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Primeira Impressão 61

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O LADO DE DENTRO

HISTÓRIAS

QUE ACONTECEM LONGE

DOS HOLOFOTES. VIDAS REAIS, SONHOS, MEMÓRIAS, RECOMEÇOS

E A FORÇA DO COTIDIANO

CURIOSIDADE É O

QUE NOS MOVE

Se há um denominador comum entre os jornalistas das mais diferentes gerações e lugares, ele pode ser resumido em uma única palavra: curiosidade, ou seja, o desejo de saber, investigar, conhecer e compreender o mundo. É esse impulso que está no coração do jornalismo.

Movidos por ele, buscamos enxergar além da superfície. Queremos compreender processos, revelar bastidores, ouvir vozes pouco escutadas e encontrar histórias onde muitos veem apenas rotina. É uma disposição que nos leva a questionar certezas e explorar territórios ainda pouco conhecidos.

No jornalismo literário, essa busca encontra terreno fértil. Sem a urgência do factual, a reportagem ganha profundidade. A curiosidade se alia à criatividade e ao olhar singular de cada repórter para construir narrativas capazes de iluminar aspectos invisíveis da realidade.

Foi esse movimento que orientou a produção desta edição da Primeira Impressão. Partimos de uma pergunta simples: o que acontece longe dos holofotes? O que permanece fora do campo de visão, no “lado B”, e, por isso, raramente é contado?

As respostas surgiram em diferentes caminhos. Andressa encontrou nas cartas de Luiza ao pai encarcerado uma história de afeto e resistência. Nathália mergulhou nos processos silenciosos do luto. Bernardo, Gabriela, Lua e Camille revelaram trajetórias marcantes de mulheres em São Leopoldo, Novo Hamburgo, Alvorada e Sapucaia do Sul. Vitor viajou até Taquari para descobrir como um jornal centenário ainda mantém métodos artesanais de impressão.

Em Esteio, Mateus Grechi investigou os desafios de uma profissão que parecia desaparecer. Dener percorreu a estrada até Terra de Areia para entender o segredo dos abacaxis. Já Mateus Dias buscou explicar por que as missas do padre Adilson lotam uma igreja em plena quarta-feira em Sapucaia do Sul.

Jonatas, por sua vez, conheceu um centro espírita em Novo Hamburgo que funciona como uma espécie de “SUS” espiritual. Em Porto Alegre, Marcel acompanhou quem sonha em conquistar os gramados do mundo, enquanto Thiele mostrou as dores e as conquistas de quem deixa sua cidade para construir uma nova história.

Histórias diferentes entre si, mas unidas pelo mesmo propósito: revelar o “lado de dentro”. Aquilo que nem sempre aparece nos holofotes, que raramente ocupa as manchetes, mas que ajuda a compreender melhor as pessoas e o mundo ao nosso redor. E, claro, alimentar aquela curiosidade que move todo repórter e que, agora, compartilhamos com você, caro leitor.

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CARTAS DE LUIZA

Cartas e sentimentos

atravessam o tempo, enquanto Luiza escreve a própria história e transforma sua trajetória

8

PRESENÇA NA AUSÊNCIA

Os sentidos, a memória e os processos invisíveis do luto depois da partida

14

A CORAGEM DE RECOMEÇAR

Uma mulher luta para transformar medo em recomeço em meio à rotina do trabalho, às marcas da violência doméstica e os desafios da maternidade

18

AS PEREGRINAÇÕES DE UMA CENTENÁRIA

Quando Novo Hamburgo celebrar seu centenário, em abril de 2027, Dona Biluca já terá completado 100 anos de vida

22

O SORRISO DE QUEM

APRENDEU A LER O MUNDO

O impacto do diagnóstico tardio da dislexia, que deixou Odília por mais de cinco décadas no escuro

26

O RENASCIMENTO DE ODIELMIA

Aos oitenta anos, Dona Delma vive um sonho antigo e cria novos caminhos para si, graças à educação

30

ONDE O TEMPO AINDA É IMPRESSO

Com máquinas centenárias, jornal gaúcho mantém vivo um processo artesanal único na América Latina

36

AINDA TEM CONSERTO

Entre botas, cola e clientes antigos, um sapateiro de Esteio mostra como alguns ofícios ainda resistem ao tempo

40

POR BAIXO DA CASCA GROSSA

A história de Sinval Leal Justo, um dos responsáveis por 90% da produção gaúcha de abacaxis

44 AS QUARTAS DE FÉ

EM SAPUCAIA DO SUL

O padre que transformou as missas de quarta-feira da Paróquia Nossa Senhora da Conceição em um patrimônio afetivo da cidade

50

GENTE CANSADA, GENTE ASSUSTADA

Por trás de cada ficha de atendimento no Centro Espírita Esperança e Fé, uma história marcada por cansaço, dúvidas e recomeços

54

O SONHO MORA EM UM ESTÁDIO PEQUENO

Das arquibancadas, um jovem de 16 anos sonha com um grande futuro nos gramados

58

PARTIR PARA RECOMEÇAR

Entre despedidas, desafios e recomeços, a vida de quem deixa o aconchego de casa para realizar sonhos e escrever a própria história

CARTAS DE LUIZA

QUANDO TUDO PEDE VELOCIDADE, UMA HISTÓRIA

EXIGE CALMA

TEXTO ANDRESSA BRZEZINSKI

“Nove dias não são nove anos, minha filha.” Assim começa a carta do pai de Luiza que, infelizmente, ela só pôde receber anos depois, quando já não estava mais no abrigo da Prefeitura de Porto Alegre, após o Conselho Tutelar a retirar da casa de sua família pela segunda vez.

Luiza vivia em um local simples, em um terreno onde existiam duas casas: a de sua família, onde morava com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos mais velhos; e a casa da frente, onde morava a sua avó. A memória é algo fragmentado pelo tempo, ainda mais quando se sofre traumas tão profundos que não é mais possível se recordar de como a vida era antes deles. Luiza não lembra se era feliz, se brincava ou o que fazia depois da escola. Lembranças distantes e que ficaram no passado. O que Luiza recorda é que tudo mudou. Não de uma forma repentina, foi mudando até nada mais ser igual.

Quando a infância vira espera

Ela tinha apenas seis anos quando o pai foi preso pela primeira vez por tráfico de drogas. Ele já era um homem adulto, de 40 anos, o que é raro hoje em dia, quando se entra jovem demais para o crime. Ele começou a vender bem antes de ser preso, mas de uma forma silenciosa e não recorrente. Com o tempo e as dificuldades do dia a dia, a prática tornou-se mais frequente e, somada ao uso abusivo de álcool, acabou chamando atenção demais, o que resultou em sua prisão. No começo, era a mãe quem ainda cuidava dela. Foram alguns anos em que ela aprendia a escrever

e mandava cartas para seu pai com a ajuda dela. Em uma Páscoa, a ajudou a escrever um verso em uma das cartas enviadas:

“Gosto de você mais do que coelho de cenoura, por você voo mais alto que bruxa em vassoura…”

“Esse eu escrevi com ajuda da minha mãe, ela gostava”, recorda Luiza. “Depois, adulta, eu continuei escrevendo sozinha porque eu realmente gostava.”

Os dias foram passando e Luiza ficando cada vez mais sozinha em casa: “Eu achava que minha mãe estava trabalhando muito para cuidar de mim.” Mas, com o tempo, ela entendeu que na verdade, a mãe passava dias sem retornar para casa, deixando-a sem comida, sem roupa limpa, sem ir para a escola. A mãe de Luiza estava cansada e buscando algum conforto no álcool e nas drogas, e não tinha mais noção alguma do tempo e da realidade. Então chegou a primeira denúncia do Conselho Tutelar e ela foi levada para morar com a avó na casa da frente. “Mas a verdade é que, se minha avó se importasse comigo, teria me cuidado, já que morávamos no mesmo terreno”, comentou Luiza.

Ela ficou um mês ali naquela casa, até chegar outra denúncia: uma vizinha a viu sendo agredida pela avó no pátio. A assistente social olhou para ele, olhou a sujeira, olhou as marcas, e levou Luiza para o abrigo, onde precisou de cuidados médicos, pois estava com sarna. Nessa época, ela ainda não entendia nada, pensava apenas que sua mãe estava trabalhando e por isso não voltava para casa. Mas Luiza ficou um ano na casa de passagem até ser adotada.

Quando o passado não passa

Luiza morou com sua família adotiva dos 10 aos 16 anos. Embora tenha sido muito amada pela mãe adotiva, ela sequer sabia o que era ser cuidada. Afinal, como lidar com uma família nova quando ainda não se compreendeu o que aconteceu com a biológica? Eram traumas grandes demais; por mais que sua mãe adotiva tentasse cuidar, ela também evitava conversar sobre o passado de Luiza. Com o tempo, a menina se tornou extremamente “rebelde” e difícil de lidar.

Aos 12 anos, Luiza conseguiu se aproximar de sua mãe biológica. Foi nesse período que recebeu diversas cartas do pai, que estavam guardadas na casa da avó, inclusive aquela comemorativa do seu aniversário de nove anos: “nove dias não são nove anos…”.

“Acho que era o contrário: ele queria escrever que nove anos não são nove dias, e que eu estava crescendo rápido. Mas eu só recebi essa carta aos 12 anos, o que foi péssimo. Teria sido muito importante ter lido no meu aniversário; teria feito diferença saber que alguém ainda se importava comigo”, reflete Luiza.

Com dezesseis anos e uma vida marcada por mais traumas do que qualquer pessoa dessa idade deveria suportar, Luiza não aguentava mais morar com a família adotiva. Hoje, ela reconhece que não facilitou a convivência com a mãe adotiva que se esforçou muito para cuidar e amar, mas queria ir embora e o faria de qualquer forma. Foi quando conheceu alguém: um homem de mais de 30 anos que ainda morava com a esposa, mas dizia estar se separando e não ter para onde ir.

Ela já fazia estágio na época, então juntou dinheiro e pagou o aluguel de uma casa para morarem juntos na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Era uma residência simples, dentro de uma comunidade controlada pelo tráfico. A relação, no entanto, não durou muito tempo. Ele era violento e mantinha uma relação complicada com a ex-esposa, que vivia mandando mensagens e o procurando, inclusive dizendo que ele estaria estragando a vida dela e de outra mulher que era apenas uma criança — referindo-se ao fato de Luiza ainda ser menor de idade.

Um dia, após apanhar do companheiro no meio da rua, Luiza decidiu dar um basta na relação abusiva. Tentou pedir ajuda ao pai, que apenas disse que eles eram um casal e precisavam se entender. Sem o apoio paterno, ela recorreu ao pai de uma amiga da escola, que foi até a casa e colocou o homem para fora. Logo depois, Luiza pediu

ajuda “aos guris do movimento” para avisar que ele a agredia, que o havia expulsado e que, a partir dali, moraria sozinha naquela casa.

Quando a palavra é sobrevivência

Semanas depois, Luiza foi a um evento de hip-hop em sua comunidade. Ela amava o rap e a cultura de rua. Muitas das longas conversas com o pai, que hoje está preso por diversos outros crimes além do tráfico, foram sobre música; nas cartas, ela sempre falava sobre seus gostos musicais e o amor pelo rap, um assunto que tinham em comum. Ela sente que isso os une de alguma forma. Nesse evento, ela conheceu o SLAM e entendeu que já sabia escrever, rimar e fazer poesia desde sempre: desde pequena, desde as cartas para o pai. Começou a participar, recebeu o incentivo de sua mãe adotiva para querer mais e tornou-se produtora e agente de cultura do seu território.

Em 2025, Luiza perdeu a mãe biológica. Ela havia sido internada, a princípio por anemia, mas as complicações foram se somando e a depressão que carregava piorou o quadro. A mãe não queria mais comer, não queria mais estar presente neste mundo. Luiza ainda fala com o pai — não pessoalmente, mas por cartas, onde o atualiza sobre a sua vida. Ela também envia o “Jumbo” (pacote com itens essenciais de

alimentação, higiene e limpeza) todo mês; ninguém mais da família faz isso.

Existe uma dor latente e uma angústia enorme dentro de Luiza: “Eu sei que meu pai é uma pessoa ruim, mas ele é meu pai”.

Muitas vezes ela pensou que deveria cortar essa relação e se afastar, seus irmãos fizeram isso. Mas Luiza não consegue. “Eu me sinto culpada por ainda falar com ele e gastar meu dinheiro com ele. Mas, se eu não fizer, ninguém mais vai. Além disso, ele já está doente; teve pneumonia diversas vezes na prisão, entre outras enfermidades. Ele já está com mais de 60 anos; vai morrer antes mesmo de sair da prisão”, desabafa.

Nesses anos todos, ele pôde sair algumas vezes da prisão. Luiza lembra-se de encontrá-lo na casa da avó: era calor, uma construção sem revestimento onde tudo parecia ter tons alaranjados de barro. Ela recorda o toque do piso frio, onde os dois deitavam para se refrescar e passavam horas falando sobre música e rap, uma memória de tempo que Luiza guarda com o mesmo zelo que guarda as cartas.

Quando cartas são contra o esquecimento

Enquanto o mundo lá fora se perde na urgência de mensagens instantâneas, áudios acelerados em

duas vezes e notificações que exigem respostas imediatas, a vida de Luiza foi sobre espera. Espera por cartas, espera pelo retorno de sua mãe do trabalho, espera pelo dia que talvez seu pai fosse solto. Para ela, a comunicação nunca foi sobre a velocidade, mas sobre a resistência do papel. No hiato entre o envio e o recebimento de uma carta, Luiza aprendeu que o tempo do afeto não segue o cronômetro da tecnologia; ele exige a calma de quem precisa sobreviver a ausências.

Da mesma forma que escreveu para o pai, hoje Luiza escreve uma nova história para si mesma. Hoje, aos 23 anos, Luiza é uma jovem que transborda a cultura urbana que defende: mantém os cabelos castanhos sempre longos, ostenta unhas compridas e coloridas e tem uma paixão declarada por roupas de estampa de animal print ou “oncinha”, como prefere chamar. Usa muitos acessórios rosa e dourados. Quem convive com ela sabe que a música é seu combustível, já que passa o dia cantarolando ou de fones de ouvido, escutando suas faixas favoritas. Mudou-se para Pelotas, onde assumiu a diretoria de um centro cultural. Ela encontrou na arte e

na escrita o seu refúgio; o lugar onde consegue ser quem quiser e, ainda assim, teve fôlego para contar a sua própria realidade. Luiza entendeu, enfim, que em um tempo que tudo apaga, as palavras escritas à mão são o único rastro capaz de provar que, apesar de tudo, ela conseguiu traçar a sua própria jornada.

Quando os números têm rosto

n Entre cartas e rimas, Luiza achou no papel o refúgio para mudar o seu destino

A história de Luiza não termina nela. Em 2024, o Disque 100 recebeu 657,2 mil denúncias de violações de direitos humanos; 289,4 mil envolviam crianças e adolescentes, e a negligência apareceu entre os casos mais recorrentes, com 464,3 mil registros. Hoje, o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento do CNJ reúne 36.615 crianças e adolescentes acolhidos no país. São números, mas também são quartos vazios, mochilas esquecidas, esperas sem resposta. A vida de Luiza é só uma entre tantas, singular na sua dor, coletiva no que revela. Por trás desses números, há trajetórias marcadas por ausências, violências, dores e respostas institucionais que às vezes chegam tarde.

n Memórias que permanecem: a espreguiçadeira em que Márcio embalava Nathália quando bebê; a recordação da última viagem juntos, em que rodaram por 2,4 mil quilômetros; e uma lista de receitas escrita por ele

AUSÊNCIAPRESENÇA NA

OS SENTIDOS, A MEMÓRIA E OS PROCESSOS INVISÍVEIS DO LUTO DEPOIS DA PARTIDA

TEXTO E FOTOS NATHÁLIA RODRIGUES

Eu tinha 21 anos quando me tornei uma colecionadora de ausências em demasia. Desde então, o relógio marca os segundos com uma indiferença que, nos primeiros meses, me soava como torturante. A morte tem uma tangibilidade assustadora. A gente acha que a perda é um conceito abstrato até precisar decidir qual será o destino das roupas de quem não vai mais precisar delas. E, afinal, qual roupa escolher para um último momento?

Márcio Braga Rodrigues tinha 50 anos e duas semanas de vida quando um ataque cardíaco fatalmente encerrou sua jornada por aqui, em um feriado de 1° de maio de 2023. Deixou para trás uma filha que, dali a exatamente oito dias, iniciaria a graduação em Jornalismo.

Meu pai era uma fortaleza de sorriso largo e coração gentil. Disciplinado, foi atleta de handebol na juventude e praticou esportes durante toda a vida. Antes que eu nascesse, trabalhava como caminhoneiro. Amava a estrada de forma visceral. A nossa última viagem juntos, cerca de seis meses antes da despedida, cobriu cerca de 2,4 mil quilômetros. O roteiro começou em Esteio, desceu até Encruzilhada do Sul e retornou à base antes de partirmos de caminhão rumo a Paranaguá, no Paraná. Na volta, fizemos paradas táticas e dormimos na Praia da Ferrugem.

Ele mapeou o mundo através das páginas impressas do jornal mais popular do sul do país. Marcava nos jornais os lugares que já conhecia e mantinha um arquivo analógico focado na nossa representatividade. Durante quase quatro anos, recortou fielmente a coluna de Manoel Soares no Diário Gaúcho, aos sábados. Era a sua forma tática de me incentivar, mostrando que existiam pessoas negras comunicando para a nossa estrutura familiar. A última coluna arquivada por ele debatia, justamente, a importância de os pais se educarem. São anotações que hoje sustentam a geografia da minha lembrança.

A memória mais nítida da nossa última semana juntos evoca o trajeto de volta do meu trabalho. “O pai estava te esperando”, disse ele, segurando a

n Lembranças de Isadora com o pai, Damasio; à direita, Cristiel Gasparetto e o filho Nícolas

minha mão, que parecia minúscula diante da dele, ao me buscar no Palácio Piratini, onde eu trabalhava. Naquela caminhada até a estação Mercado, desenhamos um mochilão para o Chile. Batemos o martelo de que compraríamos uma carreta azul-royal. Ao cruzarmos o Largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre, fui taxativa: “Pai, quando eu for a jornalista que sonho ser, me lembra que um dia desejei ter meu nome em um lugar importante assim”. Ele sorriu e respondeu que eu já era tudo isso, e que queria estar vivo para ver. Só faltou combinar com o destino. Dois anos depois, em novembro de 2025, um incêndio destruiu um dos cômodos da minha casa. O fogo consumiu roupas, calçados, equipamentos e livros, mas o golpe mais letal foi ver se transformar em cinzas a velha espreguiçadeira que

pertencia ao meu avô paterno e na qual meu pai me embalava no colo quando pequena. Em segundos, mais de quarenta anos de laços familiares se tornaram escombros. Também houve o que foi salvo: o aroma do perfume dele, algumas lembranças, a lista de refeições que ele gostava de cozinhar, as colunas recortadas do jornal e os blocos de anotações que ainda funcionam como o principal gatilho para as lágrimas que tento esconder.

O fantasma mais persistente do enlutado é a vida que a pessoa não vai viver. O plano original envolvia o sorriso dele na minha formatura de Jornalismo. Sem essa concretização, o luto invade a materialidade do cotidiano. É o carrinho de compras: o impulso de pegar no supermercado a carne preferida dele, o suco de laranja que ele gostava, a marca específica de erva mate e um jornal impresso para folhear. Abre espaço para a fome física: a necessidade quase biológica de comer aquela comida específica que só aquela pessoa sabia fazer. O paladar funciona como um arquivo de memórias.

Nós tínhamos uma piada interna sobre a existência de sinal de Internet no céu. Ele, otimista crônico, garantiu que a conexão lá em cima seria impecável. Mas, diante do abismo, esbarro no silêncio da rede. O arquivo digital está salvo na galeria do celular, mas não tenho para onde enviar.

Foi mergulhando no meu próprio abismo burocrático e sensorial que percebi: a minha dor é apenas

o fio condutor de uma geografia muito mais extensa. O luto é um país estrangeiro e, de repente, eu estava cercada por pessoas que também tentavam aprender esse idioma.

