ENFOQUE SANTA MARTA
SÃO LEOPOLDO / RS ABRIL/MAIO DE 2018
EDIÇÃO
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GIORDANO FOPPA
VAMOS FAZER MAIS PELO BAIRRO?
OBESIDADE
Hábitos alimentares infantis deixam voluntárias e pais em alerta. Página 3
PEDRO HAMEISTER
RENATA GARCIA
AMANDA WOLFF
AS MUDANÇAS DEPENDEM DE TODOS: DO PODER PÚBLICO E DA COMUNIDADE PÁGINAS 8 a 12
AMBIENTE
Conheça a história do aterro sanitário. Página 5
VIDAS
Pelas mãos de Helena, muitas crianças vieram ao mundo. Página 14
2. Editorial
S
eguindo a lógica de que o verão não se faz com uma só andorinha, dá pra afirmar que uma comunidade não pode ser feita por uma só pessoa, ou por um pequeno grupo delas. Na cantiga popular, a rua seria ladrilhada se pertencesse a alguém. E as ruas da Santa Marta são, de fato, daqueles que vivem nelas. Para que as reivindicações dos moradores se tornem realidade, é necessário que exista união de todos. Esta ideia não é apenas defendida por um representante ou outro.
ENFOQUE SANTA MARTA | SÃO LEOPOLDO (RS) | ABRIL/MAIO DE 2018
Essa rua é minha!
O ditado popular “duas cabeças pensam melhor do que uma” se tornou consenso porque é, justamente, popular. É o povo que sabe o que é melhor para si mesmo, e é ele quem precisa lutar pelas suas próprias causas. É certo que a Santa Marta pode se orgulhar de algumas conquistas. Mas é preciso avançar e se unir ainda mais. É essa premissa de coletividade que embala a oitava edição do Enfoque. Podemos ver nas histórias da parteira Helena, que ajudou muitas mães na difícil
tarefa de desembarcar vidas neste mundo, a força concreta da união. Ou no relato dos amigos Mário e Iolanda, que vivem há mais de duas décadas se ajudando na saúde e na doença, mesmo não estando mais casados. Em todas as narrativas, percebe-se que os braços que se entrelaçam são mais fortes comparados aos que se mantém cruzados. Falar sobre união não é uma questão simples. Muitas são as opiniões que divergem e os debates parecem não ter fim. Afinal, qual é a prioridade da
Santa Marta? Alguns dirão que é o asfaltamento das ruas, outros que é o investimento em educação. Pode surgir alguém reivindicando mais saúde, outrem pedindo saneamento básico. O que pode passar despercebido é que essas pautas têm algo em comum: elas beneficiam todos os moradores. Parece ser uma equação simples: se mais creches escolares forem construídas, mais crianças terão acesso à essencial educação da primeira infância. Se mais postos de saúde surgi-
rem, mais pessoas conseguirão utilizar gratuitamente os seus serviços. O que falta para avançar na concretização dessas demandas é, principalmente, o engajamento da comunidade nas questões que dizem respeito somente à ela. E é sobre isso que as próximas páginas falam: se as ruas, esquinas e encontros da Santa Marta são de todos, então, elas só podem ser feitas por todos. VITORYA PAULO GIORDANO FOPPA
QUEM FAZ O JORNAL O Enfoque Santa Mar ta é um jornal experimental dirigido à comunidade da Vila Santa Mar ta, em São Leopoldo (RS). Com tiragem de mil exemplares, são publicadas três edições por semestre e distribuído gratuitamente na região. A produção jornalística é realizada por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos São Leopoldo. Edelberto Behs (Coordenador do Curso de Jornalismo): (51) 3591.1122, ramal 1354 / edelbertob@unisinos.br Pedro Luiz S. Osório (professor responsável): posorio@unisinos.br
EDIÇÃO E REPORTAGEM — Disciplina: Jornalismo Cidadão. Orientação: Pedro Luiz S. Osório. Edição de textos: Amanda Mendonça Moura, Isaías Rheinheimer, Lucas Weber, Mainara Torcheto e Vitorya Paulo. Edição de fotos: Júlio Hanauer. Reportagem: Amanda Mendonça Moura, Andressa Puliesi, Bruna Bertoldi, Caroline Tidra, Helen Appelt, Isaías Rheinheimer, Jéssica Santos, Jessica Trajano, João Rosa, Júlio Hanauer, Kellen Dalbosco, Lucas Weber, Mainara Torcheto, Mariana Artioli, Paola Guimarães, Stefany Rocha, Tainah Gil e Vitorya Paulo. FOTOGRAFIA — Disciplina: Fotojornalismo. Orientação: Flávio Dutra. Fotos: Amanda Wolff, Arthur Schneider, Audrey Scheffer, Bruna Lago, Camila Tempas, Cristiano Junior, Emerson Santos, Fabrício Santos, Fred Wichrowski, Giordano Foppa, Karolina Bley, Ketlin de Siqueira, Kévin Sganzerla, Laura Blos, Letícia da Costa, Lianna Kunst, Lucieli Faedo, Matheus Klassmann, Nadine Dilkin, Pedro Hameister, Renan Barão, Renata Garcia, Sara La Roque, Sara Nedel, Thariany Mendelski e Vitória Hnszel. ARTE — Realização: Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia. Diagramação: Nathalia Haubert. IMPRESSÃO — Realização: Gráfica UMA / Grupo RBS. Tiragem: 1.000 exemplares.
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Avenida Unisinos, 950. Bairro Cristo Rei. São Leopoldo (RS). Cep: 93022 750. Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: Pedro Gilberto Gomes. Pró-Reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Alsones Balestrin. Pró-reitor de Administração: Luiz Felipe Jostmeier Vallandro. Diretor da Unidade de Graduação: Gustavo Borba. Gerente dos Cursos de Graduação: Paula Campagnolo. Coordenador do Curso de Jornalismo: Edelberto Behs.
Saúde .3
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Obesidade infantil preocupa Antes focada na desnutrição, mudança de hábitos altera atuação da Pastoral da Criança
A
s bochechas rechonchudas ressaltam no sorriso fácil de Amanda Gabrielly Duarte de Souza, de quatro anos. É ela quem atende a voluntária da Pastoral da Criança, Salete de Paula Zorzi, no portão da sua casa. Salete acompanha a menina desde o seu nascimento e tem orientado sua família sobre um problema que vem crescendo: a obesidade infantil. Nos últimos anos, as mulheres que realizam os acompanhamentos da Pastoral vêm percebendo uma mudança de cenário na alimentação das crianças atendidas. Ao iniciar o trabalho na vila, há quase 20 anos, Salete conta que a desnutrição era muito presente. “Era distribuído um suplemento alimentar para as crianças de famílias extremamente pobres e que passavam por esse problema”, explica. Mas essa situação começou a mudar. Hoje, grande parte das crianças atendidas estão acima do peso, o extremo oposto do que era visto há anos. Terezinha Fátima da Rosa, também voluntária, percebe como grande fator a A partir dos mudança de hábitos alimencuidados tares das famílias, principal- com a filha, Kellen mente através do consumo de busca mudar a fast-foods (comidas comer- alimentação cializadas prontas). “Hoje a da família gente vê muito a ingestão de alimentos industrializados e doces. E os pais têm uma grande influência nisso, pois os filhos acabam se espelhando e comendo o mesmo que eles”, observa. Kellen Correa Duarte, mãe de Amanda sabe da importância da mudança de hábitos para uma melhora na saúde da filha, que teve seus problemas respiratórios agravados com o sobrepeso. A família possuía o costume de ingerir alimentos ricos em açúcares e gordura. “Comprávamos muito refrigerante e lanches e dávamos muitos doces pra ela”, lembra. Ela admite que mudou seus hábitos alimentares por causa da filha. “Já marcamos consulta para ela, para fazer os exames e acompanhamento”, cita. Segundo a mãe, a inserção da filha na escola auxiliou na mudança de hábitos, inclusive Amanda, com organização de horários de apenas para a alimentação. “Desde quatro anos, é uma o início das aulas já perdeu das 70 crianças cinco quilos. A escola tem sido acompanhadas fundamental para que a gente também mude para ajudar ela”, acrescenta orgulhosa. Ela também procura estabelecer essa rotina saudável para o filho Arthur Gabriel Duarte de Souza, de pouco menos de um ano. Amanda já entende o trabalho da pastoral. Ela também espera e decorou os dias das visitas de Salete. A pesagem das crianças, realizadas pelas voluntárias a cada três meses, a influenciou a ingerir frutas sem fazer careta e também é um momento muito aguardado pela criança. No dia, lanches saudáveis são distribuídos pela Pastoral. “Eu gosto muito de comer banana”, diz Amanda, elegendo sua fruta favorita.
Voluntárias orientam sobre alimentação mais saudável
COMPROMISSO E TRABALHO
Cerca de 70 crianças recebem o atendimento de sete voluntárias que atuam hoje na Santa Marta através da Pastoral da Criança, organização de ação social da Igreja Católica. Um dos trabalhos realizados é o acompanhamento nutricional das crianças de 0 a 6 anos. As visitas ocorrem no terceiro sábado de cada mês e a cada três meses há um dia da pesagem para verificar o desenvolvimento das crianças. Dentro desta ação, as famílias recebem um folheto com orientações, de acordo com as necessidades de cada um. Segundo Terezinha, ainda há muitas crianças na vila que não são acompanhadas devido à falta de voluntários. “Ninguém quer se comprometer, pois é uma atividade que exige um envolvimento de quem participa. É difícil encontrar pessoas que se interessem”, lamenta. Salete comenta que cada participante pode acompanhar até quinze crianças, para garantir um bom desenvolvimento do trabalho. “Seria ótimo se pudéssemos contar com mais voluntários, pois significa mais crianças atendidas”, complementa.
ALTERNATIVAS E INCENTIVO
Especialista em Nutrição infantil, Camila Henz Scarpatto ressalta que a vida corrida de muitas famílias é um dos principais agravantes para hábitos pouco saudáveis. “Com isso, as pessoas acabam optando por alimentos de produção rápida ou prontos, que geralmente são ricos em sódio, gorduras e açúcares”, diz. Ela chama também chama a atenção dos pais para que não ofertem açúcares desde cedo para as crianças, que inclui os sucos industrializados e refrigerantes. “Tudo é questão de costume e incentivo”, destaca. Criar atrativos para que as crianças desenvolvam o paladar por comidas ricas em vitaminas e nutrientes também é um desafio que pode resultar em adultos mais saudáveis. Uma das alternativas citadas por Camila é desenvolver uma horta na própria casa. “É uma opção onde o investimento é baixo e geralmente único. Inserir a criança no cuidado com a horta é um incentivo para que ela ao menos tenha interesse em experimentar os alimentos plantados e que tiveram sua própria contribuição”, compartilha.
