Enfoque São Leopoldo Comunidade Renascer 1

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ENFOQUE

COMUNIDADE RENASCER

SÃO LEOPOLDO

SÃO LEOPOLDO / RS NOVEMBRO DE 2021

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DANDARA TONIOLO

A força do trabalho feminino

Nunca é tarde para começar

A difícil realidade das ruas

O mundo pelo olhar das crianças

Mulheres empreendem criativamente para sustentar suas famílias

O ensino transforma a vida de adultos que aprendem a ler e escrever

Esgoto a céu aberto torna-se problema de saúde pública

Entre brincadeiras e cliques, os mais novinhos expressam seus modos de ver

Páginas 12 e 13

Página 15

Página 16

O direito à moradia: um jogo para todos

Caderno Enfoquinho

DANDARA TONIOLO

Esforço solidário leva famílias a iniciar uma nova partida em suas vidas na construção da Ocupação Renascer Páginas 4 a 7


2. Editorial

ENFOQUE SÃO LEOPOLDO | COMUNIDADE RENASCER | NOVEMBRO DE 2021

Uma comunidade que se fortalece

A

primeira edição do Jornal Enfoque na Ocupação Renascer é realmente digna de uma publicação inédita: recheada de novidades. Depois dos alunos do curso de Jornalismo da Unisinos produzirem esse material de maneira remota por pelo menos três semestres em função da pandemia de Coronavírus, essa edição marca o retorno dos repórteres e dos fotógrafos às ruas, com todos os cuidados sanitários, para dar visibilidade à vida da Renascer. Além do privilégio de poder contar as histórias desses moradores, também tivemos a oportunidade de aprender com eles, que mesmo com tantas dificuldades não fogem à luta. A busca por melhores condições de vida, principalmente pelo direito à moradia e saneamento básico, virou rotina para quem acredita no trabalho coletivo. Ao seu modo, a comunidade resiste e, com sua força, ensina. Uma das principais características da Renascer é o amor que os moradores têm pelo seu local de moradia, já que eles fazem questão de deixar claro que gostam de viver ali. Por isso, fomos recebidos com simplicidade e muita disponibilidade, mesmo em um período de transição da pandemia. Todas essas pessoas fizeram questão de comentar sobre seus anseios, mas também sobre

seus sonhos e expectativas. Por ser uma edição inédita, produzimos uma reportagem especial para contar a história na Ocupação Renascer. O jornal também vai além e explica o principal motivo da mudança dos moradores para as ocupações: o preço alto do aluguel. Além disso, os repórteres foram atrás de histórias comoventes, como a de moradores com necessidades especiais, de mulheres que são chefes de família e aquelas que garantem uma renda extra, ou

QUEM FAZ O JORNAL

então de pessoas que ainda buscam uma condição melhor de vida através dos estudos. As crianças são pautas quando tratamos da escolinha de futebol da comunidade e das brincadeiras criadas pelo TikTok e ainda da oficina de fotografia realizada por nossos colegas da disciplina de fotojornalismo e ocupam as páginas centrais do jornal com o encarte Enfoquinho. A parceria da Rede Solidária São Léo, iniciada pelo curso de Serviço Social da Unisinos e estendida a vários cursos se

| ARTE | Realização: Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia. | IMPRESSÃO | Gráfica UMA / Grupo RBS. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Avenida Unisinos, 950. Bairro Cristo Rei. São Leopoldo (RS). Cep: 93022 750. Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: Pedro Gilberto Gomes. Pró-Reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Alsones Balestrin. Próreitor de Administração: Luiz Felipe Jostmeier Vallandro. Diretor da Unidade de Graduação: Sérgio Eduardo Mariucci. Gerente dos Cursos de Graduação: Paula Campagnolo. Coordenador do Curso de Jornalismo: Micael Vier Behs.

LOHANA SOUZA VITÓRIA DREHMER KAROLINA KRAEMER

ONDE FICA A COMUNIDADE RENASCER 150 moradores 21% dos responsáveis cursaram o Ensino Médio l 20% das famílias recebem apenas o Auxílio Emergencial

O Enfoque São Leopoldo: Comunidade Renascer é um jornal-laboratório dirigido à Ocupação Renascer, localizada no bairro Vicentina, em São Leopoldo (RS). A publicação tem tiragem de 1 mil exemplares, que são distribuídos gratuitamente na região. A produção jornalística é realizada por alunos do curso de Jornalismo da Unisinos (campus de São Leopoldo). | REDAÇÃO | REPORTAGENS – Disciplina: Jornalismo Comunitário e Cidadão. Orientação: Sonia Montaño (soniam@unisinos.br). Repórteres: João Teixeira, Júlia Möller, Leila Donhauser, Lohana Souza, Milena Silocchi, Sara Nedel Paz e Vitória Drehmer. Editores: Vitória Drehmer, Lohana Souza e João Teixeira. Estagiária docente: Letícia Rossa. IMAGENS – Disciplina: Fotojornalismo. Orientação: Beatriz Sallet (bsallet@unisinos.br). Repórteres fotográficos: Adriana Franco, Ana Paula de Oliveira, Bárbara Andrade, Camila Nunes, Camila Pisoni Moreira, Dandara Toniolo, Enzo Reis Auzani, Gabriel Barcelos Encarnação, Gabriele Conceição Soares, Karolina Kraemer, Luan Ávila, Maria Carolina Vargas de Souza e Thaís Meneguetti. Monitoria: Juliana Borgmann.

expressa na Renascer pelo realizado por professores e estudantes voluntários que deixam nas próximas páginas seus depoimentos convidando colegas a seguir os mesmos passos. Esperamos que essa edição do Enfoque possa fazer a diferença na vida dos moradores. Boa leitura! E obrigado, comunidade Renascer!

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BOA VISTA

SCHARLAU ARROIO DA MANTEIGA

CAMPINA SÃO MIGUEL VICENTINA

FEITORIA SÃO CENTRO JOSÉ FIÃO

PADRE REUS SÃO JOÃO BATISTA

CRISTO REI

PINHEIROS RIO SANTO BRANCO ANDRÉ CAMPESTRE JARDIM AMÉRICA

SANTA TERESA DUQUE DE CAXIAS FAZENDA SÃO BORJA

enfoquesaoleopoldo@gmail.com

64% dos responsáveis familiares ganham até um salário mínimo l 49% estão desempregados l 34% trabalham informalmente l 45% das famílias moram em casa alugada l 25% têm casa própria l

Fonte: projeto “A cidade (in)visível: cartografia social das ocupações urbanas de São Leopoldo” (Unisinos)


Esporte .3

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Escolinha de Futebol: um sonho de muitas mãos Grupo de voluntários oferece aulas gratuitas de esporte para as crianças da comunidade

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experiência de praticar esportes favorece a formação integral de crianças e jovens e abre as mais diversas oportunidades. Leandro de Souza, de 46 anos, morador da Ocupação Renascer, viu na vontade de seu filho a oportunidade para começar um projeto social na sua comunidade: a Escolinha de Futebol Renascer. Foi em junho de 2008 que a ideia tomou vida e as aulas começaram. Era em um terreno baldio com lixo pela volta que a bola rolava. Os entulhos que atrapalhavam o jogo eram recolhidos pelos próprios alunos do projeto. No início eram 60 crianças e em cerca de seis meses o grupo já unia 110 entusiasmados pelo esporte. A maioria dos alunos Tudo foi acontecendo de mana comunidade neira muito simples. Leandro sonham em ser jogadores de futebol no futuro conta que foguetes eram soltos para chamar as crianças, que quando chegavam ao local recebiam lanches antes de treinar. “Tudo gratuito, sempre tirei do como professor dentro do campo meu bolso”, afirma. Atualmen- da Escolinha Renascer. Com carite o projeto ganha o auxílio de nho, o ex-aluno fala sobre Leanamigos para a realização das dro.“Foi e ainda é meu professor, atividades, compra pois muito aprendo de materiais e lan- “É um com ele. Ele é fora ches. Mesmo assim, de série, ama o que de acordo com Le- aprendizado faz, não tenho paandro, a ajuda ain- que as crianças lavras para descreda é pouca visto a ver”, comemora. O vontade que o gru- vão levar pra voluntário destaca po tem de alcançar que, quando crianvida toda” campeonatos e muça, ficava entusiasdar a realidade de Luciano da Silva mado em jogar no muitas crianças que Voluntário campinho e trouxe participam do prodiversos amigos jeto e veem no futebol uma opor- para a escolinha: “Montamos um tunidade de ascensão. time muito bom”,encerra. Um dos jovens é Luan José Outra peça importante e que Lucas, de 23 anos, que entrou faz parte das mãos que ajudam no início do projeto e hoje atua na construção desse sonho é

Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

Luciano da Silva, de 39 anos. Sua inserção no projeto começou na vontade de montar uma escolinha para atender crianças da comunidade. “Foi quando conheci a Escolinha Renascer. Recebi o convite e abracei a causa”, conta. Hoje Luciano auxilia na condução dos treinos e também destaca que conversa muito com os alunos. “Sou um apoiador, sempre incentivando eles. Ensino a importância da disciplina. A escolinha não é só futebol, é um aprendizado para a vida”, relata. Além disso, o voluntário frisa que o esporte na vida das crianças é muito importante não somente para criar atletas, mas cidadãos. “Estamos ocupando

essas crianças com esportes. É um aprendizado que eles vão levar pra vida toda”, assinala. E se é na dificuldade que se encontra

Como ajudar Pessoas que se interessarem em ajudar a Escolinha de Futebol Renascer podem entrar em contato com o Leandro pelo número (51) 99852 4693 ou doar valores em dinheiro através da conta da Rede Solidária São Léo: agência 0001-9, conta 5596022-7, CPF 42629314049, Banco Intermedium S. A, em nome de Isamara Della Favera Allegretti.

a motivação, mesmo com todas as precariedades dos materiais e falta de apoio financeiro ao projeto, o grupo participou da última edição do campeonato LMFA – Liga Municipal de Futebol Amador, em São Leopoldo, e conquistou o terceiro lugar na categoria Sub 9 - o que demonstra o foco dessa corrente em levar boas lembranças e ensinamentos a essas crianças. Atualmente, o time tem aceitado jovens dos nove aos 17 anos e tem se encontrado aos sábados, das 8h às 11h no campo do Parque do Trabalhador, no bairro Vicentina. JÚLIA MÖLLER ENZO AUZANI

Wallyson Vargas O estudante de Comunicação Social e voluntário na Renascer, Wallyson Vargas Moreira Pinto, de 24 anos, atua auxiliando em atividades socioeducativas com as crianças da comunidade. “É um ambiente de muito afeto e construção participativa com as crianças”, conta. O apoio de voluntários é sempre necessário, mas “mais rico ainda seria diferentes tipos de pessoas

terem a experiência a fim de pensar a desigualdade do país em suas causas". O voluntariado ocorre de forma simples. Qualquer pessoa que queira ajudar e tenha disponibilidade para participar da Rede Solidária pode entrar em contato com algum dos professores responsáveis, que vão ter a orientação necessária para a participação do futuro novo membro.


