de Monte Redondo — nome que nós, os vizinhos, muito prezávamos e que causava inveja aos forasteiros que acorriam à feira dos Sete ou à festa anual de São Miguel. Mas a vida obrigou-me a romper o casulo, a fazer-me ao largo e a estender os horizontes que se finavam ali na vila, a uns vinte quilómetros de distância, aonde fui a primeira vez para fazer o exame da quarta classe: outros rios conheci, bem mais caudalosos; outras montanhas escalei, bem mais altas e tomadas de mistério; por minha mão me fiz batizado em novos usos, costumes e ideias; admirei monumentos mais imponentes; trauteei novas canções; adotei valores recémchegados; visitei países estrangeiros, antes apenas imaginados. A minha aldeia alargou-se e passou a chamar-se Portugal; Portugal estendeu-se e ganhou a dimensão do mundo. Hoje, sou um cidadão do mundo, um ser compósito de muitas almas. Hoje, sei que nasci na mesma manhã em que nasceu a humanidade. O meu sangue é mistura. A minha alma é tecida de múltiplos fios. Conto os anos por séculos. Estou ligado pelo umbigo a milhões e milhões de outros seres humanos. Sou rico, riquíssimo. Possuo um incontável tesouro: herdei, com os meus irmãos, as riquezas — e as misérias, infelizmente, também — dos que já partiram e compartilho ainda outras com os meus companheiros de viagem. Mãos nas mãos, comungando o mesmo destino, o que fazer senão con-
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Corre-me nas veias, aos saltinhos, o ribeiro da minha aldeia. Carrego dentro de mim, toscos e rebeldes, os blocos de granito da serra que me viu nascer. Inebria-me o cheiro a urze e a resina e fascina-me o mistério verde e altaneiro da floresta. Ecoam no meu peito as preces e os cânticos da igrejinha românico-gótica onde fui batizado e onde aprendi a ver os outros como irmãos. Ai os quatro cantinhos, ai a macaca, ai as pedrinhas, ai o senhor Barqueirinho, que os meus companheiros um pouco mais velhos me ensinaram a jogar e que tantos momentos de regozijo me trouxeram! A vida corria ao ritmo simples, compassado e calmo da tradição: Santos e castanhas em novembro, Natal e prendas do Menino Jesus em dezembro, Entrudo e caretos em fevereiro, Páscoa e folar em abril, mês de Maria em maio, ceifas, malhadas e festas, no Verão. Tudo segundo ritos próprios e consabidos.
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servá-las, melhorá-las e entregá-las, enriquecidas, aos que depois de nós chegarem? Neste dar e receber, neste receber e dar, em fecunda cadeia, em transação enriquecedora, é que está o ganho, que a todos aproveita. O tesouro são as mil e uma coisas que nos pertencem, herdadas ou ganhas a suor. O tesouro somos sobretudo nós. Digo bem: nós — primeiro os mortos, depois os vivos. Pseud. Cidadão do Mundo Autor: António Luís Pinto da Costa*; Unisseixal
* António Luís Pinto da Costa nasceu em Tresminas, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, em 1946. Estudou filosofia, teologia e psicologia. Depois de ter cumprido o serviço militar, começou a lecionar nos ensinos preparatório e secundário. Fez a licenciatura em História, o mestrado em História dos Séculos XIX e XX e o doutoramento em Antropologia Social da Educação. Colaborou na feitura do currículo do mestrado em Antropologia da Educação ministrado no I.S.C.T.E., a partir de 2003/04, e, de seguida, na lecionação da disciplina de “Etnografia e Culturas Escolares”, sob a regência do prof. Luís Souta. Assinou até ao presente oito livros. Fez parte do grupo dos cinco sócios da Casa do Educador do Concelho do Seixal que fundou a Universidade Sénior do Seixal, de que se tornou o primeiro reitor e onde leciona, de par com uma colega, a disciplina de “Poesia e Recitação Poética”..
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O T I M A N E L D O S FA R R A P O S Já viveste tantos anos, já conheceste um sem-número de aldeias, já te inebriaste com paisagens tão diversas e com povos e culturas tão inóspitas... Porque é que a imagem do Ti Manel dos Farrapos não te saiu da cabeça?
Claro, tinha pais e irmãos — nesse tempo procriar era uma função importante para deleite privado e para aumentar a força braçal nos trabalhos agrícolas. Mas cada um deles tinha as suas tarefas e os pais não precisavam de olhar pelos filhos. Os centos de olhos da aldeia encarregavam-se deles e aos seus ouvidos chegavam as boas e más novas de cada dia. Assim, era fácil, em tempo de férias, sair com a alvorada, carregar uma merendinha e viajar por aqueles campos sem fim com um ou dois amigos, em aventura, saboreando o inesperado, uma cobra a desenroscar-se e a perturbar o nosso caminho, um lobo que de longe nos olhava e seguia tão assustado como nós, um parzinho escondido a praticar as primeiras experiências de toque e afasta-te antes que te vejam... Também se iam conhecendo animais, aves, pessoas, a natureza no seu estado virgem, com o gozo de ver tudo de perto, palpar, cheirar, escutar o cuco distante, o assobio do melro ou o gaio grasnador. Aqui e ali, os vizinhos nos seus trabalhos agrícolas, o chiar das carroças ou ainda o retinir do ferro amolecido pelo calor a enformar-se de sacho, enxada, picareta ou simples ferradura de burro ou macho. O mais apetitoso de ver, no entanto, era o ferrar das rodas das carroças, com aquela brasa vermelha circular a encaixar na estrutura da roda em madeira, com o ferreiro e seus ajudantes a acertar medidas e outros aos gritos, à volta, a apaziguar com muita água a ânsia destruidora daquele ferro feito lume. Encaixe perfeito e a roda fica pronta para se acoplar à caixa da carroça. Nunca se perdia este espectáculo! Era assim, neste viver despreocupado, que se passavam os dias. As pessoas também conviviam umas com as outras de modo natural, sem invejas ou toleimas, aceitando o pão nosso de cada dia como dádiva predestinada, para uns mais dádiva e para outros mais maldição. E ajudavam-se reciprocamente, colaborando nas tarefas agrícolas, ora agora na apanha da minha azeitona, com o búzio a marcar a hora de partir, ora depois na ceifa das tuas leiras. E organizavam o calendário do forno colectivo
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Beirão de nascimento, cidadão do mundo pelas incursões geográficas e especialmente pelo gosto de olhar e sentir rostos, paisagens, sabores e cores outras, eis-me agora apegado à minha meninice, querendo dar vida aos mistérios que povoavam a minha cabeça e que me encheram aqueles anos de pé descalço, cheios de uma liberdade feliz, a percorrer lameiros e encostas saboreando frutos e prendendo taralhões nas minhas costelas e costis.