Dados da obesidade De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2017, 41 milhões de crianças com menos de cinco anos são obesas ou estão acima do peso no mundo. No Brasil, a tendência também preocupa, com um terço das crianças nesta realidade. JÉSSICA SANTOS AMANDA WOLFF
4. Educação
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Alimento e conhecimento, produtos da horta escolar Alunos e pais participam do programa de conscientização ambiental em contraturno
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ce, cebolinha, repolho, couve, entre outros alimentos que são ofertados também nos lanches as crianças. A horta também serve de ferramenta na educação para os alunos fora do horário curricular, como explica o coordenador do Pasec Luiz Fiorentin. O programa chega a atender famílias inteiras, como é o caso de Michelle Santos Munhoz. Ela e os irmãos participam do Pasec desde o ingresso na educação fundamental.
Programa de Ação Socioeducativa na Comunidade (Pasec) surgiu na comunidade Santa Marta com a ideia de envolver jovens e crianças em atividades de educação ambiental durante contraturno escolar. O projeto faz parte do calendário de desenvolvimento social ofertado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos à comunidade de São Leopoldo. Desde 2010 o Pasec difunde técnicas para produção de hortaliças e plantas medicinais através da “Horta Mãe da Terra”. Ainda na idade de educação básica, as crianças contam as experiências de aprender com a terra. Na rua Nove se encontram duas meninas gêmeas meio envergonhadas. Elas participam do programa às segundas, quartas e sextas-feiras à tarde. Emili e Yasmin Bobsin Moura da Rosa, ambas com oito anos, estiveram no último mutirão ecológico, que iniciou em frente a Escola Municipal de Ensino Fundamental Santa Marta, dia 13 de abril. Limpando a horta e preparando o terreno para o próximo plantio elas aprenderam a melhor época para plantar cada alimento. Desde a primeira série estão no programa e já sabem como funciona o ciclo da bananeira, por exemplo: “Elas precisam de muita água para viver”, obO jovem Gabriel e sua mãe Clair serva uma delas. A m ã e d a s participam das meninas também atividades propostas é envolvida nas pelo programa atividades. Giulia Aparecida Bobsin da Rosa conta que os pais são convidados a participarem das oficinas e dos mutirões que acontecem quatro vezes ao ano. Nos encontros são confeccionados desde chaveiros até caixinhas decoradas com papel reciclado do filtro de café. Também são oferecidas para as crianças brincadeiras e atividades com temáticas relacionadas ao meio ambiente. As participantes foram levadas ao Zoológico de Sapucaia do Sul, em uma das atividade de passeio para as crianças. Na “Horta Mãe da Terra” são plantadas mudas de alfa-
Atualmente a menina está no sétimo ano e conta que tem frequentado regularmente as atividades no seu contraturno escolar. “Nossa horta está tão bonita, passou a escavadeira e deixou tudo pronto para a gente plantar. Dessa vez vamos voltar a plantar cenoura. A gente deixou tudo limpinho”, diz ela. Irmão mais novo da menina, Gabriel Santos Munhoz também participa do plantio e dos cuidados com a horta. Ele conta que mui-
tos alunos não querem saber de cuidar das mudas, mas ele gosta de mexer na terra. Clair Alves dos Santos, mãe dos alunos Gabriel e Michelle, afirma que também se envolve no programa por influência dos filhos. No mês das mães ela participou de uma oficina de artesanato com o filho mais velho Fabricio Santos Munhoz, que já finalizou o programa. Ela explica que as professoras estão sempre atentas às notas das crianças
e os filhos compartilham em casa a aprendizagem da escola. A família está na Vila Santa Marta há treze anos.
CONVIVIO E CONSUMO
Os encontros acontecem dentro da Escola Municipal de Ensino Fundamental Santa Marta e promovem, além do plantio, a educação alimentar. Os alimentos colhidos na horta são consumidos pelos próprios participantes e seus familiares. Um quiosque serve de apoio para o programa, dentro da escola. Foi reformado com o apoio da comunidade e agora nele são realizados almoços após os mutirões ecológicos no local, com o apoio da comunidade. Algumas ferramentas e mudas foram roubadas do quiosque , que chegou a ser incendiado e agora tudo permanece trancado dentro da escola. No mês de abril as crianças e jovens trabalham as questões indígenas. A Escola desenvolve com os alunos o respeito e a valorização do conhecimento provenienAs duas irmãs te dessa cultura. A utilização dos regêmeas cursos naturais de aprendem juntas forma responsável sobre o ciclo de plantio é a primeira lição passada aos participantes do programa, que atende um público dos 6 aos 15 anos. Uma preocupação que vai além do trabalho manual, mas que também busca resgatar a autoestima comunitária para fortalecer os vínculos familiares e sociais. “Nossa ferramenta pedagógica é um espaço na horta. Os participantes são envolvidos na escolha das espécies de hortaliças, plantio, manutenção dos canteiros e na colheita dos produtos gerados na horta”, conta o coordenador do programa Gelson Luiz Fiorentin. Toda família do aluno que ingressa no Pasec recebe uma visita para efetuar o cadastro e verificar possíveis vulnerabilidades sociais. Conforme explica o coordenador Gelson, dessa maneira é possível não só identificar as necessidades da comunidade como também conhecer melhor os participantes. JÉSSICA TRAJANO ARTHUR SCHNEIDER
Ambiente .5
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A desativação ocorreu devido ao tempo de vida útil: 20 anos de funcionamento
Paisagem que pede cuidados Implantado em 1991, o antigo aterro municipal de São Leopoldo é monitorado, mas requer atenção
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ntre casas e solo irregular, um morro é visível aos olhos de quem passa pela rua principal da vila. Nele funcionava o aterro sanitário municipal, desativado em 2011 e coberto, por isso é designado como “remediado”. Mesmo inativo, pode prejudicar a população. Moradores antigos lembram de quando o aterro operava, mas os novos desconhecem a história. Aterros sanitários cumprem um papel importante, pois solucionam parte dos problemas causados pelo lixo produzido nas cidades. Contudo, há critérios básicos para a seleção do local. Após a desativação do aterro, a decomposição continua embaixo da terra e desse processo saem dois poluentes: o gás metano e um líquido conhecido como chorume. Para acompanhar as condições do aterro e o impacto no ambiente, a Prefeitura de São Leopoldo é encarregada de monitorar e realizar relatórios de análises. Conforme Éverton Correa, funcionário municipal, responsável pelo acompanhamento da destinação final do lixo urbano, a desativação do aterro municipal decorreu em virtude do cumprimento de vida útil, cerca de 20 anos funcionamento. Com a intenção de amenizar visualmente o local e criar condições para sua proteção, Éverton relata que foi feito
o isolamento e é mantida uma vegetação no perímetro. O aterro sanitário utilizado atualmente está instalado a aproximadamente 3 km do antigo. Este, administrado pela Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos (CRVR), recebe o lixo de São Leopoldo e de diversas cidades do Vale do Rio dos Sinos.
COOPERATIVAS
No mesmo local do antigo aterro funcionam duas cooperativas. A Cooperativa de Catadores e Reciclagem de Resíduos (Cooperesíduos) faz a triagem dos resíduos sólidos e rejeitos urbanos que chegam nos caminhões. O lixo é depositado no “fosso” e de lá são retirados os materiais para reciclagem. O restante é encaminhado para o aterro sanitário da CRVR. A Cooperativa Nova Conquista é uma associação de reciclagem que integra o Programa de Coleta Seletiva Compartilhada do município. Trabalha com resíduos recicláveis secos. Os cooperados de ambas se sustentam separando lixo.
mar Zwetsch,o empreendimento não apresenta riscos aos moradores da comunidade. “Desde 2012 são realizadas análises e o monitoramento do local, além de manutenção da cerca, a roçada e o plantio”, conta o diretor. Sobre a emissão de gás metano, Zwetsch afirma que a geração do gás é mínima e varia conforme as condições climáticas. Ainda destaca projetos futuros de melhoramento do local a partir de estudos nos aterros encerrados, como esse na Santa Marta.
EFEITOS NA VILA
Rosângela de Souza é uma das moradoras que tem sua casa
próxima ao aterro desativado. Há 20 anos ela trabalha na Cooperativa Nova Conquista e conta que tem noção dos perigos,pois recebeu educação ambiental na cooperativa.“Nós gostamos do lugar e preferimos ficar na Santa Marta”, relata.Além disso, Rosângela conta do acompanhamento que acontece no aterro. “Eles vêm aqui, cuidam dos canos do gás, plantam árvores,cortam a grama. O mau cheiro diminuiu”. Paulo Prestes, integrante da Associação de Moradores da SanNa Cooperesíduos é feita a triagem dos resíduos recicláveis e rejeitos urbanos
MONITORAMENTO
O monitoramento do aterro desativado é de responsabilidade da Secretaria Municipal de Mobilidade e Serviços Urbanos (Semurb), que periodicamente tem deve apresentar relatórios de análises à Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Estado (Fepam). As análises são realizadas nas águas subterrâneas e superficiais e no chorume bruto e tratado. Conforme o diretor de Limpeza Pública da Secretaria de Serviços Públicos (Sesp), Gil-
Alertas l De acordo com a Fepam, é sugerida a distância mínima de 500 metros de núcleos populacionais e 2000 metros de área urbanizada para minimizar o contato dos poluentes com a população. l Evite plantar e consumir vegetais cultivados próximos ao aterro. l Não consuma água de poços artesianos. l Qualquer dúvida entre em contato com a Semurb pelo fone (51) 22000321.
