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Revista Alter-idades ed.2

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Alter-idades Ano 2 | Número 2 | Maio 2021

SUPERAÇÃO X NÃO SUPERAÇÃO RUTELEIA CAMPOS FALA SOBRE A SUA VIDA DE LUTA, RESISTÊNCIA E SUPERAÇÃO

O SALVA-VIDAS QUE SE SALVOU


EDITORIAL

UMA REVISTA PARA FAZER VOCÊ DANÇAR

A

revista Alter – Idades produzida por membros do Grupo de Pesquisa: Família, (Auto)biografia e poética – FABEP, da Universidade Católica do Salvador – UCSAL é uma publicação ancorada à literatura como possibilidade de construção do pensamento, evidência particular e cultural de modos de ver a vida e estar no mundo, materializando a interação entre autores e leitores. Vinculada ao site da FABEP, ambiente virtual de circulação de textos acadêmicos do grupo de pesquisa, o conceito da revista expressa a intenção de matutar sobre temas que decorrem da existência do eu e do outro, metáforas em relação, identidades e alteridades como num paradoxo ajustado. Alter – Idades é uma revista para todas as idades e todos os temas, sem reservas. O presente número aborda a superação e resiliência a partir da experiência de Rutileia, mulher, mãe, professora, bailarina que aprende a resiliência ao entender que é preciso mais que superar para existir. A vida de Ruti tem um sentido, um propósito de beleza, uma poética capaz de transformar dor em salvação, sofrimento em cura. E por falar em salvação, a crônica desse número traz a história de um salva-vidas que encontrou na emergência de sobreviver, a coragem para ser salvador de vidas. Nesse número, a revista traz um poema de autoria da editora, uma crônica sobre superação, além de entrevista, carta do leitor, ouvido de avó, indicação e contra-indicação de leitura, arte e publicidade, conteúdos que constituem as páginas do periódico. Folhas escritas e publicadas a partir de um movimento colaborativo dos editores e outros coautores. Alter-Idades é uma proposta de escrita arriscada, imagética, inspiradora, ajuizada no sentido literal da palavra feita para dizer ou esconder, para riscar ou escrever as mais diferentes e semelhantes histórias de vidas e vidas. Sem exagero de qualquer figura de linguagem, esse número tem a musicalidade que faz dançar, a alegoria que embeleza, a vida personificada pelo exemplo de experiência resiliente de Rute. Que a leitura seja sonora, as rimas encantem e as palavras resistam a qualquer tentativa de abandono ao texto que se mostra como versos de um poema escrito em prosa e de um poema escrito durante as madrugadas desta Pandemia. Cinthia Souza Editora

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SUMÁRIO

ENTREVISTA Rutileia Campos

ENTREVISTA O Salva-Vidas que se salvou cultura

CRÔNICA

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prosa poética

arte

EXPEDIENTE

Programa de Pós-Graduação em Família na Sociedade Contemporânea Grupo de Pesquisa: Família, (Auto)Biografia e Poética Editora: Elaine P. Rabinovich

Editora-chefe: Cínthia Souza

Editor: Júlio Cézar Barbosa

Organizador: Péricles Palmeira

Editora: Elaine Pedreira Rabinovich

Ilustração: Joy Bar

Filmes: Bella Bar Ballinger

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ENTREVISTA

A VIDA DE LUTA, RESILIÊNCIA E SUPERAÇÃO DE RUTELEIA CAMPOS Ruteleia Campos foi convidada pelo editor Júlio Cézar Barbosa para ser entrevistada pela equipe de Alter-idades para o numero 2 da revista cujo tema é Superação e Resistência. Acedeu prontamente e, durante uma hora, foi contando sobre a sua vida. Devido à extensão da entrevista, serão destacados os temas mais próximos ao da revista, embora toda a sua vida possa ser dita ser de luta, de resistência e de superação. 4

