ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO
SÃO LEOPOLDO / RS ABRIL/MAIO DE 2019
EDIÇÃO
2
BRUNA SOARES
COOPERATIVA REFORÇA O MOVIMENTO POR MORADIA
LEITURA
Há livros no cotidiano da Vila. Página 13
SOFIA PADILHA GULART
GABRIEL FERRI
JULIANA PERUCHINI
A ALTO PARAÍSO INTEGRA O MOVIMENTO JUSTO E PRESTA ASSISTÊNCIA JURÍDICA AOS MORADORES PÁGINA 9
ORIGENS
Nomes de ruas carregam parte da história da comunidade. Página 3
ALÉM DO ESPORTE
Respeito e disciplina são cultivados no “Gol da Virada”. Página 7
2. Editorial
ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | ABRIL/MAIO DE 2019
Uma comunidade que se fortalece
V
isitada por estudantes de Jornalismo da Unisinos São Leopoldo no último dia 13 de abril, a Ocupação Justo é, pela segunda vez, pauta do jornal Enfoque. Após compartilhar um pouco mais da vida de quem mora na comunidade, os estudantes trazem à tona nesta edição novas histórias e demandas da Vila, formada atualmente, por cerca de 3 mil famílias. Assim como nas demais ocupações urbanas de São Leopoldo, a vida na Justo é diferente do restante da cidade. Lá, eles lutam diaria-
mente pela regularização das moradias e uma das maneiras que encontraram de unir forças em prol da causa foi a criação da Cooperativa Alto Paraíso, construída graças ao esforço dos próprios moradores. O espaço está sendo ampliado e parte dessa história foi aqui registrada. Objetivo maior da Justo, a luta pela regularização motiva novas ações dentro da comunidade. Uma delas é o mapeamento das ruas e a escolha de líderes para cada uma delas. A novidade, lançada no final de abril e que abrange pelo menos
14 vias de chão batido, também é divulgada nesta edição. Igualmente sobre as ruas, uma matéria traz histórias de algumas já existentes, que homenageiam pessoas e lugares da Ocupação. Ao longo das 16 páginas também são contadas histórias de quem enfrenta a dificuldade de morar em uma casa que não possui endereço oficial e reconhecido, o difícil acesso ao transporte público e o abandono de animais que acontece naquela região. Na contramão de todas as dificuldades, há a esperança
de um futuro melhor. Caminhando pelas ruas, vemos crianças, adultos e idosos sorrindo e se divertindo, demonstrando que a Ocupação proporciona momentos felizes e que fazem com que seus moradores enfrentem a rotina com mais leveza. Alguns deles são abordados nesta edição, como o uso da internet para entretenimento, estudo e trabalho, a presença da religião na comunidade, a literatura como forma de lazer e de aprimorar os conhecimentos. Embora as vidas dos moradores sejam, em muitos
momentos, complicadas e cheias de empecilhos, isso não os impede de terem esperança, sonhos e de sorrirem diante das coisas boas que o cotidiano lhes proporciona. Essa é a proposta dos estudantes ao produzirem o jornal Enfoque Ocupação Justo: mostrar a realidade de quem vive na comunidade, que possui seus problemas, mas que não levam ao desânimo. Pelo contrário: a comunidade se fortalece na luta e na solidariedade. PEDRO DAMASIO HAMEISTER JULIANA PERUCHINI
QUEM FAZ O JORNAL O Enfoque Ocupação Justo é um jornal experimental dirigido à comunidade da Ocupação Justo, em São Leopoldo (RS). Com tiragem de mil exemplares e três edições por semestre, é distribuído gratuitamente na região. A produção jornalística é realizada por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos São Leopoldo. Professor responsável: Pedro Luiz S. Osório (posorio@unisinos.br)
EDIÇÃO E REPORTAGEM —
Disciplina: Jornalismo Cidadão. Orientação: Pedro Luiz S. Osório. Edição de textos: Guilherme Silva dos Santos, Khael Silva dos Santos e
Maese Daniela Closs. Edição de fotos: Pedro Damasio Hameister. Reportagem: Franciele Arnold Pereira, Guilherme Silva dos Santos, Ivan de Borba Flôres Júnior, Inajara Pommer Immig, João Pedro Chagas Vieira, Khael Silva dos Santos, Lorenzo Panassolo, Lucas Rafael Alves, Maese Daniela Closs, Murilo Dannenberg Martins, Pedro Damasio Hameister e Thaís Lauck.
FOTOGRAFIA —
Disciplina: Fotojornalismo. Orientação: Flávio Dutra. Fotos: Amanda Krohn, Ana Carolina Oliveira, Andressa Morais, Bábiton Leão, Bruna Soares, Gabriel Ferri, Henrique
Bergmann, Henrique Kirch, Ismael Pereira, Johann Macedo, Juliana Peruchini, Matheus Hansen Klauck, Milena Silocchi, Sofia Padilha Gulart, Tynan Barcelos e Vitória Pimentel. Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia.
ARTE — Realização:
IMPRESSÃO — Gráfica UMA / Grupo RBS. Tiragem: 1.000 exemplares.
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Avenida Unisinos, 950. Bairro Cristo Rei. São Leopoldo (RS). Cep: 93022 750. Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: Pedro Gilberto Gomes. Pró-Reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Alsones Balestrin. Pró-reitor de Administração: Luiz Felipe Jostmeier Vallandro. Diretor da Unidade de Graduação: Gustavo Borba. Gerente dos Cursos de Graduação: Paula Campagnolo. Coordenador do Curso de Jornalismo: Edelberto Behs.
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Comunidade .3
Nomes de ruas guardam lembranças e homenagens Placas simples, feitas à mão, relembram parte da história dos moradores e de lugares da Vila
Vinda de Taquara há nove meses, Vanessa Gonçalves, de 30 anos, já se adaptou ao novo lugar, onde foi recepcionada, entre outras pessoas, pela moradora Rosimeri da Silva, de 43 anos, que mora na Avenida da Amizade há três anos. “Ela chegou e eu já fui conversar. Precisamos recepcionar bem os vizinhos, fazer com que eles se sintam acolhidos desde o primeiro dia”, contou Rosimeri, aos risos e com a filha Manuela da Silva Isquierdo, de três anos, no colo.
E
m um lugar que ainda luta pela regularização das moradias, as próprias pessoas dão nome às ruas e criam as placas de identificação. Na Ocupação Justo, localizada em São Leopoldo, é isso que acontece. Das ruas da comunidade, algumas já foram identificadas, como é o caso das travessas São Francisco e São João; das ruas da Tenda, Maria da Luz, Palmeira das Missões, São Jorge e Resbalo; além das chamadas Beco A, Beco B e Beco C, por exemplo. Muitas são identificadas apenas por pontos de referência. As placas de identificação são simples: feitas de madeira e a maioria pintada com tinta branca e nomes escritos a próprio punho. Fixadas nas esquinas, às vezes em postes de madeira, outras nas cercas das casas, presas por fios de arame, guiam quem vive na Ocupação e também quem visita ou passa pelo local. À primeira vista, muitas são apenas placas usadas para orientar quem tenta se localizar na Justo. Mas, algumas delas estão carregadas de história e têm significado especial, como é o caso da Travessa São João. O nome é uma homenagem a moradores da Ocupação chamados João. São pelo menos quatro. Um deles foi quem o escolheu e criou a placa que indica a localização. Falecido em 2017, aos 75 anos, João nomeou também outras duas estradas: rua São Jorge e Avenida da Amizade. “Era uma pessoa querida na comunidade. Além de escolher o nome das ruas e fazer as placas à mão, para as pessoas se acharem melhor, cuidava da limpeza das ruas”, comentou João Francisco da Silva Santos, 53 anos.
A PRIMEIRA
Itamar e Leandro: “A gente faz até churrasco no meio da rua”
João Francisco na Avenida da Amizade: “Todos se dão bem”
“Às vezes, as crianças brincam na rua até meianoite, uma hora da manhã” João Francisco Santos Morador De encontro à Travessa São João, está a Avenida da Amizade, reflexo da relação entre os vizinhos. “Todos se dão bem e cuidam um da casa do outro. As vezes as crianças brincam na rua até meia noite, uma hora da manhã”, contou João Francisco. “A gente faz até churrasco no meio da rua, todo mundo junto. Cada um traz um pedaço de carne”, completou Itamar Caldeira, 47 anos, enquanto conversava com o amigo Leandro Santana, também de 47 anos, que tomava chimarrão na beira da rua. Leandro é sobrinho de João, e cuida da casa desde a morte do tio.
Nome de rua homenageia moradores da Ocupação chamados João
Rua mais antiga da Justo, a rua Beco A é onde mora a dona Sônia Maria de Souza, 62 anos. Há 15 anos deixou Sapucaia e buscou na Vila um novo lugar para morar. Naquela época nem havia rua. “Era mato fechado, tinha só um trilho. Poucas pessoas morando ainda”, contou ela, lembrando que a vizinhança já não é mais a mesma. “Uns já saíram, outros tantos chegaram”, completou, com um sorriso leve, falando sobre o lugar que acolheu a ela e a família. Hoje, também moram na Justo seus dois filhos, nora e netos. “Hoje a Beco A já está cheia de casas”, disse. Levando o nome do lugar que serve de referência para a comunidade, a Rua da Tenda é a mais conhecida pelos moradores e por quem circula por lá. Até meados de 2018, se chamava rua São Francisco. “Mas para mim sempre foi a ‘rua da Tenda’”, contou, com um sorriso tímido, Olga Therezinha Bairros, de 58 anos, que mora na Justo há quatro anos, com o filho e três netos. “É a rua mais conhecida da Vila, porque todo mundo sabe onde fica a Tenda”, disse ela, escorada na cerca da casa de número 662.