ta Marta, conta que já existiam moradores quando o aterro foi construído na vila. Ele fala que ao invés do poder público fiscalizar a proximidade dos moradores ao aterro,o problema passou de gestão em gestão. “Não vi nenhum governo ser bom para a Santa Marta. Os prefeitos deixam os problemas para os próximos resolverem”, afirma Paulo. Já Sirlene de Oliveira, moradora da Rua Três, paralela ao antigo aterro, chegou a vila há dois meses e não sabia do aterro sanitário desativado atrás de sua residência. Ela relata o mau cheiro em dias de quentes, causado pelo chorume, e também da umidade do solo. “Quando eu e meu marido viemos para cá ninguém contou que era um aterro”, conta a dona de casa. A engenheira ambiental, mestre em recursos hídricos e saneamento ambiental Sara Ceron Hentges, indica possibilidades de risco no uso dos recursos naturais: solo, água e ar. “O aterro produz por natureza o chorume, o gás da decomposição e o mau cheiro. Causas que tornam inviável o consumo humano de água do lençol freático e o plantio”, salienta. Outro alerta da especialista foi sobre o funcionamento da Cooperesíduos. Ela considera que o local pode facilitar a proliferação de animais transmissores de doenças.“Atriagem gera movimento e por isso devem-se ser mantidos procedimentos de higienização na unidade,bem como condições sanitárias e operacionais adequadas,” complementa. CAROLINE TIDRA RENATA GARCIA
6. Superação
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Luta vitoriosa contra a doença Após passar por problemas de saúde, Marilaine Alves recomeça a vida praticando arte marcial
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om um sorriso e uma alegria contagiante, Marilaine Schneider Alves, 37 anos, é outra mulher após sofrer com problemas de saúde. Residindo na Vila Santa Marta desde 2008, a moradora passou por uma fase complicada durante seis anos. Em 2011, ela descobriu que estava com câncer de colo de útero. “Eu não aceitava o câncer, mas também não questionava Deus porque, só pensava que se eu estava passando por isso é porque sou capaz.” Marilaine relata que um dos momentos mais difíceis foi revelar para os filhos Aguinaldo Júnior (17) e Larissa (12) sobre o câncer, pois temia a reação deles. “Só contei do câncer para eles quando tive alta, pois até
Lutadora destaca o certificado de graduação do Muay Thai um dos seus maiores orgulhos
então não tinha coragem de falar. Eles escutavam muito que quem tem câncer morre. Porém quando contei sobre a doença, disse que comigo seria diferente, que teria apenas algumas limitações.” Durante o tratamento a moradora teve outra surpresa, foi diagnosticada com hemofilia A (doença hereditária, caracterizada por problemas de coagulação do sangue). Marilaine comenta que já havia uma desconfiança de ser portadora da doença. “Comecei a ser tratada como hemofílica antes do quadro se fechar. Porque sofria hemorragias frequentes. ” Ela explica que a dificuldade para o tratamento no início foi bem complicado devido à falta de experiência dos profissionais da saúde.
RENASCIMENTO
Após os problemas que sofreu, Marilaine destaca essa nova fase como um “renasci-
mento”. Com incentivo do filho Aguinaldo, ela voltou a estudar depois de 20 anos e está no segundo semestre de Técnico em Administração. “Meu sonho era voltar a estudar, pausei os estudos porque casei cedo e depois tive que cuidar dos meus filhos. Agora vou começar a fazer coisas que eu tinha vontade de fazer e me privei durante tanto tempo.” Quando começou a recuperação, Marilaine sentiu necessidade de mudar sua forma de viver. O primeiro passo foi praticar exercícios físicos. Iniciou andando de bicicleta para ter resistência e logo após começou a praticar a arte marcial tailandesa Muay Thai. “Estava com 80 kg e sabia que isso não era bom para quem tem câncer. Então tive que fazer alguma coisa para continuar melhorando.”Reconhecendo os problemas de saúde, Marilaine contou com apoio do mestre Alzemir e os colegas do Muay Thai. “De-
pois que fui diagnosticada com hemofilia, eu tive que parar de fazer as graduações (lutas), e recebi apoio de todos. Eles são uma família para mim, fui acolhida no Muay Thai.” Marilaine garante que se não fosse as fases difíceis que passou, não pensaria em mudar a sua vida. “A gente só tem esse despertar quando leva um choque de realidade. Estaria ainda vivendo na zona de conforto se não tivesse passado por tudo que passei.” Agora Marilaine sonha e tem o objetivo de continuar no Muay Thai. “A partir do ano que vem quero começar a dar aulas de Muay Thai, ser instrutora.”
AFETO FELINO
Ela sempre gostou de animais e desde criança teve cachorros e gatos, mas não imaginava que um dia receberia o carinho deles nos momentos mais difíceis da sua vida. Dona de quatro animais de estima-
ção, dois cachorros (Baronesa e Lady) e dois gatos (Miauti e Melina), ela conta que recebeu carinho especial de um deles: Miauti. Gato de raça siamês, abandonado, que chegou em 2014 resgatado por ela. Na época, ela já estava diagnosticada com câncer e o filhote de siamês foi fundamental para a sua recuperação. “Quando o Miauti apareceu, ele era filhote e eu estava muito debilitada. Então parece que ele sentia toda vez que eu estava passando mal e ficava perto de mim. Quando minha angústia passava, ele ia pra rua e vomitava muito. Talvez fosse o que eu pensava, mas aquela dor passava. Após isso, ele ficava afastado de mim, como se estivesse repondo as energias dele. A minha ligação com ele é muito forte. Em todos os momentos difíceis ele está comigo.” ANDRESSA PULIESI KAROLINA BLEY
Parceria .7
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Amigos de lida e vida Batalha diária reforça laços entre Jonatas e seu cavalo
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ndando pela Rua Santa Marta, de longe era possível escutar uma das canções mais famosas da dupla sertaneja Matogrosso & Mathias: “Tentei te esquecer”. Fora do pátio, uma carroça estacionada, com os relhos
pendurados na lateral e sem o cavalo. Aquilo demonstrava uma pausa na rotina, enquanto um jovem fazia a lida no pátio. Bastou sorrir e chegar no portão para que o moço corresse para baixar o volume do rádio e nos atendesse. A simplicidade e timidez de Jonatas da Silva Oliveira eram reveladas pelo seu sorriso. O jovem de 20 anos en-
costou-se à cerca de madeira e nos permitiu conhecer um pouco de sua vida. Desempregado há mais de um ano, não viu outra solução a não ser adquirir uma carroça e um cavalo. Com a ajuda de sua esposa, Tatiane Severo, o serviço diário envolve frete de móveis e coleta de materiais recicláveis, que ocorre da cata até a separação.
LBebezão só não entra em casa porque é grande e pesado, conta o carroceiro
Papelões, latinhas, garrafas e muitos outros resíduos não são apenas lixo. Os materiais juntados representam sonhos, sobrevivência, sinal de garra e esperança. Demonstram a força de vontade daqueles que trilhavam o caminho do desemprego e buscam uma nova oportunidade. A preparação da carroça com as selas, arreios, canzis e seu cavalo
para sair à cata de lixos é uma rotina de segunda a segunda na vida do casal.
XODÓ DA FAMÍLIA
Adquirido à prestação, o cavalo chamado de Bebezão não é apenas um ajudante do trabalho de Jonatas e sua esposa. Além de companhia durante as catas e fretes, tornou-se o xodó da família. Sorrindo o jovem contou sobre o cuidado com o amigo. “Trabalhamos todos os dias para tirar o sustento dele e o nosso. Só não entra em casa porque é grande demais e nosso chão é assoalho. ” Alegre, Jonatas conta como seu Bebezão é amável com os familiares. A atenção é toda dele quando o pessoal chega para visitá-los. Porém, pessoas desconhecidas não têm vez em cima da carroça. “O danado empaca e não anda de jeito nenhum”. Pedimos para conhecer Bebezão que, por sinal, ficou desconfiado com aquela gente estranha em seu território. Jonatas o acariciou e trocou olhares até que ele se acalmasse.
ALÉM DO TRABALHO
Posaram juntos. Um registro para mostrar que um cavalo não é só um animal para trabalho pesado. Trata-se de um grande companheiro. Homem e cavalo compartilham lutas, histórias e caminhadas. As cargas tornam-se mais leves. Sejam cargas de vida ou de trabalho. A relação do carroceiro e de seu cavalo pode até não ser percebida pela sociedade, mas é cultivada pelos dois. HELEN APPELT THARIANY MENDELSKI
Santa Marta no mapa A próxima edição do Enfoque contará com algo muito especial. Um mapa da comunidade está sendo produzido e será veiculado em forma de um pôster. Mas não será um mapa comum. O mapa está sendo desenvolvido com os moradores e contará com os principais locais da comunidade segundo os próprios moradores. Nos dias 14 de Abril, a equipe do jornal percorreu toda a vila voltando a fazer isso dia 12 de maio para entrevistar os moradores sobre quais os pontos
que devem ser registrados no mapa. Pode ser a sua igreja, algum mercado, ou empreendimento da região. O que a comunidade achar pertinente o Enfoque colocar no mapa. Mas não se preocupe se você não foi entrevistado e gostaria de participar. Entre os dias 12 e 17 de maio, você pode participar via e-mail. É só mandar uma mensagem para enfoquesantamarta@gmail.com LUCAS WEBER
8. Participação
Para não esperar Um trunfo para se obter conquistas é a união da comunidade. Mas, afinal, qual o engajamento dos moradores da Santa Marta?