A herança em páginas e o tabu do alívio

A morte costuma habitar o território do silêncio social. A médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes notou essa lacuna ainda na graduação. A academia preparava médicos para curar, mas fugia do cuidado com o encerramento do ciclo vital. O diálogo evitado ganha contornos de urgência quando a burocracia exige assinaturas enquanto os olhos ainda estão inchados. Existe uma engrenagem fria que se move no instante exato em que um coração para. São taxas, atestados, certidões e a partilha forçada daquilo que restou.

Para a publicitária Isadora Rangel, de 22 anos, o luto assumiu a forma de um hospital

permanente. O diagnóstico de um câncer cerebral agressivo transformou a rotina da família, no Litoral Norte gaúcho, em uma sucessão de esperas. Foram seis meses entre a descoberta do tumor e o último encontro. Damasio Fermino, de 68 anos, despediu-se deixando uma esposa jovem demais para a viuvez e muitos livros na estante de memórias da filha.

Hoje, o elo palpável com o pai reside nas lombadas desgastadas dos livros que ele deixou. Ao folhear as páginas, ela busca marcas de lápis e anotações marginais, tateando o papel em busca de um fragmento da voz que a doença calou.

Durante sua despedida, Isadora encontrou refúgio nas palavras da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que, em Notas sobre o luto, descreve a orfandade como uma educação cruel: “Você aprende como o luto pode ser raso, como pode ser cheio de raiva”. Dora, como é chamada, buscou o espelho; a coreografia

desta despedida se repete cada vez que abre um livro herdado, transformando a literatura em ponto de encontro.

Desta dinâmica, surge o tabu do alívio após a partida de quem descansou. É comum sentir um alívio inesperado, principalmente após mortes decorrentes de doenças longas, dolorosas ou contextos conflituosos. É um sentimento humano, frequente e difícil de admitir: o alívio de que o sofrimento (da pessoa e de quem cuida) finalmente cessou.

O silêncio na arquibancada e a armadilha do riso

Há perdas que subvertem a gramática. Não inventaram uma palavra no dicionário para nomear quem enterra um filho. O jornalista Cristiel Gasparetto experimentou esse precipício em 2026. Seu filho, Nícolas, de apenas 10 anos, foi vítima de uma meningite viral que evoluiu para falência múltipla

dos órgãos. O menino, conhecido pela facilidade em fazer amigos no condomínio, deixou os pais e o irmão mais novo desestruturados após dias de agonia em uma UTI.

Quarenta dias após a partida, Cristiel narrou a fratura exposta nas redes sociais. Relembrou os dez anos e nove meses de convivência. Restou a memória dos diálogos em que perguntava: “Sabe que o pai te ama, né?”, ouvindo um entediado “Sim, pai”.

No jogo seguinte ao falecimento, a Arena do Grêmio silenciou. Antes do confronto contra o Juventude, o clube exibiu uma foto de Nícolas no telão e centenas de torcedores se calaram por um minuto de silêncio em homenagem ao pequeno. No dia em que o menino completaria 11 anos, os pais compraram a braçadeira de capitão de futebol que haviam prometido a ele.

Antes de retomar suas atividades de trabalho presencial, Cristiel enviou um e-mail aos colegas. Foi um exercício visceral de luto e jornalismo. Pediu que o ambiente de brincadeiras não mudasse e solicitou que não o julgassem caso o vissem sorrir: “Como um pai que perdeu o filho sorri?, alguém pode pensar”.

E, assim, revela-se a armadilha do riso: ter um momento de alegria genuína com uma piada ou um filme e, segundos depois, ser atropelado pelo peso da culpa por estar feliz. O luto não é uma tristeza constante; ele é feito de picos e vales emocionais que geram um profundo conflito interno. “Eu digo que

irei me esforçar para voltar a ser feliz pelo outro filho que preciso criar”, escreveu. Ele aceitou a pena alheia, mas foi taxativo: “Não me evitem”.

Essa readaptação esbarra na exigência das datas comemorativas. O calendário é uma planilha burocrática implacável para quem tenta se recuperar. O Dia dos Pais, das Mães ou os aniversários inundam as redes sociais com filtros temáticos e campanhas publicitárias. Não há botão de silenciar para o fluxo do mundo.

O tempo no pulso e a pele preta

O luto, porém, não opera apenas no campo emocional; ele carrega o peso das estruturas sociais. O racismo institucional e a desigualdade de gênero produzem a falta de acesso ou o acesso de menor qualidade aos serviços e direitos pela população negra, sobretudo pelas mulheres, indica o Instituto da Mulher Negra

Geledés. Na prática, isso também atravessa a forma como pessoas negras adoecem, envelhecem, recebem cuidado e experienciam a perda. O luto, nesses contextos, não surge isolado: ele se soma ao desgaste histórico de quem precisou sobreviver, resistir e sustentar afetos em estruturas que frequentemente negam proteção e permanência.

Lucilene Athaide, de 34 anos, jornalista e doutora em Ciências da Comunicação pela Unisinos, conhece essa chaga. Seu pai, Mauro Athaide, faleceu repentinamente em janeiro de 2025 após complicações decorrentes de uma hérnia abdominal. Seu Mauro era um homem negro que caminhava pelo Centro Histórico, lia jornais diariamente e construiu, com as próprias mãos, na década de 1970, o prédio da UFRGS onde a filha viria a estudar. Mais tarde, repetiria com orgulho que havia ajudado a erguer “o prédio do Planetário” onde Luci conquistaria um

diploma tão raro para uma mulher como ela no Brasil, já que apenas 15% das mulheres negras brasileiras têm formação universitária, segundo dados de 2025 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ele partiu no período em que Lucilene finalizava a tese de doutorado. Em silêncio, num dia chuvoso enquanto estava no trabalho, ela pediu que o pai pudesse descansar. Já não queria mais vê-lo sofrer. Amar também é deixar ir, sem egoísmos. Ela não permitiu que a paralisia da dor interrompesse o percurso acadêmico, mas o diploma ficou sem o olhar daquele que justificou a caminhada. Era ele quem, durante a graduação, entregava R$ 20 para que a filha pudesse atravessar a semana em Porto Alegre, pagar passagens, xerox e refeições. Também foi quem ensinou os caminhos da Capital para que ela “não se perdesse”. Lucilene costuma dizer que poucas pessoas recebem uma cidade como herança, mas ela recebeu do pai. “A melhor herança que eu poderia ter”, disse.

Hoje, Lucilene lida com o desafio de traduzir a ausência para o filho pequeno, que carrega as feições e gostos do avô. Quando o menino pergunta por que o avô foi para o céu, ela evita contos de fadas evasivos. Prefere lembrar, em voz

n Pai de Lucilene, Mauro contava com orgulho que havia construído com as próprias mãos o prédio da UFRGS no qual, anos mais tarde, a filha viria a estudar

alta, que o vovô era maravilhoso e dava chocolates escondidos. A presença se mantém nas pequenas ações diárias, como conversar com a pessoa enquanto toma um café, dialoga com alguém ou limpa a casa. Não é loucura; é a necessidade de conselho, a busca por uma oração.

A materialidade do luto de Lucilene coube em um pulso. Em 2011, ela reclamou da falta de um relógio analógico para o vestibular. Seu Mauro apareceu em casa com um pequeno saquinho contendo um modelo de ponteiros. A peça quebrou e permaneceu esquecida em uma gaveta por anos. Uma semana após a morte do pai, Lucilene resgatou o objeto e o levou a um relojoeiro no coração de Porto Alegre. Com as engrenagens limpas, voltou a usá-lo. É uma maneira de calcular o tempo que congelou naquela quinta-feira de despedida. “Não apresso. Não é uma corrida”, decretou sobre o tempo e o legado de seu Athaide.

A partitura do adeus em modo maior

Nós não estamos sozinhos na tentativa de organizar esse espólio. Em 1969, Sérgio Bittencourt se sentou na mesa de um bar e rabiscou a canção Naquela Mesa, eternizando a falta do seu pai. A música mapeia a saudade nos móveis da casa. Décadas depois, em 2025, o rapper Emicida lançou um álbum inteiramente esculpido pela morte de sua mãe, Dona Jacira. Na faixa Saudade em modo maior, ele insere áudios reais dela, encerrando com o som do próprio pranto. “Perder a mãe é perder o céu, mano”, desabafou em um podcast. “O luto você não supera, você convive. É como um desmoronamento de terra: você precisa aprender a desviar daquele buraco todos os dias”.

Lidar com a cratera no quintal exige pragmatismo, e isso ofende o senso comum. Iniciativas modernas, como o movimento Infinito, propõem que organizemos nossa finitude enquanto estamos

saudáveis. Uma pasta com senhas de redes sociais (o nosso novo planejamento mortuário digital), apólices e desejos de cremação são atos de amor profundo para evitar o desgaste físico e emocional de quem fica.

Na internet, grupos como “O Luto é o Preço de Amar”, criado por Leticia Hosang, especialista em ciências da saúde, rompem o tabu. A provocação semanal deles é simples: “Quem você perdeu e o que essa pessoa gostava de fazer?”. Afinal, o pior do luto não é a lágrima furtiva, mas o silenciamento imposto pela sociedade, que nos proíbe de falar de quem se foi. É a constante presença da ausência.

Café para refletir sobre a finitude

A morte é, possivelmente, a única certeza partilhada por toda a humanidade, mas continua a ser o nosso tabu mais persistente. Para contrariar este silenciamento, surgiu o movimento global Death Café. A premissa é simples e despida de dramatismo: reunir pessoas desconhecidas num espaço confortável para beber chá, comer bolo e falar abertamente sobre a finitude.

O conceito original nasceu na Suíça, idealizado pelo sociólogo Bernard Crettaz, e foi transformado num modelo global em 2011, no Reino Unido, por Jon Underwood. A regra de ouro destes encontros é clara: um grupo de discussão livre com o objetivo central de aumentar a consciência sobre a morte.

No Rio Grande do Sul, a iniciativa tem ganhado tração e expandido a sua atuação. Longe da frieza asséptica dos corredores hospitalares ou da formalidade burocrática das agências funerárias, os encontros em Porto Alegre propõem a naturalização do encerramento da vida. Num ambiente onde o julgamento fica à porta, os participantes debatem desde o planejamento burocrático, como a gestão de testamentos vitais e apólices, até à mecânica do luto cotidiano.

O Death Café oferece uma plataforma física para organizar estas ausências. Ao colocar o tema sobre a mesa, o movimento prova que falar sobre o fim da vida não atrai infortúnios. Pelo contrário, funciona como um lembrete prático e urgente para documentar a memória e estruturar o tempo que ainda nos resta. Até mesmo os algoritmos ajudam na catarse: no Spotify, especialistas e utilizadores criam playlists focadas exclusivamente em temas de luto, oferecendo um ombro musical para quem necessita de choramingar no transporte público.

Enquanto não houver uma tecnologia capaz de recriar abraços, escrever será a minha inteligência artificial particular. É a tecnologia de unir letras e recordar momentos para inventar esquecimentos melhores e imortalizar quem nos constituiu. O normal de antes já não existe. Mas, sinto que o sinal de Internet celestial, por um breve instante, conectou por aqui. Nós, os enlutados, guardamos o simbolismo do afeto, conversamos sozinhos no trânsito e sentimos culpa por rir de um filme. O processo não é uma linha reta; “do ponto de vista do mar, quem balança é a praia” como diz a canção do grupo Casuarina. Deste lado, o luto é às vezes difícil e às vezes bonito, mas é sempre o lembrete de um grande amor.

RECOMEÇAR A CORAGEM DE

NA RUA CORA CORALINA, EM SÃO LEOPOLDO, UMA MULHER

RECONSTRÓI A PRÓPRIA VIDA ENTRE A ROTINA DO TRABALHO, AS MARCAS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, O PESO DA MATERNIDADE E A TENTATIVA DIÁRIA DE TRANSFORMAR MEDO EM RECOMEÇO

“Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça”. Esse é um dos trechos do poema “Aninha e suas pedras”, da poetisa brasileira Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida pelo pseudônimo de Cora Coralina. No verso, a escritora transforma a dor em permanência e cria quase um manifesto sobre a capacidade humana de continuar mesmo depois da destruição.

Uma rua no bairro Santos Dumont, em São Leopoldo, carrega o nome da escritora goiana e também uma história que parece refletir exatamente a mensagem deixada por ela. A rua Cora Coralina abriga diferentes sonhos infantis e adolescentes. Ali estão a Escola Municipal Chico Xavier e a Associação Meninos e Meninas de Progresso (Ammep), instituição que atende crianças e jovens por meio de serviços socioeducativos, oficinas de teatro, dança e capoeira, além de atividades de convivência familiar e comunitária voltadas à superação da exclusão social. Mas entre o som das crianças correndo pelos corredores, o eco do berimbau nas tardes de terça-feira e a rotina intensa

da cozinha comunitária, também existem histórias de adultos que encontraram naquele espaço uma possibilidade silenciosa de recomeçar. Maria* trabalha na cozinha da associação. Tem mãos inquietas, sempre ocupadas com alguma coisa. Uma panela. Um pano. Uma colher de arroz sendo servida apressadamente antes do almoço esfriar. “É puxado, corrido o tempo todo, mas no fim sempre dá certo”, diz enquanto organiza as panelas para preparar o almoço. Na Ammep, a rotina acontece de forma integrada. Crianças atravessam os corredores correndo enquanto funcionários se dividem em diferentes funções. Entre uma tarefa e outra, ela atravessa os espaços rapidamente, sempre atenta ao que acontece ao redor. Sua filha é uma das crianças que integram as atividades da associação. Muitas das crianças que frequentam

o local costumam fazer sua única refeição ali. “A gente passa por alguns apertos às vezes, mas dentro de casa nunca falta comida pra minha filha. E eu acho importante ela estar aqui, porque consegue conviver com outras crianças, conhecer outras realidades e aprender coisas que vão muito além do que ela vive no dia a dia”, comenta Maria. Enquanto trabalha, a filha participa das atividades oferecidas pela associação. Nas terças-feiras, as crianças fazem capoeira. Além do exercício físico, a prática também funciona como instrumento de formação cidadã e resgate histórico. “Isso aqui ajuda muito eles. Se aprende respeito, disciplina, história, ou seja, não é só uma dança”, explica Maria observando as crianças treinando ao som do berimbau. Orgulhosa, conta que a filha já foi convidada para disputar

n A casa em São

Leopoldo: um espaço de paz recém-conquistado

campeonatos. “Eu ainda não deixei por causa da idade, mas daqui a pouco ela vai”, afirma sorrindo.

Rotina que tenta apagar o medo

A rotina começa cedo. Às 7h30, Maria já está na cozinha preparando o almoço do dia. Carne (às vezes de porco, às vezes de gado ou de frango) arroz, feijão e salada. Nas terças e quintas-feiras, ainda prepara marmitas para trabalhadores de uma obra que acontece no local. Faz questão de colocar pequenos bilhetes junto das refeições e muitas vezes entrega pessoalmente os alimentos. “Faço isso para eles se sentirem acolhidos por nós. Não deixo ninguém fazer as marmitas porque só eu tenho esse cuidado

aqui”, explana dando uma risada. Ao meio-dia, aproveita seu intervalo antes de retornar às 13h para preparar a refeição dos funcionários da tarde. “Sempre faço um arroz e um feijão novo. Ninguém merece comida requentada”, comentou enquanto colocava mais uma água na panela. Antes de a filha sair da Ammep e ir para a escola, que fica na mesma rua, as duas se despedem com um abraço apertado no corredor da associação. Às 16h30, Maria retorna para casa, localizada também na esquina da Cora Coralina. À primeira vista, a rotina parece apenas cansativa. Mas existe algo em seus gestos que ultrapassa o desgaste do trabalho diário. As mãos inquietas, o olhar atento à filha e a necessidade constante de verificar tudo ao redor parecem

carregar marcas muito anteriores àquela cozinha.

Antes de chegar a São Leopoldo, a vida de Maria era atravessada pelo medo. Durante mais de dez anos, viveu um relacionamento marcado pela violência doméstica. O homem com quem foi casada abusava do álcool e das drogas e transformava a casa em um ambiente permanente de tensão. “Ele chegava bêbado e qualquer coisa virava motivo”, relembra com lágrimas saindo de seus olhos. As agressões não ficavam apenas nela. A filha também cresceu cercada pelos episódios de violência.

Com o passar do tempo, o medo passou a caminhar junto de um aprisionamento externo e interno dela com o relacionamento. Maria conta que já não conseguia enxergar uma saída possível daquela realidade. “Tu começa a achar que não consegue ir embora”, diz após suspirar. Aos poucos, a violência deixa de parecer um episódio e se transforma em rotina. O corpo passa a viver em estado constante de alerta. O silêncio dentro de casa vira estratégia de sobrevivência.

Abandono das instituições

A caminho do trabalho, sentou no banco de uma parada de ônibus e começou a chorar compulsivamente. Uma mulher desconhecida percebeu a situação e se aproximou. Maria contou tudo o que durante anos havia tentado esconder. As agressões, o medo, a filha crescendo naquele ambiente. Depois de ouvir em silêncio, a mulher deixou um conselho simples: “Faz uma conta escondida dele, arruma outro serviço, guarda dinheiro e vai embora”. Pela primeira vez, Maria parecia ter esperanças, pois foi exatamente o que ela fez. Arrumou um segundo emprego, abriu uma conta bancária escondida e passou meses guardando dinheiro sem que o marido descobrisse. O plano precisava ser silencioso. Qualquer erro poderia colocar tudo em risco. Quando decidiu ir embora, imaginava que encontraria acolhimento nas instituições responsáveis por proteger mulheres em situação de violência. Mas o caminho até conseguir reconstruir a própria vida também foi marcado por abandono.

Ao registrar o boletim de ocorrência, relata ter sido recebida com frieza na delegacia. Enquanto tentava explicar anos de agressões e ameaças, sentia que precisava convencer as pessoas de que realmente corria perigo. “Parecia que eu estava incomodando eles ali”, lembra indignada.

n Mãos inquietas que limpam, cozinham e recriam o destino

quem passa na calçada, a preocupação e a necessidade constante de conferir se a porta está realmente trancada seguem fazendo parte da rotina. Mesmo distante da antiga vida, o corpo continua agindo como se precisasse sobreviver todos os dias.

A sensação de desamparo continuou durante os trâmites judiciais. Maria implorava para que o novo endereço não fosse revelado ao ex-marido. “Eu só queria criar minha filha em paz”, afirmava ao juiz. Mesmo depois de deixar a antiga cidade e reconstruir a vida em São Leopoldo, o medo nunca desapareceu completamente.

Ainda hoje, anos depois de fugir da violência, Maria dorme com o sofá encostado na porta de casa. O móvel funciona como uma barreira improvisada contra um medo que o tempo não conseguiu apagar. “Eu sei que talvez ele nunca venha atrás de mim, mas minha cabeça não consegue descansar”, confessa com um medo no olhar.

À noite, qualquer barulho vindo da rua é suficiente para interromper o sono. O cuidado ao olhar

Um recomeço em meio a um recomeço

Como se a vida ainda exigisse outra reconstrução, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 também atravessaram a casa de Maria. A água invadiu sua casa e levou móveis, roupas e praticamente tudo o que ela havia conquistado após a mudança para São Leopoldo.

Ainda assim, em meio à destruição, ela encontrou um significado inesperado para o recomeço. “Pelo menos não sobrou mais nada daquele casamento.”

Os móveis perdidos ainda carregavam marcas silenciosas do passado. Eram objetos que sobreviveram à mudança, mas que continuavam presos emocionalmente à antiga vida. Aos poucos, Maria

voltou a montar a casa do zero, agora escolhendo cada móvel por conta própria, sem rastros do relacionamento que tentou deixar para trás.

Ela gosta de costurar. Entre os poucos objetos pelos quais ainda demonstra tristeza ao lembrar da enchente está a máquina de costura herdada da mãe. “A única coisa que sinto realmente falta é da minha máquina”, comentou.