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e do moinho comum, onde cada família possuía o magro quinhão de meio dia mensal. Neste viver diário, sem notícias de rádio ou televisão, a monotonia era perturbada de vez em quando por algum forasteiro que passava por razões da sua própria sobrevivência. O amola-tesouras, bem útil na recuperação de guarda-chuvas e restauro dos pratos, o capador, cuja acção bem se sentia, por alturas de Natal, no gosto da carne de porco, o marchante, que nos levava algum cordeiro ou cabrito sobrante para o açougue, eram figuras conhecidas e desejadas por todos. Mais perturbadoras, chegavam as ciganas para ler a sina ou impingir tarecos e os pedintes, que não se sabia bem o que procuravam, se alimentos se os bens alheios. Mas, entre este grupo, havia uma figura inconfundível, de bons modos, cara engelhada, longos cabelos acinzentados em pasta, farta barba russa que suas mãos cofiavam vagarosamente, dedos como montra de anéis, sempre descalço, unhas a sobrar dos dedos. E, no meio de tanto colorido, o homem vestia-se de trapos, o que para as crianças até revelava uma indomável vontade de ser diferente. Eram tiras de tecido penduradas umas das outras, que começavam no pescoço e ombros e chegavam a meia perna, de modo a ter os joelhos libertos para qualquer acção mais complicada, como seja baixar-se até ao chão para recuperar qualquer pechisbeque, ou subir alguns degraus por razões que vamos conhecer brevemente. Eram cargas e cargas de faixas têxteis sobrepostas a fazer um pesado chumaço para assim se defender do frio e mesmo do calor. Seu nome? - O Ti Manel dos Farrapos, que outro nome não tinha, pois nem ele precisava de o usar. A sua figura ímpar sobressaía, mal se avistava ao longe. De parcas palavras, não incomodava ninguém. Chegava perto de uma casa e logo os gaiatos se juntavam, brincavam com ele, sempre placidamente bonacheirão. Não dava prendas, não oferecia bolachas; olhava as crianças e outros circunstantes em paz, respondendo a cada pergunta com a mesma sabedoria: - «Pois, stá bem, sim senhora»! - Veio fazer-nos uma visita? - Pois, stá bem, sim senhora! - Sente frio, ti Manel? - Pois, stá bem, sim senhora! - Quer uma sopa? - Pois, stá bem, sim senhora! Por mais de uma vez, a compaixão das pessoas era tanta que o levavam para casa, davam-lhe um bom banho quente, vestiam-no com um fatinho jeitoso e ele saía de lá transformado em aldeão exemplar nos modos e no vestir... Nada recusava. Só não perdia a liberdade de ser e viver como ele quisesse depois de deixar aquelas alminhas caridosas. Que acontecia então? Retirado do convívio da aldeia, bastava um ou dois dias para mudar de pele, um pouco à moda das cobras. Com um canivete, começava a rasgar em farrapos as peças que lhe vestiram, atando-os uns aos outros como penduricalhos sobrepostos e assim se tapava. Para esconder braços e pernas é que a engenharia faltava e o nosso amigo não se incomodava de os oferecer em espectáculo, sempre com todo o respeito, o que permitia esta contínua relação quase familiar com a aldeia. As dádivas dos vizinhos iam alimentando este ser único e nem pesavam muito aos doadores, já que
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inúmeras eram as aldeias do seu peregrinar e ele só aparecia de tempos a tempos. Além de uma sopinha de legumes, uma fatia de broa com uma sardinha frita em cima ou um pedaço de toucinho ou chouriço, eram os alimentos deste viandante. Também gostava dos sabores das crianças e era vê-lo perto delas e do forno à espera que uma batata ou uma cebola saíssem assadas do borralho, ao tempo da cozedura do pão. O forno, que congregava toda a aldeia, ali mesmo no largo maior onde tudo acontecia, desde reuniões para decidir interesses comuns ou saborear ajuntamentos aos domingos com jogos e bailes, estes ao som de uma concertina paga com o dinheiro das rifas de um bolo que se sorteava, era esse forno também o ninho quente que se abrigava o Ti Manel dos Farrapos nas noites frias de inverno. As crianças não queriam acreditar. Como era possível suportar aquelas altas temperaturas? E como era ainda possível subir para o alto e pequeno