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processo de desenvolvimento de uma comunidade, especialmente aquela instalada em uma área irregular, como é o caso da Santa Marta, requer a mobilização dos moradores. É uma receita simples e caseira, mas é senso comum que a reivindicação popular, quando feita em coro, tem um efeito diferente do que quando feita por um grupo restrito de pessoas. Por isso, nestes casos, é importante não esperar de braços cruzados que as coisas aconteçam. A Santa Marta é uma comunidade pequena, que enfrenta muitos problemas em vários setores. Mas por que, nas suas três décadas de existência, o bairro não conquistou, ao menos, ruas calçadas e o mínimo de saneamento? Uma das respostas para essa pergunta pode ser o fato de a comunidade local esperar que as coisas se resolvam somente pelas mãos e boa vontade do poder público. Só que existe outra maneira de alcançar os objetivos, que é através da união de forças. Para entender os motivos da falta de participação da comunidade nas decisões políticas da vila, o Enfoque Santa Marta saiu pelas ruas para perguntar aos moradores o que eles já fizeram pelo próprio bairro, por que deixaram de fazer ou por que nunca fizeram, e procurou pessoas engajadas em busca de conquistas à vila. ISAÍAS RHEINHEIMER LAURA BLOS
Unidos e lutando pelo bem estar e por qualidade de vida, moradores da Santa Marta tem tudo para sair bem na foto
Um por todos e todos por um! Por Clóvis V. Gedrat (*) A história dos Três Mosqueteiros é famosa no mundo inteiro, pois mostra um pequeno grupo de pessoas que tinham honra e valor pessoal. Juntos, lutavam e entregavam suas próprias vidas a serviço do seu povo e país. Sua luta era a favor da justiça, da ordem política e social da sua nação. Os Mosqueteiros era um grupo pequeno e sua força não estava no número de pessoas e, sim, na união e no companheirismo que existia entre os membros do grupo. Por isso, seu lema era: um por todos e todos por um.” A comunidade da Santa Marta pode aproveitar a lição dos Mosqueteiros no sentido de descobrir que sua força está na coletividade. A palavra é muito bela, pois descreve um espírito de unidade e uma força que está nas pessoas do bem. Pessoas do bem buscam interesses políticos comuns. Interesses políticos são interesses públicos, ou seja, interesses coletivos, interesses dos cidadãos. As disputas partidárias e ideológicas não fazem sentido algum se não conseguimos viver numa comunidade, num bairro e cidade. Ao contrário: quando unimos os nossos esforços próprios com os que estão próximos a nós, vamos perceber
que juntos somos mais fortes, algo que os Mosqueteiros tinham descoberto e que era o seu segredo de força e união. Outra coisa importante quando falamos de união e de coletividade, é o diálogo. Saber ouvir as outras pessoas ao nosso redor é sinal de força interior, pois pessoas que não sabem ouvir aos outros não conseguem tomar decisões importantes para a coletividade. Quem não escuta vira ditador! Igualmente, todas as pessoas da comunidade precisam saber que são importantes na construção da sociedade, independentemente de sua situação
Todas as pessoas da comunidade precisam saber que são importantes na construção da sociedade
social e econômica, político-partidária, religiosa, escolar, etc. Ter certeza de sua importância neste processo é compreender que a união de um por todos e todos por um não vai ficar a espera de promessas e favores dos órgãos governamentais e das promessas de campanhas. Precisamos saber, cada um de nós, que nós somos agentes importantes para a mudança de nossa sociedade. Cada um, no seu lugar, deve ser um agente de transformação e promotor da paz social. Afinal de contas, pessoas “do bem” lutam pelo bem, pela ordem e pala paz. Pessoas “do bem” não levam uma vida de ódio, raiva e inveja, antes superam isso com vontade, coragem e fé. Precisamos de pessoas de bem que tem fé e se tornem líderes, que busquem e lutem pela unidade da comunidade e de seus interesses coletivos. Por isso, moradores e moradoras do Santa Marta, um por todos e todos por um bairro Santa Marta mais cidadão e mais humano. Acredite no seu valor individual. Seja agente de transformação, tenha fé e não desista de acreditar e lutar por um bairro Santa Marta que sirva de modelo a muita gente! (*) Professor e coordenador do curso de Filosofia da Unisinos
ENFOQUE SANTA MARTA | SÃO LEOPOLDO (RS) | ABRIL/MAIO DE 2018
de braços cruzados Se não formos nós, então quem? Além de educar, a Escola pode ser responsável pela promoção e transformação local quando ultrapassa seus muros
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om o slogan “Se não formos nós, então quem? Se não for agora, então quando?”, o Projeto do Governo Federal Com-Vida (Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola) é realizado na Escola de Ensino Fundamental (EMEF) Santa Marta, coordenado pela professora Sandra Groeh. Ele consiste em envolver a comunidade escolar por meio de iniciativas voltadas para a sustentabilidade socioambiental e à melhoria da qualidade de vida na escola e na comunidade. Semanalmente, alunos se reúnem no contraturno escolar para debater suas preocupações, identificar os problemas e, junto com professores, desenvolverem ações socioambientais e educativas. Um dos programas atuais é o “Água Viva: salve o Arroio da Manteiga”. Através da identificação da poluição do arroio que contorna grande parte das residências na Santa Marta, alunos e professores visitam as redondezas. São realizadas a marcação de área para a instalação de um círculo de bananeiras, com objetivo de tratar e filtrar a água. Mas, o o projeto ainda têm pouca participação dos moradores. “Não estamos conseguindo adesão. Todos conhecem o projeto, apoiam, mas não temos participação”, relata Sandra. Outra iniciativa é o Movimento Bairro Melhor, que busca promover a sustentabilidade do bairro, possibilitando o protagonismo comunitário e a sensação
de pertencimento ao local. Canteiros e locais em comum foram revitalizados e placas de sinalização foram colocadas com apoio de alunos e moradores Conforme a professora Sandra, com as ações do Com-Vida, já foi possível atrair o olhar da administração municipal. A Secretaria de Educação concedeu 20h semanais a uma professora, para auxiliar na realização dos projetos. Hoje, a instituição também é referência em Educação Ambiental no município. “A gestão escolar passou a fazer parte do processo de transformação local. A comunidade precisa enxergar que a partir da escola tudo pode mudar, transformar”, conta Sandra. Para ela, somente a partir do coletivo é possível pensar a mudança.
DIÁLOGO E AÇÃO
pação da comunidade nos projetos da Escola. Desde a fabricação e instalação de portão a pequenos consertos, Freitas faz tudo que está ao seu alcance para atender às necessidades de infraestrutura e apoiar o processo de aprendizagem dos alunos. Somente através da colaboração é que algumas melhorias foram possíveis. Recentemente, o morador ergueu o muro dos fundos, o que acabou com a ocorrência de furtos no local. Há um ano, a diretoria documentou todas as necessidades para a Prefeitura, entre elas a insuficiência da rede elétrica e a necessidade de melhoria na estrutura metálica do prédio. “Talvez, com apoio dos pais, seriam possíveis reuniões mais regulares e organização para cobrarmos a Prefeitura”, comenta Freitas. Para a professora das séries iniciais da EMEF Santa Marta Leocadia
Além de pai de estudante, Neri Freitas, 50 anos, é atuante no Círculo de Pais e Mestres (CPM) desde sua formação. Sempre pronto para colaborar na gestão da instituição, Freitas esteve presente na primeira reunião da comunidade com a Prefeitura, em 1997, em que foi apresentado o projeto para solicitar a construção da Escola. Antes, os alunos precisavam ir até o bairro Campestre. Para Freitas, o CPM representa muito mais do que um órgão reivindicatório: é um espaço de diálogo, troca de experiências e de muita ação para enfrentar Neri Freitas as dificuldades. participa “A Escola faz a da comunidade sua parte, mas escolar desde 1997 os pais poderiam estar mais presentes para conquistas maiores”, destaca. Além das reuniões de demandas escolares, ele acredita que poderia haver maior integração e partici-
Schoffen 50, a participação dos pais na rotina da instituição é essencial no processo educativo e avanços da comunidade. “A Escola é um referencial muito importante, simboliza a prática da cidadania. Temos muito para avançar. Só conseguimos envolver uma pequena parcela da comunidade. Sonho com uma participação muito maior no processo educativo. Necessita ser um processo para além de seus muros”, relata Leocadia. Através de uma parceria com a Universidade de Michigan, a escola do bairro foi premiada com fundos para serem investidos. Na época, em março de 2017, a quadra de esportes da praça foi construída. Conquistas como essa representam a importância da participação da comunidade no âmbito escolar. Conforme Leocadia, é preciso fortalecer as relações entre os moradores
e Escola, o que vai além dos eventos típicamente escolares e da gestão representativa. “É necessário conhecer e explorar as outras facetas de uma gestão democrática”, defende. Ou seja, todos os interessados no processo educativo, professores, alunos, funcionários da escola, pais e toda a comunidade, podem contribuir no processo de ensino e aprendizagem. Segundo a professora, por muitos anos a vila esteve excluída, distante e ausente das questões municipais. Para ela, é essencial que a comunidade se fortaleça com colaboração e diálogo para resgatar e modificar os comportamentos, usando a união na cobrança ao poder público por melhorias. “A Escola está cheia de profissionais capacitados, engajados e que tem preocupação com a transformação local”, afirma. AMANDA MOURA CRISTIANO JUNIOR
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10. Participação
O que a comunidade pen A
associação, a escola, os comerciantes e todos os moradores são protagonistas na construção da Santa Marta e, através da participação coletiva, podem transformar a realidade e promover a mudança que todos desejam. Envolver a comunidade para discutir os problemas não é uma tarefa fácil, ainda mais em um lugar como a Vila Santa Mara, que conta com mais de cinco mil moradores. Falta de tempo, de convite, compromissos de trabalho, horário, são vários os motivos que dificultam a comunicação entre os moradores. Fabiana Borges, 22, acredita que as ações deveriam ser melhor divulgadas. “Às vezes vejo algumas crianças colocando placas nas ruas e coisas assim, mas são ações da escola”, relata. Para Deise dos Santos, 23, os moradores deveriam estar mais engajados para cobrarem a administração pública sobre a má situação das ruas. “Acho que a gente deveria se unir para fazer mais pelas nossas ruas”, destaca. Nesta edição, o Enfoque Santa Marta deu voz aos moradores para entender as dificuldades e motivar a participação e união da comunidade.
Sorlene de Vargas, 41 anos, desempregada
Regina Rangel, 46 anos, dona de casa
Angélica da Silva Correia, 33 anos, comerciante
“Quando tenho tempo, vou nas reuniões da associação. Já fui várias vezes. O único projeto que eu conheço para a vila é de que um dos terrenos baldios seria uma praça ou um postinho. Até agora nada foi feito, talvez fique para os nossos filhos. Acredito que se existissem mais projetos, a vila se mobilizaria para participar”.
“Não participo, porque não conheço. Como não tenho crianças na escola, fico pouco a par, então desconheço os projetos de lá. Moro há seis anos na vila, mas é muito difícil a gente ficar sabendo das reuniões. Só agora, essa semana que ficamos sabendo, por isso nunca fomos”.
“Não conheço nenhum dos projetos feitos para a vila. Se houvessem mais ações, acho que nós moradores gostaríamos de ir, seria bom para a comunidade. Às vezes a Associação anuncia quando tem reuniões, mas nunca fui em uma. Acho que é difícil conseguirem mudar alguma coisa na vila”.
AMANDA MOURA, JÚLIO HANAUER, LUCAS WEBER, STEFANY ROCHA E TAINAH GIL AUDREY SCHEFFER, GIORDANO FOPPA, LIANNA KUNST E SARA LA ROQUE
Valdomiro da Rosa, 36 anos, pintor
Marli de Souza, 34 anos, cabeleireira
Clóvis Roberto Rosa, 52 anos, funileiro
Luís Fernando, 31 anos, operário
Reinor Corrêa de Moura, 73 anos, aposentado
“Logo no início, já fui mais ativo na comunidade, mas com o tempo, a baixa adesão dos moradores, me desanimou. Eu ia, mas depois larguei de mão. Não adianta. A pessoa vai e tem dois ou três lá. O pessoal é muito acomodado. Penso que é difícil haver uma mudança relativa na vila sem a participação da maioria dos moradores, algo que não ocorre atualmente. Se todo mundo se reunisse dava certo”.
“Estou morando há seis anos no bairro e não participo do que acontece aqui pois estudo e trabalho. As programações são realizadas em horários que não posso, mas sei que existem atividades e melhorias aqui. Vejo que muita coisa melhorou e agora as crianças, por exemplo, têm um lugar bom para brincar e a iluminação também está bem melhor. Acho que a organização dos encontros e programações poderia ser conforme a disponibilidade da comunidade”.
“Sou morador da vila há oito anos. Não vejo o pessoal se unir para realizar ações sociais, e no momento eu também não estou participando, mas é por falta de divulgação mesmo. Se tem algo, a gente não fica sabendo. Sei que a associação faz reuniões, mas nunca fui convidado. Antigamente, quando a associação tinha outro presidente, eu sempre sabia o que estava acontecendo, e participava. Se soubesse sobre as reuniões hoje, participaria. Acho que os moradores têm que se unir para que a gente possa ir cobrar mais ação tanto da associação quanto da Prefeitura”.