Entre pedras e roseiras

Na rua Cora Coralina, Maria segue reaprendendo diariamente o significado de recomeçar. Com a correria do trabalho e da maternidade batendo à sua porta todos os dias, encontrou uma forma de reconstruir não apenas a própria casa, mas também a liberdade que durante anos lhe foi negada.

“Nenhuma mulher merece viver com medo dentro da própria casa. Tem que ter coragem pra sair, tem que ter planejamento e não depender somente das autoridades”, desabafa. “Eu suplico para todas as mulheres que passam por esse tipo de violência que procurem uma saída, conversem com alguém de confiança e entendam que nenhum abuso deve ser normalizado dentro de um relacionamento”, reforça. Talvez seja justamente disso que falava Cora Coralina. Recomeçar não é um gesto delicado. É arrancar pedras com as próprias mãos e, mesmo ferida, continuar encontrando forças para plantar roseiras outra vez.

(*) Nome fictício para preservar a identidade

n Gilbertina e Irineu chegaram em Novo Hamburgo na década de 1940. Na cidade, construíram suas raízes, em uma família com dez filhos, 17 netos e 22 bisnetos

CENTENÁRIA AS PEREGRINAÇÕES DE UMA

O TEMPO SENTA À MESA PARA CELEBRAR AS VÉSPERAS DE UM SÉCULO

TEXTO E FOTOS

GABRIELA PANASSAL

Acasa azul parece pequena para a quantidade de histórias que guarda. Nela vivem Bernadete Alexandre Velho e sua mãe, Gilbertina Alexandre Velho, conhecida no bairro Rondônia como Dona Biluca. Quando Novo Hamburgo completar cem anos, em abril de 2027, Dona Biluca já terá atravessado um século inteiro. O centenário dela chega antes: em junho deste ano.

A chegada

Aos 99 anos, a família precisou recorrer ao papel para dar conta da matemática da árvore genealógica da matriarca. A primeira página de um caderninho azul, da mesma cor da casa, revela os dez filhos, listados do mais velho, Idailton, à mais nova, Bernadete, que divide a residência com a mãe e ajuda nos cuidados que uma quase centenária necessita. Pequenas estrelinhas desenhadas ao lado de dois nomes sinalizam as filhas que já não estão mais presentes fisicamente.

Depois deles vêm os descendentes: 17 netos, 22 bisnetos e 7 tataranetos. E todos eles estão, de algum jeito, envolvidos nos preparativos para as comemorações

dos 100 anos da matriarca, marcada para o domingo anterior à data oficial. Foi assim que cheguei até a casa azul. Pietro, neto de Amilton e um dos bisnetos de Dona Biluca, que entendeu que a vida da bisa ajudava a contar um pedaço da história do bairro e de todos ali, e que merecia ser contada para mais pessoas. Quando fiquei sabendo da família enorme reunida para celebrar um século de vida e da mulher que atravessou tantas décadas no mesmo lugar, achei impossível não querer ouvir mais.

Durante as visitas, apenas alguns familiares puderam acompanhar essa pequena repórter intrusa tentando entender mais sobre a vida daquela senhora simpática, sobre a casa e sobre as pessoas que a transformaram em lar. Enquanto contamos os filhos e suas idades, nos perdemos. Pergunto de quem Pietro é neto e Amilton se atrapalha antes de responder. A esposa, Diva, corre na frente: “É nosso, ué”. Todos riem. Em uma família tão grande, as confusões de nomes, idades e parentescos parecem inevitáveis.

Por isso, chamar aquela reunião de “alguns” familiares parece injusto diante da sensação de casa cheia. O pátio é amplo, cercado por árvores, plantas e objetos típicos de casas de vó. Há espaço suficiente para várias infâncias coexistirem ao mesmo tempo. As cadeiras de praia, o banquinho no canto e a poltrona estrategicamente posicionada perto da janela para Dona Biluca fazem parecer que tudo ali orbita ao redor dela. A figura da senhora dá sentido à casa e principalmente aos descendentes.

Enquanto a família organiza lembranças, datas e histórias para me contar quem é aquela mulher prestes a completar cem anos, Dona Biluca escuta. Sentada na poltrona amarela desbotada, acompanha a conversa através dos grossos óculos de armação fina de alguém que já deve ter visto quase todo tipo de coisa. As unhas bem pintadas e os brincos de pérola combinam com o cabelo curtinho branco.

Às vezes ela ri. Às vezes corrige ou ralha com os filhos. Em outros momentos apenas observa, em silêncio, enquanto os descendentes completam as memórias uns dos outros. O olhar é doce, mesmo quando ela parece não entender muito bem. “Fala mais alto, que eu não ouço desse ouvido”, pede, apontando para a própria orelha. Naquela casa, ninguém se lembra sozinho. Cada pessoa acrescenta um pedaço da história de Dona Biluca, dos irmãos, da vida na Rondônia. “Vamos do começo”, eu peço. No topo da folha do mesmo caderninho azul existe outra informação importante para entender aquela

família: 1946. O ano em que Dona Biluca chegou a Novo Hamburgo.

A construção

Em meados de 1946, uma moça na faixa dos 20 anos e o marido, também rapazote, desembarcaram juntos do ônibus. Nos braços dela, uma trouxinha resmungava devido ao cansaço da longa viagem entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Era o primeiro filho do casal, Idailton, ainda bebê, com oito meses. Gilbertina e Irineu vieram de Bom Jardim da Serra trazendo pouco além da esperança de uma vida melhor. Segundo os filhos, trabalhavam em fazendas do interior catarinense em condições extremamente precárias. Novo Hamburgo, impulsionada pela indústria calçadista, surgia como promessa de futuro. Agora, o começo da história de Gilbertina já não pertence apenas a ela. É contado agora pelos filhos, netos, bisnetos, genros, noras e agregados. Uma memória coletiva construída em frases interrompidas, correções atravessadas e histórias narradas em coro. Pergunto para Dona Biluca se ela tinha família aqui quando chegou. Ela responde que eram apenas ela, o marido e o filho mais velho. “Os outros vieram depois.” Bernadete completa: “Eles vieram para mudar de vida. Lá não tinha trabalho. Vieram porque aqui era cidade”. Os irmãos mais velhos acrescentam que um dos irmãos dela já morava em Novo Hamburgo. Assim que chegaram, foram morar na esquina das ruas Marcílio Dias e Nações Unidas. Dona Biluca descreve a região central da cidade com apenas três palavras: “Tudo mato, banhado”. Hoje, a esquina abriga uma floricultura à beira do valão. Bernadete brinca: “Se tivéssemos ficado ali, hoje estaríamos morando no centro”.

n Sentada em sua poltrona amarela, dona Biluca observa o legado que criou. Para não se perder nas contas, a família teve que recorrer a anotações no caderno. A casa azul foi lar do casal e de todos os filhos

Pouco tempo depois, a família Alexandre Velho mudou-se para o endereço onde permanece até hoje. A casa era de madeira e os arredores ainda pouco povoados. O bairro Rondônia sempre foi uma comunidade operária e simples. Foi naquele cenário ainda rural que Irineu montou uma pequena fabriqueta de calçados dentro de casa. O trabalho vinha de empresas maiores da cidade.

Os filhos cresceram entre martelos, couro e tachas. “Eu, o segundo, me criei dentro da fabriqueta do pai”, conta Amilton. Todos ajudavam no trabalho, em uma época em que o calçado ainda era produzido quase artesanalmente. “A gente colocava tacha na boca para pregar os sapatos”, lembra Remi, que mora no mesmo pátio que a mãe, na casa dos fundos. “Todo sapato era tachado por baixo. Não existia cola.”

Remi é irmão gêmeo de Romeu, que hoje mora em Natal. Dona Biluca me conta isso baixinho, sentada ao meu lado, como quem acrescenta um detalhe importante à conversa. Pergunto então se existem outros gêmeos na família. Bernadete levanta, entra em casa e retorna com fotografias recentes dos netos mais novos: outro casal

de gêmeos. As histórias da família parecem se repetir de geração em geração.

Uma lembrança puxa outra. Aos poucos, começo a perceber que aquela família ajudou a construir muito mais do que o próprio lar. E é nesse momento que a história de Dona Biluca passa a se cruzar com a da Paróquia Nossa Senhora das Graças. Enquanto falamos sobre a casa, a fabriqueta e a infância dos filhos, surge atrás de nós uma construção parcialmente coberta por uma toalha florida que eu ainda não havia percebido. O tecido protege um poço antigo. Na lateral, uma data gravada no cimento: 10 de dezembro de 1955.

Naquele instante, começo a entender a importância das coisas construídas para aquela família e como elas ajudam a contar a história de Dona Biluca e Irineu. Durante muitos anos, o poço serviu não apenas para abastecer a casa do casal e dos dez filhos, mas também vizinhos da comunidade. Depois da morte de Irineu, alguns filhos chegaram a cogitar desfazer a estrutura. Dona Biluca não deixou. Ela sabia o valor das coisas erguidas coletivamente. Aqui, se entrelaçam as história de Gilbertina e uma outra construção, pertinho dali.

As características

Do portão da casa azul é possível enxergar o topo de uma das

torres da igreja da comunidade. Quando falamos sobre a Paróquia Nossa Senhora das Graças, Dona Biluca comenta: “Ajudei a limpar tijolo de noite”. Não entendo o significado na hora e a frase fica ecoando na minha cabeça. Dias depois, decido procurar o Padre Paulo Wendling. Cerca de 150 metros separam a residência da família do Centro Diocesano de Pastoral e Apoio à Vida, onde Padre Paulo vive há décadas.

Ele me recebe em um feriado, sozinho, mas parece habituado ao silêncio do lugar. Conhecido na cidade pelos xaropes e produtos produzidos com ervas medicinais para tratar e prevenir doenças, ele me leva até a sala onde guarda os livros que escreveu ao longo dos anos. A simpatia tranquila lembra a de Dona Biluca. Padre Paulo chegou ao bairro Rondônia em 1982, muitos anos depois da construção da igreja, e foi ouvindo os moradores antigos que conheceu a história do templo. A atual Paróquia Nossa Senhora das Graças nasceu dos restos da antiga Catedral São Luís, demolida alguns anos antes. Sem recursos para erguer uma nova construção do zero, os moradores da Rondônia, em meados de 1950, decidiram reaproveitar os materiais. Entre eles estavam Dona Biluca e Seu Irineu. Os moradores passavam as noites limpando tijolos retirados da demolição. Não havia iluminação elétrica adequada. O trabalho acontecia à luz de velas. “Era tudo muito precário. Não tinha ferramenta adequada, não tinha recurso. Mas existia comunidade.” Homens, mulheres, vizinhos e famílias inteiras ajudavam como podiam. Um morador emprestava o caminhão para transportar os materiais. Todos trabalhavam voluntariamente. “Então, nesse sentido, a Dona Biluca é uma testemunha viva daquela época. Eles tinham um espírito de comunidade muito forte. As pessoas se ajudavam, trabalhavam juntas, superavam as dificuldades juntas.”

Décadas depois, já como pároco do bairro, Padre Paulo acompanhou uma situação que quase mudou a história da igreja. O prédio estava deteriorado e parte do conselho sugeriu demolir a construção para erguer outra no lugar. Durante a missa em que levou a ideia

à comunidade, uma das mulheres que ajudou a construir a igreja levantou indignada: “Quer dizer que todo o nosso trabalho não valeu pra nada?” A igreja toda ficou em silêncio. Para aquelas pessoas, demolir a igreja significava apagar o esforço coletivo de uma geração inteira. A reação da comunidade fez a decisão mudar. Em vez de destruir, optaram por reformar. A revitalização também aconteceu coletivamente. Moradores organizaram promoções para arrecadar dinheiro e trabalharam voluntariamente na obra. Para o padre, aquele episódio ensinou à comunidade algo importante sobre memória e pertencimento. Quando fala sobre Dona Biluca, a voz dele muda de tom. “Tem gente que pode olhar para uma senhora de 100 anos e perguntar o que ela ainda tem para contar. Mas ela é a história de uma geração inteira.” Ele se levanta, vai até um armário e retorna com um de seus livros sobre sua trajetória e aprendizado no sacerdócio e na pastoral de saúde. Folheia algumas páginas até encontrar uma fotografia com Dona Biluca.

A celebração do legado

A fé sempre ocupou um espaço importante na vida de Dona Biluca. O colar de Nossa Senhora Aparecida repousado sobre o peito revela isso antes mesmo que a família conte qualquer história. Todas

as manhãs, ela acompanha a missa do Pai Eterno pela televisão às sete horas, reza pela família e deixa um copo de água ao lado para transformar em água benta.

Poucos anos atrás, Margarete, filha, e Diva, nora, acompanharam Dona Biluca em uma viagem para São Paulo. Na época, a senhora enfrentava problemas de saúde por causa de uma ferida na perna. “A gente tinha medo, mas a fé dela era muito grande”, lembra Diva. Dona Biluca já queria ter feito aquela viagem antes, mas precisou adiar. Quando surgiu uma nova oportunidade, insistiu para que a família fosse junto. “Ela me disse: ‘Diva, vamos’. E fomos.” Segundo a família, a recuperação melhorou depois da viagem.

Os filhos descrevem Dona Biluca como resiliente, batalhadora e corajosa. Ainda muito jovem, deixou a cidade natal ao lado do marido em busca da promessa de uma vida melhor em outro estado. Ainda moça, construiu com o marido um lar. Criou os dez filhos de forma rígida, como era comum para a época, mas também cercada de cuidado e afeto. Na comunidade, tornou-se conhecida por ajudar os vizinhos. Os filhos contam que até como “enfermeira” atuou, aplicando injeções em pessoas da vizinhança, em um tempo em que a prática era comum.

Mais tarde, já na terceira idade, continuou ocupando a vida com a mesma disposição. Participava de

grupos de convivência, fazia pilates, dançava, viajava e ainda incentivava filhas e noras a acompanharem ela nas atividades. Também retomou os estudos depois de adulta e concluiu o ensino médio anos após ter deixado a escola.

Bernadete, que hoje mora com a mãe e cuida dela em tempo integral, conta que a saúde da centenária segue boa. Os problemas no quadril limitaram os movimentos e fizeram da poltrona perto da janela o lugar mais confortável da casa. Há também uma cirurgia de catarata pendente e a audição já não ajuda tanto. Ainda assim, Dona Biluca segue acompanhando tudo ao redor com a mesma atenção de quem ajudou a construir cada pedaço daquela história.

E tudo isso é o que a família está celebrando nos 100 anos da matriarca. Não apenas a longevidade, mas o que ela representa para todos ali. A trajetória de uma mulher que viu o bairro crescer, ajudou a construir uma comunidade, criou filhos e netos em uma mesma casa e transformou a memória em herança.

Quando me apronto para ir embora da última visita, com tantas memórias ainda embaralhadas na cabeça, Agatha, a bisneta mais nova, parece impaciente diante da longa conversa dos adultos, acompanhando, ao lado dos avós, da mãe e do irmão Pietro, as perguntas e as histórias. A menina dá cambalhotas pelo pátio, mostrando para a mãe algumas manobras de ginástica. Dona Biluca aponta para ela e ri com delicadeza, divertindo-se com a molequice da menina: “Olha lá!”. Ela presta atenção em tudo.

Talvez seja justamente essa a imagem que melhor explique a casa azul e tudo o que ela representa. Um espelho entre gerações. De um lado, Agatha, começando agora a construir as próprias memórias; do outro, Dona Biluca, prestes a completar um século inteiro de vida. As duas ligadas não apenas pelo sangue, mas também pelo afeto, pela convivência e pelas histórias compartilhadas naquele mesmo pátio há décadas. Enquanto a menina ocupa a casa com a energia de quem ainda vai descobrir o mundo, Dona Biluca continua no centro de tudo.

O SORRISO DE QUEM APRENDEU A

IMAGINE VIVER ANOS DA SUA VIDA

SEM COMPREENDER OS TEXTOS E AS PALAVRAS QUE TE CERCAM. ODILIA

FALA SOBRE OS DESAFIOS, ANGÚSTIAS

E CONSTRANGIMENTOS QUE O DIAGNÓSTICO TARDIO DA DISLEXIA

PODE PROVOCAR EM UM ADULTO

Éum fim de tarde, a mãe está em uma sala de aula com outros pais de alunos. Organizados em um grande círculo, sentados em cadeiras infantis, ela observa pessoas que nem ao menos sabem ou se importam com seu nome ou história. Todos recebem um papel para descreverem seus filhos: como são em casa, temperamento, medos... Cada um executa a tarefa que deve ser feita de forma individual. O tempo passa para todos, menos para ela. A ansiedade toma seu corpo, a vergonha invade seu ser, até que finalmente o tempo termina. Após aguardar que todos entreguem suas anotações à professora e se retirem da sala, ela se aproxima da educadora e entrega um papel em branco: “Eu não posso fazer. Olha… eu não sei ler”, explica.

O olhar de julgamento é dirigido à moça, a vergonha e a tristeza a consomem. Escuro. Uma vida no escuro.

Apresentações

São 9:20 de uma manhã ensolarada de domingo. O clima é agradável na cidade de Alvorada, onde a casa de Odilia Teresinha Saturnino, 55 anos, está localizada.

Sua rua destoa das outras por possuir pavimento e ela aguarda ansiosamente em frente ao portão. Com o sorriso que emana em seu rosto e com o carinho que deposita no pequeno cachorro chamado Ursino, que está em seus pés, é difícil não sentir-se feliz com sua presença. É incrível, portanto, como não é possível perceber o mar de dificuldades, angústias e histórias de luta que este olhar esconde. Odilia viveu 54 anos de sua vida – conforme ela mesma diz – no escuro, pois não conseguia ler ou escrever, e somente compreendeu o motivo após ser diagnosticada com dislexia.

O que é dislexia?

Segundo a psicopedagoga Inês Zeferino, a dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta especificamente a capacidade de ler e escrever com fluência. Algumas características do transtorno em adultos, são: dificuldade no entendimento de pequenos textos (necessitando ler muitas vezes ou de alguém que possa fazer a leitura); leitura lenta e escrita inelegível (pela quantidade de erros ortográficos). É uma condição sem cura, mas pode ser trabalhada para que a pessoa tenha maior qualidade de vida. Os profissionais indicados

TEXTO E FOTOS LUA SANTOS

LER O MUNDO

para trabalhar com quem apresenta essa condição geralmente são psicopedagogos, fonoaudiólogos e psicólogos. Além disso, pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que aproximadamente 4% da população brasileira possui dislexia, o que corresponde a mais de 7,8 milhões de pessoas.

Quem é Odilia?

Agora, dentro de sua casa, encontra-se uma mesa redonda arrumada cuidadosamente para um café: sobre uma pequena toalha branca, no centro da mesa, há uma garrafa térmica, um açucareiro e duas xícaras viradas de cabeça para baixo, cada uma sobre dois pires empilhados – um para a comida e outro para servir de suporte. Odilia está sentada em uma cadeira em frente à mesa, pronta para contar sua história.

Prestes a responder a pergunta “quem é Odilia”, suas mãos são levadas ao rosto. Com os olhos marejados, comenta: “Eu… eu até me emociono. É uma mulher muito forte, por tudo o que já passou, não sei qual é o propósito de Deus, mas se ele me colocou aqui, deve ter alguma coisa”.

A primeira vez que Odilia procurou um atendimento psicopedagógico foi através de sua cunhada, que indicou Inês como profissional. Odilia escolheu comparecer à consulta acompanhada de seu esposo, Flávio, que parece transmitir segurança a ela.

A sala era grande e retangular. No fundo, centralizada na parede, havia uma janela que permitia iluminar todo o local. Os raios de sol entravam contra a profissional, que estava sentada de costas para a janela. Em frente à mesa de Inês, havia uma cadeira onde Odilia estava acomodada, ao seu lado, Flávio, sentado em uma das poltronas destinadas a acompanhantes.

A pergunta padrão é feita: “Odilia, como eu posso te ajudar, o que te trouxe aqui?”. Com sussurros, como se estivesse evitando que alguém ouvisse um crime, responde: “Eu não sei ler”. Na verdade, Odilia sabia ler algumas pequenas palavras, como: bala e bola. Mas precisava de um profissional que pudesse compreendê-la e ajudá-la a entender os motivos de não conseguir ir além disso.