NOVOS NOMES
No segundo semestre de 2018, moradores, com a ajuda da Comunidade Missionária de Cristo Ressuscitado e voluntários, desenharam um mapa da Justo, traçando as ruas que formam a comunidade. Na época, foram sugeridos nomes para as vias de chão batido. Alguns já existiam em outros lugares e acabaram descartados. De acordo com Tomás Viero Culleton, de 25 anos, que é formado em Arquitetura e Urbanismo pela Unisinos e que participou do processo no ano passado, entre as ideias discutidas na época estavam também a medição dos terrenos e a colocação dos números nas casas. “O objetivo era, inclusive, envolver os jovens da comunidade, que fariam e colocariam as placas”, completou, informando que as ideias estão prontas para serem aplicadas. THAÍS LAUCK JULIANA PERUCHINI
4. Mobilidade
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Deslocamento difícil, um problema que incomoda MILENA SILOCCHI
ANDRESSA MORAIS
Ruas íngremes, sem nomes oficiais e condições de deslocamento precárias
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Marine Adriane leva a pé o irmão Maxwell, que tem dificuldade de caminhar, até os seus tratamentos
Deivid vai a pé para o trabalho e deixa a filha em casa com a esposa
Dos quatro filhos de Ruth Michele, somente a mais velha conseguiu uma vaga na escola próxima vou ali e eles dizem que não sou daquela área e não podem me atender por ser da Ocupação. Em qualquer lugar que eu vou preciso dizer que moro em outro lugar, que aqui não é minha casa”, desabafa Jaiane.
ACESSIBILIDADE
Os deficientes passam trabalho em dobro para transitar na Justo. Marinês Flores, que tem um filho de quatro anos com necessidades especiais, utiliza o transporte público para levá-lo à escola e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Eles precisam sair da Ocupação para esperar o ônibus no bairro Cohab Duque. “Em dia de chuva é complicado. Muito difícil de sair com criança”, conta Marinês. Os ônibus que passam pelas redondezas da Justo são as linhas Vila Teresa, Vila Duque e Jardim América da empresa Sinoscap. Para poder circular na área e no centro da cidade, os moradores têm de sair da Justo para encontrar pontos próximos nos bairros vizinhos. As ruas esburacadas e irregulares são uma grande dificuldade
ANDRESSA MORAIS
MILENA SILOCCHI
uracos, entradas estreitas e morros. O caminho na Ocupação Justo não possui boas condições de acesso, tanto para os pedestres como para veículos. São muitas ruas improvisadas e sem saída, que dificultam o trânsito no local. A comunidade da Vila, que não se encontra no mapa de São Leopoldo, sente na pele as dificuldades geradas por conta do estado da área. A começar pelos serviços de transporte como Uber e táxis: segundo moradores, os motoristas costumam se negar a fazer corridas no local e alegam ter medo de entrar na Ocupação. Deivid Cardoso, de 22 anos e a esposa Jaiane Silva da Silva, de 23, vivem na Justo há quatro anos e sofreram com o difícil transporte, até comprarem seu carro próprio recentemente. “Antes de ter o carro usávamos bastante ônibus e Uber. Mas é difícil, quando os motoristas percebem que estamos aqui, cancelam a viagem. As vezes tem que esperar um pouco mais embaixo para poder pegar. Aqui, como é ocupação, não está nem registrado do mapa, o que complica ainda mais”, conta Deivid. Deivid começou a trabalhar recentemente na Taurus, fábrica localizada no bairro Fazenda São Borja. Ele conta que, apesar da empresa pagar seu vale transporte, não há ônibus para leva-lo até o local. A solução que encontrou foi ir e voltar a pé todos os dias. São vinte minutos de caminhada, que preocupam a esposa: “Eu acho perigoso para ele, me preocupo. Ele solta as 22h e é um caminho complicado para voltar”, lamenta Jaiane. O casal espera vaga em uma das creches da região para a filha de três anos. A justificativa é sempre a mesma: a Ocupação não possui endereço oficial. A mãe precisa ficar em casa para tomar conta da filha enquanto não consegue a vaga. “Eles perguntam se eu tenho comprovante de residência, eu explico que moro na Ocupação, que não tem praticamente nenhum tipo de endereço. Eles pedem então para eu conseguir um comprovante de outra localidade”, explica a mãe. O Posto de saúde mais próximo também traz dificuldades: “Eu
Pedro é cadeirante e tem dificuldade de se locomover pelas ruas irregulares
de moradores como Pedro Rosa não oferece qualidade para Carvalho, 53 anos, cadeirante. cadeirantes transitarem: “As Para ele, se locomover na co- calçadas do centro da cidade munidade é um problema, já são um caos, um verdadeiro que o espaço não é preparado desleixo com os deficientes. para a acessibilidade. O aposen- Tenho que andar no meio dos tado perdeu os movimentos dos carros na rua, não tem rammembros inferiores devido a um pas em lugar nenhum”. acidente de trabalho ocorrido O pequeno Maxwell, de quaem 2016 e faz sessões de fisio- tro anos, nasceu com hidrocefaterapia duas vezes por semana lia e por isso tem dificuldades na Universidade Feevale (NH). A motoras. Ele precisa de cadeira prefeitura de de rodas mas Novo Hama família não burgo fornece “A falta de transporte tem condio transporte e as ruas esburacadas ções de ade o busca em quirir uma. casa para que e irregulares são uma Para ir até os faça o acom- grande dificuldade tratamentos panhamento. médicos que Para ou- para os moradores precisa, a tras ativida- da Justo” irmã Marine des, ele preAdriane Flocisa ir sozinho até os pontos de res da Silva, 23 anos, leva-o a pé embarque, que muitas vezes não todos os dias. “Quando precisa são adaptados para cadeiran- de alguma coisa urgente, a gentes. “As vezes chega o ônibus te acaba pedindo aos vizinhos na parada mas não tem rampa. que tem carro. Se não, vamos Tenho que esperar horas para a pé”, afirma Marine. poder usar um transporte. Já liguei pra Prefeitura, mas eles SEM CRECHE não resolvem”, conta. Pedro A grande maioria das mães acrescenta que São Leopoldo da Justo passa por problemas
na hora de buscar um local para as crianças estudarem. Patrícia Feijó, de 36 anos, conta que teve dificuldades para matricular os filhos de dois, 13 e 14 anos em escolas próximas. Ruth Michele Ribeiro, 22, cuida de crianças da região para que os pais possam trabalhar: essa atividade é comum na Vila, pois muitos não têm com quem deixar os filhos. Ruth também explica que a localização é um empecilho para colocar os seus filhos na creche. “Tentei no ano passado matricular meus filhos e eles disseram que não podiam por causa do endereço. Não temos como comprovar a residência, não temos contas aqui”. Dos seus quatro filhos, somente a mais velha - de seis anos conseguiu uma vaga na escola Amadeo Rossi, no bairro Santa Teresa. Os outros aguardam a disponibilidade de creches nas redondezas. FRANCIELE ARNOLD ANDRESSA MORAIS MILENA SILOCCHI
Movimento .5
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Ruas da Vila serão representadas por moradores Comunidade irá eleger líderes para cada uma das vias da Ocupação
A
Justo terá representantes de rua escolhidos pelos moradores da comunidade. A decisão foi tomada em reunião ocorrida no dia 27 de abril em reunião do Movimento Justo, com a presença de representantes da comunidade, da Cooperativa Habitacional Alto Paraíso, da Tenda do Encontro e da Universidade do Vale do Rio dos sinos (Unisinos). Foram discutidos e avaliados os próximos passos do Movimento. Também foi feito um mapa com identificação preliminar de todas as ruas, para melhor visualizar o espaço da comunidade.
TAREFAS
Ao todo são 18 ruas, que terão 18 representantes e os respectivos suplentes. Tais pessoas integrarão o grupo que conduz o Movimento. Nas próximas semanas serão realizadas reuniões para os moradores escolherem, em conjunto, as lideranças de cada rua. Para o dia nove de maio estava prevista uma assembleia, com todos sendo convidados para decidirem as novas etapas de organização do Movimento. Cada morador escolhido como representante assumirá tarefas juntamente com a comunida-
de. Firmará compromisso de participação, diálogo e escuta da comunidade, estando ciente de que também representa o Movimento Justo nos âmbitos público, jurídico e social. Além disso, deverá elaborar um plano de organização de cuidados com as ruas e dar continuidade ao cadastro das famílias. Serão identificados os moradores e as suas casas, que receberão números. Esta medida também servirá para aperfeiçoar o mapa.