4. Histórias

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Histórias de quem faz a Ocupação Renascer KAROLINA KRAEMER

A partir de trajetórias distintas é que nasce uma comunidade com sonhos, esforços e experiências

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ão em torno de 40 famílias buscando um pedaço de terra para chamar de seu. Os espaços são semelhantes, lutando por regularização, por uma moradia com luz, água, transporte, trabalho, e o mais importante, saneamento básico. A Ocupação Renascer conta com cerca de 140 pessoas, com idade média de 36 anos. Hoje a comunidade está localizada no Bairro Vicentina, em São Leopoldo, mas ela já estava situada no fim da Avenida João Corrêa, em outro bairro do mesmo município, e foi então que ocorreu a reintegração dessas pessoas. “Eu já tive renda, eu era metalúrgico. Nunca pensei em política

ou em ser líder comunitário”, conta Adroildo Gonçalves, de 46 anos. Ele abraçou essa liderança no final de 2018, quando também se tornou morador da comunidade por motivos financeiros. Contudo, em 2017 a Renascer foi reintegrada para a localidade. Adroildo conta que quando chegou na comunidade, as lideranças já haviam entrado em contato com advogados. O investimento do processo, que já estava em andamento, chegava a R$ 8 mil. Esse valor, de acordo com Gonçalves, foi arrecadado através da venda de frangos realizada por moradores, e também por meio da contribuição espontânea das pessoas. Atualmente, esse processo de reintegração de posse abrange em torno de 50% das famílias da comunidade, e está como causa ganha para

o proprietário. No entanto, conforme Adroildo, há um recurso ativo desde 14 de junho de 2021 - e a reintegração ainda não aconteceu por causa da pandemia e também pela norma de despejo zero, projeto de lei desenvolvido durante a ocorrência da Covid-19. Devido a dívidas com a prefeitura sobre essa área, o processo ainda está em negociação. Foi com esse recurso, segundo Gonçalves, que se estendeu um pouco mais o tempo para os moradores reverterem essa situação. A chance de reintegração de algumas famílias é muito grande, mas Adroildo garante que a comunidade não ficará desamparada. “O movimento não vai deixar ninguém na rua, a gente vai lutar”, complementa. A intenção é encontrar um local para essas pessoas terem direito à moradia. A

prefeitura, conforme Adroildo, apoia essa causa.

A LUTA POR UMA MORADIA

O Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) atua em todo território brasileiro com a missão de organizar famílias sem teto para lutar por uma moradia digna. O objetivo do projeto é auxiliar na organização e nos processos pelos quais as ocupações costumam passar. Entre o trabalho desenvolvido em 14 Estados, está o Rio Grande do Sul, com São Leopoldo - e mais especificamente a Renascer. Foi com o apoio do MNLM que Adroildo e Cristiano Schumacher, coordenador do movimento, assumiram a parte jurídica perante o Poder Judiciário. “Na verdade o movimento é um conjunto de trabalho, todo mundo se

ajuda”, conta Adroildo. Na opinião do líder comunitário, a maior perda para a Renascer foi o Programa Minha Casa Minha Vida, que disponibilizava financiamento para pessoas de baixa renda terem direito à moradia. Porém, de acordo com a Secretaria de Obras do Estado do RS, na atual gestão do Governo Federal foram cortados em 98% os recursos destinados ao programa habitacional.

AS FAMÍLIAS DA RENASCER

Otávio Antônio Schmitt, de 70 anos, e Maria Lopes Vaz Schmitt, de 67, integram uma das famílias mais antigas da Renascer. O casal conta que quando chegou na comunidade se deparou com dificuldades como a falta de banheiro. Havia apenas um galinheiro, que hoje é


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CAMILA PISONI

Sob cuidados de Adroildo e Luciano, horta gera alimento aos moradores

um dos passatempos do Seu Otávio. “Eu serro um pouco de lenha quando tenho, trato minhas galinhas, aí eu limpo o galinheiro”, conta. Seu Otávio tem um problema de saúde que o impede de caminhar em trajetos longos. Como gosta de visitar seu filho, a forma que encontrou para chegar até a casa, que também fica naquela região, foi a bicicleta. Ele diz que dessa forma não sente dor. Dona Maria também diz que não gosta de sair, mas pelo menos uma vez na semana vai visitar o filho. Por sua vez, Graciela Oliveira Ferreira dos Passos, de

22 anos, é uma das moradoras balha como operador de mámais novas da comunidade. quinas em Garibaldi. Por esse Sua casa, toda de madeira, motivo sai todo dia às 2 horas foi encomendada, montada da madrugada e volta às 18 hoe depois levada ao local. Ela ras. Graciela conta que a ideia conta que por causa da pan- é permanecer na Renascer por demia não tinha mais onde ser um lugar tranquilo, onde deixar as duas filhas (incluindo não tem bagunça ou festas uma bebê), por isso ficou de- até tarde. “O meu marido dorsempregada. Foi por meio de me bem aqui”, afirma. um conhecido que ela ficou O motivo da mudança do sabendo da Recasal foi o cusnascer. Ele ofe- “O movimento to do aluguel receu o terreno muito alto. Isso por R$ 6 mil não vai deixar aconteceu com e a família fe- ninguém na rua, vários moradochou o negócio. res. Andreia MarO marido de a gente vai lutar” tins, de 49 anos, Graciela tem Adroildo Gonçalves também passou uma renda: tra- Líder da comunidade por uma situação

Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

semelhante. Ela está na comunidade há um ano e ficou sabendo que a sua atual casa estava à venda. Como ficou desempregada por causa da pandemia, não tinha mais condições de pagar aluguel. Ela conta que tinha duas opções: alugar uma casa ou comprar as coisas para os dois filhos que moram com ela. Andreia tem um total de 11 filhos - e foi através de um deles que atualmente ela tem seu maior xodó, a Maia. A cadela, inclusive, estava machucada e desnutrida, mas com a ajuda de um amigo veterinário, Andreia conseguiu reverter a situação do animal. O afeto que An-

dreia sente por seus animais transborda pelos olhos. “Para mim, o meu cachorro e meu gato não são animais, são parte da família”, garante. A moradora comenta que já trabalhou no movimento da comunidade, mas teve que parar porque ficou doente e sofreu um Acidente Vascular Cerebral. “Minha medicação quase não consigo no ginásio. Tudo eu tenho que comprar”, relata.

SEGURANÇA DA COMUNIDADE

O uso de drogas é uma realidade em todo o mundo. Por isso a Renascer preza pelo

Isabella Coelho Back Isabella Coelho Back, de 30 anos, proprietária e chef da Confeitaria Pimenta Rosa, localizada em São Leopoldo, promoveu um sorteio de uma cesta em prol da Rede Solidária. “A cada um um kg de alimento não perecível doado, a pessoa ganhava um número para concorrer. Conseguimos arrecadar 42 kg de alimentos”, declara. Além dessa promoção, a empreendedo-

ra revela que, ao longo do ano, já realizou mais dois sorteios, todos para arrecadar alimentos - mas para instituições diferentes. “Desde o começo da pandemia a vida de todos têm sido muito difícil. É de extrema importância trazer visi/bilidade ao trabalho voluntário que é realizado”, argumenta. Por isso a chef, até o final do ano, planeja mais duas arrecadações de alimentos.


6. Histórias

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ADRIANA FRANCO

BÁRBARA ANDRADE

Maria e Otávio, os moradores mais antigos da Renascer, não têm planos de se mudar CAMILA PISONI

Sobre a comunidade: gratidão da moradia, humildade de se portar e respeito de todos combate ao tráfico. Andreia conta que não precisa se preocupar com vizinhos entrando em sua residência, por exemplo. “Aqui não tem pontos de drogas, ninguém trafica nessa ocupação”, completa. Adroildo diz que toma cuidado sobre estas ocorrências. “A gente pede para evitar por causa das crianças”, comenta. O morador aponta que as drogas estão presentes em todos os lugares e que isso está prejudicando e matando a juventude, mas acredita que o melhor caminho a seguir é ensinar e tentar evitar o contato dessas crianças ou adolescentes com as drogas. “Vamos ser um modelo de ocupação,

tirar essa fama de que ocupação só tem ladrão, bandido, traficante”, finaliza.

AJUDA DE TODOS

Além do Movimento Nacional de Luta pela Moradia, a comunidade também recebe apoio e doações da Rede Solidária São Léo, um projeto desenvolvido por professores, funcionários e alunos de cursos da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) que tem como objetivo ajudar famílias de comunidades em risco. A Rede também proporciona a criação de projetos desenvolvidos na localidade. O Projeto das Crianças,

A tranquilidade do local é o que fez Graciela escolher a Renascer para residir

que é um dos destaques da de Andreia, de 10 anos, freRede Solidária, iniciou neste quenta a oficina todas as ano por causa da pandemia. sextas-feiras. “Ele espera As crianças não saíam de a semana toda para chegar casa, e foi então que a Rede esse dia”, assegura. disponibilizou um professor O Movimento Nacional de no modo remoto. “Colocava Luta pela Moradia desenvolve, um computador e um telão, ainda, o projeto da Horta Sotudo meio precário, mas co- lidária. Mas em um primeiro meçou assim”, lembra Adroil- momento Adroildo precisava do. Foram em torno de três preparar um terreno. Como aulas dessa forma. Depois os havia uma vala, ele conversou professores pacom o operador de raram, mas para “Vamos tirar máquinas do Serdar continuidade viço Municipal ao projeto alu- a fama de que de Água e Esgoto nos e professores ocupação só de São Leopoldo, da Unisinos vem que conseguiu um pedaço de terra. A d e s e n vo l ve n d o tem ladrão” essa oficina. O Adroildo Gonçalves ideia era criar algo de imediato para filho mais jovem Líder da comunidade

não deixar esse local se tornar um ponto de drogas. “Comecei buscando sacos de terra e fui fazendo os canteiros”, conta Adroildo. A Rede também teve uma participação especial nessa horta: foi através do grupo que a comunidade conseguiu sementes e uma tela para fazer uma cerca. Quem cuida do local é Adroildo e Luciano Medeiros, seu braço direito. “A horta é de todos, quem quiser pode pegar”, afirma Adroildo. Luciano Medeiros, de 39 anos, está há dois anos na comunidade. Ele conta que foi Adroildo quem o apresentou à Renascer. “Eu perguntei como era e acabei vindo


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GABRIEL BARCELOS

Letícia tem casa em outro local, mas passa mais tempo na Renascer

CAMILA PISONI

A felicidade de Adroildo são as crianças: tudo que faz é pensado para elas

CAMILA PISONI

Andreia investiu em medicações para Maia, e a cachorrinha já está melhor para cá”, relata. Luciano lembra que a amizade dos dois já vem de anos, mas agora também tocam projetos da comunidade juntos.