Para continuar as sessões de psicopedagogia, Odilia precisou ser encaminhada para uma psicóloga, pois chorava muito durante os atendimentos. Ela tinha muita vontade de aprender, mas possuía um passado de muito sofrimento. Havia, ali dentro, uma criança que ainda precisava ser curada.

O passado

Aos 13 anos Odilia foi retirada da escola por não conseguir aprender. Observava todas as suas colegas avançando os anos escolares, enquanto ela sempre reprovava no terceiro: “Eu via minhas amigas passando e eu não passava. Achava tudo muito estranho”, comenta.

Reprovou mais de três vezes. O bullying ainda não tinha nome, mas já era conhecido por ela. Chamada de “menina que não aprende”, passava por brincadeiras que não gostava, contudo, não revidava, permanecia calada mesmo quando precisava aguentar as dores dos puxões de cabelo que sofria.

Seu avô, que a criou (pois Odilia nunca soube quem foi seu pai e sua mãe não era tão presente), sempre dizia: “Minha filha, tu tem que estudar”. Mas, também analfabeto, não sabia o que havia de errado com a neta.

Hoje, Odilia percebe que não somente ela, mas sua mãe, tio, avô e avó nunca aprenderam a ler: “Meu avô não sabia, minha avó não sabia e automaticamente minha mãe não sabia… meu tio também não sabe. É um ciclo que vai se fazendo”. Odilia desconfia que todos tenham dislexia, mas somente ela descobriu.

Quando questiono: “E como é viver sem entender as coisas que estão na volta?”, aquela mulher

Inicialmente, as perguntas dirigidas à paciente eram respondidas rapidamente por Flávio, que parecia tentar proteger sua esposa do desconforto. Odilia, por sua vez, estava encolhida, cabeça baixa, os braços e as pernas colados como se buscasse ocupar o menor espaço possível daquele ambiente. Inês precisou intervir e solicitar de forma branda que as respostas fossem dadas pela paciente, visto que a mesma apresentava capacidade de compreensão.

que antes projetava sorrisos leves e gesticulava tal qual uma apresentadora, coloca suas duas mãos sobre a mesa, uma colada à outra, endireita a postura, seus olhos penetram os meus e seu semblante sorridente torna-se sério. Sua voz, porém, não é de raiva, mas de tristeza: “É como viver no escuro”, responde.

A dislexia afeta não somente a aprendizagem, mas também a autoestima do paciente. Recentemente, durante um chá de fraldas, era necessário escrever uma carta para que o bebê pudesse ler no futuro. Ela não conseguiu, e situações como essa a deixam frustrada. Não entende porque não consegue pôr no papel aquilo que quer dizer.

Em sua vida cotidiana, passou a inventar histórias que mascarassem a dislexia. Em grupos de igreja, por exemplo, quando ocorrem dinâmicas que demandam escrever algo, Odilia sempre diz que escreverá na próxima semana. Mas essa semana nunca chega. Odilia também não utiliza Uber sozinha, pois não conseguiria colocar o endereço corretamente ou guiar o motorista para a direita e esquerda caso fosse necessário (a dislexia também pode afetar esse direcionamento). No Whatsapp,

se comunica somente por áudio – embora se esforce muito para ler caso alguém lhe envie mensagens de texto. Atividades que demandam escrita ou leitura rápida a deixam nervosa: “Você sente vergonha?”, pergunto. “Bastante… não sei como explicar para as pessoas como uma mulher adulta não sabe ler nem escrever”, responde.

A descoberta

Para seguir com o tratamento psicopedagógico, era necessário saber exatamente o transtorno que Odilia possuía. Assim, a descoberta aconteceu quando Inês encaminhou Odilia para um teste psiconeuro diagnóstico, (realizado por um profissional capacitado para diagnosticar transtornos do neurodesenvolvimento) pois o psicopedagogo pode desconfiar de um transtorno, mas não diagnosticá-lo. Após realizar o teste, Odilia retorna ao consultório. Ela que sempre chegava sorridente na sala, estava séria… O papel com seu laudo era segurado com desprezo em suas mãos. Colocando-o sobre a mesa, Odilia diz: “Aqui o que eu tenho”. Naquele dia, ela chorou. Finalmente havia descoberto os motivos para

confundir-se tanto, mas ao mesmo tempo sentia que tudo havia sido perdido. Passou um mês em uma espécie de “luto”, no entanto, compreendeu que isso não podia apagá-la e sim reerguê-la.

Odilia salva a

si mesma

Odilia se mostra muito persistente. Alguém que tem muita vontade de aprender.

A psicopedagoga afirma que Odilia é uma mulher alfabetizada, mas precisa de calma durante a leitura: “É como se ela estivesse lendo e, de repente, todas as letras e informações se embaralham na mente dela. Então deve parar, respirar, acalmar-se e retornar, iniciar de novo”, comenta.

Contando sobre algumas de suas conquistas, Odilia sorri ao mencionar um de seus sonhos realizados: ler um livro. Como se estivesse lendo, ela fala o título da obra pausadamente: “A - princesa - salva - a - si - mesma”. Esse é seu livro favorito. Odilia diz que se identifica com a personagem, pois ela luta para se encontrar. É uma guerreira. A leitura demorou cerca de 3 meses para ser concluída e foi feita com acompanhamento psicopedagógico.

Odilia havia retornado para a escola, mas frisa que desistiu por sentir que não havia profissionais capacitados para ensinar pessoas que possuem algum transtorno de aprendizagem: “Se houvesse alguém para me ensinar, eu retornaria”, completa.

Decidiu contar sua história pois acredita que possa ajudar outras pessoas que possuam o mesmo transtorno. Repete diversas vezes: “Eu quero muito aprender, e acho que estou indo para algum lugar”.

Sabendo o que gera essa dificuldade, pode lutar contra ela. Se antes viveu no escuro, então, agora, que haja a luz.

ODIELMIA O RENASCIMENTO DE

Em 2023, Domingos Pereira finalmente conquistou seu registro na OAB de Goiás, aos noventa e dois anos. Depois de mais de quarenta anos trabalhando, ele realizou o antigo sonho de poder atuar oficialmente como advogado. Na época, Seu Domingos disse em entrevistas: “Todos têm potencial de alcançar os seus objetivos se tiver persistência e perseverança. O importante é não desistir. Tendo relativa saúde e lucidez, nunca é tarde”.

Do outro lado do Brasil, no Rio Grande do Sul, Dona Delma assistiu a essa conquista pela televisão e sentiu algo dentro de si mesma acordar. Aos setenta e sete anos, já havia se aposentado, visto todos os filhos e netos crescerem e vivia uma vida tranquila e rotineira com seu marido em Sapucaia do Sul. Porém, ao ver Domingos Pereira viver seu sonho de advogar com mais de noventa anos de vida, sentiu que ela também precisava de mais uma reviravolta em sua trajetória. No dia seguinte, Dona Delma inscreveu-se para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e voltou a estudar.

A menina que falava espanhol

Muito antes de Dona Delma, existia apenas Odielmia Rodrigues Nogueira, uma menina curiosa que nasceu e viveu o início de sua vida em Rivera, no Uruguai, junto aos seus quatro irmãos. Odielmia teve que se despedir de sua mãe muito cedo, aos seis anos, devido a um câncer no intestino. Sem a proteção e o cuidado materno, os filhos se separaram, foram para casa de parentes distantes e até mesmo de estranhos. Foi o que aconteceu com Odielmia. Na casa destes desconhecidos, ela precisou deixar a infância de lado e começar a trabalhar, realizando tarefas domésticas.

Mesmo ali, longe da sua família, em meio a cômodos e roupas que não eram muito seus, Odielmia ainda tinha algo que pertencia somente a ela. Resistindo, em meio às responsabilidades que chegaram cedo demais, vivia um sonho de ir além, de viver a vida a partir do seu próprio querer. Por causa desse sonho, ela usava os momentos de descanso para brincar e explorar as revistas em quadrinhos que viviam pela

AOS OITENTA ANOS, DONA DELMA VIVE UM SONHO ANTIGO E CRIA NOVOS CAMINHOS PARA SI, GRAÇAS À EDUCAÇÃO

casa. Sabendo todo o alfabeto, juntava as vogais e as consoantes para encontrar as figuras que representavam os sons que ouvia no dia a dia. Assim, Odielmia aprendeu a ler por conta própria, aos nove anos.

Mas sua história não teve as ruas de Rivera como cenário por muito tempo: o destino tinha outros planos. Ainda muito nova, mudou-se para Porto Alegre, para viver com a tia. A pequena Odielmia tinha, então, um novo desafio: ser compreendida pelas pessoas em um idioma que ela sequer conhecia. Aos poucos, aprendeu o português e começou a falar fluentemente e, anos depois, sequer lembraria das palavras em espanhol que a acompanharam durante os primeiros anos de vida.

Em Porto Alegre, começou a frequentar a Igreja Metodista, onde fez algumas amigas. Um dia, quando voltava para casa com uma delas, viu que caminhava na sua frente um homem bem arrumado, que de costas, parecia ser bonito. Querendo provocar algumas risadas, cutucou sua amiga e disse: “Lucy, está vendo aquele homem na nossa frente? Eu vou casar com ele”, riu. Mas a piada ficou um pouco constrangedora quando Lucy revelou que quem caminhava a alguma distância delas não era um desconhecido, era seu irmão. Seja pelos planos do destino ou pelo poder das palavras de Odielmia, aquele homem, chamado Paulo, veio mesmo a ser seu marido, pessoa com quem se casou aos quinze anos e com quem dividiria mais de sessenta e cinco anos de casamento.

Sua casa, Brasil

A partir daquele momento, Odielmia não estava mais sozinha. Com Paulo, tinha o sonho de uma nova vida, com uma família que iriam construir juntos. Durante o casamento, tiveram quatro filhos e moraram em diferentes estados do Brasil. Os dois se moviam em busca de recomeços, e onde Paulo encontrava um emprego, eles construíam uma casa. Foi assim que Dona Delma se viu morando em São Caetano, em São Paulo, por certo tempo. Nesta época, o Corinthians conquistou o seu afeto. Ao ver incontáveis vitórias

TEXTO E FOTOS CAMILLE MELLO

e derrotas, criou compaixão pela perseverança do time alvinegro.

Mas foi Florianópolis, em Santa Catarina, que ganhou seu coração. Era uma vida um pouco mais pacífica para o casal, que administrava duas padarias e estava sempre próximo ao mar. Mas também foi nesta cidade que Odielmia passou um dos momentos mais difíceis para a sua saúde.

Aconteceu quando ainda era jovem, aos trinta e três anos. A partir de diversos exames, descobriu que crescia em seu útero um mioma, tumor benigno. Ao fazer a cirurgia para retirar o tumor, um erro médico apagou por cerca de um mês a presença de Dona Delma no mundo, deixando-a em coma. Após a recuperação, percebeu que talvez fosse o momento de, mais uma vez, fazer as malas e se mudar. De Santa Catarina, voltou para o Rio Grande do Sul e foi morar perto dos filhos. Sua nova casa ficava na cidade de Sapucaia do Sul, onde viveu por longos anos.

A partir de sua história com Paulo, Dona Delma construiu uma família de quatro filhos, dez netos e onze bisnetos. Por volta dos cinquenta anos, precisou abandonar o emprego devido às dores que sentia na coluna. Cirurgias também não eram uma opção: seus ossos eram frágeis demais para qualquer tipo de recuperação.

A vida tornou Odielmia uma mulher quieta e reclusa, características que foram necessárias para enfrentar cada novo desafio. Com o passar dos anos, adquiriu uma rotina que não era ruim, mas era construída a partir de uma monotonia que por vezes a deixava triste, tentando compreender o que deveria preencher aquele espaço vazio em seu peito. Ela só

foi encontrar a parte que procurava ao ver a história de Seu Domingos na televisão.

Sua casa, a escola

Ao entrar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Justino Camboim pela primeira vez, em fevereiro de 2023, foi recebida pela professora Lúcia, que ganhou um espaço em seu coração pela forma carinhosa que a recebeu. Esse primeiro contato foi fundamental para Dona Delma. Ali, ela teve a confirmação de que estava no lugar certo, onde iria querer passar quase todas as suas noites estudando pelos próximos três anos.

O ambiente escolar despertou uma nova felicidade em Dona Delma, até mesmo sua família pôde perceber. Ela se tornou mais animada, proativa e bem-humorada. Na sala de aula, ela realizou o sonho da pequena Odielmia, que precisou ficar guardado por anos no fundo do peito. Hoje, o conhecimento é fonte de felicidade e fascínio constante. “Tem coisas que tu nunca viu, nem sabe, nem imagina que tem. Para mim é novidade, com 80 anos, muita coisa é novidade para mim”, conta ela, com um brilho no olhar. Estudar virou uma paixão; além do que aprende em aula, ela estuda com a família como utilizar o computador que uma das netas lhe deu.

Na sala de aula ela se sente livre, uma pessoa com novas possibilidades à frente. Além de um local de aprendizado, a escola é onde Dona Delma faz novas amizades. Ela gosta de levar bolos e chás para os seus colegas, tornando as aulas de inverno um pouco mais aquecidas. A maioria de seus colegas são jovens, muito mais jovens que ela. Mesmo assim, Odielmia se sente à vontade. É admirada e respeitada pelos colegas, e fica triste ao perceber que muitos não conseguem manter a frequência e precisam, novamente, abandonar o ensino.

Sua história e a história de seus colegas servem de motivação. Quando foi convidada para falar sobre sua experiência no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), aceitou imediatamente. Desde então, Dona Delma participa de palestras pelo município, tornando-se quase uma celebridade local.

Seus anos de EJA já estão terminando. Ao final do ano, Dona Delma conquistará seu certificado, e já tem seu próximo passo planejado: estudar Gastronomia na universidade. Essa ideia partiu do seu gosto por cozinhar. Ela não quer aprender a fazer pratos finos, apenas ficar ainda melhor em algo que já possui maestria.

Aos oitenta anos, Dona Delma está realizando um sonho. Todos os dias, ao acordar, ela coloca seus brincos, anéis e batom vermelho – marcas registradas. É um ritual diário. Assim, ela fica pronta para um novo dia e todas as suas possibilidades. Odielmia tem uma personalidade única, não encontrada em nenhum outro lugar do Brasil, assim como o seu nome. Ela sabe disso, tanto que já planeja escrever a própria biografia.

Cada nova aula, cada novo aprendizado, são para ela confirmações de que fez a escolha certa naquele fevereiro de 2023. “Já pensou se eu não tivesse vindo estudar? O que eu estaria fazendo? Ia ficar em casa… em casa fazendo o quê?” brinca Dona Delma, sabendo as possibilidades que a esperam mundo afora.

AINDA É IMPRESSO ONDE O TEMPO

NO SEGUNDO JORNAL CONTÍNUO MAIS ANTIGO DO RIO GRANDE DO SUL, TODAS AS EDIÇÕES SÃO PRODUZIDAS ARTESANALMENTE POR MÁQUINAS

CENTENÁRIAS, PROCESSO ÚNICO NA AMÉRICA LATINA

TEXTO E FOTOS VITOR BRANDÃO

Na praça principal da cidade de Taquari, conhecida como Praça da Matriz, há uma pessoa que fica despercebida por quase todos que passam por ela. Não clama por atenção, mesmo que a merecesse, tem cerca de 1,80m, uma cor de pele pouco comum e apenas encara a mesma direção. Também não come e nem fala. Alguns dizem que é por ele ser uma pequena placa acizentada em um bloco de pedra com seu rosto estampado junto à descrição Albertino Saraiva, fundador do jornal O Taquaryense. Mas ali está mais do que uma construção fria: está a alma de um dos pavimentadores do jornalismo no Rio Grande do Sul. O local que ele encara também passa despercebido. Ele fica a uma distância maior da calçada do que as construções a sua volta. Sua cor bege remete a de um jornal impresso antigo, e o que a torna mais distante da calçada é um pequeno caminho que se estreita a partir de duas muretas de mesma cor. As pedras basalto de tamanho irregular, clássico em lugares onde predominam construções mais antigas,

formam um pequeno caminho quase como um tapete vermelho à porta do estabelecimento. A volta desse caminho há uma grama tão verde e baixa que dá a sensação de se estar à frente de um campo da elite do futebol mundial. Este local é O Taquaryense, segundo jornal mais antigo em atividade no estado, desde 1887.

Taquari é uma cidade pequena na região central do estado, com cerca de 25 mil habitantes. Por conta disso, é daqueles lugares onde tudo se pode fazer a pé, desde ir ao mercado, ao centro, comprar roupas e, principalmente, comprar jornal. E talvez seja exatamente por conta disso que O Taquaryense continua vivo.

Ao chegar à porta de madeira escura se nota duas pequenas janelinhas que revelam o interior do lugar. Ao atravessá-la, se percebe que aquele não é um lugar comum. O ranger da porta indica sutilmente a mudança de local, quase como uma viagem no tempo. As firmes madeiras cor de vinho no chão revelam que muitos passos já foram feitos ali, devido a perda na coloração de algumas tábuas. Próximo à porta de entrada há uma mesa com

duas cadeiras já gastas com assento em celofane, um tipo de palha sintética que ficou popular no começo dos anos 2000 e esteve presente na maioria das casas brasileiras. À direita da mesa existem dois grandes armários negros onde se encontram todo tipo de item, desde ferramentas até edições encadernadas do jornal datadas desde a sua criação até o ano de 2014. A esquerda existe uma pequena sala sem pintura uniforme nas paredes, com misturas entre a cor do exterior e a cor branca, como o restante do interior. Dentro desta sala tem um computador onde se faz o processo de diagramação e alguns objetos pessoais. Ao fundo da sala é onde a magia acontece. Há um pequeno patamar inferior já não mais naquelas tábuas vinho, pois elas não aguentariam o peso exigido, mas sim em um chão de concreto. Essa necessidade se dá graças aos maquinários para produção das edições impressas semanais, todas feitas de forma manual.

O último guardião

O Taquaryense não é como os outros jornais, ele mantém uma tradição existente desde o século passado, isto é, a de utilizar maquinários como a linotipo, prensa de impressão, prelo e guilhotina para corte de papel, por exemplo. Ao redor de todo esse maquinário existem mais bancadas e armários, a maioria delas preenchidas por blocos pequenos de chumbo com letras. Em um armário cinza desbotado, com um número de gavetas difícil de contar à primeira vista, se encontram inúmeros desses blocos. Eles possuem a mesma letra nas mais variadas formas: letra minúscula, maiúscula, com acento, em outro tipo

de fonte. As portas deste local se abrem religiosamente de segunda a sexta-feira sob os olhos atentos de Albertino. A frente delas, se encontra o último guardião do jornal artesanal na América Latina.

O homem está parado em frente às portas do estabelecimento. Ele mexe rapidamente em um molho de chaves como quem folheia um jornal já sabendo a notícia que quer ler. Em específico, está procurando a chave correta para abrir aquelas portas. Na rua, passa despercebido, assim como seu trisavô em uma placa que insiste em o encarar. Pedro Harry Dias, normalmente chamado apenas de Pedro, é um homem alto, com cerca de 1,85m e as pernas ligeiramente mais longas que o tronco. Possui uma barba cheia mas muito bem feita, como se a retocasse toda semana. Seu cabelo tem um volume médio e sua feição é a de um homem sério, com sobrancelhas retas e leves olheiras contornadas em olhos claros. Apesar disso, não possui nenhum sinal de estar ficando grisalho. Bom, isso se dá também por Pedro ter apenas 30 anos.