PARTICIPAÇÃO
“O Movimento Justo cresce cada vez mais na sua organização para a conquista da moradia digna para todos. Esta etapa da organização amplia a participação dos moradores”, explica a professora do Serviço Social da Unisinos Marilene Maia, presente na reunião. “Quanto mais moradores com seus olhares e propósitos constituírem o movimento mais exitoso será o processo e o resultado”, diz. “As realidades individuais vividas pelos moradores devem ser reconhecidas: são inúmeras situações que precisam ser cuidadosamente acolhidas pela organização e por órgãos que possuem responsabilidade máxima de garantir estes direitos”, finaliza Marilene.
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FRANCIELE ARNOLD
O mapa da Ocupação Justo
Membros do Movimento Justo se reuniram para debater questões da comunidade. Na oportunidade, foi elaborado em conjunto um mapa da Justo
Ordem das reuniões Palmeiras das Missões (Beco A) Travessa da Porteira Maria da Luz Beco A Travessa são Francisco (Av. das Américas) Rua da Tenda Ermelindo Vanieri (Av. das Américas) Ermelindo Vanieri (Figueira) Travessa Armagedon (parte 1) São João Santa Maria Travessa São Francisco (Figueira) Travessa 1 Travessa 2 Travessa 3 Travessa 4 Travessa Armagedon (parte 2) Palmeira das Missões (Figueira)
6. Saúde
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O grave abandono do lixo O caminhão da coleta não passa em todas as ruas e os resíduos acabam sem destino certo
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uas sujas com sacos de lixo não coletados em algumas ruas pela Prefeitura é um dos problemas que incomoda os moradores da Ocupação. Acontece que na comunidade algumas ruas são estreitas demais e o caminhão de lixo não consegue passar, com isso alguns moradores acabam largando os resíduos na rua ou em terrenos vazios. Esta prática deixa as ruas poluídas e a comunidade diz ter medo de pegar alguma doença que possa ser transmitida pelo lixo, como leptospirose. De acordo Janete de Fátima dos Santos, 59 anos, que reside há seis anos na Ocupação, a situação vem se agravando a cada ano. “A quantidade de lixo nas ruas aumentou, e para piorar, o número de cães que são abandonados aqui também. Os animais rasgam os sacos de lixo”, disse a aposentada. Janete diz pedir a colaboração da comunidade para levarem os sacos até uma das lixeiras comunitárias, que ficam em ruas aonde o caminhão passa.
Sem recolhimento organizado, a sujeira se espalha A moradora Márcia Dias doença. A rua é de todos, o Pereira, 51 anos, mora na Ocu- pessoal deveria respeitar”, pação há três anos e o excesso ressaltou a moradora. de lixo largado em um terreA leptospirose é uma dono ao lado da ença presensua casa, traz te na urina muitos pro- A comunidade dos ratos, e blemas para teme contrair que em muisua família. tos casos é O local é um doenças que possam transmitida dos pontos ser transmitidas através do com maior seu contato acúmulo de pelo lixo com a água resíduos. “Às de enchenvezes enche de ratos debai- tes e esgoto. “Estamos á merxo da minha casa por conta cê de ser contaminados por do lixo e a gente fica corren- doenças”, teme a aposentado o risco de contrair uma da Márcia, que tem um filho
Márcia critica o despejo irresponsável dos detritos estudante e se preocupa nos dias de chuva, que é quando a água se mistura com o lixo e o acesso para sair da rua fica ainda mais difícil.
MELHORIAS
Joaquim Silveira de Souza viu a Justo nascer e se desenvolver. Hoje com 66 anos, o aposentado acredita que será difícil de o Governo fazer algo para contribuir com a situação do lixo nas ruas. “O povo vai ter que colaborar e ir até as lixeiras levar seu lixo se quiser ver as ruas limpas”, afirma. Ele explica que “as ruas são estrei-
tas por não terem sido planejadas, não há outra solução e devemos fazer por nós, sem esperar pela Prefeitura”. De acordo com o secretário de Habitação de São Leopoldo, Nelson Spolaor, a Prefeitura não está se organizando para melhorar a situação da Justo. Ele justifica que a área ocupada está em processo judicial, e por este motivo não estão realizando mudanças. O lixo continuará sendo recolhido no entorno da Ocupação. MAESE DANIELA CLOSS JOHANN MACEDO
Água escassa e sem controle sanitário, uma preocupação constante Em São Leopoldo, na Ocupação Justo, cerca de três mil famílias sofrem com a falta de água e recorrem a redes alternativas, consumindo água sem controle sanitário. Muitos afirmam que a água causa viroses. Frequentemente recorrem a uma bica pública. Morando desde o fim de 2015 na Justo, Mário Soares, 23, sofre com a falta de água. Ele conta que chegou a ficar três dias sem água, precisando recorrer aos vizinhos ou buscar o líquido na bica pública, na Avenida das Américas, via de acesso à Ocupação. “As faltas de água acontecem principalmente no verão”, informa. Soares resiCarla usa o de com a esposa carrinho do bebê e Marília Raquel de garrafas plásticas para Brito Amaro, 33, o buscar água na bica filho Davi Lucas Amaro Soares, 4, e a enteada Érica Amaro da Silva, 14. Há um ano e
meio, a família contraiu uma virose, que Soares acredita ter sido causada pela ingestão da água. Desde então, buscam água na bica. “Para o meu filho pequeno compramos água”, conta. Ao lado de sua residência, na parte mais alta, está instalada uma caixa de água com capacidade para 500 litros. Segundo o morador, a caixa garante o abastecimento da família por pelo menos 30 horas.
DOENÇAS
As roupas de Iloir Terezinha Alves Santos, 62, estavam dispostas no portão da casa para secar. De acordo com ela, as peças puderam ser lavadas, pois conservou água na noite anterior. Ela diz que seu marido, Cedirlei Ferreira Nepomoceno, 48, contraiu uma virose por causa da água duas vezes desde que moram na Justo. “Às vezes a água vem mar-
rom ou preta, vem um caldo. Até a roupa fica encardida. O cheiro t a m b é m é fo r t e”, a f i r m a .
ESTRAGOS
“Chuveiro e máquina de lavar roupa estragaram por causa da baixa pressão da água”, relata Carla Josiane Silva de Souza, 42. Há oito anos na Ocupação, ela comenta que é mais comum não ter água, por isso, quando tem, reservam o “máximo que conseguem”. Carla lembra bem da vez em que ficaram nove dias sem água, quando formou-se uma fila para pegar o líquido na bica. Ela conta que recorre a “bica” somente se ficar muito tempo sem abastecimento. “Coloco uma caixa de madeira com pet dentro do carrinho de bebê e busco com meus filhos”, conclui. IVAN JÚNIOR BÁBITON LEÃO
Lazer .7
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Um “gol” para mudar a vida Projeto Gol da Virada possibilita aos jovens da Justo espaço para atividades físicas e estudos
portantes como disciplina e respeito nos estudos e treinos. A nossa convivência com os professores é muito boa, pois eles brincam e ajudam todos nós”, declara.
D
esde 2011, o projeto Gol da Virada acolhe jovens moradores da Justo como forma de incentivo à prática do futebol. Também ensina para os participantes, princípios e valores vigentes na Bíblia. Como, por exemplo, amor, paz e companheirismo. Promovido pela 1ª Igreja Batista de São Leopoldo, liderada pelo Pastor Reginaldo Magalhães. O projeto desenvolve-se todos os sábados pela manhã, das 8h30 às 11h30, contando com mais de 30 alunos. Segundo o fundador do Gol da Virada, Hadiel Sicsu, a iniciativa visa oportunizar um espaço de recreação para jovens e apresentar princípios e valores bíblicos. “O nome do projeto tem a ver com a mudança de vida, pois se estamos empatando um jogo, eu preciso fazer o gol da virada para vencer a partida. A ideia é que eles estejam andando por um caminho e acontece algo na vida deles que mudou suas direções. Esse algo é o projeto”, declara.
