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Beta Comunidade - Ilha da Pintada - 1

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ILHA DA PINTADA

A RESISTÊNCIA QUE (EN)CANTA

Beatriz Gonçalves Pereira transforma ancestralidade, fé e luta em voz para a Região das Ilhas de Porto Alegre >> Páginas 4 e 5

Ruínas do Estaleiro Mabilde evocam a memória da construção naval >> Página 3

Empreendedorismo feminino se consolida como uma das principais forças da reconstrução >> Páginas 6 e 7

Durante quase um mês, em 2024, o padre Rudimar viveu ao lado dos moradores desalojados >> Páginas 10 e 11

Vó Leoni: a benzedeira que coleciona histórias de fé, samba e superação >> Páginas 14 e 15

Conheça a jovem que transforma a reciclagem em oportunidade e autonomia >> Páginas 12 e 13

A força para recomeçar

Dois anos após ter sido engolida pelo Guaíba, a Região das Ilhas, em Porto Alegre, mais uma vez recomeça. É ainda em meio às marcas deixadas pela inundação de maio de 2024 que os moradores do bairro Arquipélago, em especial da Ilha da Pintada, visitada pela reportagem do Beta Comunidade em um ensolarado sábado de maio, reconstroem suas vidas. Quem mora às margens do Guaíba conhece bem o caminho da reconstrução e transita por ele com muito trabalho, resiliência e fé. Acostumados ao sobe e desce das águas, os moradores das ilhas sabem que a “culpa” não é do rio, e sim da interferência humana em seu curso natural. Sabem, também, que reconstruir não é tarefa que se toca sozinho. Pelo contrário: é trabalho coletivo, feito a muitas mãos e com muita luta.

QUEM FAZ O JORNAL

Beatriz Gonçalves Pereira, a Bia da Ilha, é uma das lideranças à frente deste esforço conjunto para permanecer e recomeçar. Foi ela quem mobilizou a comunidade da Ilha da Pintada para receber a nossa reportagem e nos apresentou histórias, pessoas, memórias e costumes de um dos lugares mais belos de Porto Alegre. E também quem nos recebeu, em seu terreiro, com café, bolachas e muito carinho.

Esta segunda edição do Beta Comunidade vai além de registrar o recomeço de quem decidiu permanecer na Região das Ilhas após a enchente de 2024. Por meio das histórias que contamos nestas páginas, buscamos investigar o que, afinal, move as pessoas a seguir em frente. De onde vem essa força inabalável para reconstruir? E o que a sustenta mesmo nos dias mais difíceis?

O Beta Comunidade nasceu para dar voz, contar histórias e tornar visível o que muitas vezes é ignorado. Produzido por estudantes do curso de Jornalismo da Unisinos, nas disciplinas de Jornalismo Comunitário e Fotografia no Jornalismo, o jornal laboratório fortalece o vínculo entre universidade e comunidade ao promover informação de interesse público. Com distribuição gratuita, circula nas comunidades onde é produzido.

bredacao@gmail.com

Como preza o bom jornalismo, nosso objetivo é que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Uma pista para essa resposta surgiu no retorno da saída de campo que deu origem a este jornal: enquanto cruzávamos a ponte que liga o Arquipélago ao Centro de Porto Alegre, falávamos sobre alegria.

Foi ela que encontramos em cada entrevista, em cada depoimento, em cada contato que tivemos na Ilha da Pintada. Mesmo em meio a dificuldades, é ela que transparece na voz, no sorriso e no canto da Bia da Ilha e de outras tantas pessoas que tivemos a oportunidade de conhecer e que agora, caro leitor, temos a honra de lhe apresentar. É dela, possivelmente, que vem a força para recomeçar.

BEATRIZ SALLET

MARIANA OSELAME

PROFESSORAS ORIENTADORAS

TEXTOS – Disciplina: Jornalismo Comunitário. Orientação: Mariana Oselame (marianaoselame@unisinos.br). Repórteres: Beatriz Schleiniger Mello, Ramiro Costa Lemos, Taiana Souza, Tobias Gancedo de Araújo e Vitória Ribeiro dos Santos. IMAGENS – Disciplina: Fotografia no Jornalismo. Orientação: Beatriz Sallet (bsallet@unisinos.br).

Fotógrafos: Amanda Pedron Pinheiro, Beatriz Carvalho do Nascimento, Larissa Vargas dos Santos Har, Laura de Oliveira Barbosa, Lívia Kraemer Boaz Dias e Rafael Silveira da Luz. ARTE – Realização: Núcleo Júnior de Comunicação e Design/Marketing. Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia. IMPRESSÃO – Gráfica UMA / Grupo RBS.

Beta Comunidade no Santa Terezinha

Em maio, a equipe da reportagem do Beta Comunidade retornou ao Loteamento Santa Terezinha, conhecido como Vila dos Papeleiros, para entregar exemplares do jornal aos moradores. Publicada em abril, a primeira edição destacou histórias marcantes da comunidade, entre elas a de Antônio Carboneiro (foto), líder cuja mobilização e persistência foram fundamentais para garantir moradia digna e melhores condições de vida às famílias da região. A visita reforçou os laços entre o projeto e a comunidade, valorizando a memória, as conquistas e as vozes dos moradores.

Universidade do Vale do Rio dos Sinos –Unisinos. Campus de Porto Alegre (RS): Av. Nilo Peçanha, 1600, bairro Boa Vista (CEP 91330-002). Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Sergio Mariucci.

Vice-reitor: Artur Jacobus. Pró-reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Gustavo Borba. Pró-reitora de Administração: Silvana Model. Diretora da Unidade de Graduação: Paula Dal Bó Campagnolo. Coordenador do Curso de Jornalismo: Daniel Feix.

Entre construções navais e memórias atemporais

Estaleiro Mabilde reflete a construção da Ilha da Pintada e fortalece a memória de quem conviveu no espaço

Às vezes, tudo que se pode falar é sobre memória. Por vezes, de um tempo que não volta mais ou de relações que ficaram marcadas na história de um local. O antigo Estaleiro Mabilde, fundado no início do século XX e instalado na Ilha da Pintada em 1912, ultrapassou, há muito tempo, a condição de empreendimento. Tornou-se parte da identidade do bairro Arquipélago e ajudou a moldar a vida social, econômica e afetiva de gerações de moradores.

A história do estaleiro começou ainda no centro de Porto Alegre, quando o engenheiro Emílio Carlos Oscar Mabilde abriu uma oficina mecânica na rua Andrade Neves, no fim do século XIX. Com o aumento da demanda por embarcações e reparos navais, a empresa foi transferida para a rua Sete de Setembro, no Centro Histórico, e, depois, para a Ilha da Pintada, acompanhando a expansão portuária da Capital e a importância do transporte hidroviário para o Rio Grande do Sul. O próprio registro da empresa, de 1901, definia a atuação da Mabilde & Cia. como dedicada “ao comércio de estaleiros, fundição e construções de embarcações”.

Na prática, o estaleiro se transformou em algo muito maior do que uma fábrica de barcos ou oficina mecânica.

