VIVER O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

Número 188 - 2025
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Número 188 - 2025
Boletim UISG Número 188, 2025
Para salvar o mundo, Deus se torna humano. Existirá outro caminho para nós?
P. Carlos del Valle, SVD
Pobreza Sofrida e Pobreza Escolhida: Uma Abordagem Teológica ao Voto de Pobreza Baseada na Experiência dos Muito Pobres
Ir. Marie Desanges Kahindo Kavene, SM
Escutar o Chamado do Silêncio, por uma Vida Consagrada Sinodal Consciente de sua Origem e de seu Destino
P. Mauro-Giuseppe Lepori, OCist
Uma Forma de Vínculo. Uma tentativa de refletir sobre uma propriedade específica da vida religiosa hoje
Ir. Dra. Britta Müller-Schauenburg, CJ
A teologia conciliar e pós-conciliar sobre a Vida Consagrada e propostas futuras
Ir. Ianire Angulo Ordorika, ESSE
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A Vida na UISG 67
Conselho Directivo da UISG (2022-2025)
Staff da UISG 72
Neste ano jubilar da esperança, entre os milhares de peregrinos que atravessaram a porta santa, também as mulheres e os homens consagrados celebraram o seu jubileu, no mês de outubro passado.
Foi uma grande festa! Peregrinos entre peregrinos, testemunhas do mistério de Deus conosco, que vive e age no mundo, consagrados e consagradas tornaram-se mensageiros de uma palavra de Vida e esperança para a humanidade ferida do nosso tempo.
Como humanidade, todos nós precisamos aprender a amar e a nos deixar amar, e o amor de Deus espera apenas ser acolhido em nosso coração. Ninguém fica excluído desse amor misericordioso. Seguindo os passos de Jesus, contemplando Seu Rosto e Sua Palavra, que transforma corações e desejos, os consagrados e as consagradas se comprometem a testemunhar esse amor e a se tornar sacramento de escuta, de cuidado, de fraternidade, especialmente para com os mais fracos, os últimos, os pobres.
A proximidade com os pobres nos ajuda, de fato, a descobrir a humanidade de Deus e a permanecer em sintonia com o seu Reino, mantendo o olhar fixo em Jesus, que por amor “esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7), e nos irmãos e irmãs que encontramos ao longo do caminho. Um olhar que, como dizia Simone Weil, “antes de tudo é um olhar atento com o qual a alma se esvazia completamente de seu conteúdo para acolher em si o ser que está olhando tal como ele é, em toda a sua verdade” (Simone Weil, em À Espera por Deus, Rusconi, Mi, 1991, p. 84).
Para salvar o mundo, Deus se torna humano. Existirá outro caminho para nós?
P. Carlos del Valle, SVD
Jesus assume a natureza humana e a condição humana, a fragilidade. Ele não se faz genericamente um homem; ele se faz concretamente um homem fraco (Flp 2, 6-11).
Diante da fraqueza de Deus, não há palavras, apenas a paixão de amar como ele. Na vida cristã, a fraqueza é uma boa notícia; ela nos leva a estarmos juntos, a precisarmos
dos outros, ela nos aproxima dos pobres, ela nos evangeliza. Na missão, tememos a fraqueza ou o poder? “Não tenho ouro nem prata, mas dou-lhes o que tenho...” (Atos 3,110). O problema é quando eu tenho ouro, como apoio na missão, e me falta o outro.
Pobreza Sofrida e Pobreza Escolhida: Uma Abordagem Teológica ao Voto de Pobreza Baseada na Experiência dos Muito Pobres
Ir. Marie Desanges Kahindo Kavene, SM
A partir da experiência de pessoas em situação de extrema pobreza, o desafio é redescobrir a dimensão profética da vida consagrada em um mundo onde o desejo de controlar as pessoas, seus bens e suas vidas parece prevalecer sobre relacionamentos saudáveis e justos. Viver os votos de pobreza hoje significa escolher remar contra a corrente dessa forma de encarar as relações interpessoais com um poder de dominação. De fato, embora livremente escolhida, a pobreza religiosa ainda é um lugar de provação nas relações interpessoais, pois se confronta com o risco permanente de se apoderar do outro para possuí-lo. “Possuir o outro é mais do que dominar: é tomar o outro como objeto a ser manipulado. O voto de pobreza poderia então ter um reverso diabólico: como não possuo bens materiais, procuro possuir o outro”.
Escutar o Chamado do Silêncio, por uma Vida Consagrada Sinodal Consciente de sua Origem e de seu Destino
P. Mauro-Giuseppe Lepori, Ocist
Precisamos de um silêncio como aquele em que Jesus, no meio da Paixão, no meio do ódio da multidão, reencontrou a relação eterna com o Pai; reencontrou a consciência de si mesmo como Filho gerado eternamente pelo Pai. Também nós, pela graça, somos chamados a esta vida, a ser também filhos e filhas gerados eternamente pelo Pai. Se tivéssemos essa consciência, se tivéssemos consciência da Redenção, do nosso Batismo, cada instante da nossa vida, fosse ele o mais feio, o mais triste, o mais sombrio, fosse ele o instante da nossa morte, nos encheria de silêncio diante desse mistério em que estamos imersos, de silêncio diante da graça, imersos na graça como na água do batismo.