COLABORAÇÃO
Mais de 30 jovens são atendidos pelo projeto da 1ª Igreja Batista Todos os sábados, jovens moradores da Justo descem até o campo de areia - localizado perto do Posto de Saúde Cohab Duque - para um momento de diversão e aprendizado. As atividades começam com um café da
manhã, seguido do estudo dos princípios e valores da Igreja. Depois eles vão até o campo para realizar o aquecimento e, posteriormente, iniciam a partida. De acordo com Éric Gabriel, 13 anos, seu sonho é
ser jogador de futebol e atuar como zagueiro. Ele afirma que o Gol da Virada é uma oportunidade para receberem conhecimentos e se tornarem pessoas melhores. “É uma ótima experiência, pois aprendemos princípios im-
O Gol da Virada atende jovens de nove a 17 anos. Várias pessoas participam do projeto desde o seu início. Fundado por Hadiel e sua esposa, Gabrieli Schulz, 30 anos, os dois são auxiliados por participantes ou por membros que se destacaram e queriam fazer parte da iniciativa depois de completarem 18 anos. Deividi de Oliveira, 21 anos, conheceu o Gol da Virada há 6 anos e auxilia o projeto até hoje. Antes, ele participava como atleta e agora tornou-se professor. “Eu comecei a ajudar há três anos e ele abriu muitas portas para mim, justamente por causa dos valores que adquiri e levei para minha vida. Não somente vivendo no projeto, mas é um conhecimento que você carrega para sempre”, finaliza. LORENZO PANASSOLO SOFIA PADILHA GULART
Games e encontros na Tenda A diversão para os adolescentes é escassa. A garotada gosta de jogar videogames e futebol. Emanuel Simplício, 14 anos, e Thales Cauan, 16 anos, divertem-se jogando videogames e trocando mensagens pelo celular. Thales trabalha com os pais no armazém da família e está no 1° ano do Ensino Médio. “Eu não saio muito porque eu não consigo interagir muito com o pessoal” conta. Entre os videogames, prefere os de estratégias e de esportes. Emanuel passa muito tempo no celular conversando com os amigos. Fora da Ocupação, o menino gosta de passear pelo shopping. “Ontem, eu fui no shopping sozinho pela primeira vez”, comenta. Para Rebeca Vieira, 13 anos, a música é o seu principal hobbie. Na Tenda do Encontro, ela está aprendendo a tocar o violão. “Eu sou apaixonada pelo instrumento e tocar é a minha forma de diversão”, relata. Ela também passa o tempo conversando com as amigas que moram perto de sua casa e estudam no mesmo colégio. Sobre a falta de outros
lugares para se divertir, lamenta a inexistência de uma praça. Além das aulas de violão, a Tenda do Encontro oferece outras atividades para a juventude. Há aulas de futebol, de reforços escolares e um grupo de jovens para meninas. Natiele Quevedo, 20 anos, aluna de Serviço Social na Unisinos e auxiliar na Tenda do Encontro pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), conta que “a reunião de adolescentes é para juntar as meninas buscando integrar as jovens da comunidade para as outras atividades realizadas na Tenda e também para criar um vínculo de amizade entre as meninas”. Lucas Viana, 18 anos, já não se interessa mais pelas atividades realizadas na Tenda para ele “A Tenda do Encontro é mais para criança… Eu não vou muito lá por isso”. O jovem conta que não há diversão dentro da Ocupação para os jovens de sua idade. JOÃO PEDRO CHAGAS VIEIRA TYNAN BARCELOS
Thales Cauan prefere divertir-se em seu videogame com jogos de estratégia
8. Perfil
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Mulher, líder e sonhadora Lutando pela cooperativa Alto Paraíso, Jucimara é uma figura conhecida na comunidade
D
entre os líderes da Cooperativa Alto Paraíso, está uma mulher sonhadora, corajosa e de personalidade forte. Jucimara de Oliveira Flores (40) ou Juci, como é conhecida pelos moradores, é a primeira fiscal da entidade desde o início de 2019. A cooperativa é ponte entre comunidade e advogados no processo de legalização. Também tem como objetivo organizar administrativamente o movimento, incentivando moradores a buscarem melhores condições de moradia. Natural de Bituruna, no estado do Paraná, Juci mudou-se para a cidade de Sapucaia do Sul ainda muito nova com seus pais. Co m e n s i n o f u n d a m e n tal incompleto, trabalhou como auxiliar de padaria em um mercado da cidade, mas precisou se afastar do trabalho após sofrer complicações na coluna passan-
Inicialmente desinteressada pelo Movimento, Jucimara identificouse com os sonhos da maioria e não pretende abandonar a luta
do por uma cirurgia. Mãe de dois filhos, Adriel de 21 anos e Tamires de 17, conta que descobriu a Ocupação em 2014 após fazer uma visita a um casal de amigos no local. Obteve seu espaço e desde então convive com o esposo Fe-
lipe e sua filha mais nova. Tendo total apoio e incentivo da mãe, a menina, que ainda cursa o ensino médio, tem o grande sonho de iniciar uma profissão. Juci descobriu a vontade de se engajar com a comunidade após participar de
uma reunião na Tenda do Encontro. Logo começou a participar assiduamente de encontros de moradores e oficinas de brechó, tornando-se, mais tarde, uma das mulheres à frente da Cooperativa Alto Paraíso. Em meio a um ambiente
onde a maioria da liderança do movimento ainda é composta homens, Juci vem conquistando seu espaço. Entre suas funções está a organização de eventos e reuniões de moradores onde são discutidas novas ideias visando a melhoria da qualidade de vida da comunidade. Outras ocupações da cidade já foram legalizadas, o que motiva ainda mais a luta de Jucimara. Em meio a um cenário onde o governo não dá assistência, vê esperança nos programas da Tenda do Encontro junto às crianças, os trabalhos realizados pela cooperativa e a visibilidade que outros projetos dão à comunidade. Atualmente desempregada, Juci luta por seu espaço na sociedade indo contra o preconceito. “No início eu não era muito envolvida e a minha vontade era de sair da Ocupação, mas ex i s t e m m u i t o s s o n h o s aqui, não tenho mais vontade de sair, tenho vontade de seguir na luta”. INA POMMER VITÓRIA PIMENTEL
Sem endereço oficial, é difícil matricular Moradores da Ocupação Justo enfrentam dificuldades na hora de matricularem seus filhos nas escolas. Por vezes, crianças e adolescentes acabam perdendo parte do ano letivo até conseguirem assegurar suas vagas. Em alguns casos, mães, pais e responsáveis precisam entrar com ações no Conselho Tutelar e até mesmo no Ministério Público para conseguirem o direito dos filhos se matricularem na rede pública de ensino. Cerca de 2.500 famílias vivem em um espaço de 42 hectares da Ocupação, que tem mais de 20 anos. Lideranças locais estimam que a população seja de aproximadamente oito mil pessoas. Apesar das dificuldades, os moradores da Justo garantem que todas as crianças e adolescentes estão matriculadas nas redes públicas municipal e estadual. Porém, nem sempre as vagas, que deveriam ser direito de todos, são de fácil acesso. Daiane da Silva Santos,
de 29 anos, tem quatro filhos e vive no local há sete anos. Ela conta que somente conseguiu o ingresso dos filhos na escola por meio de processos judiciais. Além dos filhos dessa moradora, aproximadamen-
te 800 crianças entre 0 e 14 anos vivem na região. “Tive que recorrer ao Conselho Tutelar para garantir uma vaga para meus filhos”, desabafa Daiane. Ela acredita que a falta de um endereço
Como muitos jovens e crianças da comunidade, Dienifer e Brayan estudam em escolas distantes da Ocupação
reconhecido pela Prefeitura influencia nessa questão. A moradora conta ainda que só conseguiu matricular seus filhos quando deu o endereço da sua sogra, residente de outro bairro, próximo à Ocupação. Todas as escolas exigem um endereço de referência para manterem o contato com as famílias, além de dar preferência aos alunos que morem mais próximos. Essa exigência é comum em todos os lugares. Antes de se mudar para a Ocupação Justo, Daiane morava no bairro Feitoria, também em São Leopoldo. Mudou-se para o local logo após se casar. Seu marido, Marcos Roberto Gomes Júnior, era morador da Vila Tereza, vizinho da Justo. Daiane e Marcos moram com seus quatro filhos, Kauã Andriel Santos, 14 anos, Iago Adriel Santos de Fraga, 13, Dienifer Andryza da Silva Santos, 12, e Brayan Miguel Santos Gomes, de cinco. Os estudantes que moram na Ocupação estão divididos,
em sua maioria, em duas escolas próximas: A Escola Estadual de Ensino Médio Amadeu Rossi, no bairro Santa Tereza e na Escola Estadual de Ensino Fundamental General João Borges Fortes, no Cristo Rei. Mesmo sendo as instituições de ensino mais próximas do local, são necessários cerca de 20 minutos diários de caminhada para ir até elas. A principal reclamação dos pais e responsáveis é em relação a vagas nas escolas de Educação Infantil. Daiane também precisou recorrer ao Ministério Público para garantir a vaga de seu filho mais novo, Brayan. “Eu precisava trabalhar e então coloquei ele em uma escola particular até conseguir a vaga. Levou um ano para eu conseguir”, relata. Apesar das dificuldades, os moradores reconhecem que faltam vagas no município e não só para eles. LUCAS RAFAEL ALVES HENRIQUE KIRCH
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Associativismo .9
Cooperativa Alto Paraíso luta pela regularização A organização trabalha para garantir moradia digna aos ocupantes
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ogo na entrada da Ocupação do Justo fica localizada a Cooperativa Habitacional Alto Paraíso, integrante do Movimento Justo. Ela tem como missão principal auxiliar judicialmente os moradores associados. Por se tratar de uma cooperativa, ela não tem fins lucrativos e sua manutenção é feita através de doações espontâneas dos moradores. Na cooperativa trabalham 22 pessoas, sem nenhum tipo de remuneração. Fábio Simplício é o presidente e coordena junto de sua esposa, Taise Fagundes e da Jucimara de Oliveira Flores que atua como fiscal da cooperativa. Além deles, outros 19 voluntários trabalham pelo mesmo objetivo. Fisicamente, a cooperativa consiste num salão onde os associados são recebidos e onde as decisões acontecem.