Trajetória inicial, família, formação, trabalhos e escolas. Inicia seu relato contando sua trajetória inicial, sobre a sua família, sua formação, os trabalhos e escolas dos quais participaou. Tem 41 anos e aos 38 anos, descobriu ter a doença de Pakinson. “E desde os meus 14 anos, eu vinha sentindo fortes dores de cabeça, na nuca, e acreditava ser enxaqueca e era tratado como enxaqueca. Ou então, muitas do-

res nas costas vistas como hérnia de disco. E nada levava a ver que era o início da doença de Parkinson. E já era os primeiros sinais dela, eu travava completamente, eu passava horas sem conseguir me mexer, e já era o início da doença”. No entanto, apesar das dores e incômodos causados pela doença, segue sua carreira estudantil e profissional, formando-se em pedagogia

e trabalhando em várias atividades, uma delas numa escola em Maragogipe. “Aos 18 anos. Iniciei, a partir daí, o ensino infantil, na zona rural, no Município de Maragogipe. Montei, na época, a escola da prefeitura, onde a gente tinha aquelas classes mistas, que variava a idade. Na época, tinha uns quarenta e tantos alunos”. Trabalha depois em uma empresa de informática, monta uma escola no bairro da Liberdade. Forma-se na faculdade de pedagogia, separa-se do marido com quem já tivera uma filha, Mariana, que a acompanha em tudo até hoje, ministra cursos de atendimento ao cliente aos funcionários de toda a rede do circuito das salas de arte. Retorna a Maragogipe, onde desenvolve um trabalho cultural com edição de filmes, de escolas; e trabalha na Secretaria da Cultura da Cidade desenvolvendo um trabalho cultural. “e aí houve a mudança de prefeito, claro, o cargo foi perdido porque era contra quem ganhou na época. Então fui trabalhar numa empresa de um amigo e, dentro de todo este período de vida, com fortes crises. Com crises intensas de tomar o tempo todo corticoide, muita medicação para aliviar as dores”.


Inicia uma fase de muito trabalho, convidada por esse amigo que havia ganhado uma licitação para divulgar o turismo no mundo, com muitas viagens e exigências, em que a doença se manifesta cada vez mais: “Muito cansativo, dolorosa. Porque eu não conseguia entender que a cada nível de estresse que o corpo desenvolvia, por ansiedade ou por estresse vivido por alguma coisa. Tudo era reflexo para as dores aumentarem. Como médicos achavam que era enxaqueca, fui cortando tudo”. Contudo, acrescenta, “Foi um aprendizado de que tenho muito orgulho de ter conseguido realizar. Uma semana em Portugal, uma no Uruguai, uma na Argentina, os outros países ficou com ele”. Ao mesmo, entrara num concurso para ser professora em Maragogipe, onde permanece durante quatro anos, dando as mais variadas disciplinas. “E, paralelo a tudo o que eu já estava fazendo, fui chamada também para coordenar uma equipe de educação ambiental, um projeto de uma ONG, que realiza um projeto de educação ambiental e de proteção dos manguezais de Maragogipe. Fiquei com eles também dois anos. E tudo juntou”.

O Balé O balé merece um capítulo à parte em sua narrativa, pois foi e é um dos grandes pontos de sustentação para a sua resiliência, em que, ao doar e fazer, se ergue e anda: “No período que eu tinha a escola infantil, eu coloquei o balé ali, para vocês entenderem como o balé entrou. Porque o balé era um desejo de criança, mas era muito caro e minha família não tinha condições financeiras para pagar um curso de balé pra mim porque, na verdade, tinha de colocar o que comer. Então, nesta escola que eu montei, eu consegui uma professora de balé, a gente dava aulas para aqueles alunos, aquela ânsia de querer fazer. Mas sempre uma coisa empurrando a outra fazendo com que eu fosse jogando pra frente. Então, quando foi em 2014, eu tinha um ano de aulas no Estado, eu comecei a vontade de voltar para o balé. Isto eu já vinha desde antes, pegando aulas, um curso aqui, um curso ali. Mas guardando pra mim como realização pessoal apenas, não para desenvolver com alguém. Quando vinha a Salvador – eu tenho uma empresa aqui que eu conheço – eles administram aula para adultos e para professores,