Uma Forma de Vínculo. Uma tentativa de refletir sobre uma propriedade específica da vida religiosa hoje
Ir. Dra. Britta Müller-Schauenburg CJ
A vida religiosa se constrói na expectativa de criar vínculos comunitários com pessoas que antes eram estranhas umas às outras. Cristo chamou seus discípulos para serem um com os outros, assim como Ele e o Pai são um. Essa conexão ou vínculo, que é um dos objetivos da vida religiosa, não é idêntica ao vínculo que ocorre dentro de famílias ou grupos de amigos. O próprio uso da palavra “vínculo”, portanto, levanta questões, mas está sendo usado aqui conscientemente para descrever o senso de conexão que ocorre ao longo do tempo entre membros de comunidades religiosas. Esta reflexão
sobre o vínculo da vida religiosa irá explorá-lo sob as perspectivas jurídica, discursiva e emocional como uma forma crucial de vínculo humano que se desenvolve lentamente, não como uma resposta a um evento. Esse vínculo significa relacionar-se com pessoas, textos, uma forma de vida cotidiana – que pode levar a Deus.
A teologia conciliar e pós-conciliar sobre a Vida Consagrada e propostas futuras
Ir. Ianire Angulo Ordorika, ESSE
É inegável que o Concílio Vaticano II foi um ponto de virada notável na reflexão teológica católica. Apesar disso, nem todos os temas chegaram à Assembleia Capitular com o mesmo nível de preocupação, nem, sobretudo, com o mesmo percurso teológico anterior ao Concílio. A forma como a questão da Vida Consagrada foi abordada demonstra que esta não foi uma questão central que preocupasse particularmente os participantes do Concílio, mas sim um tema abordado tangencialmente. O que se afirma sobre a Vida Consagrada parece ser, antes, o resultado de certas intuições importantes, mas sem que se tenha conseguido desenvolvê-las em profundidade na Assembleia Conciliar ou delas extrair todas as consequências que dela decorrem.
P. Carlos del Valle, SVD
Padre Carlos del Valle é missionário do Verbo Divino. Tem doutorado em Teologia Moral. Foi diretor da revista “Testimonio” no Chile e Reitor do Pontifício Colégio São Pedro em Roma.

1. “Jesus passou fazendo o bem e curando” (Atos 10, 38)
Todos nós conhecemos pessoas boas, homens e mulheres de Deus. Elas são bênçãos em nosso ambiente; suas vidas refletem a vida de Deus. Você não se afasta de uma boa pessoa sem levar algo de Deus com você. Você olha para essas pessoas e quer ser melhor. Você aprende o Evangelho, porque a vida delas é um comentário sobre o Evangelho, uma carta de Deus para nós. Jesus aparece ali em outras palavras que refletem as deles, em outras vidas que tocam as nossas.
O importante não é ser um bom religioso, mas ser uma boa pessoa. Na vida consagrada também há pessoas muito piedosas e muito desagradáveis. Pessoas religiosas e egoístas, egocêntricas. Há pessoas como óleo fervente: basta uma gota de água e vem a explosão.
P. Carlos del Valle, SVDPara salvar o mundo, Deus se torna humano...
O Papa Francisco diz que o povo de Deus evangeliza a si mesmo (EG 139). As pessoas boas estão nos evangelizando. Precisamos crescer em sensibilidade para acolher o Evangelho que descobrimos nas pessoas, e não encobri-lo com nossas ideias, preconceitos, medos, insensibilidade. Jacó diz a Esaú: “Eu vi Deus no rosto bondoso e gracioso de meu irmão” (Gên 33,10). Ele vê a face de Deus no irmão que perdoa. Sua vida é o Evangelho que as pessoas ao seu redor mais leem.
O filho mais novo da parábola encontra vivo o que não podia desperdiçar: a bondade de seu pai. Ele é salvo por ser amado com um amor que nunca perdeu. A parábola do samaritano conecta a bondade com o envio em missão: “Vá e faça o mesmo”. Dar bondade e receber bondade faz com que vivamos felizes. Na missão, a pessoa que não vive contente não pode ser um bom pastor. Para saber se você é um bom religioso, é preciso ver se você é feliz, porque quando você é feliz, você faz o bem, é gentil e acolhedor.
Vemos isso no cão que se aproxima e abana o rabo, ele está feliz, não vai morder. Quando estou triste ou com raiva, eu me machuco, respondo mal e mordo. Tente viver feliz e alegre, em vez de ser perfeito. A pessoa satisfeita é grata, é boa, faz o bem e o Deus que ela prega é bom. A melhor notícia em uma comunidade religiosa é encontrar irmãs ou irmãos satisfeitos. Nossa missão é ser gaudium et spes para os outros.
Pantokrator (onipotente) aparece somente no Apocalipse. Para falar da grandeza de Deus, a Bíblia diz que ele é “Santo”; isso significa totalmente bom. O Evangelho mostra que Deus não é para os bons, mas para aqueles que precisam dele para serem bons. A grandeza de Deus não está em seu poder, mas em sua bondade. Mas em nossa liturgia repetimos “Deus todo-poderoso e eterno”. Enfatizamos o poder, não a bondade.