Obras iniciadas para a ampliação da Cooperativa Alta Paraíso
CADASTRAMENTO
Fábio vem trabalhando no cadastramento dos moradores da comunidade. “É importante que o cadastro seja feito para que essas famílias possam ser incluídas na ação que está sendo movida judicialmente. Sem o cadastro, essas famílias brigam sozinhas, sem o apoio da cooperativa e de seus advogados”, conta Fábio. Ele acredita que a cooperativa conseguirá cadastrar 100% da Ocupação. Até o momento, foram cadastradas 681 famílias. Ao todo, são 2500 grupos familiares residentes na Ocupação. Para realizar o cadastramento, um membro da família precisa dirigir-se até a cooperativa com um documento de identificação que conste seu RG e CPF. Lá, é feita uma cópia do documento e o cadastro está pronto. A cooperativa é auxiliada por três advogados na ação que visa a regularização dos terrenos da Ocupação Justo e de mais cinco advogadas dispostas a auxiliar as famílias judicialmente em causas menores. “A cooperativa defende todos os pontos e busca atender a todas as necessidades da comunidade”, enfatiza Simplício. Moradores da Ocupação se mostram conhecedores das causas movidas pela
cooperativa. Como é o caso da aposentada Maria José Vieira, de 86 anos, que compareceu na manhã do dia 13 de abril na cooperativa para se informar com o Fábio como estava o processo. “A gente precisa lutar pelo que é nosso e acompanhar de perto o trabalho da cooperativa”, afirma Maria.
REFORMAS
Ampliações estão sendo Moradores contrataram pedreiros e feitas na Cooperativa Habicompraram materiais de construção tacional Alto Paraíso. Uma obra ao lado busca tornar o mas haverá um escritório cooperativa estão sendo paespaço da cooperativa maior. dentro da sede. Assim, será gos pelos próprios moradores. Com isso, Fábio pretende possível organizar melhor os “Uns pagaram os pedreiros. transformar o ambiente em documentos que a cooperativa Outros doaram cimento e uma verdadeira sede. “Uma possui e prestar um serviço de assim por diante. Aqui todo cooperativa não funciona sem qualidade para os moradores. mundo se ajuda e somente dinheiro, pois ela tem cus- Esse escritório irá possibilitar dessa forma é que conseguitos. É preciso capitalizar. Com uma maior aproximação dos mos realizar tantas coisas”, a sede, poderemos alugar o advogados com os moradores. afirma Fábio. Também estão espaço para os A ideia, segundo sendo feitas obras para o lazer moradores que “Sem o cadastro, Simplício, é es- das crianças. Nos fundos da quiserem realitreitar a relação cooperativa está sendo consessas famílias zar alguma fesdos advogados truído um campinho de futeta e, com isso, brigam sozinhas, com os associa- bol para que sejam realizadas gerar receita sem o apoio da dos, aumentan- atividades esportivas. para bancar as do ainda mais despesas”, con- cooperativa e de a participação DESCONFIANÇA ta o presidente seus advogados” da comuniMesmo com os esforços da da cooperativa. d a d e . cooperativa, ainda há diversos Além disso, Fábio Simplício Todos os cus- moradores que não confiam na com as refor- Presidente tos das obras na iniciativa e não acreditam nas
boas intenções da cooperativa. Isso ocorre devido ao fato de ter existido outras três cooperativas antes da Alto Paraíso ser fundada. Todas cobravam mensalidade e não atendiam às necessidades dos moradores. Por fim, juntaram o dinheiro arrecadado e fugiram, deixando para trás milhares de famílias desamparadas. Isso vem mudando e já há bastante aceitação por parte dos moradores, já que as ações da Alto Paraíso estão sendo notadas pela comunidade. Carros de som, motos de som e grupos de WhatsApp são alguns dos recursos utilizados pela Cooperativa para divulgar as ações realizadas e incentivar o cadastramento dos moradores. Entre elas, o projeto “Ocupação Justo Sempre Limpa”, cujos voluntários recolhem o lixo das ruas e os separam nas lixeiras coletivas. A cooperativa também distribui folhetos com o intuito de conscientizar os moradores da Ocupação de que o lixo é um problema de saúde pública e deve ser recolhido com cuidado. GUILHERME SANTOS BRUNA SOARES
10. Comunidade
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Histórias de superação Em um local onde não há assistência da Prefeitura, é difícil o acesso à educação e à saúde, existem relatos que inspiram
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Orgulhoso, Luiz Carlos mostrou, ao lado da mãe, Neli, o desenho feito em um aplicativo
Giovano, Cristiano e o pai, Dionísio
Maxuel gosta de brincar com a sobrinha Naiara
a Ocupação Justo, mora Neli Camargo de Campos, uma mulher tímida, simpática e acolhedora. Aos 59 anos, trabalha com limpeza nas cidades e passa por algumas complicações nos ossos. Natural de Eldorado do Sul, vive na Ocupação desde 2015 com dois filhos e uma nora. Entre os filhos de dona Neli, há um rapaz muito especial. Luiz Carlos, de 36 anos, foi diagnosticado com autismo já no primeiro ano de vida. Luiz sempre foi diferente das outras crianças e após a descoberta, a mãe buscou dar todo o suporte e atenção ao filho, procurando recursos e ajuda terapêutica. Fazendo tratamento há mais de quatro anos, apresentando melhoras, Luiz ainda tem dificuldade de comunicação com outras pessoas, falando mais com a mãe. Mesmo com sua limitação, é um rapaz muito simpático entendendo e respondendo com sorrisos sinceros quando conversamos diretamente com ele. Neli o matriculou na escola Menino Deus em Porto Alegre, mas por suas restrições, não conseguia acompanhar a rotina escolar e nem se alfabetizar. Além da grande atenção e dedicação da mãe, Luiz recebe ainda apoio do Governo. Anualmente dona Neli precisa renovar seu cadastro para garantir o benefício de um salário mínimo que auxilia nos custos, já que o mesmo não tem condições de se inserir no mercado de trabalho. Entre os hobbies de Luiz está a paixão por jogos de aplicativos de celular, além de ajudar a mãe a limpar o pátio, tendo a gostosa experiência de mexer com a natureza. O rapaz tem o sonho de construir uma família e tem todo o apoio da mãe que crê em um futuro melhor para o filho.
PARALISIA CEREBRAL
Natural de Ijuí, seu Dionísio, de 67 anos, é um dos moradores mais antigos da Ocupação Justo. Trabalha com reciclagem e vive com a esposa Nair e o filho mais novo, Cristiano, portador de paralisia cerebral. As complicações se deram por erro médico durante a gravidez de Nair, que foi medicada incorretamente, causando problemas neurológicos e na formação do filho. Aos 30 anos, Cristiano nunca frequentou a escola e nem teve acesso a alfabetização. Na infância teve assistência da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que o ajudou a desligar-se da cadeira de rodas. Mesmo lutando e se esforçando para não voltar para a cadeira, ainda não caminha sem o auxílio de muletas.
O rapaz passa seus dias mais em casa, e apesar de suas limitações, gosta muito de caminhar pelo bairro. Tendo todo carinho e apoio da família, é incentivado pelo irmão mais velho, Giovano, 34 anos, a fazer caminhada buscando melhorar cada vez mais sua capacidade de locomoção. Sendo “uma criança com cabeça de adulto”, Cristiano tem dificuldades para se comunicar, se alimentar e se locomover. Mesmo com seus problemas, é um rapaz atento que entende e corresponde as conversas dentro da sua especialidade. Mesmo com o apoio de um benefício cedido pelo governo, Dionísio conta que a busca de tratamento e os cuidados com o filho não são fáceis. Com o virtual fim do programa Mais Médicos, a família ficou sem assistência próxima à residência. Os medicamentos de Cristiano geralmente são cedidos pelo Governo, mas na falta, sempre saem do esforço do trabalho do pai.