“Por causa do trabalho, não tenho tempo de participar de todas as decisões da comunidade, mas gostaria. Não consigo participar pelos compromissos, mas sempre tento quando possível. Mas, em geral, penso que a adesão da comunidade nessas reuniões é muito baixa. Não são muitas as pessoas que vão. É sempre uma minoria. Na minha percepção, a comunidade deveria participar mais dessas reuniões, pois a gente necessita de calçamento nas ruas e luz própria em todas as casas. Para isso, precisaríamos de uma participação maior para cobrar o poder público”.
“Faz 14 anos que moro aqui e participo de algumas coisas da Santa Marta. Quando teve o abaixo assinado para solicitar um ônibus para atender a vila eu estive ajudando. Sou presbítero da igreja evangélica Assembleia de Deus e por meio dela temos duas escolas, uma para ensino adulto e outra infantil, que atendem a comunidade.É preciso que as autoridades do município também visitem a comunidade, pois temos insegurança e problemas com restos de podas de árvores. Algumas coisas dependem deles”.
ENFOQUE SANTA MARTA | SÃO LEOPOLDO (RS) | ABRIL/MAIO DE 2018
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nsa? Almelindo Rangel, 68 anos, aposentado “Não participo dessas decisões da vila, porque conheço muito pouco das ações e projetos que tem aqui. Conheço a Associação, mas também nunca fui em uma reunião. Acredito que se ficássemos sabendo do que acontece, nós iríamos participar. Essas decisões são importantes para os moradores da Santa Marta, e com certeza , todos gostariam de participar”.
Lace José da Costa Soares, 50 anos, operador de tratamento térmico Estou aqui há 21 anos e, quando não tenho compromisso, gosto de estar nas atividades. Existe uma certa desunião para as conquistas da comunidade e a participação nas reuniões é baixa. Teria que ter uma ligação entre a Associação e escola para novos projetos, porque os pais vão para as reuniões escolares e podem participar mais. Acho que precisamos de coletividade para que possamos ter novas conquistas”.
Estér Machado Maciel, 47 anos, vendedora autônoma Resido na Santa Marta faz 32 anos e participo efetivamente das ações da comunidade e nos eventos. Acho que tenho que participar porque moro há muito tempo aqui. O povo deveria ter um pensamento mais voltado à comunidade e se unir para eleger um representante da vila para a Câmara de Vereadores.Até quatro anos atrás fazíamos um sopão para mais de 100 pessoas e muitos esperavam por esse dia,mas acabou por falta de doações e troca de lideranças.
Maria Vieira, 65 anos, recicladora
Ana Mafalda Alves da Silva, 53 anos, funcionária pública
Josiele de Oliveira, 34 anos, viradeira de calçados
José da Silva Santos, 43 anos, grampeador de couro
Vítor Alves dos Santos, 64 anos, eletricista
“Moro na Santa Marta há 30 anos. Já participei de ações, mas não participo mais. Por um tempo minha filha foi presidente da associação e lembro de fazermos bastante projetos e divulgarmos para todos, mas agora não é pouco divulgado. Acontecem reuniões sim, mas ficamos sabendo depois que já aconteceu, por isso acabo não participando. Acho que a vila toda deveria se unir pelas coisas que precisamos, mas não vejo o pessoal se unir muito”.
“Moro no bairro há 20 anos e não costumo participar de ações e decisões promovidas na comunidade. É difícil estar nas atividades porque trabalho e não consigo conciliar o tempo. Eu fico sabendo das novidades e do que acontece na vila, mas as programações ocorrem nos horários em que a os moradores não estão disponíveis. As oficinas de ginástica e cursos que acontecem na Associação são em horários que eu trabalho. Já fiz um curso lá na Associação quando pude”.
“Meu filho já participou do projeto Horta da Escola Santa Marta, desde que essa atividade começou. Como agora meus filhos não estudam mais aqui, eu estou meio por fora, não sei falar sobre esse assunto. Os outros projetos eu não conheço. Nunca fui em uma reunião da Associação, parte por causa do tempo e eu sou meio desligada disso. Mas a presidente sempre avisa quando tem. Mas acredito que falta os moradores terem mais participação nessas ações, que tornariam a vila melhor”.
“Moro na Santa Marta há nove anos e quando o secretário de Obras veio visitar a vila trouxe ele para ver a vala de esgoto aberta na minha rua. Esse problema assola os moradores há 15 anos. É um mau cheiro absurdo. Participo das reuniões e abaixo-assinados da Associação dos Moradores. É que conheço todo mundo. É difícil fazer com que as pessoas participem mais, mas temos que cobrar. Quando algum político vem devemos reivindicar nossos direitos, igual eu cobrei o secretário”.
“Eu moro aqui há quatro anos, e há algum tempo, quando a presidência da associação era outra, eu costumava participar das reuniões e ações organizadas, inclusive ajudando a arrumar as ruas daqui. Mas, ultimamente não fico sabendo dos encontros que acontecem. Eu conheço alguns vizinhos que participam da associação, e eu participaria das ações se eu ficasse sabendo, mas nunca fui convidado. Entre os moradores, não conheço ninguém que faz algo para ajudar o pessoal, mas acho que a gente teria que se unir e realizar ações para arrumar a vila e para pedir mais atenção da prefeitura”.
12. Participação
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Mudar a mentalidade
Associação de Moradores do bairro, naturalmente, é o caminho mais certo para fazer com que a Santa Marta seja ouvida e vista. É por ela que as coisas acontecem e, mesmo assim, com dificuldades. O ponto central dessa questão é a falta de engajamento dos moradores em busca de melhorias de bem comum. Na visão da costureira Dilce Maria da Rosa, 41 anos, que em dezembro entrega o cargo de presidente da Associação para outra pessoa, o problema da falta de engajamento tem a ver com a imaturidade da população. “A pessoa participa somente se for beneficiada de alguma forma, ou, quando participa, acha que é dona do negócio’, observou. Por isso, o desafio, na percepção dela, é mudar a mentalidade da população. “Precisamos deixar o ego de lado e ter a consciência de que nada do que fazemos ou conquistamos é um bem pessoal ou da diretoria. É uma conquista de todos”, analisou. Dilce apresenta outro
ponto que inibe a participação das pessoas nas ações da associação: o machismo e o preconceito. Segundo ela, o fato de uma mulher “arregaçar as mangas” e lutar pelo bem da comunidade ainda gera olhares desconfiados e comentários indigestos na localidade. Para a presidente, existe uma única maneira da Santa Marta evoluir e ganhar a atenção que merece do poder público, que é a união dos moradores. Através dessa união, é preciso lutar, de forma incansável, pelas conquistas. “As nossas forças, como Associação, são limitadas. Se não houver participação, as coisas não acontecem”, sintetiza.
COMPROMISSO
Assim que entregar a presidência, Dilce não quer voltar a ser uma simples moradora da Santa Marta. Ela diz que se colocará à disposição da nova diretoria e se compromete de não abandonar a luta. “Não vou me afastar da associação, esse é meu compromisso”, conclui.
DESESTÍMULO
Quem já esteve à frente da diretoria da Associação de Moradores sabe bem que a falta de engajamento da população não é uma realidade dos tempos atuais, mas algo histórico. A cobradora de ônibus Ivonete Furigo Vieira, 38 anos, que presidiu a entidade por oito anos, aponta os mesmos problemas que a atual presidente. “Para fazer qualquer coisa, tudo é uma batalha. É preciso bater casa por casa e, mesmo assim, as pessoas par-
Atual presidente assume o compromisso de batalhar por conquistas mesmo após entregar o cargo ticipam hoje e amanhã já não vão mais”, avisa. As frustrações conquistadas ao longo dos anos e o fato de ter que carregar “o piano” praticamente sozinho desestimularam Ivonete. “O povo acha que a gente não faz nada e ainda ganha dinheiro presidindo a Associação”, desabafa. Hoje,
depois de obter algumas conquistas para o bairro, como a construção da atual sede, a ex-presidente admite que é uma cidadã ausente no que diz respeito à luta por melhorias para a Santa Marta. Desde que entregou o cargo para Dilce, Ivonete revela que nunca mais colocou os pés na Associação de Moradores. “Cansei”, explica. Mesmo distante, a cobradora concorda que os moradores da Santa Marta precisam olhar com mais carinho para o lugar em que vivem. “Falta sentimento de pertencimento, falta união”, avalia. Por este motivo, ela entende que a realização de uma campanha de sensibilização da comunidade seria uma forma de tentar conquistar o engajamento dos moradores. Entretanto, essa ideia acaba esbarrando em outro problema: co m o d e s e n vo l ve r u m a campanha assim? ISAÍAS RHEINHEIMER EMERSON SANTOS
Esforço para unir as pessoas Ele é jovem, estudante e dono do próprio negócio. Mas não são só estas características que William Pereira, 25 anos, reúne. Ele também se interessa pelo progresso e bem-estar do lugar que escolheu viver há 11 anos. Esse interesse se concretizou em 2013, quando, com o apoio da família, levou encantamento e felicidade para o fim de ano da Santa Marta. Em 2014, a história se repetiu. E assim até 2017.
mento social com a comunidade e descontração estão por trás de um trabalho que tem como principal característica unificar as pessoas, compartilhar bons momentos e ampliar o sentimento de pertencimento dos moradorescom o lugar em que vivem. Isso, segundo o estudante, significa mostrar o quan-
CONFRATERNIZAÇÃO
VOLUNTARIADO
Enquanto muitas crianças passam o fim de ano sem saber se o Papai Noel vem, mais de 1500 tiveram um Natal muito mais cheio de vida e de boas experiências no ano passado. Isso graças a uma ação de William, que resultou no envolvimento de mais ou menos 70 voluntários. Essa é uma das ações que a Santa Marta cria para a Santa Marta. É uma forma de unificar tudo o que às vezes parece estar distante. Ele explica que a ideia é confraternizar com a comunidade, principalmente com as crianças, pois sente que elas estão à frente da vulnerabilidade social. Por isso, a partir da festa, quer mostrar que existe outro caminho. Diversão, brincadeiras, relaciona-
to é bom viver em harmonia. Na última edição, a comemoração teve cachorro-quente, refrigerante, brinquedos infláveis, show com uma banda e, ainda, distribuição de brinquedos. Para organizar e dar fluidez para tanta coisa boa acontecendo ao mesmo tempo, foi preciso colocar a comunidade em ação.