UM LUGAR PARA TODES

A Renascer traz, ainda, a história de Letícia Yohana Borges, de 36 anos, que lutou para entender quem realmente é. Ela não é moradora da comunidade, mas passa mais tempo na Renascer do que na sua própria casa. De segundas a sábados ela cuida da tia e do sobrinho Miguel, esperando a irmã Jenifer chegar do trabalho. Letícia nasceu homem,

foi uma luta conseguir a transição do nome original para o nome social. Ela saiu de casa com apenas 14 anos e foi trabalhar, mas naquele momento ainda não entendia sobre o seu gênero e sua sexualidade. “Eu sentia umas coisas estranhas”, descreve. A moradora buscou apoio psicológico tanto na escola quanto em clínicas, e assim foi se orientando com a mãe ao seu lado. “No início minha mãe não entendia”, relata. Foi com 16 anos que Letícia se aceitou e entendeu que aquele corpo não era o seu. A partir daí, começou a realizar procedimentos estéticos. Também namorou um

Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

ENZO AUZANI

Luciano também atua em um projeto com as crianças

homem e depois de um ano assumiu esse relacionamento. Como no Brasil o casamento homoafetivo não era legalizado na época, o casal foi até a Argentina para casar.

das crianças e diz que gosta de participar. “É bom morar aqui. A única coisa que tem que arrumar é esse esgoto que estava feio para nossa ocupação”, assegura. A comunidade não dispoPLANOS PARA nibiliza um espaço de recreação para as crianças, mas isso O FUTURO Jenifer Borges Davila, de já está nos planos do líder 23 anos, irmã de Letícia, mora Adroildo. Ao lado da horta, na Renascer desde 2019, tra- o terreno já está esperando balha como recicladora e diz pelos brinquedos. Porém, a que ficou sabendificuldade está do que tinha um em conseguir local com uma “A gente quer os itens. “Até vi casa sobrando. pagar, a gente uns brinquedos O filho Miguel com a prefeiE d u a r d o , d e quer regularizar” tura, mas estaquatro anos, fre- Adroildo Gonçalves vam bem prequenta o projeto Líder da comunidade cários. A minha

maior alegria é essas crianças, quando chego e vejo dá uma força”, comenta. A comunidade cresce enquanto planeja seu futuro. “A maior ideia agora é a criação da cozinha comunitária para as mulheres terem uma renda e não precisarem sair de casa”, conta. As ideias de criar atividades para jovens e para mulheres estão sempre em pauta, mas o mais importante para todos é a regularização do local. “A gente não quer ficar a vida toda vivendo de ‘gato’ e de água clandestina. A gente quer pagar, a gente quer regularizar”, garante. LEILA DONHAUSER

Fernanda Maciel Ferreira Fazer parte da Rede Solidária São Leo é bem simples. De acordo com Fernanda Maciel Ferreira, assistente social especialista em Saúde Comunitária, o importante é contatar o projeto e demonstrar interesse. “A partir daí vemos como o/a voluntário/a pode se organizar para contribuir com as realidades das ocupações. Qualquer pessoa pode ser voluntária ou doar para a conta da Rede”, informa. A assistente social gosta de participar das atividades

de apoio a comunidade e complementa: “Penso que as comunidades contribuem muito mais para o nosso aprendizado. Após minha inserção na Rede, percebi que a realidade das comunidades perpassa pelo nosso cotidiano. Nas organizações em comunidade a vida acontece como ela é, e a solidariedade entre cada vizinho, amigo e famílias se fortalecem. O que podemos contribuir perpassa na luta pela justiça social, acesso a políticas públicas de qualidade e garantia de direitos das comunidades”.


8. Comunidade

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A vida das brasileiras chefes de família GABRIELE SOARES

Mulheres enfrentam dupla (ou tripla) jornada de trabalho e são as responsáveis pela manutenção de suas casas

se formar Técnica em Enfermagem. “Abandonei a escola muito nova, engravidei com 15 anos. Não consegui voltar a estudar, mas ainda vou me formar na área que sempre quis número de famílias e buscar cada vez mais indechefiadas por mulhe- pendência. Não busco me cares quase dobrou em sar novamente”, relata. uma década e meia. De acordo O conceito de chefia usacom os números do Instituto do pelo IBGE é o que o instiBrasileiro de Geografia e Es- tuto oficial chama de pessoa tatística (IBGE), 34,4 milhões de referência: o integrante de mulheres são responsáveis da família considerado resfinanceiramente pelos domi- ponsável por aquela casa. Só cílios. Isso significa que quase entre 2014 e 2019, quase 10 a metade das casas brasilei- milhões de mulheres assuras são chefiadas por mulhe- miram o posto de gestora da res. Os dados do Instituto de casa, enquanto 2,8 milhões Pesquisa Econômica Aplicada de homens perderam essa (Ipea) apontam que o percen- posição no mesmo período. tual de domicílios brasileiros Segundo os dados, 43% das comandados por mulheres mulheres que são chefes de saltou de 25% em 1995 para domicílio hoje no Brasil vi45% em 2018, devido, prin- vem em casal. Já o restante das cipalmente, ao crescimento 34,4 milhões das responsáda participação feminina no veis pelo lar se dividem entre mercado de trabalho. mulheres solteiras com filhos Márcia Freitas Amaral, de (32%), mulheres que vivem 35 anos, é uma das 11 milhões sozinhas (18%) e mulheres de mães que não pode contar que dividem a casa com amicom a presença e auxílio dos gos ou parentes (7%). pais para criar seus filhos. No A história se repete na casa caso dela, a dificuldade é cinco de Milene Freitas da Silva, de vezes maior: Márcia mora com 19 anos. A jovem é a principal os cinco filhos. O mais novo responsável pelo sustento da tem apenas um casa. Ela é auano e o mais vetônoma, traba“Ainda vou lho 21. “Moro na lha vendendo comunidade há me formar e pacotes de emdois anos. Depréstimo, além pois de terminar buscar mais de contar com meu casamento independência” o benefício do de 15 anos não Bolsa Família. conseguia man- Márcia Amaral “Aqui em casa ter as despesas, Moradora nossa renda é mais o aluguel muito apertada. no bairro Arroio da Mantei- Meu marido também ajuda, ga, além ser a responsável mas é autônomo em servipelo sustento da casa e dos ços de obras. Meu cunhado meus filhos”, explica. tem apenas 14 anos. Então Mas as mulheres enfren- nós vamos vivendo com o tam o desafio da dupla jor- dinheiro mais contado. Esse nada. O trabalho semanal também foi um dos motidas mulheres dura em mé- vos para morarmos aqui, dia 3,1 horas a mais do que a apesar de gostarmos muito dos homens considerando o do local”, enfatiza. tempo dedicado ao emprego e ao cuidado da casa e de seus E SE FOSSE moradores. A chamada dupla REMUNERADO? Quase 11 trilhões de dójornada feminina foi mostrada por um módulo especial da lares: este é o valor da conPesquisa Nacional por Amos- tribuição anual das mães à tra de Domicílios Contínua e economia do mundo caso divulgada pelo IBGE. Na casa seu principal trabalho – o de Márcia, essa rotina não cuidado – fosse remunerado. é diferente. A preocupação A informação é da Oxfam, principal é conseguir man- organização internacional ter as despesas gerais e que que atua para encontrar os filhos estudem, mas sem soluções para os problemas desistir do próprio sonho de da pobreza, desigualdade

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Márcia Amaral ainda tem o objetivo de ter uma profissão e um novo trabalho KAROLINA KRAEMER

A conquista da independência financeira é o sonho da moradora Milene da Silva e injustiça, que também descobriu que as mulheres dedicam, juntas, 12,5 bilhões de horas todos os dias para criarem seus filhos e manterem a família. As mulheres também sofrem a maior resistência do mercado de trabalho: 52% das mães afirmam ter sido confrontadas no emprego durante a gravidez ou ao voltar da licença-maternidade,

de acordo com a pesquisa Panorama Mulher 2019, realizada pelo Insper. Milene, por exemplo, pensa em atuar em um trabalho regular, mas acredita que teria dificuldades tanto com o filho Brian, de apenas um ano, com relação à creche, e também com relação à volta ao trabalho. Pesquisa divulgada pela Catho aponta que 30% das mulheres dei-

xam o mercado de trabalho para cuidar dos filhos. Entre os homens, essa proporção é quatro vezes menor, de 7%. “Eu queria muito trabalhar todos os dias e não trabalhar somente de forma online. Mas ainda acho que meu filho é muito novo para ficar em uma creche, não me sinto tão confiante”, conta. LOHANA SOUZA


Comunidade .9

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Aproximação pela dança O uso do TikTok alegra o dia das crianças e aumenta a convivência do grupo na comunidade

C

om apenas nove anos e cursando o terceiro ano do Ensino Fundamental, Camilly Vitoria é uma admiradora dos “tiktokers” - termo utilizado para definir os influenciadores digitais e criadores de conteúdo do aplicativo TikTok. Junto com as amigas, ela aprendeu todas as danças apenas admirando outros usuários do app. "Como muitas vezes a gente fica sem atividades, eu e as meninas nos reunimos aqui no galpão para poder dançar e aprender coreografias novas das nossas músicas favoritas. A gente acabou virando amiga assim, compartilhando dancinhas", conta. De acordo com a pesquisa do TechTudo, em agosto de 2021, o Tiktok, rede social chinesa, foi o aplicativo não catalogado como “jogo” mais baixado

no mundo com mais de 66 milhões de instalações, o que representou um aumento de 6% em relação ao mesmo mês em 2020. Com a relação entre o público adulto e infantil, Camilly revelou que os professores e pais pediram para elas cuidarem o conteúdo dos vídeos utilizando-os apenas para inspiração e evitando os polêmicos, destinados a maiores de 18 anos. Ainda assim, existe um cuidado maior com a imagem das garotas, então todas as publicações devem ser feitas em um aplicativo semelhante — chamado Likee — que possui uma categoria maior para o público infantil. Conforme Camilly, seus pais sempre a aconselharam a respeito da faixa etária do aplicativo. “O Tiktok é muito adulto e às vezes tem coisas feias, que criança não pode ver. Então eu uso o Likee quando estou sozinha”, revela. A ferramenta é uma plataforma curta de criação e compartilhamento de vídeos com sede em Singapura, disponível para

sistemas operacionais iOS e Android. Foi introduzido inicialmente em julho de 2017 pelo Bigo. Em 2020, Likee foi outro aplicativo que se destacou, aparecendo na nona posição entre os dez aplicativos mais baixados em escala mundial — o levantamento da Sensor Tower considerou os downloads únicos realizados no período de julho. Como nem todas do grupo possuem acesso à internet no celular, os professores, voluntários e pais entram na brincadeira compartilhando os seus próprios aparelhos para que elas possam ensaiar e gravar os seus vídeos. Dessa forma, uma nova atividade diária surgiu.Através do sorriso, ritmos e muita coordenação motora, Camilly e suas amigas se reúnem todos os dias para gerar novos conteúdos para suas contas na internet e movimentar a comunidade da Ocupação Renascer. SARA NEDEL PAZ BÁRBARA ANDRADE

Camily Vitoria se reúne com as amigas para aprender novas coreografias

Doação ou descarte? A falta de roupas é uma das dificuldades de quem é morador da Ocupação Renascer. Mas, nesse caso, a Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Leopoldo tenta suprir a necessidade. As doações chegam no pavilhão da comunidade e alegram famílias assim que o líder Adroildo Gonçalves faz uma solicitação através de uma ligação, ou pelo envio de uma mensagem. No entanto, o que parece tão simples de ser resolvido, acaba até se tornando um problema. “Dessas roupas, na verdade, a gente só consegue utilizar uns 50%. O restante é bem precário. As pessoas tratam as ocupações

como área de descarte e não dá para terceirizar o descarte. Às vezes a gente recebe roupas sujas e rasgadas. Muitos calçados sem sola, ou sem cadarço e sem lingueta”, ressalta Adroildo. Apesar de algumas dessas sobras já terem planos de reutilização, como, por exemplo, fazer cobertas ou transformar camisetas em sacolas para receber os alimentos trazidos pela Rede Solidária, outras peças só têm um destino: o lixo. E mesmo assim, esse não é o local que elas se encontram hoje. O motivo é um só: o medo do preconceito crescer sobre os moradores da ocupação.“A gente tem vários sacos de roupas guar-

Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

Roupas ficam em pavilhão por medo de preconceito dados que são descartes. Mas se nós deixarmos para o lixeiro levar, vão dizer que estamos ganhando as coisas e colocando no lixo. As pessoas já têm uma má impressão da gente, então temos receio de largar ali e aumentar esse preconceito”, explica o líder.