HIDROCEFALIA
Brincando pelas ruas da Ocupação Justo, Maxuel é um menino falante, inteligente e portador de hidrocefalia. Com seus cabelos encaracolados e um sorriso lindo, adora brincar com a sobrinha Naiara e seus cachorros. Marine, de 23 anos é irmã mais velha de Maxuel, mãe de um menino de seis anos e de Naiara de quatro anos, uma menina muito doce e simpática. Marine vive na Ocupação desde pequena morando com a mãe e ajudando a cuidar do irmão mais novo. Marinês descobriu a deficiência do filho durante a gravidez. Não mediu esforços na busca pelo tratamento adequado. Maxuel frequenta a Apae e escola além da terapia ocupacional. Faz acompanhamento médico no Hospital Conceição, em Porto Alegre, e tem o apoio do Governo Federal, que concede benefício financeiro. Aos quatro anos, Maxuel ainda não consegue caminhar devido as suas limitações, mas demonstra a vontade de se movimentar se apoiando em moveis e paredes. É uma criança muito simpática, feliz e curiosa. Gosta muito de brincar de pique-esconde com as sobrinhas. Sabe cantar músicas inteiras e conforme relatos da irmã, é apaixonado por instrumentos, usando os talheres da casa para simular uma bateria e violão. Maxuel é curioso e se apaixonou pela câmera fotográfica da nossa equipe. Gosta de cachorros e sabe o nome dos caninos adotados pela família, lembra do nome da profe da escola, e contou suas estratégias de esconderijo nas brincadeiras. O menino fala de tudo e diz que quando crescer vai ser super-herói. A família vê a esperança de melhora de Maxuel e um futuro com uma vida normal e tranquila. INA POMMER HENRIQUE KIRCH
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Internet .11
Moradores conectados Com velocidades que chegam a 500Mbs, as famílias podem acessar a rede para estudos, lazer e trabalho
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esde que chegou na Ocupação Justo, em 2013, Izequiel dos Santos, 32 anos, percebeu a necessidade de manter o local conectado. O morador trabalha há 19 anos em uma empresa de serviços de comunicação multimídia e distribuição de internet. “Cheguei na Ocupação e percebi uma precariedade nos serviços de internet. Conversei lá no meu local de trabalho e eles conseguiram instalar uma torre aqui”, conta. Outra empresa também distribui internet na Ocupação. Não ter endereços reconhecidos pela Prefeitura de São Leopoldo impede que os moradores da Ocupação assinem planos de TV, internet e telefonia. Incialmente, a única forma de conexão da Justo era via 3G. A velocidade dessa forma de conexão varia entre 400kbps a 4mb, além de haver um limite mensal do uso de dados, que varia de acordo com o plano contratado. A chegada da internet via rádio mudou a forma de conexão na Justo, não havendo mais um limite para o uso de dados. Muitas famílias acabaram aderindo ao serviço. Essa rede é acessível há quatro anos. “Nosso objetivo é deixar todo mundo conectado, hoje não se faz nada sem internet”, observa Izequiel. Apesar da novidade, a velocidade de 5Mb, máxima oferecida, ainda era um problema para algumas famílias. Moradores necessitavam de conexões mais rápidas e isso fez com que empresas expandissem seus negócios para lá. Faz um ano que a conexão por meio de fibra ótica, disponível através de cabos, chegou na Ocupação. A principal dificuldade na hora de instalar o novo serviço foi a falta de postes para a passagem dos cabos. Com o acesso via fibra ótica, as velocidades auA chegada da mentaram. Hoje é possível ter planos de até 500Mbs conexão via na região. Silvia Medeiros, rádio melhorou 41 anos, é uma usuária do serviço. “Moro aqui com o acesso, mas mais seis pessoas e o plano ainda era que contratei é suficiente. Todos se conectam ao mesinsuficiente mo tempo”, declara. O casal Pedro Jackson Miller e Elisangela Hoffmann Ramon, ambos de 32 anos, administra uma lancheria próxima à Tenda do Encontro e utiliza a internet para divulgação de seus serviços. “A via rádio foi muito boa no início, mas assim que surgiu a fibra ótica fizemos a migração”, diz Elisangela.
Izequiel trabalha em uma empresa provedora de internet e ajudou a conectar a Justo
LUCAS RAFAEL ALVES VITÓRIA PIMENTEL
Glossário Internet 3G: Pode ser contratada por meio de operadoras de celular. Dependendo da região, pode não ter um bom sinal. A velocidade é baixa. Internet via rádio: O sinal transmitido por antenas. Essa tecnologia suporta voz e dados. Internet via fibra ótica: Usa cabos de fibra óptica que possibilitam maior velocidade sem perda de sinal e qualidade. Mbs e Kbs: Byte designa a menor unidade de informação armazenada ou transmitida. Kb designa o kilobyte, equivalente a mil bytes. Mb designa o megabyte. Equivale a 1 milhão de bytes. Fonte: Wikipedia
Para Pedro e Elisangela, a conexão rápida ajudou na divulgação dos seviços da lancheria
12. Adoção
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A Vila protege os animais A Justo sofre com o número grande de cães abandonados, mas não deixa de adotar o máximo que pode
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o pátio das casas da Ocupação Justo, é difícil não encontrar pelo menos um cachorro. E pelas ruas há inúmeros. Devido a esta grande quantidade de cães, muitos adotados, ao conversar com a comunidade ouvimos que ela se considera acolhedora destes animais, pois eles também têm direito a um lar. Para a moradora Silvia Medeiros, que atualmente cuida de quatro cachorros e dois gatos. Algumas pessoas adotam e não conseguem cuidar das doenças e alimentá-los, e por fim, abandona os animais nas ruas. No decorrer dos 41 anos da artesã Silvia Medeiros, ela diz já ter tido cerca de 26 cães em casa. “Acho que as pessoas devem adotar somente se puderem dar a devida atenção: alimentar, cuidar para não contraírem doenças e mantê-los dentro do pátio. Não adianta pegar e depois largar”, comenta. A artesã também ajuda os animais que não pode tirar da rua. Um “panelão” de polenta e arroz é feito na casa da família diariamente, intercalados com a ração, para alimentar os seus cães, junto com aqueles que aparecem em frente à casa.
RESGUARDO
Sofia, Maxue e Rarumí são as três cadelinhas que fazem parte do lar de Ronice, Dionatas e suas duas meninas. Os bichinhos têm raças diferentes e vivem em um espaço cercado nos fundos da casa. Ronice diz que além de alimento, amor e carinho, é essencial mantê-los dentro do pátio. Este cuidado é feito para evitar acidentes, reprodução e contaminação de doenças. “Nós cuidamos porque queremos ver eles bem e felizes. Temos um bom espaço para os animais no pátio, assim não precisamos amarrá-los e mantemos eles em segurança”, ressalta. Para o aposentado Joaquim Silveira de Souza, 66 anos, atualmente existem mais cães nas ruas do que crianças. “Os cães de rua, em sua maioria, estão com sarna, pulgas e carrapatos. O número na nossa Vila é enorme”, comenta. Sua irmã,
Cíntia, com Wagner e o filho Elói: felizes com as adoções Roseli Aparecida Prestes, 36 anos, diz que muitos dos animais são trazidos de outros bairros e abandonados na Justo. “As pessoas pensam que porque aqui é Ocupação, podem abandonar. É uma crueldade o que fazem”, afirma a moradora. Ela relata já ter tido até seis cães adotados em sua casa, mas que é difícil cuidar de tantos animais.
ATENÇÃO
Livinho e Snow são os animais que Silvia Aparecida Rodrigues adotou como membros da família, aonde mora com o marido e duas filhas. Ela diz que a casa pode ser simples, mas que espaço e atenção para os seus animais, não falta. “São os meus amores”, diz. Para ela, os cachorros abandonados na rua são um problema na Ocupação. “Tem vezes em que estou
caminhando na rua e vem Prefeitura deveria tomar a seis ou sete cães atrás. É tris- atitude de recolher os cães te a situação deles, muitos de rua que circulam na Justo. estão magros e com sarna, Alberto, que tem dois camas não temos como ado- chorros adotados em casa, tar mais. A colaboração deve ressalta que os animais de ser geral”, conclui. rua reviram as lixeiras em Cíntia Cardoso, que re- busca de comida, e isso acaside na Justo há cinco anos ba por espalhar sujeira na com o seu marido, Wagner, e Vila. “Há pessoas que abano filho, Elói, convivem com donam, e é aí que se desenuma cadela, um gato e um rola todo o problema”, diz o passarinho. Os morador. animais foram “Pensam que A Secretaria tirados das ruas de Proteção Anid a O c u p a ç ã o porque é uma mal de São Lepara morar em ocupação opoldo (Sempa) um lar cheio de abrirá cadastro, amor. O menino podem em maio, para Elói mostra, or- abandonar” a castração de gulhoso, o pás815 animais e saro e pede uma Roseli Prestes 330 consultas foto. “São como eletivas. O serda família”, comenta o pai viço é voltado para famílias Wagner. Cíntia acredita que que estão inscritas em almuitos dos animais acabam gum programa social, como parando nas ruas porque o Bolsa Família. Os cadastros seus donos não cuidam, en- ocorrerão entre os dias 1 e 8 tão os cães escapam. de cada mês. As políticas públicas de proteção ao animal SUJEIRA do município são referência Para o aposentado Al- para outros municípios do berto de Mello, 56 anos, a Estado. De acordo com a Pre-
feitura, mais de dez prefeitos manifestaram interesse no modelo de ações de São Leopoldo, relacionadas à cuidados com animais.
LIMITES
Em 2018, o canil municipal de São Leopoldo chegou a abrigar mais de 300 cães, simultaneamente, em um espaço destinado a 170. Neste mesmo ano, a Prefeitura declarou que só recolheria animais doentes, pois os sadios não poderiam ficar no canil. A polêmica foi grande, após vazar na internet um vídeo de uma Kombi da Prefeitura devolvendo um cão à rua. A administração não retornou o contato da repórter para esclarecer o atual critério. Em 2017, 189 adoções foram feitas no local. Para quem tiver interessem em visitar o canil para fazer adoção, é preciso agendar o encontro através do telefone 51 3592 9981. MAESE DANIELA CLOSS JOHANN MACEDO
Cultura .13
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Há livros para todos Moradores recorrem à leitura no seu dia a dia como forma de lazer e de estudo
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a Ocupação Justo, existe um morador que pode ser encontrado em muitas casas: os livros. Diversos habitantes da comunidade têm o hábito da leitura como uma forma de lazer, de se manterem atualizados e de aprimorar seus conhecimentos sobre os mais diversos assuntos. Seja nos livros, nos jornais ou nas revistas, a leitura é parte da vida da Justo. Além disso, a própria Ocupação realiza um trabalho para incentivar suas crianças a criarem gosto pela literatura ainda cedo. No ano passado, a Vila inaugurou a sua própria biblioteca comunitária, que desenvolve um trabalho voltado, principalmente, para os pequenos. Ela se concretizou graças ao esforço da pedagoga Raquel do Nascimento, que começou a trabalhar na Ocupação quando ainda era estudante do curso de Pedagogia da Unisinos. A biblioteca é muito frequentada pelas crianças da comunidade, que recebem a oportunidade de se imergirem em um mundo de diversão e de fantasia através de dinâmicas de leitura e contação de histórias. A biblioteca conta com a ajuda de diversos voluntários dedicados a fazer com que os livros façam parte da vida das crianças. A também pedagoga Fabiana Ribeiro, de 37 anos, é uma das integrantes dessa equipe de voluntários. Em abril, Fabiana iniciou um trabalho dentro da Justo para os pequenos encontrem a diversão e a alegria que existe nos livros. Segundo a pedagoga, “a oficina é bastante dinâmica. Não se trata de simplesmente abrir um livro e pedir para que as crianças fiquem sentadas e quietas ouvindo a história. Isso seria cansativo para elas. Eu trabalho com fantoches, brincadeiras, interpretação e faço com que participem da leitura das histórias”, explica.