parapeito do forno e conseguir passar por aquela porta tão estreita, ele, um homem bem constituído? Mas muita gente o viu lá instalado, no aconchego dos restos das cinzas, que de cobertores nunca precisou! Vamos lá nós, gaiatos, duvidar dos dizeres dos nossos pais... Eu sempre acreditei neste facto. Nunca alguém soube ao certo de onde vinha, onde nascera, que familiares eram os seus... Dizia-se que tinha vivido jovem numa aldeia perdida na montanha, onde a neve tolhia os movimentos e a vida era mais difícil por falta de terras férteis e ausência prolongada de comunicação com o exterior. Mas não havia certezas. Também não se podia confirmar a sua relação com uma jovem mulher que o acompanhava pela serra a fazer carvão com as cepas das torgas, em busca de algum dinheiro. Um dia, o mercador do carvão terá levado a mercadoria e a apetitosa moça, deixando o nosso homem sem tino para o resto da vida. Mais efabulada era outra versão, muito ao gosto dos pequenos, que culpava as bruxas pelas desgraças do nosso homem. Andaria ele pela montanha, já noite adentro, cansado de uma jornada extenuante, acompanhado da sua lanterna, aquele utensílio quadrangular com vidros a proteger a chama de uma torcida embebida em azeite, quando, num cruzamento de caminhos, deu com um baile à meia-noite, em absoluta surpresa. Ao tempo, falava-se tanto de bruxas que ele nem duvidou: são elas mesmo! E resolutamente aproxima-se, pois com as bruxas podia ele. Alguém disse que já uma vez as tinha enfrentado sem medo quando o quiseram derrubar da carroça. Parou, pegou na forquilha que levava e elas desapareceram... Assim, este jovem avançou destemido e, a convite de uma delas, dança uma ou duas modas bem aconchegantes em volúpia; no seguimento da festa, com comes e bebes, começa o rapaz a sentir tremuras nas pernas e braços, seguidas de convulsões que o estontearam, desfaleceram e prostraram até ao dia seguinte. Que bebida do inferno o terá amaldiçoado para toda a vida? Assim mo contaram e assim o transmito, pois, se não acreditamos em bruxas, a verdade é que também dizemos com frequência «que las hay, hay... », em versão castelhana. Passaram os anos, os jovens começaram a sair da aldeia para, após a quarta classe, continuar os estudos em liceus, seminários e colégios distantes. Quando, no tempo de férias, nos aparecia o Ti Manel, era uma renovada festa, pois nos sentíamos mais irmanados e solidários com aquela figura icónica da nossa meninice. Nunca alguém o desrespeitou. Então, éramos nós a carrear para ele alimentos, doces, bebidas, que ele agradecia com a conhecida frase, a única de que me lembro: - Pois, stá bem, sim senhor! Soubemos do seu desaparecimento mais tarde, em Outubro de 1957, com a "gripe asiática", que dizimou inexoravelmente muitos dos nossos vizinhos, por falta de medicação adequada. E para nós todos, foi-se com a
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sua morte a morte das ingénuas vivências de outros tempos. Mas foi com elas que nos estruturámos e enriquecemos. Valeu a pena!
Pseudónimo: Florêncio Beirão Autor: António Dias Henriques*; Unisseixal
* António Dias Henriques Beirão de nascimento, tem sido o além-Tejo o espaço que mais me prendeu. Professor em Portalegre a partir de 1963, em Setúbal (1974/75) na Escola do Sebastião da Gama, depois na Escola Preparatória da Trafaria e na Paulo da Gama de Amora, onde me reformei há 19 anos. Nestes 19 anos, criei com outros voluntários a Casa do Educador do Seixal, agora com 16 anos, e a Unisseixal – Universidade Sénior do Seixal. Gosto literário começou aos 14 anos, quando um dos meus professores me publica num jornal regional um soneto, o que muito me ufanou. Devo muito a muitos deles. Jornalista por devoção no extinto “Tribuna do Povo”, escrever tornou-se um entretenimento saudável e formativo. Na Paulo da Gama, dirigi por alguns anos a “Gazeta Paulo da Gama”, premiada pelo jornal ”Público”. Depois, veio a minha era digital, com os sites e blogues. Presentemente, sou responsável dos blogues “Viver” (pessoal), “ANIMUS SEMPER” (de uma associação) e “Oficina de Português”, este ligado à turma com o mesmo nome, que leciono na Unisseixal.
