UNIVERSIDADE FEDERAL DO CARIRI // ANO 2/Nº 3/ ABRIL DE 2019
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FOTO: Normando Sóracles - Agência Miséria
ENCHENTES E DESMORONAMENTO CAUSADOS POR FORTES CHUVAS, EM CRATO-CE PREOCUPAM POPULAÇÃO PÁG. 02 Durante a noite do dia 18 de março de 2019, uma chuva de 120 mm causou uma enchente no Canal do Rio Granjeiro na cidade do Crato-CE. Duas semanas depois (04/04), uma chuva de 130 mm causou uma nova inundação e o desmoronamento de um trecho da encosta do bairro Seminário. Os bolsista do Observatório das Cidades do Cariri falou com alguns moradores do Crato sobre a situação após as grandes chuvas.
COMO A PROPOSTA DE CIDADES INTELIGENTES PODE AUXILIAR NA CONSTRUÇÃO DE CIDADES MAIS RESILIENTES A DESASTRES PÁG. 05
RESENHA DO LIVRO: AS CIDADES INVISÍVEIS PÁG. 07
ENCONTRO REGIONAL DA PLATAFORMA CEARÁ 2050 NO CARIRI PÁG. 06
RESENHA DO DOCUMENTÁRIO: O CRESCIMENTO DAS CIDADES E A PERIFERIZAÇÃO (CANAL FUTURA) PÁG. 04
E X P E D I E N T E Textos
Diagramação (Canva)
Professor responsável
Edição 3
Beatriz Morais
Beatriz Morais
Raniere Moreira
Juazeiro do Norte, Abril 2019
Maykon Monte
Ana Lívia Santos
"Boletim Observatório das Cidades do Cariri"
Victor Nogueira
Maykon Monte
publicação periódica do Laboratório de
Livia Ribeiro
Victor Nogueira
Estudos em Gestão de Cidades e Territórios
Jéssica Monteiro
Isabelle Ribeiro
(LACITE)
01
ENCHENTES E DESMORONAMENTO CAUSADOS POR FORTES CHUVAS, EM CRATO-CE
PREOCUPAM POPULAÇÃO
Entrevistas e texto: Beatriz Morais e Victor Nogueira
“O canal aqui na época que eu era criança era o rio. era rio, de todo mundo tomar banho. o pessoal tomava água aqui do canal nessa época. nos tomava banho aqui e tudo. era normal, num tinha problema nenhum não.” - Luis Tavares Barreto, morador de Crato-CE.
Durante a noite do dia 18 de março de 2019, uma chuva de 120 mm causou uma enchente no Canal do Rio Granjeiro na cidade do Crato-CE. A correnteza levou dois carros, inundou casas, encheu ruas de lama e algumas famílias tiveram que ser retiradas das proximidades do mercado municipal. Além disso, o vaqueiro José Guilherme de Sousa de 20 anos, foi levado pela força da água enquanto tentava atravessar a cavalo uma passagem molhada da cascata no sítio Rosto. A cidade possui um sistema do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que deveria alertar a defesa civil em caso de enchentes, o que não aconteceu. Duas semanas depois (04/04), uma chuva de 130mm causou uma nova inundação e o desmoronamento de um trecho da encosta do bairro Seminário. A obra grandiosa teve investimentos do Governo do Estado Ceará em parceria com a prefeitura municipal do Crato, para drenagem, esgotamento, terraplenagem, iluminação, paisagismo, passeios acessíveis,
sinalização e espaços de contemplação da paisagem, de lazer e de atividades esportivas. Estes não foram os primeiros nem serão os últimos desastres que acontecem na cidade do crato por problemas de infraestrutura. Sendo assim, a equipe do Observatório das Cidades do Cariri, entrevistou alguns moradores das proximidades do canal e da encosta do seminário para saber a preocupação e o ponto de vista de como é morar na localidade. O senhor Francisco Jairo Satiro Correia, conhecido como Chico, mora na Rua João Paulo II e sua casa fica no pé da encosta, em um trecho que não houve modificação por ser uma área protegida pelo Ibama. Ele relata que a área sem o muro da encosta foi bastante beneficiado pela obra, pois antes dela com as chuvas, muita água, inclusive de esgoto, descia pela barreira e prejudicava a população que mora na área. Com a encosta foram feitas obras de drenagem e esgotamento que beneficiaram o trecho onde, anteriormente descia muito esgoto e paredes caiam com frequência.
“A obra aqui foi feita com muita boniteza e com pouca segurança. Eles se preocuparam muito com a estética e pouco com a segurança.”- Francisco Jairo Satiro Correia, Morador do Crato.