Jesus não nos permite entrar no Reino com poder e honra, o que implica ser mais do que os outros. Ele nos deixa o serviço como uma característica do discípulo, baseado nele mesmo: “Eu vim para servir” = Eu sou um servidor. A mais bela definição de Jesus. E sua palavra está ligada ao exemplo: “levantou-se da mesa, tirou o manto”. Ele se afasta dos lugares de privilégio. Diante da confissão de Pedro: “Tu és o Messias”, Jesus os proíbe de contar aos outros. Ele não quer que eles deem uma imagem falsa dele. Eles ainda não haviam tocado na coisa mais importante sobre Jesus: em uma quinta-feira, ele lava os pés e, em uma sexta-feira, vai para a cruz.
UISGBoletim n. 188, 2025
A bondade está na humildade. Gostamos de viver com uma pessoa humilde. A bondade é humildade, não querer se destacar. Ao contrário do padre ou da irmã que merece um respeito ao qual os outros não têm direito. Seja tão humilde que os outros queiram estar com você. Amamos alguém quando vemos gratidão e alegria; essas são sementes de humildade.
Olhamos para uma pessoa boa e somos tocados por sua humanidade. A bondade é humanidade. Quem encarna a bondade é humano, porque ser humano é demonstrar solidariedade e ternura. A encarnação de Deus é a humanização de Deus. Portanto, quanto mais profundamente humano, mais de Deus. Para aqueles que não vivem a encarnação, o divino está no religioso e o humano no profano. O mistério da
SVDPara salvar o mundo, Deus se torna humano...
Boletim n. 188, 2025 P. Carlos del
encarnação não permite: “sagrado e presença de Deus”, “profano e ausência de Deus”. Na encarnação, Deus quer ser humano, e nós queremos ser espirituais.
Nosso pecado é o espiritualismo, a espiritualidade não encarnada. Somos espirituais somente se formos humanos. Em minha profunda humanidade, vivo o encontro com Deus. O Papa Francisco se concentra no que é humano: a bondade e a misericórdia, porque elas são a encarnação do sagrado, para aqueles que vivem a fé.

A bondade e a misericórdia são um vínculo com os necessitados. Misericordioso com os outros, mesmo quando conheço seus defeitos. Deus está presente nos corações de misericórdia. Ele quer formar em você o coração de seu Filho: “Tenha os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Flp 2,5). Mas que sentimentos são esses? Para os mestres da Lei, o importante é dar glória a Deus com a Lei, o sábado e a adoração. Para Jesus, o que importa é a vida dos seres humanos. João Batista lavava os pecados; Jesus curava os doentes. Jesus primeiro olha para o sofrimento das pessoas. Sua missão é reagir ao sofrimento: “Eu vim para que vocês tenham vida” (Jo 10,10). Seus sentimentos: que os outros não sofram, que tenham vida. As pessoas também estão preocupadas com a vida, com a dor, e as religiões estão preocupadas com o pecado. Há um divórcio entre os desejos humanos (vida feliz) e as preocupações das religiões (pecado).
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O Evangelho enfatiza a sensibilidade de Jesus ao sofrimento. O grau de sua humanidade é refletido em sua reação ao sofrimento dos outros. Somos humanos quando fazemos do sofrimento dos outros o nosso próprio sofrimento. Nós nos tornamos mais humanos ao estarmos com os fracos. Jesus nos diz: “Sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Isso substitui: “Sede santos como Deus é santo” (Lv 19,2). Em Mt 5, 48 “sede perfeitos”. Em Lucas, “sede misericordiosos”. “Misericordioso” é equivalente a bom em tudo, é o mesmo que perfeito.
Parece que evangelizamos quando estendemos os religiosos. Nós nos permitimos evangelizar pouco a partir do humano, da bondade dos outros. Evangelizamos pouco a partir da humanidade de Jesus. Temos de levar a sério a vivência de sua humanidade, rezando-a e descobrindo-a em outros seres humanos. “Eis um homem” é a palavra mais profunda de Pilatos. Mas vivemos mais preocupados com a doutrina e a religiosidade do que com a humanidade de Jesus. E Deus se revela na humanidade de Jesus.
No Chile, uma mulher simples me disse: «Por que tenho que ouvir aquele padre que é menos humano do que eu?». Isso reflete a intuição de que o Evangelho é um modo de vida humana, a encarnação de relacionamentos que humanizam. A espiritualidade de Jesus se concentra em como nos relacionamos com os outros, como amamos os outros. Parece que com amigos é mais fácil ser um homem ou uma mulher de Deus. Na verdade, o que muda nossas vidas são nossos encontros, não nossas ideias. Se mudamos pouco, é porque nos encontramos pouco. Jesus apresenta três preocupações fundamentais no Evangelho: saúde, alimento compartilhado e relacionamentos humanos que nos tornam bons, irmãos e irmãs. Para Ele, há salvação no pão compartilhado, roupa para os nus, vinho e óleo nas feridas.

P. Carlos del Valle, SVDPara salvar o mundo, Deus se torna humano...
Uma pessoa de fé não se revela em como fala de Deus (os fariseus faziam isso), mas em como fala das coisas do mundo a partir da perspectiva de Deus (Jesus nas parábolas). É isso que a sociedade espera de nós. Uma vida cristã é uma vida de expertise em humanidade, ternura e sensibilidade. Ela nos leva a perceber que mudar não é ser diferente; é ter uma experiência profunda de si mesmo. É se tornar mais humano, crescendo em sensibilidade e ternura.