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GERAÇÃO INSONE
- Vê se dormes, não paras de te mexer... esta é uma noite para ficar em claro porque o diálogo das armas continua a assombrar o silêncio do meu quarto. Se o fogo não tivesse atingido o telhado da cantina, estaríamos bem protegidos debaixo do balcão feito de cimento, onde apenas eu fiquei de costas para dentro e consegui dar o alarme "pessoal, esta merda está a arder, é melhor fugirmos daqui"; um a um foram saindo; estou a ver o furriel vagomestre, enorme, a correr com o seu ar desengonçado e desaparecer para os lados do primeiro pelotão; sinto o intensificar do tiroteio, "isto não vai acabar tão depressa, é preciso sair daqui", lanço a minha corrida, mas "estou a correr descalço, onde é que deixei as botas de lona?" - Então?... Continuas?... É já de madrugadal... que importa isso, há um camarada a quem vão arder os pés, se ninguém o for socorrer; dois projéteis incandescentes sobrevoam-me e vão explodir para lá do paiol, "que sorte, esta merda podia ter ido pelos ares", e continuo a correr em direção ao abrigo dos condutores; um ruído cavo estremece o chão, parece um terramoto, consigo identificá-lo: é o autocarro das seis e vinte que transporta os operários das sete, a passar no empedrado da estrada, mas há um camarada que é preciso socorrer, se não ardem-lhe os pés; as chamas da caserna das armaspesadas atiram-se contra o céu", será que conseguiram fugir todos os ocupantes?" - São horas de me levantar. Vou preparando as crianças. Dorme um pouco mais. Não é possível dormir enquanto não chegar ao abrigo, e eu continuo a correr quase de gatas; iluminado pelo clarão das chamas, vejo o Barata da Vaca, meio curvado, atravessando a parada, "este gajo não tarda varado por uma bala" e eu continuo a correr; já distingo um vulto à porta do abrigo, de arma apontada na minha direção, "o que é que deu a este, está a apontar a arma para mim e não para o lado de onde foi lançado o ataque, querem ver que os turras já cá estão dentro?" E ouço a voz do camarada "podias ser um homem morto, se não viesses em calções e descalço, pensei que os gajos já cá estavam dentro"; a três passos da entrada ainda digo
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A noite teima em me atormentar. São lembranças pegajosas que não consigo arrancar da memória. As crianças dormem, a mulher dorme, mas eu continuo a atravessar o espaço entre a cantina e o abrigo dos condutores; a metralha ecoa-me nas têmporas a um ritmo alucinante, pontuado pelo rebentamento de granadas de morteiro; continuo a correr quase de gatas e o pensamento a dizer-me "vais a correr como um macaco"; o gerador elétrico é atingido pelo tiro de uma bazuca, o quarto ilumina-se com o clarão, a combustão do material elétrico faísca no aquartelamento, como fogo de artifício. Continuo a correr... tudo o que se passa à minha volta é tão rápido, que torna lentos os meus pés, os meus olhos, o meu pensamento; à porta da secção de armas-pesadas está um camarada caído, imóvel, um barrote do telhado em chamas caiu junto dele e eu penso "vai queimar-lhe os pés, se ninguém o tirar dali"; a fuzilaria é de doidos, já não consigo saber de onde vêm tantos tiros e continuo a correr; ouço o silvo reto das balas por cima da cabeça e penso "ainda não fui atingido, se chegar ao abrigo estou salvo, mas há os pés de um camarada a arder"...
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"está um camarada estendido no chão, com os pés a arder, junto à caserna das armas-pesadas"; ao entrar só vejo a luz dos olhos e das armas e ouço "amocha e tem calma... Olha, o Barata da Vaca está a tratar do ferido... parece impossível... sozinho... sem ligar ao fogachal... Lá vai ele... leva-o às costas...", e eu a pensar "o camarada que só tem jeito para cuidar da vaca da engorda, faz o que ninguém mais se atreveu a fazer" e a voz a dizer "já conseguiu... entrou no abrigo do segundo pelotão". - São horas de te levantares! Não. Só um pouco mais, é só acabar o tiroteio, que não tarda a chegar o helicóptero de socorro aos feridos e ainda quero ver a enfermeira paraquedista; quero ver um anjo descer do céu...
Pseudónimo: Diogo João Silveira Autor: José Manuel de Jesus Monteiro*; USALMA
* José Manuel de Jesus Monteiro nasceu na Covilhã a 15 de maio de 1943. Frequentou o Seminário do Fundão e o da Guarda, tendo concluído o curso de Filosofia. Cumpriu o Serviço Militar obrigatório, que incluiu uma Comissão no Norte de Moçambique, como Oficial Miliciano, durante a Guerra Colonial. Desenvolveu a sua atividade profissional na Caixa Geral de Depósitos como Técnico de Informática É aluno da Usalma, onde frequenta as disciplinas de Língua e Cultura Portuguesa, Literatura Portuguesa, Guitarra e Coro Polifónico e colabora no Correio da Usalma. Os seus trabalhos têm sido distinguidos em vários concursos literários, no âmbito das Universidades Seniores.