Limpeza da Av. José Alves de Figueiredo após enchente na cidade do Crato
Lona de plástico impede que água de eventuais chuvas infiltrem no solo e deixe o locais mais suscetível a outro desmoronamento. (Foto: Normando Sóracles/ agência Miséria)
Enquanto alguns foram beneficiados com a obra da encosta do seminário, outros vivem o medo do desmoronamento. Alí próximo, mora o senhor Luis Tavares Barreto, há 29 anos. Ele conta que na sua infância, o canal ainda era rio, onde as pessoas tomavam banho, lavavam suas roupas e até bebiam a água do mesmo. Com o crescimento da cidade, foram sendo construídas casas às margens do Rio Grangeiro, até chegar no ponto em que se conhece hoje. O mesmo senhor Luís que brincou na “beira” do rio grangeiro, já passou por seis enchentes do canal. Por ter a casa um pouco mais alta, não sofreu perdas, mas já viu a rua ceder até a calçada do prédio vizinho a sua casa. Hoje, além do medo pelas enchentes no canal, os moradores dessa área onde moram Francisco e Luís, sofrem com o medo pelo desmoronamento da encosta. A Rua Rio Grangeiro, fica exatamente onde se encontrava o antigo Vulcão, área onde era despejado todo o esgoto do bairro Seminário. Segundo relatou Luís, os moradores das casas mais próximas do muro escutam os tijolos estalando (se rachando) sozinhos. Descendo um pouco mais a rua do canal, bem próximo a prefeitura, falamos com a senhora Iacy Pereira Da Silva que mora a dez anos no local. Ela fala que nesse período presenciou cinco grandes enchentes no Crato, incluindo as duas que ocorreram em 2019, mas que nenhuma se compara a enchente que aconteceu em 28 de janeiro de 2011. Apesar de ter a casa mais elevada como a de Luís, Iacy fala que a água invadiu a sala da residência. Iacy mora próximo a área da encosta do seminário que desmoronou. Apesar de não correr risco caso ocorra um segundo desmoronamento, ela conta que acompanhou o atendimento da prefeitura às famílias no colégio Círculo Operário, onde ela é professora. Uma grande quantidade de moradores da rua Bárbara de Alencar teve que ser realocado com aluguel social por risco de novo desabamento no local.
A defesa civil colocou uma lona sobre a área afetada para impedir que novas chuvas penetrem na terra que já está solta desde o dia que desabou, no entanto, mesmo com tal medida, o medo persiste, pois a lona não impede um novo desabamento. Com a enchente ruas como a Avenida José Alves de Figueiredo e a Rua Coronel Luís Teixeira foram interditadas pela quantidade de lama que cobria as ruas. Essa lama, depois de seca tem trazido doenças aos moradores do centro da cidade, pois com o passar dos carros sobe muita poeira que causa doenças. Além da lama e da poeira, quando o nível da água sobe no canal, muitos insetos invadem as residências da Avenida José Alves de Figueiredo como baratas e escorpiões. O secretário de Infraestrutura da cidade, José Muniz, afirmou em entrevistas a veículos de comunicação da região, que uma semana antes da chuva que provocou o desmoronamento da encosta, a prefeitura havia feito uma vistoria e constatado problemas na estrutura, porém, não houve tempo de reparar as rachaduras e evitar o desmoronamento. Engenheiros do Governo do Estado do Ceará e da empresa Coral, responsável pelo serviço de urbanização do bairro Seminário, no Crato, vistoriaram o local, para iniciar a recuperação imediata dos danos. A obra está dentro do prazo previsto na garantia, portanto, os ajustes serão realizados e custeados pela construtora. Após a enchente do dia 18, o prefeito do Crato, Zé Ailton Brasil, decretou estado de emergência, para recuperar os setores do canal afetados pela força da água, e aprovou na câmara municipal, projeto de lei que possibilita a contratação de aluguel social para realocar as famílias desabrigadas ou que residem em situação de risco.
Foto: Reprodução redes sociais
A equipe do Observatório das Cidades do Cariri pôde concluir com as entrevistas dos moradores, afirmações das autoridades e a imersão no local dos eventos que a situação calamitosa vivenciada pelos moradores do Crato que vivem sobre a encosta do seminário e perto do canal do rio granjeiro decorre de uma descontinuidade de avaliação e monitoramento das obras realizadas. No canal, por parte dos relatos, parece não haver nenhum tipo de política pública que por continuidade tivesse um constante monitoramento de sua infraestrutura, as ações de contenção e de reconstrução do canal do rio granjeiro pelo olhar da nossa equipe parecem não completar um ciclo teórico da política pública. Já na encosta do seminário a obra foi concluída com sucesso mas observase por parte dos que vivem no local nenhum tipo de monitoramento na obra desde sua inauguração. Alguns autores como Howlett e Ramesh famosos por o livro Studying Public Policy de 1993 salientam que o ciclo da política pública tem cinco fases que são: Montagem da agenda, formulação da política, tomada de decisão, implementação e avaliação. No caso em questão nem o canal do rio granjeiro, obra antiga do município do Crato, quanto a encosta do seminário que é deveras recente não estão geridas de maneira adequada a este ciclo tão importante para a eficiência e qualidade das políticas públicas de infraestrutura.