Para Adriano Mabilde, bisneto do fundador, o estaleiro era “uma pequena cidade”. E as histórias eram tantas que Adriano decidiu desenvolver sua dissertação de mestrado na PUCRS sobre a empresa e sua relação com o poder público durante a Primeira República. Segundo ele, cerca de 200 trabalhadores chegaram a atuar no local nos períodos de maior atividade. Muitos moravam em casas oferecidas pela própria empresa, em uma espécie de vila operária construída ao redor das oficinas.

Inaugurado em 1912, estaleiro chegou a empregar 200 trabalhadores. Abaixo, a lancha Mabilde, que fazia a travessia entre o Centro de Porto Alegre e a Ilha da Pintada

Ali, havia água encanada, geração própria de energia elétrica, enfermaria, armazém de secos e molhados, atividades culturais, escola e até moeda própria, como forma de fomento à economia no comércio da região. As peças metálicas eram produzidas na própria fundição do estaleiro e depois trocadas nos estabelecimentos locais, que recebiam o ressarcimento da empresa posteriormente. Também era utilizada uma esfera semelhante à da moeda como um cartão-ponto. Assim, quando um funcionário queria determinado material emprestado, bastava deixar a moeda correspondente ao seu registro no lugar. A relação entre patrões e empregados ia além do vínculo formal de trabalho. Adriano relata que muitos funcionários eram compadres da família Mabilde e conviviam

diariamente no mesmo espaço. Bailes de carnaval, churrascos, serestas e até mesmo partidas do clube de futebol do Mabilde Foot-Ball Club (MFBC) eram feitas no lugar. “Era tudo muito misturado. A vida da família, dos trabalhadores e do estaleiro acontecia no mesmo lugar”, conta.

A estrutura também refletia uma época em que direitos trabalhistas ainda eram raros no Brasil. Antes mesmo da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, os empregados contavam com assistência médica por meio de um convênio com a Santa Casa, além de uma enfermaria mantida dentro do complexo. Picadas de cobra, comuns na

região alagadiça da ilha, eram tratadas ali mesmo.

Segundo a pesquisa de Adriano, o crescimento do estaleiro acompanhou o desenvolvimento do transporte hidroviário no Estado. Nas primeiras décadas do século XX, o Guaíba era uma das principais rotas de circulação de passageiros e mercadorias. O governo gaúcho mantinha dragagens constantes para garantir a navegabilidade dos rios e lagoas, e os estaleiros tinham papel estratégico nesse processo.

Adriano Mabilde afirma que a empresa venceu a maior parte das licitações públicas para manutenção de embarcações e construção

naval naquele período. O estaleiro também participou de grandes projetos estaduais, como a montagem de uma draga escocesa utilizada em obras de ligação hidroviária até o Litoral Norte. Durante a Revolução de 1930, a produção foi parcialmente desviada para a fabricação de armamentos. Um dos episódios mais curiosos da trajetória da empresa foi a construção do tanque de guerra “Parahyba”, produzido sobre a estrutura de um trator. Hoje, não se sabe onde a construção pode estar.

Outro fato curioso e estratégico para a época era a proximidade com figuras políticas. Fotografias mostram visitas frequentes de autoridades, incluindo Borges de Medeiros, José Montaury e o ex-presidente Getúlio Vargas.

O FIM DE UMA ERA

O declínio do estaleiro começou após uma combinação de fatores econômicos e políticos, agravados pela enchente de 1941. Máquinas ficaram submersas, materiais foram saqueados e os prejuízos se tornaram difíceis de recuperar. Em 1943, o estaleiro foi vendido ao Consórcio Administrador das Minas de Carvão (Cadem) com todo quadro de funcionários. A família fundadora permaneceu trabalhando e morando no local até 1947.

Mesmo depois da venda, o nome resistiu. O espaço continuou recebendo outras empresas ligadas ao setor naval, mas, para os moradores da Ilha da Pintada, ele nunca deixou de ser o “Estaleiro Mabilde”. Em visita ao local, a reportagem de Beta Comunidade tentou adentrar ao espaço, mas foi impedida. Para Adriano, que recentemente foi ao local, é como voltar no tempo, já que trilhos, oficinas e equipamentos antigos resistem à passagem dos anos. Acima de tudo, permanecem na memória. “Até hoje existe um grupo formado por familiares e antigos conhecidos que se reúne para contar histórias da época do estaleiro. É uma memória que continua viva”, finaliza Adriano.

LARISSA HAR ARQUIVO PESSOAL

Beatriz Gonçalves Pereira costuma dizer que não é daqui. Que não é desse estado nem desse país. Bia da Ilha, como é conhecida, carrega a memória de um povo arrancado da própria terra. Bisneta de escravizados, chegou ao bairro Arquipélago, em Porto Alegre, com três dias de vida. Cresceu na Ilha da Pintada, onde a mãe não podia entrar na igreja, estudar ou andar na rua por ser preta.

Aos 63 anos, Beatriz transforma sua existência em ponto de encontro entre fé, comunidade, política e cultura. É mãe de santo, referência comunitária, educadora, ativista, empreendedora, presidenta de escola de samba e artesã. Nenhuma dessas definições, porém, parece suficiente para dimensionar quem é essa mulher que tem sua aura literalmente estampada na fachada de um prédio de 65 metros na capital que, segundo ela, dá as costas para suas raízes.

Bia da Ilha é ponte. Como as que aparecem no caminho de quem sai do Centro e segue até a Pintada, ela também conduz chegadas. É lá que fica sua casa, sua quitanda e seu terreiro. Entre o cheiro de café recém-passado, ervas e imagens de matriz africana, ela recebe quem chega de braços abertos e sorriso no rosto, exatamente como atravessa

Todas as vezes que Bia canta

Mãe de santo, educadora, ativista e referência comunitária, Beatriz faz da memória ancestral, espiritualidade e luta em presença política nas ilhas de Porto Alegre

a própria vida. Falar com Bia é entender que nem todas as respostas chegam pela fala, mas pelo canto. A voz é forte, de quem carrega a necessidade urgente de fazer sua luta ser ouvida. Ecoa e ocupa os espaços, arrepia e torna memórias em algo vivo.

NASCIDA DO ARRANCO

“Eu não sou daqui, marinheiro só”

É cantando que Bia introduz as lembranças que conduzem os próximos parágrafos e explica o porquê não se sente “daqui”. “Minha vó não veio pra cá porque quis. Ela foi forçada. Veio escravizada. Logo, eu, que

nasci do filho dela, não era pra estar aqui”, explica. Falar sobre pertencimento significa falar sobre ancestralidade. Bia não se enxerga separada da história de um povo que precisou reconstruir a vida longe de sua terra, mantendo vivas tradições, afetos e formas de resistência mesmo diante das constantes tentativas de apagamento. “Eles tiraram quase tudo de nós, só esqueceram de uma coisa: a memória”, diz. Talvez seja por isso que falar de Bia quase nunca significa falar somente dela.

Na infância de Bia, havia brincadeiras no rio, ovo quente na mesa pela manhã, e travessias de barco. Era um mundo maravilhoso, sem perturbação.

"Minha infância foi linda", lembra. No entanto, o racismo se manifestava nas pequenas e grandes proibições do cotidiano. Mas, mesmo nas lembranças mais duras, o riso aparece como resposta. Ao recordar dos bailes em que pessoas negras eram impedidas de entrar, gargalha antes de contar como a comunidade transformava exclusão em festa. "A gente levava um rádio bem grande, começava a dançar na rua e daqui a pouco esvaziava o salão, nós virávamos o show."