De acordo com Adroildo, o último pedido e recebimento de doação de roupas aconteceu há pelo menos três meses, em junho deste ano. Logo depois, o também morador da comunidade fez uma solicitação a uma das coordenadoras do Banco

Municipal de Agasalhos de São Leopoldo (BMA) para que as peças passem por uma seleção mais rigorosa antes de chegar àqueles que precisam.A resposta foi positiva, de que atitudes e providências serão tomadas. Mesmo assim, é difícil que o maior problema seja solucionado, já que não é tão simples fazer uma solicitação como essa aos próprios doadores, que fazem muitas vezes o chamado descarte terceirizado. Para quem tiver interesse em fazer uma doação de roupas responsável para as ocupações de São Leopoldo, o BMA fica localizado na Sala 14 do Ginásio Municipal Celso Morbach, na Rua Dom João Becker. O horário de funcionamento é de segunda a quinta-feira, das 8h30 às 12 horas. VITÓRIA DREHMER CAMILA NUNES

Bruna Caroline Nunes “Eu fiquei sabendo do projeto por um amigo. Quando ele me contou, eu também quis participar, porque eu gosto muito de crianças”, declara a estudante de Jornalismo da Uniasselvi, de 22 anos, Bruna Nunes, que entrou em contato com a professora Marilene, da Unisinos, e na mesma semana já estava na comunidade prestando sua ajuda. Faz dois meses que participa. De acordo com ela, o curso de Assistência Social realiza um trabalho comprometido e sempre atento à comunidade e às crianças.“Mas faz falta mais voluntários na área da saúde, por-

que agora estamos passando por um problema com as crianças, que estão com muito piolho, até mesmo sarna”, anuncia. O apoio da Unisinos é importante, segundo Bruna. Além do projeto desenvolvido com as crianças nas sextas-feiras, agora os estudantes do curso de Engenharia também vão contribuir com trabalhos e alguns projetos para o melhor funcionamento da comunidade. “A gente percebe que muitas delas sentem falta desse contato físico de carinho, de abraço, de atenção mesmo, então a gente quando pode fazer isso por elas é maravilhoso”, finaliza.


10. Território

ENFOQUE SÃO LEOPOLDO | COMUNIDADE RENASCER | NOVEMBRO DE 2021

Mobilidade solidária Otávio e Juliane são moradores que precisam se adaptar à falta de acessibilidade da comunidade

F

oi com um sorriso no rosto e com muita vontade de contar a sua história de vida que Otávio Antônio Schmitt nos recebeu em uma tarde de sábado na Ocupação Renascer. A alegria do senhor de 70 anos faz, provavelmente, até com que ele próprio esqueça que precisa lidar com alguns problemas, como a própria trombose. A trombose venosa profunda acontece quando um coágulo sanguíneo bloqueia o fluxo de sangue em uma ou mais veias dos braços, das pernas ou dos pés. Segundo a CNN, a doença atinge cerca de 180 mil pessoas por ano no Brasil. E uma delas, em 2014, foi Otá-

vio, quando ainda trabalhava mesmo da trombose. Depois e morava em uma chácara em disso, não existia outra opção Gravataí. “Um dia eu estava que não fosse parar de trabatrabalhando, carpindo, e pre- lhar e comprar uma muleta cisei tirar a bota de tanta dor para se locomover. que sentia no dedo. Chegou Mas nem sendo de ferro a uma hora que eu não aguentei muleta aguentou a nova momais em pé. Eu já suspeitava radia de Otávio: a Ocupação que era trombose, porque mi- Renascer. As ruas sem pavinha mãe faleceu mento e cheias por essa doende pedras da “A Juliane sente ça. Aí os exames co m u n i d a d e confirmaram. dor por não dificultam a Eu fiquei mais locomoção do ter tido um de uma semamorador, que na sem cami- encaminhamento já ficou mais nhar”, explica. de uma vez sem Apesar das para a fisioterapia” as ponteiras de dores continua- Carolina Crippa borracha da sua rem durante a Estudante de Serviço Social companheira recuperação, o de caminhada. trabalho não deu trégua para Apesar de ter comprado outra Otávio. De volta às obrigações, muleta, dessa vez de alumínio, o senhor que tinha 62 anos a nova aquisição também ficou na época, ainda teve que lidar intacta por pouco tempo. O com mais uma dificuldade: um que restou, além de utilizar prego em seu pé esquerdo, o mais bicicleta, foi fazer uma

gambiarra na antiga, usando um cano como ponteira. “Eu tenho um amor por essa muleta aqui (de ferro), já essa outra não gosto muito (de alumínio)”, ressalta Otávio. Logo que descobriu a trombose, Otávio frequentava os postos de saúde com frequência pelos cuidados com os medicamentos anticoagulantes, que fazem parte da rotina dele até hoje. No entanto, a chegada da pandemia fez com que essa rotina mudasse. A última consulta do morador da Renascer foi há quase dois anos. Histórias como as de Otávio levam a pensar a relação que estabelecemos com os obstáculos que se nos apresentam no cotidiano.

A VIDA SOBRE DUAS RODAS

A dificuldade de locomoção na Renascer também faz

parte da vida de Juliane dos Santos Ferraz. Diagnosticada com uma doença degenerativa em 2000, quando tinha apenas 16 anos, a moradora, que faz uso de cadeira de rodas, chegou na ocupação em novembro do ano passado junto com suas três filhas e marido. A decisão de deixar a antiga moradia, localizada na Ocupação Cerâmica Anita, também em São Leopoldo, foi em conjunto, já que a nova casa tem um espaço melhor para a reciclagem uma das rendas da família, junto com o Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social (BPC). Esse auxílio de um salário mínimo é direito de qualquer pessoa com deficiência de qualquer idade, desde que comprove não possuir meios de se sustentar. VITÓRIA DREHMER

As muletas são as companheiras de locomoção de Otávio Schmitt, morador mais antigo na comunidade, que possui trombose no pé esquerdo


enf quinho ENCARTE DA EDIÇÃO 1 DO ENFOQUE SÃO LEOPOLDO: COMUNIDADE RENASCER – NOVEMBRO DE 2021

" Renascer" através dos olhos das crianças e adolescentes

MARIA CAROLINA VARGAS DE SOUZA


2 . enfoquinho . sobre este caderno

ENFOQUE SÃO LEOPOLDO COMUNIDADE RENASCER NOVEMBRO DE 2021

LUANA DOS SANTOS

Oficina de Fotografia

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urante uma visita à comunidade Renascer, quando fomos para produzir o Jornal Enfoque, ministramos uma Oficina de Fotografia para as crianças e adolescentes de lá. Na ocasião, levamos câmeras de pequeno formato e fácil manuseio, a fim de poder incentivá-las a produzirem fotografias ao mesmo tempo em que trabalhamos noções básicas sobre a linguagem fotográfica, como composição, ângulo de visão, entre outros. Nosso objetivo principal, em paralelo à produção das fotografias para as pautas do Enfoque, que foram realizadas pelos alunos da disciplina de Fotojornalismo, era obter o olhar daqueles pequenos sobre seu meio ambiente. Logo após as noções desenvolvidas, colocamos as câmeras nas mãos dos/as pequenos/as aprendizes, que logo saíram fotografar. As fotos que seguem são o resultado da atividade, com os ensaios individuais das 10 crianças e adolescentes em idades de 3 a 14 anos. O making of de alunos/as da disciplina de Fotojornalismo teve também colaboração dos/as próprios/as oficineiros/as, que se empenharam em fotografarem-se uns aos outros. Confira os olhares! PRISCILA BORGES

O Enfoquinho é um encarte da edição 1 do jornal-laboratório Enfoque São Leopoldo: Comunidade Renascer. | IMAGENS E PRODUÇÃO | Disciplina: Fotojornalismo. Orientação: Beatriz Sallet (bsallet@unisinos.br). Repórteres fotográficos: Adriana Franco, Ana Paula de Oliveira, Bárbara Andrade, Camila Nunes, Camila Pisoni Moreira, Dandara Toniolo, Enzo Reis Auzani, Gabriel Barcelos Encarnação, Gabriele Conceição Soares, Karolina Kraemer, Luan Ávila, Maria Carolina Vargas de Souza e Thaís Meneguetti. Monitoria: Juliana Borgmann. | ARTE | Realização: Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia.

Imagens da página 8 Adriana Franco Ana Paula de Oliveira Camila Nunes de Lima Dias Dandara Toniolo


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oficina . enfoquinho . 3

olhar da

andressa de oliveira

olhar da

kamilly do nascimento


4 . enfoquinho . oficina olhar da

emely borges

olhar da

jamile de oliveira

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oficina . enfoquinho . 5

olhar da

ketlen aguiar

olhar da

luana dos santos


6 . enfoquinho . oficina olhar do

lucas souza

olhar do

miguel ataydes

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oficina . enfoquinho . 7

olhar da

priscila borges

olhar do

vinicius de souza


8 . enfoquinho . bastidores

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TALES FERREIRA

Danielle (esquerda) doou uma cadeira de rodas reserva que tinha para Juliane, que utilizava uma com o estofado rasgado e fazia machucados em suas mãos TALES FERREIRA

A troca de lar também colaborou, de certa forma, com a locomoção de Juliane, que agora fica mais próxima da pavimentação. Mesmo assim, a moradora de 37 anos ainda precisa da ajuda de outras pessoas para se deslocar em distâncias mais longas. Dificuldades como essas já foram encaminhadas para o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS), mas algumas adversidades simplesmente são difíceis de ter solução. A estudante de Serviço Social Carolina Crippa, que acompanha a família há meses, explica que a Juliane não teve um suporte médico para a deficiência. “ Ela não teve muita explicação na época. O que ela soube é que precisava fazer um exame de DNA para descobrir qual é a doença, mas como a família estava em uma situação complicada, de rua, ela não conseguiu descobrir até hoje”, relata. Enquanto isso, a ajuda vem de lugares inesperados. A cadeira de rodas de Juliane, que estava com o estofado rasgado e fazia machucados em suas mãos por não ter o objeto correto para empurrar, precisava ser substituída. Uma provisória, como empréstimo, seria o máximo de solução encontrado pela Prefeitura de São Leopoldo. Então, Danielle Lima, também cadeirante e aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo, se sensibilizou com a história e doou uma cadeira de rodas reserva que tinha. E assim o ciclo das cadeiras de rodas continua na família de Juliane, que vai doar a sua antiga para o irmão, que como a mãe deles, tem a mesma doença.

Juliane vai doar a sua antiga cadeira de rodas para o irmão, que, como a mãe deles, tem uma doença degenerativa

VITÓRIA DREHMER

Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

Danielle Lima Danielle Lima, de 22 anos, também está envolvida com o projeto da Rede Solidária São Léo, e diz que essa parceria é de extrema importância para os moradores da Ocupação Renascer. Como o curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos também está com iniciativas na Renascer, Danielle, que é cadeirante, ficou sabendo de um caso de uma moradora da comunidade que também precisa de ajuda da cadeira para se locomover. “Me gerou um sentimento de empatia, conversei com os estudantes do Serviço Social e descobri que ela precisava muito de uma cadeira de rodas”, afirma. Como utiliza atualmente uma cadeira motorizada e sabe das dificuldades de mobilidade de quem não tem um utensílio como esse, ela não hesitou em doar a cadeira manual que possuía. Danielle dá destaque ao projeto desenvolvido com as crianças da Renascer, e diz que esses projetos são de significativa importância. “Muitas vezes pensamos que

só podemos ajudar financeiramente, mas a atenção, carinho e cuidado fazem toda a diferença”, comenta. Ela relata que quando se propôs a ajudar, foi de maneira voluntária através de doações e divulgação da ocupação. “Faremos um projeto arquitetônico durante o semestre com ideias para o local”, confirma. Quando o assunto é a relevância de um trabalho voluntário, ela destaca suas vivências pessoais. “Quando abrimos nossos horizontes para diferentes realidades aumentamos nossa percepção sobre as coisas e isso acarreta mudanças profundas no nosso modo de pensar e até mesmo enxergar a vida profissional”, afirma. Ela diz ainda que sempre teve vontade de participar de projetos sociais e usar o seu conhecimento acadêmico para contribuir para sociedade. “Ao doar minha cadeira de rodas obviamente não ajudei a todos os moradores da ocupação, mas acredito que se cada um puder ajudar ao menos uma pessoa, faremos a dferença”, conclui.