A porta para o outro século

Ao achar a chave e abrir a portas, o atual dono logo já começa a fazer os preparativos para a montagem do jornal. Funciona assim: nas segundas, terças e quintas-feiras é feita a diagramação das páginas e correção das matérias, que são enviadas por colaboradores que trabalham por fora da redação. Já nas quartas e sextas-feiras é feita a correção de detalhes na diagramação e impressão da edição, que atualmente conta com quatro páginas, a capa, duas páginas de dentro e contracapa. As páginas de dentro são feitas na quarta, e a capa e contracapa na sexta. Como todo bom guardião, Pedro é contemplado com seu fiel escudeiro, João Rodrigues, um homem não tão alto, sem barba e com um cabelo não ao centro da cabeça, mas sim nas laterais. Quase como Dom Quixote e Sancho Pança, os dois formam uma dupla que torna o passado vivo. João trabalha no jornal desde muito antes de Pedro aprender a falar. Em 1992 ele realizava serviços de jardinagem, e por obra do acaso, o fazia na casa do

n Acima, edição de O Taquaryense impressa em 1915. Após 139 anos, em 2026, o jornal chegou ao número 6.440

genro de Plínio Saraiva, que logo o convidou a participar do negócio como aprendiz de tipógrafo. Plínio foi o diretor que ficou mais tempo no comando da instituição. Após Albertino, Palemón e Mário, Plínio assumiu O Taquaryense juntamente com um trio formado por João Teixeira, Peri Saraiva e Nardy de Farias. Ele ficou no comando desde a década de 60 até 2004, aos 101 anos, quando faleceu. Após isso, o jornal passou para o comando da avó de Pedro, Flávia, que assumiu a gerência aos 72 anos e ficou até 2015, quando seu neto assumiu.

Ainda viva, ela é considerada diretora no papel, mas na prática quem comanda é Pedro Harry. Um tipógrafo tem o dever de organizar as letras e os tipos móveis, pequenos blocos com relevo de letras, números ou símbolos. Estes são usados para a formação da página, que se dá totalmente por frases em blocos de chumbo que formam as matérias e os anúncios. Apesar de contar com mais de cinco máquinas na redação, apenas duas são as mais utilizadas. A impressora Marinoni, que transforma as folhas brancas em páginas de jornal e que veio diretamente da França, e a linotipo, adquirido em 2021 diretamente do Correio do Povo e que é utilizado para fabricar os blocos de chumbo com relevo. Hoje, Pedro atua mais com a diagramação das páginas e organização para impressão, e João é quem utiliza a linotipo.

O ritual da tipografia

Essa paixão de Pedro por antiguidades não surgiu de hoje. Quando jovem, a Igreja Matriz, em frente a praça de mesmo nome, teve seu relógio parado por algum tempo. Ele não sabe dizer se foram dias ou semanas, mas foi o suficiente para a população sentir falta. E o problema é que ninguém sabia corrigir. Então seu pai, eletricista e apaixonado por coisas antigas, decidiu tentar arrumar e levou o filho para ir junto. As escadas de mão eram gélidas e perigosas para a chegada até o topo, o deixando com medo. Mas lá em cima, ao ver aquele maquinário, foi que ele se interessou. Após algumas tentativas o pai conseguiu acertar o que estava errado, e o relógio voltou a funcionar. Aquele barulho das engrenagens girando ficaram na sua mente. Quando entrou no jornal pela primeira vez, ainda quando criança, ao ouvir os sons da Marinoni juntamente com um estalo das madeiras que a máquina faz, foi que ele sentiu aquela mesma sensação de anos atrás. Hoje, quem está organizando

as placas de chumbo corretamente para impressão é ele. Com uma pinça, retira as letras O, Ç e A, que estão muito gastas e atrapalham a qualidade da impressão. Essas letras pertencem ao título, que sempre são em maiúsculas e totalmente manuais, colocadas uma por uma formando a escrita CRISE NOS SERVIÇOS DA CORSAN. Antigamente as matérias também eram feitas assim, mas após adquirir a Linotipo o processo ficou ligeiramente mais fácil. Ao invés de ser letra por letra, agora se consegue fazer frases completas. Ainda assim, é longe de ser algo que qualquer um consiga fazer. E é por isso que João está arrumando os blocos de chumbo que formam as frases.

João, essa aqui são as frases que tu precisa refazer que nem conversamos antes

Tudo em casa Pedro - diz com um sorriso inocente - um minuto e já deixo tudo pronto

Antes de estarem em suas respectivas máquinas, estavam sentados corrigindo os últimos detalhes da diagramação, e algumas frases

tiveram de ser refeitas. João vai atrás da máquina e joga um punhado de blocos de chumbo em um pequeno compartimento que funciona como uma caldeira, derretendo o chumbo para que ele possa ser reutilizado. Pega uma das cadeiras em celofane, se senta frente a um teclado parecido com o de uma máquina de datilografia e começa a digitar com um exemplar do jornal escorado em sua perna, vendo as frases corretas. A cada clique nas teclas, cai uma pequena chapa dourada com a marca em relevo da letra selecionada, até formarem a frase. Após isso, a máquina se utiliza de um mecanismo que leva essas peças até a sua parte superior, puxada por um gancho mecânico. Esse conjunto de peças então marca uma placa de chumbo, ainda quente, que cai em uma pequena parte para coleta, após estar fria. Enquanto isso, Pedro Harry pega as peças e vai às ordenando na placa de diagramação, até ficar pronta para ganhar tinta e circular nas mãos da cidade.

Quando entrou no jornalismo, em meados de 2010, Pedro sonhava com o esportivo. Sempre gostou do tema e ouvia todas as rádios que falavam de esporte. Quando adquiriu experiência suficiente no curso, passou a contribuir para O Taquaryense com textos autorais, exclusivamente sobre sua paixão. Depois de um tempo, começou a fazer de tudo um pouco e logo estava com a missão de manter vivo um jornal presente em três séculos diferentes desde 1887. Talvez na época nem percebesse esse peso, mas hoje entende a importância e faz de tudo para manter esse legado. Se orgulha das reformas que

conseguiu fazer e principalmente de manter o jornal apenas com o lucro de seus assinantes, publicidades e incentivos da prefeitura. Antigamente, os diretores sempre precisavam desembolsar algo para seguir com o negócio. Hoje sobra dinheiro para algumas reformas na estrutura e também nas máquinas. Antes dele, nenhum maquinário havia sofrido reparos.

Enquanto

houver tinta

Agora chega a parte final do jornal: a impressão. João fica em frente a uma manivela na lateral da Marinoni. Pedro fica atrás dela, onde caem as edições da semana. Após ligar o circuito que dá início ao processo, ele pega uma graxa e com um pincel passa nos rolos da máquina, para a impressão ficar nítida. Cada vez que o tipógrafo mexe na manivela, toda a mesa móvel onde fica o jornal em chumbo diagramado se mexe para a direção dos rolos, onde em um processo rápido o papel, anexado em outro rolo e segurado por presilhas, faz

um movimento circular de encontro com a placa de impressão, assim gerando o jornal que é levado para Pedro através de um pequeno estrado de madeira. Uma edição é feita. Duas. Três, quatro, cinco… — Parou, parou, parou! Pedro fala mais alto, muito por causa do barulho que a máquina faz. Nessa situação qualquer um tomaria um susto, pensaria que algo deu errado e a máquina estragou. Mas João já está acostumado e para o movimento da manivela de forma suave. A graxa passada anteriormente já secou e as impressões estavam ficando mais fracas. Esse processo entre parar e voltar acontece, no mínimo, umas 15 vezes por impressão. Diferente dos outros processos, esse é relativamente rápido. Ao giro da manivela e conforme os papéis caem frente ao atual diretor, ele rapidamente as analisa e permanece em silêncio, mostrando que tem o aval para continuar o processo. Após a impressão das edições necessárias, a Marinoni é desligada e o silêncio reina no lugar, até o seu fechamento.

Para o atual semanário foram realizadas pouco mais de 500 edições do jornal, todas dobradas três vezes ao meio e embaladas a mão. No sábado distribuem entre os seus assinantes. Antes, Pedro guarda uma edição no armário negro da entrada ao meio de uma coleção de tantas outras para no futuro encadernar. No fim, tudo no jornal é sobre isso. Sobre manter vivo algo que por muitos já foi esquecido. Muitos nem sabem que já existiu. Não é fácil sobreviver em um ambiente onde tudo foi designado para o agora. O que seria fácil é enviar para uma gráfica de grande porte e fazer a impressão de milhares de unidades, mas não é isso que O Taquaryense é. Esse jornal é sobre pertencimento. É sobre história. É sobre manter acesa a chama de quem o fundou em 1887. Já são 21:00 de uma sexta-feira, João já foi embora e após desligar todas as luzes, Pedro pega o mesmo molho de chaves e tranca as portas. Despercebido novamente fora dali, se contenta com o lindo legado que coordena. Ao momento em que cruza o tapete de pedras para se voltar à calçada, dá uma última olhada na praça. Diferente das outras pessoas, ele olha aquela placa gélida e percebe ali o espírito de Albertino. Ao que se vira para ir em direção a casa, sente a sensação de estar sendo observado. Mas não aquela de estar sendo perseguido, mas sim aquela de quem lhe protege. Albertino fixamente o encara, até ele desaparecer de seu campo de visão. Agora tudo que lhe resta é novamente olhar aquela construção, sabendo que O Taquaryense vive e viverá por incontáveis edições.

CONSERTO AINDA TEM

ENTRE BOTAS, COLA E CLIENTES

ANTIGOS, UM SAPATEIRO DE ESTEIO

MOSTRA COMO ALGUNS OFÍCIOS AINDA

RESISTEM AO TEMPO

TEXTO E FOTOS MATEUS GRECHI

Aporta abre e fecha o tempo todo. Em pouco mais de três horas, cerca de 20 pessoas passaram pela pequena loja no centro de Esteio. Nenhuma delas parecia estar ali pela primeira vez. Muitos já chegam chamando pelo nome, como quem visita alguém conhecido há décadas. Outros entram apressados, deixam uma bota ou uma bolsa sobre o balcão e fazem sempre a mesma pergunta: “Tem conserto?”

Quase sempre, tem.

Atrás do balcão está Celso Luis da Silva, 66 anos, dono da Sapataria Linck. Vestindo uma camiseta verde, calça de moletom preta e um tênis escuro, ele se movimenta rapidamente entre pilhas de calçados, ferramentas antigas e pedaços de couro espalhados pela bancada.

A organização da loja parece seguir uma lógica que só ele entende completamente. Sobre prateleiras e caixas improvisadas, os sapatos ficam separados entre masculino e feminino. Mais ao fundo, há outra divisão: os pares que precisam de reparo nos dois pés e aqueles em que apenas um lado será consertado. Em meio ao volume de serviço, tudo parece ter um lugar exato.

Para entrar na área onde ele trabalha não existe porta. O único jeito é literalmente pular o balcão que separa os clientes da oficina. Do outro lado ficam as máquinas, as linhas penduradas, as latas de cola e a bancada onde Celso passa a maior parte do dia.

O cheiro forte de couro e cola domina o ambiente. Algumas ferramentas parecem ter décadas de uso. Em certos momentos, enquanto conversa, ele interrompe a frase no meio para costurar uma bolsa, lixar a sola de uma bota, procurar uma peça específica no meio da bancada ou atender um cliente que chega pra buscar ou entregar um material

Celso trabalha ali com a naturalidade de quem praticamente nasceu dentro de uma sapataria.

E, de certa forma, nasceu mesmo.

Foi por causa do avô que tudo começou. Antes dele, já existia uma sapataria da família no centro da cidade. Somando toda essa história, são cerca de 85 anos de tradição no mesmo ofício. Celso cresceu nesse ambiente, observando o movimento, os consertos, os detalhes de um trabalho que exige mais paciência do que pressa.

“Eu basicamente nasci dentro da sapataria”, resume.

Aos 14 anos, começou oficialmente a trabalhar, já recebendo salário. Desde então, nunca mais parou. São mais de cinco décadas dedicadas ao mesmo ofício. No caminho, passou por fábricas, fez curso de modelagem, atendeu grandes empresas como a Gerdau e construiu uma clientela que atravessa gerações.

Hoje, aposentado, continua atrás do balcão.

“Pra mim essa profissão é tudo. Tô há 54 anos aqui. Praticamente me criei por aqui.”

A ideia inicial desta reportagem era investigar profissões

n Há mais de cinco décadas no ramo, Celso Luis da Silva diz que não falta serviço; o que está em falta, segundo ele, são novos profissionais

tradicionais ameaçadas pelas transformações tecnológicas e pelas mudanças no consumo. O sapateiro parecia se encaixar perfeitamente nessa lógica: um ofício antigo, cada vez mais raro, aparentemente sufocado pela cultura do descarte.

Mas bastaram algumas horas dentro da loja para perceber que a realidade era mais complexa.

O movimento nunca parou.

“O conserto segue igual. É a mesma coisa de quando eu trabalhava com o meu avô.”

O que mudou não foi a necessidade do serviço, mas a forma como ele se apresenta.

No verão, o fluxo de clientes cai cerca de 70%. A cidade parece desacelerar e, com ela, a loja também respira um pouco mais devagar. Já no inverno, principalmente a partir de maio, tudo muda.

“Maio é o divisor de águas”, explica.

Com a chegada do frio, o movimento aumenta de forma intensa. Botas voltam a circular, casacos de couro saem do armário, bolsas antigas reaparecem e o serviço começa a se acumular.

“Chega serviço pra tudo que é lado.”

O principal serviço continua sendo bota. E a lógica do cliente é simples: vale mais a pena consertar do que comprar outra. Uma mulher entra em uma loja, vê uma bota nova por R$ 1, 2 mil e faz a conta. Em vez disso, leva o calçado antigo até Celso.

Por cerca de R$ 50, ele pinta, cola, ajusta e coloca uma nova sola.

“Ela vai gastar mil e duzentos numa nova ou traz aqui pra eu arrumar?”

Às vezes, o cliente não traz um par, mas cinco ou seis de uma vez.

O público principal da loja é formado por mulheres de meia-idade, majoritariamente de classe média.

“Se eu dependesse de homem, eu morria de fome”, brinca.

Segundo ele, cerca de 80% do movimento da loja é feminino. Mulheres que investem em calçados de melhor qualidade e entendem que vale a pena conservar.

“O calçado bom vale a pena arrumar. Agora o marca diabo, esse aí não tem conserto.”

A classe média, segundo ele, mantém esse raciocínio com frequência. Mesmo que o cliente desapareça por um tempo, ele sempre volta.

“Pode não aparecer esse ano, mas no ano que vem ele tá aqui de novo.”

Outro período de grande movimento acontece durante a Semana Farroupilha. Nesse momento, botas, guaiacas, mateiras e acessórios tradicionalistas dominam a bancada.

“Todo mundo quer arrumar bota, guaiaca e tudo pra temporada farroupilha. Isso é assim desde o começo da minha carreira.”

Há 52 anos, a cena se repete.

O ofício, no entanto, também mudou.

Antigamente, os sapatos eram feitos para durar mais. Eram mais caros, mais resistentes e justificavam o investimento no conserto. Hoje, segundo Celso, a qualidade caiu muito.

“Antes um sapato de homem valia a pena gastar em conserto. Hoje, muitas vezes não vale mais.”

A própria fabricação dos calçados mudou completamente. Se antes dezenas de pessoas trabalhavam para produzir uma sola, hoje uma única máquina faz isso com o apertar de um botão.

“Antigamente eram quarenta pessoas pra fazer uma sola. Hoje uma pessoa aperta um botão e tá pronto.”

Foi um divisor de águas.

A industrialização acelerou processos, reduziu custos e transformou completamente a lógica da produção. O sapato passou a ser mais rápido de fazer e, muitas vezes, mais rápido de descartar.

Mas a tecnologia também ajudou dentro da sapataria.

Uma das maiores mudanças na profissão, segundo ele, foi a evolução da cola.

“Antigamente ela era muito fraquinha. Tu quase morria

tentando fazer ela pegar.”

Hoje, principalmente nos tênis, a qualidade do material mudou completamente.

“A cola de hoje é muito boa.”

Essa transformação aconteceu ao longo dos últimos 30 anos, e ele acompanhou tudo de perto. O trabalho foi se adaptando junto com o mercado.

Mas o principal desafio da profissão não está nas máquinas, nem na fábrica, nem na cola.

Está nas pessoas.

“O que está morrendo não é a profissão, são os profissionais da área.”

A frase resume a realidade que ele observa há anos.

O problema não é falta de serviço. O problema é que quase ninguém quer aprender.

O novo não quer assumir esse tipo de trabalho. Enquanto isso, os profissionais mais antigos envelhecem e muitos morrem sem deixar sucessores.

Só em Esteio, ele lembra de pelo menos oito sapatarias que fecharam porque o dono faleceu e ninguém da família quis continuar.

“Hoje, se tem cinco que fazem esse serviço aqui, é muito.”

A profissão não acabou. O ofício continua existindo, a demanda permanece e o mercado segue ativo. O que desaparece é a mão de obra especializada.

E isso gera um efeito curioso: quanto menos profissionais existem, mais clientes se concentram em quem continua.

É justamente essa escassez que faz com que pessoas de outros municípios procurem a Sapataria Linck. Clientes de cidades vizinhas chegam por indicação, por tradição ou simplesmente porque não encontraram ninguém mais disposto a fazer determinado serviço.

“Imagina uma sapataria que existe há 85 anos. Quem não sabe que ela existe por aqui?”

Recentemente, um homem veio de Lajeado com uma sela de cavalo para conserto. Ninguém na região dele quis assumir o serviço.

Ele havia comprado a sela em Minas Gerais, mas ela era grande demais para o filho. Precisava diminuir o tamanho e adaptar.

“Ele veio só pra isso.”

Não é raro.

Entram malas, bolsas, jaquetas, pastas, mateiras, capas de prancha, garrafas térmicas revestidas em couro e até sela de cavalo.

“Eu literalmente faço tudo.”

A variedade impressiona e ajuda a explicar por que é tão difícil formar novos profissionais.

Uma garrafa térmica de couro, por exemplo, exige um processo quase artesanal: descosturar o fundo, retirar a ampola, limpar, molhar o material e depois costurar tudo novamente.

Uma sela exige outro conhecimento. Uma bolsa, outro. Uma jaqueta, outro.

“O cara entrar aqui e fazer tudo que entra pela porta leva muito tempo.”

Não basta saber colar um sapato.

É preciso entender materiais, costura, modelagem, acabamento, resistência e improviso. Cada peça exige uma solução diferente.

“Muita gente acha que sabe, mas não sabe.”

É justamente por isso que ele costuma dar um conselho inesperado quando alguém pergunta se vale a pena entrar nessa profissão.

“Eu digo pra não fazer.”

Ele ri, mas explica.

“É muito serviço, muita incomodação e a quantidade de coisa que tu tens que saber é enorme.”

Nunca se sabe exatamente o que vai entrar pela porta.

Essa imprevisibilidade

também define sua rotina.

Mesmo fora da alta temporada, Celso trabalha sozinho. Ele atende os clientes, faz a bancada, costura, organiza os materiais e ainda busca insumos em Novo Hamburgo.

Terça-feira, por exemplo, costuma ser um dia difícil.

Ele sai por volta do meio-dia para buscar material e precisa correr para conseguir voltar até as 14h e reabrir a loja.

“Esse dia é um martírio.”

No inverno, quando a demanda aumenta, ele

precisa de ajuda. A esposa assume o atendimento e um auxiliar entra para ajudar na bancada.

A loja se divide entre costura e conserto.

De um lado, malas, bolsas, jaquetas e pastas.

Do outro, botas, sapatos e o restante da sapataria.

Mesmo aposentado, ele não pensa em parar.

Muito por gosto. Muito também pela necessidade de manter qualidade de vida.

Mas principalmente porque não consegue se imaginar longe dali.

“Pra mim essa profissão é tudo.”

Celso conta que algumas histórias ficam guardadas mais do que outras. Não pelo valor do serviço, mas pelo que ele representa na vida de quem entra ali.

Uma das que ele mais lembra envolve uma irmã do Colégio Coração de Maria, que tinha uma perna nove centímetros mais curta que a outra. O trabalho dele era justamente compensar essa diferença no calçado, ajustando a altura para que ela pudesse caminhar melhor.

“Isso me marcou muito”, diz. Não era apenas consertar um sapato. Era ajudar alguém a viver com mais conforto, mais equilíbrio, mais autonomia.