Entre as lembranças herdadas e a recusa do que se naturalizou como destino, ela sintetiza esse movimento ao relatar as conversas em família: “Minha mãe dizia ‘minha filha, sempre

foi assim’ e eu respondia: ‘não vai ser mais, vamos mudar isso’”, afirma. A força que sustenta esse inconformismo também se revela na fé cultivada pela Mãe Bia dentro de seu terreiro.

RELIGIÃO

“Olha o canto da sereia”

Filha de Iemanjá, Bia veste a espiritualidade no corpo: os fios de contas que descem pelo peito, o turbante branco, as saias longas e os tecidos em tons terrosos carregam referências de uma prática espiritual que não é só intimidade, mas também ato político. No Reino de Yemanjá e Oxóssi, ela recebe filhos de santo, moradores da comunidade, líderes comunitários e vizinhos de portas abertas. “Tem lugares em que sou a Mãe Bia que tem mais de 60 filhos”, relata. São filhos de santo, mas também pessoas que chegam procurando conselho, escuta ou algum tipo de direção. “Eles buscam tudo. Carinho, conselho, solução de problemas. Às vezes, até decisões de vida”, explica. Um de seus filhos, Wagner Batista, a conheceu há seis anos, durante uma festa religiosa. Desde então, os dois passaram a dividir também articulações

Bia cantou na segunda edição da Caminhada das Flores como forma de resistência ao apagamento da tragédia climática de 2024

comunitárias ligadas às ilhas. Para ele, a presença de Mãe Bia ultrapassa os limites do terreiro. “Ela representa tudo. Às vezes, a gente precisa de uma orientação espiritual ou mesmo da vida pessoal, e ela ajuda em tudo”, afirma. Wagner descreve uma mulher em movimento constante, daquelas que nunca se negam ao outro. “Ela não sabe dizer não. Está sempre correndo, e tudo envolve pessoas”, diz.

LUTA

“Toda a cidade brilha, presente na água doce, presente na água salgada”

Se existe algo que aprendeu desde cedo, foi que existir nas ilhas como mulher negra sempre exigiu mais do que permanecer. Exigiu organização, enfrentamento e a capacidade constante de reivindicar espaço, direitos e reconhecimento.A mesma menina que questionava a mãe quando ouvia que “sempre foi assim”, cresceu entendendo que disputar sobre seu território também faz parte dessa luta.

Bia sempre soube que defenderia alguma causa. Aos 15 anos, sonhava em ser advogada e enfrentar injustiças através do direito. Não chegou à faculdade,

mas encontrou outras formas de exercer esse compromisso. Passou por fábricas de confecção, cozinhas e lojas até se aproximar de ONGs e projetos comunitários, onde aprendeu com educadores e assistentes sociais. Trabalhou com população em situação de rua, adolescentes e crianças. “Sempre me incomodei com injustiça”, diz. “E fui crescendo vendo a ilha se desenvolver com muita dificuldade. Pensava: isso não poderia ser assim”, recorda. Com o passar dos anos, essa postura ganhou espaço em diferentes frentes. Bia atua junto ao orçamento participativo das Ilhas, participa de articulações comunitárias e hoje trabalha como educadora popular no Instituto Camélia, organização da sociedade civil voltada principalmente ao fortalecimento de mulheres periféricas. Entre as iniciativas desenvolvidas pela instituição está o projeto Kitandas, que qualifica e acompanha mulheres interessadas em abrir os próprios negócios na área da alimentação. Bia divide os dias entre o trabalho no escritório e na rua – e é lá, em meio à comunidade, que se sente mais à vontade. Os cumprimentos se acumulam no caminho em qualquer lugar que esteja. Bastam poucos minutos de caminhada para que alguém

a reconheça, pare para conversar ou a chame pelo nome.

A admiração por Bia também aparece na fala de pessoas que cruzam seu caminho de alguma forma. A articuladora social Fernanda Sequeira, que a conheceu em projetos comunitários, descreve sua presença como algo difícil de ignorar. “Ela é uma inspiração, passa uma força, uma resiliência”, afirma. “A voz dela, o jeito de ser… ela não se abala. É um ponto de referência pra comunidade dela, um porto seguro”.

QUANDO BIA CANTA

“Um canto de revolta pelos ares”

Bia havia dormido pouco mais de quatro horas naquele sábado, 9 de maio, em que ocorria a segunda edição da Caminhada das Flores, mobilização organizada pelo Coletivo POA Inquieta, em memória aos atingidos, aos voluntários e a todos que resistiram às inundações que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. O encontro reuniu dezenas de pessoas em um percurso marcado por flores, homenagens e reivindicações por ações diante das consequências deixadas pela tragédia climática. Convidada para integrar a atividade, ela também ficou responsável por um momento de musical realizado no final do evento.

A caminhada saiu do Paço Municipal, no Centro Histórico, em direção à Usina do Gasômetro, totalizando três quilômetros. Ao final do evento, flores foram depositadas aos pés do Monumento aos Heróis Voluntários ao som de tambores enquanto a voz da mãe de santo conduzia melodias. Para Bia, participar da mobilização significa impedir que a inundação seja reduzida apenas à lembrança de uma tragédia encerrada. “É relembrar aquele momento que será inesquecível”, afirma. Mas a homenagem, segundo ela, não pode existir separada da cobrança por respostas concretas diante das marcas deixadas pela água.“A caminhada significa pensar em quais são as ações que nós, enquanto população, estamos fazendo, mas muito mais, quais são as ações afirmativas que os governos estão fazendo”, explica.

A crítica também alcança a forma como a cidade passou décadas se relacionando com os rios. “Quem mandou a gente ficar aterrando o rio em nome do progresso?”, questiona Bia. A fala vem de quem cresceu vendo o sol nascer sobre o rio e que, mesmo depois de tantas vezes em que precisou dormir em mesas para escapar das enchentes, define a água como sinônimo de vida.

TAIANA SOUZA RAFAEL LUZ

A imagem de Bia da Ilha passou a ocupar o centro da paisagem urbana de Porto Alegre em um mural de 65 metros

Simplesmente Bia

No local onde, no século XIX, existia um reduto quilombola, hoje está o prédio do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER). É ali que a imagem de Bia da Ilha ocupa uma fachada de 65 metros. O mural foi assinado pelos artistas visuais e muralistas Mona Caron e Mauro Neri e inaugurado em 2022. A fotografia que deu origem à pintura surgiu enquanto Bia apresentava o quebra-tudo africano, erva utilizada em benzimentos, banhos e rituais para fortalecimento da cabeça, considerada nas tradições afro-brasileiras um ponto de equilíbrio espiritual. Sem pose ou preparação, um registro acabou se tornando uma das maiores imagens negras já estampadas na paisagem urbana da capital gaúcha.