RESENHA DO DOCUMENTÁRIO: O CRESCIMENTO DAS CIDADES E A
PERIFERIZAÇÃO (CANAL FUTURA)
Livia Ribeiro - Estudante de Administração Pública da UFCA Resumo Este documentário faz parte de uma série chamada desenvolvimento urbano, produzida pelo Canal Futura, que em seu segundo episódio trata sobre “O crescimento das cidades e a periferização”. Em um contexto geral, a série trata de alguns temas em torno do direito à cidade e suas nuances, englobando o contexto da cidade urbana e os atores que ali padecem. No episódio que iremos abordar a seguir, será tratado sobre o crescimento “horizontal” das cidades brasileiras e a sua periferização, contando com análises de estudiosos como Ermínia Maricato, Nabil Bonduki, Benny Schasberg e Luciana Lago. Resenha O documentário mostra como as cidades são dinâmicas e estão sempre em transformação, numa constante disputa para se ter os melhores lugares. No Brasil, as cidades crescem de uma forma bastante característica em toda a América Latina: horizontalmente, onde a população pobre se encaminha para os pontos periféricos das cidades, tendo como base de desenvolvimento as frentes imobiliárias. É na verdade um modelo de crescimento muito caro, em que não há planejamento urbano, pois na verdade tudo não passa de uma ocupação extensiva, como as redes de água, drenagem, energia, pavimentação e etc.
Em contrapondo, alguns estudiosos afirmam que o interessante seria ter cidades compactas, havendo um “mix de uso” de forma que tudo fique mais simples e que haja uma mistura maior de serviços e habitação. Além disso, de forma a comprovar a ideia de cidade horizontal, é apresentado alguns depoimentos que reforçam a cultura da periferização nas cidades brasileiras, onde o mercado se impõe sobre e qualquer outro valor, seja ele financeiro ou social, não permitindo que as classes que se encontram em minorias permaneçam em regiões que se valorizam pelo mercado imobiliário. Assim, uma das características mais perversas da expansão urbana brasileira, é que as cidades não têm lugar para todos, os pobres, por exemplo, se veem obrigados a ocupar as piores áreas, que são menos valorizadas, do ponto de vista da especulação imobiliária, e que em sua grande maioria possuem grandes riscos ambientais, como as encostas e morros. Ao final do documentário, é abordado o processo de urbanização da cidade de Belém no Pará, como exemplo de área habitada irregularmente que está sendo reurbanizada para atender os interesses do mercado imobiliário. É necessário sobretudo analisar o outro lado da moeda quanto a “urbanização”, ao qual falta uma discussão mais séria da política de desenvolvimento, que trate os diferentes de forma diferente e que todos tenham o direito à cidade respeitado.