12. Trabalho

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A rotina de quem empreende para sobreviver BÁRBARA ANDRADE

Adriana conta que se sente realizada em ter o próprio negócio e que pretende expandir, instalando o Brechó da Drica em um local exclusivo

Mulheres da comunidade Renascer unem sonhos com novas alternativas para sustentar suas famílias

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uando as portas se fecham, você tem a opção de entregar os pontos ou encarar a realidade que é imposta. Para elas, desistir não faz parte do vocabulário. Mulheres, mães, trabalhadoras, donas de casa, empreendedoras por necessidade. Colocar comida na mesa não é uma tarefa fácil em um cenário de crise econômica e variáveis nos índices de desemprego no país. A tripla jornada para Adriana Abreu Aguiar, de 43 anos, é uma história antiga. Durante o maior tempo da sua vida cuidou sozinha dos seis filhos.Antes mesmo de se mudar para a comunidade já tinha seu próprio negócio em Gravataí - onde morou por 15 anos. Na Renascer o susten-

to vem do “Brechó da Drica”, improvisado em um cômodo da casa e divulgado nas redes sociais. Para complementar a renda vende cosméticos e faz a reciclagem de latinhas. Aos oito anos, por iniciativa própria, se oferecia para fazer serviços domésticos na vizinhança para ajudar nas contas da casa. Em uma família de 12 irmãos, os pais dividiam as tarefas na cidade natal, em Sapucaia. O pai trabalhava como pedreiro e a mãe cuidava do lar. Certa vez, um pouco mais velha, contou que ao ganhar de uma prima fichas de ônibus para ir às aulas, decidiu vendê-las escondido, preferindo voltar debaixo de chuva. Tudo para ter um dinheiro que pudesse comprar comida para os irmãos. O pouco estudo que foi possível fez com que Drica, como prefere ser chamada, recebesse muitos “nãos” ao procurar trabalho. Conseguir emprego formal, de carteira assinada, para quem

tinha somente até a 3ª série do da Covid-19, tinham vergonha de ensino fundamental, reduziu as socializar com outras pessoas. A oportunidades. Ao recordar da conquista mais recente foi a vaga época de menina, conta que cho- em uma escola regular para o rava por não poder frequentar a garoto, que só foi possível com escola. “Às vezes eu ia para o co- a ajuda do projeto. Desde que se légio com um saco de pão como mudaram para São Leopoldo, há papel e um lápis quando alguém mais de dois anos, esperavam na me dava”, afirma. Por esse mo- fila sem respostas ou previsão tivo, quer um futuro diferente de quando conseguiriam. para os filhos.“Eu quero que eles Com ela moram ainda o comconsigam o que panheiro e mais eu não tive e que “Gosto de ter meu dois de seus fitenham um serlhos, Kinberli viço digno e di- dinheiro. Se quero Aguiar de Almeireito”, desabafa. comprar algo, eu da, de 11 anos, e Os mais Ketlen Aguiar novos, Kaiane vou e compro” Vieira, de 13. A Aguiar de Almei- Adriana Abreu Aguiar decisão de morar da, de seis anos, Empreendedora na Renascer veio e Kevem, de sete, da esperança de estão inscritos nas oficinas so- um lugar melhor para recomeçacioeducativas ofertadas pela rem. O estudo incompleto, mais Rede Solidária na comunidade. A o cuidado com as crianças, foram mãe relata que em pouco tempo os motivos para que Adriana espercebeu melhora no comporta- colhesse empreender. A maioria mento dos filhos, que antes, pre- das roupas foram compradas por sos em casa devido à pandemia ela, como também doadas por

pessoas próximas e de amigos que fez na cidade anterior. Ao ser perguntada sobre seu sonho, faz uma pausa, suspira e volta seus olhos para cima, como se estivesse imaginando cada detalhe naquele exato momento. Ela revela que seu maior desejo é expandir o negócio e ter um canto próprio para vender. Enquanto isso não acontece, se reinventa para entregar o que tem de melhor no pouco espaço que sobra da casa. Algumas das roupas são expostas na mesa, outras em cabides pendurados nas paredes, e como alternativa mais barata, busca aprender a construir araras de pvc. Apesar das dificuldades, uma coisa é certa: Adriana quer continuar sendo independente como sempre foi desde pequena. Seu espírito solidário também se estende à religião, ao prometer doar o valor de 10% por peça que vender para a Igreja que frequenta. Além disso, manifesta


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ADRIANA FRANCO

querer ajudar outros moradores a prosperarem também, como é o caso da sua vizinha, que vende doces e salgados e que já é conhecida por todos. A dona do sucesso se chama Simone de Souza, de 34 anos. Mudou-se para o local há mais de três anos, e para ela o empreendedorismo também surgiu da necessidade. Desempregada, com cinco filhos para criar sozinha e R$ 20 no bolso: foi assim, com alguns trocados e com a ajuda do filho mais velho, Jeferson, de 14, que o negócio começou. Apaixonado pela comida da mãe, sugeriu que ela cozinhasse para vender. Na época, sem trabalho e com a escola fechada, se dispôs a ajudá-la. De segunda a sexta-feira, independente do tempo, estava na rua, de luva, guardanapo e potes em mãos. Não demorou muito para que o tempero da Simone caísse no gosto da vizinhança e dos arredores da comunidade. Quando visitava suas irmãs, no bairro Vicentina, vendia boa parte dos lanches pelo caminho que fazia a pé. Hoje o sustento da família vem dos doces e salgados. Mesmo quando passou a vender em casa por conta da gravidez, continuava com a renda garantida. A filha recém-nascida, Ana Clara, precisou ficar internada por sete dias após o parto. Os custos do

hospital também foram pagos pelo trabalho em conjunto de mãe e filho. Jeferson aprendeu a cozinhar somente enquanto a observava preparando, e quando precisavam de ajuda nas receitas pesquisavam canais de culinária no YouTube. Mais tarde, passaram a contar também com o salário de Jeferson, que conseguiu trabalho em uma loja de artigos militares na cidade. No serviço ele aproveita para divulgar e garantir mais algumas vendas. No momento, estudam a possibilidade de uma parceria com a empresa para distribuir os lanches aos funcionários. Mas o sonho mesmo é conseguir um canto melhor para a mãe montar uma padaria. A vida de Simone nunca foi fácil. Foi criada pela avó, a única parente próxima que tinha. Quando ela morreu, ficou sozinha, cuidando dos filhos e sem ajuda do pai das crianças. Para ela, o filho é motivo de alegria e com um sorriso no rosto descreve seu sentimento: “Tudo começou por ele, porque tudo veio dele, isso me dá orgulho”. Entre os produtos mais procurados estão o bolo de chocolate, risoles e os pastéis. Ainda em um momento de descontração revela o segredo do seu sucesso: ser feito com carinho e amor. MILENA SILOCCHI

Números do mercado de trabalho Mais de 14 milhões de brasileiros estão buscando oportunidade no mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou em 14,6% no trimestre encerrado em maio deste ano, sendo a segunda taxa mais alta registrada desde 2012. O número de carteiras assinadas também diminuiu, perdendo até 1,3 milhão. Em compensação, o trabalho por conta própria foi a única categoria que cresceu no trimestre. Apesar disso, o nível está baixo se comparado ao período pré-pandemia. No Rio Grande do Sul, o mercado vem apresentando retomada desde o início da propagação da Covid-19, mas ainda possui 514 mil gaúchos desocupados. O estado somou 1,68 milhão de trabalhadores informais no segundo trimestre do ano, chegando a uma taxa alta de 4,34% frente ao primeiro trimestre. Quando comparado ao ano passado, o porcentual é ainda mais alto, chegando a 6,58%. Entre os trabalhadores formais, a taxa de crescimento em um ano foi menos da metade, de 3,37%. Isso mostra que, proporcionalmente, os informais cresceram mais que os formais no período.

O filho mais velho é motivo de orgulho para Simone. Juntos tocam o próprio negócio

Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

Fonte: Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Tainã Caye Dahlem O estudante de Serviço Social Tainã Caye Dahlem, de 26 anos, tem uma preocupação com o apoio socioeducativo com as crianças e famílias e também com o suporte para as questões da garantia da moradia. Por esse motivo, ele se tornou um voluntário e realiza estágio na área de estudo a fim de ajudar na sistematização dos projetos na Renascer. “Valorizo muito a troca com colegas de outros cursos

e principalmente com a própria comunidade. Os direitos dos moradores são negligenciados todos os dias e são inúmeras as dificuldades para acesso a serviços básicos, além da insegurança de não ter uma moradia digna. Para mim, ser voluntário é fundamental para nossa formação profissional e pessoal e a comunidade enxerga em nós uma esperança, não se sentindo tão desamparados”, relata.


14. Moradia

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Quando o aluguel se torna insustentável GABRIELE SOARES

Moradores com dificuldades ocupam espaços em busca o direito por uma moradia digna

É

um direito. Todas as pessoas deveriam ter acesso a uma moradia, um teto, um endereço. Os locais são diferentes no país, mas a história é parecida. Costuma começar com pessoas que precisam de moradia, mas não tinham renda para garantir uma, conciliando com as despesas básicas de água, luz e comida. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que 72,4% das famílias brasileiras viviam com alguma dificuldade para pagar despesas mensais. O número de famílias que gastam mais de um terço de seus orçamentos domésticos com aluguel mais do que dobrou em 15 anos no Brasil. Os dados são de um estudo da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc). E se antes esse direito já não era garantido a muitos brasileiros, com a pandemia piorou. O número de famílias que foram despejadas nos últimos 12 meses aumentou 340% no país. O levantamento foi feito por mais de 100 entidades e movimentos sociais que se uniram na Campanha Despejo Zero. Essa história se repete na comunidade Renascer, em São Leopoldo. São 42 famílias que lutam por direitos básicos como moradia, saneamento e trabalho.

Casal vive um novo momento na comunidade e não busca outro lugar para residir KAROLINA KRAEMER

DESPESAS BÁSICAS OU ALUGUEL

O casal Otávio Antônio Schmitt, 70 anos, e Maria Schmitt, de 67, viviam em uma chácara, no bairro Lomba Grande, onde residiam e trabalhavam em longas jornadas de trabalho por oito anos. Há três anos foram comunicados pelo dono do imóvel do despejo e da rescisão do vínculo empregatício. Calculando a rescisão com as contas básicas, se viram obrigados a encontrar um local em que não precisassem pagar aluguel. “Não tínhamos dinheiro para manter as despesas de casa, água, luz e comida, então nos mudamos para a comunidade, construímos a

Após desistir do aluguel vem a busca por novas oportunidades na comunidade Renascer casa com ajuda do meu filho Daniel. Tudo está muito caro, não conseguiríamos sobreviver se morássemos de aluguel, então optamos diretamente em vir morar aqui”, diz. Atualmente o casal vive com dinheiro da Bolsa Família e com o auxílio articulado pelo Congresso em março de 2020. O número de beneficiários diretos do auxílio é de 67,7 milhões de brasileiros. O dinheiro é a única renda do casal de idosos que tenta todo mês equilibrar os gastos básicos e alimentação que chegou a

25% em 2020, de acordo com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. Dona Maria relatou que apesar das dificuldades a família consegue se manter. “Nós conseguimos manter nossa alimentação e o gasto com remédio do Otávio, mas ainda bem que não precisamos manter mais medicamentos. Agradeço que somos saudáveis", relata. Essa é a realidade de muitas famílias gaúchas. Uma pesquisa encomendada pela Assembleia Legislativa sobre

a situação do Estado, após o auge da pandemia, demonstrou que sete a cada 10 entrevistados tiveram sua renda comprometida. Os resultados mostram que o estrago foi maior entre os mais pobres: 77,1% dos lares gaúchos de até dois salários mínimos tiveram queda nos rendimentos. Os desafios se repetem na casa de Elisandra Pires, de 43 anos, e o marido Carlos da Silva Pires, de 50, que moravam no bairro Santos Dumont pagando aluguel, mas há um ano e seis meses mudaram

de rumo. Todo o dinheiro que recebiam da coleta e lixo reciclável não era suficiente para manter o aluguel, água, luz, comida e auxiliar na compra de remédios da mãe de Elisandra, que tem câncer. “Nós pagamos aluguel até não conseguir mais realmente manter todas as nossas despesas, isso que já dividimos o aluguel com a minha filha. Nossa renda não aumentou, nossos salários com recicláveis e venda de madeira é normalmente de R$ 1.000 por mês. Não tem como manter despesas de R$ 800 e também nossa alimentação”, explica.