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Aquele grande e forte pinheiro, situado na ponta do parque de estacionamento, fronteiro à minha casa, tem certamente muito que contar… presenciou e ouviu, ao longo da sua vida, muitas histórias, umas com final feliz outras, talvez, não tanto... Hoje, chegou até mim, trazida pela brisa suave e perfumada do fim da tarde que agitava silenciosamente os ramos do velho pinheiro, uma dessas histórias, que ele me contou: Quando o parque de estacionamento estava a ser construído havia diariamente uma azáfama, feita de densas nuvens de poeira que toldavam o olhar e ruído de máquinas barulhentas e coloridas que feriam os ouvidos com o seu som estridente. Tudo isto misturado com o labor humano feito de ordens em voz alta, desafiando o barulho das máquinas, de mãos calejadas e braços hercúleos manejando picaretas que rasgavam o chão... No início da construção muitos temiam que eu, velho pinheiro manso, fosse derrubado e que não mais se visse aquela mancha verde com tronco castanho e rugoso. Eu próprio temia que me ferissem, cortassem, desentranhassem e me arrastassem para um qualquer lugar onde ficasse seco e quase sem vida, acabando por morrer só e abandonado... Mas não. Houve o bom senso de me pouparem e assim, em meu redor, continuou a sentirse o perfume da minha verde rama e o cheiro agradável da caruma seca, cor de terra, que vai caindo e se estende a meus pés num tapete fofo. Continuou também a ouvir-se a alegre chilreada dos pardais, que ao fim da tarde chegam em bandos e se abrigam nos meus ramos e partem logo que o cheiro fresco da manhã se faz sentir... Eram cinco os homens, que aqui trabalhavam diariamente. Havia o capataz, que chegava de manhã, dava as suas ordens e só voltava a meio da tarde para ver o andamento dos trabalhos, e dois operadores das máquinas que saíam sempre para almoçar... Estes cinco trabalhadores eram muito diferentes uns dos outros, na estatura, na cor da pele, na pronúncia e talvez também nos seus credos religiosos e convicções políticas. Um era mulato, talvez cabo-verdiano, outro de pele mais negra e luzidia, cor de chocolate, dentes certos e muito brancos, braços fortes e musculados. Era natural de Angola. O outro, de pele mais clara e baça, não deixava esconder a sua origem indiana. Por fim, os outros dois, eram portugueses, mas também muito diferentes: o mais velho, de pele tisnada, olhos castanhos escuros, mãos fortes cheias de calosidades, era alentejano de bonita fala cantada; o outro, mais novo, magro, quase franzino, pele e cabelos mais claros, tinha pronúncia do Norte e deixava adivinhar que não estava naquelas andanças há muito tempo. Eram cinco homens, falando a mesma língua, todos diferentes, mas todos iguais, na luta e dificuldades diárias pela sobrevivência, nascidos ou a viverem há muito tempo em Portugal. Quando os dois ponteiros do relógio se sobrepunham marcando o meio-dia, todos cinco iam buscar as suas lancheiras e procuravam a minha sombra, fresca e amiga. Lá se sentavam, uma pedra fazendo de banco, um pouco afastados uns dos outros, comendo em silêncio. Apenas o
C O N TO – ME NÇ Ã O HONROS A
TO D O S D I F E R E N T E S . . . TO D O S I G UA I S
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alentejano olhava, para um e para outro, parecendo querer entabular conversação. Mas os outros continuavam, de olhos baixos, concentrados no almoço. Este terminado, afastavam-se para desentorpecer as pernas, fumar um cigarro ou simplesmente para respirar a liberdade. Entretanto passava a sua hora de almoço e cada um ia continuar o trabalho. E dia após dia, a mesma rotina, o mesmo silêncio, a mesma aparente indiferença ou talvez timidez. Mas um dia, já tinham passado quase duas semanas desde o início dos trabalhos, o alentejano, depois de acabar de comer, chegou-se mais aos outros e disse: amigos, amanhã trago eu o almoço para todos! E no dia seguinte todos se sentaram mais perto uns dos outros, à volta de dois tachos colocados sobre uma toalha de pano em cima de uma "mesa de caruma". E o som das tampas a saírem dos tachos, ainda quentes, previamente embrulhados em jornais, misturou-se com o perfume dos poejos e coentros das macias migas e o cheiro dos alhos e do colorau vermelho que rescendia da carne de porco, primorosamente frita... E comeram gulosamente o saboroso almoço, conversando animadamente como só o calor de uma boa refeição é capaz de fazer soltar a língua. Naquele almoço trocaram-se mais palavras do que em duas semanas passadas... E eu, vigilante e sempre atento, fui testemunha da amizade que se criou, no meio do barulho de tachos, do perfume da muamba, do picante das chamuças, da variedade de sabores da cachupa e do avinagrado do arroz de "pica no chão", pois todos eles, apesar das suas dificuldades, quiseram dar a conhecer os sabores das suas terras como cartão de visita para melhor se conhecerem e cimentarem uma amizade nascente. Trocaram ideias e sabores sobre o património gastronómico das suas terras de que falavam e descreviam as belezas, com grande entusiasmo. E eu, nunca mais vou esquecer aquelas caras cheias de prazer e as trocas de confidências daquele grupo de homens, aparentemente tão diferentes, mas tão iguais na sua essência, que mostraram serem um bom exemplo de amizade e fraternidade. Quando no final da refeição voltavam ao trabalho, sentia-me feliz enquanto os meus ramos se agitavam, embalados pela suave brisa vinda do Tejo e pelo chilreio de um pequeno grupo de pardais que àquela hora vinha também fazer o seu repasto, com o resto das vitualhas, enchendo o ar de movimento, música e cor, num hino à alegria, liberdade e fraternidade entre os homens. Pseudónimo: Refúgio Autora: Maria Manuela Santos Figueiredo da Cruz*, USALMA
* Maria Manuela Santos Figueiredo da Cruz foi professora durante 14 anos e médica durante mais de quarenta, continuando a exercer. Nasceu em Lisboa, mas foi em Almada que sempre viveu, desde os quatro dias de vida. Recorda a sua primeira manifestação cívica, quando aos quatro anos de idade, assistiu às manifestações de alegria e libertação do final da II guerra. Amante das letras, sempre recorreu à escrita e à leitura como meio de evasão, ainda que a vida profissional e familiar exigentes tenham limitado essa expressão. A reforma, há quase 13 anos, devolveu-lhe tempo para as leituras regulares e a escrita. Leitura, diversa, escrita, histórias de Almada, na gaveta, à espera da luz do dia! As aulas de Escrita Criativa ajudaram e vai recebendo alguns prémios em concursos e Jogos Florais…