Enquanto a obra ainda ganhava forma, Bia já recebia mensagens de moradores que reconheciam traços seus no mural. “Bia, vi teu olho”, “Bia, vi teu cabelo”, relembra, entre risos, sobre os comentários que surgiram antes mesmo da inauguração. Depois que a pintura foi concluída, sua rotina mudou. Passou a ser convidada para entrevistas, visitas guiadas, palestras e encontros com grupos organizados que iam até o Quilombo Urbano, na Ilha da Pintada, interessados em conhecer o espaço. Três anos depois, o mural virou alvo de discussão após quase ser apagado durante reformas previstas pela administração do prédio, o que mobilizou artistas, moradores e movimentos sociais pela defesa da permanência da obra. O mural transformou Bia em uma presença impossível de ignorar no centro de Porto Alegre. Quando se olha no espelho, porém, ela não vê apenas a mulher que ocupa aquela fachada. Vê o empoderamento que conquistou, a transformação pela qual passou. Mas em certos momentos, aquele reflexo lhe sussurra outra pergunta: "Beatriz, que responsabilidade tu tens agora?”. Na vida de Bia, existir sempre esteve ligado à necessidade de ocupar espaços que durante muito tempo tentaram negar a presença de pessoas como ela. “Eu estou aqui para incomodar”, diz. Incomodar uma cidade que durante muito tempo preferiu esquecer as ilhas. Incomodar as estruturas que tentaram empurrar corpos negros para longe da própria história. Incomodar para que pessoas como sua avó jamais sejam reduzidas ao silêncio outra vez.

6. Empreendedorismo

Entre receitas e recomeços

Oque começou com mesas improvisadas na rua, bolos expostos em feiras e produtos vendidos após a enchente de 2024 se transformou em um espaço fixo na Ilha da Pintada. Hoje, a Cafeteria das Gurias reúne quatro mulheres que dividem receitas, trabalho e renda em um modelo coletivo criado dentro da própria comunidade. Localizada na rua Capitão Coelho, número 56, a cafeteria funciona a partir de uma dinâmica compartilhada: cada integrante produz alimentos diferentes e recebe conforme as vendas realizadas no dia.

Enquanto Carolina Schmitt Laydner produz empadas, cucas e salgados, Nara Luisa Reis Nunes é responsável principalmente pelos folhados e salgados frios. Já Denisia Coelho Nunes Vargas trabalha com bolos e tortas, enquanto Carmen Lucia Oliveira produz pães e massas artesanais. Além da unidade localizada na Ilha da Pintada, o grupo também abriu recentemente um segundo espaço em Eldorado do Sul, na rua Grécia, número 114, onde as integrantes se revezam entre produção, atendimento e entregas.

Mais do que uma cafeteria, o espaço acabou se tornando um ponto de encontro entre moradores da ilha. Conhecidas pela comunidade há décadas, as empreendedoras relatam que boa parte dos clientes surgiu justamente das relações construídas ao longo dos anos no bairro.

HERANÇA FAMILIAR

Antes de trabalhar exclusivamente com confeitaria, Nara atuou durante 22 anos como educadora social em uma entidade da Ilha da Pintada. Mesmo durante o período em que trabalhava na educação, os salgados já faziam parte da rotina familiar.

A mãe produzia bolos, tortas e encomendas em casa, envolvendo toda a família no trabalho. Com esta forte inspiração, Nara passou a desenvolver os produtos autorais vendidos atualmente na cafeteria, como a cocada e a canoinha folhadas. “A melhor forma de aprender é fazendo e, quanto mais se faz, mais ideias surgem e a criatividade

também vem. A confeitaria é colocar a criatividade na mesa e isso pra mim é a melhor coisa que tem”, afirma. As receitas são adaptadas pelas próprias confeiteiras, que misturam referências familiares, experiências pessoais e testes feitos ao longo dos anos.

DO PILATES À CONFEITARIA

A trajetória de Carolina seguiu um caminho diferente até chegar à cafeteria. Formada em Educação Física, ela trabalhou durante anos com pilates em um estúdio montado na própria casa. Durante a pandemia, começou a produzir alimentos por encomenda como uma forma de complementar a renda. O que inicialmente era uma alternativa temporária acabou se transformando em uma nova profissão. “Parada em casa, eu precisava fazer alguma coisa, então comecei pelos salgados e deu super certo. Antes de abrirmos a cafeteria, eu fazia por encomenda e entregava com o meu carro mesmo”, conta. Hoje, Carolina é responsável por parte dos salgados, cucas e receitas vendidas na

cafeteria. Entre os produtos mais procurados pelos clientes estão as empadas de massa de nata, as pizzas tradicionais e a cuca alemã produzida artesanalmente.

Segundo as empreendedoras, a relação entre elas funciona de forma colaborativa, sem disputa pelos produtos vendidos. As encomendas recebidas são divididas conforme a especialidade de cada uma, permitindo que todas participem da produção e da renda obtida pelo empreendimento.

RECONSTRUÇÃO APÓS A ENCHENTE

Assim como centenas de moradores da Ilha da Pintada, as gurias da cafeteria também foram atingidas pela enchente de 2024. Equipamentos, móveis, utensílios e espaços de trabalho foram perdidos durante o período das cheias. Após a enchente, elas passaram a participar de um projeto criado para auxiliar mulheres da ilha que trabalhavam com confeitaria e haviam perdido materiais e equipamentos. “O projeto era o Confeiteiras da Ilha, eles disponibilizam cursos, fizemos até um no Mercado Público de Porto Alegre. No

final, ficamos só nós quatro mesmo, então decidimos começar algo de fato”, afirma Carol.

Inicialmente, as vendas aconteciam em feiras e em mesas improvisadas na rua. Com o tempo, surgiu a oportunidade de ocupar um espaço fixo na Ilha da Pintada, dando origem à primeira unidade da cafeteria. “Um dia pegamos muita chuva na feira, então nossos clientes disseram pra gente abrir a cafeteria e foi aí que começamos na rua de

trás. Estamos neste endereço desde então”, diz Nara. Além do apoio recebido através do projeto, as confeiteiras destacam a solidariedade dos moradores da comunidade durante o período de reconstrução. Segundo elas, a união entre vizinhos foi fundamental para que muitas famílias conseguissem retomar suas rotinas após a tragédia.

NOVOS CAMINHOS

Mesmo após as dificuldades, Nara, Carolina, Denisia e Carmen seguem reconstruindo a rotina através do trabalho coletivo. Entre fornadas feitas durante a madrugada, encomendas organizadas entre amigas e receitas passadas de geração em geração, a Cafeteria das Gurias se tornou parte da própria história das quatro mulheres. Na Ilha da Pintada, onde praticamente todos se conhecem, o espaço ultrapassou a ideia de um simples comércio. A cafeteria representa um ponto de encontro para moradores, clientes antigos e visitantes que circulam pela região diariamente.

A história das mulheres por trás da Cafeteria das Gurias
BEATRIZ SCHLEINIGER
BEATRIZ CARVALHO
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Saiba mais
Ou acesse @cafeteriadasguriasilha no Instagram
Nara (E) e Carolina (D) com alguns dos produtos da Cafeteria das Gurias

Das águas nasce a arte

ARTE QUE NASCE DO DESCARTE

Da janela de casa, a água já fazia parte da paisagem muito antes de virar ameaça. Nascida e criada na Ilha da Pintada, Giorgia Maria da Silva Santos aprendeu desde pequena a conviver com as enchentes. Hoje, aos 45 anos, ela carrega outro aprendizado herdado da família: transformar aquilo que antes era descartado em arte, memória e sustento.