COMO A PROPOSTA DE CIDADES INTELIGENTES PODE AUXILIAR NA CONSTRUÇÃO DE
CIDADES MAIS RESILIENTES A DESASTRES
Victor Nogueira Tavares- Bolsista LACITE
Cidade digitalizada. Fonte: DrAfter123/Getty Images Cidade digitalizada. Fonte: DrAfter123/Getty Images O constante aumento demográfico e a desorganização dos espaços urbanos são um dos grandes desafios das cidades pelo mundo. Esses desafios fazem com que as cidades atualmente tenham diversos problemas correlacionados principalmente a infraestrutura, tais problemas vão de ações pequenas como o lixo descartado irregularmente que entope a tampa dos bueiros a grandes efeitos como as inundações de áreas baixas da cidade em tempos de chuva. Essa relação de causa e efeito que são decorrentes da ação humana juntamente com fenômenos naturais, que ocorrem desregulamente por conta do avanço das mudanças climáticas, fazem com que as cidades sejam um ambiente extremamente vulnerável a grandes desastres a níveis sociais, econômicos e ambientais. Pensando nessa vulnerabilidade várias cidades já estão adotando soluções tecnológicas para a construção de cidades resilientes, a proposta de smartcitys (cidades inteligentes) vem inovando na construção de uma infraestrutura urbana integralizada por meio da internet das coisas (internet of things). Essa integralização das infraestruturas de espaços públicos permite, em principal, quatro possibilidades de inovação que auxiliam a cidade na capacidade de resiliência a desastres. Essas quatros serão mostradas a seguir:
Rede de dados. Fonte: Raquel Recuero
Os dados A primeira é a coleta e análise de dados sobre a cidades, pois assim há a realocação racional de recursos e serviços para os locais mais necessitados fazendo com que o erário público seja melhor utilizado. Também se concentra nessa possibilidade a perspectiva de inovação a partir da integralização das infraestruturas públicas em prol dos locais urbanos que mais necessitam, no caso de desastres, há a alocação dos recursos para as áreas mais alarmantes. Eficiência em processos Essa possibilidade, assim como todas as outras, estão interconectadas entorno da internet das coisas. Pois nela haverá a capacidade de exercer e atender mais rápido os processos e serviços públicos. A inovação se dá pela organização do tempo e recursos do cidadão e do governo, em casos de desastres ambientais, pode-se prevenir e remediar muito mais rápido os problemas causados pelas calamidades dos eventos da natureza
Telhados verdes. Fonte: Henri Dunant
Inovação em projetos e sustentabilidade A inovação de infraestruturas urbanas nesse contexto de cidade inteligente permite que os indivíduos que vivem nela sejam muito mais pragmáticos quanto ao uso de recursos, eles terão a capacidade de saber quais são os melhores planos e materiais a partir dos dados que a própria cidade emite, para assim planejar e implementar infraestruturas sustentáveis ao longo dos anos. Esse pensamento sustentável surge da necessidade de inovar o modo de vida urbano e o uso do espaço pelo homem, pois a cidade inteligente
traz consigo uma harmonização entre a atividade econômica, o meio ambiente e a qualidade de vida. Para a resiliência de desastres essa característica é vital a longo prazo pois assim há a diminuição de emissões de carbono, uso consciente dos recursos e preservação da natureza e do ecossistema local. Maior participação popular Por fim, essa possibilidade traz consigo tanto o fortalecimento da democracia e do controle social para as questões governamentais e de interesse da sociedade quanto a criação de redes de informação e conhecimento sobre possíveis desastres.
Nela podemos notar que os meios tecnológicos integralizados auxiliam na disseminação de informações de maneira rápida e alimenta o controle sobre as questões que a sociedade se interessa, essa abertura a participação é de vital importância para a construção de cidades resilientes a desastres e inteligentes pois é pelo canal comunicacional que se desenvolve o diálogo conjunto para as ações que serão tomadas na cidade Fonte: 100 resilient cities, rede brasileira de cidades inteligentes e humanas, Smart City Framework: A Systematic Process for Enabling Smart+Connected Communities
Fonte: instituto Votorantim
ENCONTRO REGIONAL DA PLATAFORMA CEARÁ 2050 NO CARIRI
Maykon Monte- Bolsista Lacite O Projeto Ceará 2050 retomou ao Cariri para debater os 29 Objetivos Estratégicos que orientam o desenvolvimento do estado a longo prazo, promovendo o II Ciclo de Encontros Regionais da Plataforma Ceará 2050. O encontro ocorreu no dia 28 de março, no Auditório Bárbara de Alencar da Universidade Federal do Cariri (UFCA) e contou com a participação de diferentes atores da região, dentre eles: o Poder Público, membros do setor privado, Organizações da Sociedade Civil (OSC), estudantes e pesquisadores das academias locais. A Plataforma Ceará 2050 trata-se de uma ferramenta de planejamento a longo prazo, desenvolvida através de uma iniciativa do Governo do Estado e coordenada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), contando com a parceria de diversas instituições espalhadas pelo estado. Em um primeiro momento dos debates, os participantes conheceram o Projeto através das palavras do Prof. Antônio Miranda, coordenador da Plataforma. Rede de dados. Fonte: Raquel Recuero
Em seguida, apresentou-se os quatro grandes Eixos Temáticos que agrupam os 29 Objetivos Estratégicos construídos a partir das discussões ocorridas em 2018, quais sejam: Capital Humano, Serviços aos Cidadãos, Governança e Cadeias Produtivas. Para cada eixo, haviam propostas que nortearam os participantes durante as atividades nos grupos de trabalhos. Nesse momento, os envolvidos discutiram coletivamente estratégias viáveis e sustentáveis para o alcance dos objetivos em âmbito estadual e regional. As propostas foram agrupadas em cada grupo de trabalho e apresentadas durante o final do evento. O material colhido no Cariri agora será conciliado junto as demais 14 macrorregiões do Estado, onde será posteriormente incluído aos dados já estruturados e disponíveis do Projeto. Acesse o link (http://www.fastef.ufc.br/portal/projeto-f0173/) e confira os Diagnósticos Qualitativos, Estudos Setoriais Especiais entre outros assuntos.