qualificam esses adultos para dar aula de balé. Então, eu ficava pegando um pouquinho aqui, um pouquinho ali. E também em 2014 resolvi montar o Espaço Cultural Maragogipe: tinha aula de balé, violão, piano, canto, então seria um espaço múltiplo. Só que assim: quando você depende de outros profissionais que acabam não tomando para si o engajamento, a coisa não funciona muito bem” (...) Então, comecei a me qualificar nos horários vagos. Quais os horários vagos? Seria no domingo. No domingo, comecei a vir com a Professora Lidiane para ela me passar tudo, e a gente foi fazendo, e ela disse: Tá no ponto! Agora, vamos lá: agora que não vou parar mesmo!”. “E nesse não vou parar, estavam as aulas do projeto de educação ambiental, a escola mais o balé. Daí, um belo dia, dando aula na escola, falta a voz. Sumiu completamente. Corre pra fono e tal: não, é uma fenda nas cordas vocais. Então, vamos tratar. Levei três meses com a voz sem querer sair. Aquela rouquidão longe... Já era o travar das cordas vocais, um dos sintomas da doença de Parkinson que já vinha dando vários sinais”. “Quando eu comecei a me jogar de verda-

de no balé, o corpo começou a respondar com mais dores, mais dores. E eu com mais medicação pra dentro, só para aliviar a dor. E o médico dizia: precisa fazer mesmo exercício porque vai ajudar! Faz alongamentos, vai ajudar. A assim a gente seguia”. A implantação da Escola de balé atual “O Projeto de Educação Ambiental acabou e eu segui só com o balé. De 2014 a 2016, o balé funcionava num lugar alugado e como Rute não conseguia cobrar das meninas, que chegavam lá e queriam fazer balé e não tinham condições de pagar, e eu não tinha condições de cobrar – eu não tenho psicológico pra isto porque eu me vejo lá atrás, querendo fazer e não tive oportunidades, então tome menina pra dentro, e sem conseguir cobrir as contas. As que pagavam só dava para pagar mesmo a despesa do aluguel. Como eu tenho uma família que sempre embarcou comigo em tudo que é maluquice, meu marido já estava dizendo assim: “Rapaz, tá na hora de acabar como esta questão do alugado”. Resolvem abrir a escola de balé na frente da casa onde moram e que era ocupada pela garagem dos carros. 5


“Ele mesmo (o marido ) pegou – porque ele dá um jeito em tudo – tirou a divisória que a gente tinha no espaço, colocou lá na garagem, fez a separação, botou os espelhos no lugar, e eu desenhei todas as paredes. Porque eu desenho também, vai pintando e ficou tudo lindo, depois eu mando a foto pra você” . Dá também aula de balé em São Roque onde tem 30 alunas e o suporte da Petrobrás. Em Maragogipe, tem 45 alunos. Em todas as apresentações, a costureira faz as roupas, a mãe ajuda, “mas o bordado é todo comigo”. Piora da doença “Porque a gente nunca sabe por que as coisas acontecem. Só que ela tem de acontecer. Mas o de cima tem uma meta pra gente que a gente nunca sabe. Esta ida minha para dar as aulas dentro de casa seria já uma primeira meta para eu não parar jamais, vamos dizer assim”.(...). “Em agosto mesmo, o olho esquerdo fiquei sem enxergar, de uma hora para outra, tudo assim, puf, puf, puf. Era tudo do lado esquerdo, e nenhum médico percebia”. A epopeia dos diagnósticos e tratamentos equivocados Vamos resumir a epopeia de diagnósticos e 6

tratamentos equivocados e da muita dor que se segue até a chegada ao diagnóstico, o que ocorreu praticamente por acaso, ao decidirem retornar ao médico de família que conhecia a sua história e a história familiar, pois uma tia tem Parkinson. Da oculista foi indicada ir ao neurologista, especialista de pescoço e cabeça, cirurgião, aplicação de botox a 8000 reais, tudo particular. Perdeu a capacidade de mastigar, puxava a perna, tinha de ter pessoa acompanhante, usar bengala, sempre com muitas dores. E foi assediada por um dos médicos. Atualmente, a dor só incomoda se ultrapassar 80 por cento, mas aprendi a conviver com a dor. O episódio limite da dor, do desespero, da superação e do renascimento “Voltamos a Maragogipe, para trazer a mudança para Salvador. (...) Mesmo com tanta dor, minha mãe disse: você não vai!, não, eu preciso ir, porque eu sempre estive presente em tudo que sempre foi realizado dentro de casa. Sempre comandei tudo isto. Se eu não fosse naquele momento, aquilo ia ser o fim para mim. E quando cheguei em Maragogipe para a mudança, e foi uma dor tão grande