Conhecida como Gih Santos, a mestre artesã ribeirinha trabalha com biojoias feitas a partir de escamas e couro de peixe. Mas o artesanato, para ela, vai muito além da produção manual. É uma forma de preservar histórias, fortalecer mulheres e manter viva a identidade das ilhas. “Eu sempre digo que o saber e fazer passou de geração em geração. Minha avó ensinou minha mãe, minha mãe me ensinou e eu sigo repassando”, conta.

O trabalho com escamas de peixe começou oficialmente em 1998, quando um curso voltado às comunidades das ilhas ensinou mulheres da região a transformar resíduos da pesca em artesanato que, até então, eram descartados como lixo. “Na época era material descartável.

A gente aprendeu desde a lavagem até a produção das peças”, explica.

O grupo criado naquele período deu origem ao Artescama, coletivo de artesãs da Ilha da Pintada. Com o passar dos anos, o trabalho evoluiu das flores artesanais para biojoias, acessórios e peças decorativas.

Hoje, a loja Mimos da Gih produz brincos, colares, quadros, enfeites e peças utilitárias usando escamas e couro de peixe tratados manualmente. A mãe dela, Maria Helena da Silva Santos, conhecida como dona Nena, participa diretamente do processo. “Eu lavo as escamas,

tiro toda a goma e deixo prontas para ela trabalhar”, conta a aposentada de 76 anos.

As peças são feitas no pequeno ateliê montado dentro da própria casa, adaptado após as enchentes.“Quando construímos a casa, a ideia era ter um ateliê separado. Depois de 2024, tivemos que mudar tudo. Peguei um cantinho da sala para seguir trabalhando”, explica.

EMPREENDEDORISMO E RESISTÊNCIA

Além do artesanato, Gih também atua com projetos voltados ao empreendedorismo feminino e à valorização da cultura ribeirinha.

Durante a pandemia, ela passou a organizar iniciativas online, oficinas e rodas de conversa envolvendo artesãs de diferentes regiões do Rio Grande do Sul. O projeto alcançou cerca de 40 cidades, além de outros estados e países. “Eu sempre digo que prefiro mirar na lua e acertar as estrelas”, brinca.

Foi também nesse período que surgiu a Feira da Resistência, grupo que reúne artesãos e empreendedores das ilhas e de Eldorado do Sul. A proposta é fomentar a economia local e fortalecer a comunidade depois das enchentes. “A ideia é levar o que a gente tem de melhor daqui para outros lugares, mas também trazer as pessoas para conhecerem as ilhas”, explica. As feiras reúnem artesanato, alimentação e iniciativas

a câmera do celular para o QR Code abaixo e saiba mais sobre a Mimos da Gih

Ou acesse @mimosda_gih no Instagram

culturais produzidas pelos próprios moradores da região.

MEMÓRIA VIVA DAS ILHAS

Mais do que vender peças, Gih vê no trabalho artesanal uma forma de preservar a memória da Ilha da Pintada. Ela participa de iniciativas ligadas ao Museu das Ilhas, considerado o primeiro museu de percurso a céu aberto de Porto Alegre, com painéis espalhados pela região contando histórias narradas pelos próprios moradores. “É o resgate da memória, do saber e do fazer, para que isso não se perca”, resume. Entre enchentes, reconstruções e oficinas, Gih segue transformando escamas de peixe em símbolo de resistência. Na Ilha da Pintada, onde a água tantas vezes levou quase tudo, o artesanato continua sendo uma maneira de permanecer.

Gih e sua mãe, dona Nena, produzem brincos, colares, quadros, enfeites e peças utilitárias com escamas e couro de peixe tratados manualmente

Artesã da Ilha da Pintada transforma escamas de peixe em biojoias
BEATRIZ SCHLEINIGER
AMANDA PINHEIRO
Aponte
Saiba mais

Marcas da enchente

Apesar das marcas da enchente e dos escombros que a reportagem do Beta Comunidade encontrou em um ensolarado sábado de maio – no mesmo mês em que, dois anos antes, tudo estava submerso pelas águas do Guaíba – nada disso é sinal de terra arrasada na Ilha da Pintada. Muito pelo contrário: é sinal de resistência e de força da população que permaneceu na ilha e, apesar dos pesares, está sendo protagonista de uma vigorosa reconstrução.

LARISSA HAR
LAURA BARBOSA

Padre Rudimar diz não perguntar sobre religião, opção política ou qualquer outra identidade nas distribuições de roupas e cestas básicas; "todos têm direito, afirma

O padre do Arquipélago

Há mais de uma década, Rudimar Dal' Asta vive a rotina, as dores e as esperanças da Região das Ilhas

Enquanto Porto Alegre dormia sob o trauma da enchente, o padre dormia debaixo da ponte. Durante quase um mês, entre maio e o fim de junho de 2024, o padre Rudimar Dal' Asta viveu ao lado dos moradores desalojados da Região das Ilhas,

acompanhando o avanço da água, distribuindo lonas, entrando e saindo de barco entre comunidades isoladas do bairro Arquipélago. Voltou para casa apenas no dia 31. “Foi um momento de pavor”, resume. A frase sai seca. Sem dramatização. Talvez porque, depois de mais de uma década convivendo diariamente com as ilhas de Porto Alegre, Rudimar tenha aprendido que ali o sofrimento raramente vem

acompanhado de espetáculo. Ele costuma chegar em silêncio. E permanecer. Aos 55 anos, o padre vive uma rotina quase itinerante. Quarta-feira à tarde é o único momento fixo na pequena estrutura da paróquia Reitoria Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ilha da Pintada. No restante da semana, atravessa comunidades como quem percorre uma única vizinhança contínua: Ilha Grande, Pavão, Flores, Pintada. Celebra missas em casas porque muitas igrejas desapareceram, seja pelo tempo, ou pela enchente. Carrega doações. Escuta brigas entre lideranças. Toma chimarrão. Volta para casa à noite para lavar roupa, limpar a própria casa e assistir televisão ouvindo bandinha ou sertanejo. “Tudo que eu faço, sou eu que faço”, diz. O homem que hoje se tornou uma das figuras mais conhecidas das ilhas nem

sempre esteve ali. Antes, teve passagem por movimentos sociais ligados à Via Campesina e chegou a ser preso em 2009 durante um protesto no governo Yeda Crusius. O pároco conta o episódio rindo, como se a internet insistisse em guardar uma versão antiga dele mesmo.

Mas foi nas ilhas que encontrou uma espécie de síntese da sua própria vocação. Quando chegou ao Bairro

Arquipélago, em 2015, encontrou uma realidade muito diferente daquela que imaginava. Não apenas pela pobreza ou pela precariedade, mas pela complexidade humana: “Eu vim com o conceito de família: pai, mãe e filhos. Aqui é outra realidade.”

Talvez por isso ele tenha adotado uma postura rara em ambientes religiosos mais tradicionais: aproximou-se das religiões de matriz africana e passou a realizar celebrações ecumênicas com diferentes lideranças locais. Nas distribuições de roupas e cestas básicas, diz não perguntar religião, opção política ou qualquer outra identidade. “Todos têm direito.”

Mas o discurso conciliador esbarra numa realidade dura. Rudimar fala repetidamente sobre abandono. Sobre como as ilhas só aparecem quando Porto Alegre alaga. Sobre uma população que diminuiu drasticamente após a enchente: “Hoje somos 4 mil”. De acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2022 a população residente era de 6 mil moradores no Bairro Arquipélago.