Talvez seja por isso que ele ainda continue ali todos os dias.

A rotina é pesada, o serviço exige paciência e ele mesmo costuma dizer que não recomenda a profissão para quem pensa em começar. Ainda assim, ele segue abrindo a loja, organizando a bancada e atendendo clientes que, muitas vezes, o acompanham há décadas.

Há um deles, de 90 anos, que ele chama de “number one”. Está com ele há cinquenta anos. Outros vêm de cidades vizinhas porque já não encontram mais quem faça esse tipo de trabalho.

Mudou os sapatos, a indústria, os materiais e até o jeito de consumir. A sapataria continua ali.

A porta abre. Alguém entra com uma bota velha nas mãos e a mesma pergunta de sempre:

“Tem conserto?”

Na maior parte das vezes, tem. E Celso continua ali para provar isso.

CASCA GROSSA POR BAIXO DA

A DOCE TEIMOSIA QUE INSISTE EM BROTAR DA TERRA DE AREIA

TEXTO E FOTOS DENER PEDRO

Local de passagem de grande parte das frutas, legumes e verduras consumidas no Rio Grande do Sul, a Central Estadual de Abastecimento do estado (Ceasa) recebe um fluxo intenso de comerciantes e produtores. Muitos deles chegam ao local já na madrugada, para garantir suas posições e organizar as muitas caixas com mercadorias das mais variadas. Com o setor fechado ao público, o estacionamento vazio – onde há mais quero-queros que carros, bicando os restos de alimento caídos no solo – contrasta com as dezenas de caminhões próximos às rampas de acesso ao pavilhão. As bancas ficam dispostas numa organização de linhas e colunas, representadas por números e letras, respectivamente. O espaço é amplo, retangular. Nas beiradas, ficam comércios fixos, que vendem salgados, cafés, churros, sucos, entre outros alimentos que, somados, geram um cheiro de fritura que se mistura ao aroma das frutas e verduras. Cheiro de feira com barraca de pastel e caldo de cana. Algumas bancas se aglomeram na rampa de acesso, com a carroceria aberta para expor os produtos. Uma verdadeira vitrine. É o caso do produtor de abacaxi Sinval Leal Justo. Não são adjetivos, nem nome artístico. São os sobrenomes do homem de 61 anos que, há 32, vende na Ceasa. Durante essas décadas, conquistou muitos clientes e chegou a ser, segundo ele, o maior produtor da fruta em todo o Rio Grande do Sul. “Hoje tem outros caras plantando igual a gente”, admite. Morador de Terra de Areia, cidade do Litoral Norte gaúcho, Sinval é um dos responsáveis por colocar o município no topo do ranking de cultivo de abacaxi no Rio Grande do Sul. É de lá que sai 90% de toda a produção estadual da fruta. Isso por conta do solo arenoso e da curta distância no trajeto a Porto Alegre. Foi nesta estrada, porém, que Sinval quase pôs fim à própria vida. “Saí de casa 10 da noite, foi a uns 7 quilômetros para frente”, calcula, partindo de sua casa, na beira da BR-101, de onde saem as carretas carregadas. “Nunca tinha sofrido um arranhão nesses 32 anos. Não sei se foi o cansaço, se dei uma cochilada, não sei. Me lembro do vulto e do estouro da pancada. Só me dei

por conta quando estava trancado dentro do caminhão, na serragem”, relata Sinval, que não pode esconder os sintomas do acidente, já que, dois meses após o ocorrido, ainda precisa do apoio de muletas para caminhar. A mente também não o deixa esquecer. “Tem dias que eu estou dormindo e acordo de repente, tentando lembrar do que aconteceu, mas não consigo”, conta.

Com mais da metade da vida dedicada ao trabalho com o abacaxi, que lhe rendeu uma condição financeira segura e uma possibilidade de aposentadoria tranquila, Sinval poderia, com o grave acidente, decidir parar de trabalhar. A lição tirada por ele, no entanto, foi oposta. “Eu estava do sofá para a cama, da cama para o sofá. Ficar parado para mim não funciona. Eu sou agitado, cara. Eu sou da lida. Domingo, quando eu levanto, eu vou ver minha lavoura, vou ver os gadinhos que eu tenho. Eu amo o que eu faço”.

As espadas

Para melhor compreender de onde vem o amor pelo trabalho, é preciso voltar às raízes do Seu Sinval. Nascido e criado em Três Cachoeiras, outra cidade do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, foi lá

que Sinval plantou suas primeiras mudas e apanhou as primeiras colheitas. A realidade, no entanto, era bem diferente da atual. Se hoje o produtor é bem-sucedido, com vários hectares de terra rendendo frutos e uma vida financeiramente estável, a infância foi dura. Com o corpo ainda miúdo para o trabalho, as necessidades da família se impuseram e o pequeno Sinval, aos sete anos de idade, já madrugava na lavoura junto às irmãs. “A gente ia para fechar cana. E naquela época tinha muita geada. Saía de casa 4 horas da manhã, às vezes chegava lá e tava tudo cheio de gelo. Aí tinha que fechar a cana daquele jeito mesmo. Congelava os dedinho. Chegava 8 horas em casa com a mãe com o fogão à lenha aceso pra descongelar”, recorda Sinval, descrevendo a cena como só alguém marcado pelas memórias poderia contar, mesmo com tantos anos de distância daquela idade que muitas pessoas sequer têm recordações. As dores sofridas na não-infância de Sinval permanecem na retina. “Sabe o que é tu sair para moer cana com chuva, com frio, no morro? Eu me recordo de tudo do meu passado”, desabafa. E completa: “Sair da roça ao meio-dia, com

dois carros de boi carregados, 24 feixes de cana em cada um. Cana queimada, no meio do calor, aquele melado, louco de cansado e de fome, querendo almoçar e, quando vê, tu vira o carro de cana no meio do banhado. Sentava numa pedra e não sabia se ria, se chorava ou se gritava, pensando no que fazer”, detalha o homem enquanto olha distante, como quem projeta a imagem que está descrevendo.

O trabalho tão cedo na vida de Sinval era uma consequência da situação estrutural da família, que não tinha condições de oferecer uma infância livre de responsabilidades aos menores. “Não tinha luz, a casa era de palha, a gente dormia num colchão de marcela. Não tinha banheiro, só patente. Tomava banho de gamela. Nossa luz era uma pixirica (pequena lamparina comum no interior). Naquele tempo que eu me criei. Na pobreza, pobreza mesmo. Passava trabalho, sofrimento”, lembra Sinval, com um sorriso tímido no rosto, recordando o café que era passado na roça com latas de azeite. “A gente chamava de café de cambona”, traduz.

A educação de Sinval, apesar de curta, também foi cheia de percalços. Morando a 3 quilômetros de distância da escola, precisava percorrer o caminho todo a pé, amassando banhado de pés descalços para não arrebentar o chinelo, inclusive no inverno. “Só botava o chinelo no pé quando chegava na escola, depois de lavar. Fui botar um calçado no pé pela primeira vez com 16 anos. Um Kichute. Não é do teu tempo”, brinca, sempre descontraído para dar leveza ao passado duro.

Acomodado no sofá e com a muleta escorada na perna, Sinval não tem dúvida: “Se tivesse que voltar para trás eu não mudaria nada. Quanto mais difícil

n Terra de Areia é responsável por 90% da produção de abacaxi de todo o Rio Grande do Sul

as coisas, mais tu dá valor. Tudo que tu ganha fácil, tu bota fora fácil também. Quando tu adquire as coisas com suor, tu dá valor”.

A casca

A maturação, quando exposta a tantas intempéries, precisa ser resistente para sobreviver ao tempo. A casca grossa não é uma característica ocasional. É reservada àqueles que precisam dela. E só floresce na adversidade quem tem um solo fértil. Terra de Areia, por exemplo, é o terreno perfeito. Plano, é próximo na medida certa da costa do Oceano Atlântico. Tem o solo arenoso o bastante para oxigenar as raízes, mas não tanto ao ponto de expelir aquilo que é orgânico.

Sinval chegou à cidade há 35 anos. Acostumado com tudo o que é tipo de cultura, se surpreendeu ao saber que ali o rei das lavouras era o abacaxi. Sem nunca ter lidado com a fruta e intrigado pelo rendimento dado a outros produtores locais, decidiu começar a plantar. “Comecei a plantar uma lavourinha para iniciar o cultivo e fui gostando da coisa. Foi aumentando, aumentando, até que eu consegui comprar um caminhãozinho financiado para vender na Ceasa”, relembra Sinval, que se aventurou no grande centro da economia hortifrutigranjeira do Rio Grande do Sul.

“Quando eu comecei tinha muito mais fluxo. Hoje caiu muito. Eu ainda vendo bastante porque estou lá há 32 anos, já tenho um conhecimento, já tenho clientes. Para começar hoje na Ceasa não é fácil, quem já está lá há mais tempo vai te engolir. Eu já tenho uma freguesia, que já chega me procurando porque sabe a qualidade do produto. Quem começa hoje vai pegar só os caras mais apertão, que vão querer te esmagar no preço”, indica.

O tempo, no entanto, não esmorece os resilientes. O abacaxi leva, no mínimo, quando bem induzido, 14 meses para ser colhido. “Uma muda média vai cerca de 2 anos. Uma muda mais miudinha, já leva dois anos e meio”, garante Sinval, que não tem tempo para muita coisa além do trabalho. As festas de fim de ano são dias úteis no calendário, especialmente por caírem no auge do período de

consumo do abacaxi. “Já cansei de virar a noite de Natal e de Ano Novo dentro do galpão, etiquetando abacaxi para entregar para o Zaffari. Mercado é compromisso: lançou o pedido, temos que entregar”, enfatiza Sinval.

A polpa

Sinval não é movido somente pela vontade de trabalhar e pelo amor ao que faz. Os vários veículos no grande pátio da sua ampla casa e as enormes propriedades de terra na cidade não o deixam mentir: “Realizei minha vida financeiramente através do abacaxi”. Para chegar ao patamar de maior produtor de abacaxi do estado, não basta força de trabalho. É preciso ter visão de mercado, mesmo sem formação acadêmica. “Pode ser formado no que for, se não tiver vontade e disposição tu não vai a lugar nenhum. É que nem na lavoura”, compara, destacando que, além de inteligência, é necessário ter coragem. “E eu não tenho medo, se eu precisar comprar alguma coisa eu vou lá e compro, não tenho medo de ficar devendo porque eu sei que eu vou atrás e vou conseguir. Quem passou pelo que nós

passamos não se assusta com qualquer coisa”, assegura. “Paguei caro nas minhas terras na época e me chamaram de louco, mas hoje tem algumas que valem uns 8, 9 milhões. Até porque é um lugar bom para lotear, na beira da estrada, área urbana. Mas eu não quero lotear”.

Os altos e baixos, para Sinval, são consequências naturais da vida. Foi com essa filosofia que ele sobreviveu a uma de suas maiores crises. “As últimas duas safras foram boas, mas a anterior (2023) foi horrível. Sofremos com uma enchente e perdemos quase toda a lavoura. Ficou tudo podre. É desanimador perder tudo, mas eu sempre disse que não ia jogar a toalha”, insiste, destacando as lições que o tempo lhe ensinou. “No abacaxi é mais arriscado ainda, porque tu fica dois anos investindo. Se tu perde a plantação não paga nem as despesas. Então tem muita gente que desiste”, explica.

Com uma estimativa de mais de 1 milhão de abacaxis plantados no momento e com lavouras que já tiveram 2 milhões de pés simultaneamente, Sinval se orgulha de sua trajetória. “Tudo que eu tenho eu devo ao abacaxi. Quando eu vim morar aqui eu não tinha uma casa. Minha esposa trabalhava numa loja, moramos oito anos de aluguel. Conseguimos construir nossa casa, que pode não ser grande coisa mas é um patrimônio, comprei várias propriedades de terras, temos 21 carretas na estrada, enfim. Hoje eu me sinto realizado, já conquistei muito”, reconhece, emocionado.

n Fruto de uma infância difícil, em que o trabalho árduo desafiava as forças de um corpo miúdo, Sinval amadureceu e se tornou o grande produtor que é hoje

Engana-se quem pensa que a resistência ao tempo e às adversidades deixa o fruto mais amargo. Ao contrário, o calor no solo é que esquenta as raízes e o deixa doce. Tipos como o Seu Sinval e o abacaxi saboroso só poderiam vir mesmo de uma terra de areia.

AS QUARTAS DA FÉ EM SAPUCAIA DO SUL

CELEBRADAS HÁ 46 ANOS

PELO PADRE ADILSON JOSÉ KUNTZLER, AS MISSAS DE QUARTA-FEIRA NA PARÓQUIA NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO SE TORNARAM UMA ESPÉCIE DE PATRIMÔNIO AFETIVO DA CIDADE

TEXTO E FOTOS

MATEUS DIAS

Todas as quartas-feiras, antes mesmo de o sino tocar, às 18 horas, a cidade já começa a mudar de ritmo.

No fim da tarde, quando o trânsito escorre lentamente pelas ruas de Sapucaia do Sul e os trabalhadores retornam para casa carregando o cansaço do dia, um outro movimento nasce em direção à Paróquia Nossa Senhora da Conceição.

Ainda não é exatamente uma multidão. Primeiro chegam poucos: uma senhora de passos curtos segurando o terço entre os dedos, um homem de uniforme, mães empurrando carrinhos, jovens e

idosos que conhecem o caminho de olhos fechados. Aos poucos, como se seguissem o fluxo de um rio, centenas de pessoas passam a convergir para o mesmo ponto. A igreja vai enchendo antes mesmo de a missa começar. O sol poente colore as paredes com a luz dos vitrais. Algumas pessoas ajoelham-se nos genuflexórios; outras apenas fecham os olhos por alguns segundos, como quem precisa respirar antes de continuar a vida. O silêncio preenche a igreja.

Conforme o tempo passa, mais e mais fiéis se enfileiram nos longos bancos de madeira — quatro fileiras com mais de vinte bancos cada. Os assentos lotam, e os fiéis avançam pelas portas da igreja,

acomodando-se em cadeiras de praia trazidas de casa.

De repente, o silêncio dá lugar à música. As centenas de pessoas se colocam de pé e fixam sua atenção em um mesmo ponto.

Com passos curtos e vagarosos, a presença tão aguardada segue até o altar, vestindo uma batina branca dos pés à cabeça e exibindo fios de cabelo tão brancos quanto.

O corpo frágil rapidamente contrasta com uma voz forte e gentil.

— “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco.”

O padre que chegou para ficar

O padre Adilson José Kuntzler tem 74 anos, voz mansa e um jeito de conversar que mistura serenidade e firmeza. Há 46 anos celebra as missas de quarta-feira que se tornaram uma espécie de patrimônio

afetivo da cidade. O fenômeno não nasceu de campanhas, estratégias de comunicação ou espetáculos religiosos. Nasceu do vazio.

Quando chegou à paróquia, no fim dos anos 1970, encontrou uma comunidade ferida. Três padres haviam deixado o sacerdócio em sequência. Havia desconfiança, divisões internas e abandono. Na primeira missa celebrada por ele, compareceram apenas doze pessoas. “Treze comigo”, corrige, com humor.

Naquele tempo, a Avenida João Pereira de Vargas ainda era de chão batido. Havia o antigo Cinema Marabá, apenas uma agência bancária em toda a cidade e um centro urbano que parecia mais interior do que metrópole. O jovem padre, vindo de Novo Hamburgo, imaginava permanecer poucos anos ali, apenas o suficiente para “colocar a casa em ordem”. Nunca mais saiu. Foi naquele cenário de desalento que nasceu a missa de quarta-feira.

A ideia parecia simples: uma celebração dedicada à Nossa Senhora. Na primeira semana

apareceram vinte pessoas. Depois quarenta. Depois mais. O crescimento aconteceu sem alarde, espalhado pela força da conversa entre vizinhos.

“Vai lá. Faz bem.”

As histórias começaram a circular junto com a multidão. Gente que dizia ter alcançado graças, curas e reconciliações familiares. O padre ouvia tudo com cautela.

“Eu não sou curandeiro”, repete até hoje.

Mas compreendeu, ao longo dos anos, que havia algo maior acontecendo naquele espaço coletivo de fé.

“Eu faço a minha parte de rezar. A parte de Deus é Deus quem faz.”

A liturgia do acolhimento

A igreja lotada nas quartas-feiras produz uma coreografia própria. Na bênção final, há um momento único para as bênçãos individuais, quando filas serpenteiam pelos corredores. Pessoas erguem chaves de casa, documentos, fotografias, garrafas de água e carteiras de trabalho. Mães levam filhos pequenos. Trabalhadores chegam ainda de uniforme.

A missa é longa. E ninguém parece se importar.

No meio da celebração, o padre pede que levantem a mão aqueles que estão ali pela primeira vez. Eles recebem um terço, uma oração impressa e aplausos. O gesto simples provoca sorrisos quase infantis em adultos endurecidos pela rotina.

Talvez essa seja a principal liturgia das quartas-feiras: o acolhimento.

Padre Adilson fala frequentemente sobre isso. Diz que a Igreja não pode existir apenas como instituição de regras ou repetição de dogmas. Precisa alcançar, segundo palavras do Papa Francisco que ele costuma citar, as “periferias existenciais”.

Em Sapucaia, essas periferias têm rosto.

Elas aparecem nos dependentes químicos acolhidos pela paróquia, nos moradores de rua que encontram café quente na cozinha da igreja, nas famílias que chegam pedindo ajuda sem que ninguém pergunte sua religião, posição política ou orientação sexual.

“Eu quero saber se a pessoa quer mudar de vida”, afirma.

Fé, dependência química e reconstrução

A relação da paróquia com comunidades terapêuticas começou nos anos 1980, durante a explosão da epidemia de AIDS e do uso de drogas injetáveis. O

padre lembra de jovens se drogando sob a escadaria da igreja, overdoses, ambulâncias e mortes.

Por muito tempo, confessa, sentiu revolta. Achava que dependência química era apenas falta de caráter.

Mudou ao visitar numa comunidade terapêutica de Sapucaia quase contra a vontade. Lá, ouvindo o Evangelho do Filho Pródigo, sentiu que precisava permanecer ao lado “dos filhos mais pobres de Deus”.

Desde então, a paróquia criou uma extensa rede de auxílio. Hoje arrecada toneladas de alimentos mensalmente, doados pelos próprios fiéis. Leigos visitam centros de recuperação, promovem evangelização e oferecem apoio espiritual.

“A doença é gravíssima”, diz o padre. “Mas quando a pessoa descobre dentro dela o amor de Deus, tudo muda.”

Essa mistura entre espiritualidade e assistência social ajudou a transformar a igreja em referência não apenas religiosa, mas comunitária. Há pessoas em

Sapucaia que cresceram acompanhando o mesmo padre em todos os ritos fundamentais da vida: batismo, primeira comunhão, casamento e funeral dos pais.

“Eu faço parte de muitas vidas”, resume. E faz mesmo.

Um padre de portas abertas

No centro da cidade, ele é reconhecido em supermercados, farmácias, bancos e padarias. Anda em um Gol antigo da paróquia, dirige pouco — e mal, admite sorrindo —, mas permanece constantemente na rua.

A imagem pública do sacerdote parece construída menos pela autoridade e mais pela familiaridade. Há décadas, sua casa permanece aberta. Literalmente.

“A casa do padre não pode ser um mistério”, afirma.

Na pequena cozinha paroquial onde concede entrevistas, o telefone toca sem parar. Fiéis entram, pedem bênçãos, avisam sobre doentes, entregam papéis e perguntam horários. A rotina é atravessada por interrupções constantes. Ele acolhe todas com naturalidade.

Talvez porque tenha vindo exatamente desse mundo comum.

Filho de operários, trabalhou em fábrica de calçados enquanto estudava à noite em escola pública. Guardou até hoje a primeira carteira profissional

como uma relíquia. O sonho do sacerdócio precisou esperar entre dificuldades financeiras e longas jornadas de trabalho.

Entrou no seminário apenas depois dos dezenove anos, já adulto, sem formação clássica, sem saber latim e enfrentando inseguranças que pareciam distantes da figura tradicional de um padre. A vocação, porém, persistiu.