William Pereira: interesse pelo progresso do lugar que escolheu viver
Esse espírito de compartilhamento e doação das pessoas é um ponto importante para o bairro. O povo clama por mais atenção e projetos que nasçam da vila para a vila e percebe que é fundamental que haja essa integração nas ocasiões de partilha comunitária. O resultado disso, quando colocado em prática é geração de mais confiança e proatividade para novas iniciativas na comunidade. A festa não é pensada apenas para os pequenos. Os pais e comunidade em geral são convidados a participarem também, já que ela é realizada em frente à Associação de Moradores. Como o evento acontece em época de horário de verão, há bastante tempo para todos curtirem a ocasião, assistindo aos shows, confraternizando com os amigos
e vizinhos, tomando chimarrão. Essa festa de Natal é um exemplo de que a união, de fato, faz a força. Ela integra, propõe evolução e maior engajamento entre todos. William argumenta ainda que essa é uma oportunidade de estimular amizade entre as crianças, o que, lá na frente, pode ocasionar diminuição da violência. O empreendedor não realiza o evento em busca de autopromoção. O que prevalece é o entendimento de que “a criança é criança por um tempo apenas, mas ela se torna adulta e precisa de uma boa base”. Ou seja, dá trabalho, mas vale a pena todo esse movimento, pois é uma sementinha que irá germinar. “Para isso, vai da boa vontade de cada um”, reflete.
COPA DO MUNDO
Outro projeto em vista é para ser concretizado no mês da Copa do Mundo. “Eu imagino algo como um telão para as pessoas verem os jogos e também distribuição de pipoca”. William explica que não sabe exatamente como vai ser, mas tem certeza que será uma nova forma de levar união à Santa Marta. MAINARA TORCHETO FRED WICHROWSKI
Abandono .13
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Esquecidos pelo poder público Moradores estão cansados das promessas e reivindicam direitos como saneamento básico e eletricidade
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om aproximadamente cinco mil habitantes, a comunidade Santa Marta tem várias dificuldades, mas a maior delas parece ser o descaso do poder público. Criada há mais 20 anos não teve regularização fundiária, dificultando os moradores terem os principais direitos que deveriam ser garantidos pela prefeitura.
moradora da vila desde antes da prefeitura asfaltar a rua de principal acesso, comentou que há todo instante pensa em se mudar devido a isso. “É um fedor! Aparece lacraia, pernilongo, até ratão”, diz a senhora que possui picadas de pernilongos por todo o corpo. O acúmulo de lixo também facilita o alagamento de casas na região. Segundo Ademir Tavares, 79 anos, marido de Frida, inúmeras vezes a sua casa já ficou alagada em função dos problemas de estrutura na região. Os problemas vão des-
de o calçamento, as calçadas e o lixo que é deixado por quase toda a comunidade a céu aberto. “Já aconteceu de ficarmos nadando com as coisas de casa.” “Perdemos muitas coisas nessas enchentes. Às vezes eu até coloco fogo em algumas coisas para ver se diminui o nosso problema com as pragas, mas de pouco adianta. No outro dia já está cheio de lixo de novo, mas é sempre assim, só promessa e mais promessa. A gente é bom pra eles na época de eleição. Aí eles dão atenção até pro cachorro da
REDE ELÉTRICA
Na vila ainda existem várias ruas que não possuem rede elétrica, por isso os moradores de algumas ruas precisam “puxar” os cabos de energia da rua 6. “Dependemos muitas vezes da ajuda dos nossos vizinhos para termos eletricidade em nossa casa”, diz Edemar Ribeiro, que mora há 18 anos no bairro. André Schmidt que nasceu e se criou na vila também ressalta a falta de iluminação pública e do descaso da prefeitura. “Só temos iluminação pública nas ruas principais. Em época de eleição os candidatos vêm fazer comício na praça, onde tem luz e asfalto”, comenta.
LIXO A CÉU ABERTO
Um dos maiores problemas da comunidade é o acúmulo de lixo em alguns pontos. Frida Machado, 69 anos,
Pontos de acúmulo de lixo são comuns dentro da comunidade
rua, e não adianta cobrar, eles somem depois das eleições”, diz Ademir.
REINVINDICAÇÕES CONSTANTES
A presidente da Associação de Moradores, Dilce Maria da Rosa, lembra que desde que assumiu a presidência realizou inúmeros contatos com a prefeitura cobrando melhorias para a comunidade. Até visita técnica com a participação do Prefeito, da Secretária do Orçamento Participativo, Engenheiro Civil e Secretário de Obras do município foi feita em maio de 2017. Foram pontuados os problemas prioritários da comunidade. É necessário saneamento básico, o calçamento de algumas ruas que são de maior circulação dentro da comunidade e a energia elétrica, tanto para casas, quanto para iluminação pública. Com todo o descaso e abandono da prefeitura para com a comunidade, os moradores não se mantém muito esperançosos com as promessas de melhorias. “Não temos esgoto, não temos eletricidade, não temos rua, mas o maior problema da vila é o saneamento básico. O Vanazzi (prefeito) até veio aqui dar uma olhada mas não adiantou em nada”, resume Edemar Ribeiro morador da comunidade há 18 anos. LUCAS WEBER PAOLA GUIMARÃES FABRÍCIO SANTOS
Desemprego que preocupa Na vila, o desemprego costuma ser um dos assuntos que mais preocupam. As dificuldades em manter uma casa e uma família assustam alguns moradores. Mas para eles a solução é enfrentar os medos e lembrar o que os trouxe até ali e o que os impulsiona a seguir na busca. Andando pelas ruas da Santa Marta, é fácil encontrar casas com placas anunciando serviços e pequenos comércios. Um desses comércios pertence a Cristiane Flores da Silva. Há alguns meses ela se viu em uma situação complicada: sem emprego com o marido Valdir se recuperando de um problema de saúde, e tendo que criar os dois filhos adolescentes e um ainda criança, que possui ne-
cessidades especiais. Cristiane foi demitida por precisar sair quase todas as manhãs durante o horário de trabalho. As saídas se davam pela necessidade de levar Rodrigo, o caçula da família, para dar continuidade aos seus tratamentos. Diante desse cenário e sem muitas alternativas, resolveu que melhor para o momento seria trabalhar em casa, se dedicando ao filho. Há dois meses instaurou uma pequena venda de alimentos na parte da frente de sua casa. Os produtos que vende são comprados por ela em um atacado e revendidos para o pessoal do bairro. Segundo informa, o comércio é bastante frequentado pelos vizinhos e, no momento, é a única renda
Há dois meses Cristiane montou um minimercado em frente à sua casa como uma alternativa para obter renda
da família. “O movimento é bom, mas não pretendo viver disso para sempre, quero voltar a entregar currículos quando possível”, conta Cristiane, pensando em novamente empregar-se.
ALTERNATIVAS
Trabalhar em casa também foi a saída encontrada por Ivete da Silva. Desempregada, ela se emociona ao contar o quão difícil é viver estando nesta situação, controlando os gastos, precisando se desfazer de alguns hábitos e sem saber o que a espera no dia seguinte. “É uma situação difícil, mas a gente faz o que dá. Eu gostava muito de comer frutas, mas não consigo mais comprar”, desabafa. Após complicações em
uma cirurgia, Ivete ficou internada durante um ano. Nesse período a empresa em que trabalhava fechou e ela acabou ficando sem emprego. Já se passaram quatro anos desde esse
ocorrido. Hoje ela sobrevive atuando na montagem de peças de chiveiros vendidos por uma amiga. STEFANY ROCHA KAROLINA BLEY
14. Parteiras
ENFOQUE SANTA MARTA | SÃO LEOPOLDO (RS) | ABRIL/MAIO DE 2018
Com a vida entre as mãos Por casualidade ou necessidade, quando chega a hora de vir ao mundo, nasce a figura da parteira
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ntre o quarto de casa e a 77 anos de idade, 12 filhos e insala de partos, uma vida de contáveis netos. Estes últimos, distância e alguns filhos. A nem sempre vindos da família, geografia nunca andou a favor e carinhosamente chamados das mulheres do interior, que de netos, são aqueles que ela precisavam encarar uma longa ajudou a pôr no mundo. jornada a cavalo, ou uma carDona Helena viveu grande roça para chegar a um hospital. parte de sua vida no interior, As viagens aconteciam durante onde aprendeu o ofício de partoda a gravidez, mas na hora do teira. Em Miraguaí, a cerca de 500 parto, não dava tempo para ul- quilômetros de São Leopoldo, trapassar os quilômetros de chão fez seus primeiros partos. “Eu batido. Nasce então, o ofício da não gostava de fazer, mas tinha parteira, uma mulher que traz que ajudar. Não tinha hora”, à vida com suas mãos. afirma. Enche-se de orgulho ao Nem sempre por gosto, mas lembrar que nunca perdeu uma por necessidade. Dona Eva Ma- criança, que todas cresceram chado, 60 anos, há pouco mais saudáveis e estão bem. da metade deste tempo vivendo Conhecimentos perpetuados na Vila, recebeu três de seus seis de geração em geração ainda são filhos pelas mãos de uma partei- cultivados por Dona Helena, que ra. Ela lembra dos anos vividos condena algumas práticas utilino interior de Chapecó, cidade zadas nos partos em hospitais. catarinense, e das dificuldades “Eles tiram a criança e já dão na hora do parto.“Pegava carro- banho. Não se faz isso. Antigaça, cavalo e ia buscar a parteira, nem sempre dava tempo de chegar no hospital” lembra. Dona Eva cultiva alguns conheQuetlin não cimentos antigos e esperou chegar afirma preferir ter ao hospital para os filhos em casa, nascer e surpreendeu se hoje houvesse a mãe Angélica mais uma oportunidade. “É mais cuidadoso. A gente tomava um chá,fazia puxamento (massagens)”, conta. Para ela, apesar de todos os cuidados recebidos dentro de um hospital, estar em casa, rodeada de sua família, é o melhor jeito de dar as boas-vindas a um filho.
NETOS DE HELENA
As mãos calejadas da aposentada Helena Carvalho trouxeram mais crianças ao mundo do que sua memória, assumidamente falha, consegue lembrar. Aos
mente, a gente enrolava, fechava todos as janelas pra não pegar um vento. Hoje, elas já saem do hospital gripadas”. Moradora da Vila Santa Marta desde os anos 90, deixou o ofício depois da mudança, e chegou a recusar a realização do parto de uma sobrinha. Ela conta que depois de tantos anos sem realizar o procedimento, optou por mandar a grávida para o hospital. E por mais que esteja afastada do ofício, recebe a visita de alguns de seus netos nas férias.