Possivelmente essa seja a parte mais poderosa de sua

história: a permanência. Em um território marcado pela sensação constante de provisoriedade, o padre escolheu ficar. Mesmo diante da lentidão da reconstrução. Mesmo diante das disputas políticas internas que ele critica abertamente. Mesmo diante da incerteza sobre o futuro das ilhas. Quando fala sobre esperança, sua resposta não vem carregada de grandes promessas espirituais. Ela é quase banal. E justamente por isso tão forte. A esperança, para ele, é que as pessoas tenham transporte, saúde, escola, uma praça para tomar chimarrão. “O necessário pra sobreviver.”

No fim da entrevista, ao ser perguntado em relação ao o que as ilhas ensinaram sobre o ser humano, ele demora alguns segundos antes de responder. Depois diz: “A olhar para as pessoas com o olhar de Deus.”

E talvez seja exatamente isso que explique por que, em meio ao abandono, tanta gente ainda o procura. Porque nas ilhas, onde quase tudo foi levado pela água, ainda existe alguém que decidiu não ir embora.

RAMIRO LEMOS
LAURA BARBOSA
LAURA BARBOSA

A recicladora da Ilha

Há cinco anos, Simara Drower, empreendedora e mãe solo, desempenha um papel fundamental na Pintada por meio da reciclagem

Para muitos brasileiros, acordar cedo não é uma escolha, mas uma necessidade que a rotina exige. Nos meses de verão, sair da cama antes das 7 horas da manhã pode ser um pouco menos desafiador. Porém, no inverno, as baixas temperaturas tornam a tarefa de sair do conforto das cobertas muito mais difícil. Para Simara Drower, 38 anos, a opção de não levantar está fora de cogitação.

O dia começa cedo: às seis e quarenta e cinco dispara o alarme. A porto-alegrense acorda, e, enquanto o leite da mamadeira ferve no fogão, acorda seus dois filhos Thaysla, de 3 anos, e Taylor, de apenas 1 ano e 9 meses. Um casal de loiros que destoam um pouco da mãe, mais morena.

“Meu pai era bem alemão, puxaram ele”, brinca Simara entre risadas.

Às sete e quarenta, saem os três para mais um dia de rotina como de costume. A mãe solo, que não tem auxílio do pai das crianças – “nem receber pensão eu recebo” – primeiro precisa deixar Taylor, em uma creche diferente da sua irmã, que percorre um caminho maior até chegar ao seu destino. Para esse deslocamento ela não utiliza carro ou moto, e tampouco vai a pé. Simara leva ambos no carrinho de uma bicicleta que foi adaptada para o ofício que desempenha: recicladora.

Nascida em Porto Alegre, Simara viveu até os 5 anos em Balneário Pinhal, no litoral gaúcho, a cerca de 107 quilômetros da Capital. Ainda pequena, saiu da praia para vir morar no bairro Arquipélago, em 1993. Filha do meio, sempre dividiu a casa com os dois irmãos, Simone, hoje com 42, e Ismael, hoje com 33, além dos pais que já são falecidos. A empreendedora lembra das

dificuldades enfrentadas na infância dos anos 90.

“A gente morava numa casa de madeira, e aqui era tudo banhado. Eu dizia à minha mãe que quando crescesse, iria ajudar eles. O sonho dela era ter um banheiro em casa, porque o nosso era na rua. No inverno, era muito frio”, lembra Simara. Há dez anos, ela perdeu a mãe. Já o seu pai faleceu há cinco anos.

Foi neste contexto que Simara iniciou na profissão de recicladora. Quando foi demitida do emprego que tinha, usou o dinheiro da rescisão para começar a construção da casa em que mora atualmente, na Avenida Presidente Vargas, no sul da Ilha da Pintada, contudo os custos da obra a obrigaram a precisar de renda para dar continuidade. Foi assim que uma decisão escreveu um novo capítulo na vida dela.

“Durante a obra da casa fiquei sem dinheiro. Meus pais já eram falecidos, e meus irmãos dependiam de mim. Decidi ser recicladora, e comecei assim, na cara e na coragem.

Primeiro ia só com uma bicicleta, depois que pude fazer o carrinho”, relata a empreendedora, que, hoje, para exercer sua profissão, fez um cadastro no Microempreendedor Individual (MEI) do Governo Federal.

O OFÍCIO DE UMA VENCEDORA

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), dados da Receita Federal e do Cadastro Único para Programas Sociais apontam que são mais de 16,1 mil CNPJs de catadores e catadoras de materiais recicláveis registrados no Brasil – sendo que cerca de 70% se mantêm ativos. Conforme o levantamento, o número desses microempreendedores ativos mais que triplicou em 11 anos – passando de 3,2 mil em 2014 para 10,8 mil em 2025. Simara se orgulha de poder ter feito o seu MEI, que já garantiu acesso a políticas públicas para sua família.

“Eu pago todos os meses e não abro mão. Quando eu engravidei, tive acesso ao salário-maternidade. Se um dia precisar ir para o hospital, também continuo recebendo um auxílio”, pontua a microempreendedora.

A bicicleta com carrinho adaptado fica guardada em uma espécie de galpão em frente à casa da família. O veículo não esbanja luxo, mas cumpre seu papel fielmente, tanto que, apesar de ter concluído sua CNH recentemente, a recicladora não pretende trocar a bicicleta por um carro neste momento.

Ao lado do galpão, fica a oficina, espaço dedicado a abrir materiais descartados com cobre e outros metais. Ao fundo da casa, ela dispõe de bags cuidadosamente separadas. Garrafas de um lado, latinhas de alumínio no outro, nada se mistura. O pátio grande pode alocar até 80 bags, que têm em torno de dois metros quadrados cada uma. “Eu amasso garrafa uma a uma. Depois, coloco tudo em cada

bag separada, tudo manualmente”, explica, gesticulando o processo.

Sobre a comunidade, Simara fala com muito carinho da população da Ilha da Pintada. “O pessoal sempre me avisa quando junta material reciclável para eu buscar. As gurias do Café só me ligam e eu passo por lá, isso ajuda muito”.

O café em questão é o “Café das Gurias”, que conta com uma reportagem completa na página 6. As proprietárias Carolina Laydner e Nara Nunes não medem palavras para prestigiar todo o esforço e as conquistas da jovem mãe.

Nara, que é um pouco mais velha, conhece Simara desde pequena. Orientadora educacional aposentada da rede pública, conta que ver ela crescendo e poder alcançar tudo através da reciclagem é gratificante.

“A mãe de Simara ajudava na entidade que tínhamos, a AAAPIP (Associação dos Amigos, Artesãos e Pescadores da Ilha da Pintada). Ela ia junto e também nos ajudava na cozinha. Toda vida sempre trabalhando, inclusive grávida, não descansou até o último dia”, lembra a educadora. Ambas enfatizam a boa relação que Simara tem com todos da ilha, e enaltecem as conquistas da “menina”, como se referem a ela.

“O meu sonho é que ela consiga uma Kombi bem linda, que possa levar as crianças e continuar reciclando, desejo muito que isso aconteça”, diz Nara.

RECOMEÇOS

Recomeçar sempre fez parte da história de vida de Simara. Seja quando pequena, ou já adulta, a jovem mãe precisou se reinventar muitas vezes na vida. Mas nunca como em maio de 2024.