Quase meio século depois, ela continua ocupando as quartas-feiras de Sapucaia.

A missa que já pertence ao povo

A cidade mudou ao redor da igreja. Cresceu, asfaltou ruas, ganhou novos prédios, estações de trem, supermercados e trânsito pesado. Mas, no início de cada noite de quarta-feira, algo permanece igual: centenas de pessoas convergem lentamente para o mesmo lugar.

Como peregrinos urbanos.

Lá dentro, sob ventiladores cansados e luzes amareladas, Padre Adilson segue repetindo gestos que se tornaram familiares para gerações inteiras. Reza, escuta, abençoa, abraça.

Agora, aproximando-se dos 75 anos — idade em que o cargo de pároco passa oficialmente à decisão do bispo —, ele fala sobre sucessão sem dramatizar. Sabe que um dia outro sacerdote ocupará seu lugar. Mas acredita que certas coisas já deixaram de pertencer a ele. “A missa de quarta-feira não é mais do Padre Adilson”, diz. “É do povo.”

Do lado de fora, enquanto a celebração termina, a praça volta lentamente ao ritmo cotidiano. Pessoas caminham em silêncio segurando terços, garrafas benditas e pequenos papéis de oração. Algumas retornam para casas vazias. Outras, para hospitais, turnos de trabalho, conflitos familiares ou tratamentos médicos.

Mas saem diferentes da maneira como chegaram.

Talvez porque a fé, ali, funcione menos como certeza e mais como abrigo.

E toda quarta-feira, no coração de Sapucaia do Sul, centenas de pessoas continuam procurando exatamente isso.

GENTE CANSADA, GENTE ASSUSTADA

NOS CENTROS ESPÍRITAS, PESSOAS SE REÚNEM PARA ENFRENTAR AS DORES QUE O REMÉDIO NÃO CURA TEXTO E FOTOS JONATAS DE SOUZA

“Tu sabe que eu tenho medo dessas coisas, né?”, ela falou rindo. O convite era inusitado e o aceite tímido. Católica desde criança, ela jamais havia cogitado entrar numa casa espírita. Convencê-la a sair de nossa vizinhança para conhecer algo cujo carregava preconceitos foi difícil. Mas lá estava ela, trajada com sua bolsa e várias ideias precipitadas do que iria acontecer naquela noite. Tudo que conhecia sobre esse universo espírita vinha de boatos atravessados e histórias mal contadas: de que o espiritismo lidava com assombrações e forças demoníacas. A visão dela não é única. Centros espíritas ainda são associados a imagens de rituais obscuros. Ainda assim, naquela noite, decidiu atravessar a porta pela primeira vez. Localizado na rua Mônaco, número 30, em Novo Hamburgo, o Centro Espírita Esperança e Fé é um espaço de atendimento. Você pode até pensá-lo como uma Unidade de Saúde, o processo é o mesmo. Ao entrar, os pacientes pegam uma ficha numerada, do 1 até onde a noite mandar ir. No salão principal, as cadeiras são distribuídas em fileiras enquanto as pessoas esperam ansiosamente pelo seu atendimento.

Algumas ficam em silêncio, de olhar vago e preocupado, talvez refletindo o momento de sua vida; outros cochicham entre si, talvez até se conhecem pela vivência no centro.

A temerosa novata no centro faz parte do grupo do silêncio. Ela já pegou sua ficha e, a partir de agora, a chamarei pelo número escrito no papel que segura nas mãos: 16. Enquanto mais pessoas chegam e acomodam-se, passam de lá para cá aqueles que intermediarão o tratamento de cada um destes numerados pacientes. São chamados médiuns aqueles que têm o dom de manter contato entre o nosso mundo e o mundo espiritual. Eles são capazes de ouvir, sentir e emprestar seus corpos para os espíritos no ambiente. Reginaldo Cardoso, coordenador do Centro Espírita Esperança e Fé, explica que todos somos, de certo

modo, médiuns: “Mediunidade é sobre sensibilidade e todos nós, naturalmente, temos sensibilidade humana, mas alguns são mais ostensivos”, explica.

Quando a casa já está com cara de cheia, todos os médiuns retiram-se para uma sala particular. Um curto período, em que os pacientes ficam sozinhos em suas cadeiras, antes dos atendimentos começarem. As atividades iniciam com os passes espirituais. Basicamente é a transmissão de energias, utilizando a imposição das mãos para realizá-las. Os médiuns se conectam com toda paz e sabedoria interior e pedem a assistência de espíritos auxiliares, que irão conduzir as energias positivas a quem está buscando o passe.

Nesse momento, todos fecham os olhos e estendem as mãos sobre o colo. Assim como os outros, a ficha 16 obedece. Aquele seria o único tratamento que ela realizaria naquela noite. Ela nunca prometeu ficar até o final. Quem sabe o que estaria passando na sua cabeça? Talvez o medo inicial estivesse vencendo. Porém, mesmo sem passar pelos demais atendimentos, ela continuou ali até o fim das palestras. Quando é solicitado, todos abrem os olhos e as paredes e luzes brancas do local parecem ainda mais claras. A ficha 1 é chamada e a noite começa.

Ao decorrer da noite, palestrantes revezam-se em discursos atravessados por dores extremamente humanas. Ao longo de mais de duas horas de conversa, pouco se falou sobre fantasmas, demônios ou qualquer estereótipo normalmente associado aos centros espíritas. Falou-se sobre ansiedade. Sobre gente cansada. Sobre famílias desestruturadas. Sobre pessoas que chegam ali depois de passarem por médicos, exames e diagnósticos sem conseguirem aliviar o próprio sofrimento.

Durante a noite, Reginaldo compara os seres humanos a antenas: “A gente atrai aquilo que vibra. Tudo que tu pensa, sente e vive acaba retornando pra ti de alguma forma, como uma transmissão de rádio.” Para ele, doenças emocionais e físicas caminham juntas. Problemas familiares, ambientes tóxicos de trabalho, luto, culpa e solidão seriam capazes de adoecer o corpo. Mesmo para quem não

compartilha da crença espírita, a lógica encontra eco em questões contemporâneas bastante reconhecíveis: burnout, depressão, ansiedade e esgotamento emocional. Enquanto aguardava os atendimentos, a ficha 16 observava em silêncio. Seus preconceitos jamais foram confirmados. Nada do que já havia ouvido e especulado foi encontrado. Ao invés disso, ela enxergava pessoas de diferentes tipos. Pessoas idosas vindas sozinhas, jovens que vinham em grupo de amigos; mães e pais acompanhando os filhos pequenos, filhos e filhas acompanhando os velhos pais. Pessoas que saíam sorrindo e outros que saíam chorando.

Nesta noite, foram 38 fichas retiradas na entrada. Uma minúscula parcela dos 3,18 milhões de espíritas do Brasil. Trinta e oito pessoas diferentes, com vivências diferentes, dores diferentes e maneiras distintas de encarar a vida e espiritualidade. Em comum, todos relatam compartilhar algum tipo de cansaço - físico, emocional ou simplesmente cotidiano — que os levou até aquele salão branco na Rua Mônaco.

Quatro tipos de cansaço

Rafael e a dúvida

O cansaço de Rafael é de ignorância. Graduado em Tecnologia da Informação, ele fala como alguém acostumado a organizar o mundo pela lógica. Desde pequeno, ele questionava as místicas religiosas

que cresceu ouvindo no catolicismo que frequentava com os pais. A Doutrina Espírita é definida por seus adeptos como uma doutrina de tríplice aspecto, abrangendo a ciência, a filosofia e a religião. O lado científico da doutrina é o que conquistou Rafael na sua jornada por encontrar um espaço religioso em que as respostas, para ele, fizessem sentido. “Isso me trouxe muita atenção para esse lado. O espiritismo é uma fé racionalizada… não é uma coisa que te dizem que ‘aquilo ali é verde’ mesmo você vendo que é azul``, exemplifica.

Mas não fique achando que Rafael é apenas racional. Uma de suas inquietações é mais humana do que tudo. Nascido em uma família de classe média baixa que, apesar das dificuldades, teve alimentação e estudo garantidos, ele questionava a realidade enfrentada por outras crianças: cercadas pela violência, pelo ódio, pela falta de oportunidades ou vislumbres de coisas melhores: “Como esse Deus tão misericordioso e tão bom permite que eu tenha uma vida boa, e a outra criança que nasceu lá no outro lado do mundo, tenha uma vida ruim, torne-se uma pessoa ruim e vá para o inferno, sendo que ela não teve nenhuma chance de fazer o bem.”

Malika e a culpa

Emocional é uma boa palavra para descrever o cansaço de Malika. A garota é relativamente nova no Centro Espírita, está apenas em sua quarta sessão. Assim como muitos, ela conheceu o espiritismo através de uma recomendação. Desde os 17 anos, lida com crises de pânico. Malika relata que, numa semana péssima em que a depressão estava à flor da pele, o namorado da sua mãe a aconselhou a ir num centro. “O primeiro passo que eu dei aqui foi com o pé direito e, a partir daí, tudo que eu estava sentindo naquele momento mudou.”

Para ela, o acolhimento individual que os atendidos recebem no centro espírita é um diferencial. Ela já havia passado por espaços católicos, evangélicos e umbandistas, mas sentia que as mensagens eram abrangentes demais, quase impessoais. No centro, pela primeira vez, alguém notou as fissuras que Malika ainda precisava costurar: “Quando a gente

tem depressão, sempre pensamos que tudo é culpa nossa.” Ela conta que através dos ensinamentos sobre reencarnações, aprendeu uma nova forma de enxergar esse pensamento: “A gente pode consertar erros do passado, mas não podemos ter vergonha disso.”

O caminho de Malika no espiritismo promete fortes descobertas ainda: “Reginaldo me disse que eu tenho uma mediunidade muito forte”, explica, “Eu pego essas energias das pessoas, sobretudo as negativas, e guardo em mim para que os outros não sintam.”

Paula e a razão

Nas noites do Centro Espírita, Paula muda de papel nos atendimentos. Durante o dia, atua como médica. À noite, busca uma forma de tratamento que seus períodos de faculdade não ensinaram. Formada para confiar no que pode ser medido, diagnosticado e explicado, ela parece ocupar um território contraditório ao sentar numa cadeira de centro espírita esperando ouvir sobre energias, mediunidade e espiritualidade.

O cansaço de Paula surge do convívio diário com a fragilidade humana. Ela diz que foi a curiosidade que a trouxe até ali, mas talvez exista um certo esgotamento das respostas puramente racionais no meio disso. Existe uma complexidade em uma pessoa que

passa os dias tentando curar as pessoas através da ciência e, ainda assim, decide procurar respostas em algo que a própria ciência não alcança por inteiro: “Antes das cirurgias, faço sempre uma oração e os pacientes ficam surpreendidos quando veem isso.”

Ela comenta que existem Associações Médico-Espíritas no Brasil, que integram o conhecimento espírita à ciência médica através da educação, pesquisa e assistência em saúde e espiritualidade. Ainda assim, dentro da área, existem profissionais que desaprovam essa prática: “Eu tenho uma amiga que é médica também, e ela sempre me critica por frequentar o centro.”

Janete e o perdão

Já Janete estava cansada do ressentimento. Aos 55 anos, ela frequenta o Centro Espírita há quase uma década, num período de autotransformação, aprendendo lentamente a reorganizar-se enquanto pessoa. “Eu não sabia lidar com o ser humano”, admite ao relembrar dos conflitos cotidianos e mágoas acumuladas com que lidava. Foi no espiritismo que ela diz ter aprendido a agir diferente: “As pessoas ainda são complicadas, mas, hoje em dia, eu entendo melhor elas. Sei ouvir, agir, explicar.”

Parte desta mudança passa pelo difícil período em que acompanhou o ex-marido no tratamento

de um câncer. Foram nove anos entre idas e vindas de hospitais, cirurgias e as dores prolongadas pela doença. Janete lembra que o marido a desencorajava a frequentar o centro espírita. Porém, ela sempre insistiu não apenas em participar, mas em convencê-lo a conhecer o espiritismo.

No início, ele rejeitava: “Ele não acreditava de jeito nenhum, era contra,contra mesmo.”A insistência gerou resultados. Em torno de seis meses antes de falecer, o marido de Janete pediu que ela lhe apresentasse Reginaldo. A fé, antes motivo de discussão, havia se tornado uma forma de companhia e união nos momentos finais.

Janete não lembra desses momentos como tragédia. Para ela, problemas não existem, o que existem são reajustes. Os anos de desgaste com a mágoa evoluíram até restar apenas a compreensão. Hoje, ela segue aprendendo a evoluir nesta encarnação: “ Quando a gente começa a conhecer a casa, a gente fica com muita dúvida. Tem muita coisa que leva tempo para entender.”

O último recurso

A falta de alternativas talvez seja o maior motivo do cansaço. Reginaldo comenta que muitos chegam nos centros espíritas após passarem por médicos, remédios, diagnósticos e tratamentos. Ainda assim, não conseguem encontrar alívio real para aquilo que sentem: “Normalmente, as pessoas vêm aqui quando é o último recurso.”

Há um silêncio desesperado nisso. O centro espírita parece receber pessoas que já esgotaram outras formas de tentar organizar a própria vida. Pessoas que talvez não estejam mais procurando uma cura definitiva, mas um conforto. Isso explica porque a semelhança com uma Unidade de Saúde, só que compartilhada entre pessoas emocionalmente exaustas.

Quando a ficha 16 é chamada, o pedaço de papel já está jogado sobre a cadeira em que antes havia uma mulher de 60 anos. O salão da rua Mônaco já está mais vazio. As figuras que chegaram na abertura das portas já foram substituídas por outras. Os médiuns continuam fazendo os atendimentos, enquanto as fichas voltam a amontoar-se no balcão da entrada. São 21:30, e ainda tem muito a ser ouvido e sentido por trás das portas pálidas dos consultórios.

Um dia depois, debaixo do sol quentinho da manhã, a Ficha 16 limpa a calçada de sua casa. Ao cruzarmos os olhos, o assunto surge de imediato:

“Não ficou até o final?”

Ela responde um não tímido, tal qual o sim de seu aceite.

“E aí, como foi? Ficou com medo?”

“Ah, é diferente do que eu imaginava. Achei que fosse encontrar uma coisa mais pesada”, admite. “Mas não tive medo não”, comenta rindo, envergonhada dos próprios pensamentos preliminares: “Não sei se iria de novo, mas é um lugar bom.”

A conversa continuou, ainda que não por muito tempo. Mas antes de encerrar o expediente da vassoura naquela manhã, ela perguntou: “Tu não acha que todo mundo parecia um pouco cansado ali?”

AOS 16 ANOS, CASSIANO

DIVIDE A ROTINA ENTRE ESCOLA, SAUDADE DA FAMÍLIA E TREINOS NA EQUIPE

PROFISSIONAL DO SÃO JOSÉ DE PORTO ALEGRE

TEXTO E FOTOS MARCEL VOGT

No Brasil, o futebol costuma chegar por primeiro na vida das crianças. Antes do primeiro emprego, antes do título de eleitor e antes das responsabilidades da vida adulta. Ele aparece em ruas de chão batido, em quadras cercadas por alambrados enferrujados e nas casas de moradores que vivem ao lado de estádios e já se acostumaram com os gritos da torcida e o barulho seco da bola batendo nas placas do estádio. Crescer cercado por chuteiras, arquibancadas e camisetas de futebol faz parte da rotina de milhares de crianças brasileiras que aprendem cedo a transformar o esporte em sonho.

Para alguns, o futebol é lazer de fim de semana. Para outros, é possibilidade. Uma chance de mudar a realidade de casa, ajudar a família ou simplesmente ser visto em um país onde tanta gente passa despercebida.

Em meio a estádios gigantescos, contratos milionários e jogadores transformados em celebridades, existe um outro futebol. Mais silencioso, distante das câmeras e das grandes transmissões de televisão. Um futebol que sobrevive em clubes menores, espalhados pelos bairros das cidades, onde o sonho parece mais próximo da realidade do que do glamour.

Em Porto Alegre, no meio do bairro residencial Santa Maria Goretti, o estádio quase passa despercebido. Cercado por carros estacionados e pela rotina apressada de quem atravessa a rua rumo ao trabalho ou aos compromissos do dia, o local tem uma entrada simples e pequena marcada pela cor azul. As arquibancadas são modestas, os corredores estreitos e longos. A grama verde, bem cuidada, contrasta com a simplicidade do restante da estrutura.

Em uma cidade que abriga dois clubes milionários e acostumados aos holofotes, o Esporte Clube São José construiu sua história longe do protagonismo do futebol brasileiro. O clube, que disputa a Série D

O SONHO MORA EM

do Campeonato Brasileiro, abriga sonhos que ainda tentam encontrar espaço no futebol profissional. Ali, meninos chegam carregando mochilas, chuteiras e expectativas maiores do que o próprio estádio. Aos 16 anos, Cassiano Sgarabotto ainda acredita nessa possibilidade. O atleta é mais um entre milhares de jovens brasileiros que enxergam no futebol uma oportunidade de futuro. Enquanto muitos adolescentes da mesma idade ainda tentam decidir o que fazer da vida, ele já divide treinos com jogadores profissionais. O cenário está distante do glamour normalmente associado ao esporte, mas talvez seja justamente ali que o sonho mostre sua forma mais verdadeira. Mesmo com o treino marcado apenas para as 15h30, Cassiano chegou ao estádio antes das 13h. Queria acompanhar o treino dos amigos e participar da resenha que antecede as atividades. No futebol, o vestiário começa muito antes da bola rolar.

“Eu gosto de vir mais cedo, assim posso acompanhar os outros treinos, conversar com o pessoal e participar da resenha. Em casa eu ia estar sem fazer nada, então prefiro vir para o clube”, explicou. Cassiano acompanha o treino tentando se manter confortável. Usa meia e chinelo, calça de moletom e um casaco com capuz puxado sobre as orelhas para amenizar o

UM ESTÁDIO PEQUENO

vento frio daquela tarde. Em alguns momentos, se levanta para brincar com uma criança que acompanhava o treino do irmão mais velho. Mesmo nas brincadeiras, deixa escapar a intimidade com a bola. Faz embaixadinhas, domina com facilidade e devolve passes precisos, quase automáticos.

Quando chega a hora do treino profissional, Cassiano troca o chinelo por chuteira e a calça de moletom dá espaço ao calção de futebol. Ainda tímido perto dos jogadores mais velhos, Cassiano tenta se aproximar aos poucos da resenha que acontece antes da atividade começar. Mesmo conhecendo pouco do grupo profissional, participa da brincadeira no futmesa e arranca algumas risadas.

tornar jogador de futebol. Desde então, passou a viver em alojamentos de clubes e precisou aprender rapidamente a conviver longe da família. Natural de Barra da Guarita, município do interior do Rio Grande do Sul que faz divisa com Santa Catarina e tem pouco mais de três mil habitantes, o jovem percebe diariamente o contraste entre a tranquilidade da cidade onde nasceu e a correria da capital.

“Na minha cidade o tempo passa em câmera lenta. Lá no interior tem muito tempo para fazer as coisas, não tem trânsito, é tudo perto e parece que o dia demora três vezes mais para passar. A rotina aqui é mais correria e precisa estar ligado, preciso ser mais esperto também.” resume, como quem aprendeu isso na prática.

A saudade de casa aparece facilmente enquanto fala sobre a rotina longe da família. O conforto da comida pronta, das roupas lavadas e da tranquilidade de não precisar resolver tudo sozinho ainda fazem falta. Mesmo assim, o sonho de se tornar jogador parece falar mais alto.

“Eu fiquei um ano em casa, sem clube. Quando saí para vir jogar no São José, foi difícil. Em casa eu estava confortável, não precisava me preocupar com quase nada. Sinto bastante saudade do conforto de estar em casa.”

Durante a passagem pelo Paraná, quando atuou pelo Azuriz, chegou a ficar oito meses sem ver a família. O contato diário por telefone virou uma maneira de diminuir a distância e, ao mesmo tempo, tranquilizar os pais. Cassiano tenta passar segurança sempre que conversa com eles, mesmo sabendo que sair de casa tão cedo também exigiu maturidade da família. Ainda assim, diz gostar da vida na capital e da correria que acompanha a rotina de quem vive tentando espaço no futebol.