João apresenta o fundamento de nossa humanidade: “Conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós” (1Jo 4,16). Todos nós podemos acreditar no amor, crentes e não crentes, especialmente os jovens. Acreditar no amor é uma plataforma evangélica de harmonia em nossos relacionamentos com os jovens.
Uma experiência em Santiago do Chile ficou comigo. Como pároco, eu estava em meu escritório, ocupado e sem disposição para interrupções. Um jovem viciado em drogas e amigo chegou e me pediu dinheiro. Eu lhe dei algumas moedas para que me deixasse em paz. Mas, olhando-me nos olhos, ele disse: “Você quer me ajudar ou me ama? Ele me deixou sem palavras. Só consegui lhe dar um abraço. Fui evangelizado por um viciado em drogas que morreu antes do tempo, porque era pobre. Isso fez com que o Evangelho ressoasse em mim. Jesus acolhe os pecadores porque os ama, não porque quer convertê-los.

Evangelizar não as ideias, mas a sensibilidade, leva à encarnação de Cristo no coração. Isso nos leva a viver em profundidade, nutrindo nossa atenção e nossos desejos. A sensibilidade de quem crê nos leva a evangelizar nossos desejos, de modo que eles
mundo, Deus se torna humano...
estejam em sintonia com os desejos de Deus. Discernimento é oração, ele nos leva ao desejo de Deus. Quando oro, os desejos de Deus vêm a mim. Quando oro por uma pessoa, alimento bons desejos para ela. Se Jesus entra em sua vida, isso muda seus desejos. Os religiosos são aqueles que tentam descobrir os desejos de Deus e tornálos seus. Podemos descobri-los na oração do Pai Nosso, nas bem-aventuranças, no Magnificat, no hino da carta aos Filipenses 2, 5-11. O Pai quer fazer de você e de mim uma pessoa tão parecida com Jesus quanto possível. Que nosso grande desejo na missão seja olhar para a vida a partir de Deus, olhar para os outros como Deus olha para eles: com alegria e misericórdia. Se conseguirmos isso, seremos puros de coração.

2. Espiritualidade de Jesus: Alegria de viver para os outros
É a espiritualidade encarnada da mãe ou do pai. “Tu, segue-me”: é o que nos dá identidade. Somos seguidores de Jesus. No noviciado, cultivamos o fato de sermos discípulos e, com o tempo, nos dedicamos a ser professores. Aqueles que vivem o clericalismo (não é preciso ser religioso para ser clerical) têm dificuldade de se sentir discípulos. E aqueles que não vivem o discipulado se dedicam à pregação e ao ensino.
Nossa identidade é ser seguidores, amigos, em vez de trabalhadores. Isso nos ensina a ouvir as crianças. Na catequese, um menino me disse: “Você fala muito de Jesus, você é amigo dele ou apenas um colega de trabalho ? ” Podemos estar nas coisas de Deus sem estar em Deus. Isso é típico do funcionário do sagrado, que se comporta como um
vendedor de joias assalariado, que não tem afeição pelo que tem em suas mãos, nem pelo proprietário para quem trabalha.
Não pergunte quem é Jesus, você já o sabe: seu modelo como homem, sua força como Deus. Pergunte a si mesmo quem é Jesus para mim? Alguém que levo a sério ou alguém que apenas toca minha pele. Um cantor conta sua experiência: Quando você canta, primeiro você se apaixona por si mesmo. Depois, você se apaixona pelo público. Você só será um bom cantor se conseguir se apaixonar pela música. A música em sua vida é Jesus. O seguidor corre o risco de levar Jesus a sério ou de levar pouco a sério. E seguir Jesus implica:
- Vocação: sentir-se chamado, responder ao chamado.
- Fraternidade: viver com ele e com os seus.
- Bem-aventuranças: viver como ele
- Serviço: viver para os outros.

Será que as outras pessoas conseguem ver o Evangelho na maneira como nos relacionamos uns com os outros? Parece que nos relacionamentos não há muita diferença entre crentes e não crentes. Nas comunidades também há vingança, indiferença e negação da palavra. Isso significa que o Evangelho é fraco em nossos relacionamentos. Não levamos Jesus muito a sério. Pode ser que, nas ideias, Jesus esteja no centro, mas nas experiências de vida há outras coisas no centro. Podemos ser claros quanto aos valores e viver de acordo com os interesses e as necessidades.
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Carlos del
Nossa identidade como seguidores não está em nosso papel ou status. Ser seguidores nos leva a recuperar o gosto por sermos irmãos e irmãs, por sermos pessoas, sem buscar privilégios ou depender de distinções. Não somos funcionários do sagrado; somos homens e mulheres de Deus, que transmitem a vida de Deus. As lições espirituais não transmitem a experiência de Deus. Somos mulheres e homens de Deus, amando, porque amar é ter uma vida voltada para Ele. O versículo mais importante da Bíblia: “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8). O seguidor é um discípulo, um amigo. Se não houver relacionamento no seguimento, pode haver entusiasmo, extremismo, fanatismo.