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N Ú M E R O E S P EC I A L
Manuela nasceu em Trás-os-Montes. A sua infância foi semelhante à das outras meninas pobres de Vilar da Serra: aos seis anos, começou a acompanhar a irmã Dorinda no pastoreio das ovelhas; aos sete, deu entrada na escola primária; aos doze, passou a trabalhar ao lado dos adultos nas costumadas tarefas da casa ou do campo. Assim cresceu e assim se fez moça e mulher. Manuela não gostava da vida que levava na aldeia e deu-o a saber ao irmão Alberto, que andava emigrado em França: "Leva-me contigo!" — pediu, quando completou os dezoito anos. Embora com tristeza sua, aquele, a princípio, nada pôde fazer, pois que, estando a viver num quarto alugado, não tinha condições para a ter junto de si. Dois anos volvidos, porém, já casado com Marília, sua conterrânea, Alberto achou que era chegado o momento de atender ao desejo de Manuela: a mulher do patrão teve uma criança e precisou de alguém que tomasse conta dela. O emigrante pensou de pronto na irmã. Bastava que ela aprendesse francês e fosse capaz de se ajeitar ao serviço. Depois de se ter entendido com a mulher do patrão, pegou no telefone e ligou para Vilar da Serra. Oito dias depois, a rapariga chegava a Vincennes. A entrada ao serviço foi imediata. Manuela gostou do trabalho e adaptou-se a ele com facilidade. Em setembro seguinte, Alberto matriculou-a numa escola de francês para estrangeiros. O esforço desenvolvido e a prática acumulada resultaram em cheio: em meia dúzia de meses, a recém-chegada começou a exprimir-se aceitavelmente em francês. O tempo continuou a fazer o seu caminho. Pouco a pouco, dia após dias, Manuela começou a afazer-se à vida francesa. Para isso, muito contribuíam, para além das aulas, o contacto com os patrões, as idas ao supermercado, os passeios ao domingo, a televisão (que via e ouvia com raro interesse), os filmes e a convivência com os colegas e os amigos. Sim, um ano decorrido, a portuguesa já se relacionava com dezenas de jovens, alguns dos quais rapazes. Manuela começou a namorar com Stéphane. Mas o relacionamento pouco durou. Este achou a portuguesa ingénua, provinciana e pouco vivida. A moça ficou profundamente magoada. A partir de então, principiou a esconder a sua nacionalidade e a sua origem. Adotou a maneira de vestir das amigas francesas. Apostou ainda mais no seu francês, de modo a ocultar a sua origem estrangeira. Evitava mesmo conviver com portugueses. Assim que pôde, adotou a nacionalidade francesa, mudando o nome para "Émanuelle". Deixou de frequentar a igreja e procurou passar um pano sobre a infância e o passado aldeões. Depois que os seus pais faleceram, deixou até de fazer férias em Portugal. Tal como o confidenciava a algumas pessoas, Émanuelle pensava que a sua aldeia era um "atraso sem remédio": miséria geral, casas toscas e sem condições higiénicas, ruas enlameadas e `mal-cheirosas, mentes ignorantes e fechadas, pessoas metediças e mexeriqueiras, costumes ultrapassados, trabalho duro e sem horário, raparigas oprimidas e de liberdade limitada, etc., etc. O mesmo pensava acerca do seu país, embora com menos radicalismo. A moça prosseguiu os seus estudos à noite, num dos liceus de Vincennes. Foi aí que fez um novo amigo: Roland. Este nascera em Paris. Era um rapaz sociável, curioso e amante de novas experiências. Tinha um espírito aberto e um coração do tamanho do mundo. Entretinha-se a ler a
C O N TO – ME NÇ Ã O HONROS A
A B E L E Z A DA S C O I S A S S I M P L E S
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história e a etnografia dos vários países. Quanto mais exóticos, melhor. Daí nasceu a sua vontade de viajar: Itália, Grécia, Alemanha, Croácia, Europa de Leste, norte de África, Médio Oriente. O francês apreciava o toque diferente de Émanuelle. Não sabia explicar bem porquê, mas o certo é que gostava. A sua condição de estrangeira e de pessoa humilde não o demoviam. O resto compensava bem — justificava ele. Quatro anos depois de se conhecerem, os dois jovens uniram os seus futuros em casamento. Émanuelle não pôde evitar que Roland conhecesse de perto alguns membros da sua família, sobretudo o irmão e a cunhada e bem assim os dois tios que viviam nas proximidades. Depois de vários contactos com eles, o moço chegou à conclusão de que se tratava de gente simples e humilde, mas honesta e trabalhadora — o que para ele era coisa de muita valia. Para lhes ser simpático, recolheu informação acerca de Portugal e aprendeu até algumas palavras portuguesas. Roland e Émanuelle tiveram dois filhos, que educaram à maneira francesa. Émanuelle nunca pronunciava uma palavra portuguesa diante deles. Proibiu até o irmão e a cunhada de o fazerem. As crianças, Isabelle e Robert, receberam nomes franceses e não herdaram qualquer apelido português. "Basta-lhes o do pai!" — desculpava-se ela. Ambos se formaram: ela em matemática e ele em engenharia. Após a morte dos avós maternos, nunca mais visitaram o país natal da mãe. Com pena sua — diga-se de verdade —, já que os adolescentes gostavam dos banhos no rio, da caça à passarada, dos passeios pelos montes, do convívio com os jovens da terra e, acima de tudo, da