“Não tínhamos dinheiro para as despesas, então nos mudamos” Otávio Schmitt Morador

O direito à moradia é reconhecido como um direito fundamental no artigo 6º da nossa Constituição Federal e no Estatuto da Cidade (lei federal n. 10.257/2001), que, em seu artigo 2º, inciso primeiro, o relaciona ao direito à cidade sustentável. Elisandra diz que apesar das dificuldades, não se vê morando em outro lugar futuramente. “Nós trabalhamos de domingo a domingo, aqui eu saio e não me preocupo com violência. Conheço os vizinhos e adoro o local, não pensamos em nos mudar”, afirma. A dificuldade de acesso à terra e a deficiência de programas habitacionais podem ajudar a explicar a origem das ocupações no Brasil, entende o professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Marcelo Kunrath da Silva. "Uma boa parte da população não tem como acessar a terra via o mercado formal e nem através de políticas habitacionais, que historicamente não atingiram os setores mais pobres da população”, explica o professor. “Então, a ocupação está na história nas cidades brasileiras, como processo estrutural", finaliza. LOHANA SOUZA


Educação .15

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Nunca é tarde para recomeçar DANDARA TONIOLO

Histórias de vida revelam que o ensino é uma oportunidade para transformar a trajetória de pessoas

cer. Atualmente a única coisa que a impossibilita de estudar é uma doença que desenvolveu na gravidez da sua filha mais nova. Naira trata Andrielly Samilly, de apenas quatro meses, e acordo com o Censo Es- da Leptospirose, uma doença colar - Microdados em si- contraída através da exposição tuação de final de ano le- de maneira indireta ou direta tivo (INEP), a taxa de abandono à urina de animais infectados do Ensino Médio no Rio Grande pela bactéria de nome Lepdo Sul, no ano de 2018, é de 8% tospira. A criança necessita de em uma escala 0 a 9. Os motivos medicação e cuidados até comque levam a esse número é o re- pletar um ano de idade. sultado da realidade de pessoas Após esse período, Naira que vivem em situações precá- pretende retornar à escola - e rias e não conseguem enxergar lembra o que mais gostava de eso estudo como prioridade, pois tudar quando adolescente: pora vida desde cedo traz demandas tuguês. É das aulas do professor de outras necessidades. Patrício, na Escola Municipal de Na Ocupação Renascer, esses Ensino Fundamental Paulo Beck, dados ganham rostos e histórias. em São Leopoldo, que Naira tem Uma delas é a de Naira Josiane as melhores lembranças. “Ele Borges, de 31 anos, dona de casa, era muito atencioso, se a gente que teve que larnão sabia a matégar a escola aos “Queremos ter ria ele explicava 17 anos porque e assim a gente ficou grávida de uma vida melhor. ia aprendendo”, sua primogênita, Hoje é muito recorda. Jamilly Victória. Na mesma Ela conta que importante ocupação, mais sempre estudou histórias como estudar” em escola públias de Naira são ca, mas que não Gilmar Paz encontradas. É tinha o que re- Instalador técnico o caso do casal clamar do ensino. Franciele Salazar, Apesar da decisão de abandonar de 23 anos, e Gilmar Paz, de 32, os estudos, Naira declara que juntos há cinco anos e que tamse fosse possível ela gostaria bém tiveram os estudos interde continuar estudando, pois rompidos por problemáticas que entre as irmãs é a única que a vida apresentou. No caso da ainda não tem formação. dona de casa, a ida à escola durou O sonho da certificação somente até a 6ª série. O motivo ainda está muito ativo no co- que fez Franciele virar mais um ração da moradora da Renas- dado na estatística de evasão

ARQUIVO PESSOAL

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Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

Naira espera concluir o EJA para se formar e conseguir um emprego escolar foi a mudança de cidade e problemas pessoais que aconteceram durante a sua adolescência. Já no caso do instalador técnico, a razão que o fez deixar os estudos foi a necessidade de trabalhar para ajudar em casa. Atualmente, o casal se une para estudar. Ambos estão matriculados no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Paulo Beck e compartilham do mesmo sonho. “Nós dois queremos ter uma vida melhor. Hoje em dia é muito importante estudar. Vamos concluir o Ensino Fundamental, o Médio, cursar a faculdade e fazer cursos”, diz Gilmar. De acordo com dados da PNAD Contínua 2019, divulgados pelo IBGE, 50 milhões de pessoas de 14 a 29 anos no

Franciele e Gilmar pretendem fazer faculdade e curso após concluir o EJA

Brasil não completaram o ciclo da educação básica. Entre os resultados, mostra-se um destaque na faixa etária dos 16 anos, mostrando que 18% desses jovens não concluíram a escola. Entre os principais motivos que levam a essa evasão escolar estão a urgência de trabalhar, chegando a 39,1%, e a falta de interesse, que é representada por 29,2%. Ao levar em consideração o público feminino, evidencia-se a gravidez, atingindo um percentual de 23,8% e a necessidade dos afazeres domésticos do lar, com 11,5%. Para resolver essa problemática, o esforço não depende somente das famílias, mas também das escolas, conforme destaca a pedagoga e professora,

Lisinara Möller. “Os jovens devem se sentir bem nesses locais, pertencentes ao espaço. A sala de aula precisa apresentar projetos, comover e conscientizar sobre a importância do estudo. E os professores, devem fazer a sua parte, certificando-se que o aluno não está faltando aos encontros”, confirma. O sonho da Naira, da Franciele e do Gilmar, também é o desejo de grande parte da comunidade Renascer. Em estudo feito na ocupação, moradores tiveram a mesma resposta ao serem questionados sobre o maior sonho de suas famílias: que os filhos possam ter acesso a uma educação de qualidade. JÚLIA MÖLLER

Gabriela Mendes Fontana Além do saneamento básico, algumas demandas recebidas pela professora de Educação Física na UFRGS, Gabriela Mendes Fontana, são de pessoas que possam trabalhar com música, esportes e danças. “A parceria com a Unisinos tem sido muito importante pois amplia a percepção de quem está em formação profissional para a realidade das pessoas que vivem na cidade”, conta. Um ponto que a professora destaca também é como o aumento na insegurança alimentar, da precarização das relações de trabalho e do crescimento do desemprego trazem um grande impacto na sociedade, “Precisamos cada vez mais de graduandos (as) que estejam atentos (as) a isso e possam atuar frente às demandas sociais dentro do seus campus”, finaliza. Em seu olhar, a Rede apresenta a responsabilidade de ajudar e estabelece um vínculo com a comunidade. “Não é alguém chegar no lugar e dizer como tem que

ser feito, mas tecer, construir juntos, novos caminhos e possibilidades”, reflete. Se a pessoa quiser ser um voluntário Gabriela orienta, em primeiro lugar, entrar em contato com a Rede: pode ser via Facebook e qualquer pessoa está convidada a participar. “Como participante eu sempre digo que tenho aprendido porque essa troca que acontece é muito potente”, complementa. Ela detalha o quanto é limitante não ter um endereço formal ou acesso a água encanada, saneamento básico, energia elétrica e rede de internet. “Você já imaginou buscar por um serviço onde a primeira pergunta é o seu endereço e não ter a resposta para isso?”, questiona. A sociedade tem que estar disponível, segundo Gabriela, para entender essa cultura e organização das pessoas das comunidades - pois as percepções que existem vão ser diferentes das de antes. “Essa aproximação me proporcionou conhecer e apoiar diferentes iniciativas", encerra.


16. Saneamento básico

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Esgoto e lixo a céu aberto na vida da Renascer Falta de saneamento impulsiona a proliferação de doenças e infestações de insetos na rotina de moradores

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GABRIELE SOARES

cas varejeiras e baratas, e animais como ratos permeiam o ambiente, o qual tem a presença de diversas crianças.

MAIS ALAGAMENTOS

Esgoto sem tratamento se mistura ao lixo em meio às estruturas da comunidade

ANA PAULA DE OLIVEIRA

Sheila é catadora de sucatas e reside há dois meses na Renascer. Devido à atual situação, terreno de sua casa será aterrado para eliminar odor e insetos

ANA PAULA DE OLIVEIRA

om 42 famílias e 141 moraCom o objetivo de ficar perto dores, a Ocupação Renas- de sua família, Graziele Machado cer vai criando seu lugar Maieski, filha de Rosa, também no mapa de São Leopoldo. Esta se mudou para a comunidade há comunidade não possui acesso dois anos. Atualmente, vive com à política de saneamento bási- o marido e dois filhos pequeco do município. O local expõe nos em uma casa que frequena situação de emergência sani- temente se encontra na mesma tária, em que o lixo e o esgoto situação de alagamento que a da se integram ao ambiente. mãe. Graziele destaca que a reApesar de São Leopoldo pos- sidência fica localizada em cima suir Conselho de Saneamento Bá- de um banhado, criado pelo ensico, apenas 17,24% da população é canamento do vizinho. A situaatendida com esgotamento sanitá- ção é tão extrema que a jovem rio, conforme os dados apresenta- precisou dar início na construdos pela plataforma Municípios e ção de uma nova moradia. Saneamento. O esgoto de 195.993 O lixo é outra situação que os habitantes, o que representa 83% cidadãos da Renascer enfrentam. dos cidadãos, não é coletado. E Na cidade de São Leopoldo, os na ocupação não é números apresendiferente. Os dados tados pela plata“Devido ao fornecidos pelo reforma Municípios e presentante da co- esgoto e o lixo Saneamento vão na munidade, Adroildo contramão e mosGonçalves, mostram as crianças estão tram que 99,6% da que 10% das casas sempre gripadas” população é atennão possuem badida com coleta de nheiro, 22% não têm Sheila Fabiana Alves Resíduos Domiciliafossa e 51% não pos- Catadora de sucatas res e possui coleta suem acesso à rede seletiva de Resíduos de esgoto. A população sugere me- Sólidos. O lixo de apenas 944 halhorias - a começar pela rede plu- bitantes não é recolhido. vial, pavimentação, local apropriaSheila Fabiana Alves, catadora do para as crianças e por um agente de sucatas, mora há apenas dois que possa cuidar da saúde. meses com seu filho e marido na Rosa Nascimento Machado, comunidade. Ex-moradora da Vila por exemplo, é desempregada e Maria, comentou que a coleta do mora há cinco anos com o filho lixo é feita raramente e a comue o marido na ocupação. Deixou nidade se apropriou do terreno de Cachoeirinha, sua cidade natal, sua família para fazer o descare veio a São Leopoldo para resi- te irregular, visto que o local já dir. Antes de habitar a Renascer, possuía alguns resíduos. Segundo morou em outra comunidade, Sheila, pela falta de colaboração da qual foram despejados pelo da população o ambiente se torproprietário do terreno. Rosa nou um lixo a céu aberto. Para mudou-se para a ocupação na amenizar a situação, ela afirmou busca pela melhoria de infraes- que existe o projeto de aterrar trutura, mas por habitar em um todos os resíduos, mas este ainterreno ocupado e de posse, não da não foi para a prática. existem planejamentos a serem A atual situação da Renascer, realizados a fim de atender todas de acordo com as moradoras, é as necessidades da comunidade. reflexo da falta de estruturas mí“Promessa da prefeitura a gen- nimas e básicas para o desenvolte nem espera”, assinala. vimento do ser humano e também Além de se deparar com es- da falta de organização social dengoto e o lixo a céu aberto, a mo- tro da comunidade. Rosa, Grazieradora enfrenta problemas com le e Scheila concordam no fato alagamentos por conta da chuva de que, apesar de habitarem em e a falta de bueiros. “A outra vez uma área ocupada, a premissa entrou água por tudo, tivemos é que todos devem ter acesso a todos que sair de casa. É muito serviços básicos - caso do saneacomplicado”, relata. Por conta da mento básico, essencial para todo grande quantidade de resíduos e e qualquer ser humano. esgoto, as doenças e os insetos JOÃO TEIXEIRA como mosquitos, aranhas, mos-


