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Artesanato

Da Lama ao Cais

No maior núcleo cerâmico da América Latina, comunidade dos oleiros de Maragogipinho, no Recôncavo Baiano, resiste aos contratempos em nome de orgulho ancestral TEXTO E FOTOS:[TOM CORREIA DE MARAGOGIPINHO - BAHIA], ESPECIAL PARA PLURALE EM REVISTA

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rimeiro um ferry, depois um micro-ônibus e, por último, um mototáxi. Para sair de Salvador e chegar pela primeira vez àquele labirinto foram necessárias três conduções. Vielas e reentrâncias se apresentaram bifurcando caminhos, mas sempre oferecendo portas receptivas. As construções lembram imensas ocas cobertas de palha, cercadas por varetas de madeira. No entanto, a cor morta das fachadas contrasta com a infinidade de matizes e texturas no interior de cada olaria. Ali, o calor assume

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formas múltiplas: térmico, humano, ritualístico. Circula-se pelo sem-número de esculturas ouvindo-se um rádio ligado. Estações AM veiculam as notícias, unindo o lugarejo ao que restou do planeta após milênios. Quando se chega a Maragogipinho, surge a possibilidade de reinterpretar o Gênesis, o princípio de tudo, a influência mútua entre a terra e o homem que aprendeu a manipulá-la para o seu sustento material e filosófico. O distrito pertence à Aratuípe, município de 8.500 habitantes e distante 77 km da capital baiana via ilha de Itaparica. Do alto da escadaria da igreja Nossa Senhora da Conceição, padroeira local, avista-se o manguezal ao longo do rio Maragogipinho, afluente do Jaguaripe. Segundo estudo realizado em 2008 pela mestra em Análise Regional, Chelly Souza, são 117 olarias formando um dos maiores centros de cerâmica artesanal do mundo. Caminhar no terreno sinuoso exige disposição, mas há recompensa. Em toda parte, descobre-se gente humildemente orgulhosa do que faz. As saudações são respondidas como um convite para a conversa amena e despreocupada com as regras do tempo. Encontro um trabalhador que, empunhando um machado, ensina ao bronco urbanoide parado a sua frente: para rachar a lenha com menor esforço é preciso “ler” os nós da madeira. A depender do horário da visita, flagra-se o almoço feito em silêncio por uma família de oleiros sentada no chão de piso batido. Já em outras cerâmicas, contamina-se pela descontração. O riso e as piadas de duplo sentido imprimem o ritmo do trabalho. Andando e conversando, apreende-se a diversidade de saberes oriunda de 2.000 moradores, 80% deles, segundo o site da prefeitura de Aratuípe, vivendo direta ou indiretamente da peculiar manufatura. O processo é demorado. Conforme o tamanho da encomenda, o serviço pode durar dez a quinze dias entre a extração das matérias-primas, modelagem, secagem, queima e despacho da mercadoria. Além disso, são necessárias 27 horas de cozimento de peças dispostas com perícia para evitar a perda da fornada. Como arremate, mulheres e meninas burnideiras dão

polimento e pintam objetos ornados com tauás e tabatingas, tipos de argilas líquidas que conferem, respectivamente, as cores vermelha e branca a cada artefato. Quem chega à região condicionado pelos males urbanos se surpreende com a variedade dos elementos expostos. O barulho choroso do torno que gira, o crepitar da lenha, o forno de tijolos que produz temperaturas entre 400 e 1000 graus centígrados; os raios de sol que atravessam o telhado emoldurando a fumaça; a força física descomunal dos amassadores e empeladores, homens que se lambuzam ao preparar o barro; a coordenação motora de habilíssimos artistas que dão vida a imagens, potes, luminárias e utensílios decorativos. Eles também dão alma aos bois-bilha, miniaturas do bumbameu-boi e símbolos da cultura local. Segundo o pesquisador Carlos José Pereira, autor de “A cerâmica popular na Bahia”, todo esse conjunto teve origem com os jesuítas portugueses que, por volta de 1820, já produziam telhas, jarras e panelas. Em quase dois séculos, os oleiros foram se adaptando e agregando influências negra e indígena, resultando numa rara miscigenação artística. Tanto assim que, em 2004, obras concebidas ali receberam menção honrosa do Prêmio UNESCO de Artesanato para a América Latina e Caribe. Uma façanha se considerada a concorrência de 90 peças fabricadas em 16 países. Os cíclicos períodos de crise e ressurgimento aperfeiçoaram o grau de adaptação da comunidade. Os tipos de pedidos e clientela mudaram; as formas de comercialização também. Se até o início da década de 1980, saveiros como Brotinho, Noivo da Lua e Quem me deu foi Deus carregavam a produção pelo Recôncavo chegando até Salvador, hoje é comum ver Hilux repletas saindo em direção às rodovias. orGULHo eLeVaDo, ÍnDices MeDianos Um casal de aparência nada simpática entra na Olaria São Gregório em busca de uma namoradeira, figura que representa um costume dos tempos coloniais, quando moças e senhorinhas se postavam à janela para ver os rapazes. Um dos atendentes diz que o preço é R$ 90. Os clientes pedem desconto, querem pagar R$ 10 a menos. O dono da casa, Almerentino Macário, 74, não tira o olho da negociação até intervir. Sua voz é um cicio, um mantra de tranqüilidade que impõe respeito. Com visível má vontade, eles pagam pela peça, já devidamente polida e pintada. Revendida fora dali a escultura pode chegar facilmente aos R$ 400. Com 65 anos de carreira,