liberdade que lhes era dada na aldeia em tempo de férias. Empregos granjeados, Isabelle e Robert deixaram o ninho paterno. Anos mais tarde, Roland e Émanuelle entraram na reforma. Fiel a si próprio, Roland pressionou a esposa para que ela mandasse reparar a casa que tinha herdado em Portugal, de modo que pudessem ir lá passar uns tempos, de vez em quando. A mulher condescendeu, mas sem grande vontade. A casa foi reparada, e as vindas e idas principiaram, cada vez com mais frequência. Paulatinamente, Roland começou a afeiçoar-se à povoação e ao seu estilo de vida. Entrou a frequentar a taberna, onde os homens se encontravam à noite e ao fim de semana. Fez amigos. Aprendeu a exprimir-se sofrivelmente em português. Apaixonou-se pela caça e pela pesca. Pegou a frequentar as feiras, as festas e as romarias. Aceitou ser membro da direção do clube de futebol da terra. Colaborou com um estudante universitário na recolha de adágios populares, em que via grande sabedoria e beleza poética. Tornou-se sócio da Associação dos Amigos de Vilar da Serra. A rogo do presidente da Junta de Freguesia, enfim, elaborou os projetos de reparação do cruzeiro e das alminhas, primeiro, e do cemitério e da igreja, depois. O que mais fascinava Roland em Vilar da Serra — como ele abertamente confessava —era a simplicidade com que as pessoas viviam: com poucas coisas, na verdade, mas sem complicações, sem ruídos, sem pressas, sem nervosismos, sem stress. Aos amigos mais instruídos confidenciava ele: "O que é preciso é ter olhos e descobrir a beleza das coisas simples!" O francês admirava igualmente o modo como os vizinhos se relacionavam. Para ele, o povoado parecia uma família de trezentas pessoas; com as suas quezílias, inegavelmente, mas uma família, onde reinava a amizade e a ajuda mútua. Émanuelle, essa recolhia-se em casa, a ver televisão, de preferência os canais franceses. Quando morreu, aos sessenta e cinco anos, vitimada por um cancro, deixou um marido já enraizado, de pés e coração, no solo da aldeia. Efetivamente, com o tempo, Roland tornara-se um habitante comum de Vilar da Serra, um entre os demais, que os seus filhos tinham de visitar, quando queriam ver o pai. Já no fim da vida, no momento em que fez o testamento, deixou exarado por escrito que era seu desejo "ser enterrado ao pé da esposa, no cemitério da povoação". E foi. De facto, ainda hoje, uma lápide exposta ao lado do túmulo de Émanuelle reza em silêncio: "Roland Deschamps, 1920-2005". Pseudónimo: Contista da Costa Autor: António Luís Pinto da Costa*; Unisseixal
* Ver nota biográfica na página 6.
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N Ú M E R O E S P EC I A L
A P O E S I A É D E TO D O S Inundo o mundo de letras
Era como se me afogasse nas palavras soltas
despregadas, desunidas, e eu nele mergulhado
ou nas palavras presas, gravadas, sulcadas
sem esquadros, sem pincéis, sem películas, sem papéis,
e ficasse enclausurado dentro de um coração,
sem tintas e sem carvão eternizo-as em velhos troncos, dentro de um coração
cativo de um talhe, na altivez de um embondeiro, de uma sequoia ou de um carvalho francês.
(de amor ou de traição), dou-lhes a forma de palavras, talhadas a estilete
Quero as minhas palavras de volta!, grito...
ou sulcadas com formão, rasgadas com canivete.
As palavras são minhas! minhas! minhas!
É como se plantasse pelo mundo
E arrancadas dos troncos sulcados de signos
palavras doces, românticas, ácidas, ocas,
palavras vazias, frases inacabadas, insanos sinais,
épicas, vulgares, palavras sãs, palavras loucas...
símbolos de nada, que nada dizem ou não dizem nada de mais...
prisioneiras ou reféns, diáfanas sob casto véu, ou sujas e inquinadas. E se na desordem das palavras espalhadas das palavras talhadas, das palavras retalhadas na balbúrdia, na anarquia, no pandemónio me faltasse mais coração e me sobrasse mais demónio?
peço socorro à sintaxe - ou às ninfas, sei lá! A Erato, sim a Erato! – e do que delas for capaz sem esperar mais um segundo escrevo um poema de amor escrevo um poema de paz e vou oferecê-lo ao mundo. Pseud. Natália O' Neil Autor: Vítor Manuel Alves Fernandes*, USALMA
* Vítor Manuel Alves Fernandes nasceu em Lisboa em 1955, mas é almadense por opção. Formou-se em Engenharia Eletrotécnica no Instituto Superior Técnico e em Máquinas Marítimas da Marinha Mercante na Escola Superior Náutica Infante D. Henrique. Apaixonado por fotografia, dá formação nesta área e dedica-se também ao voluntariado de cariz social. Como blogger, pode ser seguido em: http://fotosdeaaz.blogspot.pt e http://constantinogvacas.blogspot.pt. Publicou o seu primeiro romance, Sete Facadas e Carapaus de Escabeche, em 2012. Tem-se afirmado como autor de contos, romance e poesia, participando em várias coletâneas.
P O E S I A – 1. º PR É MIO
palavras livres, soltas, ou amordaçadas,
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PAT R I M Ó N I O
Temos praia e sol e mar — a doçura. Temos ondas e pranchas — a aventura. Temos um povo e gestos — uma história, Escrita a lances de fracasso e glória.
Temos um jeito próprio, que fulgura Nas letras e artes, feito de candura. Temos uma alma cheia, onde a memória São usos, fados, ditos e oratória.
P O E S I A — 1 .º P RÉ MIO (EX - AEQU O)
Eis a nossa riqueza, a nossa herança, Agora entregue à nossa governança! Esbanjar não podemos coisa alguma,
Pois ter riqueza e não saber usá-la (E usá-la bem implica valorá-la) É, entre todas, a pobreza suma. Pseud. Poet Sem Nome Autora: António Luís Pinto da Costa*, Unisseixal
* Ver nota biográfica na página 6.