ela, a leitura vai muito além de um prazer: é também um caminho para que possa, um dia, retomar seus estudos e se formar em Pedagogia. Seu gosto literário engloba principalmente livros de romance, religiosos e espirituais, tendo como escritora favorita a médium paulista Zíbia Gasparetto, que ficou conhecida pelos seus mais de 40 livros sobre amor e espiritualidade. As prateleiras
da casa de Sílvia comportam uma enorme quantidade de livros, muitos deles escritos por Zíbia. Quando não está lendo um livro, Sílvia aproveita para ler outros materiais, como revistas, jornais e os cadernos de escola dos seus filhos. Ela afirma que esse seu apetite por literatura a acompanha desde a infância, e faz o possível para passá-lo adiante, para seus filhos.
Porém, essa não é uma tarefa muito fácil. “Eu compro livros e até revistas em quadrinhos de presente para meus filhos, mas nem sempre eles se interessam. Essas crianças de hoje em dia não pensam muito em ler, elas só querem saber de celular e de videogame”, lamenta. Felizmente, não são todos os jovens da Ocupação que se interessam apenas por diversões eletrônicas e
Ricardo Moreira não enxergam o prazer de mergulhar na literatura. O estudante Iago Adriel, de 13 anos, é um jovem que aproveita seu tempo na escola para abraçar os livros, tendo um grande apreço principalmente por histórias de aventura e fantasia. Porém, o gosto não é compartilhado com sua família. Segundo Iago, ele é o único na sua casa que tem o hábito da leitura. Nem mesmo seus pais leem tanto quanto ele.
JORNAIS
A biblioteca comunitária da Ocupação está a postos para oferecer leitura aos pequenos
INCENTIVO
Os adultos da Ocupação Justo também encontram o prazer na leitura. Esse é o caso de Sílvia Medeiros, de 41 anos, que não perde uma única oportunidade de dedicar um tempo do seu dia para seus livros e revistas. Para
“A leitura é fundamental para falar bem, saber das coisas e ter mais cultura”
A voluntária Fabiana ajuda para que as crianças se divirtam e aprendam
Sílvia não consegue manter distância dos livros e revistas nas suas prateleiras
O gosto pela leitura não precisa ser limitado apenas aos livros e histórias de ficção. Um exemplo disso é Ricardo Baldez Moreira, de 28 anos, que não tem o hábito de ler livros. Quando decide lê-los, dificilmente o faz até o fim, por falta de tempo ou até mesmo por preguiça. Porém, isso não o impede de ser um leitor, apenas tem preferência por outras leituras. O que Moreira mais gosta de ler é jornal - que ele afirma ler diariamente - artigos e textos jurídicos, que se relacionam diretamente com seu trabalho em um escritório de advocacia. Para Moreira, a leitura, independente do material que está sendo lido, pode ser traduzida como conhecimento e cultura. “Eu sei que eu leio pouco e deveria ler mais livros. A leitura é algo fundamental para a pessoa conseguir falar bem, saber das coisas e ter mais cultura. Eu pretendo me esforçar para ler mais livros”, afirma Moreira. Seja com livros, jornais, artigos ou revistas, os moradores da Ocupação Justo encontram na leitura uma forma de viajar sem sair da sua comunidade, ouvir grandes histórias em meio ao silêncio e enxergar o mundo com novos olhos. Para os leitores da Ocupação, não existe desculpa para não tirar um tempo do seu dia - por mais breve que seja - para transformar em um momento prazeroso de leitura. PEDRO DAMASIO HAMEISTER GABRIEL FERRI
14. Religião
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Ajuda através da Umbanda Casa religiosa conquista seu espaço na Ocupação prestando serviços espirituais da Justo
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endurada na porta de maneira discreta, uma placa identifica a casa. “Terreiro de Umbanda Pai Zuri”, está escrito em um pedaço de madeira. Na pedra, ao lado da entrada, pode-se ler o nome de Xangô, considerado o orixá da justiça, segundo a crença umbandista. Os mais distraídos não percebem, mas ali funciona, há cerca de quatro anos, a terreira de Rodrigo de Azevedo. Aos 39 anos, o trabalhador autônomo afirma que o objetivo da casa é “ajudar o próximo”. Ao abrir o terreiro sábado pela manhã, Rodrigo diz que ainda precisa limpar o local. Desde meados de 2015 as tardes são reservadas para as sessões de umbanda, o que traz algumas privações. “Eu costumava sair, jogar bola. Mas tenho esse compromisso. É o amor pela religião”, explica. Trabalhando com a linha branca, que não envolve o sacrifício de animais, o médium oferece trabalhos espirituais com ervas e defumações. Em média, 20 pessoas são
Rodrigo conduz o seu Terreiro há cerca de quatro anos atendidas por sessão. Quem bate no terreiro sempre é atendido. Rodrigo não nega auxílio quando é procurado. Ele atende desde crianças até pessoas com algum tipo de vício. Apesar de prestar o trabalho espiritual, afirma que nem tudo está ligado à religião. Em alguns casos é um processo de doutrina, segundo o médium. “A pessoa não pode chegar em casa alcoolizada e bater na mulher e no filho. Eu faço a minha parte, mas ela também pre-
cisa se ajudar”, afirma. Nas paredes de madeira, as imagens de orixás e santos dividem espaço com alguns certificados. Rodrigo explica que eles são fundamentais para o exercício da religião. “São sete anos de preparação que tu não pode interromper pra ganhar a licença, afirma. Como trabalhos necessários para obtê-la e atuar na umbanda, o médium aponta reforços espirituais e observações realizadas durante ses sões de outras casas.