Educação .17

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O mundo pelo olhar das crianças ANA PAULA DE OLIVEIRA E ADRIANA FRANCO

Parceria da Secult com Unisinos disponibiliza recursos para desenvolvimento pessoal

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parceria realizada entre a Secretaria Municipal de Cultura e Relações (Secult) de São Leopoldo e a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) resultou em uma oficina de fotografia para crianças e jovens da Ocupação Renascer. A proposta veio através da assessoria da Secretaria ao curso de Fotografia. A atividade faz parte do programa de formação e fomento da economia criativa do município, e integra a Lei Aldir Blanc. O objetivo é promover cursos, palestras e workshops para fotógrafos e jovens de comunidades do município. Diretora do curso de Fotografia, Marina Chiapinotto relata que o curso abraçou a ideia dentro da atividade de Fotografia no Jornalismo, em conjunto a estudantes do curso de Jornalismo, gerenciada pela disciplina de Fotojornalismo. O propósito é instrumentalizar e desenvolver o olhar das crianças e jovens das comunidades a fim de realizar uma alfabetização visual e de explorar o potencial da comunicação através de imagens. “Pensamos em ofertar essa oficina de fotografia trabalhando o olhar dessas crianças e jovens da comunidade Renascer para documentar esse espaço”, destaca. Marina apontou que o viés da oficina foi pen“Plantamos sado na curricularizauma semente ção. São atividades que parte do processo nessas crianças” fazem acadêmico desenvolvido entre professores e aluBeatriz Sallet Professora de Fotojornalismo nos. A oficina também vai gerar a publicação de um produto, que são as imagens e construções narrativas que as crianças e jovens fizeram. A professora da atividade acadêmica de Fotojornalismo, Beatriz Sallet, pontuou que a oficina ocorreu de uma forma muito fluida, com aproximadamente 10 crianças e jovens de 3 a 14 anos. Houve a distribuição de pequenas câmeras, uma conversa sobre fotografia e alguns elementos da linguagem fotográfica - entre eles a composição. “Crianças saíram a campo, do lugar delas, onde habitam e mostraram o olhar delas para nós”, ressalta. Beatriz afirmou que a atividade foi um sucesso e que a imersão trouxe a visão positiva da ocupação. “Plantamos uma semente nessas crianças que eu tenho certeza que vai ser para sempre, que não vão esquecer, e juras no futuro de que vão estudar”, conclui. JOÃO TEIXEIRA VITÓRIA DREHMER

Voluntários na Rede Solidária São Léo

Por Sara Nedel Paz e Leila Donhauser

Patrícia de Freitas Nerbas “Esta parceria é fundamental para todos os envolvidos. Há benefícios multiplicados quando há união de diferentes visões de mundo.” A fala é da professora da graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unisinos, Patrícia de Freitas Nerbas. Também é voluntária da Rede Solidária, além de trabalhar em outros projetos. “A atuação se desdobra em ações de apoio na busca por soluções emergenciais, para os espaços físicos das ocupações e a elaboração de estratégias para regenerar a sustentabilidade socioambiental e econômica”, conta.

Patrícia destaca que sempre faz o bem porque ele retorna a você. Por isso, é uma voluntária. “Nada melhor do que fazer alguém sorrir,contribuir para atenuar problemas e transformá-los em possíveis soluções”, destaca. Conforme a professora, a transformação do mundo depende de fatores que somam ações de cada indivíduo. “Independente da visão de mundo, todos queremos um mundo melhor para si, e talvez, o meio mais seguro, efetivo e feliz desta conquista, por um mundo melhor, é ser melhor para os outros e criar um mundo melhor para todos”, afirma.


18. Mapa social

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Cartografia de ocupações urbanas CAMILA PISONI

Geólogo coordena estudo para entender mais sobre as condições físicas e comunitárias do local

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cartografia por si só significa a representação de dados e estudos que geram produtos como mapas. Somada ao caráter social, remete a uma método que visa simplificar as informações de uma comunidade, construindo pesquisas de maneira participativa. Foi esse movimento que o geólogo e professor da Unisinos Francisco Manoel Wohnrath Tognoli, de 44 anos, coordenou na Ocupação Renascer. Ligado à problemática habitacional desde janeiro de 2021, o também pesquisador do Programa de Pós-Graduação (PPG) em Geologia na Unisinos já coordenou outros projetos semelhantes. Ele destaca que o trabalho poderá contribuir na estruturação de um Sistema de Informação Geográfica (SIG) para representar espacialmente os dados sociais e na delimitação de áreas de risco e de proteção permanente. O documento gerado por Francisco e pelos moradores da Renascer retrata a condição social da comunidade como parte de uma estratégia que objetiva conhecer e planejar sua interação com a sociedade. Na entrevista a seguir, o professor fala mais sobre o trabalho. Enfoque – Como surgiu a ideia de construir uma cartografia da Comunidade Renascer?

Moradores sentem falta de um espaço adequado para as crianças brincarem de direitos humanos sofridas pelas comunidades que viviam em áreas ocupadas. Com o início da pandemia da COVID-19, em 2020, houve necessidade de manter o monitoramento destas comunidades em virtude do cenário de perda de emprego e renda, insegurança alimentar, atendimento de saúde e afastamento escolar. A Rede Solidária São Leo surgiu para prestar esse apoio às comunidades.

Tognoli – As ações que levaram à proposta do projeto “A cidade (in)visível: cartografia Enfoque – Como foi este prosocial das ocupações urbanas cesso de construção, desde a de São Leopoldo” começaram elaboração da ideia, desenvolem 2018, a partir de ações vimento e conclusão? de despejo movidas contra moradores de ocupações de Tognoli – O projeto da carSão Leopoldo. A Unisinos, por tografia social nasceu natumeio do ObservaSinos e do ralmente a partir do entenInstituto Humanitas Unisinos dimento das necessidades (IHU), organizou a “Missão da comunidade e das ações pela Moradia que eram neDigna”. Este cessárias para movimento foi “Não podemos sua melhoria. inspirado nas permitir que No início de missões hu2021, houve manitárias e de morem em casas o engajamenpaz da ONU e to de alunos, sobre o esgoto” teve como foco professores, visitar e relatar Francisco Tognoli voluntários e as violações Geólogo servidores mu-

nicipais. Após vários debates virtuais, houve consenso que ações em favor da comunidade somente seriam eficazes se a realidade de cada família fosse conhecida. A partir disto e da suspensão do Censo do IBGE no ano de 2020, o grupo decidiu criar um aplicativo para coletar informações da comunidade, das residências, das famílias e dos moradores em relação a aspectos sociais e econômicos. Em julho de 2021 iniciamos entrevistas para entender a realidade de vida de cada família e registrar as respostas no aplicativo. Enfoque – Vocês entrevistaram todos os moradores do local? Quanto tempo leva para desenvolver este trabalho? Tognoli – Nós iniciamos a coleta de informações entrevistando os líderes comunitários sobre diferentes aspectos da comunidade. Depois disto, foi a vez de visitar cada residência e entrevistar o responsável familiar, que respondeu sobre a situação da residência e sobre cada morador da casa

(quando o próprio morador não estava na residência). Depois de um semestre de trabalho pesquisando diversos cadastros de dados disponíveis e desenvolvendo o aplicativo, conseguimos visitar todas as casas e entrevistar quase todos os moradores em quatro dias de trabalho. Enfoque – O que as informações e dados coletados revelam sobre a realidade da Renascer? Tognoli – A Renascer é uma comunidade pequena, com cerca de 45 famílias e 150 pessoas. Os dados coletados revelaram que 72% das famílias são de São Leopoldo ou das cidades vizinhas. Em relação aos responsáveis familiares, identificamos vários indicadores de vulnerabilidade social, como: apenas 21% dos responsáveis familiares cursaram o Ensino Médio, 20% das famílias recebem apenas o Auxílio Emergencial, 49% estão desempregados e 34% trabalham informalmente. 64% dos responsáveis familiares ganham até um salário míni-

mo. Há 51 crianças menores de 12 anos na comunidade, e muitas pararam de estudar depois que a pandemia começou por falta de equipamentos para as aulas virtuais. 27% das pessoas relataram ter doenças crônicas, como hipertensão, epilepsia, trombose, depressão e problemas respiratórios. Em relação às residências, 45% das famílias moravam em casa alugada e 25% tinham casa própria. Todos estes dados indicam que a ocupação da área tem a condição social como fator principal, em especial a perda de emprego e renda e a crise econômica, agravadas pela pandemia. Enfoque – Por que uma cartografia social é importante para os moradores da comunidade? Tognoli – Ela permite que durante as entrevistas os moradores exponham situações diversas da vida pessoal e familiar. Apesar de analisarmos os indicadores a partir da análise dos dados, a cartografia social é um método de trabalho que promove o diálogo e o


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ENFOQUE SÃO LEOPOLDO | COMUNIDADE RENASCER | NOVEMBRO DE 2021

CAMILA PISONI

Ocupação Renascer: alguns dados • Área aproximada: 180 x 50 m (~ 1ha) • 42 famílias • 141 moradores Responsáveis familiares: • de 18 a 77 anos (média de 36 anos) • 72% de São Leopoldo ou Região Metropolitana • 27% vieram de outras cidades para a Renascer Características de saúde dos responsáveis familiares • 27% tem doenças crônicas (hipertensão, além de epilepsia, trombose, depressão e problemas respiratórios) • 54% relatam presença de animais perigosos (rato, aranha, carrapato) • 100% não recebem visita de agente comunitário de saúde • 88% usam posto de saúde ou UPA

KAROLINA KRAEMER

As casas encontram-se em área ocupada de aproximadamente 180x50m

Características das moradias Residência anterior: • 45% casa alugada • 25% própria • 30% moravam de favor (parcial ou totalmente) Residência atual (Renascer): • 100% casas em área ocupada e de risco • 70% casas de madeira e 30% alvenaria (construção pré-existente) • 70% casas com piso de madeira e 30% piso cerâmico ou concreto • 60% telha de fibrocimento, 30% telha cerâmica (pré-existente) e 10% telha de zinco Saneamento básico • 10% casas sem banheiro • 22% casas sem fossa • 51% casas sem acesso à rede de esgoto Do que sente falta na comunidade? • 25% citam esgoto (“Pátio seco, banheiro”, “Eliminar Esgoto a céu aberto”)