Há algumas décadas, costumávamos distinguir entre conservadores e progressistas. Essa é uma distinção ideológica, que divide e separa, não une e integra. No Evangelho, a distinção é que alguns vivem centrados em si mesmos, em seus interesses, e outros vivem centrados no bem dos outros. Pensemos na mãe centrada na vida de seu filho ou no pastor centrado no rebanho, em oposição ao mercenário.

Boletim n. 188, 2025
O Evangelho oferece o espelho do samaritano, que se aproximou; outros passaram por ele. Ele se sente tocado pelo ferido e responsável por sua situação. Ele muda seus planos, interrompe a jornada. Para ele, a vida do outro é mais importante. Ele mostra o melhor do coração: um eu liberado de si mesmo. O sacerdote e o levita são liturgicamente corretos, precisos, como o trem de alta velocidade que não para. Focados em si mesmos, com a preocupação: O que acontecerá comigo se eu parar e ajudar o ferido? O samaritano pensa no outro, preocupa-se: o que acontecerá com o
Carlos del Valle, SVDPara salvar o mundo, Deus se torna humano...
homem ferido se eu não parar? A missão centrada em nós mesmos dá conforto, mas para os jovens ela os puxa para trás. Não é essa uma das raízes da escassez vocacional?
Os rios não bebem sua água, as árvores não comem seus frutos, as flores não oferecem seu perfume. Parece que viver para os outros é a regra da natureza. A nossa também é dar a vida na forma de serviço. Quanto mais vazio de ego eu estiver, mais a vida dos outros se aprofundará em mim. Se a disponibilidade é o rosto da mãe, a proteção é o rosto do pai, o rosto do religioso é um voluntário em tempo integral.
Não é que algumas pessoas sejam egoístas e outras generosas. Somos egoístas que vivem centrados em nós mesmos ou egoístas que lutam para sair de si mesmos. A espiritualidade em Jesus está se movendo do ego para o amor. É viver para que os outros passem bem, renunciando a ser o centro. Estar no centro é estar muito confortável. Vivendo cheio de ego e vazio de Deus, faz com que a estrela brilhe e a missão desapareça. Na 4ª oração eucarística, pedimos: “a fim de não vivermos mais para nós mesmos”. Não nos esqueçamos de que servir é o verbo que Jesus usa para descrever a identidade do discípulo.
Jesus dá aos apóstolos autoridade para “expulsar demônios e curar os doentes” ( Mt 10,1). Ele lhes dá a missão de dar vida. Ele não os envia aos pecadores para convertê-los, mas aos doentes para curá-los. Atualmente, há uma forte sensibilidade em relação às vítimas; vemos isso no trabalho voluntário e nas ONGs. Lidar com o sofrimento é superar a obsessão pelo pecado. Corremos o risco de ficar longe do que interessa às pessoas.

P. Carlos del Valle, SVDPara salvar o mundo, Deus se torna humano...
A espiritualidade geralmente nos exercita em práticas religiosas em vez de sensibilidade ao sofrimento. Daí o perigo de transformar o evangelho em belas palavras que armazenamos em nossos cérebros sem tocar em nossas vidas. Vamos nos deter em alguns exemplos de como viver o evangelho:
Sua vida missionária não vende pão; ela é fermento, sal que se perde ao dar sabor. Missão é humildade, não destaque. Podemos ser humildes o suficiente para servir os pobres à mesa (com algum destaque), mas será que somos humildes o suficiente para sentar à mesa com eles (com mais igualdade)?
Aqueles que sofrem precisam de ajuda. Aquele que ajuda está numa relação de superioridade em relação àquele que é ajudado, que se sente mais fraco do que aquele que o ajuda. Na relação de ajuda, eu dou algo que o outro precisa. Na relação de amizade, eu me doo. Dar algo não complica minha vida. Um relacionamento amoroso não sabe até onde pode chegar (mãe com filho). O amor pelos pobres me leva a fazer da vida deles a minha própria vida. Quem recebe e dá afeto pode tocar a raiz do sofrimento. Toca-se a partir de baixo, a partir dos necessitados, compartilhando seus sentimentos, como fez Jesus. Aquele que se apropria de sua dor alivia o sofrimento. É isso que Deus faz: ele entra na dor dos seres humanos. Essa é a misericórdia, como uma contribuição preciosa da vida consagrada na história da humanidade. Um mundo sem compaixão é impróprio para os seres humanos.
Jesus, “amigo dos publicanos”. Como podemos falar sobre divorciados e homossexuais sem um amigo ou irmão divorciado e homossexual? A amizade com os pobres nos torna semelhantes a Jesus. O missionário deve ter pelo menos um pobre como amigo para viver a misericórdia evangélica.
Acreditamos em Jesus ou acreditamos como Jesus? Temos fé em Jesus ou temos a fé de Jesus? Se eu acredito como Jesus, sou o evangelho encarnado. Somos pessoas religiosas ou pessoas de fé? Pode haver muita religião e pouca fé. Não se deve presumir que todo religioso é um crente. Viver como uma pessoa consagrada em missão não é fácil, porque não se trata de falar sobre o evangelho, mas de ser o evangelho vivido, não apenas pregado. Essa é a única maneira de ajudar os outros para que a vida deles se torne o evangelho. O mensageiro tem autoridade quando se identifica com a mensagem. Para ser coerente com o que dizemos, o melhor desinfetante é o contato com crianças, jovens e pessoas simples.