O bairro Arquipélago foi um dos mais afetados em todo município de Porto Alegre. Conforme relatos, a população só pode voltar depois de 40 dias para suas casas, em um cenário de destruição completa. Simara saiu às pressas, com a água praticamente já no joelho. Grávida de seis meses de Taylor, relutou inicialmente, mas não tinha condições de ficar, como ela mesmo descreve.

“Eu não queria sair, não queria mesmo. Pensei em ficar na parte de cima da casa, mas ela ainda estava sem janelas e portas. Eu grávida, sem comida nem água, não tinha condições de ficar”, conta a mãe que precisou sair de barco no dia 3 de maio, rumo ao Gasômetro, em Porto Alegre, ao lado dos

Simara montou uma espécie de “oficina” para separar os tipos de materiais recicláveis que coleta. E, em frente à residência, a recicladora posicionou uma “bag” para que os vizinhos coloquem os materiais para reciclagem. Simara, a filha Thaysla e o fiel escudeiro Panqueca aproveitam o sábado de sol

irmãos, cunhado e sobrinhos. Exilada e longe de casa, Simara viveu por três meses em Cachoeirinha, próximo à Capital. Ela só pôde retornar para a Ilha em julho.

“A água chegou até aqui”, sinaliza, levantando a mão até a metade da parede da casa. “Quando entrei em casa, era só barro, areia e um odor muito forte”, relembra. Em agosto de 2024, após todo o desastre, deu à luz a Taylor. Sorridente, o menino se divertia na sala de estar, enquanto a pequena Thaysla acompanhava a entrevista. Essa dupla é o combustível de uma mãe que nunca deixou os recomeços serem sinônimos de derrotas, mas de superação.

“Hoje, vendo o que eu tenho, penso: ‘Bah, não sei de onde tirei tanta força’. Eu acho que a inspiração são meus pais, mas a motivação são meus filhos, porque é a continuidade da família, e eu não quero que passem trabalho”, enfatiza.

A PINTADA É A MINHA CASA

“Vem cá filha, vamos tirar uma foto”, pede a recicladora para a pequena Thaysla, que posa ao lado da mãe e de seu fiel companheiro de aventuras, Panqueca, um vira-lata preto e branco da família. A foto em frente à casa marca o que representa essa palavra para Simara.

“Eu não penso em sair daqui, tenho tudo. Minha casa, meus filhos estudam aqui perto, e todos me conhecem. A Pintada é a minha casa”, reitera.

Conforme o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bairro Arquipélago tem uma população residente de 6.411 pessoas. Entre vidas que se cruzam, pessoas que passam, Simara é um dos símbolos de uma população que resiste, se reinventa e cresce, apesar das dificuldades. A Ilha da Pintada não é apenas um lugar físico, mas um espaço onde uma comunidade unida sai para enfrentar a rotina, esperando que dias melhores virão.

TOBIAS ARAÚJO LARISSA HAR

Com 83 anos, Leoni chegou na Ilha da Pintada ainda criança.

Ela é considerada uma das moradoras mais antigas do Arquipélago

Leoni, a “vó” de uma comunidade inteira

Metalúgica, copeira e puxadora de samba: dona Leoni é símbolo de força, afeto e resiliência

"Mãe preta, que no teu corpo me embalou. Sofreu, mas não se calou. Te canto, eu te canto com esperança. Teu legado é herança de tudo o que se passou." Os versos autorais que a filha Bia e familiares compuseram para homenagear sua mãe no Carnaval da Ilha

da Pintada caberiam inteiros na abertura de qualquer história sobre Leoni Gonçalves Pereira. A mulher de 83 anos e de memória que insiste em não falhar carrega nas palavras a serenidade de quem atravessou tudo, e segue em pé. Considerada como uma das moradoras mais antigas da Ilha, tinha 12 anos quando pisou na ilha pela primeira vez. Negra, filha única, que perdeu a mãe cedo, foi criada pelo pai e a madrasta. Leoni

chegou a Porto Alegre vinda de Charqueadas carregando cadernos no braço e um destino que o preconceito tentou ditar. "Caminhava na rua com os caderninhos e gritavam 'macaca’”, recorda, sem dramaticidade. A escola durou pouco. "A professora chorava comigo, coitada. Mas eu desisti, porque uns riam e outros gritavam: 'Ô, fulana, a macaca veio na aula'." Precisou desistir da sala de aula, mas não da vida. Dormiu três anos no chão de

uma casa apertada. A resistência estava ali, na espera paciente por dias melhores, nas mãos que mais tarde operariam numa metalúrgica, na fé que a sustentaria quando a enchente levasse tudo. A enchente, aliás, é um capítulo que se repete na história de Leoni. "Quando eu saí de dentro da minha casa, saí com a água já na cintura", conta, referindo-se à enchente histórica que invadiu a ilha em 2024 e que devastou diversas cidades do Rio Grade do

Sul. A água levou documentos, geladeira, fogão, o micro-ondas recém-comprado e a televisão ainda por pagar. Perdeu quase tudo. "Graças a Deus ninguém morreu, todo mundo saiu com vida." Em 15 dias, estava com os documentos novos na mão. A comunidade, onde a maioria a chama de "vó", se encarregou do resto. Mandaram roupas, abrigo, solidariedade. "Conheço todo mundo aqui."

A mesma água já havia batido à sua porta décadas

LÍVIA BOAZ

antes. Rosimeri, sua filha mais nova, nasceu às três horas da manhã com água dentro de casa. O marido trabalhava na lancha de socorro, salvando outros enquanto a esposa esperava o amanhecer para ser resgatada pelos vizinhos. Três homens equilibraram o barco na correnteza. Leoni sentou no meio, com a recém-nascida no colo, os pés firmes no que encontrasse para se segurar. Ao longo de sua vida teve três relacionamentos. O primeiro com um rapaz de Charqueadas. Não puderam entrar na igreja. "O corvo e a anu não entravam", diz, referindo-se ao preconceito que barrava negros na porta da igreja.

Casaram-se assim mesmo, com festa, carne de porco assada, chopp e um barracão armado na própria ilha. Dessa união veio Bia, a puxadora de samba que hoje compõe com familiares junto a escola Unidos do Pôr do Sol para a mãe. Depois veio um menino, que um câncer levou aos 22 anos. "Ele faleceu conversando comigo. Disse: 'Já cumpri a minha missão aqui na Terra'." Leoni faz uma pausa. A voz não falha, mas os olhos marejam. A trajetória profissional é um mosaico de ofícios. Trabalhou em metalúrgica, fez “serviço de homem", colheu pêssego e ervilha em Pelotas, foi copeira em confecção de alta costura. Aposentou-se ali. "Quem consegue trabalhar na

ervilha ganha dinheiro que nem água", conta. Mas o ritmo da esteira era exaustivo. "As mulheres desmaiavam muito. Às vezes juntava duas, três da esteira." Ela, não. "Eu nunca desmaiei, eu rezava muito." Enquanto as colegas caíam, Leoni se mantinha de pé, rezando, trabalhando, juntando dinheiro para voltar para a ilha e construir a própria casa. "Consegui juntar um dinheirinho, vim embora de volta para cá, para a ilha de novo. Fiz uma casinha para mim." Foi com o suor das safras que ergueu as primeiras paredes. Hoje, a rotina é mais lenta. As pernas doem, "consequência da história", ela mesma diagnostica. Mas a boca não para. Conversa com quem