que tomou conta de mim que eu saí me despedindo de todo mundo dentro de casa. Eu tinha certeza de que não ia passar mais daquele dia. Me despedi de todo mundo. Distribui minhas filhas, porque até então já tinha Sofia que chegou em 2015, e a filha de uma afilhada de minha mãe que nasceu em casa, que a gente recebeu com muito amor e que é minha filha também, e Mariana que vai fazer hoje 16 anos. Nesse dia de muita dor, eu pedi a minha mãe para cuidar das coisas que eu vinha cuidando, fui fazendo aquela divisão, me deram um sossega leão que eu acabei dormindo e, quando eu voltei, a dor voltava ao nível dela. Que já estava antes, não de tanta intensidade. Voltamos para Salvador. E neste dia de desespero, a gente lembrou de um médico neurologista, que tinha cuidado do meu padrasto anos atrás, que até então a gente não lembrava dele”. Nesta altura da entrevista, Rute, como é chamada, enuncia como se mantém e se supera: “Em junho do mesmo ano, depois de estar sentindo uma tristeza querer entrar porque, em momento nenhum, desde o momento inicial em que eu descobri que a doença vinha avançando e eu

não sabia de que tipo era, até quando eu descobri que doença era, eu não fui contra, não entrei em depressão, não me joguei a nada, nunca fui de dizer: ah! Porque eu? Não. Não me vitimizo, toda a questão que eu venho escrevendo no Facebook como O diário de Parkinson, O Parkinson e eu, não é me vitimando, e sim para mostrar para as pessoas que a gente pode, que a gente não pode se abater”. Voltam a Maragogipe para continuar as aulas de balé, mesmo ela ficando sentada em uma cadeira, e com o aval do médico: “É a melhor coisa que você faz. Minha preocupação como médico, como profissional, é você entrar numa depressão, nessa idade, nesse estado”. “E no meio do ano mesmo, eu retornei com todas as minhas alunas de Maragogipe, na sede. Porque as aulas estavam dentro da minha casa, não precisava sair e fiz uma adaptação – até então não estava usando cadeira de rodas – numa cadeira de escritório, de rodinhas. Eu dava as aulas nela. Mas claro que, com o desiquilíbrio, tive de andar de cadeira de rodas. Mas estou bonita no meu trono assim mesmo! (...) Mariana, minha filha, vem me ajudando desde então


nas aulas. E tinha outra menina me ajudando nas aulas. Só não pude voltar a dar aulas no Distrito de São Roque. Mas assim que essa pandemia passar, volto a dar aulas lá”. Relata o sucesso de suas apresentações de balé no teatro de Maragogipe. “Foi a primeira vez que dancei pós doença, acompanhada de Mariana e da outra menina. Levantei com elas me apoiando. E isso fez com que aumentasse mais ainda a procura das crianças pelo balé”. Retorna a Salvador porque necessita cada vez mais de mais tratamentos e também porque Mariana deseja seguir a carreira de modelo. “Tive de acompanhar Mariana a São Paulo por causa da carreira dela, e no avião, não tinha rampa e nem como colocar a cadeira e tive de subir a pé as escadas e me deu embolia no pulmão. (...). Fiquei uma semana na UTI. Começaram retornos para o pulmão da comida, por isso preciso da fono. Em menos de um mês, foram duas passagens pela UTI”. Contudo, continua: “Mas eu ia dar aula em Maragogipe, organizava três dias de aula direto, sexta, sábado e domingo. Viajava com Mariana. Começou o ano passado assim, de