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Certamente, nós, religiosos, parecemos honestos, trabalhadores, organizados, austeros, disponíveis, prestativos, com práticas de piedade, mas talvez sem muita paixão pelo evangelho, e até mesmo com falta de humanidade e sem entusiasmo. Podemos viver como escolhidos, privilegiados, fechados em nós mesmos. E Jesus espera fé, entusiasmo, paixão de você e de mim, porque viver apaixonado é ser santo. A santidade não é a paixão apagada, é a paixão convertida.
Nós gostamos de subir; Deus gosta de descer: para um ventre, uma manjedoura, uma cruz. No Evangelho, há três verbos amaldiçoados: possuir, subir, mandar. Jesus contrapõe três verbos abençoados: compartilhar, descer, servir. Para se aproximar
de Jesus, Bartimeu joga fora seu manto (sua segurança). Temos mantos que nos dão segurança e não conseguimos jogá-los fora para nos aproximarmos dele: nossas ideias e verdades exclusivas, prestígio e destaque, conforto e refúgio no status.
A que estamos sendo fiéis, ao passado ou ao que Deus quer hoje? A fidelidade à tradição nos leva a adorar as cinzas ou a ser fogo? A sociedade atual precisa menos de nossas obras. Mas será que oferecemos a ela o que ela mais precisa? Sermos pessoas diversas, com outros valores, que não buscam bem-estar, dinheiro, carreira, fama, segurança, consumo, poder, prestígio, honra. A sociedade precisa de uma voz do Espírito, que aponte para outro modo de vida, para pessoas que transmitam a energia do evangelho. As pessoas esperam que comuniquemos a experiência de Deus. A sociedade precisa de religiosos saudáveis, homens e mulheres de Deus, apaixonados por Jesus, mulheres e homens de fé, e fé é viver o evangelho.

Vivemos num mundo que precisa ser contagiado por nossa carteira de identidade: a fraternidade. Nós, religiosos, estamos aqui para ser uma família de irmãos e irmãs que ouvem a Palavra de Deus e a colocam em prática. Mas o problema é vivermos presos a uma espiritualidade mundana, sendo mais funcionários do sagrado e menos testemunhas de Jesus, mais mestres e menos discípulos, mais líderes e menos irmãos. Se Jesus nos pede para “estar no mundo sem ser do mundo”, isso não é uma fuga do
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mundo, é uma encarnação do evangelho. É sentir-se chamado a transformar a vida de acordo com o coração de Deus. Para fazer isso, devemos descobrir Deus no ser humano, sabendo que o mundo é secular e não nos mostra Deus; é a nossa fé que descobre Deus no mundo. Se, com uma sensibilidade crente, contemplamos as coisas a partir de Deus, tudo é sacramento, tudo revela Deus
Somos consagrados para a missão, com identidade bem definida e motivação bem nutrida. Queremos fortalecer nossa identidade. Somos discípulos-irmãos e missionários-testemunhas. O evangelho que é mais lido pelas pessoas que nos cercam é a nossa própria vida. Por isso, também ao falar, temos de ser mais discípulos do que professores. Não existe missão sem discípulos-irmãos e missionários-testemunhas. Se um missionário não for uma testemunha, ele engana a si mesmo. Minha vida é minha mensagem; na missão, não se trata de falar, mas de ser a Palavra. Você pode ir para outro país, mas se não for uma testemunha, não será um missionário. Você pode ir em um safári temporário e deixar a missão sem ter chegado. Três elementos são essenciais na vida do missionário: experiência de relação com Cristo, da qual flui uma mensagem, com a linguagem do serviço

A missão é o que eu sou e o que eu faço a partir de Jesus e para o bem dos outros. É preciso a árvore inteira para dar frutos; para evangelizar, é preciso tudo o que eu sou. É por isso que não temos uma missão; nós somos a missão, somos do Outro e para os outros. Vivemos com Jesus em nosso coração, para que ele entre no coração dos outros, não apenas pela porta do templo. Se não sentimos o evangelho como uma boa notícia,
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é porque o transformamos em um código moral. Maria caminha apressadamente para visitar Isabel. Ela é o ostensório na procissão de Corpus Christi: Maria com Deus dentro. Ela permanece sem pressa, levando serviço e alegria. Essa é a nossa missão: caminhar com Deus dentro de nós, sermos portadores de Deus, levando serviço e alegria.
A vida do missionário é como a chama em frente ao tabernáculo: ela lembra a presença de Jesus. A missão oferece uma maneira de entender a vida a partir do evangelho. Para que os seres humanos vivam juntos, temos a economia, a política, a cultura, a ética e a religião. A missão é configurar tudo isso a partir do evangelho. Mas temos de começar por nós mesmos, sendo solidários, compassivos, prestativos, abertos ao mistério, humanos, irmãos e irmãs. No evangelho, há vários mandatos missionários: “Fazei discípulos meus” (Mt 28,18ss). “Sejam minhas testemunhas” (Atos 1,8). “Amem-se uns aos outros” (Jo 15), “Sejam samaritanos”, “Vão e façam o mesmo” (Lc 10), “Vocês são todos irmãos” (Mt 23, 8).