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Artesanato Mestre Almerentino, mais antigo em atividade, é considerado um dos grandes entre os próprios artesãos, fazendo parte de uma linhagem que inclui os lendários Silvestre Costa, Pedro Xavier e Hildebrando. Diligente ao anotar os pedidos e altivo ao relatar seus talentos de artista plástico, escultor, músico e escritor, ele reclama da crescente dificuldade para manter o negócio-ateliê, já sob a terceira geração. O mestre também enfrenta problemas para obter capital de giro, linha de financiamento e, principalmente, meios que facilitem suas vendas. “Já falei várias vezes com o gerente do Banco do Brasil [de Nazaré das Farinhas] pedindo uma máquina de cartão de débito e até hoje nada”, queixa-se. Num sinal dos tempos, ele acompanhou a velocidade das conexões mundiais. Acessa a Internet, tem MSN e utiliza o celular para vender seus trabalhos, além de agendar os cursos que ministra a convite do Instituto Mauá e SEBRAE. Na praça recém-inaugurada, crianças brincam num pequeno parque. Na tentativa de ganharem algum trocado, meninos se oferecem como guias de turismo mirins. Em Maragogipinho, existem

apenas escolas de ensino fundamental. Quando alcançam o nível médio, os estudantes percorrem os 5 km até a sede. Se um dos pequenos guias se machucar durante as brincadeiras, o atendimento é feito num posto médico, mas de segunda a sexta. Nos casos mais graves, o hospital mais próximo fica a 12 km, em Nazaré. Dados da unidade ambulatorial apontam que hipertensão arterial, doença de Chagas e diabetes são os problemas de saúde mais recorrentes no distrito; entre os artesãos, segundo seus relatos, coluna e próstata falham com o passar do tempo. Em 2000, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) avaliou a maturidade educacional, renda e longevidade em Aratuípe, incluindo a zona rural. O resultado do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal foi considerado médio. Energia elétrica, água encanada e saneamento básico estão disponíveis em pelo menos 70% das 369 residências do povoado. Entretanto, na prática, a vida modesta dos moradores rurais reflete o mapa da desigualdade do IBGE que, em 2003, revelou metade do município formada por uma população pobre e funcionalmente analfabeta. Desencanto e resistência Conheci dona Adília, pernambucana que vive na comunidade há 17 anos, enquanto ela burnia um dos vasos feitos pelo marido. A fala aveludada camufla a preocupação da mulher com a falta de vontade política para divulgar e escoar os produtos. “Hoje a gente depende muito dos atravessadores e nosso trabalho não é reconhecido. As pessoas de fora ainda não sabem que tudo é feito aqui”, lamenta. Outra decepção dos oleiros é com a Feira dos Caxixis, realizada toda Semana Santa em Nazaré. A cada ano, a maior feira de artesanato do estado, com trezentos anos de tradição, vem perdendo a originalidade. Produtos feitos de plástico ou couro de baixa qualidade estão subtraindo o espaço das esculturas. Além disso, o aumento do número de shows musicais de apelo popular desvirtua a essência da festa. Os artesãos ainda marcam presença devido a incentivos como transporte e hospedagem,

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mas ano após ano, eles se esquivam tentando evitar prejuízos. Nerivaldo Moreira, o Nelinho, desde criança desenvolve seu ofício com obstinação, mas não vê os filhos vivendo exclusivamente da olaria. “Quero que eles aprendam para preservar o que aprendi com o avô deles, mas vou fazer de tudo para que não precisem disso aqui para sobreviver”, confessa. De acordo com estimativas da Associação de Auxílio Mútuo dos Oleiros de Maragogipinho (AAMOM), a produção média mensal é de 28 mil peças. Quase a metade é composta pelos mealheiros, cofres em formas de porquinhos. Vendidos entre R$ 0,50 e R$ 0,80 podem chegar por R$ 12 ao cliente final. As manhãs de quinta-feira exibem uma movimentação especial no cais da Feira de São Joaquim, em Salvador. Depois de navegar cerca de dez horas, o octogenário “Sombra da Lua” é um dos últimos saveiros que ainda mantém rota comercial, trazendo no bojo milhares de peças meticulosamente armazenadas. Um dia antes, a embarcação era carregada à beira do Maragogipinho: toneladas de barro molhado transformadas em peças multicores, utilitárias, divertidas, sacras, afrorreligiosas, ornamentais. Joias encontradas nas exposições de arte popular ao redor do mundo ou nas recepções de seletas pousadas de charme. Deixo para trás o labirinto de terras cozidas, a correnteza do rio, as falas pausadas, o calor dos fornos. No retorno, em cada uma das três conduções, tento compreender o prodígio daquela gente. Capaz de transmutar um tipo de lama em pequenas obras-primas.

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Reportagem "Da lama ao cais"  

Oleiros de Maragogipinho. Texto e fotos publicados na Revista Plurale nº 13