EM SUA MEMÓRIA
Entre tantos partos realizados, àquele que carrega na memória não foi feito por ela, mas sim, o dela. Sozinha em casa, se não fosse pela presença das crianças menores, ela pariu uma vida, enquanto seu marido buscava ajuda. Exausta, precisou da
ajuda de uma vizinha da médica atendenAs mãos para cortar o cordão te que o parto não calejadas de umbilical. Quando Helena Carvalho aconteceria antes voltou para casa,o pai já trouxeram mais das próximas 48 encontrou a esposa de uma dezena de horas.“Eu tinha três com o filho recém- crianças ao mundo dedos de dilatação -nascido nos braços. e corrimento com Dona Helena também teve sangue. Ela me mandou para a experiência de dar à luz em casa, eu vim”, relata. um hospital. Seus sete filhos Depois do jantar, já beirando mais novos nasceram em uma às 21h do mesmo dia, as dores se sala de partos. Mas não é dos intensificaram e Angélica teve a profissionais de saúde que se certeza que a pequena Quetlin recorda com mais afeição, mas viria ao mundo. E foi quando a sim de Autília uma parteira correria começou. Uma das vizi“com diploma”, como afirma. nhas logo chegou para ajudar e Helena não sabe explicar qual sugeriu que parto fosse realizado era a profissão da parteira mais em casa, mas a mãe não aceitou. antiga, mas lembra que ela tra- Entre falhas no motor do autozia consigo algumas injeções móvel e aflição dos envolvidos, para a dor. As mãos de Autília partiram para o hospital. a auxiliaram no nascimento de “Eu dizia que não queria alguns de seus filhos. ter minha filha no carro”, conta Casada aos 19, Helena teve Angélica. Ironia do destino ou seu primeiro filho um ano mais não, a poucos metros da saítarde. Ficou ao lado de Seu Ce- da da Santa Marta, no banco leste até que a morte dele os de trás, Quetlin não esperou, separou, há dez anos. O olhar e veio ao mundo pelas mãos que devaneia quando reme- de uma parteira improvisada, mora parece procurar algo no uma vizinha que as acompahorizonte. Talvez a visualização nhava. A ambulância chegou dos anos passado, que lembra minutos depois, fazendo os sem pesar. “Hoje qualquer coi- procedimentos necessários sinha é problema. Nós passava e levando a dupla recém foro que passava e tava tudo bem, mada para o hospital. tudo muito bom. E afirma: “A “Cheguei lá e disse pra mévida é essa né, não adianta, é dica: ‘Toma aqui o presente assim que tem que ser”. que vinha só daqui dois dias’”, lembra Angélica, aos risos. SenBEBÊ NÃO ESPERA tada no colo da mãe, Quetlin, A figura das parteiras é tipo hoje com cinco anos, arregala raro de encontrar, mas há quem os olhos a cada pedaço contaconheça ou já ouviu falar de um do da história e espia com desjeito inusitado de dar à luz. Na- confiança as pessoas que riem quela noite de 8 de junho, de a seu redor. A pequena parece 2013, quando as primeiras do- adivinhar a aventura que foi res surgiram, Angélica Antunes sua chegada na família. Tavares procurou o hospital KELLEN DALBOSCO para o nascimento de sua filha. PEDRO HAMEISTER Na época com 21 anos, ouviu
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Enfrentando os preconceitos Pessoas sofrem por ter alguma diferença física ou intelectual em relação a maior parte da população
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ados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, apontam que 23,9% da população têm algum tipo de deficiência: motora, auditiva, visual intelectual ou mental. Mesmo representando quase um quarto da população brasileira, estas pessoas sofrem com o preconceito. Na Santa Marta algumas crianças já convivem com o prejulgamento. Nicoly Jacob, 10 anos, nasceu com uma deficiência na perna esquerda, além de ser mais curta em relação a direita, a tíbia (osso da canela) não tem resistência. Com uma bota adaptada ela realiza todas as atividades. Adora cantar, dançar, em especial as músicas da Anitta, e jogar futebol - como goleira. Apesar de tanta disposição, as maiores dificuldades estão em se locomover na vila e encarar o preconceito de algumas pessoas. Mesmo sendo muito espontânea, a pequena menina - que estuda na EMEF Santa Marta - se entristece ao contar que muitos colegas zombam do seu problema na perna. Joceli Avieira, mãe de Nicoly, comenta que já foi a escola para pedir uma atenção especial dos professores devido algumas brincadeiras. “No ano passado tive que ir até a escola, pois tinha um menino que chutava a perna dela e a professora não tomava uma atitude. Tudo bem que ela não é santa, mas também não pode acontecer algo assim sem motivo”, ressalta. Joceli destaca que a única atividade que Nicoly tem dificuldade para desenvolver, em relação às outras crianças, é se locomover até a escola – que fica em torno de um quilômetro da sua casa -, devido ao cansaço e falta de infraestrutura. “Às vezes ela comenta comigo que está cansada, mas não tenho como pagar um carro para ela ir até lá. E em muito dias de chuva ela falta na escola, pois não tem como ir por causa do barro e dos buracos”, diz a mãe. Para facilitar a locomoção, Nicoly usa uma bota adaptada que traz firmeza à perna, mas ela já está um pouco pequena. A cada seis a oito meses é necessário fazer a troca, conforme o crescimento. Contudo, devido ao valor alto, mais de R$ 900,00, a mãe está com dificuldades
Crianças contam com apoio familiar e atenção integral das mães
características.Quem tem Down possui 47 cromossomos.
SISTEMA DE SAÚDE
em adquirir uma nova. Outro item que facilita o desenvolvimento das atividades é a muleta, mas a menina não gosta muito de utilizá-la - prefere ficar só com a botinha.
OUTRAS HISTÓRIAS
Os irmãos David Luiz Almeida Klein, um ano, e Kelvin Nascimento Klein, seis anos, têm síndrome de Down. Kelvin foi diagnosticado com a síndrome quando tinha dois anos, após a mãe perceber que ele não engatinhava nem caminhava. Já para David foi mais rápido, menos de um ano. A família percebeu e buscou assistência médica para entender o que estava acontecendo com o filho mais novo.
Mãe dos meninos, Bruna Nascimento de Almeida, menciona que Kelvin estuda na escola que há no bairro Campestre. Não há reclamações do garoto ou comentários de professores que ele tenha sofrido bullying. Também não notou da comunidade algum ato preconceituoso contra ela ou com as crianças. Bruna salienta que, no caso dela, a síndrome é genética uma vez que seu irmão tem Down e ela traz em seus genes a tendência.
SÍNDROME DE DOWN
A síndrome de Down não é uma doença e não impede a realização de atividades que são desempenhadas por todos. Pessoas que têm Down podem
brincar, estudar, trabalhar. Contudo, os pais devem estar atentos desde o nascimento da criança e sempre estimular o seu desenvolvimento e autonomia. Quem tem síndrome de Down deve ter acompanhamento com médicos especialista para estimular o sistema motor, fala e impedir aparição de doenças cardíacas, muito recorrentes. Não há como evitar a síndrome uma vez que ela é uma mutação genética. Nosso corpo é formado por células que são responsáveis pelo nosso desenvolvimento e por comandar as atividades. Cada célula é formada por 46 cromossomos - local onde ficam armazenados os nosso genes, responsáveis pelas
Tanto Joceli como Bruna destacam que o atendimento recebido dos médicos em hospitais de Porto Alegre são bons, entretanto, a saúde pública em São Leopoldo deixa a desejar. Faltam médicos qualificados e investimentos, mas a família de David e Kelvin considera muito bom o atendimento na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) em São Leopoldo. Kelvin participa de um grupo todas as segundas, quartas e sextas-feiras e ainda recebe atendimento com fonoaudióloga para estimular a fala. Entretanto, também faltam investimentos do poder público para melhorar e ampliar os serviços disponíveis na Apae. Para muitos pode ser somente uma brincadeira, mas não é. Piadas e zombarias podem causar problemas sérios para quem é atingido - como falta de autoestima ou depressão. E todos saem perdendo. Deficiências físicas ou metais não impedem o desenvolvimento de atividades. A melhor alternativa para evitar os prejulgamentos é conhecer melhor a pessoa, interagir com ela e saber das suas lutas e vitórias. BRUNA BERTOLDI CAMILA TEMPAS
16. Passeio FOTOS NICOLLE CODORNIZ / ARQUIVO PESSOAL
Um dia para conhecer o mar Há 62 anos, Tereza, que é diarista, esperava por essa oportunidade
“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ensina a olhar!” Trecho de O livro dos abraços (1989), de Eduardo Galeano
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som da respiração se confundia com as batidas dos pneus no ótimo asfalto da BR-290, também conhecida como Freeway, a rodovia que liga Guaíba a Osório. Em alguns momentos, ouvia-se uma pequena tosse,
habitual para quem é fumante. Era a viagem de volta de uma moradora da Santa Marta, que foi ver o mar pela primeira vez em 62 anos de uma vida marcada por perdas. Tereza de Oliveira Soares Oliveira é moradora há mais de 20 anos da vila. Antes de chegar na região, residia no Bairro Santa Teresa, outra região periférica de São Leopoldo. Natural de Santo Agostinho, micro município do Estado onde nasceu, ela é viúva e mãe de cinco filhos. Trabalha como diarista e tem uma rotina pesada, além de possuir uma obrigação imensa de sustentar os três netos que moram junto com ela: Ághata, de 12 anos, Alisson, de 13 e Wellington de 17. Durante a semana, acorda sempre antes do sol e sai às seis horas da manhã para limpar três casas em São Leopoldo e uma em Novo Hamburgo. Ela sai cedo porque “o ônibus dá muitas voltas”, e
gosta de encerrar as atividades pontualmente às 16. O dia de folga dela, além do domingo, é nas segundas-feiras, que ela aproveita para dormir até mais tarde após ter ficado acordada na noite anterior. “Vejo filmes, leio um livro e vou dormir lá pela uma da manhã”, comenta. Antes de fazer limpezas em residências particulares, Tereza trabalhou numa firma de metalúrgicos. Assim como muitos dos moradores da Santa Marta, é frequentadora assídua de uma das igrejas evangélicas da localidade. Não se considera uma religiosa e sim uma “seguidora” de Deus. “Terça e domingo à noite tô lá, faça chuva ou faça sol”, comenta com um sorriso confiante no rosto. Além deste “lazer”, ela adora assistir “as novelas do 12” (canal da Rede Globo na região metropolitana) e receber as amigas em casa para “bater um papo”. Dona Tereza aprecia mui-
to também produzir alimentos em casa. “Gosto muito de fazer pão caseiro, bolacha e bolo rápido. Também planto couve e alface na minha horta”. Outrora ela vendia cuca, pão e pastel. Eleandro, o mais velho dos seus filhos, com 33 anos, costumava ajudar a vender. Por falar em filhos, todos com a letra “E” nas iniciais, Tereza faz questão de citar inclusive os já falecidos. “Tenho também o Eriton de 26 e a Erony de 30. O Everton morreu quando tinha 18 e a Elizete com 27”, revela com um olhar cabisbaixo. Seu marido foi assassinado há 16 anos após ter ido cobrar três meses de aluguel atrasado de um inquilino. Na ocasião, Ildo de Oliveira tinha um imóvel do lado de casa e foi dar o ultimato referente a dívida. “Ele (marido) disse que se o cara não o pagasse, teria que colocar na justiça.” Segundo comenta Tereza, quando Ildo deu às costas, o morador
o chamou novamente para “conversar como homens”. Foi aí que “ele pegou uma 12 (arma) e atirou no ombro dele, perto do pescoço”, relata ela mostrando o local exato do tiro e com os olhos marejados. “Quando começo a me lembrar fico engasgada. Uma coisa tão simples, por causa de 150 reais”, desabafa. Um dos mais abalados com a tragédia foi Everton, que na época tinha apenas 10 anos. “Tive de contratar uma psicóloga para ele. Passou uns anos e ele começou a fazer desenhos estranhos na escola, um boneco segurando uma arma... falava muito em se vingar”, relata novamente com um olhar triste. Aos 18 o jovem teve sua vida interrompida por facções locais. Dona Tereza é enfática e diz que não sente segurança na vila, ao contrário do que muitos moradores relatam. Isso é muito por causa de um episódio na qual passou há
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Em seu dia de folga, ela foi pela primeira vez ao litoral, acompanhada pela neta Ághata
algum tempo atrás. Certa noite, um homem invadiu a casa dela, que estava com a porta aberta. Tereza tomava chimarrão na sala quando um criminoso entrou com uma arma descarregada e a pediu para “não falar nada” até que três homens passassem em frente sua casa. “Tava fugindo deles e pediu para não falar nada”. Ela ainda complementa sobre a insegurança dizendo que “do jeito que tá indo as coisas, vai ser cada vez pior”. A moradora também é crítica quando se refere ao governo. “Não se entende mais nada. Tá ruim, né? Se os grandes se meteram nisso, o que os pobres vão falar. Um desastre esse governo!”, faz menção a prisões de políticos. Ainda completa dizendo que “eles não fazem nada para o povo” e quando fazem, ela diz que “não é mais nada que a obrigação”. Ela recebe auxílio do programa Bolsa Família, iniciado no primeiro governo
do ex-presidente Lula. “Ganho 125 reais por mês. Era mais, mas eles cortaram. Concordei porque tem outros que precisam mais do que a gente às vezes”, acrescenta.