Artesanato feito por Ruteleia Campos

fevereiro até início de março, antes da pandemia. Foi quando ocorreu também a reportagem com a TV Bahia, no dia 09 de março. O último encontro meu com as crianças foi no dia desta reportagem”. Novo ciclo se inicia: o artesanato “Daí falei: Vou fazer 40 anos, a festa ia ser uma reunião com os amigos, daí lancei uma campanha: quer me dar presente? A vida já me deu todos. Aí começou a campanha para arrecadar alimentos. A pessoa chagava para comer um pedaço de bolo, tinha de levar alimento. As escolas da cidade abraçaram a campanha e a gente conseguiu nesse

aniversário arrecadar 30 cestas básicas. Senhoras cestas, viu! E continuamos com as campanhas e no Natal, mais pedidos, e eu abraçando a causa”. Deste modo, inicia-se uma nova fase de sua vida em que utiliza o artesanato como tratamento, mas, principalmente, que a sua condição se torna uma forma de doação, de superação e de resistência: “Para a mão não fechar. Porque quando esta mão trava, ninguém que faça abrir. Só automaticamente quando o cérebro manda ela destravar. A mesma coisa com a perna. Se travar, não saio do lugar. Há 15 dias, travou a boca, a voz, eu não

falava. É o chamado frizzing da doença, o congelamento. E os médicos dizem que eu tenho de ir mexendo o outro lado para dar conta de que tem de funcionar. Mas não adianta muito não, é quando bem quer. Comecei (o artesanto) com coisa bem simples, um coraçãozinho, um chaveirinho. Quando Mariana ia fazer 15 anos, já na pandemia, resolvi fazer almofadinhas. A gente ia fazer a comemoração dela em casa, só nós seis, porque somos seis em casa, Sofia, meu padrasto, meu marido e minha mãe. Foi com o tema de Cinderela. Fizemos tudo, o sapatinho, tudo. Daí, a partir daí, eu disse: Olhe, vou fazer mais 7


coisas. Fui pegando os moldes na internet, dai resolvi fazer o primeiro leilão virtual dessa festa que eu fiz. E esse leilão virtual era para ajudar o outro, o preço desse leilão era 1 k de alimento. Daí a gente conseguiu arrecadar aí mais 10 cestas básicas que eu pedi doações para essas famílias que já venho ajudando desde o início da pandemia”. “Aí continuei seguindo com a costura do feltro. Mas ainda não tinha entrado em boneca. Quando chegou o mês de maio, eu falei: Mainha, como será que estão essas crianças, como vai ser este ano dessas crianças? já pensando no Dia das Crianças. Porque a minha cabeça trabalha demais, acho que isto também interfere muito, sabe? Eu penso logo pra frente e o juízo pede. Como vai ser no Dia das Crianças sem a gente poder fazer nada, essa pandemia continua. Provavelmente vai será o ano todo, e realmente, foi. Quer saber? Vou botar uma meta pra mim: eu vou fazer 200 bonecas pra doação na Semana da Criança. Tu acha que vai conseguir? Vou, vou. Uma amiga disse: posso te ajudar também. (...) Ampliei a campanha pedindo aos amigos brinquedos, roupas, livros, kits de higiene 8

pessoal, guloseimas e, graças a Deus, além das minhas 200 bonecas, a gente conseguiu muitas coisas. A gente alcançou 644 crianças, e 88 adolescentes. Montamos kit maquiagem para estes adolescentes. A gente não parou mais (...) e um amigo disse: comece a vender as bonecas, não doe só não, e da venda você já compra os alimentos que você tem pedido. Pronto! E aí estamos com as bonecas a venda para reverter na compra de alimentos”. Fez também três enxovais, que já entreguei nas comunidades carentes em Maragogipe, e agora tem mais quatro para entrega”. Finaliza a entrevista assim: “Tem muita gente que não aceita eu assim, porque sempre me viram fazendo tanta coisa, e eu digo: eu não me sinto doente. Não adianta me levar para tal lugar para me curar: a cura está dentro da gente. Eu tenho um amor muito grande por aquilo que eu faço, que é o que me dá força, o balé, e as crianças, que eu não me vejo sem elas. Se eu faço as minhas bonecas, as minhas Marias que eu dei o nome a elas, elas são diferentes entre si porque somos diferentes entre si, somos individuais, indivíduos, mas todos temos a mesma luz, todas