Ele explica que ficar na cidade da família não iria trazer a maturidade e o aprendizado que está tendo morando, por conta, nas capitais. Além disso, viver na metrópole o oportunizou conhecer novas pessoas, quase que diariamente e parece levar uma vida muito diferente da do interior.

Antes do início do treino, troca passes e prática domínio de bola com um dos atletas profissionais. O nervosismo aparece em pequenos detalhes: no silêncio maior que o normal, na tentativa de não errar movimentos simples e no olhar atento para tudo o que acontece ao redor. Ainda assim, tenta esconder a ansiedade para não deixar que ela atrapalhe a oportunidade de treinar entre os profissionais.

A vida longe da família

Apesar da pouca idade, Cassiano parece ter aprendido cedo a lidar com as responsabilidades da vida. Aos 11 anos, saiu de casa para tentar seguir o sonho de se

Hoje, o jovem atleta mora em frente ao estádio e divide o apartamento com quatro amigos que também são atletas do São José. “O clube não tem alojamento. Então meus pais pagam, e eu divido todas as despesas com os amigos”, contou.

O sonho

Diferente da imagem normalmente associada ao futebol profissional, marcada por fama, dinheiro e ostentação, o sonho de Cassiano parece caminhar por outro lado. Quando fala sobre o futuro, menciona primeiro a família. Quer conseguir dar uma condição melhor para os pais e para o irmão, a quem chama de parceiro. O futebol, para ele, aparece mais como oportunidade de transformação do que como caminho para celebridade.

Enquanto muitos jovens imaginam o sucesso nos grandes clubes da Série A, Cassiano pensa em possibilidades diferentes. Gostaria de jogar fora do Brasil, conhecer novos lugares e outras culturas, mas sem perder o foco na carreira. Sabe que chegar ao alto nível no futebol é difícil e fala disso com uma

sinceridade incomum para alguém da sua idade. O sonho existe, mas vem acompanhado da consciência de que o caminho até lá está longe de ser simples: “Eu tenho o sonho de me tornar jogador e vontade de conseguir jogar em algum clube da série A. mas eu sei que é muito distante. E se tiver a oportunidade de sair do Brasil, eu prefiro”.

Ao mesmo tempo em que se dedica ao esporte, também pensa na possibilidade de as coisas não acontecerem como imagina. Já cogitou diversas vezes um futuro distante dos gramados. Embora admita não ter um plano totalmente definido, não se vê trabalhando em algo convencional durante toda a vida. Pensa em construir o próprio negócio no futuro, talvez ao lado do irmão, e enxerga nisso uma forma de independência e prosperidade.

Mesmo jovem, Cassiano demonstra um pensamento racional sobre o futuro. Caso o futebol não dê certo, cogita buscar um bom emprego, fazer faculdade e usar isso como uma forma de crescer financeiramente antes de investir em algo próprio. A ideia de depender para sempre de um trabalho comum não

parece combinar com os planos que construiu para si mesmo.

A fé também ocupa espaço importante na vida do garoto. Entre um treino e outro, entre a saudade de casa e a incerteza natural de quem tenta viver do futebol, Cassiano se apoia na crença de que o esforço precisa caminhar junto com a fé. Para ele, o futuro ainda é indefinido, mas a dedicação diária continua sendo a única maneira de aproximar o sonho da realidade.

Estudos

Entre treinos, viagens e a rotina dentro do clube, a escola ocupa um espaço obrigatório na vida de Cassiano. Aos 16 anos, o jovem está no segundo ano do Ensino Médio e tenta conciliar os horários das aulas com a rotina puxada do futebol. Nem sempre é simples.

A escola, em alguns momentos, parece ficar em segundo plano diante da possibilidade de uma oportunidade nos gramados. O pensamento costuma estar mais voltado para os treinos, para os testes e para as chances que podem surgir dentro do clube. Cassiano destaca que já precisou faltar aulas

para poder treinar com o time profissional. Diante dessa situação, tentar mudar seu turno para o noturno e não se preocupar mais em faltar as aulas.

Diferente da facilidade que demonstra com a bola nos pés, a relação com os estudos parece acontecer mais por necessidade do que por identificação. Cassiano admite que nunca gostou muito da escola. As matérias nem sempre despertam interesse e ainda lida com a dificuldade de manter uma rotina fixa entre treinos e concentração. Mesmo assim, entende que continuar estudando é importante, principalmente pela incerteza que acompanha a carreira de qualquer jogador.

Mesmo não tendo grande afinidade pelos estudos, ele gosta de ler livros. Livros que a escola não obriga a ler, mas que, segundo ele, ensina muito sobre a vida e tem uma visão “para frente”.

Cassiano não esconde que prefere imaginar a vida ligada ao futebol. Mas entende que o estudo também faz parte do caminho. Não necessariamente por paixão, e sim por responsabilidade. Afinal, no universo do futebol, onde poucos conseguem chegar ao topo, ter outras possibilidades se torna uma necessidade.

Aos 16 anos, Cassiano ainda não sabe exatamente onde o futebol vai levá-lo. Talvez para grandes estádios, outros países ou apenas para lembranças de uma juventude vivida entre alojamentos, viagens e gramados espalhados pelo sul do país.

Nesse momento o menino prefere se agarrar na possibilidade de que todos os treinos, as saudades e as renúncias possam, algum dia, fazer sentido dentro de um campo maior do que aquele escondido entre ruas tranquilas de um bairro residencial de Porto Alegre.

RECOMEÇAR PARTIR PARA

Há uma mentira romântica que nos contam na infância sobre a realização de sonhos. Nos filmes e nos livros, o clímax acontece no exato momento em que a heroína cruza a linha de chegada, levanta o troféu, embarca no avião, chega na nova cidade. A tela escurece, os créditos sobem e nós somos poupados do que vem depois.

Na realidade, o processo de “sair da casa dos pais” apresenta uma dualidade no Brasil: segundo dados do Kantar Ibope Media, brasileiros entre 25 e 34 anos têm buscado moradia própria cada vez mais tarde. Em consonância com este dado, segundo o IBGE, um em cada cinco domicílios do país tem apenas um morador.

Quando crianças, bradamos frente a qualquer “não” recebido dos pais: “Quando fizer 18 anos, vou morar sozinho!”. Mas, quando a vida adulta chega, tudo que queremos é, de fato, voltar atrás. Ninguém nos avisa que o verdadeiro custo de conquistar o mundo não é pago em passagens aéreas ou diplomas, mas na moeda invisível da ausência. Paga-se perdendo os domingos com quem amamos, cozinhando uma sopa quente na primeira febre morando sozinho, sentindo uma indescritível saudade que esmaga o peito numa terça-feira qualquer.

A trajetória que me trouxe até aqui, num apartamento na capital gaúcha onde vivo o penúltimo dos meus vinte e poucos anos, não começou ontem. Começou lá em 2020, ano da pandemia global que

representou a interrupção precoce de tantas expectativas que pareciam sólidas e que demonstrou, de forma inquestionável, que nenhuma rota é totalmente segura. Foi quando optei pelo Jornalismo. Por quê? Talvez porque eu sempre fui criativa e expressiva demais, e a comunicação parecesse o único caminho possível para construir uma identidade que fosse inequivocamente minha, onde eu encontraria semelhantes e essas características seriam ouro e não algoz.

Nesse processo de busca, o meu “êxodo rural particular” era quase inevitável. Mas o mapa dessa travessia não é desenhado apenas com as minhas pegadas. Ele se cruza, incontáveis vezes, com os caminhos de outras duas mulheres que nasceram sob o mesmo céu que eu, em Tramandaí, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, e que, assim como eu, precisaram entender o que significa, de fato, amadurecer longe de casa.

O oceano de Sarah

Muito antes de eu sequer imaginar a minha própria mudança, houve a mudança de Sarah: uma menina que eu sempre conheci e, pelos laços formados em vida, posso determinar que somos família, mesmo que não haja DNA ou sobrenome semelhantes. Sarah Dias tomou a decisão capaz de despertar em mim uma profunda reflexão sobre coragem. Aos 18 anos, munida de mais sonhos e objetivos concretos do que fluência no inglês, Sarah fez as malas e partiu para construir a própria história nos

ENTRE DESPEDIDAS, DESAFIOS E RECOMEÇOS, A VIDA DE QUEM DEIXA O ACONCHEGO DE CASA PARA REALIZAR SONHOS E ESCREVER A PRÓPRIA HISTÓRIA

Estados Unidos, onde atuou como cuidadora, diarista e hoje trabalha no ramo da beleza.

Enquanto eu ainda tentava me encontrar nas ruas conhecidas de Santo Antônio da Patrulha, lidando com as inquietações de um prometido potencial que ansiava por mais, Sarah estava lá, desbravando o mundo de forma crua e real. “Foi uma oportunidade que apareceu em um momento da minha vida, e mesmo com muito medo eu decidi abraçar”, ela me contou, e eu senti o peso e a leveza de quem se apropriou da própria narrativa. “Não foi uma decisão fácil, porque significava deixar minha família, minha casa e tudo o que eu conhecia. Mas, no fundo, eu sentia que precisava viver essa experiência e descobrir até onde eu conseguiria ir”, disse.

A decisão de partir tem um caráter duplo: ela expande os horizontes, mas mantém o coração ancorado no ponto de partida. O maior desafio de crescer é que a vida continua acontecendo onde você não está. “Sem dúvida, a saudade da minha família é o mais difícil. Acho que só entende quem vive longe”, ela pondera. “Perder aniversários, momentos simples do dia a dia, não poder abraçar quando sente falta... isso dói”. Neste desabafo, pensei na Tiane – prima irmã da Sarah – e no Theo, o filhinho da Thiane, que nasceu quando a Sarah já estava longe: madrinha e bebê que nutrem um amor profundo, mesmo que o Theo nunca tenha sentido o colinho de dinda da Sarah. A solidão em um país estrangeiro acelera o relógio do amadurecimento. Sarah teve que aprender a ser forte sozinha, gerenciando responsabilidades que antes não precisava carregar. Mas a saudade, que poderia ter sido a âncora que a puxaria de volta, virou o próprio vento nas velas. “Eu tento estar presente na vida deles mesmo de longe, através de ligações, mensagens e videochamadas. Mas também aprendi que sentir saudade faz parte do amor que eu tenho por eles. Então, em vez de fugir disso, eu tento transformar a saudade em motivação para continuar.”

Para Sarah, o sacrifício fez sentido quando ela olhou no espelho e reconheceu a mulher que havia se tornado. “Teve um momento em que eu parei e percebi o quanto eu tinha mudado desde que cheguei. Eu vi uma versão minha mais madura, mais forte e mais corajosa, uma versão que talvez nunca tivesse existido se eu não tivesse saído da minha zona de conforto”,

TEXTO

n No dia 4 de maio, um novo começo: primeiro dia de Thiele como assistente de conteúdo digital na RBS TV

ela relembra. “Olhar para tudo o que enfrentei e, ainda assim, ver o quanto cresci, me emocionou, porque me fez entender que cada renúncia estava me moldando.”

Foi acompanhando essa bravura que, em meio a dias de angústia, muita enxaqueca e incertezas no início de 2025, cheguei a planejar rotas de fuga silenciosas. Inspirada por Sarah, eu queria resgatar a minha própria coragem. Precisava me movimentar e até calculei empréstimos para ir embora do Brasil – fato esse que meus pais estão descobrindo agora, lendo esse texto. Por qualquer que tenha sido a razão, a vida acalmou e esse plano adormeceu – novamente, não por acaso: o destino me reservava um espelho ainda mais próximo para refletir sobre e impulsionar a mudança que eu tanto buscava.

A coragem de Luisa

Se a Sarah representou um oceano, a Luisa era o meu reflexo mais familiar nas águas do litoral gaúcho. Minha prima da mesma idade, com quem cresci dividindo brincadeiras, vivências no CTG e uma cumplicidade de infância. Embora nossas origens fossem tão entrelaçadas, as formas como acabamos navegando pela adolescência, período em que deixamos de viver rotinas conjuntas, tomaram ritmos diferentes.

Enquanto eu atravessava instabilidades e inquietações típicas de uma fase turbulenta, tentando organizar ideias e aspirações que pareciam impossíveis e até sufocantes, a ótica que eu tinha era que a Lu trilhava o caminho com uma constância admirável: viveu a adolescência de festa de 15 anos, namoros, continuava no CTG e me parecia 100% leve, feliz e realizada. Nesse momento, estávamos afastadas das crianças que um dia fomos, que completavam as frases uma da outra. Foi muito tempo depois que eu descobri: a constância, aos olhos de quem vê de fora, sempre guarda consigo a exigência silenciosa de quem trabalha duro para construir o próprio espaço.

No dia 2 de agosto de 2025, Luisa Barbosa se formou em Estética e Cosmética. Naquela noite, com o diploma na mão, era a imagem da realização. Eu nem sabia que isso era possível, mas a

n Thiele (à esq.) e Luisa (dir.), primas de sangue e irmãs de coração, diviram a infância e, agora, na vida adulta, compartilham e se apoiam nos desafios da independência

minha irmã de coração foi oradora e juramentista na mesma colação de grau. Eu me emocionei a cada instante daquela noite, desde o convite, quando ela me disse que sabia que era véspera do meu aniversário – e eu respondi que não era uma questão, afinal, aniversário é um evento anual, enquanto celebrar aquela conquista com ela seria um momento único. Quando o calendário marcou a chegada do meu 3 de agosto, ela fez questão de cantar parabéns e de me celebrar, mesmo naquele momento que era tão dela. Quando nos despedimos, no final da festa, não sabíamos a próxima vez que iríamos nos encontrar pessoalmente: o carro da Lu já estava carregado e a mudança para Foz do Iguaçu aconteceria na manhã seguinte. “Já vinha desde a época da faculdade pensando que não gostaria de concluir o curso e não aplicar o que eu aprendi”, ela me explicou, com a firmeza

de quem tem os pés no chão. Ela tinha clareza do mercado e de seus próprios potenciais. “Existe muito uma questão de mercado, e a gente tem que ser realista para entender que as coisas não são tão favoráveis assim do lugar de onde eu venho. Precisava abrir os meus horizontes, ir para uma cidade turística, com outra movimentação.”

Foram 23 anos colada à estrutura familiar, onde ela se apoiou e depois tonou-se alicerce, principalmente para os avós idosos, João e Rosamaria, que foram parte fundamental da criação dela. Foi lá, na Tríplice Fronteira, que Luisa encontrou a sua versão mais independente da vida adulta. O movimento de conquistar o próprio espaço profissional cobrou sua taxa na rotina dos dias solitários. “O meu maior desafio, com certeza, foi lidar com a vida como um todo sozinha”, ela confessa. “Antes eu morava com a minha mãe, não tinha grandes contas para pagar. Já fiquei doente, tive que ir sozinha para o posto, comprar os remédios, me cuidar, acordar de madrugada para tomar a medicação e, mesmo assim, ir trabalhar no outro dia.

Coisa que, quando a gente é mais nova, a gente adia. Bota um atestado. Aqui não dá. Eu não posso e não quero”, conta.

A dor de estar vulnerável longe do nosso núcleo de apoio é um rito de passagem invisível. É ali que descobrimos nossa verdadeira resiliência. Para Luisa, ao mesmo passo que a distância e a solitude podem ser cruéis, também foram libertadoras. “Hoje, eu olho para a Luisa mais nova e me perdoo por algumas coisas. Entendi que eu consigo, que eu posso.”

Ao ver o carro dela partindo rumo a um novo estado, uma percepção silenciosa tomou conta de mim. A admiração que eu sentia pelas conquistas dela — a autonomia, a clareza de propósito, a coragem — evidenciou que minhas próprias raízes estavam fincadas em uma zona de conforto bem desconfortável, que não comportava mais quem eu queria ser. A grande questão que me assombrava –“por que eu não consigo também?” – esclareceu-se ali: eu não estava nem tentando.

O saldo dos primeiros

Dias depois da mudança da Lu, uma série de encerramentos profissionais e pessoais se sucederam na minha vida, inaugurando mais um período de incertezas. Fui inesperadamente demitida de um estágio que eu amava e enfrentei dias difíceis de batalha contra a minha saúde mental. Em meio àquele turbilhão, algo muito forte aconteceu: meus movimentos passaram a ser intencionais. Vendo o movimento de Sarah e Luisa pelo mundo, lembrei-me de que havíamos sido

criadas – quiçá, forjadas – para alçar voos maiores.

O aprofundamento do meu autoconhecimento me permitiu entender melhor o meu próprio funcionamento, dando nome a dinâmicas internas que por muito tempo me desafiaram. Pude parar de lutar contra mim mesma e, nesse caminho, o diagnóstico de TDAH foi com um abraço quentinho: a permissão para me perdoar sobre tudo que eu não tinha alcançado até então e traçar estratégias mais inteligentes para me tornar quem eu queria ser.

E, então, eu tentei. Em fevereiro, 11 dias como freelancer para a RBS TV foram encarados como os primeiros dias do resto da minha vida. Em março, um convite para assumir uma vaga fixa junto à maior emissora de televisão do estado. Em abril, peguei o carro sozinha e fui a Porto Alegre (pela primeira vez) cobrir um jogo do Inter (pela primeira vez) e, no dia seguinte, olhei oito apartamentos e, pela primeira vez, aluguei um deles. Em maio, o primeiro dia de trabalho na RBS TV.

Eu não teria me sentido apta a fazer nada disso não fossem todos os tropeços e percalços, fundamentais para entender que o meu momento havia chegado, com segurança e propriedade. E, com esse passo, veio a implacável lista dos “Últimos”.

Vivi a última noite dormindo no meu quarto na casa do meu pai. A última corrida de Fórmula 1 assistida com meu irmão no sofá de casa. O último “xis do Márcio”

dividido com o pai. A última tarde estendendo roupa no pátio com grama, no varal comum, sob o sol que era familiar. Os últimos trajetos cansativos e enjoativos, de ônibus, entre Santo Antônio da Patrulha e a Unisinos, em São Leopoldo. A última noite em que eu cheguei de volta da faculdade e meu pai estava me esperando na parada do ônibus. E, em troca, a capital me entregou a lista dos “Primeiros”, para a qual eu ainda não atribuo adjetivos. A primeira noite sozinha no meu novo espaço. A primeira ida ao supermercado e a constatação matemática do custo de vida. O primeiro boleto de aluguel pago, que me deu a chancela máxima da vida adulta: poder ditar as minhas próprias regras — desde os horários até os costumes mais simples. A primeira vez que fiquei doente e precisei me cuidar sozinha. A primeira vez que chorei de saudade, o primeiro Dia das Mães em que eu não estava com a minha – e liguei pra Luisa chorando para desabafar e perguntar “como que a gente faz isso?” – mas também a primeira vez que fiz uma focaccia do zero e, com o perdão de mais um clichê, senti o gosto irrefutável da independência.

n Abaixo: Crianças, Thiele (esq.), Sarah (centro) e Luisa (ao lado de Sarah) compartilharam momentos no tradicionalismo gaúcho. Ao lado: Sarah encontra nas vídeochamadas a solução para estar perto da família e compartilhar com eles os sonhos realizados nos EUA

A vida longe do nosso lar – seja por 90, 660 ou 6 mil quilômetros de distância – não é uma narrativa sem percalços. É entender que a independência caminha de mãos dadas com responsabilidades enormes, com saudades persistentes e com a necessidade de recalcular a rota constantemente.

Ao olhar para três mulheres que lideram a própria vida — seja lidando com os desafios da vida imigrante, gerindo os dias de trabalho no Paraná ou equilibrando as demandas vida profissional e acadêmica em Porto Alegre — percebemos que o salto tem o seu valor. No fim das contas, a conta está longe de acabar. Mas, por enquanto, o saldo dos “primeiros” é infinitamente mais brilhante do que a melancolia dos “últimos” – e assim seguirá sendo, enquanto formos fortes e corajosas.

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