RESENHA DO LIVRO: AS CIDADES INVISÍVEIS
Jéssica Monteiro Ferreira - Estudante de Administração Pública (UFCA) As Cidades Invisíveis é uma obra do escritor italiano Ítalo Calvino* publicada em 1972, produzida na vertente de dois movimentos literários: neorrealismo e realismo fantástico. Esta obra é bem quista por outras áreas do conhecimento além da literária tais como geografia, arquitetura e urbanismo, pois transparece um diálogo interdisciplinar. A diagramação da obra por si mesma aponta a afinidade do autor com análise combinatória, simbolizada também num jogo de xadrez entre os personagens, ao apresentar 55 cidades catalogadas em 11 temas e postas numa estrutura embaralhada. Todas com nomes femininos, as cidades contém descrições curtas e dégradé partindo da concretude ao comportamental (dos aspectos arquitetônicos ao relacionamento da população), sendo estas: 1. As cidades e a memória; (05): Diomira, Isidora,Zaíra, Zora, Maurília. 2. As cidades e o desejo; (05): Dorotéia, Anastácia, Despina, Fedora, Zobeide. 3. As cidades e os símbolos; (05): Tamara, Zirma, Zoé, Ipásia; Olívia. 4. As cidades delgadas; (05):Isaura, Zenóbia, Armila, Sofrônia,Otávia. 5. As cidades e as trocas; (05): Eufêmia, Cloé,Eutrópia, Ercília, Esmeraldina. 6. As cidades e os olhos; (05): Valdrada, Zemrude, Bauci, Fílide, Moriana. 7. As cidades e o nome; (05): Aglaura, Pirra, Leandra, Clarisse, Irene. 8. As cidades e os mortos;(05): Melânia, Adelma,Eusápia, Argia, Laudômia. 9. As cidades e o céu; (05): Eudóxia, Bersabéia, Tecla, Perínzia, Ândria. 10. As cidades contínuas; (05): Leônia, Trude, Procópia, Cecília, Pentesiléia. 11. As cidades ocultas; (05): Olinda,Raíssa, Marósia, Teodora, Berenice. O diálogo fantástico entre figuras históricas reais: O gestor do império mongol Kublai Khan do século XIII e o contemporâneo desbravador e navegante Marco Polo, torna a obra ainda mais encantadora. As narrativas de Marco Polo são utilizadas como ferramenta de gestão do império para que Kublai Khan conheçaseu vasto território conquistado através de relatos orais, oriundo de missões diplomáticas.
As perceptíveis alegorias retratam um diálogo enriquecido de memórias e imaginação, uma narração onírica que aborda relatos fabulosos de viagens com percepções natas e passageiras. O deleite do pertencimento e saudosismo de Marco Polo pela cidade de Veneza são expressos em cada descrição, pois as qualidades de outras cidades são espelhadas nela e a mantém viva na memória deste personagem. Tem-se assim a construção de memórias através do imaginário. A expansão do conhecimento de mundo e o conhecer a si mesmo se dá pelo ato de viajar e ao concluir que as cidades descritas pelo viajante diferenciam-se das representadas pelo imperador, afirma-se que “quem comanda a narração não é a voz, é o ouvido” e que “jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve”, entendendo que as expressões da realidade e as leituras de mundo não são uniformes. Nesta obra, a comunicação é um elemento chave. As descrições das cidades se dão inicialmente por linguagem gesticular e simbólica e, visto que os personagens não falam a mesma língua,no decorrer dos diálogos a congruência dos relatos de viagens oficiais é enviesada pela informalidade da contação de histórias e tradição oral. A invisibilidade das cidades de Ítalo Calvino se dá pelo sentido da visão, geograficamente os espaços são intangíveis e as latitudes e longitudes imensuráveis. A construção desta obra é enriquecida pela presença de elementos geográfico e da arquitetura urbana e afetiva nas narrativas de Marco Polo, tais como: cartografia, geografia física, atlas, mapas, paisagens, percurso, caminhos, espaços, territorialidade, relação império e conquistas/expansão territorial, entre outros. É necessária a observação distanciada para construir o atlas de Khan, uma reprodução holística e que adiciona terras prometidas ou amaldiçoadas, baseada no imaginário e em referências mitológicas.Tem-se aqui uma obra literária reflexiva que permite a dialogicidade entre imaginário e percepção de cidades de fato inenarráveis.