elas têm a mesma essência. Todas elas são fruto do amor, amor que eu tenho pelas crianças, amor por aquilo que eu faço, por aquilo que Deus vem mandando pra mim. Eu não sou doente. Eu não me sinto doente. Meu casamento como sr. Parkinson, tem lá no Facebbok: eu me casei sem direito ao divórcio. Só que como eu me casei sem direito ao divórcio e sem ele me pedir permissão, ele tem de aguentar minhas pirraças. Me aguentar. Então não sou eu quem tem de aguentar ele. Eu venço cada dia. Cada dia é um novo dia. Mas não tem nada como um dia após o outro: a gente levanta, a gente tem de viver e vencer. A vida é bela demais para a gente ficar resmungando. Eu não tenho problema não. Tenho os obstáculos que a gente precisa vencer a cada dia, pular, driblar, fazer tudo”. Em dezembro, surgiu a Lei Aldir Blanc, onde ela inscreveu o projeto: Histórias contadas sobre as Marias da Bahia que foi aprovado aquela questão emergencial. “ Então são 60 bonecas, que são 20 negras, 20 ciganas e, 20 indígenas. Que serão entregues a 20 crianças, 20 adolescentes e 20 idosos, junto com um caderninho em bran-

co onde a pessoa que receber a boneca vai criar uma história a partir daquela boneca que recebeu, vai escrever no caderno e devolver pra mim para eu poder montar um só, um único livro. As 20 bonecas para crianças vou mandar todas para Cinthia (editora chefe de Alter-Idades)”.

Cinthia: “Estou muito agradecida. Rute ofereceu as bonecas e eu disse que gostaria muito de trazer as crianças ao Município de Santo Antônio de Jesus e fazer este projeto, porque é o objetivo da Casa Casulo atender não só a demanda de quem pode pagar, mas também de quem não pode. Vou trazer as crianças e a Rute prometeu que vem dançar”. Julio César (entrevistador) agradece e sugere: “Quando você fizer o projeto dos Joãos, tenho interesse em ler as histórias também”. Elaine: É fundamental para, você, Rute, transformar a energia em alimento para os outros, o que te retroalimenta, o que elucida de modo mais profundo o significado de resiliência, projetando-a para o bem-comum.


RELATO LIVRE meu coração saindo pela boca. Quando o sargento apitou para todo mundo nadar, tinha de nadar 200 metros, só que água de piscina é pesada também, e eu não sabia estilo nenhum.

O SALVA-VIDAS QUE SE SALVOU

Elaine Rabinovich

Afonso tem 27 anos e é salva-vidas há sete, em uma praia do litoral norte de São Paulo localizada em Ubatuba. É casado e tem dois filhos. Iniciou esta profissão por acaso: era fiscal nesta mesma praia. Estava andando, fardado como fiscal, quando viu uma moça se afogando. Atirou-se no mar de roupa e botas e quase que ambos se afogam porque a moça dependurou-se no seu pescoço. Foram salvos porque Afonso se agarrou às cordas que delimitam a área para os barcos. Porém, como consequência desta sua valentia, a administração do condomínio, onde está esta praia, perguntou se ele queria ser o segundo salva-vidas, já que

havia um primeiro. Ele imediatamente aceitou. Ocorre que, para ser salva-vidas há uma série de exigências, como se capacitar em um curso dado pela Polícia Militar. Ele sempre quesera ser da polícia. Mas todo ano tem de fazer reciclagem, assim como se habilitar em GVT, qual seja, como guarda-vida temporário. A reciclagem dura 20 dias, em provas como corridas e treinamentos em costeiras, conhecimentos teóricos, andar em bote, enfim, “toda capacitação para poder atender os banhistas na praia”. Porém, uma das provas seletivas no curso para poder se capacitar como GVT era nadar em uma piscina “bem grande”. “E nadar nunca foi meu forte, meu forte era correr,

fui até atleta na escola”. Ele se disse: “eu topo. Ou é tudo ou é nada”. Continua: “E eram mais de 100 candidatos para 30 vagas”. Afonso não sabia nadar, isto é, nadava tipo “cachorrinho”, e lá tinha de nadar 200 m, indo e vindo na piscina. Pensou: Cara e coragem, tou precisando, o interesse é meu. E tem mais duas pessoas que estão dependendo de mim agora, minhas filhas. Continua: Fizemos a prova de corrida, cinco minutos, em Massaguaçu. Coisa simples, rápido. Agora, a parte que complicou foi a piscina. Nunca fiz natação, não sabia técnica de nadar, nadava aquele estilo ... cachorrinho, né. Mas piscina tem de nadar no craw e nesse estilo, mas com a cabeça para fora d´água. Pensei: vou morrer lá dentro da piscina. E eram eu e mais cinco, cada um numa raia, e