Entre as iniciativas da Rede Solidária São Leo está a busca de alimentos acolhimento da comunidade e permite dar encaminhamentos junto ao poder público. Enfoque – Que benefícios este instrumento traz para eles e para a Rede Solidária? Tognoli – O principal benefício é o acompanhamento que a comunidade tem por um grupo multidisciplinar que envolve assistentes sociais, pedagogos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, engenheiros, arquitetos e geólogos. A Rede Solidária, por outro lado, tem no registro de dados um importante meio de analisar e quantificar diversos aspectos da vida das pessoas e da comunidade. Estudantes, professores, voluntários e servidores municipais que participam da Rede estão atentos a todas as situações e dão suporte para a tomada de ações emergenciais e encaminhamento para a definição de políticas públicas relacionadas à: saúde, ambiente e alimentação, proteção socioeducacional e acessibilidade, geração de emprego e renda, informação e comunicação e acompanhamento socio-

jurídico para a regularização fundiária. Um exemplo desta atuação foi o encaminhamento ao poder público da necessidade de levar a vacinação contra a Covid-19 aos moradores das comunidades ocupadas. Enfoque – Quais foram as suas impressões pessoais sobre o resultado deste trabalho? Tognoli – Os resultados mostrados pelos dados da Comunidade Renascer foram chocantes para mim. Eles mostraram de forma muito clara como a população foi afetada e está sofrendo as consequências de uma crise econômica agravada pela pandemia. O título do projeto expõe a parte mais cruel deste cotidiano, ser invisível socialmente. O trabalho da Rede é fundamental para que sejam feitos os encaminhamentos que subsidiem as políticas públicas necessárias para o atendimento da população. Enfoque – Que necessidades você julgaria como mais urgentes para serem resolvidas na comunidade a partir dos dados coletados por vocês?

Tognoli – Dentre várias necessidades verificadas e reveladas também pela análise de dados, considero o saneamento básico o problema mais urgente a ser resolvido na Comunidade Renascer. Humanamente, não podemos admitir que pessoas tenham suas casas sobre um terreno encharcado pelo esgoto. E ambientalmente, não podemos permitir que uma zona ambientalmente sensível como a várzea do Rio dos Sinos seja exposta a um tipo de contaminação que pode facilmente ser resolvida com acesso à rede de esgoto. Enfoque – Como os moradores enxergaram essa iniciativa? Foram adeptos à ideia? Houve reações contrárias? Tognoli – Os moradores foram muito receptivos e atenciosos com a equipe da Rede que realizou o cadastramento das famílias. Isto fez toda a diferença para que nosso trabalho pudesse ser bem feito. E muito disso se deve ao trabalho dos líderes comunitários, pessoas fundamentais para viabilizar essa interação.

Outras: • Atendimento de saúde (“posto de saúde que não precise pernoitar para ter atendimento”, “Agente de saúde na ocupação”) • Melhorias nas moradias e rua (pavimentação) • Creche/Pracinha (“local apropriado para as crianças, creche”) Qual o maior sonho da família? • 85% responderam regularização: ter/melhorar casa “saúde, estar todos bem, os filhos todos encaminhados”, “ter casa arrumada, organizada... ”, “casa própria, minhas filhas aprenderem direito as coisas” Enfoque – Como a sociedade em um todo pode contribuir para o desenvolvimento e garantia de direitos a esses moradores? Tognoli – Entender que as ocupações são um reflexo de problemas sociais é o primeiro passo para deixar o preconceito de lado e assumir uma postura solidária. Grande parte dos bairros de São Leopoldo começaram como áreas ocupadas que foram sendo gradativamente regularizadas. Isso é parte da história do município e do próprio Rio Grande do Sul. Ações envolvendo a universidade, o poder público e a sociedade civil são fundamentais para orientar políticas

públicas que garantam que os moradores de ocupações sejam visíveis socialmente. Enfoque – Quais as próximas ações pensadas para ajudar a comunidade? Tognoli – A Rede faz um acompanhamento permanente das famílias e realiza várias atividades com as crianças. Na Comunidade Renascer, a próxima ação é estruturar uma cozinha comunitária que possa atender os moradores e permitir geração de renda para as mulheres, a exemplo do Projeto Sonhos & Sabores, da Comunidade Steigleder. JÚLIA MÖLLER MILENA SILOCCHI


ENFOQUE SÃO LEOPOLDO

COMUNIDADE RENASCER

| NOVEMBRO DE 2021 | EDIÇÃO 1

Laços que se expandem Rede Solidária São Leo abraça mais uma comunidade com a intenção de auxiliar em seu desenvolvimento

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GABRIELE SOARES

arinho, respeito, atenção e dedicação. Essas são as palavras que definem os apoiadores e voluntários da rede de solidariedade que vem ajudando moradores de vulnerabilidade social. A pandemia da Covid-19 alterou a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Quando chegou no Brasil, não foi diferente. Por conta disso, a vida de muitas pessoas foi alterada drasticamente. Na cidade de São Leopoldo, famílias passaram a procurar outras alternativas de moradia e apoio. É o caso de algumas comunidades como a Renascer, Justo, Steigleder, Progresso, TanMarilene Maia é responsável pelas entregas dos kits alimentação na comunidade credo, Anita e Redimix. KAROLINA KRAEMER E foi assim, formada por munidades através dos nossos alunos e funcionários de cur- apoiadores”, explica. A comunidade relata sobre sos da Unisinos e por voluntários da sociedade, que a Rede os benefícios de receber os kits Solidária São Leo surgiu em de alimento e sobre as oficinas março de 2020 e passou a aten- interativas. Como as demander 14 ocupações da região. A das da Rede vêm da comunipartir dessa ideia, a Rede tem dade, já que o projeto existe se mobilizado para a arreca- para auxiliar as vidas daquedação de doações e organiza- las famílias, esses relatos são ção de atividades dentro das essenciais. Jeferson Vinicius, comunidades. Marilene Maia, de 14 anos, e Sirlei Cardoso, assistente social, professora de 36, gostam da parceria e do curso de Serviço Social da do apoio social fornecido. Unisinos e coordenadora do “As programações interatiObservasinos/IHU, conta que vas são muito legais, sempre o trabalho da Rede Solidária senti muita falta de oficinas As cestas da Rede são distribuídas quinzenalmente nas ocupações do município é importante e tem benefi- como de futebol. Isso porque ciado não apenas as famílias, há um tempo eu frequentava mas também as cooperativas a Unisinos para poder fazer juntamente com as lideran- formada Renascer. “Na Steie produtores locais. parte do time. Ter isso perto ças de cada uma. Segundo a gleder temos às mulheres do Fernanda Maciel Ferreira, seria ainda mais legal. Além professora Marilene, desde grupo Sonhos e Sabores que assistente social especialista disso, eu tive a oportunidade que a Rede se constituiu o produzem pães, cucas e lanem Saúde Comunitária, men- de participar da oficina de fo- projeto assumiu um compro- ches. Já as crianças têm acomciona que a relação entre a tografia e foi muito divertido. misso com a transparência e panhamento socioeducativo e Rede e as comunidades é hori- Eu gostei muito”, atesta. De publicização dos processos sociofamiliar. Na Justo temos zontalizada e que eles procu- acordo com Sirlei, a comu- construídos “Muito mais do acompanhamento socioeduram decidir com a comunidade nidade se apoia muito e por que voluntários, a Rede vai se cativo e sociofamiliar às crianisso se ajudam constituindo de ativistas, de ças e famílias. Com apoio ese lideranças as no cuidado com pessoas comprometidas com a colar e horta comunitária. Na ações e organi- “Se olhares a plantação e construção de uma sociedade Renascer, acompanhamento zações que vão organização. "O que seja pautada pela justiça socioeducativo e sociofamiconstruir. “É nas ocupações, neste contexto estamos ‘olhando’ Adroildo sem- social, por uma cultura de so- liar. Também reafirmamos um pre avisa atra- lidariedade horizontalizada projeto importante que deu que diferenciavés do grupo em que o pulso da vida passe início nesta comunidade que é mos a Rede de por todos” do WhatsApp pela construção de relações, a Cartografia”, destaca. instituições fePeres Carcamo Ela também revela que quando os kits de equidade, bondade, liberchadas, já que Karen Militante da Rede de alimenta- dade e a democracia”, explica. o tipo de voluntário que faz as decisões não Solidária São Léo ção e demais Ela destaca que ações como mais falta é aquele que comsão tomadas por nós, mas discutidas com o materiais estão disponíveis essa, que enfrentam as classes preende a realidade social das todo. Essa forma de organizar para as nossas famílias. Dessa dominadoras, são indispensá- comunidades e enxerga o seu exige participação popular e forma tudo que vêm da rede veis e que isso só é possível por todo. “As parcerias com os curcontínua”, afirma. De acordo solidária fica bem organizado conta das pessoas que se com- sos da Unisinos são imporprometem com o crescimen- tantes, muitos estudantes vicom ela, na Rede o trabalho e distribuído”, aponta. vem distante distantes dessas Para explicar a organi- to das comunidades. é coletivo e eles possuem reConforme Fernanda, exis- condições de vida e de comuuniões semanais para decidir zação, Fernanda argumenações. “É nesse espaço que ta que as cestas adquiridas tem outros trabalhos da Rede nidade, e compreendo que a decidimos a distribuição de pela Rede são distribuídas em cada comunidade e a in- partir de vivências profundas alimentos e atividades com quinzenalmente para todas tenção é que eles cresçam e qualificadas os estudantes as crianças e famílias nas co- as ocupações do município cada vez mais, como na recém têm processos contínuos de

evoluções individuais e coletivos dentro de suas áreas e para vida profissional e pessoal”, descreve. Outra característica do projeto da Rede são os trabalhos educativos desenvolvidos com as lideranças locais a partir da colaboração de cursos da Unisinos. Infelizmente, de acordo com o Luís Henrique, de 36 anos, a comunidade não possui profissionais especializados em pedagogia para ajudá-los com a questão da educação, por isso que ele, enquanto assistente social, atua na Renascer. “É bem complicado, porque queremos ensinar e dar atenção às crianças, mas não sabemos a melhor forma de educar e ajudar elas na redução de conflito ou agitação, por isso um voluntário dessa área seria essencial para melhoria do dia a dia aqui”, enfatiza. Karen Peres Carcamo, de 35 anos, militante da Rede Solidária São Léo na área de Serviço Social, comenta que a rede contribui de diversas formas: uma escuta sensível, explicação de direito e o acesso à saúde, educação, moradia, saneamento, formação de currículos e o auxílio a alimentação básica e saudável. “Se olhares nas ocupações, estamos ‘olhando’ por todos: gestantes e seu direito ao pré-natal, crianças, adolescentes, jovens, mulheres, homens, idosos. Eu como estudante de serviço social vejo que foi a melhor experiência que eu poderia ter para minha formação e para a vida”, destaca a estudante Marilene relata que espera ver a Rede crescer cada vez mais. “É muito lindo isso, esses ativistas carregam consigo também os valores da solidariedade de um compromisso voluntário porque a maioria, ou todos, assumem isso voluntariamente sem remuneração. Apenas com uma relação de troca de carinho e histórias. Esses tempos de tantas exigências, tantas crises, dualismos, a gente vai construindo um projeto coletivo baseado nos valores que possam construir um outro jeito de ser e de viver. Além disso, a contribuição dos profissionais da comunicação faz toda a diferença. A de jornalismo cidadão, por meio do Jornal Enfoque tem sido um instrumento potente de muitas dimensões da Rede”, conclui Marilene. SARA NEDEL PAZ