passa, acena para os carros e para todo que caminham na rua frente a sua casa. Na ilha, é "vó" até para o padre. E é também benzedeira. "Entrei para a religião por causa das entidades", explica. Benze bronquite, sinusite, o que aparecer. "Não adianta eu estar te benzendo se a pessoa não acreditar. As duas têm que acreditar." Já benzeu bronquite de crianças da ilha e viu a doença sumir. As imagens de entidades mostram a fé de matriz africana que a sustenta. Mas é no samba que a família se encontra. Bia é puxadora, Leoni já desfilou em duas escolas no centro e saiu de baiana por cinco anos: "Adoro sair de baiana, mas não estou tendo mais pernas". A escola de

samba da ilha movimenta a comunidade, e já tem tema para o ano que vem, sendo confeccionado aos poucos. Leoni Gonçalves Pereira não terminou os estudos, mas ensinou aos filhos e aos netos que se espalham entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro a importância de seguir em frente. Aos 83 anos, vai ao terreiro com as filhas, ajuda no que pode, recebe visitas, benze, conversa e ri. "É assim a vida, a gente vai levando." Como diz o samba que Bia canta: "A benzedeira dos filhos são mãos que não cansam. Nesta luta sem fim, dona Leoni é força e tradição. Minha mãe, essa é a nossa missão."

VITÓRIA RIBEIRO
Vó Leoni, uma das últimas benzedeiras das ilhas, é mãe da líder comunitária Bia

Acena se repete todos os dias: pela manhã e à noite, funcionários da Defesa Civil de Porto Alegre registram o nível do Guaíba em vários pontos da cidade, entre eles, na Ilha da Pintada. Na orla, próximo à rua Nossa Senhora da Boa Viagem,em um local de devoção conhecido como Recanto da Oxum, estão instaladas, de forma crescente, as cinco réguas, cada uma com um metro, que compõem a estação fluviométrica capaz de registrar até cinco metros de altura.

Duas estão dentro da água e outras três ficam na superfície do terreno, em uma parede de tijolos, nos fundos da Escola Estadual Maria José Mabilde. Na manhã do sábado em que o Beta Comunidade esteve na Ilha da Pintada, a primeira régua, dentro da água, estava quase coberta e marcava 88 centímetros – a cota de alerta é 1,50 metros, ou seja, quando a primeira régua é totalmente coberta pela água e, a segunda, fica em 50 centímetros.

Enquanto os técnicos enviavam o registro das informações para o Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil de Porto Alegre (Cemadec), Anderson Bernardes e Marilene Fialla tomavam chimarrão em frente à casa em que moram, a poucos metros do local da medição. Moradores da Ilha da Pintada há muitos anos, eles se especializaram em fazer mudanças e reformas, além de lidar com as consequências das enchentes que atingem a região – seja por vento ou por chuva, o clima é motivo de angústia.

O SISTEMA DE PREVISÃO

Apesar de ser popularmente conhecido como rio, o Guaíba é um corpo hídrico extenso e largo que nasce do Delta do Jacuí, ponto de encontro dos rios Jacuí, Sinos, Caí e Gravataí. Ele contorna parte da Ilha da Pintada que, com outras 13 ilhas, formam o bairro Arquipélago.

Em 2024, as inundações atingiram milhares de habitantes da Região das Ilhas e o nível da água virou motivo de preocupação para a população. Principalmente a partir desse evento, surgiram diversas iniciativas de instituições brasileiras para aperfeiçoar os sistemas de monitoramento hidrometeorológico a fim de prevenir eventos climáticos e evitar danos. Sobre a importância do monitoramento, o professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, Rodrigo Paiva explica: “Essas medições coletadas ao longo de vários dias, meses, anos ou até décadas nos permitem fazer várias análises estatísticas. Com base nessas informações foram feitas as previsões para essas cheias extremas que aconteceram no Rio Grande do Sul nos últimos anos”.

Olhos atentos para o Guaíba

Vivendo em uma região vulnerável a eventos climáticos, moradores da Ilha da Pintada seguem sob a memória da última grande enchente e apegados às projeções meteorológicas

Além das medições feitas presencialmente, Paiva argumenta que existem outras ferramentas capazes de facilitar e agilizar a previsão hidrológica. “Existem estações fluviométricas, onde, além da régua física, instala-se um litígrafo, que permite fazer medições de forma contínua, a cada minuto ou até segundo, e registrar isso eletronicamente. Um avanço ainda maior disso é se essa estação automatizada for telemetrizada. Nesse caso, coleta-se essa informação e envia para um banco de dados que podemos acessar de forma quase instantânea. Isso pode ser usado para fazer previsões

de como vai ser a evolução do nível do rio, de uma cheia ou até de uma estiagem”, ressalta.

ACOSTUMADOS COM AS CHEIAS

Anderson e Marilene conhecem bem essas previsões. Esse é um dos motivos pelos quais a casa em que moram foi construída um metro acima do nível da rua. Quando a Ilha da Pintada inundava, era para a casa deles que os vizinhos levavam móveis, eletrodomésticos e outros pertences até a água baixar. Mas isso até a enchente de 2024. Naquele maio, nem a casa deles escapou.A água chegou a quase dois metros de altura na área interna. “Tudo o que os vizinhos tinham trazido foi perdido”, lembra Anderson. Para ele, embora as dicas e alertas da Defesa Civil atuem preventivamente para orientar a população que habita zonas vulneráveis, muitas vezes os avisos são imprecisos. “A verdade é que se perdeu a referência. É mais fácil criar pânico e o pânico não vir, mas estar todo mundo em alerta, do que acontecer algo e eles (Defesa Civil) não terem avisado”. Marilene reforça: “Às vezes, eles emitem um alerta que não acontece. Claro, eu entendo que tem a questão cronológica e que pode mudar a questão da natureza também, mas é muito impreciso”, diz.

O casal ainda convive com os estragos causados pela enchente. Estão reformando a casa e, na marcenaria de Anderson, o que sobrou dos destroços agora serve de matéria-prima para novas peças. É lá que ele fabrica desde guitarras a casinhas de passarinho, fazendo um trabalho de reaproveitamento de materiais que iriam para descarte. “Cada peça, cada madeira passou pela enchente e foi tratada, lixada, pintada, tudo direitinho. Fiz uma reciclagem com elas e transformei o que ia para o lixo em artesanato”, descreve.

Se para quem vive longe de zonas de risco a maior preocupação está em levar um guarda-chuva ou um casaco ao sair de casa, para Marilene e Anderson a maior preocupação está em saber se vão ter a casa novamente atingida pelas águas. Na Região das Ilhas, os moradores seguem ainda mais apreensivos com a projeção do El Niño. Rodrigo Paiva explica que esse aquecimento das águas do Oceano Pacífico muda o padrão climático global e aumenta a chance de eventos climáticos extremos. “Se a gente imaginar que o futuro vai ser parecido com o que aconteceu no passado, a gente esperaria que no ano de El Niño tenha mais cheias nessa região”, destaca.

LAURA BARBOSA AMANDA PINHEIRO

O casal Mari e Anderson reconstruiu pela terceira vez sua casa à beira do Guaíba

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