Viver o discipulado proporciona igualdade entre sacerdotes e irmãos, homens e mulheres, clérigos e leigos. Todos irmãos. Mas os clérigos vivem com pouca preocupação com o discipulado. Eles colocam sua identidade no ministério e se esquecem do batismo. Sentem-se diferentes dos demais, pois se identificam com a função, o status e a dignidade sacerdotal. Isso, além de não viver a fraternidade, esconde sua própria fragilidade. Daí os abusos de todos os tipos na Igreja. Parece que a coisa mais difícil na Igreja é que seus representantes vivam o evangelho.
Nossa missão é ser discípulos para fazer discípulos. A comunidade religiosa é uma família de discípulos que ouvem a Palavra e a colocam em prática. Uma comunidade é uma escola de discipulado. Mas corremos o risco de viver um discipulado funcional em vez de um discipulado pessoal, mais na tarefa do que no relacionamento. Nós nos identificamos com o que fazemos. Quando nos apresentamos a um novo grupo, geralmente dizemos: “Meu nome é... e eu trabalho em...”. Eu me apresento com o que faço, que geralmente são penas de pavão. Achamos que somos o que fazemos. Isso reforça a tendência de sermos protagonistas da missão.
Vivendo dessa forma, seremos como bombeiros que vão apagar um incêndio e, quando chegam, descobrem que seus tanques estão vazios. Estamos nas coisas de Deus ou estamos em Deus? Somos funcionários ou somos testemunhas? Paulo nos convida a construir a identidade em Jesus com o hino Flp 2,6-11. Nossa identidade é sempre interior e a partir de baixo
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4. Nossa vida muda se Jesus estiver nela
A vida consagrada em missão sofre de anemia evangélica. Daí a irrelevância e a falta de vocações. Não é uma questão de aumentar o número de pessoas, porque isso poderia ser uma repetição da mesma coisa. As células cancerosas também crescem. Sofremos de anemia evangélica porque pouco sangue chega ao coração, e caímos na mediocridade, satisfeitos com uma vida leve . Diante das palavras de Jesus, permanecemos como estamos. Isso também acontece com pessoas muito religiosas.
UISGBoletim n. 188, 2025 P. Carlos del Valle, SVDPara salvar o mundo, Deus se torna humano...
Sem paixão e entusiasmo, permanecemos como somos, estagnados, acomodados, sem alegria. Refugiamo-nos em práticas religiosas e nos tornamos consumidores de coisas sagradas, que nos dão segurança. Por isso, uma vida consagrada é uma luz sobre a oração, a comunidade e a missão centrada nas obras. Podemos cair em um ateísmo prático, quando o que pensamos e o que fazemos não são encarnações da Palavra.

Minha vida muda se Jesus estiver nela. Mudar não significa abandonar algo, significa abraçar algo: a vida de Deus. Na vida, há fé se houver seguimento, e há seguimento se houver um encontro com Jesus. Fé não é acreditar que Deus existe; até os demônios acreditam nisso. Fé é viver o evangelho. É olhar para o mundo e falar sobre as coisas do mundo a partir de Deus, a partir do evangelho. Vivemos com o perigo de sermos ideólogos em vez de testemunhas. A maioria dos crentes tem crenças, eles são praticantes. As práticas religiosas nos dão segurança, mas nem sempre nos ajudam a viver o evangelho.
É próprio do religioso amar e orar. O que fazemos na missão deve ser reflexo da oração e da ternura. Somos seres humanos apaixonados por Jesus, pela fraternidade humana e pelos pobres. O resto é comentário, meio secundário. Na missão, os pobres não são os únicos, mas são os primeiros.
O problema da fé não é reconhecer que Jesus é o Filho de Deus, mas reconhecer que o Filho de Deus é Jesus, homem, encarnado, fraco, como os outros. Descobrimos Deus na generosidade daqueles que dão, e é difícil vê-lo na dignidade daqueles que pedem. É na fragilidade que Deus se encarna. Com sensibilidade crente, podemos descobrir
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Deus na dignidade de quem pede e na generosidade de quem dá. O mesmo Deus que estende a mão na dignidade de quem pede, estende a mão na generosidade de quem dá.
Talvez estejamos fragmentando o evangelho quando consideramos o espiritual no templo e o comprometido na sociedade. É a desencarnação da Palavra. A espiritualidade, mais do que falar de Deus, é falar com Deus. O pecado clerical é quando alguém prega o evangelho sem tê-lo rezado antes. Somos especialistas em experimentar Deus e transmiti-lo aos outros? Caso contrário, somos sal sem sabor, inúteis diante dos desafios da sociedade. Para ser um especialista na experiência de Deus, o encontro com Jesus deve ser como o fogo e a lenha, que se tornam um só: lenha ardendo, queimando.