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A S PA L AV R A S As palavras vivem na dobra da língua, No fundo poço dos sons, que perto dos olhos tem guarida Aí, brincam com o vento, que ora vai e ora vem, Como um virtuoso arco de violino. Arremessadas são as palavras Que, circulares, se espraiam no diáfano éter, Em busca de aprazíveis enseadas de entendimento. A sua vida é curta, como curto é o trovão em tempo de tumulto celeste. As palavras vivem nas folhas brancas de coisas chamadas livro, Juntas, as folhas cantam em coro as ondas das mentes inquietas, Uns, atrás de outros, os sons cravados nas folhas brancas, Deixam-se por vezes acalmar, adormecidos ficando em folhas coladas, Nas estantes do esquecimento. Até que alguém poise nestas o olhar, numa carícia distraída, E, depois, levante a mão que, indiscreta, Abra o corpo oferecido das palavras, como corpo de ser amado. Inflamado ou ausente, Consuma o ato de procriação das Ideias O que querem as palavras realmente dizer? Soltas dos espíritos que as lavraram Correm as palavras por aqui e por ali,
P O E S I A – 2. º PR É MIO
E, sôfrego ou morno,
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Como crianças encantadas. O que as faz correr? O que as faz ali, unidas, falando das coisas que alguém reteve na ânsia de as agarrar. O que querem as palavras realmente dizer? Do que nos falam elas? Das coisas que nomeiam, Ou do próprio nome das coisas? Das próprias coisas nomeadas, dirão uns Da nomeação das coisas, dirão outros. Alguns, poucos, dirão que nem de uma coisa nem de outra. Esses sabem que elas serão um dia dispensáveis, como dispensável é o joio quando baralhado com o trigo. Esses sabem que, um dia, Tal como na primeva Manhã do Mundo, a vontade de nomear fará acontecer a própria coisa. Pseud. Beatriz Alexandre Furtado Autor: Fernando Humberto Santos Serra*, Apcalmada
* Fernando Humberto Santos Serra nasceu em 30 de março de 1962, em Macedo de Cavaleiros, concelho de Bragança. É licenciado em Política Social e mestre em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas; é doutorado em Educação, na especialidade de Sociologia da Educação pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Atualmente é professor associado do ISCSP e, desde Junho de 2013, coordena a Unidade de Serviço Social e Política Social. É também coordenador da unidade de missão ISCSP-Cidadania. É ainda membro do Conselho Geral da Universidade de Lisboa desde 2013. É investigador integrado no CAPP-Centro de Administração e Políticas Públicas. Tem lecionado e investigado nas seguintes áreas: cidadania, ética e direitos humanos, política social, sociologia e política da educação, epistemologia e teoria social. Conta com diversos trabalhos científicos publicados, no país e no estrangeiro.
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S E M P R E V I VA Ali, onde a terra toda se debruça sobre o abismo de Neptuno, chegaram os elmos, escudos, gládios e lanças;
E, dobrado o oculto cabo, já irmã da flor-de-lótus, da orquídea
tendo pisado o pó de mil caminhos, viram indómitos braços
e do crisântemo, se fez No Ling, Papia Cristang,
com o ferro ferirem fundo o próprio peito,
tomando diversos aromas e cores,
e as mães imolarem as tenras crias antes de si.
lá, onde o Sol se levanta e a fama de Albuquerque, Xavier e Mendes Pinto nunca se põe.
Aí, no solo quente do sangue que se fez vida,
Mas, foi ali, na outra margem do Grande Oceano,
por entre estevas, carquejas e alecrim,
que a si própria no espelho se viu, não outra,
desabrochou a Última Flor do Lácio,
e tomou a cor da alegria, o aroma do sorriso,
tomando das companheiras a forma, o perfume e a cor.
o jeito do corpo em festa e sambou.
E, sendo já frol de avelaneira e frol de verde pino,
Foi no fascínio desta flor sempre viva que
já velida, e louçana, e dona virgem, com seu amigo bailou,
um povo inteiro foi além de si, para se encontrar
enquanto as madres queimam candeas a San Simon.
com todos os povos que persistem em ver o mar.
E, sendo já flor da urze e da giesta, entrou no Paço d'El Rei,
Pseud. Miguel Jorge Teixeira Autora: José Manuel de Jesus Monteiro*, USALMA
enfeitando o braço da Estrela Pastora Para dar apresentadas À Rainha das Rainhas, Cume das bem-assombradas.
desceu a africana costa e se fez crioula entre mil escravos: ali, tomou odores de morabeza, além, a cor do ronco, mais além, o calor do Forro, Principense e Fá d'Ambô.
* Ver nota biográfica na página 6.
P O E S I A — 3 .º P RÉ MIO
E, acesa nos mastros das naus dos Segundos Argonautas,
4.ª EDIÇÃO DOS JOGOS F LORAIS O património é uma presença viva que constantemente nos questiona e interpela num diálogo com o passado por vezes difícil «São lembranças pegajosas que não consigo arrancar da memória. As crianças dormem, a mulher dorme, mas eu continuo a atravessar o espaço entre a cantina e o abrigo dos condutores;» in Geração insone; por vezes construtivo: «E para nós todos, foi-se com a sua morte a morte das ingénuas vivências de outros tempos. Mas foi com elas que nos estruturámos e enriquecemos. Valeu a pena!» O património surge nos textos a concurso também como conceito integrador, alargado e dinâmico, num processo que aceita as diferentes identidades, aposta e valoriza o diálogo intercultural, a coesão social, as histórias e os valores «O pinheiro em monologo «E eu, vigilante e sempre atento, fui testemunha da amizade que se criou, no meio do barulho de tachos, do perfume da muamba, do picante das chamuças, da variedade de sabores da cachupa e do avinagrado do arroz de "pica no chão", pois todos eles, apesar das suas dificuldades, quiseram dar a conhecer os sabores das suas terras como cartão de visita para melhor se conhecerem e cimentarem uma amizade nascente.»