VIAGEM À PRAIA
Pegar a estrada não é algo muito comum para essa diarista, exceto de quando em quando para ver sua mãe, de 88 anos, que mora em Bom Progresso, cidade perto de Três Passos, ao noroeste do Estado. “Costumo viajar para lá sempre que posso. São mais de oito horas de viagem”, diz. Fora isso, além de trafegar diariamente pela região do Vale, Tereza nunca teve a chance de passear em outros locais, como ir até uma praia qualquer e ver o mar pela primeira vez. “Sempre quis conhecer o mar, mas nunca tive oportunidade. Falta de dinheiro, né? Não vou ir e ficar com a mão abanando”, revela num tom irônico. Após exatas duas horas
entre sua casa, que fica bem atrás da Escola Municipal da Santa Marta, até a plataforma marítima de Tramandaí, no litoral norte gaúcho, o destino chega ao seu fim. O carro em que estava foi estacionado metros do ponto de referência da praia. “Trouxe os chinelos”, conta quando perguntada se estava pronta para encarar a areia fina pela primeira vez. Ela foi acompanhada de sua neta caçula Ághata, uma menina magrinha, tímida com pequenas sardas no rosto e que já tinha sido apresentada ao mar em outras ocasiões. A tarde daquela segunda de folga estava bonita. O vento na beira da praia era forte e levava os cabelos de Tereza e sua neta a todo instante para cima, para baixo e para os lados. Os chinelos foram parar nos pés, mas imediatamente ganharam a companhia das mãos a fim dela poder caminhar melhor sobre areia ao mesmo tempo quente e úmida.
O olhar para a frente era fixo. Tereza mal falava. Afinal, ela via o mar pela vez primeira, assim como no trecho do conto de Galeano, mencionado no início deste texto. Sua camiseta azul clara e a bermuda jeans da mesma cor se misturavam entre o céu refletido no mar e o espelho que se formara na areia, até que os pés foram finalmente tocados pela água. Antes, o único contato com o líquido, além da chuva, era o que vinha do seu chuveiro elétrico. Nem lago e lagoa tinha encostado na pele de Tereza até o presente instante. “Acho que eu vou ficar aqui e vocês vão embora”, dispara brincando depois de alguns minutos em silêncio. Ela comenta que a água está um “pouco gelada, mas boa”. O clima não era muito propício para banho - e não era culpa do mar. Ele estava muito bonito, sem o famoso marrom das algas marinhas que o tomam conta ao longo do ano.
O empecilho para se esbaldar na água salgada era mesmo o clima. Além do forte vento e das numerosas nuvens que escondiam o sol a todo instante, fazia 24 graus na cidade. “Bom é tomar banho de água salgada para tirar energia ruim. Estou até mais leviana”, comenta ela ao molhar os pés. Entre olhares profundos para a imensidão e pequenas brincadeiras com sua neta, como jogar pingos d’água no rosto, ela parecia desconfiada na medida que seus pés afundavam no solo movediço. “O pouco que eu vim já valeu pelo ano inteiro. Quem sabe não terão outras oportunidades”, finaliza a diarista do signo de Aquário que nasceu em 2 de fevereiro, dia da rainha do mar Iemanjá, na Umbanda e Nossa Senhora dos Navegantes, na Igreja Católica. Tereza, enfim, conheceu o mar. JOÃO ROSA
18. Ensaio
Contrastes PEDRO HAMEISTER
EMERSON SANTOS
EMERSON SANTOS
GIORDANO FOPPA
LAURA BLOS
LIANNA KUNST
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FABRÍCIO SANTOS
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asseando pelas ruas da Santa Marta, vemos imagens que contrastam entre si: por um lado, a vila sofre com ruas esburacadas, falta de saneamento, de infraestrutura e de amparo público. Por outro, se mantém cheia de esperança com as suas crianças, que ocupam todos os cantos da vila e representam um futuro promissor. Porém, não se pode esperar até que elas cresçam. A hora de mudar a realidade é agora.
MATHEUS KLASSMANN
MATHEUS KLASSMANN
ENFOQUE SANTA MARTA
SÃO LEOPOLDO (RS)
EDIÇÃO
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Casal de amigos estende sua história ao longo dos anos com carinho e ajuda mútua
Na saúde e na doença, 27 anos de amizade sincera Ainda que separados, dona Iolanda e seu Mário continuam sobre o mesmo terreno e com a mesma amizade
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ouco mais de 17 metros quadrados feitos de tijolos, pedras de alicerce e argamassa sobem num terreno da rua Treze que cruza a vila Santa Marta, logo após a avenida principal asfaltada. Quem o faz não é engenheiro ou arquiteto. O responsável pela obra, com sabedoria adquirida ao longo de 65 anos, é seu Mário Batista dos Santos. A um metro e meio de altura do chão, a empreitada individual, fruto de um salário mínimo da sua aposentadoria, já durava cinco dias. Simultaneamente, e sobre o mesmo terreno, seu Mário constrói há 27 anos algo que parece ser muito mais forte do que concreto. Com carinho e cumplicidade no lugar de tijolos e argamassa, a relação
com dona Iolanda Terezinha Zanini Batista cresce do mesmo jeito que crescia na época do casamento, na década de 1990. Mesmo que há uma década vivam num regime de separação, “porque não deu mais certo”, seu Mário não arreda o pé do lado da, agora, grande amiga. Porém, ainda que uma das paredes de madeira da peça onde mora atualmente seja adjacente à casa de dona Iolanda, ele deixa bem claro: “Eu tenho minhas coisas, ela tem as dela”. A razão para seu Mário continuar ao lado de dona Iolanda é o que fortalece sua permanência e enfraquece a saúde da senhora de 64 anos. Com problemas na bexiga, marcapasso no coração e câncer na perna, a ajuda que se faz necessária é contínua. “É ele quem escova o chão do banheiro”, conta dona Iolanda, que já não pode administrar as tarefas domésticas sozinha. Como também só
recebe um salário mínimo, benefício garantido pelo auxílio-doença, ela não consegue comprar todas as fraldas que necessita usar. “Uso qualquer uma, qualquer tamanho, de criança mesmo”, expõe. Quando ainda não conhecia seu Mário, dona Iolanda teve 10 filhos. Destes, apenas seis continuam nesta vida: Adriana, Jeferson, Eliane, Raquel, Ederson e Anderson. Esse último, com 22 anos, foi quem comprou o atual terreno em que moram. Do outro lado da rua, ao ouvir falar de si, explica em voz alta: “É mãe, né? Não tem como não apoiar”. Dona Iolanda, orgulhosa, anuncia que ele é “o nenê” dela. O caçula, por sua vez, não gosta do apelido. “Pô, que nenê, mãe?”. Anderson adquiriu a área num momento de sufoco: dois dias antes do natal de 2016, dona Iolanda e seu Mário tiveram a sentença dos proprietários, que exigiram a saída
da casa em que moravam dentro de três horas. Assim, amontoaram suas coisas na casa de Ederson, o filho mais velho, que é pastor. Em uma semana, Anderson já tinha comprado o terreno e Ederson providenciou a casa de madeira em que dona Iolanda vive. “Foi com o dinheiro dos morangos que comprei esse terreno pra ela”, conta Anderson, que é revendedor autônomo da fruta.
VIDA QUE SEGUE
Como “tudo é separado” na relação entre os dois, seu Mário logo providenciou a construção de sua peça de madeira e a compra de um pedaço do terreno. Paga 200 reais por mês, até completar oito mil. Por enquanto, vive ali, apertado, com um fogão, uma cama e uma geladeira. O banheiro também é separado, aos fundos da casa de dona Iolanda. A construção de alvenaria, maior que a atual,
promete dar mais conforto ao aposentado, que pretende terminá-la em duas semanas. “Não vai dar em duas semanas”, se intromete dona Iolanda, contrariando a hipótese de seu Mário. Como o dinheiro da aposentadoria é apertado, a obra teve de parar. Antes de seu Mário conseguir prever uma data da volta às atividades, dona Iolanda se manifesta mais uma vez: “Dia cinco ele recebe o dinheiro e continua a obra”. Mesmo com tudo separado, como enfatizam mais de três vezes, os dois sabem muito um do outro. Após a conclusão da pequena construção, seu Mário quer aterrar a parte de trás do terreno e ainda separar os lados com uma cerca. “Ela no lado dela, e eu, no meu”, lembra mais uma vez, e conclui a conversa. VITORYA PAULO BRUNA LAGO