Uma vida medíocre implica entrega parcial, individualismo, consumismo, busca de espaços afetivos que compensem a solidão, sem ilusão. Sem o evangelho, acabamos no hedonismo, fazendo o que gostamos e vendendo superficialidades. O apego aos bens endurece o coração. Pergunte a si mesmo: não apenas o que você faz com seu dinheiro, mas o que seu dinheiro fez por você, ele o torna mais humano? Os ramos não estão preocupados com os frutos, mas em estarem unidos à videira. E se você está acomodado, pense que o pássaro ferido não pode voar, mas o pássaro que se agarra a um galho também não pode voar.
O discípulo deve ser como uma ostra, com a tarefa de buscar a Deus até se tornar uma pérola para os outros. Jesus é apaixonado pelo que o Pai deseja. Sem paixão por Deus, a vida se torna rotineira. Precisamos de vitaminas, não de condimentos: nutrir o espírito, não apenas dar sabor ao paladar. Em nosso estilo de vida, apaixonar-se é uma vitamina, para evitar a doença de ser um funcionário público, de estar em missão como Pilatos no Credo.
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Moisés desce do Sinai com as tábuas de pedra debaixo do braço. Os apóstolos saem do Cenáculo com o Espírito em seus corações. Precisamos do Espírito para evangelizar nossos desejos, sensibilidade, não apenas ideias. Quando Jesus entra em sua vida, ele muda seus desejos. É por isso que orar não é buscar um estado de espírito; é um ato de fé. Não rezo para me sentir bem, mas para praticar minha fé, para torná-la mais forte. Rezar é amar, acolher Jesus, de modo que seus desejos e seus gostos e desgostos entrem em mim. A oração não é para pensar em Deus, nem para sentir Deus (emoções), mas para nutrir nosso desejo por Deus. Na prática da lectio divina , extraímos luz e força da Palavra, fazendo a exegese mais a partir de nossa própria vida do que da Palavra. Caso contrário, sofreremos de anemia da vida espiritual, perdendo a paixão por Jesus. E nos restará o refúgio da piedade, que nos dá paz de espírito e alimenta o sentimento de termos cumprido nossa missão.
O que é importante na missão é a vida dos outros, o sofrimento dos outros. Jesus diz: “Tenho compaixão das multidões” (Mc 8,2). Não se trata de ideias, mas de sensibilidade. Temos ideias claras, mas anestesiamos a sensibilidade. As ideias não mudam a vida. A grandeza do evangelho está na sensibilidade de Jesus. Não se trata apenas de evangelizar nossas ideias, mas nossa sensibilidade. Uma sensibilidade evangelizada no discípulo leva-o a assumir a responsabilidade pela vida dos outros. No samaritano,
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Jesus mostra sua sensibilidade, que o leva a se importar. Ele mostra sua humanidade em sua sensibilidade ao sofrimento da pessoa necessitada. E ele encarna a ternura, a melhor expressão de sensibilidade. Uma sensibilidade crente leva a um bom olhar para as minhas fraquezas e as dos outros. O oposto é a indiferença, a dureza de coração, com um olhar agressivo.

O religioso é um especialista em sensibilidade, em atenção aos simples que propagam o evangelho. Se você for capaz de ver os outros como bons, você é puro de coração. Tente olhar para a outra pessoa com alegria e misericórdia. Cultive esse olhar de bênção. Ore para que aqueles que vivem em sofrimento e pobreza possam viver em bênção.
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O que é bênção para você: sucesso, ascensão, afeição de muitos, desejos realizados? Isso seria uma bênção em torno de si mesmo, longe das bem-aventuranças. Mas bênção nem sempre significa vida sem sofrimento. À dor, devemos o melhor, pois ela leva ao amor. Uma mãe pode dizer que o melhor de sua vida foi fruto da dor. Não há amor verdadeiro que não amadureça em uma cruz.
Jesus assume a natureza humana e a condição humana, a fragilidade. Ele não se faz genericamente um homem; ele se faz concretamente um homem fraco (Flp 2, 6-11).
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Diante da fraqueza de Deus, não há palavras, apenas a paixão de amar como ele. Na vida cristã, a fraqueza é uma boa notícia; ela nos leva a estarmos juntos, a precisarmos dos outros, ela nos aproxima dos pobres, ela nos evangeliza. Na missão, tememos a fraqueza ou o poder? “Não tenho ouro nem prata, mas dou-lhes o que tenho...” (Atos 3,110). O problema é quando eu tenho ouro, como apoio na missão, e me falta o outro.
É difícil se sentir necessário. Nós nos sentimos mais confortáveis dando do que recebendo, mais dispostos a dar ajuda do que a pedir, a ensinar do que a aprender. Mas deixar-se ajudar implica um nível espiritual mais elevado do que ajudar. Sem fraqueza, não há pessoa humana e não há Deus conosco. Deus não lhe diz simplesmente: “Eu amo você”; ele lhe diz: “Eu amo você em sua fragilidade”. O lugar onde podemos nos sentir mais seguros é sempre na misericórdia de Deus. A pérola preciosa nasce da dor, se a ostra estiver ferida. Se ela não estiver ferida, não poderá produzir pérolas, que são feridas curadas. Na missão, notei que, sobretudo em muitas mulheres pobres, a santidade do sofrimento tem uma lógica mais primária do que a santidade da virtude. Bonhoeffer nos diz: “Devemos aprender a considerar as pessoas menos pelo que elas fazem ou deixam de fazer, e mais pelo que elas sofrem”.
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