Assim ele relata o momento de sua superação, embora esta já esteja implicada em tudo o que foi sendo contado por ele: Meu Deus, o que vou fazer, o que vou fazer? Na hora em que ele apitou, acho que Deus me abençoou ali. Tinha de nadar em três minutos os 200 metros para pegar uma vaga e poder iniciar o curso. Foi aí que, na hora em que pulei, comecei a dar braçada, nadando craw, só que com a cabeça pra fora, girava a cabeça para um lado e para o outro, meu Deus, já estou cansado, e tinha de dar quatro voltas por causa do tamanho da piscina. Quando estava praticamente afundando, de tão cansado que estava, veio-lhe à cabeça a imagem de sua filha, e daí voltou o pique e ele acabou a prova. Não conseguia nem sair da piscina de tão cansado. Não conseguia respirar. Daí dei um impulso e cai para fora da piscina. Uma hora começou os resultados, e falou: 54, o meu número!!! Tinha entrado. E sou salva-vidas desde então. 9


CULTURA | POESIA

MEDO De qual medo tenho medo? Daquele de romper as grades e pôr os pés na rua? Ou do medo de, estando confinada em mim, atravessar minhas ruas claras e amplas até as abandonadas, onde escondo meus sentimentos mesquinhos, ou onde não sou o que desejo ser? Agora que rejo o tempo, agora que o tenho como parceiro na faxina da casa, na arrumação dos armários, por que não o recrutar para a limpeza das ruelas? Levar até elas a luz necessária, água e sabão, e não apenas lavar as mãos? Esfregar toda a sujeira. Deixar doer, deixar ferir até sangra e, diante da ferida, saber cuidar, porque CURAR pode ser a nossa segunda chance. Não somos vítimas dessa Pandemia, somos os vilões. Porém, contrariando a lógica esperada, podemos todos, nós e o mundo, RENASCER. Ainda há tempo, a quarentena só está começando. Liana Barreto de Melo

In: Melo, Liana Barreto de. O livro de Liana: asas da madrugada / Liana Barreto de Melo. São Paulo: Scortecci, 2021. (p. 16) Fotos: Mário Vitor Bastos Ilustrações: Rebecca Matta; Liana Barreto de Melo.

CULTURA | Filmes

indicação e contra indicação:

um filme de superação e um de não superação

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cadê você bernadette (2019)

sociedade dos poetas mortos (1990)

Diretor: Richard Linklatter, com Cate Blanchett, Emma Nelson. Baseado em um best-seller, que conta a história de uma mulher que abriu mão de sua sucedida carreira como para realizar o sonho de ser mãe, indo na contramão do esperado socialmente. A história é contada pela filha adolescente, Bee, que reúne e-mails, correspondências secretas e documentos para tentar entender quem é sua mãe. Bernadette embarca para uma aventura no Alasca, largando sua vida de alta classe média américa, e lá acontece a virada que justifica a sua indicação de filme que mostra superação e resistência. O filme é baseado no protagonismo feminino.

Diretor: Peter Weir. Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean leonard, Josh Charles. Um novo professor de literatura é introduzido numa escola preparatória de meninos conhecida por suas antigas tradições e alto padrão. O professor os estimula a pensar por si próprios e a vencer inibições, o que cria um choque com a ordoxia da escola, principalmente quando ele fala da Sociedade dos Poetas Mortos. No entanto, um dos alunos acaba se suicidando ao não conseguir superar seus conflitos e dilemas, motivo pelo qual este ótimo filme aparece como indicação de contra-superação.