Praticante da umbanda minha casa, tive problemas desde os 17 anos, o médium com evangélicos. Eles faziam conta que, quando criança, cultos aqui na frente”, conta. participou da Igreja Evan- Apesar disso, ele optou por gélica por influência do pai. não responder às provocaPorém, com o passar do tem- ções. Hoje, com o diálogo po, os dons mediúnicos fo- e com o auxílio da divulram se desenvolvendo. “Eu gação dos frequentadores enxergava, por exemplo, um do terreiro, ele afirma não senhor negro de ter mais problecabelo bem bran- “Quem pensa mas. Além disso, co d e b a i x o d e os trabalhos souma árvore, mas em viver da ciais realizados minha mãe dizia religião faz pelo médium que não havia auxiliaram para nada”, explica. errado. É a melhora da conTempos depois, preciso viver vivência. ele passou a freNa Tenda do quentar o terreiro para religião. Encontro, quanda Mãe Jovelina, Pelo amor” do todos se junem São Leopoldo, tam, a religião é até abrir sua própria casa deixada de lado. Atuando na Ocupação Justo. junto com outras religiContrário à prática co- ões da comunidade, como mercial da religião, Rodrigo a evangélica, a católica e a não cobra pelos atendimen- luterana, Rodrigo promotos que realiza. O Pai de San- ve trabalhos sociais para as to entende que o exercício crianças da Justo. Entre as da religião está na sua es- ações realizadas em conjunsência. “Todo o médium que to, está realização do brevai abrir uma casa pensan- chó. A intenção do evento do em viver da religião não é arrecadar dinheiro com está fazendo o correto. Tem o objetivo de proporcionar que viver para a religião”, às crianças um passeio diafirma Rodrigo. Para ele, o ferente no final do ano. “A lucro associado à prática re- gente consegue promover ligiosa dificulta a quebra do uma alegria. É pouco, mas é preconceito religioso. de coração”, finaliza. Rodrigo comenta que enKHAEL SANTOS frentou preconceito apenas HENRIQUE BERGMANN no início. “Quando eu abri
Relatos de vida e de resistência Eliana Jussara Fehlberg, 43 anos, é formada em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), de São Leopoldo. Ela mudou-se para a Justo em 2009, junto com o marido e a filha, enquanto ainda estudava. Segundo conta, morava de favor e enfrentava dificuldades de arcar com os custos do curso. A filha de Eliana, Anna Fehlberg, de 20 anos, mora em Santa Maria do Tibaú (ES) e trabalha como caixa de uma loja de roupas. A mãe conta que a filha tinha vergonha de morar na Ocupação, pois a menina, na época, era uma bolsista do Colégio Sinodal, em São Leopoldo, e tinha uma realidade de bem diferente suas colegas. “Minha filha nunca conseguia falar onde morava. Nas casas das colegas, tinha brinquedos. Aqui em casa é tudo muito
pobre. Mas sempre lutamos contra o preconceito.” A dona de casa diz que a filha acabou de passar no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), conseguindo, assim, uma bolsa de estudos para cursar Psicologia na Faculdade Multivix, em Vitória. Hoje ela se orgulha de ter vivido na Justo, segundo relata Jucimara. Jucimara Flores, 40 anos, se mudou para a Ocupação há cinco anos. Segundo conta, a maior dificuldade, além da infraestrutura, é o preconceito ‘das pessoas de fora’ achando que todo o morador da área é bandido. “Aqui, essa área é tranquila... tu podes deixar as roupas no varal que não roubam”, afirma. Na ajuda à comunidade, assumiu a frente de um brechó que tem o objetivo de arrecadar dinheiro para as
crianças da Ocupação. Rodrigo de Azevedo morador há quase seis anos no local, gosta de morar na Ocupação. Ele trabalha com construção civil. Conta que já fez um rancho solidário pedindo para pessoas um quilo de comida não perecível para ajudar uma família mais necessitada. Porém, por falta de tempo o projeto não teve seguimento. Hoje, o trabalhador tem um local de distribuição de roupas para carentes e quer começar um sopão para a comunidade. “Eu ajudo quando posso” conta. Sobre a Ocupação, reclama da falta de apoio do da Prefeitura “O mais difícil, para falar bem a verdade, é que nós somos uns abandonados pelo poder público”, afirma. Eliana conta que a filha se orgulha de ter morado na Justo
JOÃO PEDRO CHAGAS VIEIRA TYNAN BARCELOS
Comunidade .15
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A família Silva só quer ser feliz Entre mudanças e dificuldades no dia a dia, eles encontram no cotidiano motivos para sorrir
E
m ocupações, como na Justo, o engajamento popular estreita os laços entre os moradores e promove a aparição de pessoas que se destacam por sua história e participação. Um exemplo é a família de José Luís da Rosa Silva, 52, e Nara Gregório, 39, que vivem com uma das filhas, Iolanda, 22, na Vila. O casal tem outros dois filhos: Luciano, de 27, enteado de Nara, e Maria Eduarda, de 19. As dificuldades para garantir os direitos de Iolanda, que é Pessoa Com Deficiência (PCD), junto com ações com as crianças locais, ilustram um caso que foi abraçado e que abraçou a comunidade. “Tive uma surpresa muito grande”, começa Silva, que reside na Ocupação há seis anos. “Cheguei aqui e vi crianças brincando na rua, andando de bicicleta, jogando futebol. Isso passa um ar de segurança. Me senti em casa”, explica. A insegurança de viver em uma ocupação passou, e Silva segue sua rotina normalmente. Costuma sair de casa entre 4h e 5h da manhã para trabalhar como um montador em uma fábrica de máquinas de jardinagem. Hoje, a família tenta retribuir o apoio que encontrou na Justo. Em 2017, junto com familiares e amigos, realizaram uma festa de Natal. “Acho que tinha umas 100 pessoas participando”, conta Nara. “A gente gosta de brincar quando jovem, mas nunca me senti tão bem quanto ao proporcionar isso para as crianças naquele dia”, emociona-se. “Além disso, fomos surpreendidos por uma ajuda espontânea de muitos pais, que limparam tudo para nós depois. Ficamos muito felizes. Nosso propósito é nos sentirmos bem e ver os outros assim, felizes da mesma forma”, conclui. Quando as condições financeiras permitem, o morador compra doces e balas em um mercadinho da Ocupação, e distribui para crianças na rua. Em alguns finais de semana, é normal que ocorram ações coletivas na comunidade, como cuidados com a rua e trabalhos da Cooperativa Alto Paraíso, que os auxiliou bastante a se estabelecer no início.
A cadeira de rodas não limita a imaginação de Iolanda, que adora observar a rua
Adaptada pelo pai, a Parati permite que a jovem conheça locais e mundos novos
Juntos há mais de 20 anos, Silva e Nara surpreenderam-se com o apoio recebido
ERRO MÉDICO
Iolanda tem paralisia cerebral, devido problemas durante o parto. “Me lembro muito bem do que aconteceu”, começa a mãe. “Eu não tenho abertura de quadris suficiente para realizar um parto normal, mas não sabia na época. A equipe do hospital, porém, nos induziu a seguir por esse caminho”, revela Nara.
Durante muitos anos ela se culpou pelas dificuldades do parto, chegando a pensar que não “havia feito força suficiente”. Hoje, com mais conhecimento, enxerga de forma diferente. “Eu tinha 17 anos, e me recordo do médico falando que gostava de fazer o parto de meninas jovens por elas ‘pariam igual uma gata’”, comenta. Não
foi o que aconteceu. Iolanda instituição, onde participa de ficou tempo demais no útero da aulas de música, ginástica e mãe e segunda ela, uma enfer- computação. É a única parte do meira teve que fazer pressão em dia em que a jovem fica distante sua barriga para que a menina dos pais. Em casa, costuma asnascesse. O cordão umbilical sistir TV. Os pais brincam: “Teenrolou-se em no pescoço de mos nossa telinha (14’) na sala e Iolanda e faltou oxigênio em ela tem um telão (49’) no quarseu cérebro. “Não nos damos to. Ela ama”, sorri a mãe. conta do erro que havia sido Outro local especial para ela cometido contra nós. Quando é o carro da família, transformafomos atrás dos nossos direitos, do em refúgio. Silva improvisou de uma ação contra o hospital, um encaixe para o telefone no nos falaram que já havia prescri- quebra sol. Lá ela viaja para to o prazo para deas realidades das núncia”, lamenta. “Nosso suas séries.Todos Desde então, os sábados, ela mantém atendi- propósito é senta no banco do mentos médicos nos sentirmos passageiro e fica e tratamentos roolhando para a tineiros até hoje, bem e ver os estrada, ou para o como o odontoló- outros assim, pai, na expectatigico, no Hospital va de sair para um felizes da Conceição, em Porpasseio pela cidato Alegre. Contudo, mesma forma” de. Às vezes seu desde a chegada na olhar convence e Justo, há seis anos, Nara Gregório eles dão uma volta algumas dificuldapela cidade. des apareceram. “É complicado A família tem buscado, junto conseguir transporte para ela. à Associação de Pais e Amigos Ela frequenta a Escola Aracy de Excepcionais de São LeopolHofmann, faz muito bem para do (Apae) uma oportunidade ela. Mas temos que levar com o para a filha fazer fisioterapia. nosso carro, nosso custo, por- Além disso, tentam também que os motoristas não estão uma nova cadeira de rodas atrapassando por aqui”, revela Sil- vés da Associação Leopoldense va, referindo-se aos carros de de Deficientes (Aldef). Ambas aluguel. O transporte coletivo as demandas estão próximas não atende a Ocupação. de se realizar. E para o Silva, apesar de parecerem pequenas UNIÃO E AFETO conquistas, são o significado Devido sua condição, Iolan- de sua luta como pai. “A mida não consegue se comunicar nha satisfação é ver meus fiverbalmente e é cadeirante. Isso lhos bem. Antes de uma carreira não a impede de aproveitar di- ou de dinheiro, quero que eles versas atividades, se divertir sejam felizes”, finaliza. com a família ou com entreteMURILO DANNENBERG nimento. Segundo a mãe, ela ISMAEL PEREIRA adora o período que passa na
ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO
SÃO LEOPOLDO (RS)
EDIÇÃO
ABRIL/MAIO DE 2019
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Mobilidade
Uma luta ignorada por muitos
H
á mais de duas décadas os moradores da Ocupação Justo, localizada na cidade de São Leopoldo, lutam pelo direito à moradia regularizada e a condições mínimas de mobilidade. Além de muitas vezes não conseguirem se locomover com qualidade, os moradores também enfrentam uma batalha di-
ária contra o preconceito. Lutam também por saneamento básico, água e energia elétrica. Dentro da Ocupação, habitam cerca de três mil famílias, que devido a falta de regularização das próprias moradias, se deparam com enorme dificuldade para conseguirem emprego. Muitas vezes a falta de um endereço prejudica a formalização
do contrato de trabalho. Como se não bastassem os problemas enfrentados ao encarar o mercado de trabalho, os moradores da Ocupação Justo passam por momentos constrangedores. Ao irem ao próprio posto de saúde, ou buscarem qualquer serviço que precisem comprovar o endereço. Por não contarem com a moradia devidamente registra-
da, muitas vezes os habitantes da Justo necessitam de um comprovante de residência de um amigo ou de um parente. Complicações são claramente visíveis na questão de mobilidade. As ruas em situações precárias comprometem a locomoção de todos na Ocupação Justo. Após as chuvas o cenário é ainda mais preo-
cupante. Pela falta de escoamento e pavimentação as vias concentram grandes poças de água e lama. Destaca-se o fato da única parada de ônibus se encontrar fora da Ocupação, dificultando ainda mais o acesso à mobilidade. GABRIEL FERRI MATHEUS HANSEN KLAUCK