CRÔNICA

DeSAFIOS E SUPERAÇÃO Júlio César Barbosa Se a palavra superação fosse um substantivo comumente usando para nomear pessoas, ou se estivesse naquelas listas de nomes próprios nas quais os pais escolhem para registar os filhos, certamente ele seria batizado assim: Superação. Ele nunca correu de trabalhos ou desafios. Começou a trabalhar cedo e sua última ocupação foi de fiscal de área, uma espécie de segurança de condomínio. Até que um dia, presencia uma provável tragédia e sua vida pessoal e profissional muda totalmente. Destemido, e mes-

mo sem saber nadar, ele se atirou ao mar e salvou a vida de uma garotinha que estava se afogando nas águas da praia de Ubatuba. - Quando vi que ela “tava” se afogando, não pensei em nada, me atirei no mar de roupa e tudo. Só depois que eu “tava” na água foi que me lembrei que não sei nadar. Vi meu coração sair pela boca, quando a moça se agarrou em meu pescoço e me dei conta que a gente ia morrer, falou ele levando as mãos com os punhos fechados e em tom de superação. - É, e agora?!, pensei em busca de uma

solução rápida. Sem saber nado craw, mas sabendo nado cachorrinho, ele, com a moça pendurada em seu pescoço, foi até às cordas que delimitam a área para os barcos, ganhou fôlego e salvou aquelas vidas: a da moça e a dele. Aquele ato heroico adiou a morte da jovem e garantiu a promoção profissional do mancebo. Uma vida salva causa comoção e o benfeitor sempre vira um herói. Foi assim que ele se tornou salva-vidas, depois de fazer o curso para exercer a profissão. Mais uma vez se de-

safiando, se supera ao nadar 200m na piscina com mais outros cinco candidatos à vaga. - Quando estava praticamente afundando, de tão cansado que estava, veio na minha cabeça a imagem de minha filha, dei um pique e ouvi o apito dizendo que acabou a prova, falou emocionado. Todo sacrifício valeu a pena quando o sargento gritou: - Número 54. Núm... - Meio sem acreditar, e antes mesmo dele terminar a palavra na terceira vez que chamava, me levantei e fui receber os parabéns. A vaga é minha.

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PROSA POÉTICA

O PARADOXO DA RESILIÊNCIA Cinthia Souza

Sempre defendi que resiliência é uma capacidade para lá de superação. É uma reinvenção, criatividade para um novo projeto de existência. Escrevi que os resilientes são resilientes e por isso movimentam-se para buscar a novidade para ser feliz. Hoje me surpreendi quando afirmei para mim mesma: os resilientes são pouco resilientes ao sofrimento. Tanto, que não suportam conviver com a dor por qualquer tempo marcado. Antes que ela perdure é preciso fazer alguma coisa. Livro-me dela, em movimento rápido, olho para todas as possibilidades de libertação. Acho que a palavra resiliência é exemplo de paradoxo. Resisto à infelicidade, não posso ser triste por um tempo indeterminado. Quero a felicidade logo ali. Como pode alguém resistir à alegria, à paz, ao bem estar? Se não resisto ao sofrimento então ... logo ... Diria Xamã ao elaborar uma pergunta, uma hipótese, uma tese? Paradoxal seria a palavra resistir? Se combinada à dor? Se associada à felicidade? Um bom paradoso é uma figura que não permite apenas uma face do sentido. Resiliência seria um paradoxo perfeito? 12


ARTES

MARINA MARTINELLI E AS SUAS AQUARELAS Marina Martinelli é nascida em São Paulo (1944) onde vive e trabalha. Graduada em artes plásticas pela Faculdade de artes Santa Marcelina e Didática pela PUC SP, em 1968 e pós graduada em aquarela em 2001, pela Faculdade de Artes Santa Marcelina. Pintora, (aquarela e Batik) e gravadora. Iniciou gravura e aquarela com Iole Di Natale,batik com Kasuco Abe, também participou de estudos filosóficos sobre arte com Prof. Dr. sérgio Lima. Desde 1999 reúne mensalmente em seu atelier, artistas do Grupo Angatuba, para estudos e reflexões sobre arte e o fazer artístico. Este grupo também promove exposições em que expõe suas obras. Marina é membro do Núcleo de Aquarelistas, ABA, desde 1987 e foi Vice - Presidente da ABA Núcleo,2007-2015. Tem participado de várias exposições individuais e coletivas de aquarela ,batik e gravura em metal, no Brasil e exterior.

Possui obras em acervos particulares e em museus nacionais e no exterior. Premiada na 1ª Quadrienal Internacional de Aquarela em São Paulo, 2003. Tem obras publicadas no livro de aquarela da ABA - AQUARELA A COR DA MEMÓRIA - 2012 páginas : 82, 83, 84 e 85.

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